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terça-feira, 11 de outubro de 2016

Renato Manfredini Júnior

Há exatos vinte anos, eu era professor numa escola particular local. Acabadas as aulas, fui direto para casa. Lá chegando, minha mãe me deu a notícia: “Lívio, o Junim [meu amigo de infância] ligou. Disse pra eu te falar que um tal de Renato Russo morreu”.

Nasci em 1970. Eu havia passado uma grande de minha juventude escutando Legião Urbana. Minha mãe, ainda que não quisesse, acabava escutando (mas ela nunca reclamou de eu escutar). Não me lembro, mas acho que eu não tinha computador nessa época. Sei que liguei para o Junim, que disse ter escutado num programa de TV sobre a morte do Renato Russo.

Então liguei na TV Cultura, que, na época, tinha um jornal que começava, se não estou enganado, às 12h. Deram a notícia sobre a morte do Renato Russo. Naquele mesmo dia, já havia sido divulgado que o vocalista morrera em decorrência da Aids.

Sempre fui ruim para guardar datas. Há pouco, li que vinte anos se passaram desde a morte do vocalista da Legião Urbana. Eu não suporia que tanto tempo já havia se passado. Enquanto digito este texto, escuto “Giz”.

Suponho que o legado de Renato Russo vai perdurar. Um dia desses, eu estava dando aula para uma turma de primeiro ano do ensino médio. Quando nasceram, Renato Russo já havia morrido. Durante a aula, pedi a eles que me dissessem o nome de uma canção cuja letra curtem. Dois deles mencionaram “‘Índios’”.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

RENATO RUSSO: UM ATOR

Num show do Legião Urbana realizado no Rio de Janeiro no dia sete de julho de 1990, já no fim de “Andrea Doria”, andando pelo palco após ter cantado a letra da canção, Renato Russo simula que está cravando um punhal em seu próprio peito. O gesto coincide com o término da canção.

Valho-me disso a fim de ilustrar o que, antes de tudo, Renato Manfredini Júnior (nome real de Renato Russo) era: um grande ator. Valendo-se desse talento, Russo tinha uma capacidade assustadora de hipnotizar a plateia, de modo que shows do Legião Urbana eram acontecimentos. No dia vinte e nove de agosto de 1992, em Uberlândia, conferi, no UTC, uma das apresentações da banda.

Na segunda canção do espetáculo — “Metal contra as nuvens” —, Russo simula masturbação e, logo após, passa a mão na própria boca. Cantou deitado uma das músicas, executou sua dança — herdeira de Jim Morrison, de Ian Curtis —, fez discursos (era do tipo que falava muito em shows e em entrevistas), esbravejou.

Devido à persona que Renato Russo foi, o Legião Urbana era, sobretudo, teatro. Russo era um personagem criado por Renato Manfredini Júnior. Tal personagem era herdeiro do Romantismo (escola artística do século XIX). Nesse sentido, criou um ícone que seguia a cartilha romântica: o jovem talentoso e atormentado, que sofre e sente demais as agruras do vida; o “outsider” que não se encaixa no mundo tal qual ele é; o rebelde que, com seu talento e com sua tristeza, realiza seu trabalho artístico.

Esse personagem, invenção do Romantismo, seria reaproveitado pela cultura pop do século XX. Os beatniks, Jim Morrison ou Morrissey são ecos do que os românticos criaram. O rock, em especial, valer-se-ia do modo de vida celebrado em versos que seduziam a juventude intelectualizada do século XIX.

Não é novidade para ninguém que o Legião Urbana não deixou um grande legado musical. A contribuição da banda está, para muitos, nas letras; está muito mais numa atitude, numa postura, num posicionamento diante das mazelas do mundo, dos problemas e questionamentos dos jovens. Está numa rebeldia que não foi inventada pela banda, mas que tão bem cai para o espírito do rock.

Quando afirmo que Renato Russo era um personagem, não faço isso em sentido pejorativo nem sugiro que havia fingimento nas crenças que Russo expressava em entrevistas, em palcos ou em canções. É minha intenção ressaltar a verve teatral e lírica que Manfredini tão bem usou enquanto foi o vocalista do Legião Urbana. 

quinta-feira, 27 de março de 2014

VINTE E SETE DE MARÇO


Se vivo estivesse, o senhor Renato Manfredini Júnior, o Renato Russo, completaria hoje cinquenta e quatro anos. É por isso que posto uma canção do Legião Urbana. Era uma das preferidas do Renato, conforme o que ele dizia nos shows.

No dia vinte e nove de agosto de 1992 conferi um show da banda em Uberlândia, no UTC. Tendo chegado cedo à cidade, fui para um dos hotéis em que os legionários poderiam estar. Chegando lá, fiquei sabendo que estariam em outro hotel, que fica perto. Fui para lá e fiquei aguardando. Quando a banda chegou, tive a oportunidade de pegar o autógrafo do Renato Russo.

Ele era baixo, muito magro. Foi muito atencioso conosco, os que ficamos o aguardando na porta do hotel. Perguntei para ele se ele se lembrava de ter tocado em Patos de Minas. Ele me olhou com cara de espanto e me perguntou se eu estava no show; eu disse que não estava, e completei dizendo que eu tinha onze anos na época. Ele então brincou: “Poxa, estou ficando velho”. Infelizmente, não ficou.