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segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Luzes e nódoas

Vira e mexe, como diriam os antigos, eu cito um trecho do Manuel Bandeira no qual ele diz que a poesia é “nódoa no brim”. Uma rápida consulta em meu blogue me revela que já mencionei esse trecho do Bandeira em pelo menos três postagens.

Volto a ele pela mesma temática sobre a qual já escrevi: em termos modernos, uma beleza imaculada demais pode, de modo paradoxal, não ser tão sedutora quanto uma beleza “conspurcada”. Metaforicamente, é preciso haver uma nódoa, sob o risco de se incorrer numa beleza limpinha demais, bem-comportada demais.

É preciso “estragar” o belo, “dessacralizá”-lo, “desrespeitá”-lo. Uma beleza que descambe para a assepsia absoluta corre o risco de parecer artificial. Podemos ter o anseio de sermos imaculados ou de produzirmos algo imaculado, mas sob qualquer aspecto estamos longe disso. Além do mais, nossas “impurezas” têm seu encanto e beleza. Belezas e encantos humanos, é verdade, mas belezas. Ainda bem que temos nódoas.

Ontem, folheei alguns livros do Manoel de Barros em busca de uma frase dele. Eu me lembrava do teor dela, mas não me lembrava das palavras exatas. Enquanto a procurava, eu me deparei com o seguinte trecho, extraído de “O livro das ignorãças”:

“Aos blocos semânticos dar equilíbrio. Onde o abstrato entre, amarre com arame. Ao lado de um primal deixe um termo erudito. Aplique na aridez intumescências. Encoste um cago ao sublime. E no solene um pênis sujo” (1). Os oximoros que o poeta usa intensificam a ideia de que o imaculado deve ser “poluído”. É quando fica pleno de humanidade.

O preceito do Manoel de Barros acabou me remetendo a um do Mario Benedetti, que li recentemente. Cito como está no texto original, com tudo em minúsculas:

“com o desejo mais terno do que outras noites
tateou as pernas da mulher nova
que felizmente não eram de carrara (...)
com o polegar e o indicador reconheceu os lábios
que felizmente não eram de coral” (2).

A idealização é capaz de prodígios, de produzir obras-primas. Ela é inevitável; perpassa não só nosso imaginário, mas toda a história da arte. Seria irresponsável afirmar que idealizações não contém verdades humanas.

O Modernismo, que para muitos produziu uma arte “menor” se comparada com a arte clássica, investiu pesado na dessacralização do fazer artístico e da arte em si mesma, o que é uma de suas grandes conquistas. Boccaccio, Rabelais, Cervantes ou Sterne já haviam feito uma saudável farra com a literatura. No Modernismo, isso se tornou muito forte.

Trechos como o de Manoel de Barros ou o de Benedetti, citados acima, são exemplos do que a literatura moderna conquistou. São nódoas a revelar nossa condição de seres que comportam o sublime e o sujo. Em nós, o elevado e trivial se misturam. Que haja luzes e nódoas.
_____

(1) BARROS. Manoel de. O livro das ignorãças. 4ª edição. Rio de Janeiro. Record. 1997. Pag. 21.
(2) BENEDETTI, Mario. O amor, as mulheres e a vida. Tradução de Julio Luis Gehlen. Campinas. Verus. 2010. Pág. 63.

sábado, 29 de outubro de 2016

O olhar de quem ama

Sou professor do IFTM (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia), campus Patos de Minas. Na quarta-feira (26/10), tive o privilégio de escutar as estudantes Geovana e Luana lendo trechos do prólogo do Dom Quixote. Leram no original. Um dos trechos que citaram está a seguir, segundo tradução de Viscondes de Castilho e Azevedo: “Acontece muitas vezes ter um pai um filho feio e extremamente desengraçado, mas o amor paternal lhe põe uma venda nos olhos para que não veja as próprias deficiências; antes as julga como discrições e lindezas, e está sempre a contá-las aos seus amigos, como agudezas e donaires”.

O texto de Cervantes alega que o amor do pai pelo filho põe nos olhos daquele uma venda que o impediria de enxergar os defeitos deste. O amor do pai tornaria esse mesmo pai “cego” para os defeitos que o filho por ventura tivesse. No prólogo do Dom Quixote a relação pai e filho é usada para se referir ao escritor e o livro criado por ele; o autor seria o pai do livro, embora Cervantes afirme ser não o pai, mas o padrasto de Dom Quixote.

A temática do olhar do amante sobre o objeto amado me é instigante demais. Tomo a liberdade de estender o amor tal qual está na analogia do prólogo de Cervantes, mencionando, assim, não o amor paternal, mas o amor carnal, o amor não ligado a parentesco, o amor de pessoas que se desejam sem ter entre si elos de família.

Esse amor, o carnal, faz com que o amante tenha uma venda nos olhos ao contemplar o ser amado ou faz com que o amante enxergue o ser amado em essência, muitas vezes enxergando nele, ser amado, coisas de que nem ele se dera conta? Nos olhos de quem ama, esse amor carnal põe venda ou clarividência? Aquele que ama embeleza o objeto amado. Mas embeleza por estar cego ou por ter sobre quem é amado um olhar que tem maior acuidade?

Amor maduro enxerga os defeitos do outro. Ao mesmo tempo, se maduro, sem exagerar as qualidades, embeleza quem é amado. Aquele que ama embeleza o objeto amado. É por isso que devemos amar: não só a fim de sermos em troca amados, mas para que tenhamos o poder de embelezar o outro. Quem embeleza o outro fica mais bonito. 

sábado, 26 de julho de 2014

PINKY E CÉREBRO


(Consegui a ilustração via Google; não achei o nome do autor, a fim de dar os créditos.)

Estava me lembrando hoje do barato que era assistir ao desenho animado Pinky e Cérebro (Pinky and the Brain), sucesso na década de 90. Há um quê do Quixote em Cérebro. As causas do cavaleiro eram nobres; as do camundongo, mundanas. Ainda assim, são dois iludidos. Mas sejamos justos: quixotescos somos todos nós.