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segunda-feira, 14 de setembro de 2020

O Pequod e o Brasil

Se apenas o que é visível for levado em conta, o enredo de Moby Dick (1851) é simples: Ahab, o capitão de um navio, saindo de Nantucket, nos EUA, embarca com a intenção de se vingar de uma baleia que havia devorado uma das pernas dele. Claro, trata-se de um livro em que há aventura. Todavia, Herman Melville (1819-1891) não escreveu somente sobre o percurso de uma embarcação rumo ao que seria seu destino: ler o livro assim seria como singrar a superfície das águas do mar sem cogitar suas profundezas. Moby Dick, como todo grande livro, está aberto a diferentes leituras, que se renovam, que podem descortinar uma grandeza tão descomunal quanto a de um cachalote.

Quem narra a história é Ishmael, que estava a bordo do Pequod, o vingativo navio baleeiro chefiado por Ahab. Já em alto-mar, ele, durante discurso inflamado contra a baleia que anseia por matar e com a intenção de aliciar a tripulação para sua causa, é interpelado por Starbuck, o primeiro imediato, que menciona a insanidade que é vingar-se de uma baleia, criatura que atacara Ahab por instinto. Não concordando com Starbuck, Ahab vocifera: “Todos os objetos visíveis, homem, não passam de máscaras de papelão. Mas em todos os eventos — na ação viva, na façanha incontestável — revela-se alguma coisa desconhecida, mas racional, por detrás dessa máscara irracional” [1].

Para Ahab, o cachalote que o atacou agira premeditada e racionalmente. Ao longo do livro, Ahab e a tripulação do Pequod atribuem a Moby Dick, a baleia, adjetivos de que nos valemos para nos referirmos a coisas humanas. O livro de Melville pode ser lido como um embate do homem contra a natureza, mesmo ele preferindo ignorar que ele mesmo é essa natureza contra a qual luta; lutar contra a natureza é lutar contra si.

Ahab, junto à tripulação, num ódio que é tão forte quanto convincente, insiste em justificativas irracionais para matar uma criatura que não é dotada de razão humana. Ele enxerga na baleia o que ele tem em si, numa relação que não é especular, pois o gigantesco animal marinho não é dotado da ciência de que Ahab é. Quando do primeiro encontro entre eles, Moby Dick lutou pela vida, enquanto era atacada por Ahab e comandados. Ao engendrar sua canhestra vingança e nela envolver outras pessoas, pois sozinho não conseguiria levar a cabo sua intenção, Ahab torna-se aquele que age movido não pela inteligência, mas pelo ódio, pela vingança. Moby Dick atacou não porque odiava, mas porque instintivamente queria sobreviver. Ahab quer voltar a atacar não porque precisa, mas porque odeia. Moby Dick lutou pela vida; Ahab quer lutar pela morte.

Há outro aspecto muito instigante em Moby Dick, o de que Ahab conseguiu fazer com que uma coletividade embarcasse numa loucura individual. Das várias análises a que o livro pode se prestar, essa é uma das mais profícuas. Ahab envolve o grupo, a partir de fervoroso discurso feito no tombadilho, na causa dele, que é o mesmo que dizer que Ahab envolve o grupo no ódio, palavra essa usada pelo narrador, que é dele, Ahab. Assim, o ódio de um se torna o ódio dos outros; o ódio de um é comunicado para os outros. Ao comunicar seu ódio com retumbância, Ahab contagia os demais. Diz Ishmael:

“Assim, pois, estava esse velho homem [Ahab], grisalho e sem Deus, perseguindo com maldições a baleia de Jó ao redor do mundo, comandando uma tripulação composta basicamente de mestiços renegados, náufragos e canibais — também debilitados moralmente pela incompetência da mera virtude ou honradez perdida de Starbuck, pela invulnerável jovialidade, indiferente e despreocupada de Stubb [o segundo imediato], e pela mediocridade que prevalecia em Flask [o terceiro imediato]. Tal tripulação, com tais oficiais, parecia ser especialmente selecionada e reunida por uma fatalidade diabólica para ajudá-lo em sua vingança monomaníaca” [2].

