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segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Batalha

Publiquei o poema abaixo aqui no blogue em 2012. Na ocasião, fiz um “vídeo” com o texto.
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Contra a lesma, sal.
Contra a preguiça, teimosia.
Contra o gol, defesa.
Contra o hiato, ditongo.
Contra a castidade, chave.
Contra o segredo, fofoca.
Contra o peixe, pescador.
Contra o medo, palavra.
Contra o grito, beijo.
Contra o ódio, Cristo.
Contra a barriga, chope.
Contra o ninho, tucano.
Contra o cruzeiro, naufrágio.
Contra Deus, Saramago.
Contra o sapato, pé.
Contra o blefe, zápete.
Contra o vampiro, alho.
Contra o sexo, rotina.
Contra o vinho, pressa.
Contra a claque, silêncio.
Contra a barba, lâmina.
Contra a comida, destempero.
Contra o sorriso, cárie.
Contra a voz, gelado.
Contra o amanhã, suicídio.
Contra o zíper, tesão.
Contra a pipoca, piruá.
Contra o enigma, Einstein.
Contra a solidão, cachorro.
Contra a telha, goteira.
Contra o pássaro, gaiola.
Contra o sítio, hacker.

Contra a morte...
... nada... 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Minha convivência com Rabindranath Tagore

O livro não tem mais capa. É o quarto volume (o único que tenho) de uma série intitulada “As mais belas poesias”. A organizadora é Niza Carvalho. A edição que tenho não tem as duas últimas páginas.

Foi nesse pequeno volume, o qual tenho agora em mãos, em que li, pela primeira vez, o nome Rabindranath Tagore (1861-1941), poeta indiano, prêmio Nobel em 1913. Quando passei a lidar com o “As mais belas poesias”, eu devia ter uns sete ou oito anos. A primeira coisa que me chamou a atenção não foram nem tanto os dois poemas dele que estão na coletânea, mas o nome de Tagore.

Mesmo hoje, não sei como se pronuncia corretamente esse nome. Na infância, eu o ficava lendo em voz alta, gostando da sonoridade que eu mesmo criava. À parte isso, “As mais belas poesias” foi um livro muito importante para mim, bem como os volumes de “As mais belas histórias”.

Tanto um quanto o outro eram ilustrados. Como eu me lembro de tentar desenhar essas ilustrações. Como desenhista, um fiasco, mas se eu tiver de mencionar circunstâncias que me tornaram leitor, não posso deixar de mencionar essas obras. Posteriormente, na adolescência, eu voltaria a Tagore, dessa vez lendo um livro que traz conversa entre ele e o Einstein. Recentemente, voltei ao indiano. Li “Gitanjali — Oferenda lírica” e “Meditações”.

Este foi publicado pela Ideias e Letras; a tradução é de Ivo Storniolo. “Meditações” contém ensaios em que se condensam boa parte das ideias do poeta. Nos textos do livro, Tagore reitera diversas vezes o caráter religioso que perpassa seus atos e seus pensamentos. À parte a religiosidade, é um livro com muito a dizer para o século XXI. As ideias de Tagore propõem o desapego das coisas mundanas; até aí, nada de original. Mas ao realizar sua proposta, o escritor não deixa de evidenciar o quanto a vida moderna nos esmaga, matando nossa criatividade e nosso potencial inventivo.

No primeiro ensaio, intitulado “Natureza da arte”, ele escreve: (...) “A burocracia trata de generalizações, e não de homens. E, portanto, não lhe importa incorrer em crueldades da pior espécie”. Não bastasse ter sido crítico contumaz deste mundo cheio de papéis e de regras que assassinam nosso espírito criador, Tagore, a despeito de sua religiosidade, passa longe de radicalismos desarrazoados. Ainda no “Natureza da arte”, tem-se: “Em nome da religião foram consumados crimes que esgotariam todos os castigos do inferno, porque em seus credos e dogmas a religião aplicou um enorme anestésico sobre boa parte dos sentimentos da humanidade”.

