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domingo, 2 de outubro de 2022

Breves notas de um eleitor

• A colinha que levei:

1313
13123
555
55
13

• Entrei na fila para votar às 12h06; votei às 12h47.

• Assim que cheguei ao local de votação, bem na entrada do prédio, um homem, suponho, de uns setenta, setenta e cinco anos, usando chapéu e segurando um berrante, disse: “A esquerda não gosta do agronegócio. Tô aqui representando o agronegócio”.

• Encontrei alguns conhecidos de infância ou de adolescência com quem não tenho mais contato há décadas. Alguns deles tornaram-se adultos que defendem ideias fascistas.

• Escutado na fila para votação: “Quem morre descansa. Quem sofre é quem fica aqui”.

• Algumas camisetas da CBF, na metonímia em que o produto de uma empresa é usado para, em tese, simbolizar preocupação com a nação.

• Também escutado na fila de votação: “Por que tá demorando tanto?”.

• Ainda na fila: “Não sei como a pessoa tem coragem de vir aqui e apertar branco. Depois, quando tudo tiver fodid*, não adianta reclamar”.

• Mais uma na fila: “Papai, quero ir embora”. “Filho, na sua escola você não fica na fila pra comer? Isso aqui é uma fila”.

terça-feira, 12 de julho de 2022

Helena e Beatriz

Helena — Amiga, você viu as notícias sobre aquele eleitor do presidente que invadiu uma festa dos petistas e matou uma pessoa?

Beatriz — Ah, vi, sim. Mas esse pessoal da esquerda não é confiável. Vivem provocando. Aquela decoração de péssimo gosto e exagerada pra comemorar um aniversário. Até demorou pra esse tipo de coisa acontecer. E que delícia, esse chá. Onde você comprou?

Helena — Oh, obrigada. Eu trouxe da viagem que fiz aos EUA recentemente. Aproveitei e trouxe umas coisinhas. O pessoal da alfândega encasquetou. Mas eu liguei pro João Alberto e tudo se resolveu.  E, sim, o nosso país tá muito violento. E concordo com você: esse pessoal da esquerda é muito bobo. Estão até levando as palavras do presidente ao pé da letra. O povo tá achando que ele tava falando sério quando disse que era pra fuzilar a “petralhada”.

Beatriz — O povo é bobo demais. Mas, cá entre nós, no fundo, e falo isso só pra você, a ideia do presidente não é das piores.

Helena — Também muito cá entre nós, eu também concordo. Mas é que ele tem mesmo o jeito destrambelhado dele. No fundo, é uma alma boa.

Beatriz — Sim. Talvez falte um certo refinamento. Mas não vejo isso como problema. Isso é questão menor. O importe é que ele consertou o Brasil. 

Helena — Consertou. Quem reclama é principalmente gente pobre que tá com preguiça de trabalhar e acha que o Estado é obrigado a sustentar. 

Beatriz — É verdade. No fundo, isso é a tramoia de sempre desse pessoal. E a intenção deles é queimar a imagem do presidente, mas não vão conseguir. Agora, virou modinha: o pessoal dos direitos humanos, imprensa, ONU e não sei mais o quê anda dizendo que o Brasil voltou ao tal mapa da fome.

Helena — Conversa fiada. Não me preocupo com o que dizem. Eu tô com a consciência tranquila. A minha família, por exemplo, faz doações para uma instituição de caridade. Tenho certeza de que a sua família também ajuda quem precisa.

Beatriz — Claro. Todo ano, na época do Natal, nós levamos brinquedos e alimentos pra algumas instituições, mas os tais defensores dos direitos humanos não reconhecem isso. Ah, ando cansada desse povo, sabe. Nada do que a gente faz tá bom. 

Helena — Deixa esse povo pra lá. A gente sabe que o progresso do país depende é de gente como a gente, que ama o país e que luta pelo bem dele. Nosso presidente vai cuidar desses esquerdistas. Se ele não cuidar, há quem cuide em nome dele. A gente continua fazendo a nossa parte. Enquanto isso, uma viagem aqui, outra ali... Não vale a pena ficar esquentando a cabeça com essa corja. Vamos falar de coisa boa. 

Beatriz — Sim, a gente ganha muito mais. Óh, fiquei sabendo de uma loja em Nova York que vai ter tudo o que você quer pra celebrar seus trinta anos de casamento.

Helena — Que fofo! Eles têm produtos relacionados à Disney?

Beatriz — Eles têm tudo da Disney. Sua casa vai ficar parecendo um castelo encantado. E vi um vestido deles que vai ser perfeito pra você. Aliás, você e o João Alberto vão formar um belíssimo casal na festa de vocês.  Vocês vão ar-ra-sar: você de Minnie e ele de Mickey vão ficar um charme só. 

Helena — Que delícia! 

domingo, 24 de abril de 2022

Leitura de crônicas

Para leitores esporádicos, a crônica é o gênero mais palatável; a poesia, o menos. 

Ode à velha camiseta surrada

Está no romance Relicário de todas as coisas, do escritor Luís André Nepomuceno: “Profundas como são, as noites dizem mais do que o dia”. Sim. Sou criatura da noite. Não só pelo que cantam o Bruce Springsteen e a Patti Smith: “A noite pertence aos amantes”. Ou estes àquela. Tanto faz. Além do mais, noites abarcam “mistérios”, sugestões, aquilo que só é intuído mas não tornado claro nem clarividência. Felizes os que mergulham na noite saindo de casa; felizes os que mergulham na noite ficando em casa.

Todavia, a noite, em tese, não tem algo que é um prazer dos dias: a velha camiseta surrada. Sim, ela pode ser usada à noite, mas essa velha camiseta é insuperável quando vestida, por exemplo, numa pacífica tarde de domingo. A noite tem suas belezas, suas sombras, suas luzes, seus meios-tons, seus matizes indefinidos, imprecisos. O dia e a noite têm glórias diferentes. Uma das glórias do dia é usar a velha camiseta surrada. Elas podem ser usadas à noite, o que seria uma libertação. Afinal, isso seria levar para a noite a essência do que somos durante o dia.

