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terça-feira, 9 de outubro de 2018

Inteligência e gentileza, burrice e truculência

Há um texto do Borges em que ele elogia o pai dele, dizendo que ele, o pai, era inteligente; logo, segundo o Borges, gentil. A gentileza sozinha não define o que seja ser inteligente, mas a tendência de haver inteligência naquele que tem gentileza é grande.

Pode haver gentileza em casa. Ou em livro. Ou no outro. Ou numa canção... Mas é preciso alguma inteligência. Que pode ser refinada em casa. Ou em livro. Ou no outro. Ou numa canção... Contudo, a burrice não sabe ser gentil.

A truculência sozinha não define o que seja ser imbecil, mas a tendência de haver imbecilidade naquele que tem truculência é grande. Inútil cogitar que um imbecil analise suas palavras, seus atos. Há coisas que só a pessoa pode fazer por si. Buscar a gentileza é uma delas. 

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Bovary, Kariênina, Capitu

Madame Bovary é um livro da escola realista. É sobre uma mulher que se apaixona por outros homens enquanto é casada. Nada mais de acordo com o tema da escola realista do que isso. Num julgamento apressado e preconceituoso, seria fácil falar mal de Emma Bovary.

De antemão, é preciso ter em mente que as Madames Bovarys, as Annas Kariêninas e as Capitus não são prostitutas (Capitu, nem sabemos se ela teve de fato um romance com Escobar, pois Bentinho, mais uma criação genial de Machado de Assis, é um narrador não confiável). Prostituta é aquela que entrega o corpo por dinheiro, o que não é o caso nem de Emma Bovary nem de Anna Kariênina nem de Capitu. Num julgamento superficial e machista, seriam. Todavia, lembremo-nos, uma das características do realismo é justamente exibir a derrocada do casamento como instituição burguesa.

Emma Bovary não suporta o marido, que é o típico burguês. Ela é sonhadora, idealiza o amor, os amantes. Se, por um lado, pode-se dizer dela que foi ingênua, por outro, pode-se dizer de Charles, o marido dela, que ele é o responsável pela monotonia que é o casamento deles. E o narrador não perdoa: logo na primeira cena do livro, quando Charles está em uma sala de aula, ainda menino, o tom de zombaria do narrador em relação ao personagem já está presente. Charles é o típico marido burguês, que nada acrescenta à esposa, seja em que aspecto for; ela, por sua vez, quer o sonho, o aprendizado, a aventura, o amor, o sexo, ainda que os busque com ingenuidade.

Há quem veja na escola realista muito de machismo pelo fato de que as mulheres, com muita frequência, se dão mal. Não vejo isso como machismo. No realismo, as mulheres são vítimas das instituições da burguesia. O Borges escreveu que “o casamento é um destino pobre para uma mulher”, embora ele, no fim da vida, tenha se casado com uma.

Não é regra que o casamento seja um destino pobre para uma mulher. Hoje, ela, quando se casa, na maioria das vezes, está em busca não dos aspectos, digamos, burgueses do casamento, mas do amor, do sexo, da aventura consequente, querendo, ao mesmo tempo, sentir-se segura.

O chamado bom marido burguês pode se tornar muito desinteressante para a esposa ao longo do casamento. Ele é talhado para ser um bom burguês, o que não implica, na ótica feminina, ser necessariamente um bom marido.

Nesse sentido, o realismo persiste não somente como escola literária. Além do mais, hoje em dia, há caminhões de mulheres independentes, que têm o próprio dinheiro e que estão predispostas a aprender, sonhar, transar gostoso. Mas, com frequência, não é isso o que elas têm tido no casamento burguês, que continuará fazendo com que elas, não raro, sejam as vítimas.

domingo, 10 de dezembro de 2017

O engano não é só do Bono

Autorias atribuídas incorretamente passaram a ocorrer com mais furor após os ventos da internet e das redes sociais. Um desses casos é o poema “Instantes”, tido como sendo de Jorge Luis Borges. Eu mesmo tenho um jornal em casa em que o texto é atribuído a Borges. Quando ele não é atribuído a Borges, é atribuído a uma estadunidense de nome Nadine Stair. “Instantes” não é nem de Stair nem de Borges. É de Don Herold, humorista dos Estados Unidos.

