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terça-feira, 15 de maio de 2018

Sobre Tom Wolfe

Ontem, Tom Wolfe, autor do magistral A Fogueira das Vaidades, morreu. Ele foi um dos destaques do chamado Novo Jornalismo, que misturava técnicas romanescas ao texto jornalístico. Na primeira metade da década de 70, ele escreveu que “os repórteres estavam destinados a tornar os romancistas obsoletos”. 

Ele mesmo dedicar-se-ia ao romance como gênero. À parte isso, a “previsão” de que os jornalistas substituíram os romancistas não se cumpriu, nem lá fora nem no Brasil. Além do mais, por aqui, da década de 70 para cá, o jornalismo foi investindo cada vez menos em quem sabe escrever. Os que sabem, nos poucos espaços que têm, não tomaram o lugar dos romancistas, mas se valem de técnicas do dândi Tom Wolfe. 

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

GENTE COMO A GENTE

Erich Auerbach, crítico literário, propôs em seu “Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental”, a ideia da criaturalidade corpórea para se referir a um procedimento shakespeariano. Essa ideia é simples: se por um lado Shakespeare seguia a tradição da tragédia clássica, por outro, talvez influenciado pela “farra” que era o teatro medieval, o dramaturgo fazia com que seus heróis trágicos passassem por situações vexatórias, engraçadas. Esses momentos fazem com que o herói trágico saia de seu “pedestal” e se torne um qualquer. A diferenciação entre o cômico e o sublime é banida.

Quando leio Tom Wolfe, lembro-me do conceito de Auerbach. Em tempo e local diferentes dos de Shakespeare, Wolfe humaniza ou ridiculariza a figura de quem se dá muita importância. O autor americano insere seus personagens em situações igualmente vexatórias. Em “A fogueira das vaidades”, por exemplo, o personagem ridicularizado ou humanizado é Sherman McCoy, financista da famigerada Wall Street.

McCoy se intitula “o Senhor do Universo”: não tem ainda quarenta anos, mora na cobiçada Avenida Parque, desfila de Mercedes com a amante e consegue ganhar alguns milhões de dólares com um “simples” telefonema. Mas já nas primeiras cenas em que aparece, McCoy é mostrado tão patético quanto todos nós.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

DOSSIÊ NOVA YORK

Quem já foi locutor de estação FM sabe que às vezes a gente sente falta não é nem da locução em si, mas de anunciar uma canção específica de que gostamos muito. É meu caso com “Ziriguidum Tchan”, do Sá & Guarabyra. A canção é uma de minhas preferidas. Aos sábados à noite, num programa em que eu tocava só MPB e Pop/Rock nacionais, “Ziriguidum Tchan” era frequentemente executada.


Há uns cinco ou seis anos estou sem trabalhar em rádio. Desde que parei, não mais havia escutado a canção. A saudade já era muita; hoje, finalmente, eu a consegui. Estou há um tempão a escutando sem parar. Quando ela termina, eu a escuto de novo. Apesar de muito desafinado, gosto de cantá-la aos berros, o que faço agora, sozinho em casa, enquanto digito.

A canção está num LP (há o CD, lançado pela Eldorado) chamado “Vamos por aí”, que ainda tem “Meu lar é onde estão meus sapatos” e “Estrela natureza” (que chegou a ser trilha sonora de alguma novela). O trabalho é de 1990. Na época, lendo o encarte do disco, surpresa agradável: quem toca guitarra em “Ziriguidum Tchan” é o cantor e compositor Tavito – aquele do sucesso “Rua Ramalhete”.

“Ziriguidum Tchan” é sobre Nova York. Isso me fez lembrar de “A fogueira das vaidades”, de Tom Wolfe, publicado pela Rocco. O prefácio é de Paulo Francis, que escreveu: “Wolfe disse que ninguém mora em Nova York pelo clima ou pela qualidade de vida. (...) Pode-se ir a museus em outras cidades e ouvir música (bem melhor) na Europa. Em Nova York se vive pela ambição de ser número um no que se faz e não se poupa esforços, às vezes com resultados cruéis, para derrubar quem nos tolhe o caminho” (...).

Indico a leitura do livro de Tom Wolfe. “A fogueira das vaidades” foi seu romance de estréia. Estupendo debute. Em 1991, a obra foi transformada em filme homônimo por Hollywood, com Tom Hanks no papel principal. A direção é de Brian de Palma.

A foto a seguir é de Thomas Hoepker, da agência Magnum, tirada no histórico 11 de setembro de 2001. Na imagem de Hoepker, enquanto as torres gêmeas deixam escapar espessa fumaça, o primeiro plano mostra um grupo de jovens conversando. Discute-se muito se a foto revela inércia, atitude alienada ou incapacidade de comoção. Sabedor da polêmica que o registro causaria, Hoepker somente o divulgaria em 2005. Abaixo da foto, a letra de “Ziriguidum tchan”.
Nova York é ali
Tão perto daqui
O piloto sorri
Lá se vai o avião

Eles são o que rola
Eles fazem a moda
Nova York é mais perto
Que o sertão

Nova York é ali
Tão perto daqui
Oito horas de vôo
E ilusão

Nós pisamos na bola
Eles ganham em dólar
Nova York é mais perto
Que o sertão

Crack, rap, hip-hop, rock
Walk, don't walk now
Ziriguidum tchan

Se a viagem nos faz
Brasileiros demais
Cucarachas gerais
Na multidão

Essa ilha sem paz
Não se importa jamais
Nova York é mais perto
Que o sertão

Escondidos no fundo
Do umbigo do mundo
Joe nunca se encontra
Com João

Eles não se interessam
Eles não se conversam
Nova York é mais perto
Que o sertão