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domingo, 26 de dezembro de 2021

Não é só um cometinha

O diretor Adam McKay não tem medo de ser óbvio em Não Olhe para Cima (2021). O roteiro é dele e de David Sirota. Logo no início do filme já sabemos que ele desenvolver-se-á quando dois astrônomos, Randall Mindy [Leonardo DiCaprio] e Kate Dibiasky [Jennifer Lawrence] têm provas visuais e matemáticas de que um cometa vai atingir e destruir a vida na Terra.

O destemor de McKay quanto à obviedade está na ausência de sutilezas com relação aos personagens, que acabam sendo estereótipos das categorias a que pertencem. Assim, Randall Mindy é o cientista desajeitado, Kate Dibiasky é a cientista jovem que não se adéqua, a presidente Orlean [Meryl Streep] é o político imbecil, Brie Evantee [Cate Blanchett] é a apresentadora midiática no que a mídia tem de pior, Peter Isherwell [Mark Rylance] é o magnata sem escrúpulos que manda na presidente por ter sido o maior financiador da campanha dela.

Pode-se argumentar haver algum arco dramático na trajetória de Randall Mindy, que acaba deixando-se seduzir (no caso em questão, literalmente) pelos apelos midiáticos. Todavia, Não Olhe para Cima não é um filme sobre estudos de personagens, mas uma produção que escancara, sem sutilezas, uma época sem sutilezas.

Randall e Kate são ridicularizados não somente porque os negacionistas desdenham deles, mas também porque a mensagem que entregam, que é o fim iminente da vida na Terra, é levada ao público não de modo espalhafatoso, circense. Mesmo quando dão um polimento na imagem de Randall, a notícia do fim da vida na Terra não é absorvida por grande parte do público, que, anestesiado, vai para as redes sociais fazer piadinhas com a tragicidade do evento cósmico.

O filme é uma sátira-espelho de um tempo, que finge nada ter a ver com a destruição do planeta e que ri daquilo que não tem graça nenhuma. Adam McKay entrega algo que, se levar ao riso, será aquele tipo de riso travado de quando se está diante da perigosa burrice dos que detêm o poder.

Curiosamente, uma das poucas metáforas do filme (senão a única) é o cometa em si. E, caso raro, uma metáfora que pode ser encarada em dois planos — o literal e o figurado. A metáfora, em regra, não é interpretada ao pé da letra. Se alguém diz “você é Sol da minha vida”, sabe-se, é claro, que ninguém é o Sol. Ou seja, a frase “você é o Sol da minha vida” vale não pelo que é literalmente dito, mas por aquilo que se quer dizer, por aquilo que é sugerido.
 
De modo análogo, o cometa em Não Olhe para Cima pode ser uma metáfora, e ainda que assim interpretado, o diretor, mantendo o tom do filme, deixa óbvia essa metáfora. Há, por exemplo, a criação de dois movimentos sociais: os que se organizam para pedir à população que não olhe para cima e os que se organizam para pedir à população que enxergue o óbvio, bastando, para isso, olhar para cima. Como metáfora, o cometa simboliza tudo aquilo que a ciência descobre e o efeito que isso tem numa sociedade idiotizada. (A bem-vinda obviedade de Não Olhe para Cima lembra a igualmente bem-vinda de Viagens de Gulliver, do Jonathan Swift.)

No filme, a presidente Orlean, movida também por interesses financeiro-pessoais, é uma negacionista. O cometa é uma ameaça que vem do céu, mas pode ser metáfora de uma ameaça que existe em forma minúscula e que não é só uma “gripezinha”. De resto, quando o assunto é um governante negacionista, sabemos bem que no cenário como o do filme, um desses governantes diria algo como “é só um cometinha”. 

terça-feira, 22 de maio de 2018

O que está perturbando Gilbert Grape

Se você tem família, leia What’s eating Gilbert Grape, do escritor Peter Hedges. Salvo engano, o livro não tem edição em português, embora tenha se tornado um filmão, estrelado por Johnny Depp e por Leonardo DiCaprio.