A atribuição incorreta dessa autoria já causou episódios curiosos ou divertidos. Num deles, Bono Vox, vocalista do U2, disse, num canal de TV mexicano, antes de ler trechos do poema, que declamaria alguns versos do “poeta chileno Borges”. Há duas informações incorretas na afirmação do Bono: Borges não é chileno, mas argentino. 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Marisa Letícia

O Borges (ou, talvez, o Jung — ou ambos) escreveu que quando um ser humano morre, toda a humanidade perde. Li isso em minha adolescência. O ensinamento ficou.

Eu não saberia dizer com exatidão para que serve a literatura (ou a leitura). Já escrevi que eu seria pior sem a literatura. Sou melhor quando leio. A literatura faz com que eu busque o humano em mim e no outro. Isso já é mais do que o bastante para que eu leia.

O que leio, leio para me humanizar. A leitura, por si, não implica por parte do leitor a empatia pelo outro (um torturador pode ser um leitor ávido). E não é preciso ser um leitor para se compreender a dor do próximo.

Não há como eu saber o que eu teria sido sem a leitura. Sou fruto de muita coisa de que nem tenho ciência; dentre as coisas de que tenho, sou fruto do que leio. Também a literatura robusteceu em mim o senso de compaixão. 

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Narradores felizes

Há narradores felizes. O narrador de “O amor nos tempos do cólera” é feliz; Riobaldo, a despeito do que conta, é um dos narradores mais felizes que há. A persona literária de Borges é muito feliz. Essa persona e Riobaldo têm em comum o encantamento pelo mundo, pela metafísica, pela cogitação. Otto Lara Resende, em suas crônicas, foi outro que criou um narrador muito feliz. 

quinta-feira, 3 de março de 2016

Duas felicidades

Há um paralelo, que reconheço ser um tanto ingênuo, que faço entre as obras de Borges e de García Márquez: ambos produziram uma literatura feliz, por mais pobre que esse adjetivo soe.

O argentino, por intermédio de um ludismo nobre e elevado, cheio de referências literárias; o colombiano, por meio de uma prosa fluente, com senso de humor e permeada pelas facetas do sentimento amoroso.

Em García Márquez, a questão política fala mais alto do que em Borges, que, no todo, voltava-se mais para uma literatura que faz de si seu grande tema, bem como para deliciosas questões metafísicas. Já García Márquez, a despeito de magias macondianas, tem, por assim dizer, um enfoque mais terreno.

Ambos, contudo, tanto em suas literaturas quanto em suas entrevistas, apontam para uma felicidade possível, tanto a partir da criação literária quanto a partir das circunstâncias da vida. Parece-me que foram dois felizes. 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

PARA MARÍA E PARA JORGE

Sei de algumas palavras que Jorge
ofereceu a María.
Sei de algumas palavras que María
ofereceu a Jorge.
Leio essas palavras que 
receberam um do outro.
Quando os olhos deles as percorreram,
que esses portenhos tenham ficado
tão felizes quanto eu ao ler o que
ofertaram um para o outro.
Amor é também gratidão. 

sábado, 19 de dezembro de 2015

APONTAMENTO 302

Escrevo com uma ilusão: a de ser para algum leitor do futuro tão mágico quanto Borges é para mim. Borges mais do que me torna leve (o que já seria muito). Borges me deixa feliz, enleva-me. Não me canso de escrever sobre ele, não me canso de ler o que ele escreveu: a felicidade genuína não cansa, mas, sim, revigora o enlevo a cada releitura. 

sexta-feira, 19 de junho de 2015

"A LEITURA PODE TORNAR VOCÊ MAIS FELIZ?"