A velha camiseta surrada em que entramos durante o dia, num dia de folga, é companheira que gostaríamos de levar para a vida toda. Nem precisam ser passadas; se estão limpinhas, nos envolvem com sua tranquila experiência, fazendo com que sejamos aquilo que somos quando destituídos de vaidades, de acessórios, de manhas, de artimanhas, de invólucros. A velha camiseta surrada é expressão do que somos quando estamos à vontade, seja sozinhos, seja acompanhados. Usualmente, não a vestimos diante dos quais não conhecemos bem, não a vestimos perante desconhecidos, não a vestimos quando queremos conquistar, não a vestimos quando é hora de sair para o trabalho. Fazer tudo isso com ela, repito, seria libertador, mas não é a norma.

A velha camiseta surrada é abrigo, familiaridade, descompromisso bom, preguiça benéfica, relaxamento necessário, paz revigoradora, refúgio ascético. Ela, sim, conhece nosso cheiro real, sabe daquilo que somos quando não precisamos fingir nem usar máscaras. A noite nos dá a possibilidade de exercemos um lado que é um rito, e, como ritual, requer preparo, roupagem, essências não produzidas por nós. A noite com suas poções e suas nuances é o exercício de nosso lado escuro, obscuro, de que somos também feitos e de que tanto precisamos. A velha camiseta surrada é a nossa parceira de nossa faceta solar.

Não é fácil se livrar de uma velha camiseta surrada. Os desavisados, por vezes, não entendem os motivos pelos quais não nos desapegamos de vez de uma peça que, em aparência, nada mais tem a oferecer. Tenho três ou quatro dessas camisetas mantidas há décadas (a velha camiseta surrada é um dos prazeres da maturidade). Sempre que abro o guarda-roupas e me deparo com uma delas, penso ser chegado o momento de me livrar dela. Resoluto, retiro-a do cabide. No momento de jogá-la fora, eu a revisto, revestindo-me de regozijo. A velha camiseta surrada me lembra de que a simplicidade é confortável e sábia. 

terça-feira, 15 de março de 2022

Das lições do café

Sempre que estou com pressa, faço trapalhada no momento de colocar o pó de café no filtro. Encho demais a colher e parte do pó acaba caindo sobre a pia. Uma patuscada. Já quando despejo o café na manha, com menos pó na colher, não há sujeira. Dentre outras coisas, o café ensina que uma limpeza alcançada na calma é sábia, ao passo que uma lambança criada na sofreguidão é desarrazoada. 

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Cozinhei feijão pela primeira vez

As pessoas com talento para cozinhar dizem com frequência que cozinhar não tem segredo. No rigor da expressão, não tem mesmo, pois nada tem segredo. Há algumas coisas que não sabemos decifrar, mas isso não significa que são absolutamente indecifráveis. Podem ser indecifráveis para nós, podem ser indecifráveis por enquanto. 

Quando os talentosos dizem que cozinhar não tem segredo, querem dizer, com boa intenção, que cozinhar é fácil, que bastariam alguns macetes e truques para que a alquimia de produzir sabor  e alimento seja alcançada. Em tese, desde que não haja nível de exigência nem mediano, qualquer um pode cozinhar. No meu caso, cozinhar significa não produzir sabor, significa não ter a capacidade de dar aos alimentos a condição que eu desejar.

O Nivaldo, um dos meus irmãos, que infelizmente morreu em 2019, era um grande cozinheiro. Transitava bem na comida tradicional, era capaz de reinventá-la e era capaz de criar pratos, de recriar receitas. Não é o meu caso. Só comecei a fazer algumas gororobas para mim com o advento das panelas que podem ser ligadas na tomada. Nelas, insiro arroz (com ou sem legumes) e carne. Também aprendi a refogar vagem, o que faço nos dias em que não estou com preguiça. Como geralmente estou, na maioria das vezes, a vagem vai para a mesma panela do arroz.

Gosto demais do feijão quando ele acabou de ficar pronto. Com uma colher furada, é bom demais pegá-lo feito na hora, jogá-lo sobre o arroz, temperar o feijão com sal e, sobre eles, jogar um ovo com a gema mole. O problema é que não tenho as manhas para fritar ovo. Hoje, pela primeira vez, cozinhei feijão.

Não foi fácil tomar essa decisão. Sempre ouvi dizer que é preciso cuidado ao lidar com panelas de pressão. Ora, se pessoas experientes dizem isso, eu, que não sei nada sobre cozinhar, ficava muito temeroso de explodir a panela, o telhado, a casa. Depois de décadas criando coragem e depois de conversar com algumas pessoas, hoje, pela vez primeira, cozinhei feijão.

A primeira dificuldade foi colocar a tampa na panela. De jeito nenhum aquela se encaixava nesta. Custou-me deixá-las em sintonia. Mesmo assim, foi um encaixe que não me convenceu. Todavia, melhor eu não consegui. Liguei a chama do fogão e comecei a torcer — de longe, sempre no temor de a panela explodir a Via Láctea. O tempo foi passando e nada de a panela começar a fazer aquele chiado típico.

Comecei a ficar muito preocupado. Além do mais, em dois pontos da panela, borbulhas começaram a escapar pela tampa, em que há a inscrição “3 sistemas de segurança”. Esses dizeres, em vez de me acalmarem, mais alarmados me deixaram, pois se não houvesse um grande perigo, não haveria três sistemas de segurança. Entre supor que a inscrição seja apenas mais uma barata jogada de “marketing” e acreditar que de fato há perigo, considerei somente a segunda hipótese.

Por via das dúvidas, saí da cozinha e fiquei observando, de uma “esquina” da casa, noutro cômodo, o que ocorria com a panela de pressão. Fiz com que o Tito, meu cachorro, fosse para o quintal, a fim de protegê-lo de uma possível explosão, mesmo ciente de que esse cuidado com o Tito seria inútil caso a Via Láctea fosse dizimada.