O livro é a história da família Grape; quem a narra é um dos integrantes dela, o Gilbert Grape do título. Só sarcasmo e humor corrosivo para fazer com que ele consiga suportar o dia a dia da família, cujo núcleo central é composto por ele, por duas irmãs, por um irmão que tem problemas mentais e pela mãe deles, a qual nunca sai de casa por ser gorda demais; ela começou a engordar depois do suicídio do marido. Um casal de irmãos que não mora na casa aparece no decorrer do enredo por causa do aniversário de Arnie, o que tem problemas mentais.

Gilbert Grape não suporta somente a casa em que vive. Ele está cansado também de Endora (cujo nome é grafado pelo narrador algumas vezes como ENDora), a pequena cidade em que vive. Gilbert tem vinte e quatro anos; dos integrantes da família, é o mais próximo a Arnie. Somente uma ironia perversa que esconde as frustrações dele e dos demais faz com que o ambiente pareça suportável em meio à vida atribulada e cheia de incidentes o tempo todo.

Sempre há algo espezinhando, sempre há uma discussão, sempre algo dá errado. O cotidiano da família Gilbert cansa; tudo é muito barulhento, nunca há um acordo, uma trégua, um descanso, uma pausa, uma possibilidade de sintonia. A rotina deles asfixia; a atmosfera é pesada, sendo que o peso da mãe é um retrato literal da falta de leveza da família. Ao mesmo tempo, os personagens encarnam os dramas e os fracassos de qualquer família. Por isso mesmo, é incrível o quanto é fácil gostar deles. A escrita de Peter Hedges faz com que os compreendamos em sua humanidade frágil e estraçalhada.

Não é todo dia que se tem a chance de ler um livro como What’s Eating Gilbert Grape. É o tipo de obra que nos modifica, que nos torna maiores, melhores. Somos mais amplos depois de termos lido um grande livro. Ler algo como o que Peter Hedges escreveu é renascer. Hoje à tarde, quando li a última palavra da história, renasci.

Num trecho, o narrador comenta: “Espera-se que seja algo natural, subir as escadas. Não na família Grape — aqui, o simples se torna extraordinário”. De fato, essa coisa de o simples se tornar extraordinário permeia a história. No cotidiano deles, há muito de mágico, de alegórico. O trabalho de Hedges é um poderoso lembrete quanto ao que pode haver de extraordinário na leitura de um livro. 

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

“Gilbert Grape: Aprendiz de sonhador”

É comum a ideia de que livros ruins geram filmes bons e a de que livros bons geram filmes ruins. Há exceções. “Drácula”, do Coppola, é um filmão baseado num grande livro. Não sei se “What's eating Gilbert Grape”, de Peter Hedges, é um grande livro, mas ele é a base de um grande filme, de 1993, que em inglês tem o mesmo título do livro. Releve o título brega que o filme recebeu em português (Gilbert Grape: Aprendiz de Sonhador). É um filmaço. O diretor é Lasse Hallström; Peter Hedges é também o autor do roteiro do filme.

Há as atuações de Leonardo DiCaprio, que tinha dezenove anos na época, e de Johnny Depp, então com trinta anos. Depp interpreta o Gilbert Grape do título; Arnie, interpretado por DiCaprio, é irmão de Gilbert. Arnie tem problemas mentais. Quem cuida dele a maior parte do tempo é Gilbert. A mãe deles é Bonnie Grape. Ela é interpretada por Darlene Cates, que morreu em março do ano passado. Ela tinha obesidade mórbida. Bonnie Grape foi um dos poucos papéis dela no cinema.

Este trabalho de Lasse Hallström tem o maior dos apelos que uma narrativa pode ter: é uma boa história. Sei que isso soa impreciso, turvo, mas sabemos reconhecer uma grande história quando estamos diante de uma. “Gilbert Grape: Aprendiz de Sonhador” não precisa apelar para firulas técnicas a fim de convencer e de sensibilizar. A poderosa narrativa fala por si.

Um grande filme não precisa ter espiões, magnatas, gente com superpoderes. Personagens assim podem estar em belos filmes; mesmo assim, é bonito assistir a uma produção em que a força das pessoas está exatamente nos dramas por que passam em suas “vidinhas”. Não é fácil produzir arte a partir de personagens tão triviais. A maioria de nós é gente sem nada de acachapante. Todavia, trabalhos como “Gilbert Grape: Aprendiz de Sonhador” não nos deixam esquecer de que as pequenas-grandes lutas da maioria de nós todos os dias podem assumir dimensões artísticas ou grandiosas.