Tem-se, então, um sujeito vingativamente louco que, não só pela força de seu argumento — há uma “fatalidade diabólica” na “equação” —, envolve os demais na loucura dele. Dizendo de outro modo, a tripulação do Pequod, também em função do acaso e das circunstâncias, estava “pronta” para as insanidades de Ahab. É evidente: um bando de ignorantes e simplórios embarcou na loucura de um... capitão... O acaso ou algo que não sabemos precisar fez com que aqueles homens estivessem naquela embarcação. Na sequência do trecho citado há pouco, Ishmael prossegue:

“Por quais motivos eles [a tripulação do Pequod] reagiram tão vigorosamente à ira do velho — que feitiço diabólico tomou conta de seus espíritos, a ponto de às vezes acreditarem ser sua a raiva de Ahab; e a baleia branca, inimiga inatingível, tão sua quanto dele; como é possível — o que a baleia branca representava para eles, ou como em sua compreensão inconsciente, de algum modo obscuro e insuspeito, ela parecia ter sido o grande demônio imperceptível dos mares da vida — para explicar isso tudo, seria necessário ir mais fundo do que Ishmael consegue” [3].

Moby Dick é tão inescrutável quanto a história que conta. O narrador conta o que sabe, ciente de que não conta tudo, pois há algo subjacente e que permanece indizível, imperscrutável, embora possa ser intuído. A baleia, o Pequod, o mar, Ahab... Tudo é símbolo. Para explicar tudo isso, seria necessário ir mais fundo do que Lívio consegue.

Linhas depois de Ishmael dizer que não alcança a plena compreensão do que narra, ele conta: “Quanto a mim, cedi ao abandono das circunstâncias e do lugar; e, ainda que estivesse apressado para enfrentar a baleia, não podia ver naquela criatura coisa alguma além de maldade mais fatal” [4]. O Pequod tornou-se um baleeiro louco singrando pelos mares a fim de matar um cachalote a quem o insano Ahab atribuíra a capacidade de raciocínio por trás da “máscara” de baleia.

A tripulação pratica ódio fomentado pelo comandante do navio. Antes de embarcarem no Pequod, aqueles homens simplórios já tinham vontade de odiar? A pergunta, retórica, é para dizer que as circunstâncias atuais, no Brasil, uniram o ódio de um (ou de alguns) com a latência cheia de ódio de muitos. Ahab tinha a eloquência. No Brasil de hoje, a fim de trazer à tona o ódio, ela não é mais necessária — basta que se odeie. Quanto mais toscamente esse ódio for propalado, mais eficaz o contágio será. Fosse o Pequod exatamente como o Brasil, bastaria a Ahab grunhir algumas palavras, pegar o bote e desafiar Moby Dick — e os demais seguiriam o capitão. O ódio de Ahab, por mais que ele alegue haver algo racional na baleia, é um ódio contra algo que não é humano, ainda que maléficas características humanas sejam dadas a esse algo. Capitães há que voltam seu ódio não contra cachalotes, mas contra pessoas. Melville já nos ensinou como histórias cheias de ódio acabam.
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[1] Melville, Herman. Moby Dick, ou A baleia. Tradução de Irene Hirsch e Alexandre de Souza. Prefácio de Albert Camus; posfácio de Bruno Gambarotto. São Paulo. Editora 34. 2019. Página 177.

[2] Ibidem. Páginas 200 e 201.

[3] Ibidem. Página 201.

[4] Ibidem. 

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

O chamado de Dom Quixote

Dom Quixote é uma alma boa, um coração puro. Ele é a vontade de que o mundo seja um lugar justo. Jamais será. Mesmo assim, embora Quixote lute contra o que seu delírio vê como inimigo, a essência do que o move, que é o desejo de uma vida bonita e sem ultrajes, é bonita demais. Quixote vale não pelo que tem de risível, mas pelo que tem de puro, por seu desejo em lutar a favor dos desvalidos. (Sobre alguém ser risível, Melville, outro gigante, no monumental Moby Dick, escreveu: “O homem que tenha alguma coisa de abundantemente risível a seu propósito, estai certos, há nele mais do que supondes”, segundo tradução de Pericles Eugênio da Silva Ramos.)