Os minutos foram de apreensão, de agonia. Enquanto as borbulhas saíam tampa afora, eu não sabia se aguardava mais um pouco ou se me arriscava a ir correndo até o fogão para desligar a chama, fugindo logo a seguir. Por fim, timidamente, o chiado começou; depois, um dispositivo sobre a tampa da panela começou a girar. Eu nem me lembrava da última vez em que havia escutado esse saudoso chiado aqui em casa.

Acalmado então, chamei o Tito de volta e disse a ele que o Universo, em tese, não estava mais em risco. Ele ficou aliviado com a notícia. Minutos depois, apaguei a chama, esperei algum tempo, destampei a panela. Um inebriante cheiro de feijão tomou conta da cozinha. Peguei uma colher furada, joguei o feijão sobre o arroz. A aventura foi muito exigente. Daqui a algumas décadas, reflito sobre fritar ou não um ovo. 

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Bacana















Este é o Vicente, conhecido como Bacana (ou como Chazim). Meu pai e o Bacana tocavam juntos com muita frequência. Era comum ensaiarem num cômodo que ficava ali na praça Bandeirantes (quem também participava dos ensaios era o Formiga, de cujo nome não me lembro). Na época em que esses ensaios ocorriam, eu devia ter, suponho, uns sete ou oito anos. O Bacana gostava de bater na corda mais grave do contrabaixo imitando o que seria o embarque de uma locomotiva. Ele começava golpeando a corda e ia gradativamente aumentando o andamento, até o momento em que a “locomotiva” atingia velocidade de cruzeiro. Meu pai sempre me levava a esses ensaios. Eu mal via o Bacana e já pedia a ele algo do tipo “cara, faz a locomotiva”. 

Com muita frequência, passo em frente ao local de trabalho do Bacana, onde ele ainda vive às voltas com instrumentos musicais, com equipamentos de som e com quem lida com música, seja em que nível for. Sempre que eu passava por lá, ocorria-me o pensamento de que eu precisava fotografar o Bacana, um modo meu de homenagear não só um personagem que marcou minha infância, mas também um modo meu de homenagear uma das grandes figuras da cidade. Na sexta-feira, dia 19 de novembro, conversei pessoalmente com ele e mencionei o desejo de fotografá-lo. Ele topou. Fizemos as fotos hoje pela manhã. 

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

A rocha, o vendaval, a onça sem fome


Há dias, recebi um vídeo, que, tenho a impressão, é montagem. Nele, uma escavadeira, sem intenção de, deixa uma rocha descer uma encosta. Segundos depois, a rocha se aproxima de um carro azul. Nesse momento, o espectador tem dimensão abrangente do tamanho da rocha; ao que parece, ela vai esmagar carro e motorista, que buzina. A rocha para ao lado do carro, tocando-o de leve. Nesse momento, o vídeo termina, com uma voz masculina comentando: “Nossa Senhora! Se essa mulher não buzina, a pedra não tinha parado, não”.

Não sei como a voz sabia que era uma mulher que estava dirigindo (pode até ser que nem houvesse motorista dentro do carro, tendo o barulho de buzina sido acrescentado depois, em edição), não sei onde o fato teria ocorrido, não sei quando teria ocorrido. Sendo peça de ficção ou sendo um breve registro do que estava diante da câmera do celular, o vídeo vai além do divertido comentário feito pelo homem, mesmo já valendo a pena pelo humor que tem.

Antes de eu comentar sobre o alcance não apenas humorístico do vídeo, ele me remeteu a uma montagem fotográfica que me enviaram há alguns anos. No registro aéreo, feito com grande angular, havia uma série de casas de madeira destruídas, quem sabe, por um vendaval, por um tornado ou por algo assim. Em meio aos destroços, intacta, incólume, altiva, orgulhosa, bem no meio do quadro fotográfico, uma única casa. Claro que a inverossimilhança, nesse caso, não é problema. A imagem vale não pelo caráter de realidade com que não se preocupou (nem tinha de se preocupar), mas pelo que ela prega: além da foto, havia uma frase de cujas palavras não me lembro com exatidão. Eram mais ou menos assim: “O Senhor protege a casa do que tem fé” (o que nos leva a concluir que, na fotomontagem, os que estavam nas casas derrubadas não tiveram fé ou não a tiveram, talvez, o bastante — não sei se a fé tem gradações ou se é algo absoluto).

Tanto o vídeo quanto a foto ilustram a crença de que ações ou rogos humanos têm poder de interferir no curso dos acontecimentos ou da natureza, como se os acontecimentos se importassem com a gente, como se a natureza se importasse com a gente. Certa vez, um amigo comentou que, esperando por um ônibus num abrigo, em estrada de roça, percebeu uma onça atravessando o caminho. Ela olhou para ele por um ou dois segundos; logo após, foi embora. Conclusão do amigo: “Ela não estava com fome nem tinha filhotes com fome”.

Se o felino estivesse com fome ou se os filhotes dele estivessem com fome, o amigo poderia ter sido uma opção no cardápio. Não passariam pela cabeça do bicho coisas como “Fulano é gente fina, é um professor responsável, é dedicado pai de família. Vou poupá-lo”. Um vendaval ou um furacão destrói indiscriminadamente, sem levar em conta a fé das pessoas ou sem levar em conta se o cidadão já quitou a última prestação da casa. Uma rocha despencando pela ribanceira não vai mudar o trajeto nem vai parar de rolar por causa de uma buzina, que pode ter sido acionada num reflexo (o que não mudaria a trajetória da rocha).