Importante reafirmar que o escritor não foi um iconoclasta. Pleno de uma conduta de espírito oriental, Tagore reitera nos ensaios a postura religiosa de que nunca abriu mão, seja discutindo sobre a arte, seja expondo ideias pedagógicas (caso, por exemplo, do ensaio “Minha escola em Bengala”). Desnecessário dizer que os adeptos da espiritualidade oriental, que Tagore contrapõe à ocidental, têm no poeta terreno fértil para suas meditações. Todavia, se devidamente lido, Tagore tem muito a ensinar para todos; principalmente para nós, tolos velocistas de um progresso ilusório e castrador de nosso potencial criativo. 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

NÃO BASTA

Não basta dar a luz para ser Thomas Edison.
Não basta ser dândi para ser Oscar Wilde.
Não basta morar num castelo para ser Montaigne.
Não basta mostrar a língua para ser Einstein.
Não basta tomar ácido para ser Jim Morrison.
Não basta ser condenado para ser Galileu.
Não basta vir ao Brasil para ser Darwin.
Não basta viajar para ser Melville.
Não basta não viajar para ser Drummond.
Não basta ter pegada para ser Sade.
Não basta ser torto para ser Garrincha.
Não basta gostar de “poodles” para ser Schopenhauer.
Não basta ter bigode para ser Nietzsche.
Não basta ser linda para ser Elizabeth Taylor.
Não basta ser pintor, escultor, desenhista,
projetista nem inventor para ser Da Vinci.
Não basta uma lista para ser um poema.

Não basta uma lista para ser um poema. 

domingo, 21 de dezembro de 2014

"ENSAIOS DE AMOR"

Penso num Einstein, que aos vinte e seis publicou sua Teoria da Relatividade. Ou num Melville, que também aos vinte e seis, publicou seu “Moby Dick”. Ou num Rimbaud, que, ainda adolescente, já era poeta feito. Desde sexta-feira (19/12), tenho pensando em Alain de Botton, que, aos vinte e três, publicou “Ensaios de amor” (Botton está com quarenta e cinco).

Se você acredita no amor, leia “Ensaios de amor”; se você não acredita, leia. Se você gosta de chocolate com setenta por cento de cacau, leia “Ensaios de amor”; se gosta de chocolate com mais de setenta por cento de cacau, leia; se gosta de chocolate com menos de setenta por cento de cacau, leia. Espanta-me como alguém que tinha na época vinte e três anos escreveu um livro tão primoroso sobre o amor.

A edição que li foi publicada pela L&PM Pocket; a tradução é de Fábio Fernandes. Terminado o primeiro capítulo, na página 15, coisa demais já havia acontecido na história, a ponto de eu me perguntar: “Ei, o que mais há para contar?”. Nas primeiras páginas, o livro já continha humor, filosofia e lirismo. Logo no começo da leitura, eu já estava dando gargalhadas, estava refletindo, estava diante da poesia.

A convivência com o texto fluía tão agradável que antes mesmo de terminar a última página eu já estava louco para escrever esta resenha. À medida que eu ia lendo, eu ficava inebriado com, para me valer de uma expressão do advogado Manoel Almeida, a mão solta do autor. Penso no quanto De Botton se divertiu escrevendo “Ensaios de amor”.

Trata-se de um livro de praticamente dois personagens — o narrador e Chloe. Durante um voo, eles se conhecem. O resto você já sabe: eles se apaixonam, passam a viver juntos. O que você não sabe, caso não tenha lido o livro, é claro, é o monumento que Alain de Botton ergueu ao narrar o amor dos personagens.

“Ensaios de amor” é elegante, engraçado, poético, reflexivo. O amor, com suas dores, alegrias, dúvidas e risadas é descrito em capítulos breves; cada parágrafo de cada capítulo é enumerado, como se cada parágrafo fosse, por assim dizer, um apontamento. Tudo vale para que o narrador dê conta de traduzir o amor: filosofia, literatura, sociologia. O livro é um romance, mas é um tratado; é um tratado, mas é um romance.