Quixote será sempre perdedor na labuta a que se propõe; mesmo assim, ela deve ser realizada por ser nobre. Louco, lírico, delirante... Quixote ensina não somente sobre a natureza da insânia, mas também, e principalmente, sobre a beleza de um ideal bonito. Ainda que se alegue insanidade para ele e sanidade para nós, o doce cavaleiro nos ensina que existe uma centelha de pureza e de preocupação com o destino dos que não têm vez. Quixote nos revela que loucura são o comodismo, a pasmaceira, a futilidade. Ele não está sozinho, Sancho Pança não está sozinho, eles estão conosco — e o mundo está cheio de moinhos. Prontos para a batalha?... 

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

A liga da justiça

Que o humor é algo magistral, todo mundo sabe. Mas ele não pode ser usado para encobrir ou salvar algo que é ruim. Ele deve ser a consequência de algo que é bom. Nem o humor de A liga da justiça o redime. É o humor que faz com que o filme seja simpático. “Simpático” não é um adjetivo honroso para um filme que pretendeu ser mais.

A impressão com que filmes de super-heróis têm me deixado é a de que há enredo de menos e computação gráfica demais. Não bastasse isso, os vilões têm sido tediosos e óbvios. Foi assim em Batman versus Superman, é assim em A liga da justiça. Os alienígenas vilões dos dois filmes são superficiais, servindo apenas para dar e levar porrada.

Os fãs dos quadrinhos ressentir-se-ão com o fato de que a essência do Flash não é a mesma (nos quadrinhos, ele não é o engraçadinho do filme) e com a pouca empatia que o Cyborg gera. Quanto a Aquaman, é um personagem bem construído. Pena que após fazer menção a Ahab, personagem do livro Moby Dick, joga uma garrafa ou algo assim no mar. Não faz sentido justamente ele poluir as águas.

Aqui ou ali, há referências a outros filmes de super-heróis. O primeiro soco desferido pelo Super-Homem no vilão em A liga da justiça tem menção ao tema criado por John Williams. É esse o breve instante em que alguma emoção se esboça, logo indo embora. Nem o (mais uma vez) belo trabalho de Danny Elfman na trilha sonora consegue dar alguma grandiosidade a um filme destituído de grandeza. O humor sozinho não pode salvar o mundo. 

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Fernando Sabino e a tradição da crônica

Herman Melville, em seu monumental Moby Dick, escreveu, no capítulo cento e quatro do livro, segundo a tradução de Pericles Eugênio da Silva Ramos: “Para escrever um livro imenso, tendes de escolher um tema enorme. Nenhum volume grandioso e duradouro poderá jamais ser escrito sobre a pulga, embora muitos já o hajam tentado”. [1] Obviamente, não se pode descontextualizar uma afirmação, seja ela literária, seja ela não literária. Quando se descontextualiza, pode-se fazer injustiça para com a afirmação ou para com quem a tenha feito. Sejamos justos com Herman Melville. Moby Dick é um livro do século XIX, período em que as conquistas artísticas do século XX praticamente nem haviam se insinuado. Sim, Moby Dick é suntuoso, ambicioso, grandioso, grandiloquente. Mas o que poderia ser dito, digo, não de uma pulga, mas de algum freguês de alguma taverna frequentada por Ismael, o narrador de Moby Dick? Quais seriam os dramas desse frequentador? Que mares já teria ele navegado? Do que ele sentia saudade? Quantos sonhos deixou para trás? Qual a bebida favorita dele? Preferia ele o verão ou preferia sair de viagem logo pela manhã? Ismael não está interessado nisso que poderia ser considerado questões menores diante do assunto literalmente gigantesco que escolheu para tratar. Todavia, é também na vida do homem “menor” que a crônica, tal qual será abordada neste trabalho, está interessada. Deixemos de lado, por ora, as estupendas digressões de Ismael. Passemos a outro tipo de digressão. Falemos, a princípio, da crônica como gênero literário.