A natureza é indiferente a prédicas, a apelos, a orações. O homem a modifica não por intermédio do que diz ou do que pensa, mas por meio do que desmata, do que polui, não importa o nome que se dê (desespero na hora do aperto, reflexo, fé) no instante em que alguém roga ou buzina na intenção de modificar a física, a química, a biologia. Do mesmo modo que nada intervirá a favor da zebra no momento em que o leão estiver a centímetros do pescoço dela, nada interferirá a nosso favor quando uma onça faminta ou que se sente ameaçada estiver a centímetros de nos abocanhar. Se nos safarmos, não terá sido por causa de algumas palavras proferidas nem por causa de uma buzina a percorrer o espaço com desespero. A natureza teria sossego se o homem, sempre tão preocupado com o próprio umbigo, se contentasse com proferir palavras ou com buzinar. 

quinta-feira, 22 de abril de 2021

A mais gostosa e iluminadora solidão é a que se tem no banheiro

Sou cantor de banheiro. Apresento-me para multidões, canto melhor do que o Robert Plant, toco guitarra melhor do que o Celso Blues Boy. Vou lavando a alma, enquanto berro o mais desafinado que consigo as canções que vão comigo para o banho: já tenho a coleção musical que curto em cartão de memória que está no telefone. Via “bluetooth”, conecto o telefone à caixa de som; ambos tomam banho comigo. 

O resto é me apresentar em plateias mundo afora. Gosto de deixar, no celular, o programa de execução de música no modo aleatório. Caso surja uma canção que não estou interessado em escutar-berrar-junto, já deixo o telefone posicionado de modo que, mesmo sob a ducha, consigo pular de faixa.

No banho de hoje, o tocador de canções escolheu, minutos depois do início do banho, “Where the streets have no name” — a gravação original (tenho outras versões da canção). Mal o teclado deu sinais de vida, já fiquei doido. Quando veio o baixo, eu já estava contagiando um estádio inteiro. Esgoelei o máximo que pude. Enquanto eu “cantava”, eu me lembrei de um texto que li certa vez na revista The New Yorker, um belo ensaio sobre o U2. Lembro-me de que o crítico fez comentários sobre “Where the streets have no name”.

Terminada a faixa, peguei uma toalha, sequei o rosto e me preparei para a próxima canção do show. O tocador de música logo veio com 

Moro onde não mora ninguém
Onde não passa ninguém
Onde não vive ninguém
É lá onde moro
Que eu me sinto bem
Moro onde moro

De repente, mal tendo começado a emitir o segundo verso da canção, dei-me conta de que há, em termos de letra, possíveis afinidades ou sintonias entre “Where the streets have no name” e “Moro onde não mora ninguém” (sábio tocador de canções). Assim sendo, where the streets have no name, moro onde não mora ninguém. 

De pai para filho

A história ocorreu ontem, dia 21 de abril de 2021. O atendente perguntou a um garoto de uns cinco anos:
— Você está bem?
O garoto respondeu:
— Eu estou ótimo!
Surpreso com o tom muito animado da resposta, o atendente disse:
— Que bom! O que deixou você tão bem?
— Estou feliz porque o coronavírus acabou. Graças a Deus.
— Hum... Fica esperto. Ele não acabou, não.
— Acabou, sim. Meu pai é que me contou. 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Instâncias de uma torneira

A torneira da pia vinha me avisando que morreria em breve. Não querendo sair por causa da pandemia, que não é “só uma gripezinha”, fiquei adiando a substituição da torneira, que, ontem, não mais resistiu. Tendo ela parado de funcionar, fui a uma loja de material de construção.

Quando lá cheguei, o vendedor me perguntou se a torneira era de bancada ou se estava fixada numa parede (os cômodos de minha casa convivem comigo há uns vinte e sete ou vinte e oito anos). A pergunta desestruturou aquilo de que sou feito, pois eu simplesmente não me lembrava se a moribunda torneira era de bancada (não sei o que é uma bancada) ou se estava fixada numa parede. Mesmo sabendo o que é uma parede, eu não me lembrava se a torneira estava fixada numa.

Segundos se passaram. Para que o bagaço em mim não ruísse sobre o piso de uma loja de material de construção, saí de lá e vim aqui conferir a torneira, que estava quietinha, fixada numa parede. Voltei à loja. Escolhido o modelo da torneira, o vendedor me entregou um papelzinho e apontou um caminho a seguir.

Cheguei ao caixa, paguei. A atendente, depois de me entregar um papel, disse-me que eu teria de atravessar a rua para buscar a torneira. Atravessei, cheguei a um cômodo em cuja entrada havia uma placa na qual se lia “Clientes”. Um funcionário me disse que eu teria de passar por um largo portão e procurar por uma janela de vidro que ficava à esquerda do portão; diante dele, um funcionário me indicou a direção da janela de vidro.

Cheguei a ela. Do outro lado do vidro escuro, eu não conseguia enxergar direito a funcionária; ela me disse algo que não consegui escutar com exatidão. Ela ergueu a voz. Continuei não escutando, mas supus que ela estava me pedindo o papel que me havia sido entregue quando paguei pela torneira.

Entreguei o papel para a funcionária. Ela se movimentou; segundos depois, devolveu-me o papel e apontou um caminho; eu deveria cruzar um pátio e chegar a um cômodo em cuja parede havia, salvo engano, o número 415. Atravessei o pátio. Entrei no cômodo 415, portando o papel que me havia sido entregue pela funcionária que trabalha atrás do vidro escuro.

Entreguei o papel a um jovem, que logo se afastou e foi buscar a torneira. Quando voltou, o jovem, além da torneira, entregou-me um pedaço de papel, dizendo que eu deveria mostrá-lo ao senhor que estava na entrada (ou na saída) do depósito. Quando mostrei o papel ao senhor, ele pegou a sacola em que estava a torneira, retirou-a, leu o papel que me fora entregue momentos antes pelo jovem, leu a embalagem da torneira. Comparou o quê com não sei o quê e me liberou. Kafka é aqui.

Eu não saberia substituir a torneira morta pela torneira jovem. Entrei em contato com um amigo, que fez a substituição. Dentro da pia, uma tonelada de coisas a serem lavadas. Fiz a estreia da nova torneira. Como a anterior estava difícil de ser manejada, lidar com a nova me deu ânimo súbito para a chata tarefa de lavar louças e utensílios.

Não ficaram nem mais limpos nem mais sujos do que ficavam quando eram lavados diante da torneira velha. Ela estava recalcitrante, é verdade, mas não é a torneira, desde que ela funcione, ainda que capengando, que definirá o quão limpas as louças ficarão. A torneira nova, é verdade, facilitou o trabalho, sem, todavia, em si e por si, fazer com que eu me tornasse um exímio lavador de talheres, de vasilhas e de similares.

