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terça-feira, 8 de abril de 2014

DIGRESSÕES...

Ontem, lendo um ensaio do Jorge Luis Borges, eu me deparo com uma referência dele a Mark Van Doren, intelectual americano. Segundo Borges, Van Doren foi, em meados do século XX, um dos poucos a reconhecerem a diferença abismal entre o Walt Whitman cidadão e o Walt Whitman poeta. Escreve Borges sobre Whitman: “Passar do orbe paradisíaco de seus versos à insípida crônica de seus dias é uma transição melancólica”.

É a ideia, mencionada por Borges não somente no ensaio em que ele refere-se a Van Doren, de que é preciso separar o homem de sua obra. A vida do homem pode ser, para me valer do termo borgiano, insípida, sem que contudo sua obra o seja; ou o sujeito pode ser, por exemplo, um calhorda, e ainda assim produzir algo genial.

A rigor, não era disso que eu queria falar. Todavia, essa temática que envolve o homem e seu trabalho é por demais fascinante para mim; daí, acabei me deixando levar por digressões. Mesmo assim, minhas digressões são curtas; eu as resolvo em poucas frases. Não tenho talento para ser um Laurence Sterne.

Do que eu queria falar mesmo era de Charles Van Doren, filho de Mark Van Doren. Van Doren, o filho, é personagem de “Quiz Show — a verdade dos bastidores” [Quiz Show, 1994]. A direção é de Robert Redford. Ralph Fiennes interpreta Charles Van Doren. O filme tem por base o livro “Remembering America: A Voice from the Sixties”, escrito por Richard N. Goodwin.

Baseado em história real, “Quiz Show” conta com a participação de Charles Van Doren num programa de perguntas e respostas que fazia muito sucesso na TV americana no fim da década de 50. Van Doren torna-se celebridade na TV, é capa da Time, da Life. O sucesso de Van Doren faz com que a emissora o queira por mais tempo. Há então uma proposta: ele passaria a saber, de antemão, as respostas. Charles Van Doren topa; torna-se, assim, um engodo assistido por milhões.

A manipulação midiática surgiu junto com a própria mídia. Na fotografia, por exemplo, às vezes atribui-se, ingenuamente, a manipulação de imagens ao advento do Photoshop. Que nada! Digite aí no Google “Os trinta Valérios” e confira o que Valério Octaviano Rodrigues Vieira fez, ludicamente, em 1901! Manipulações são tão velhas quanto os meios em que estão presentes. Elas podem ser divertidas, podem ter caráter didático. Ou podem ser deletérias, como é o caso mostrado em “Quiz Show”.

No mais, releve as digressões. Geralmente, não as permito em texto meu, embora as admire em textos alheios. Mas neste aqui fui, para me valer de expressão antiga, “escrevendo ao sabor da pena”, ainda que digitando em velho computador. No fundo, acho que não sei escrever de modo digressivo; banindo digressões, mantenho a ilusão de que estou no controle absoluto do que escrevo. 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

"VINTE E UM"

Recentemente, assisti novamente a “Quiz Show” (1994). A direção é de Robert Redford, também conhecido como ator. O filme é baseado num livro de Richard N. Goodwin (“Remembering America: a voice from the sixties”) e conta uma história real. O roteiro cinematográfico ficou por conta de Paul Attanasio.

No fim da década de cinquenta, a NBC, grande rede de televisão americana, apresentava o programa Twenty-one, assistido por cinquenta milhões de pessoas. Na atração, dois competidores tinham de responder a perguntas feitas pelo apresentador. O primeiro a completar vinte e um pontos era o vencedor e continuava no programa. Quanto mais continuasse, mais dinheiro faturaria.

Em “Quiz Show”, Dan Enright (David Paymer), um dos produtores do programa, exige de Herbie Stempel (John Turturro) que ele erre de propósito uma das perguntas. A exigência de Enright se devia à pressão feita por um magnata patrocinador do programa – curiosamente, interpretado pelo diretor Martin Scorsese.

A intenção da emissora ao admitir Herbie Stempel no programa era passar a idéia de que os EUA são mesmo o lugar em que todos têm vez. Stempel é espontâneo, falastrão e feio. Ainda com ele curtindo ser celebridade, os produtores do programa, pressionados, saem à caça de outro concorrente.

É quando têm a chance de colocar Charles Van Doren (Ralph Fiennes) no ar: os dentes feios e irregulares de Stempel seriam substituídos pelo bonitão e aristocrático dândi Richard Van Doren, descendente de família de intelectuais e literatos.

Stempel não se cala e procura amparo legal, denunciando que o programa era uma armação. O caso chama a atenção do jovem, idealista e inteligente advogado Richard Goodwin (Rob Morrow), que trabalha para um comitê do Congresso. Goodwin inicia a investigação até chegar a Stempel.

Vejo “Quiz Show” não somente como um incisivo retrato das tramóias e mentiras que assolam meios de comunicação em todos os lugares (o filme já merece ser assistido por isso). Mas ele vai além. Realiza com maestria o retrato da vaidade, principalmente por intermédio do personagem Charles Van Doren.

Nada mais... humano (na falta de adjetivo melhor) do que o comportamento de Van Doren. A despeito da vasta e sólida formação cultural, ele não resiste à bajulação que passa a receber. Torna-se o “queridinho” da mídia e de executivos calhordas. Se por um lado Van Doren se rendeu à velha vaidade, seus algozes não pensaram duas vezes em bani-lo. “O show tem de continuar”.

Na vida real, por longo período, Charles Van Doren guardou silêncio quanto ao ocorrido. Em 2008, publicou relato (em inglês) na revista The New Yorker sobre o que viveu naquela época. Acerca do filme, o intelectual diz ter se aborrecido com o epílogo, que declara que ele não mais lecionou. “Não parei de lecionar”, escreve ele (mas não na universidade em que lecionava antes do escândalo). Diz ainda ter gostado muito da atuação de John Turturro como Herbie Stempel.

Todos queriam levar vantagem. Charles Van Doren e Herbie Stempel se predispuseram a fazer o jogo dos magnatas. Stempel e Van Doren ficaram deslumbrados pelo dinheiro e pelos afagos nos egos. O texto de Van Doren na revista The New Yorker é direto, parece sincero e detalha os meandros pelos quais passou. Encarando o passado, reflete: “O homem que trapaceou em Twenty-one é ainda parte de mim”.