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domingo, 30 de janeiro de 2022

A história por trás da(s) foto(s) (109)





Nas fotos, Mateus Dias (contrabaixo, vocal), Vithor Psycho (bateria, vocal), Junnyn Martins (guitarra, vocal) e Lucas Rabelo (teclado), integrantes da banda Cena de Cinema. Quando me pediram que eu fizesse alguns registros de uma das apresentações deles, eu já sabia, de antemão, que o lugar em que tocariam é iluminado por um tipo e uma cor de luz. Comecei a pensar então num tipo de iluminação que eu poderia levar na intenção de tornar os registros coloridos, em vez de deixá-los praticamente monocromáticos.

Com isso em mente, decidi que duas luzes seriam o bastante para o visual que eu vislumbrava. O passo seguinte foi escolher as cores dessas luzes. Optei pelo vermelho e pelo azul. Levei, pois, dois flashes e os tecidos azul e vermelho, já fabricados com o propósito de conferirem à luz a cor que cada um dos tecidos tem. 
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Abaixo, rede social da banda e dos integrantes dela:

@bandacenadecinema
@mateusdias.bto
@vithorpsycho.bto
@junnynmartins
@uscal
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Abaixo, ficha técnica das fotos:

1/160
f/5.6
ISO 400

sábado, 18 de dezembro de 2021

Cléverson Lima

Fiquei sabendo há pouco que o Cléverson Lima morreu. Estava morando na cidade de onde veio, Araxá. Quem frequentou bares em Patos de Minas na década de 1990 e na década de 2000 se lembra do Cléverson Lima.

Não havia como não gostar dele: agregador, talentoso, carismático; tinha humor involuntário e uma capacidade assombrosa de saber de cor toneladas de canções; sobretudo, foi um sujeito com alma generosa, boa. Assistindo a shows dele em bares de Patos de Minas e da região, tive momentos memoráveis, catárticos. Assistir às apresentações dele era um modo de ser feliz.

Não sei detalhes sobre a morte do Cléverson. Num áudio que me enviaram, é dito que infarto foi a causa. A fim de materializar minha admiração pelo Cléverson, eu o mencionei em dois de meus livros: no Algo de Sempre, há um poema em que faço referência ao Cléverson; no Anacrônicas, há uma crônica sobre ele. Ambos os textos estão também neste blogue. Abaixo, links em que há a presença do Cléverson.
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https://liviosoares.blogspot.com/2008/09/clverson-lima.html

https://liviosoares.blogspot.com/2009/06/fotopoema-110-cleverson-lima_27.html

quarta-feira, 29 de maio de 2019

O amor musical de Lizandra

Graças a financiamento coletivo, a cantora Lizandra está lançando o EP Guia prático para amar de novo — Parte 1. O trabalho vai estar disponível em todas as plataformas digitais daqui a algumas horas, à meia-noite.

São quatro, as faixas, todas acústicas: “Te Amo Tanto”, “Só por Você”, “Varanda” e “Entardeceu”. Emerge delas a tradição lírico-amorosa da MPB; cenas do cotidiano são o cenário para as afetuosas letras das canções. “Logo de manhã cedinho / Eu paro pra te ver acordar”, diz a letra de “Te Amo Tanto”; já a de “Varanda” tem o seguinte trecho: “Eu largaria tudo por você / Uma rede, uma varanda / Amor simples de viver”.

Tem-se então que Lizandra celebra o amor, o amor do dia a dia, um amor prático, palpável. Um amor que não vem carregado de tintas melancólicas, seja pela delicadeza das interpretações, seja pelas letras em si. Fosse eu definir de modo muito breve o EP de Lizandra, eu diria se tratar de um trabalho terno e delicado. Nas quatro canções, a expressão de uma cantora que se entrega ao pop, com melodias agradavelmente cantáveis, sem deixar de fazer MPB. Longe de querer delimitar e longe de querer esgotar o trabalho da artista num gênero ou num rótulo, Lizandra faz MPB.

O Artur da Távola escreveu, salvo engano, em Do Amor, Ensaio de Enigma, que uma pessoa pronta para o amor é perigosa para qualquer “status quo”. Nesse sentido, Lizandra é muito perigosa, pois se lança mais uma vez em público e ao público para falar de amor ou do amor em forma de canções. Num Brasil em que parte da população, adoecida, orgulha-se da ignorância, Lizandra oferta para nós canções com roupagem simples e que têm a coragem e a rebeldia de cantarem o amor.

