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quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Docentes, discentes e outros entes

Com frequência, digo que se boa parte das pessoas que parabenizam os docentes quando é quinze de outubro se preocupassem ou tivessem se preocupado em ser bons alunos, a educação seria um pouco melhor. Com isso, nem preciso dizer, não estou desprezando as congratulações que vêm dos estudantes que têm ou tiveram comportamento decente. Dito isso, quando não é o dia dos professores, a tônica é falar mal da escola, não importa se a pessoa tenha sido uma daquelas que em sala de aula exibiam comportamento deplorável.

Há algum tempo, no Facebook, alguém postou um texto atribuído à Lya Luft, intitulado “O traje”, em que ela discorre sobre o desleixo que se tem com o português. Uma senhora vaticinou, nos comentários da postagem, de modo lacônico, a causa desse desleixo: “Isto é a escola que temos”. Esse prosaico exemplo confirma a tendência de se criticar a escola como um todo.

Tenho convivido há muito tempo com a necessidade de escrever algo a favor dos professores. Contra nós, já há muito modismo, muita burrice disfarçada de pedagogia e muitos burocratas. Todavia, este texto, antes de ser uma defesa a favor dos que lecionam, mesmo eu sabendo que não precisam de alguma intervenção minha, é, antes de tudo, consequência de ideias que preciso materializar. As vivências de que me valho são em maioria as que tive no ensino médio, embora não sejam tão diferentes nos outros níveis da educação.

Durante a maior parte de minha vida, lecionei em escolas particulares. Sempre tive as ferramentas necessárias para realizar meu trabalho. Desde 2014, leciono em instituto federal; os institutos federais fazem parte da rede de escolas públicas da União. Aqueles que não concordarem com o teor deste texto podem, talvez, alegar que tanto nas escolas particulares em que trabalhei quanto no instituto federal eu não vivenciei nem vivencio a precariedade do ensino público dos estados. Estão certos nessa alegação.

É verdade que não trabalhei nem trabalho em ambiente precário. Mas não sou alienado. Tenho colegas professores que trabalham na rede estadual. Converso com eles, sei das dificuldades que têm de enfrentar. Sei também que tanto em Minas Gerais quanto em outros estados há escolas mais precárias do que algumas que conheci.

O que me incomoda é que, com frequência, quando se fala mal da educação, responsabilizam os professores pelas fraquezas do ensino. Com relação a isso, de antemão, devo dizer que não sou ingênuo. Certa vez, aqui em Patos de Minas, visitando uma escola estadual, onde eu falaria sobre literatura, a convite de um professor, escutei, durante o intervalo, uma professora dizendo que, depois de terminada a faculdade, nunca mais havia lido um livro. E completou: “Eu me formei há dezesseis anos”. Sei bem que há professores que não cumprem o mínimo do que é da obrigação deles.

Quando se fala mal da educação, nem sempre as pessoas têm acuidade. Quando criticam o ensino, estão culpando o governo estadual, a falta de estrutura das edificações ou os professores? Ou estão criticando tudo isso? No que diz respeito aos professores, a maioria deles não é do tipo que nunca leu nenhum livro depois que se formou. É difícil uma semana em que não me deparo com algum professor ou alguma professora da rede pública estadual fazendo muito mais do que é o dever dele ou dela. Enquanto isso, o tempo vai passando. Mais um quinze de outubro vem. Os professores são elogiados. Terminado o dia, a culpa pelo fracasso do ensino volta a ser dos docentes.

Não bastasse, passou-se a delegar à escola funções que não são dela. Coisas que deveriam ser aprendidas em casa têm, agora, de ser ensinadas em sala de aula. Há muitos anos, numa palestra cujo tema era ética, o palestrante iniciou a fala dele dizendo que era difícil falar sobre ética, pois ela é algo que percebemos se a pessoa tem (ou não tem) pela maneira como ela abre uma porta. Os professores têm de ensinar a uma pessoa de dezesseis anos como se abre uma porta ou como se portar quando alguém está dando uma aula.

Tem-se, então, um quadro em que parcela da sociedade culpa os professores pelo fiasco da educação. Isso, por si, é ruim. Mas os professores têm outro algoz, não importa se na rede pública estadual ou federal: o próprio sistema escolar. Nesse jogo de apontar o dedo para aqueles que supostamente não fazem o que deveriam fazer, o aluno deixou de ser responsabilizado. O discente fica de fora do problema.