É engraçado e é erudito: está cheio de piscadelas literárias; numa delas, por exemplo, num passeio que fazem à Espanha, Chloe passa mal. Ela é atendida por um médico chamado Saavedra.

O livro trata o amor de modo honesto. Não foge de suas agruras, de seus destemperos, de seus desatinos, de suas tristezas, de suas dores. Ao mesmo tempo, não se esquece dos pequenos grandes momentos que só o amor é capaz de propiciar. É um livro humano, densamente humano e... amoroso.

Numa feliz coincidência, li boa parte do livro ontem, dia do aniversário de Alain de Botton (só fiquei sabendo do aniversário dele ontem à noite, em pesquisa na internet). Tendo comprado a obra anteontem, anteontem mesmo iniciei a leitura; deliciei-me com ela ontem e terminei de lê-la em torno de 1h deste domingo. Foi uma surpresa receber um presente tão magistral. 

domingo, 2 de fevereiro de 2014

EINSTEIN E O CACHORRO

Antes de eu dizer o que vou dizer, afirmo: gosto de cachorros. Fui criado numa casa em que havia deles, por causa de meu pai, que sempre os teve. Depois que meu pai morreu a tradição foi mantida. Reitero: gosto de cachorros. 

Recentemente, no Facebook, tem sido veiculada uma foto em que há o Einstein. Junto a ela, a seguinte frase: “Não confio em pessoas que não gostam de cachorro, mas confio totalmente num cachorro quando ele não gosta de uma pessoa”.

Não entendi, para começar, o motivo de haver uma foto do Einstein “ilustrando” a frase. Quiseram com isso, buscando um suposto argumento de autoridade, dizer que o físico é o autor da frase? Isso cheira a autoria incorreta.

Contudo, o curioso é que a frase não faz o menor sentido. Não confiar em uma pessoa pelo fato de ela não gostar de cachorro?! Quer dizer então que o critério para se confiar em alguém é o fato de a pessoa gostar de cachorro? O sujeito pode ser um calhorda, mas se gosta de cachorro é, portanto, confiável? Ou calhordas não são capazes de gostar de cachorro?...

Quer dizer então que todo mundo que gosta de cachorro é confiável? Quer dizer que basta à pessoa gostar de cachorro para que se confie nela? Será que não há alguém nesse mundo de bilhões de pessoas que goste de cachorro e que seja um trapaceiro?...

Ora, isso é limitar a confiança a um critério sem sentido. Hitler gostava de cachorro. Ele gostava de crianças também, e, dizem os biógrafos, não havia nisso traço do que poderíamos chamar de populismo. Pergunte a um judeu se ele confiaria em Hitler após saber que ele gostava de cachorro...

A frase, que já havia começado ruim, terminar pior do que começara: “Confio totalmente num cachorro quando ele não gosta de uma pessoa”. Nesse caso, o critério para se confiar numa pessoa é decidido por um... cachorro. 

E se um cachorro não gostar de sua mãe?... (Será que todos os cachorros do planeta gostam de sua mãe?...) E se um cachorro não gostar de seu melhor amigo?... (Será que todos os cachorros da Terra hão de gostar de seu melhor amigo?...) E se um cachorro não gostar de você?... E se um cachorro vier a não gostar de sua esposa ou de seu marido?...

Um cachorro não vale nem mais nem menos do que um tatu, por exemplo. A diferença é que o cachorro foi domesticado. Séculos e séculos de convivência criaram uma dependência mútua entre cachorro e gente.

Ainda assim, a psique humana é mais melindrosa e multifacetada do que é capaz de deduzir a sagacidade de um cão, por mais sofisticada que ela seja. Não sei se um cachorro se deixa levar pela imaginação, mas o ser humano se deixa, a ponto de dizer que o “parecer” de um cão é critério para se confiar numa pessoa.