Sim, falar de amor é um ato de coragem e um ato de rebeldia num contexto em que coisas como ternura, delicadeza e conhecimento se ausentam. Em tempos assim, falar de amor é compor um libelo; o de Lizandra tem essa audácia de falar de amor em meio a gritos de ódio e atos de desrespeito. Guia prático para amar de novo — Parte 1 é alento por nos lembrar de que há uma humanidade bonita e viável.

Nas quatro faixas, a cantora tem interpretações delicadas, que estão em sintonia com a temática das letras e que evidenciam uma faceta que me soa nova: uma interpretação mais intimista e ao mesmo tempo mais à vontade, em que o lirismo se mistura com uma pitada de terna malícia. Em entrevista que realizei ontem com a cantora e compositora, ela disse estar mais madura como pessoa e como artista do que há cinco anos, quando lançou seu primeiro trabalho musical. Agora, com Guia prático para amar de novo — Parte 1 (em breve, haverá a Parte 2), Lizandra dá mais um passo a fim de mergulhar de vez em sua arte, corajosa para falar de amor, artista para nos tornar melhores. 

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Uma história e um vídeo



No dia treze de janeiro de 2008, Edgar, meu irmão, levou um tiro após uma briga de trânsito aqui em Patos de Minas. O que atirou e o que estava dirigindo a moto (ambos não tiraram os capacetes) no momento do disparo nunca foram identificados.

Quando recebi a notícia de que o Edgar havia sido baleado, eu estava em Caldas Novas com amigos. Momentos antes de eu ficar sabendo do ocorrido, eu havia comido muito. Tendo recebido a notícia, meu estômago ficou embrulhado, mas não cheguei a colocar para fora os alimentos.

Eram em torno de 21h quando fiquei sabendo do que havia ocorrido com meu irmão. Após ligações que fiz aqui para Patos, ficou decidido que eu sairia de Caldas Novas no dia seguinte, no primeiro horário de ônibus para Uberlândia. De lá, eu teria carona até Patos. Não consegui dormir naquela noite.

Os primeiros dias são muito difíceis. A gente fica sem saber o que fazer com o corpo de quem, de uma hora para outra, fica paraplégico. A esperança de que a pessoa volte a caminhar causa, no leigo, o temor de manejar o corpo do outro. Logo, logo, contratamos Diego Bueno Guimarães, enfermeiro que ficava aqui em casa durante o dia.

Ao mesmo tempo, eu e amigos passávamos os dias tentando vaga para que o Edgar pudesse ser atendido no Sarah, em Brasília, o que ocorreu pouco mais de um mês depois da briga que causou a paraplegia. Às noites, quando o Diego não estava aqui, eu colocava o relógio para despertar de duas em duas horas, a fim de mudar a posição do corpo do Edgar, para que ele não ficasse com escaras; devido ao tempo passado na cama e à quase imobilidade inicial, a pele pode ter feridas. O Sarah não admite pacientes com escaras.

Antes mesmo de meu irmão ir para Brasília, eu disse a ele que a partir do instante em que ele havia levado o tiro, a vida dele poderia ser encarada de dois modos: que ela havia acabado ou que ela havia renascido. É claro que eu torcia pela última alternativa, embora sem saber o que fazer para que ela existisse de fato no espírito do Edgar.

Na época, argumentei com ele que o mesmo capricho o qual fizera com que a bala o deixasse paraplégico poderia ter atingido um órgão vital. É uma questão de centímetros. Anos depois de ele ter levado o tiro, perguntei para o Edgar se ele achava que tinha valido a pena sair vivo daquela briga de trânsito. Ele respondeu: “Cê tá é louco: claro que sim!”.

Mas nada do que eu ou os amigos disséssemos não teria efeito se não fosse a atitude do Edgar em relação ao ocorrido e à vida como um todo. Dez anos depois do triste episódio, ele continua trabalhando, continua produtivo. Tanto é assim que está gravando um CD com músicas de autoria dele. A alternativa do renascimento tanto prevaleceu que o próprio Edgar diz que ele faz aniversário em duas datas: no dia em que nasceu e no dia em que levou o tiro.

