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sábado, 20 de maio de 2017

"Thanks for sharing"

Ovídio, no livro “A arte de amar”, escreve sobre o amor de modo bem didático. A obra é dividida em três seções: A arte de amar, Os remédios para o amor e Os produtos de beleza para o rosto da mulher. Na segunda seção, segundo tradução de Dúnia Marinho da Silva, Ovídio escreveu: “Evite reler as cartas de amor de sua amante que você guardou; almas firmes ficam abaladas quando releem tais cartas. Jogue tudo impiedosamente no fogo”.

Se precisamos nos livrar de algo, que a destruição do que nos liga a esse algo seja radical. A premissa, que, na ótica de Ovídio, vale para o amor, vale também para o vício, segundo a abordagem de “Terapia do sexo” (“Thanks for sharing” é o título original), do diretor Stuart Blumberg, que é também o roteirista, ao lado de Matt Winston.

O filme já seria digno de atenção pelas presenças de Mark Ruffalo (que interpreta Adam) e de Tim Robbins (no papel de Mike). Mas há ainda a bela atuação de Josh Gad (que interpreta Neil). Também no elenco a atriz Gwyneth Paltrow (na pele de Phoebe) e a cantora Pink (no papel de Dede) — esta, em louvável atuação.

Adam, Mike e Neil são amigos que frequentam um grupo de pessoas que têm um vício sobre o qual há muita incompreensão e muita piada ruim, que é o vício em sexo. As sessões são muito similares às que ocorrem no grupo Alcoólicos Anônimos. Cada um dos frequentadores é convidado a compartilhar (daí o título original do filme) as experiências por que passou relativas ao vício. 

Há linhagens de filmes que não têm (ou parecem não ter) grandes pretensões. Parecem não realizar grandes reflexões, parecem não estar preocupados em levar o espectador a olhar com mais cuidado para si mesmo e para os outros. “Terapia do sexo” pertence a essa linhagem. Em sua não pretensão, acaba, paradoxalmente, levando a uma reflexão sobre a natureza do vício, não importa qual ele seja (o vício em sexo não é o único abordado no filme).

É um daqueles filmes em que é fácil nos afeiçoarmos aos personagens, que são, por assim dizer, gente “comum”; é fácil nos identificarmos com eles. Poderiam muito bem ser um de nós ou um de nossos amigos. A convivência de Adam, Mike e Neil — e a de Dede com Neil — é um terno e bonito retrato da amizade. Sem derrapar para o melodrama, os personagens vivem o pensamento de que, dependendo do que se queira, conseguir sozinho é difícil, mas se houver a ajuda de amigos, algo pode ser feito.

“Terapia do sexo” é um belo filme. Trata com maturidade e responsabilidade as agruras e os dramas de quem lida com vícios. Fica muito bem em companhia de obras-primas como “Despedida em Las Vegas”  e “O voo”. São filmes que conseguem extrair o que temos de mais humano e frágil, sem deixarem de mostrar que, mesmo diante de um fracasso, talvez haja um recomeço. 

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

MARINA É A DERROTADA

Independentemente de quem ganhe as eleições presidenciais, Marina Silva é a grande derrotada. Não somente por não ter avançado para o segundo turno. Luciana Genro também não avançou, mas deixa uma imagem positiva — pelo menos para aqueles que defendem pautas progressistas.

Não estou aqui decretando o fim da carreira política de Marina. Além do mais, boa parte dos eleitores não querem se informar ou se informam pelos mesmos poderosos meios, que, no futuro, podem abarcar novamente a candidatura dela.

Da subserviência a Malafaia à mendicância pelo apoio de Mark Ruffalo, Marina deixa estas eleições passando a imagem de alguém que é menor do que o cargo que estava disputando. O dano que suponho ter ficado na carreira política dela não seria menor, presumo, se ela estivesse apoiando Dilma.

Qualquer político, e isto é inevitável, está atrelado a uma série de interesses. Ao lidar com eles, a candidata do PSB acabaria numa teia de contradições que negava as causas outrora defendidas por ela. Ao querer servir a vários senhores, deixou a imagem ruim de quem não é senhora de si. Mas trata-se de política: a derrota pode ser momentânea. 

domingo, 16 de março de 2014

“MINHA VIDA SEM MIM”


“Minha vida sem mim” [My life without me] é um filmaço de 2003. Incrível como a diretora e roteirista, Isabel Coixet, contou uma história pesada sem, todavia, cair num dramalhão. O filme é baseado numa das histórias que compõem o livro “Pretending the Bed is a Raft”, de Nanci Kincaid.

Logo no começo, Ann, vinte e três anos, interpretada por Sarah Polley, recebe o diagnóstico que tem câncer e que morrerá em dois ou três meses. Ela decide esconder a doença de seu marido, de sua mãe e de suas duas filhas pequenas, alegando ter sido diagnosticada com anemia.

O casal passa por dificuldades financeiras. Don, o marido, interpretado por Scott Speedman, está, a princípio, desempregado (consegue emprego depois). Ann trabalha como faxineira. Ela não se dá bem com a mãe, interpretada por Deborah Harry (sim, aquela mesma, que foi vocalista da banda Blondie, do sucesso “Heart of glass”). Alfred Molina faz o pai de Ann; ele está preso.

Diante de um futuro cuja certeza é uma morte em breve, Ann decide fazer uma lista de coisas que pretende realizar. Nessa lista, há pendengas a serem resolvidas com a mãe e com o pai, bem como atitudes mais triviais, como um novo corte de cabelo. Ela também decide satisfazer a curiosidade de fazer amor com outro homem que não seja o marido.

Don e Ann haviam se casado muito jovens; conheceram-se, segundo eles, no último show realizado pelo Nirvana. Don era o único homem com quem Ann relacionara-se sexualmente. Tendo tomado a atitude de ficar com outra pessoa, conhece Lee, interpretado por Mark Ruffalo.

É um filme poético ali, reflexivo acolá. Coixet não se vale dos truques hollywoodianos ao contar a história. A manjada estética de Hollywood, com sua assepsia, não está no filme, que ao mesmo tempo não cede à escatologia. A “danadinha” da diretora e roteirista acertou demais no tom.

“Minha vida sem mim” é denso sem querer filosofar demais; consegue ser terno sem ser açucarado. É um daqueles filmes que nos tornam melhores, que fazem com que pensemos sobre a fugacidade de nossa vida, com que olhemos para ela com um olhar poético e urgente, mas sem desespero. É um delicado e inteligente convite à reflexão. A arte tem esse poder.