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terça-feira, 12 de abril de 2016

"Vou na valsa"

Ao mesmo tempo, eu estava escutando “Paciência”, do Lenine, e lendo “Fogo pálido”, do Vladimir Nabokov. Enquanto Lenine cantava “enquanto o tempo / Acelera e pede pressa / Eu me recuso, faço hora / Vou na valsa / A vida é tão rara”, passei os olhos sobre o seguinte trecho de “Fogo pálido”: “Quando a vida caminha mais lentamente, a gente repara nas coisas secundárias” (tradução de Jorio Dauster e de Sérgio Duarte).

A vida é rara. Vamos levando um arremedo de vida, cheia do que parece ser civilizado, correto; vamos nos tornando especialistas em eficácia, cumprindo prazos para um monte de besteiras travestidas de inteligência; besteiras assépticas, falsamente sagazes. Nesse cenário, vale o paradoxo de que as coisas secundárias (resgatando a expressão de Nabokov) é que nos libertam da tirania cheia de horários bobos que o cotidiano nos impõe.

Nessas digressões, acabei me lembrando de um texto do poeta Alberto da Cunha Melo. Eis um trecho: “De quando em quando faltaremos / a algum compromisso na Terra, / e atravessaremos os córregos / cheios de areia, após as chuvas. // Se alguma súbita alegria / retardar o nosso regresso, / um inesperado companheiro / marcará o nosso cartão”. Corramos menos, reparemos em coisas secundárias.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

O VOO 447

A Piauí de novembro traz um colossal texto de William Langewiesche a respeito da queda do voo 447 da Air France sobre a escuridão do Atlântico, em maio de 2009; a tradução é de Jorio Dauster. Langewiesche é a confirmação de que o jornalismo não está somente no fato em si, mas, também, num texto primoroso.

Os quatro minutos e vinte segundos que se passaram entre o surgimento do problema no avião e o momento em que a aeronave se espatifou no oceano são narrados de modo brilhante por Langewiesche, que se vale dos diálogos preservados na caixa-preta. Além disso, um histórico da aviação civil é feito na matéria.

A dramaticidade do evento já era conhecida ou suposta. Ao detalhar, na medida do possível, o que ocorreu na cabine do Airbus A330 naquele dia, Langewiesche mostra dominar o talento dos grandes escritores: o de, em meio a um acontecimento, evidenciar a complexidade desta coisa que é ser humano.