Mostrando postagens com marcador D.H. Lawrence. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador D.H. Lawrence. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 31 de outubro de 2017

A dama e o guarda-caça

Em tempos nos quais muitos hipócritas fazem mais barulho por causa de uma pessoa nua do que pelas indecências do senado e da câmara dos deputados (muitos dos hipócritas barulhentos e indecentes estão nessas duas casas), O amante de lady Chatterley (1928), escrito por D.H. Lawrence, prossegue relevante. Dentre tantas coisas, o livro pode ser lido também como libelo contra a hipocrisia.

Num país como o Brasil, que, seja por má-fé, seja por ingenuidade, por interesse próprio, por ignorância, elencou alguns como corruptos e outros como salvadores, mas que, mesmo assim, continua elencando salvadores falsamente moralistas e verdadeiramente perigosos, O amante de lady Chatterley, que também permite leitura política, tem muito a dizer. Irresponsáveis, há no Brasil os que tecem elogios a torturadores e alegam que vão acabar com a corrupção. Mas o moralismo ditatorial de muitos só consegue enxergar a corrupção que vem de alguns. Mesmo quando dizem que gostariam de ver seus heróis na cadeia, de pronto se dizem apoiadores de quem elogia ditaduras e torturas. Defensores de “virtudes”, querem uma sociedade, na visão deles, ordeira, obediente.

Esses conservadores, alguns por ignorância, outros por questões interesseiras, reprovariam um livro como O amante de lady Chatterley, ainda que as cenas de sexo não sejam chocantes. O livro é um grande romance sob qualquer aspecto. O sexo é um desses aspectos, mas tão importante quanto os demais. Ainda que se leve em conta a ousadia do autor em ter usado palavrões numa época em que eles quase não frequentavam a literatura, o que o livro tem de grandioso quanto ao sexo são as ideias que ele defende. Ainda que não se concorde com Lawrence, ele tem uma teoria sobre o sexo e sobre o amor.

Todavia, não é somente com relação ao sexo que certos defensores dos bons costumes do Brasil atual reprovariam O amante de lady Chatterley. Como todo portentoso trabalho literário, o livro é vasto, multifacetado. A política ou as questões sociais são outro grande tema de que trata a obra, cujo enredo se passa quando os estilhaços da primeira guerra mundial ainda não haviam sido retirados das ruas.

Os guardiões da boa conduta no Brasil de hoje não aprovariam o modo como Clifford é retratado no livro. Ele, vítima da guerra, é também os preconceitos da classe a que pertence. O próprio Lawrence, em texto sobre o livro, admite que Clifford pode ter aspectos simbólicos. Ainda que Lawrence não tivesse admitido isso, a cena em que Clifford depende de Mellors para subir uma encosta é densa, ao contrapor o papel de duas classes sociais e de dois modos díspares de como encarar a organização política, o sexo e o mundo.

Clifford é o burocrata, o frio, o que se considera detentor de privilégios por meramente pertencer a determinada classe social. Mellors é o “selvagem”, o espontâneo, a força da natureza. Sobre Clifford, Lawrence, num ensaio, escreveu: “Ele é um produto da nossa civilização, mas é a morte da humanidade”. Ao se referir a Mellors, Lawrence diz que ele “ainda conserva o calor de homem” e que ele representa a vitalidade.

Como toda grande obra artística, O amante de lady Chatterley pode ser lido hoje sem que soe datado. Como toda grande obra artística, dialoga com a época em que foi produzida sem deixar de desvelar verdades atemporais. Dizer que se trata de um livro corajoso já seria um grande elogio, mas a coragem não é a única virtude da obra. Com vigor, com talento e com honestidade, Lawrence expõe a fraqueza e a pusilanimidade de pessoas que, a despeito de sua artificialidade, julgam-se superiores em função de privilégios econômicos.

Seja pelo ridículo de Clifford, pela coragem de Mellors, pela entrega de Constance Chatterley, pelo que tem de político, pelo que tem de amor, O amante de lady Chatterley é uma obra que incomodaria muitos dos supostos paladinos dos bons costumes e da boa moral no Brasil de hoje. Também por isso, num país em que a indecência, não raro, usa terno e gravata ou se diz religiosa ou gente de bem, é um livro de leitura imprescindível. 

domingo, 10 de maio de 2015

EM SALA DE AULA







Uma boa aula tem sobre o espírito o mesmo efeito de uma boa leitura: ambas são inspiradoras. Ontem à tarde, no Unipam, depois de três horas de aula com o professor Luís André Nepomuceno, pós-doutor em teoria literária pela Unicamp, saí inspirado.

Ele começou ontem o curso de extensão “Literatura e Psicanálise”; a continuidade será no dia vinte e três de maio. Segundo material distribuído pelo professor, os objetivos do curso são “analisar os conceitos fundamentais da psicanálise freudiana, como forma de identificá-los com uma teoria crítica da literatura” e “aplicar conceitos da psicanálise na leitura de textos literários diversos”.

Na aula deste nove de maio, Luís André fez uma introdução às ideias que precederam a psicanálise, tendo sempre em mente o ambiente histórico que produziu tais ideias. A seguir, conceitos fundamentais da psicanálise foram expostos, sempre com o viés histórico em mente. Numa terceira etapa, e à luz do que havia sido debatido durante a aula, foi lido o poema “Coleção de cacos”, de Carlos Drummond de Andrade. Para a aula de vinte e três de maio, além de produções drummondianas, estão programadas discussões de textos de Aníbal Machado, de Hans Christian Andersen, dos irmãos Grimm e de D.H. Lawrence.

Luís André Nepomuceno tem profícua trajetória acadêmica; vem se dedicando ao ensino, à pesquisa, à tradução e à escrita de ensaios. Paralelamente, é ficcionista, tendo publicado contos e romances pela 7Letras. Ele foi meu professor (de literaturas inglesa e americana) por dois anos; posteriormente, eu seria colega de trabalho dele no Unipam.

Por algumas vezes, em conversas com o Luís André, eu me vali do adjetivo “industrioso” para me referir à postura dele diante do mundo das palavras, sejam elas textos acadêmicos, sejam textos ficcionais. Ele produz muito. Como professor, o didatismo dele é do tipo que não tira nem a beleza nem a profundidade do que está sendo estudado. Consciente de seu papel de docente no ensino superior, oferta, com seu jeito diplomático de conduzir as relações em sala de aula e com sua cultura, momentos em que a beleza do conhecimento toma conta do ambiente.