Os que estão em cargos de comando na educação têm o mantra de que o professor deve aprender, deve se atualizar, deve estar em sintonia com o mundo, deve saber falar a linguagem da juventude. Qualquer professor que já tenha estado numa escola para lecionar já escutou essa prédica, que é correta, embora aplicada de modo deturpado. Falar a língua do aluno não é o mesmo que ter de ser extrovertido, de ter de ser comediante.

Em tese, todo professor é um leitor. Ele pode até não cumprir sua função quanto às leituras que deveria sempre fazer. Mas os que estão em cargos de comando na educação, salvo exceções, não dizem ao aluno o que ele deve fazer. Ainda que digam ou que façam de conta que dizem, na prática, as atitudes são de quem está exigindo somente dos professores.

Ensinar se torna então mais complicado ainda. O mundo fora da escola diz que o aluno deve ter sempre o mais recente modelo de celular, diz que ele deve consumir drogas em festas, que é a roupa que define o caráter, que basta tomar refrigerante para se alcançar a felicidade. O mundo fora da escola é o mundo da permissividade.

Esse mundo não dirá ao aluno que o universo do conhecimento nem sempre vai ser divertido; não dirá que o estudante pode vir a ter muitos fracassos, por mais inteligente que seja; não dirá que sisudez e timidez não são defeitos; não dirá que a sutileza é poderosa. O mundo fora da escola prega ousadias barulhentas, declarações inconsequentes. O mundo lá fora dirá que o estudante não merece um não, dirá que ele tem direito, imediatamente, ao que quer, ainda que não tenha lutado por isso.

O mundo fora da escola é o mundo do sim perene, da conquista sem esforço, do conhecimento sem dedicação, da ausência da dor e da obrigatoriedade da alegria. O professor, pela natureza da profissão, não deveria coadunar com essas ideias. Só que ao não coadunar, ele se torna um pária. Professor bom prega profundidade e concentração; elas não são indicativos de caretice nem impedem o surgimento do humor.

Na maioria das vezes, o professor tem a clara ciência de que o que ele propõe está contra a onda irresponsavelmente hedonista do mundo fora da escola. O professor segue, a despeito de suas limitações, tentando fazer seu trabalho. O problema é quando ele fraqueja. Antes de ser um profissional da educação, o professor é gente. Quando fraqueja, no mais das vezes, estará sozinho. Vão dizer a ele o que ele já sabe: que ele deve se informar, que ele deve falar a língua do jovem...

Na prática, não há, nos cargos de comando, contundentes profissionais (na teoria, há) a perguntar para os estudantes se eles tentam entender a linguagem dos professores ou se eles, estudantes, estão dispostos a agir em consonância com a ideia de que o caminho do conhecimento é trabalhoso. Não dizem que o aluno terá de estudar demais e terá de aprender a falar corretamente se quiser ir mais longe em si mesmo. Não perguntam aos estudantes o que eles têm feito para assimilarem o legado dos que vieram antes deles.

Sempre resguardadas as exceções, os que estão no comando burocrático da educação serão contundentes com apenas um dos lados da moeda, o lado de quem está empenhado em passar para os alunos coisas que o mundo fora da escola não diz a eles. Nesse cenário, o professor fica sozinho. Volta para casa remoendo a deselegância do estudante ou a incompreensão dos que ocupam cargos de chefia, que, na maioria das vezes, terão o discurso usual, o de que faltou nele, professor, o traquejo, o manejo ou a experiência para saber dialogar com a juventude.

Essa juventude, que ainda não aprendeu que o mundo das ideias é bem mais profundo do que uma mensagem em aplicativo de celular, seguirá mimada. Para boa parte dos que estão no comando burocrático da educação, basta que o professor seja uma espécie de animador de auditório como os que há em programas dominicais para ser considerado bom; alunos ingênuos pensam de modo similar. Os comandantes continuarão a adular os jovens, mesmo quando fazem de conta que não adulam. Os jovens, por sua vez, seguirão cheios de si, numa empáfia que é típica da idade e que é incentivada por quem deveria estar dando apoio aos professores. Há todo um aparato dentro do sistema escolar dizendo para o professor, o tempo todo, o que ele deve fazer; não há nem esboço de estrutura similar a sugerir para os estudantes o que eles deveriam fazer. Nada se fala do papel do aluno na melhoria da educação. A juventude seguirá blindada; os professores seguirão desguarnecidos.