Quando comentou comigo que gravaria um CD, propus a meu irmão fazermos um clipe que mostrasse o dia a dia dele. Ele topou. O clipe que mostra o cotidiano dele não é o desta postagem, embora já tenhamos filmado parte desse vídeo. O clipe desta postagem não deixa de mostrar uma parte do que o Edgar faz em seu dia a dia, mas a proposta foi desde o começo criar um clima mais intimista, devido ao astral da música.

Gravamos no Teatro Municipal Leão de Formosa, na tarde do dia dois de fevereiro de 2018. As pessoas a quem temos de agradecer por terem ajudado a realizar o projeto estão nos créditos; é o primeiro clipe que realizo. Para as tomadas estáticas, usei tripé. Para as tomadas em que há movimento, usei um trilho apoiado sobre duas cadeiras, que por sua vez estavam apoiadas sobre uma mesa, que por sua vez era carregada pelo palco do teatro. Em apenas uma das tomadas, a câmera estava sobre o piano. A fim de não danificá-lo, em vez de ela ficar sobre o trilho, eu a coloquei sobre uma toalha e puxei o tecido, imitando o movimento que o trilho possibilita.

Para os registros, usei uma Canon EOS 70D e duas lentes: uma delas (para a maioria das tomadas), uma Canon 50mm F/1.4; para duas ou três tomadas, uma Canon 18-135mm F/3.5-5.6. Em ambas as lentes, usei sempre a abertura máxima, variando ISO e velocidade conforme a luz.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Sonho pop

Na noite que passou, sonhei que a banda Information Society, sucesso aqui no Brasil na década de 90, havia regravado "Armadilha", do Finis Africae; a canção foi sucesso em meados da década de 80. No sonho, curti demais a regravação do Information Society, tendo me surpreendido a excelente pronúncia do vocalista.

A rigor, o trabalho, em vinil, era todo de canções brasileiras. Não me lembro de todas elas, mas, além de "Armadilha", havia "Amor, meu grande amor", da Ângela Rorô, também sucesso com o Barão Vermelho. Tanto "Armadilha" quanto "Amor, meu grande amor" tinham a pegada eletrônica do Information Society. 

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Poema malcriado


Anteontem, tive a honra de ter mais um poema que escrevi musicado por um amigo. Dessa vez, pelo Hérico Noronha. Assim que leu o Poema Malcriado, que postei mais cedo no Facebook, o Hérico comentou que o texto havia ficado a cara do Arnaldo Antunes. Diante disso, em tom de brincadeira, sugeri a ele que musicasse o poema. O resultado está nesta postagem.

A rigor, o texto foi escrito em treze de dezembro de 2011, data em que o postei aqui. Tentando achar outra postagem também aqui, acabei me deparando com o poema. Foi então que me decidi por publicá-lo no Facebook.

Ao Hérico, muito obrigado por ter musicado as palavras e muito obrigado pelas conversas divertidas que tivemos via WhatsApp, enquanto decidíamos que rumos tomar quanto à letra e ao astral da melodia criada pelo Hérico. 

sábado, 29 de outubro de 2016

Um amor


A estudante Thamara Oliveira faz o primeiro ano do curso de eletrotécnica integrado ao ensino médio. Há alguns dias, em conversa casual, combinamos de eu entregar a ela uma letra, para que ela fosse musicada.

A rigor, entreguei um poema (quando escrevi o texto, não pensei nele como letra de música). Quando a Thamara o leu, ela disse que tentaria musicá-lo. Ontem, ela me enviou o resultado, em gravação caseira. 

O terrível encontro

Em sentido amplo, a afinidade musical não é imprescindível para que artistas se juntem e façam música. Nesses casos, quando se tem alma de artista, a música, por si, é o elo. Sendo linguagem universal, ela faz com que o encontro flua: o repentista e o roqueiro podem conviver num mesmo palco.

Isso, é claro, não quer dizer que não haja afinidades musicais. Se, por um lado, o encontro pode se dar entre artistas que não as têm, por outro, essas mesmas afinidades podem motivar a celebração.

Caso se leve em conta os trabalhos musicais de Luiz Salgado e de Alan Delay, Ciro Nunes e Lucas de Paula (que fizeram parte da banda O Berço), a princípio, poder-se-ia dizer que Luiz Salgado tem a vertente do cancioneiro popular, ao passo que Alan Delay, Ciro Nunes e Lucas de Paula estariam numa vertente mais voltada para o rock.