Em sua essência, parte-se do pressuposto de que a crônica é, antes de tudo, um gênero cujo texto é breve. Isso porque, em sua história, a crônica como tratada aqui, não a crônica dos navegadores e seus relatos, nasce para ser veiculada em jornal. Não ao modo de um romance cujos capítulos vão sendo publicados pouco a pouco por algum periódico, mas à maneira de um texto que começa e que logo termina. É um texto breve, mas essa brevidade abarca o começo, o meio e o fim do que se diz. Amanhã é um novo dia; um novo dia pede uma nova crônica. É um gênero escrito no calor dos acontecimentos, na urgência que pedem as redações, que, não raro, estão a pressionar o cronista para que ele entregue a crônica, não importa se é um texto diário ou um semanal.

Sempre que o assunto é a crônica, não raro, paira a ideia, o questionamento ou a sugestão de que ela seria um gênero menor. Ora, mas o mero uso do adjetivo “menor” para se referir ao gênero crônica implica o outro lado da moeda, ou seja, implica a existência de gênero ou de gêneros considerados maiores. E quando se considera haver gêneros maiores, remete-se à clássica divisão grega, aristotélica. Todavia, estamos agora tratando da crônica, um gênero híbrido, escorregadio, sem regras claras. Afinal, dizer que a crônica é um texto breve geralmente veiculado em jornal é definição que não é capaz de precisá-la. Se tentarmos fechar o cerco a fim de se achar uma definição para a crônica, pode ser que não achemos uma só, pode ser que não haja unanimidade. Todavia, ainda que considerada por alguns literatura menor, importa-nos o seguinte na expressão “literatura menor”: deixar de lado o adjetivo “menor” e nos concentrarmos no substantivo “literatura”.

Sim, a crônica é literatura. Que este texto sirva também de argumento meu a favor do que afirmei na frase anterior. Por ser literatura, ela consegue, de antemão, tornar-se atemporal. O que a torna atemporal é o fato de ela se debruçar sobre um aspecto da realidade que é permeado por aquilo que temos de subjetivo, por aquilo que somos, por aquilo que sentimos, aquilo que compõe as experiências cotidianas por que passamos. Fenômeno nascido com a popularização da imprensa no século XIX, a crônica tem, como estrela, no mais das vezes, o cidadão urbano, “anônimo”. Para me valer de nome de personagem criado por Drummond, que também era cronista, a crônica, não raro, debruça-se sobre um João Brandão qualquer, que transita em meio aos demais, como se fosse mais um. Só que para a crônica ninguém é só mais um, seja na multidão, seja no escuro de um quarto solitário madrugada adentro.