A revista The New Yorker publicou mais um elegante artigo, intitulado “A leitura pode tornar você mais feliz?” [Can reading make you happier?]. O texto foi escrito por Ceridwen Dovey. Dentre outras vantagens, Dovey elenca os benefícios neurológicos advindos da leitura de ficção. 

À parte tais benefícios, num trecho, ela escreve: “Numa era secular, eu suspeito de que ler ficção seja um dos poucos caminhos remanescentes para a transcendência, aquele elusivo estado em que a distância entre o eu e o universo encolhe”.

O texto de Dovey é sobre as serventias da leitura; percorrê-lo é vivenciá-las. Borges, numa penada, resumiu o que o texto da revista The New Yorker advoga — e o que todo leitor de ficção ou de poesia sabe: “A leitura é um forma de felicidade”. 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

PARA BORGES

A Borges coube a
escuridão em vida. 
Coube a ele 
a memória.
Ou a ficção. 
Feliz na manhã dourada, 
soube ser feliz na tarde escura. 
Soube me fazer feliz
na madrugada chuvosa.
Graças a Borges, 
daqui a pouco, 
vou sonhar. 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

BREVE RELATO DE UMA TRAJETÓRIA

Tudo começou por causa de uma profunda admiração pela inteligência. Isso, muito antes de eu me tornar um leitor. Tanto que o primeiro fascínio foi pelos professores (isso se mantém). Daí, estender essa fascinação para outras inteligências que não somente as dos professores foi um passo um tanto natural.

O desejo era o de destrinchar os mecanismos da inteligência do outro, que podia ser um professor, um amigo, um filósofo que li, um cientista ou um músico. Decifrar os meandros da inteligência a fim de tentar aprender a ser inteligente. A veneração pela inteligência é o que acabou causando uma vontade firme de querer ser inteligente.

O Borges escreveu que “ninguém escreve o que quer, mas o que consegue”. De modo análogo, por mais inteligente que se queira ser, há limites que não podem ser transpostos por absoluta falta de talento. Se dependesse de eu fazer uma escultura ou pintar um quadro, por exemplo, eu não saberia como começar. Após flertes com alguns ramos do conhecimento, acabei tomando o caminho das letras. Não por um talento abissal na área, mas por falta de talento em outros campos.

O resto é leitura, é escrita. Aferrei-me às palavras. Passei-me a dedicar à riqueza do português. Trata-se de meu idioma, e me sinto quase que na obrigação de esmiuçá-lo. Além do mais, é uma língua que acho bonita, cheia de possibilidades, seja para a fala, seja para a escrita. A palavra passou a ser a meta. A palavra exata ao escrever. A palavra exata, pronunciada com exatidão, ao falar.

Há muito de sonho nessa história, muito de busca, muito de ideal. Em meu caso, a concretização está sempre longe do que se tinha em mente. Por outro lado, sem esmorecimento, é preciso não exigir tanto de si. Há que se ter resignação, aceitando com rebelde tranquilidade o que se é capaz de produzir. 

terça-feira, 28 de outubro de 2014

APONTAMENTO 222

Por favor, relevem a repetição, mas volto ao Borges. Ele escreveu que o pai dele era um homem inteligente; logo, gentil. Borges escreveu sobre um homem, mas tomo a liberdade de estender o critério para o coletivo. A confirmação da gentileza como sintoma de inteligência, eu sempre a tive no nordeste, onde já estive oito vezes. Caso se leve em conta o critério borgiano, os nordestinos são geniais. Não só por isso, preciso voltar à região. 

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

O MARCADOR

Passei muitos anos cheio de mesuras, recusando-me a marcar meus livros. Para ter acesso mais rápido a trechos que eu curtia, eu os datilografava. (Se algum jovem ler este texto, que consulte na internet sobre datilografia.)