Todavia, um olhar mais aproximado revelaria que há entre esses artistas afinidades instigantes. Em Luiz Salgado, existe a pesquisa da cultura popular e o diálogo com sonoridades contemporâneas — sonoridades essas que são evidenciadas em seu mais recente trabalho, “Quanto mais meus óio chora, mais o mar quebra na praia”. Já os ex-integrantes da banda O Berço, em que pese a pegada roqueira que têm, deixam claras em seus trabalhos musicais as influências da cultura popular.

Tem-se, pois, diferentes abordagens diante do fazer musical. De um lado, um cantor popular que bebe nas novas sonoridades; do outro, artistas sintonizados em tendências contemporâneas bebendo em fontes populares. Partindo de pontos diferentes, as produções deles acabam chegando a resultados com mais semelhanças do que diferenças.

Tal sintonia poderá ser conferida no Teatro Municipal Leão de Formosa, hoje e amanhã, quando Luiz Salgado, Alan Delay, Ciro Nunes e Lucas de Paula farão um show. No repertório, além de canções deles, releituras de trabalhos de outros artistas. Haverá participação de convidados.

“O Terrível Encontro” será o nome do espetáculo. Segundo Lucas de Paula, esse nome é uma homenagem a um cantador violeiro que conhecem; ainda de acordo com Lucas, sempre que o cantador chega, diz: “É um prazer terrível estar aqui”. Sei que será um prazer terrível conferir esse show. 

terça-feira, 19 de julho de 2016

“Quanto mais meus óio chora, mais o mar quebra na praia”

Não é fácil criar música que tenha a intenção de manter tradições populares. Empresários não investem nesses trabalhos, as rádios não os executam e boa parte da nova geração, que pouco se vale do rádio para escutar música, em suas redes sociais ou dispositivos eletrônicos, tem acompanhado o que anda sendo feito no que a mídia convencionou chamar de sertanejo universitário.

Num contexto assim, é louvável que Luiz Salgado invista numa vertente que, antes de ser música, tem um papel social importante, que é o de não abrir mão de tradições. Elas compõem aquilo de que somos feitos. Negá-las é negligenciar um manancial poderoso e poético. Conhecer aquilo que é nossa substância não implica fechar os olhos para o que vem de fora, para o novo, para o outro.

“Quanto mais meus óio chora, mais o mar quebra na praia” é o mais recente (o quinto) CD de Luiz Salgado; o trabalho tem quinze faixas. Não há corte radical no CD se comparado aos demais já lançados por Luiz Salgado. Todavia, de modo mais intenso, o artista se mostra capaz de promover uma gostosa mistura entre elementos caipiras e sonoridades atuais.

Estão presentes no CD a religiosidade interiorana, o cerrado, o canto triste do sertanejo, a folia de reis, a temática social, a viola. Um dos grandes méritos de “Quanto mais meus óio chora, mais o mar quebra na praia” é ter conseguido fazer com que esses elementos não soem datados (de fato, não são), mas evidenciar que têm muito a dizer sobre o que somos.

Em contrapartida, os robustos arranjos imprimem nas canções uma profunda sintonia com o que há de mais, digamos, urbano, contemporâneo. O trabalho é tradição; ao mesmo tempo, soa atual. Há mistura de gêneros, de influências, sem que o todo pareça saturado. Tradição sem ressentimento, modernidade sem concessões mercadológicas.

Nessa amálgama feita do que é antigo e do que é novo, o trabalho tem viola caipira e solo de guitarra. É um CD lírico, um cântico às tradições que abraça com bela alma musical os recursos atuais. Luiz Salgado está tradicional como sempre, atualizado como nunca. 

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Todos mundos


Eu sei de um monte de impossibilidades.
Conheço nãos de nuances diversas.
Tenho familiaridade com fracassos.
Eu pavimentei a rota do inviável.

Só que hoje tudo é comunhão.
Eu canto sem medo, não estou só.
Celebramos a harmonia acalentada.
Somos  um: eu, tu, ele, nós, voz, eles. 

domingo, 20 de março de 2016

Do fundo do cérebro


Certa vez, numa aula de inglês do ensino médio, havia na apostila um texto sobre o amor. Um determinado trecho dizia sobre amar do fundo do coração. Foi quando uma aluna pediu para falar: “A gente ama é do fundo do cérebro”.