Recentemente, comprei nova câmera fotográfica, depois de supor que minha anterior havia morrido em definitivo. Não havia; foi possível consertá-la. Antes do conserto, eu comprara uma câmera nova, que facilita meu trabalho, pois as especificações dela são melhores do que as da anterior. Não tenho feito registros melhores com a nova câmera, pois não é uma torneira nova que faz com que as louças fiquem bem lavadas. 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

“Impeachment” e diferenciações

Não é somente sobre aqueles que não sabem diferenciar um camelo de um dromedário que o chefe do executivo federal tem influência. Ele tem influência também sobre quem acredita em cloroquina no tratamento contra covid-19, quem acredita que ele é um ungido, um enviado que é bom demais para estar pisando solos tão mundanos, pois o pastor ou o padre assim disseram, quem acredita que ele é competente e trabalhador, quem acredita que não houve corrupção durante a ditadura militar ou quem acredita que a corrupção acabou de dois anos para cá...

Não bastassem os milhões acima, há outros milhões: os que agem de má-fé, os que são a favor de que não haja alíquotas de importação para armas e defendem impostos sobre livros, os que se julgam cientes por lerem a Veja, os que acreditam em qualquer coisa que for dita pela tal da chamada grande mídia, os que enxergam sagacidade em seres como Alexandre Garcia, os que defendem “espiões” embutidos em vacinas, os que querem torturas e ditadores, os que admiram Luciano Hang, os que são adeptos do tribalismo masculino, os que não se importam com o que está ocorrendo em Manaus, os que desdenham do isolamento social...

A chamada grande mídia finge faniquito quando o mandatário berra a ignorância dele (o que ele tem berrado há décadas). Essa mesma grande mídia convence milhões de que ela nada tem a ver com a tragédia que é ter colaborado para que esteja no poder um cara sem o menor senso de algo que soe como espírito público, civilidade ou empatia. Para piorar, em meio à classe política, há muitos deles lucrando, seja de modo literal, seja de modo figurado, com o estado das coisas como estão. A parcela dos hipócritas que se fingem arrependidos (hipócritas porque o próprio chefe do executivo federal divulga há tempos a crueldade e a preferência por dizimações) é pequena e não está a fim de exercer pressão sobre políticos. Pelo que escrevi até agora e por questões que eu nem saberia anunciar, não vai haver o “impeachment” presidencial.

Por fim, é preciso escrever com justeza. Nem todo mundo que não sabe diferenciar o camelo do dromedário, o rato do camundongo, o coelho da lebre, o jacaré do crocodilo, o vírus da bactéria, a guitarra do contrabaixo, o coentro da salsa, a Winona Ryder (em qualquer filme) da Keira Knightley (em Desejo e reparação), o Brasília do Variant votou no defensor de torturadores. Muita gente não sabe diferenciar nada disso, mas não ignorou a obviedade escancarada pelo próprio defensor de genocídios e por tantos outros que desde que surgiu para a cena política, o político que diz ter histórico de atleta já gritava ser o que tem sido. Quem nega isso não sabe diferenciar um burro de um presidente.

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Uma jovem senhora

Os modos são civilizados, polidos. O jeito de caminhar é leve, mas calculado; é como se estivesse desfilando, mas sem espalhafato. É que a vida é uma passarela. Ela sabe que atrai. Os gestos, também estudados com dedicação, querem passar ideia de espontaneidade. A voz é doce, tem alguma melodia, que, se escutada, deixa escapar, em seu timbre, alguma afetação, que a jovem senhora insiste em esconder. Quase sempre, com sucesso.

Nas reuniões com os amigos e nas redes sociais, procurando falsa modéstia, dá notícia das doações que faz todo ano; se há um gesto caridoso, como, digamos, um alimento que é dado a um faminto, isso é divulgado. Não com alarde, o que seria trair a tão almejada classe, mas com discrição que camufla o ego enorme. A jovem senhora sabe fingir que não quer atenção para si o tempo todo. Sorri para ricos e para pobres.

Jacta-se de dizer em quantos países já esteve. Chega a um lugar, tira fotos em algum monumento famoso e corre para outra cidade; lá chegando, tira fotos em algum monumento famoso e corre para outro país; lá chegando, tira fotos em algum monumento famoso e corre para outro continente. Com o corpo, já esteve em muito lugar. Gosta de Paris. Mas adorar, adora mesmo é Nova York. Quanto às belezas do Brasil, vive a falar bem delas sem ter vontade de conhecê-las; mal conhece a cidade em que vive.

Ela cuida da linguagem, embora haja na jovem senhora alguma ilusão quanto ao português que tem e muita ilusão quanto ao inglês que emite. Dependesse dela, teria a língua de Trump como nativa. Em situações públicas, sejam pessoais, sejam virtuais, o carisma, mais pensado do que genuíno, entoa cânticos a favor da paz, envia elogios à gentileza e aos bons modos, declara-se tocado pela arte de Romero Britto, propaga amor à natureza.

Também não espontâneo, há um certo recato. Os desavisados, diante de cada parte do que ela é, recebem o impacto do todo, sem desconfiarem de que sob o aspecto liso, saudável e belo do rosto dela há uma jovem senhora que não gosta de pretos, não gosta de pobres, não gosta de índios, não gosta de gays. Muitos gostam dela por não saberem quem ela é; muitos gostam dela por saberem quem ela é.

Para ela, o Brasil precisa ser higienizado; pensa que não faz sentido um país que não seja habitado por peles branquinhas. Ela, que já lamenta não haver em terras tropicais o branco da neve, não lida bem com o desconsolo que sente quando tem de sair de casa e se deparar com pessoas suadas e de pele encardida, adjetivo este de que ela se vale quando se refere às pessoas que realizam trabalhos braçais ou que pegam ônibus. Para ela, só ditadores resolvem esses problemas.