Veio o dia em que perdi os escrúpulos; desde então, tenho marcado os trechos de que gosto. Nessa história, as releituras são curiosas: não me arrependo dos trechos que marquei em leituras prévias, mas me surpreendo por não ter marcado tantos outros.

Isso ocorre com muita frequência quando releio Borges; quanto mais o releio, mais vou marcando as páginas. Que meus dias sejam numerosos; se forem, pressinto que acabarei marcando cada parágrafo e cada estrofe do portenho. 

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

UM LUGAR

“Como todo possuidor de uma biblioteca, Aureliano se sabia culpado de não conhecê-la até o fim”. Esse Aureliano não pertence à estirpe dos Buendía, mas à imaginação do Borges. Ademais, não importa se é Macondo, não importa se é um ponto numa casa em Buenos Aires ou se é uma calçada em Joinville. São lugares. E o que há num lugar? “O que há num nome?”. 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

ALEMANHA x ARGENTINA

Fui sempre fã do futebol argentino; se há uma coisa que eles sabem fazer é jogar futebol. Também fui sempre fã do Maradona; ele é um rebelde que está longe do politicamente correto por vezes hipócrita e “limpinho” demais que grassa pelo mundo afora. Além do mais, eles têm Borges...

Estivesse a Argentina decidindo a Copa contra qualquer outro país (com exceção do Brasil, é claro), eu torceria por ela. O “problema” desta vez são a gentileza, o carisma, a civilidade e a nobreza da seleção alemã. Junto a torcedores, cantaram o hino do Bahia; na partida contra o Brasil,  portaram--se com altivez; Podolski divulgou uma bela homenagem ao povo brasileiro... Não há como haver dois ganhadores? 

segunda-feira, 23 de junho de 2014

SOU O QUE LEIO

Meu jeito de ser é profundamente influenciado pelas leituras começadas na adolescência. Se por um lado me dediquei a livros para os quais eu ainda não estava pronto, por outro, essas mesmas leituras deixaram marcas indeléveis. É claro que não sei como eu seria se não tivesse havido tais leituras, mas não consigo me imaginar sem elas. Não sei o que há de sorte nem o que há de mérito nas escolhas de leitura que comecei a fazer por volta dos doze, treze anos. Do que sei, é que agradeço à vida por essas leituras terem existido.

Não estou certo de onde vem meu interesse por biografias. Pode ser que ele seja consequência das leituras que comecei a fazer sobre o Renascimento. Quando dessas leituras, eu não tinha a dimensão histórica; o que me fascinava era somente o ecletismo, a diversidade de tarefas a que os gênios do período se dedicavam. Esse fascínio acabou me levando a não engavetar o conhecimento, levou-me a valorizar tanto a arte quanto a ciência, a buscar uma mescla das duas. Ainda bem jovem, adquiri o que chamo de senso de ecletismo.

Enquanto eu devorava biografias (tendo adquirido gosto pelo gênero, passei a ler não somente sobre os renascentistas), certo dia eu me deparei, no trabalho, com uma velha revista de divulgação científica. Uma das matérias que compunham a publicação se chamava “Gênios idiotas”: era sobre pessoas que têm uma enorme habilidade mental para determinada tarefa (fazer cálculos complexos de cabeça, por exemplo), mas que se embaralham diante de tarefas simples. Outra matéria discorria sobre a memória.

Eu nunca soube o nome da revista, que não tinha capa nem contracapa; as páginas internas não continham identificação. Até há bem pouco tempo essa revista estava em meio a velhos papéis; não sei onde pode estar agora. De qualquer modo, a gana por esse tipo de leitura se esbaldou quando a revista Superinteressante foi lançada. Por anos fui leitor do periódico, que eu aguardava com ânsia e devorava com fervor. Paralelamente, eu prosseguia com a leitura de biografias. Passei a ler a coleção O pensamento vivo, publicada pela Martin Claret. Meu primeiro contato com Borges foi por intermédio dessa coleção.