Eu soube na hora que não me esqueceria disso, por concordar demais com o que ela acabara de dizer. Perguntei à aluna se a frase era dela; ela me disse que não, contando-me de quem ouvira a pérola; não me lembro do nome da pessoa que havia dito a ideia para a aluna. De tempos em tempos, a frase volta a meu... cérebro.

Ontem, fui conferir música ao vivo com os amigos Piêit e Alexandre. Executaram uma canção que eu não conhecia. Mas foi uma daquelas canções pelas quais, de imediato, sentimo-nos atraídos. Hoje, entrei em contato com o Alexandre, que me passou o nome dela: “Love on the brain”, da Rihanna.

Naturalmente, foi só ler o título da canção para que eu me lembrasse do que minha aluna havia comentado em sala de aula. Entrei em contato com o Alexandre há pouco, às 20h43. Desde então, tenho escutado a canção sem parar. Sei que essa história vai longe hoje ainda, bem como vai continuar amanhã. É só uma canção pop. Mas, do fundo do cérebro, logo gostei dela, também pela pegada da letra. 

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

A música azul de Piêit

O que mais me chama a atenção quando escuto o trabalho de Piêit é a capacidade que ele tem, a partir de suas canções, de criar um clima. Num sentido amplo, toda canção tem, por assim dizer, seu clima. Do modo como encaro o trabalho de Piêit, o clima não é a consequência dos arranjos ou da letra, mas o ponto a partir do qual algo será composto; a impressão com que fico é a de que o clima é que é, antes de tudo, buscado. Letras e arranjos seriam, nesse modo como encaro o EP “Azul” (lançado em janeiro deste ano), “pretextos” para se chegar a um determinado clima.

No que diz respeito à sonoridade, é nítida em “Azul” a influência de algo do pop dançante e eletrônico e de muito do rock, em especial uma vertente do rock com tons mais soturnos, como o feito pelo Radiohead ou mesmo pelo Coldplay, levando-se em conta os trabalhos anteriores a “Viva la vida or death and all his friends”. As letras de “Azul”, reflexivas, fazem jus ao clima intimista que permeia o EP, a despeito dos momentos em que o som fica um pouco mais pesado.

Intérprete de timbre grave e de recorrentes falsetes, Piêit imprime nas letras das canções um tom peculiar e bastante pessoal. Não se rendendo a modismos disseminados em programas de competição televisivos, em que se tenta reproduzir no português a escola americana de canto, Piêit confere individualidade ao que canta. Desnecessário dizer que isso é muito bem-vindo. Já conferi apresentações do artista em que ele foi acompanhado apenas por um violão; em momentos assim, a capacidade de interpretação de Piêit parece falar ainda mais alto.

A página pessoal do cantor no Facebook anuncia turnê para breve. Se você ainda não conhece o trabalho, escute “Azul”, bem como o primeiro EP do artista, “Demasiado”, lançado em agosto de 2014. E se tiver a oportunidade, confira algum dos shows da turnê que virá e que já foi anunciada, embora ainda não tenham sido divulgados nem locais nem datas. Piêit compõe o profícuo momento da música vivido na cena local de algum tempo para cá, em que os artistas estão investindo em canções autorais. A exemplo dos demais intérpretes e instrumentistas daqui com trabalhos próprios, Piêit tem uma linguagem profundamente contemporânea, o que o livra de bairrismos bobos. 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

A prece de Maria


Minha convivência com a canção “Mary’s prayer” (que traduzo abaixo) se iniciou no fim da década de 80. A faixa é de 1987; integra o álbum “Meet Danny Wilson”, da banda... Danny Wilson. O trabalhou chegou a ser trilha sonora de uma novela da Globo, o que fez com que fizesse algum sucesso por aqui, embora tal sucesso não tenha sido estrondoso.

Há algum tempo, escrevi que não entendo a temática de algumas canções do Zé Ramalho, o que, claro, não me impede de gostar delas. O mesmo vale para “Mary’s prayer” — por mais que eu leia e releia a letra, não consigo me definir sobre a temática dela.

Já vasculhei na internet: há várias “teorias”. Lembro-me de que uma delas alega que a letra é sobre um assassinato. Gary Clark, o autor, já declarou, laconicamente, que “Mary’s prayer” é apenas uma canção de amor. A despeito do título e das referências à religião, ele negou o teor religioso ou místico da faixa.