O marido pertence a um clube. Não basta existir para frequentá-lo. É preciso ser convidado, é preciso ser eleito. A confraria divulga a si mesma como filantrópica. Na prática, dedicam-se a jogos políticos que enriquem a si mesmos e depenam os pobres. Quando o marido da jovem senhora está nas reuniões do clube, não é raro ela estar se refestelando no corpo do musculoso amante. 

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Dinheiro limpo

O senador Chico Rodrigues (DEM-RR) é um dos políticos que mais conseguiram liberar dinheiro de emendas em 2020. O governo do presidente, até terça-feira (14/10), empenhara R$ 15.637.645,00 em emendas do senador, que foi um dos vice-líderes do chefe do executivo federal no senado. Dadivoso, Chico Rodrigues deu emprego para um primo dos filhos do mandatário.

As nádegas e a vizinhança delas comportam, como já é sabido, dinheiro. Em suas intimidades, o senador portava R$ 17.900,00 reais. A título de curiosidade, fiz conta simples, para saber quantas pessoas, em média, seriam necessárias no transporte de R$ 15.637.645,00, levando-se em conta a quantidade de dinheiro que Chico Rodrigues tinha consigo.

Não tendo eu feito a conta incorretamente (caso os cálculos estejam incorretos, gentileza me corrigir), 873 pessoas, arredondando-se para baixo, seriam necessárias para carregar os R$ 15.637.645,00 na cueca. Sabe-se a quê cheira a grana que estava com Chico Rodrigues. O que não se sabe é se 872 pessoas já lavaram o dinheiro. 

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Chega de índios

É... Ainda bem que os europeus chegaram aqui em 1500. Há quem diga que chegaram antes. Não importa. O que importa é que chegaram. Por que foi bom eles terem chegado? Ora, porque índio só sabe botar fogo nas coisas. O que seria da natureza do Brasil se os europeus não tivessem chegado aqui? Mesmo hoje em dia, aqueles danados (não os europeus, mas os índios) insistem em destruir a natureza. Pelo menos se estivessem incendiando a casa deles... Se fosse isso, seria um favor que estariam fazendo para nós. O problema é que ao botarem fogo no ambiente, os índios acabam prejudicando quem não é índio, ou seja, os índios acabam prejudicando as pessoas.

Não vou nem mencionar que esses selvagens preguiçosos e iletrados não sabiam nada de Deus antes de os europeus chegarem aqui. Um bando de almas pagãs que não conheciam desígnios e preceitos divinos. Os caminhos do Senhor precisam ser ensinados, não importa se em latim, não importa se com chicotadas. O problema é que essa raça não emenda. Voltaram a botar fogo no que não é deles. Dessa vez, foi lá no Pantanal. Ah, mandasse eu no país... Eu botaria fogo é nesse bando de índio. No mínimo, eu colocaria essa raça para trabalhar. Estou aqui agora num calor danado. Culpa de quem? Desses índios ignorantes que nem falam inglês nem empreendem. Raça improdutiva, indolente, inútil.

Ainda bem que depois dos europeus, vieram os norte-americanos. Eu gosto dos europeus, mas eu gosto de verdade é dos norte-americanos. Aquilo, sim, é um país. Quanta pujança, quanta organização, quanta disciplina. O American way of life é a evolução ou a quintessência da civilidade. Aqui no Brasil, ainda temos de aturar aquela gentalha morena e beiçuda que se sente no direito de queimar o que é nosso por direito. Pudesse eu, pediria apoio dos EUA (país que é modelo para mim, para o Brasil e para o mundo): no mínimo, obrigaria esses índios a se adaptarem ao modo de vida norte-americano. Se quisessem, assim seria; se não quisessem, ou seriam torturados ou seriam dizimados.

Odeio o que atrapalha o progresso, o que é contrário aos caminhos de Deus, o que não é pudico, familiar, virtuoso, patriótico. Por fim, odeio gente hipócrita, gente que diz estar em comunhão com a natureza, mas taca fogo nela. É muita cara de pau, indecência e nudez dessa gente. Sou um sujeito refinado, já estive em dezenas de países, adoro Nova York, conheço Paris como conheço minhas palmas. Não suporto gente suja, suada, caipira, brega. Em vez de banhos de rios, que, aliás, vivem poluindo, esses índios precisam é de um banho de cortesia e de civilidade. Ainda bem que essa gripezinha, que fracotes chamam de covid-19, não afetará o paradigma supremo; diante de todo esse bando de gente descalça e empoeirada, diante desse bando de índios sem caráter, may Trump help us. 

sábado, 31 de agosto de 2019

Tia Olinda

Esta é minha tia Olinda; ela é irmã de meu pai (ele morreu há vinte anos). Olinda tem oitenta, é viúva há sessenta. Se não me engano, um trem de ferro passou por cima do ex-marido dela numa visita que ele fez a um parente em Barbacena. Viúva aos vinte anos, Olinda nunca se casou novamente. Ela e o ex-marido tiveram três filhos.

Há um tempão era ideia minha fotografar a tia Olinda, que é uma senhora simples e que mora no mesmo lugar, uma casa também simples, desde que tenho memória. Durante a sessão de fotos, ela disse que a casa estava desarrumada, mas comentei com ela que minha intenção era buscar certa espontaneidade não só no lugar, mas também em minha tia.

Para isso, nada de poses mirabolantes; ademais, não faria sentido pedir isso a uma senhora. Procurei apenas pedir a ela que se virasse e que ora encarasse a lente, ora não a encarasse. O ensaio foi breve e frutífero. A tia Olinda não ficou sem jeito diante da lente, para a qual ofereceu expressão e olhar fortes.

Enquanto eu tirava as fotos, ela ficou rememorando as histórias da família, em especial, as ligadas a mim e a meus irmãos. Num certo momento, disse-me que quando eu era pequeno, eu dizia que queria ser escritor quando eu crescesse. Eu jamais me lembraria disso. 

A rigor, mesmo depois de a tia Olinda ter mencionado a pequena história, não consigo me lembrar de alguma vez ter dito que eu queria ser escritor. Mesmo assim, fiquei contente em saber que na infância eu expressava esse desejo, que, afinal, concretizou-se. 