Meu pai tocava violão, gostava de escutar rock. Cresci ao som de Beatles, Led Zeppelin, Pink Floyd... Na adolescência, tendo já sedimentado o gosto pela leitura, foi natural, em função da convivência com a música, que eu acabasse tendo contato com a revista Bizz, que também li com entusiasmo por anos e anos. A leitura da Bizz e da Superinteressante acabaram fazendo com que eu me tornasse também um leitor de revistas. Atualmente, leio a Piauí. Da leitura de periódicos, de biografias, de filosofia e de literatura veio o que chamei de senso de ecletismo.

Ao mesmo tempo, um outro senso ia se formando, solidificando-se: chamo-o de senso de rebeldia. Eu o devo também às leituras: não venho de estirpe rebelde, contestadora. Não me lembro, por exemplo, de meu pai criticar a ditadura militar, embora também não me lembre de ele a elogiar. Mesmo procurando estar informado, principalmente escutando rádio, meu pai não me parecia interessado em política. Se era, esse interesse não transparecia em casa. Pelo menos por aqui, o que o absorvia era mesmo a música.

Todavia, o senso de rebeldia a que me referi não é estritamente, digamos, político. Num sentido amplo, é bem verdade que toda ação pode ser interpretada como sendo política; ainda assim, desde cedo foi se esboçando em mim uma desconfiança dos meios de comunicação (desconfiança essa que é maior do que nunca), das versões ditas oficiais e do comportamento das turbas, que não raro são produto do que a mídia determina. O que considero rebeldia está mais interessado na "sujeirinha", na imperfeição, mais ligado na “nódoa no brim”, expressão com que Bandeira definiu a poesia. Na adolescência, ler sobre e escutar o legado de gente como Renato Russo ou Ian Curtis intensificaram essa rebeldia.

Há por fim o que chamo de senso do belo. Eu o devo graças à convivência com a ciência, com a filosofia, com a ficção e com a poesia. Ensinaram-me o cosmopolitismo, deram-me a capacidade de me espantar com sutilezas, de não hierarquizar as áreas do conhecimento, de entender que em essência somos os mesmos. Desde quando eu era bem jovem, a literatura e a filosofia me incutiram uma ideia de coletividade, de pertencimento. A rigor, esse pertencimento poderia ser outro senso, mas o deixo como consequência do senso do belo. Existe beleza em constatar que “as pessoas são as mesmas aonde quer que você vá”, como na letra de “Ebony and ivory”.

Não exagero se digo que sou resultado do que tenho lido. O que sou, o que penso e o que faço são consequências de minha convivência com as palavras, que me deixam mais lúcido, que fazem com que eu fique de bem comigo mesmo, aceitando-me sem comodismo. Não deletei utopias. À medida que a gente vai envelhecendo, vai ficando cada vez mais com os pés no chão, o que é benéfico. Mas, graças à convivência com livros, não joguei fora a rebeldia que é sonhar. 

sexta-feira, 23 de maio de 2014

quarta-feira, 7 de maio de 2014

APONTAMENTO 207

Não acredito numa temática superior a outra. Um poema sobre uma revolução social não vale nem menos nem mais do que um sobre a possibilidade de transcendência do espírito humano ou um sobre uma menina que brinca com uma bola num parque. Nesse fio condutor, o que vale é haver ou não uma boa literatura. Também descreio da ideia de que a literatura engajada seja necessariamente datada e de que a literatura voltada para as coisas do espírito seja consequentemente atemporal. O que faz com que um texto permaneça não é a temática.

Borges foi um brincalhão erudito. Elevou o lúdico a dimensões grandiosas, passou ao largo, em seus livros, das questões políticas de seu tempo. Neruda e Galeano, para ficar em dois sul-americanos, não. O grande tema da literatura de Borges é a própria literatura. É com ela que ele brinca. Por alguns, é criticado precisamente por não ter se engajado.