Na letra da canção “Notícia de jornal”, Chico Buarque, esse cronista em verso e em letra de música do cotidiano brasileiro, escreveu que “a dor da gente não sai no jornal”. Claro que a constatação de Chico se refere ao texto da notícia-padrão, que é “fria”, destituída de pessoalidade; como produção, é um gênero em que o personagem de que fala a letra da canção de Chico Buarque é mais um, é tratado como um número a mais — ou a menos, dependendo do teor da notícia. Todavia, não é o que se dá quando se trata da crônica. Ela não tem o compromisso com a notícia nem com o fato como ocorrido, o que, por si, já começa a dar a ela ares de literatura, mas, a despeito desse não compromisso nem com a veracidade nem com os dados nem com os números é que a crônica foi se esgueirando em meio às páginas dos jornais, em meio a textos literalmente datados. Mostrando que era algo mais do que notícia ou, pelo menos, algo diferente da notícia, embora possa ser escrita a partir, também, de uma notícia, a crônica, com o passar das décadas, foi parar nos livros, sem ter deixado, contudo, de frequentar as páginas dos jornais e, hoje, dos blogues, das redes sociais ou dos sítios. Num mundo iconoclasta, que gosta de asseverar a morte de tudo, a crônica segue viva, continua sendo lida, debatida, divulgada. Como prova disso, basta mencionar que no sábado passado, durante a Bienal do Livro, no Rio de Janeiro, ocorreu o debate “Cronistas contemporâneos”. Com a mediação de Arnaldo Bloch, participaram do evento Fabrício Carpinejar, Raphael Montes e Afonso Borges. A própria organização da Bienal divulgou no sítio do evento o seguinte texto: “Alguns escritores parecem ter a capacidade de identificar, em meio ao cotidiano, os traços que definem a época e marcam a sensibilidade das pessoas: são os cronistas. Seus poderes de observação são um capítulo à parte na cena literária brasileira”. [2] O próprio Carpinejar, só para ficar num exemplo, escreve crônicas para a Revista da Cultura, periódico mantido pela Livraria Cultura. O Brasil citadino consagraria também no gênero crônica autores como Machado de Assis, Carlos Heitor Cony, Luis Fernando Verissimo, Mario Prata, João Ubaldo Ribeiro, Fernanda Takai, Rubem Braga, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Nelson Rodrigues, Lêdo Ivo, Stanislaw Ponte Preta, Lima Barreto, Antônio Maria e, claro, Fernando Sabino.

Contudo, antes de eu discorrer especificamente sobre o cronista pelo qual estamos aqui, permitam-me algumas cogitações sobre a crônica ser, não raro, tida como gênero menor. Não é minha intenção nem esgotar o assunto nem oferecer resposta cabal para a questão. Mesmo assim, recordemos, a crônica, do modo como mencionada aqui, nasce nos jornais. É para ser lida rapidamente. Amanhã ou na semana que vem haverá outra e depois outra e depois outra. A crônica não tem intenção nem espaço de se debruçar sobre temas que demandariam tempo para serem desenvolvidos. Não bastassem essas características, dependente do meio em que era veiculada, a crônica caiu no gosto do leitor de jornal, que nem sempre era o leitor da chamada grande literatura, nem sempre era o leitor do cânone. Mesmo hoje em dia, é muito comum alguém dizer que é leitor de crônicas ou dizer que tem na crônica o gênero favorito, mesmo sem se dedicar à leitura dos gêneros clássicos ou à leitura de autores canônicos. Um texto que não demanda erudição para ser apreendido nem demanda leitores acostumados a produções de maior fôlego. Essa é a crônica, que é, no mais das vezes, compreensível para qualquer um. Precisamente isso é o que pode fazer com que alguns torçam o nariz para ela. Haveria em função disso, por parte de alguns que se consideram representantes de uma suposta elite intelectual, a presunção de considerar a crônica como gênero menor por ela ser lida e apreciada por aqueles que não têm tradição de leitura. Essa empáfia, não somente no que diz respeito à crônica, sugere que o que cai no gosto popular perderia as prerrogativas de ser considerado arte verdadeira ou arte maior, atemporal. 

Não levo em conta essas arrogâncias. Vamos nos deter em algumas características que podem fazer com que a crônica se torne literatura. De antemão, digo que a brevidade não pode ser usada como argumento. Emily Dickinson está no panteão dos grandes poetas. A obra dela é composta por versos breves, epigramáticos. Se concordarmos, pois, que o caráter de literariedade não está na extensão do texto, podemos aventar possibilidades ao defendermos a crônica como sendo literatura.