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Os insistentes

Não sabemos rastrear o fio da memória. Do “nada”, uma lembrança vem à tona. Hoje, eu me lembrei da Amway. Fiquei o dia todo com a lembrança na cabeça. Depois do trabalho, fiz breve pesquisa, na intenção de saber se a empresa ainda existe. Não entendi muito bem o que era (nem entendi há pouco, conferindo a página deles) a Amway quando algumas pessoas me procuraram para que eu me tornasse, se bem me lembro, consumidor e vendedor do empreendimento. Conferindo a versão brasileira do sítio deles, leio o trecho: “Somos a maior empresa de vendas diretas do mundo”. Há ainda: “Bônus de Ativação, Bônus de Performance, Bônus de Liderança, Bônus por Novas Qualificações”.

Não sei se a companhia mantém hoje o “modus operandi” da época em que alguns vendedores deles me procuraram. Ainda no sítio, há a informação de que estão no Brasil há vinte e sete anos, ou seja, desde 1992. A memória que tenho nunca foi prodigiosa quanto a datas, mas enquanto fiquei matutando sobre a Amway, tive a sensação de que os representantes dela haviam me procurado antes desse ano.

Não faço a menor ideia de como me acharam, não me lembro de nenhum dos que vinham aqui em casa. Nada de nomes, nada dos rostos deles; quase tudo sumiu. O que ficou: chegavam de carro e estavam sempre com roupas impecáveis. Pena que roupas não impedem chatice. Eram uns caras muito aporreantes. Fosse hoje, suponho que eu teria sido menos sutil; fosse hoje, eu teria achado um modo de pedir a eles que não mais me procurassem. Na época, não agi assim. Sou de 1970; isso quer dizer que eu tinha vinte e um ou vinte e dois anos quando esse pessoal chegava por aqui. A velhice não é pretexto para que se perca a polidez, mas tira o drama que há quando temos de pedir a alguém que não mais nos procure. Na época, não tive o expediente de deixar claro para eles que eu não estava nada interessado no que eles estavam me propondo.

Difícil imaginar uma pessoa menos apta para vender do que eu. Por falha minha, não sabiam disso; repetiam e repetiam, num proselitismo monótono, que eu deveria ser parte da Amway. Na época, não estando eu enganado, era mais ou menos assim: se eu topasse o negócio, eu teria de ser cliente da Amway, comprando uns produtos deles (não sei se são os mesmos tipos de produtos anunciados no sítio deles conforme o que conferi há pouco) e, ao mesmo tempo, não estando eu incorreto, tendo de oferecer a possíveis compradores esses mesmos produtos. Pode não haver exatidão nessa logística apontada por mim; mesmo assim, estou certo: eu teria de lidar com vendas.

A falta de talento para vender não impede a desconfiança quando dinheiro fácil é anunciado. O pessoal que vinha aqui em casa me enchia de fartas promessas de ganhos financeiros, o que, segundo eles, permitiria que eu realizasse meus sonhos, fossem eles quais fossem. Do pouco que ficou na memória daquelas visitas inconvenientes, há uma frase, dita por um dos caras que estavam aqui: “Meu sonho é enviar meus filhos pra estudar na Europa”.

Não sei se o sonho dele se concretizou. Que tenha se concretizado. A impressão que eu tinha na época é a de que o pessoal que vinha aqui estava iludido quanto à possibilidade de ficar rico em pouco tempo. Pode ser que tenham mesmo ficado ricos em pouco tempo, pode ser que sejam ricos hoje (torço mesmo para que sim); do que sei, é que minha inépcia para vender não me deixaria milionário, fosse eu seguir a proposta deles, nem daqui a um milhão, quinhentos mil e duzentos e treze anos. Além do mais, não tenho talento para ganhar dinheiro.

Eu me lembro vagamente de que havia uma espécie de hierarquia, uma classificação para os vendedores. Pedras preciosas é que nomeavam essas classificações. Nada entendo de gemas, mas digamos que o diamante fosse o topo no sistema criado pela Amway naquele tempo; o auge, pois, seria tornar-se um vendedor-diamante. Sei que eu não sairia da base da pirâmide.

Em retrospecto, percebo que errei ao não ter deixado claro para eles que eu estava achando tudo aquilo muito cansativo. Fui convidado a participar de pelo menos uma reunião. Claro que não fui. Isso, penso, deveria ter sido motivo para que eles não me procurassem mais. Eu não ter ido à tal reunião parece ter atiçado ainda mais o desejo deles em me tornar um dos integrantes da rede. Sim, eram um porre, mas isso não implica dizer que fossem maus indivíduos. Não lembro se eram de Patos de Minas. Na época, eu pensava neles como pessoas maçantes querendo dinheiro de um modo que não se ajusta ao que sou. 

Se alguém que trabalha na Amway (ou para a Amway) ler este texto, entenda que ele não é um ataque contra ela nem contra quem presta algum serviço para ela nem contra quem recebe salário da empresa nem contra quem tenha se tornado um vendedor rico, mas apenas o registro de lembrança que me chegou hoje, lembrança de uns caras insistentes e bem vestidos. Se você que me lê agora é um dos que vinham aqui, que você e seus companheiros de venda tenham ficado ricos. Tendo ficado ou não tendo ficado, sintam-se convidados para um café, desde que não insistam em me oferecer algo para eu vender.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Terêncio e o juiz

Não raro, eu me esqueço das coisas que escrevi. O assunto de que vou tratar neste texto, suspeito, já foi abordado por mim. O problema da repetição não me incomoda, mas sei que pode incomodar um leitor ou outro. Releve, pois, a repetição, você que com ela se incomodar.

Eu tinha uns sete ou oito anos. Estava aqui em casa um cantor ensaiando algumas canções com meu pai, que tocava violão; não me lembro do nome dele (o do meu pai, eu me lembro). Esse cantor se dizia muito religioso. O papa da época era o João Paulo II. Num momento em que não estava havendo ensaio, o interlocutor de meu pai disse que o papa era “um homem santo”.