Tenho fascínio por “Mary’s prayer”, que é lírica e reflexiva. Trechos como “se você quiser que a fruta caia, você tem de dar uma sacudida na árvore / Mas se você sacudir a árvore forte demais, o galho vai quebrar” têm fina ironia e possibilita profícua reflexão.

Devo dizer que há várias versões da letra da internet. Pela natureza do inglês, é fácil haver confusões quanto a que palavras estão sendo cantadas ou faladas. Tenho comigo que o próprio Jason Donovan, que regravou “Mary’s prayer”, modificou a letra, e, creio, por tê-la escutado incorretamente. Donovan canta “did I have to make mistakes when I was Mary’s prayer”; o correto é “did I have to make this mess when I was “Mary’s prayer”. Além do mais, há uma versão ao vivo no Youtube, com a banda Danny Wilson, em que a pronúncia de “this mess”, em vez de “mistakes”, é muito clara. (Eu também pensava que o correto era “mistakes”; cantei a letra errado por muito tempo.)

Sei que se canta “this mess” pelo seguinte: depois de ter me deparado com uma série de versões do que é cantado por Gary Clark (não somente nesse trecho), entrei em contato com a banda, a partir do canal deles no Youtube, pedindo que me fosse enviada a letra. Um ano depois, quando eu já não esperava mais retorno, recebo a letra, enviada pelo próprio Gary Clark! Minha tradução se baseia no que ele enviou.
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Danny Wilson — Mary’s prayer

Everything is wonderful, being here is heavenly 
Every single day she sends, everything is free 
I used to be so careless, as if I couldn’t care less 
Did I have to make this mess when I was Mary's prayer 

Suddenly the heavens roar, suddenly the rain came down 
Suddenly was washed away, the Mary that I knew 
So when you find somebody you keep 
Think of me and celebrate 
I made such a big mistake when I was Mary’s prayer 

So if I say “save me, save me”
Be the light in my eyes
And if I say ten Hail Marys
Leave a light on in Heaven for me

Blessed is the one who shares your power and your beauty, Mary 
Blessed is the millionaire who shares your wedding day 
So when you find somebody you’ll keep 
Think of me and celebrate 
I made such a big mistake when I was Mary’s prayer  

So if I say “save me, save me” 
Be the light in my eyes 
And if I say ten Hail Marys 
Leave a light on in Heaven 
Save me, save me 
Be the light in my eyes 
And if I say ten Hail Marys 
Leave a light on in Heaven for me 

If you want the fruit to fall, you have to give the tree a shake 
And if you shake the tree too hard, the bough is gonna break 
And if I can’t reach the top of the tree, Mary 
You can hold me up there 
What I wouldn’t give to be when I was Mary's prayer 

So if I say “save me, save me” 
Be the light in my eyes 
And if I say ten Hail Marys 
Leave a light on in Heaven 
Save me, save me 
Be the light in my eyes 
And if I say ten Hail Marys 
Leave a light on in Heaven 
Save me, save me, be the light in my eyes 

What I wouldn’t give to be when I was Mary’s Prayer 
What I wouldn’t give to be when I was Mary’s Prayer 
What I wouldn’t give to be when I was Mary’s Prayer 
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Danny Wilson — A prece de Maria

Tudo é maravilhoso, estar aqui é celestial
A cada dia ela se expressa, tudo é livre
Eu era tão descuidado, como se eu não pudesse cuidar menos
Eu tinha de fazer essa bagunça quando eu era a prece de Maria?

De repente um estrondo no céu, de repente a chuva caiu
De repente foi levada embora a Maria que eu conheci
Então quando você achar alguém com quem ficar
Pense em mim e celebre
Eu cometi um erro tão grande quando eu era a prece de Maria

Se eu disser “me salve, me salve”
Seja a luz em meus olhos
E se eu disser dez ave-marias
Deixe uma luz acesa no Paraíso para mim

Abençoado é aquele que partilha de seu poder e de sua beleza, Maria 
Abençoado é o milionário que partilha do dia de seu casamento
Então quando você achar alguém com quem vai ficar
Pense em mim e celebre
Eu cometi um erro tão grande quando eu era a prece de Maria

Então se eu disser “me salve, me salve”
Seja a luz em meus olhos
E se eu disser dez ave-marias
Deixe uma luz acesa no Paraíso
Me salve, me salve
Seja a luz em meus olhos
E se eu disser dez ave-marias
Deixe uma luz acesa no Paraíso para mim

