Gabriel García Márquez, no conto “Eva está dentro de su gato” (título original) e Charles Bukowski, no conto “A mulher mais linda da cidade” (infelizmente, não me lembro do nome de quem o traduziu) lidam com algo em comum: cada uma das histórias retrata uma mulher que renega algo que muitos gostariam muito de ter — a beleza física. Tanto na narrativa de García Márquez quanto na de Bukowski, há uma mulher que gostaria de ser valorizada não pela beleza que tem, mas pelo que nelas não se enxerga com os olhos. Belo tema.
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quinta-feira, 14 de outubro de 2021
Duas mulheres
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quarta-feira, 15 de outubro de 2014
UM TRECHO DE BUKOWSKI
Em postagem anterior, discorri sobre trecho do Charles Bukowski. De tanto reler as palavras do escritor, decidi gravá-las. A tradução é de Marcos Santarrita; a trilha sonora está disponível em freplaymusic.com.
“Ora, tudo que posso dizer é que existem bilhões de mulheres no mundo, certo? Algumas bem vistosas. Muitas muito bonitas. Mas de vez em quando a natureza nos sai com um truque bestial, reúne todos os atributos numa mulher especial, uma mulher inacreditável. Quer dizer, a gente olha e não acredita. Tudo se move em perfeita ondulação, mercúrio, serpente, a gente vê umas cadeiras, um cotovelo, uns peitos, um joelho, e tudo se funde numa unidade gigantesca, um todo inesquecível, com aqueles olhos lindíssimos a sorrir, a boca meio descaída, os lábios imóveis como prontos para estourar numa gargalhada, pela sensação de impotência da gente. E elas sabem se vestir, e o cabelo longo incendeia o ar. Tudo demais, porra”.
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terça-feira, 14 de outubro de 2014
"ESTRAGUE" O TEXTO
O Bandeira escreveu que a poesia é a “nódoa no brim”. De modo correlato, o texto literário precisa ser “estragado”, é preciso “avacalhar” a feitura dele; a “nódoa” é um dos ingredientes quando se compõe um tecido literário. O grande escritor sabe “manchar” o texto dele.
O Charles Bukowski não é um autor lírico; pelo menos, não no sentido tradicional do termo. Isso não quer dizer que não haja poesia no trabalho dele. Um texto pode ser poético sem se valer do lirismo. Do Bukowski, o conto “A mulher mais linda da cidade” é um exemplo disso: não tem lirismo, mas tem poesia. Do autor, estou lendo “Pulp”, o último livro publicado por ele. Segundo a tradução de Marcos Santarrita, há em “Pulp” o seguinte trecho:
“Aí a porta se abriu de repente. E entrou a tal mulher.
“Ora, tudo que posso dizer é que existem bilhões de mulheres no mundo, certo? Algumas bem vistosas. Muitas muito bonitas. Mas de vez em quando a natureza nos sai com um truque bestial, reúne todos os atributos numa mulher especial, uma mulher inacreditável. Quer dizer, a gente olha e não acredita. Tudo se move em perfeita ondulação, mercúrio, serpente, a gente vê umas cadeiras, um cotovelo, uns peitos, um joelho, e tudo se funde numa unidade gigantesca, um todo inesquecível, com aqueles olhos lindíssimos a sorrir, a boca meio descaída, os lábios imóveis como prontos para estourar numa gargalhada, pela sensação de impotência da gente. E elas sabem se vestir, e o cabelo longo incendeia o ar. Tudo demais, porra”.
Até o trecho “o cabelo longo incendia o ar”, tem-se um lirismo... tradicional, ainda que se argumente que termos como “bestial”, “cotovelo” e “joelho” possam quebrar tal lirismo. Contudo, o segmento “tudo demais, porra” não somente é um daqueles trechos que revelam o estilo de um autor: esse “tudo demais, porra” é a nódoa no brim num devaneio que até então vinha sendo composto com imagens poéticas, líricas. “Estragar” um texto não é o único modo para se fazer literatura, mas Bukowski, ao “desrespeitar” o texto dele, a fez.
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