Boa parte da sociedade culpa os docentes. Boa parte do sistema educacional culpa os professores. Nesse massacre, muitos dos que lecionam passaram mesmo a acreditar que são de fato os culpados pelo desastre que a educação se tornou, pois é isso que os detratores reiteradamente apregoam. Qualquer professor trocaria as mensagens açucaradas vindas deles ou de burocratas em quinze de outubro por atitudes firmes de apoio nos demais dias. 

domingo, 24 de julho de 2016

Uma formiga sem qualidades

Sempre volto à questão do trabalho. Se eu não me policiar, acabo me tornando monotemático. Não que eu me culpe por isso. Mas sempre busco variações, seja por atender a um desejo interno de escrever algo com outro teor, seja na ilusão de soar eclético. Só que desta vez volto à arena trabalhista. Que o assunto não esteja cansando supostos leitores.

Nas páginas iniciais de “O homem sem qualidades”, do Robert Musil, o narrador, segundo tradução de Lya Luft, diz: “Ganhou-se em realidade, perdeu-se em sonho. Não nos deitamos mais sob a árvore, espiando o céu entre o dedo grande do pé e o dedo médio, mas trabalhamos; também não devemos nem passar fome nem sonhar demais, se quisermos ser eficientes, mas comer bifes e fazer exercício. É exatamente como se a velha humanidade ineficiente tivesse adormecido sobre um formigueiro; quando despertou a humanidade nova, as formigas tinham entrado no seu sangue, e desde então ela precisa fazer movimentos incessantes, sem conseguir se livrar desse chatíssimo ímpeto de fanatismo pelo trabalho”.

Qualquer cidade com cem mil habitantes já deixa nítido que a imagem do formigueiro, usada por Musil, cai bem para o mundo que criamos para nós. Talvez, nessa comparação, possa-se dizer que elas, as formigas, sejam mais organizadas do que nós. Sendo ou não, vistos de cima, somos, por assim dizer, formigas nos movimentando pelas cidades.

Boa parte desse movimento é causado pelo trabalho. Rendemo-nos a um furor veloz que precisa ser produtivo, que necessita de números, de estatísticas, de bater as metas do mês anterior ou do ano anterior. Joga-se sobre o indivíduo a responsabilidade por coisas que não dependem só dele. Se a venda de março foi inferior à de fevereiro, a culpa é sempre de quem não soube navegar nas “águas de março”. É mais fácil culpar alguém do que admitir que há coisas que não estão sob nosso controle.

O maior ato de rebeldia é acreditar na individualidade. Que seja luta inútil, mas é luta nobre de que não se pode desistir. Tal qual é configurado no todo, não se pode deixar que o trabalho seja nosso dono. Em maior ou menor grau, todos somos vítimas do mundo. É preciso fugir dos algozes, que são poderosos. Todos estão aí para nos impedir de sermos o que somos, ainda que não tenhamos exatidão quanto ao que somos.

Apesar dessa inexatidão, estamos muito longe de sermos o que quer de nós o mercado. Quando me refiro ao trabalho, não defendo uma horda de preguiçosos, mas uma legião de criativos. São poucos os que têm a oportunidade de trabalhar naquilo que de fato sabem fazer, em algo que não tome mais da metade de suas vidas com alguma coisa que terá embotado a criatividade. No mundo trabalhista como ele é, no geral, o que querem de nós são somente números, seja de horas a mais trabalhadas, seja de metas a serem batidas.

Nem menciono a impossibilidade de cada um fazer o que tivesse vontade de — isso é privilégio de poucos. O que sempre defendo é que não podemos ser engolidos pela sanha trabalhista. É imprescindível preservar em nós o poderio que temos de criar, não importa o pendor da criatividade. Precisamos achar um tempo para nós, para o que somos.

Volto a Musil. Ainda nas páginas iniciais de “O homem sem qualidades”, e ainda na tradução de Lya Luft, lê-se: “E como a posse de qualidades pressupõe certa alegria por serem reais, podemos entrever como uma pessoa que não tenha senso de realidade nem em relação a ela própria pode sentir-se de repente um homem sem qualidades”. O trabalho, na maior parte dos casos, impede que tenhamos acesso a nossas maiores riquezas. Privados da realidade que somos em essência, tornamo-nos formigas sem qualidades.