Meu pai começou então um longo discurso contra essa ideia, alegando que, antes de ser papa, Wojtyła era homem, e, como tal, estava sujeito às intempéries, fraquezas e nobrezas que podem ocorrer com qualquer um. O cantor não concordou; voltaram, ele e meu pai, ao ensaio, este ficando com o elemento humano do papa; aquele, com o suposto caráter divino do representante católico.

Não raro, meu pai tecia duros comentários contra padres, categoria que para ele era desprezível. Sempre que ele ficava sabendo de alguma ação danosa realizada por alguém da igreja católica, ele vinha sempre com o discurso de que “a pior classe de gente que existe são os padres”. Nunca entendi essa aversão dele contra religiosos católicos. Eu deveria ter conversado com meu pai sobre essa questão; como isso nunca ocorreu, fiquei sem saber por que os delitos de outros profissionais eram mais tolerados do que os delitos do clero. Claro que se espera que um padre, em teoria, seja virtuoso, mas, como meu pai sempre dizia, antes de alguém ser padre, esse alguém é um homem, e meu pai era capaz de nomear a hipocrisia quando diante dela. Ele morreu; fiquei sem saber a razão de tanta ojeriza dele contra padres. Há canalhas em qualquer profissão.

O que restou disso em mim foram a resignação e a ciência de que o ser humano é capaz dos atos mais vis, não importa quem ele seja. Felizmente, não ficou em mim apenas o ranço contra a espécie. Meu pai tinha bem desenvolvido e definido o senso de que podemos ser imprestáveis; todavia, ele não conseguiu desenvolver com a mesma acuidade o senso de que podemos valer alguma coisa. O resultado em mim de ter convivido com uma pessoa como meu pai foi que logo, logo eu já sabia que não valemos grande coisa. Disso, graças ao modo como meu pai encarava a vida, eu soube desde cedo; em contrapartida, ainda bem jovem aprendi que pode haver beleza em nós.

A convivência com a literatura solidificou o pensamento de que podemos ser uns trastes, bem como intensificou a ideia de que temos capacidade de nobreza, o que a vida acabaria me mostrando e ainda me mostra. Uma das consequências naturais da criação que recebi por intermédio de meu pai e das leituras que fui realizando foi a de não edificar ídolos, pois já estava arraigada em mim a constatação de nossos humanos limites; outra consequência foi não ter me tornado um ingênuo. Dos seres humanos, espero o pior, ciente de que somos capazes do melhor.

Na juventude, eu ainda não conhecia a máxima do Terêncio: “Sou humano; nada do que é humano me é estranho”. Mesmo sem conhecer a sentença, já corria em mim o remédio que me fazia entender que marmanjos que estupram uma garotinha ou filha que mata a mãe se valendo de um machado são expressões de capacidades humanas. Isso não significa ser inabalável, isso não significa que crimes não merecem punição; significa tão somente não encarar o pior de nós como se não fôssemos capazes de atrocidades.

Obviamente, esse pensamento é estendido às esferas da vida como um todo. Não importa se o delito venha de um pedreiro, de um médico ou de um professor, há em mim a resignação ou a compreensão de que estamos sendo nada mais do que humanos quando incorremos em erros, sejam eles pequenos, sejam grandes. Convivo com o outro na profunda certeza de que ele tem o pior e o melhor da espécie, na certeza de que tenho o pior e o melhor da espécie.

Mesmo assim, por muito tempo, tive dificuldade em entender a credulidade que é sintoma de tola ou de perigosa ingenuidade. O que leva alguém a acreditar, por exemplo, num pastor que alega fazer milagres ou num juiz politiqueiro que se arvora como representante da justiça? Todavia, quando eu me fazia esse tipo de pergunta, eu não estava me dando conta do óbvio: a credulidade ingênua ou a ingenuidade crédula são também expressões do que significa ser gente. “Nada do que é humano me é estranho”. 

quarta-feira, 10 de abril de 2019

A inflação e as mangas

Mais um índice do governo federal neste ano: a inflação do mês de março atingiu a maior taxa desde 2015, segundo o Valor: 0,75%. Todavia, o próprio governo já deu a solução para o problema, pelo menos no que diz respeito à alimentação: se faltar grana para a comida, a ministra da agricultura, pecuária e abastecimento, Tereza Cristina, dá a dica: “Nós não passamos muita fome porque temos mangas nas nossas cidades”.

Não sei como estão os mangueirais no Brasil afora. Nas palavras da ministra, “não passamos muita fome”, o que autoriza a conclusão de que há quem passe alguma fome; e que só não passam mais fome graças às mangas; ou que se o sujeito estiver com fome, é só ele se valer de mangas, já que, de acordo com a ministra, há delas em nossas cidades. De fato: daqui de casa, pude divisar dois pés de manga, um em cada um de quintais nas redondezas.

A fala de Tereza Cristina também autoriza concluir que aquele que por ventura estivesse passando fome poderia ter uma alimentação à base de manga; ou só de manga, já que se o sujeito não tem dinheiro para comprar outros alimentos, restaria a ele a opção de ir ao pé de manga mais próximo e colher uma fruta. Se ela não estiver totalmente madura, esse sujeito pode, talvez, pedir algum sal emprestado, na tentativa de temperar a iguaria.

A ministra não revelou dados sobre se o número de mangueirais atenderia de modo apropriado os que têm fome. Mas caso ela concorde com o pensamento do Paulo Guedes, pode ser que ela esteja levando em conta que, dependendo da situação, quando o sujeito se aposentar, recebendo quatrocentos reais por mês, como a reforma da previdência prevê num dos casos, haverá, quem sabe, dinheiro para comprar... mangas, as quais, além de estarem à disposição, segundo Tereza Cristina, nas cidades, podem ser adquiridas nas casas do ramo. 

domingo, 8 de julho de 2018

Resenha sobre meu livro

A “booktuber” Isabella Lubrano, do canal Ler Antes de Morrer, publicou resenha de meu livro Anacrônicas.