Se você quiser que a fruta caia, você tem de dar uma sacudida na árvore
E se você sacudir a árvore forte demais, o galho vai quebrar
E se eu não conseguir alcançar o topo da árvore, Maria
Você pode me segurar lá em cima
O que eu não daria para ser quando eu era a prece de Maria

Então se eu disser “me salve, me salve”
Seja a luz em meus olhos
E se eu disser dez ave-marias 
Deixe uma luz acesa no Paraíso
Me salve, me salve
Seja a luz em meus olhos
E se eu disser dez ave-marias
Deixe uma luz acesa no Paraíso
Me salve, me salve, seja a luz em meus olhos

O que eu não daria para ser quando eu era a prece de Maria
O que eu não daria para ser quando eu era a prece de Maria
O que eu não daria para ser quando eu era a prece de Maria

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

(Seemingly) Nonstop A-Ha

A canção do dia foi “(Seemingly) Nonstop July”, do A-Ha. Anteriormente, já escrevi que curto a banda. Ontem, eu me lembrei de que há um tempão eu não escutava essa faixa. Comecei a escutá-la no começo da tarde. Não parei até agora. 

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

JAY-Z EM "LOST"

O trecho que o Jay-Z fala em “Lost”, do Coldplay, vai muito além de ser uma bela reflexão sobre o lado trágico que o sucesso ou a fama pode trazer. Por conter essa reflexão, o trecho já é riquíssimo. Não bastasse, os argumentos e os questionamentos que desenvolve acabam resvalando para a filosofia, a sociologia e o comportamento pérfido da mídia. Brilhante. 

domingo, 17 de janeiro de 2016

OUVIDO RUIM (2)

Mais uma para a lista das letras que foram escutadas incorretamente. Há pouco, eu estava curtindo “Loser”, do Beck (gosto demais dessa canção). No melodioso refrão, eu cantava: “So open the door / I’m a loser, baby / So why don’t you kill me?”. (Então abra a porta / Sou um perdedor, querida / Então por que você não me mata?)

Pois bem: como havia trechos da parte falada que eu não entendia em totalidade, fui ao Google conferir a letra. Foi quando ocorreu a revelação: o refrão tem uma estrofe em espanhol. Assim, a versão correta é: “Soy un perdedor / I'm a loser, baby, so why don't you kill me?”. (Sou um perdedor / Sou um perdedor, querida, então por que você não me mata?) 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

DIÁLOGO POP

— Cara, você sabia que o vocalista do Wallflowers é filho do Bob Dylan?
— E o que você quer dizer com isso?
— Eu quero dizer com isso que o Bob Dylan é pai do Jakob Dylan. 

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

AT WORK

Eu me culpo quando não gosto de uma banda legal. Men at Work é show de bola. Não curto. Não me desculpo. 

sábado, 19 de dezembro de 2015

"MIDNIGHT IN HARLEM"


Há momentos em que não tenho estrutura para o tamanho da beleza. Choro. Essas lágrimas são muito bem-vindas; são vislumbres de uma utopia, da possibilidade um mundo melhor, de uma beleza alcançável. Eu escutei, eu chorei, eu saí pulando, eu fiquei louco, eu urrei, eu devaneei. Nunca mais vou parar de escutar “Midnight in Harlem”.

NANDO REIS E O SUCESSO

Há um tempão estou querendo escrever sobre o Nando Reis, em função da genuína admiração que tenho pelo trabalho dele. Já cheguei a rabiscar apontamentos sobre o trabalho do cantor e compositor em pedaços de papel. Esses apontamentos se perderam, o texto não foi escrito. Padeço de procrastinação mórbida.

É assombroso o quanto Nando Reis é capaz de fazer canções populares, com refrões e melodias grudentos, que têm uma excelência avassaladora. Ele é um criador de sucessos. Há nele um popular e apurado senso poético; tudo isso desemboca em obras-primas extremamente cantáveis.

A música popular (ou o pop, como queira) não raro é execrada por alguns, que partem do estranho princípio de que se é popular, é ruim. Admitir que há obras-primas na canção popular não é o mesmo que ser condescendente com o de ruim que esse tipo de canção produz.

Há muita coisa ruim que faz sucesso, mas isso não é o mesmo que dizer que tudo o que faz sucesso é ruim. Nando Reis é sucesso; é excelente. O que lamento não é a música popular fazer sucesso, mas não haver mais canções populares de outros mestres sendo conhecidas.