Ele é pleno em referências, em alusões, reais ou inventadas. Faz da literatura um jogo com que muito parecia se divertir, divertindo a inteligência do leitor, desde que esse leitor não atrele a literatura exclusivamente a um compromisso ideológico, político. O compromisso de Borges era com a literatura e, suspeito, com a diversão. 

"DEIXA PRA LÁ"

A contextualização é algo que me instiga. Em meu caso isso equivale a dizer que tirar do contexto também me atrai. Na década de 1980, a Martin Claret publicou a coleção “O pensamento vivo”. Eu me lembrei, hoje pela manhã, do volume dedicado ao Jorge Luis Borges.

Na diagramação que faziam, havia máximas destacadas em algumas das páginas. No volume da coleção dedicado ao argentino, havia a seguinte: “Minha sepultura será o ar insondável”. Era algo que eu gostava de ler pela sonoridade (ainda que se trate de uma tradução), pela sensação que as palavras despertavam. Era um prazer que não passava por processos analíticos.

Em meus catorze ou quinze anos, eu achava a frase bonita, sonora; ainda acho. Eu não me preocupava em entendê-la; ainda não me preocupo. Bastavam-me os sons, a beleza etérea do que a frase me passava; compreender não era necessário. Mesmo hoje, existe essa não preocupação em analisar o trecho.

Anos depois, lendo a obra de Borges, eu me deparo com “minha sepultura será o ar insondável”. O trecho está no conto “A biblioteca de Babel”, do livro “Ficções”. Retiro o trecho de seu contexto e o cito abaixo, valendo-me de parte do parágrafo em que ele está. A tradução é de Carlos Nejar; a revisão da tradução, de Maria Carolina de Araujo:

“Como todos os homens da Biblioteca, viajei na minha juventude; peregrinei em busca de um livro, talvez do catálogo de catálogos; agora que meus olhos quase não podem decifrar o que escrevo, preparo-me para morrer, a poucas léguas do hexágono em que nasci. Morto, não faltarão mãos piedosas que me joguem pela balaustrada; minha sepultura será o ar insondável; meu corpo cairá demoradamente e se corromperá e dissolverá no vento gerado pela queda, que é infinita”.

Quando lia o “minha sepultura será o ar insondável” na edição da Marin Claret, eu pensava se tratar de um ensaio ou de um apontamento. Trata-se de ficção, de um conto; logo, há um narrador, que pode, ou não, concordar com Borges. Eu atribuía o trecho ao pensamento do poeta e contista, não ao pensamento de um narrador, mesmo ciente, é claro, de que o trecho pode ser um pensamento do Borges enunciado por um narrador inventado pelo contista.

Ter descoberto que o trecho é de um conto, de um narrador, e não de um apontamento ou de um ensaio, fez com que a citação se tornasse ainda mais magnética. No livro da Martin Claret, o trecho não estava no contexto original; saber que ele vem de uma ficção, e não de um texto referencial, torna atraente a decisão de atribuir ao Borges um enunciado que é de um de seus narradores.

Tiro do contexto mais um trecho borgiano, do conto “O jardim de veredas que se bifurcam”, também do livro “Ficções”. O trecho, retirado de seu contexto, passaria por opinião de articulista de algum jornal; tradutor e revisora são os profissionais mencionados acima: “Prevejo que o homem se resignará a cada dia a tarefas mais atrozes; breve só haverá guerreiros e bandidos”.

Saber do contexto pode fazer com que algo seja empobrecido ou enriquecido. Salvo engano foi durante o conflito em Kosovo (sinto que já contei essa história em algum outro texto; mas não estou certo disso): um superior disse a um soldado: “Deixa pra lá”. O soldado, momentos antes, encostando uma arma na cabeça de um prisioneiro, perguntara algo assim: “Posso atirar, comandante?”.