Uma delas diz respeito ao não compromisso que a crônica tem quanto à verdade factual, quanto à abordagem jornalística. Ainda que o ponto de partida seja fato verificável, fácil de ser comprovado, o viés da crônica não é o do jornalismo, o de relato de onde, de quando e de como, embora tais informações possam estar no corpo dela. Não, a crônica não vai apenas relatar, por exemplo, que nesta semana os vereadores locais visitaram o Rio Paranaíba a fim de conferirem os estragos da seca no leito que um dia foi caudaloso. Isso, já noticiaram os sítios, o jornal, a televisão, as rádios. Mas a realidade é cheia de facetas. O mesmo evento permite várias abordagens. A do cronista é captar a partir das miudezas ou das não miudezas do cotidiano um texto que pode soar às vezes algo ingênuo, às vezes poético, às vezes opinativo, às vezes doce, às vezes saudoso. Nesse caldeirão podem estar o futebol, a política, a erudição, a conversa de bar, a amizade, o amor, a arte, a metalinguagem, a guerra... É curioso: não há receita para a crônica, não há amarras que a definam com precisão. Ainda assim, sabe-se reconhecer uma quando se está diante dela. O cronista diz de tal modo que ele pode ser uma espécie de poeta em prosa breve. Ainda que não seja oficialmente poeta, tem em si alma de poeta, carrega em si o senso poético, o senso do espanto, da estranheza, da análise por ângulos inusitados. É como se o cronista olhasse para as coisas não com o olhar desgastado e sem graça do adulto, mas com o espírito de quem contempla as coisas pela primeira vez. Essa atitude mental ou esse espírito acabam fazendo com que o cronista desvele ou revele para o leitor aquilo que esteve diante dele o tempo todo, mas que havia passado diante dele sem que ele se desse conta. O cronista é, antes de tudo, um observador, uma pessoa que presta atenção, que olha, que repara, que se debruça sobre a vida que passa, que anda de ônibus ou que namora num banco de praça.

É então que nos damos conta, graças ao cronista, que a vida do cidadão “anônimo” pode gerar literatura. O historiador Eric Hobsbawn, no imprescindível Pessoas extraordinárias, evidencia que a história não é feita somente por quem detém o poder. O cronista evidencia que para figurar na literatura não é preciso ser um rei, um presidente, um nobre, um rico. O vendedor da feira ou o padeiro são tão dignos de literatura quanto a realeza de algum país nórdico. Ainda que se concentre sobre um personagem assim, a crônica destacaria nele não a imponência do cargo que ocupa, mas aquilo que uma pessoa assim tem de prosaico, de acessível, por assim dizer. É o que Shakespeare fazia com seus personagens nobres, mostrando-os em situações engraçadas ou vexaminosas, é o que Tom Wolfe faz com seus personagens de Wall Street, preocupados em ter seu primeiro milhão de dólares antes dos vinte e poucos anos. O cronista sabe muito bem que antes do cargo ou da pompa há uma pessoa, um indivíduo, que compartilha pontos em comum com todos os demais indivíduos. Esses pontos em comum, é claro, não estão nos cargos que ocupam nem no dinheiro que têm nem no poder que detêm.

A crônica não está interessada em pseudomistérios, em construir teses, em dar resposta aos supostos desígnios do Universo. Um dos méritos da crônica é exatamente o de edificar literatura a partir do que é evidente e trivial. Se há algum mistério trazido pela crônica, esse mistério é o que existe em tudo. Um mistério que surge a partir do que é compreensível, alcançável. Num sentido amplo, o exercício da crônica é a edificação de uma literatura humilde, postura de quem não oferece uma resposta pronta, mas uma acessível inquietação com o sem-número de não respostas que todos carregamos em nossas idiossincrasias. A crônica se posiciona frente ao mundo não ao modo de quem se predispõe a destrinchar seus mecanismos, mas à maneira de quem tem olhar curioso diante das engrenagens. A crônica nem sempre dá respostas, mas com frequência tem questionamentos inquietantes e poéticos. 

A fim de ilustrar essas questões sobre as quais tenho teorizado, transcrevo a seguir a crônica “Notícia de jornal”, que extraí da coletânea As melhores crônicas de Fernando Sabino:

Leio no jornal a notícia de que um homem morreu de fome. Um homem de cor branca, 30 anos presumíveis, pobremente vestido, morreu de fome, sem socorros, em pleno centro da cidade, permanecendo deitado na calçada durante setenta e duas horas, para finalmente morrer de fome.

Morreu de fome. Depois de insistentes pedidos de comerciantes, uma ambulância do Pronto Socorro e uma radiopatrulha foram ao local, mas regressaram sem prestar auxílio ao homem, que acabou morrendo de fome.

Um homem que morreu de fome. O comissário de plantão (um homem) afirmou que o caso (morrer de fome) era da alçada da Delegacia de Mendicância, especialista em homens que morrem de fome. E o homem morreu de fome. 

O corpo do homem que morreu de fome foi recolhido ao Instituto Médico Legal sem ser identificado. Nada se sabe dele, senão que morreu de fome.

Um homem morre de fome em plena rua, entre centenas de passantes. Um homem caído na rua. Um bêbado. Um vagabundo. Um mendigo, um anormal, um tarado, um pária, um marginal, um proscrito, um bicho, uma coisa — não um homem. E os outros homens cumprem seu destino de passantes, que é o de passar. Durante setenta e duas horas todos passam, ao lado do homem que morre de fome, com um olhar de nojo, desdém, inquietação e até mesmo piedade, ou sem olhar nenhum. Passam, e o homem continua morrendo de fome, sozinho, isolado, perdido entre os homens, sem socorro e sem perdão.

Não é da alçada do comissário, nem do hospital, nem da radiopatrulha, por que haveria de ser da minha alçada? Que é que eu tenho com isso? Deixa o homem morrer de fome.

E o homem morre de fome. De 30 anos presumíveis. Pobremente vestido. Morreu de fome, diz o jornal. Louve-se a insistência dos comerciantes, que jamais morrerão de fome, pedindo providências às autoridades. As autoridades nada mais puderam fazer senão remover o corpo do homem. Deviam deixar que apodrecesse, para escarmento dos outros homens. Nada mais puderam fazer senão esperar que morresse de fome.

E ontem, depois de setenta e duas horas de inanição, tombado em plena rua, no centro mais movimentado da cidade do Rio de Janeiro, um homem morreu de fome.

Morreu de fome. [3]

O texto, escrito a partir de notícia lida em jornal, segundo o narrador, exemplifica com perfeição o cerne da crônica, que é o de extrair do cotidiano o material de que é feita. Embora careça de alguns dados para ser considerado notícia de jornal, o texto, com pequenos ajustes, poderia ser jornalístico. Contudo, a leitura dele nos revela que há algo mais, que o relato não é somente uma notícia de jornal. O leitor pode até não saber esmiuçar o que diferenciaria o texto de uma notícia, embora intua haver algo a diferi-lo do gênero estritamente jornalístico. Tentemos destacar alguns procedimentos que fazem com que “Notícia de jornal” seja, num sentido afunilado, crônica, e, num sentido amplo, literatura.

De início, tem-se a reiteração, com pequenas variações, da expressão “morreu de fome”. Uma típica notícia de jornal anunciaria apenas uma vez a causa da morte. O tom seria o mais neutro possível. Uma notícia não chamaria o homem de “coisa”, não teria seu autor se perguntando “que é que eu tenho com isso?”, para depois, em sua retórica, afirmar: “Deixa o homem morrer de fome”. Esses são apenas alguns exemplos de que a crônica permite carga maior de subjetividade do que o texto jornalístico. Ela tem tido o jornal como suporte, mas jornalismo não é, mesmo sendo com ele confundido. Ou pelo menos não é só jornalismo. É também literatura. 

Tomemos outro exemplo. Um caso em que um grande poeta aparece, depois de ter consumido boas doses de álcool em Belo Horizonte, fazendo um comentário prosaico; mostra-se um lado dele que não diz respeito à excelência de seus versos, embora ele já fosse conhecido pelo estilo de vida boêmio que levava. Além disso, o que poderia ter se tornado uma digressão é logo interrompido, cedendo o lugar a afirmações bem mundanas, distantes do tom elevado que o texto poderia ter assumido. O trecho a que me refiro está na crônica “O menestrel do nosso tempo”. Por enquanto, não direi o nome do poeta que é mencionado no texto. Eis o trecho:

Era uma delegação de intelectuais que visitava Belo Horizonte, em 1943, a convite do então prefeito Juscelino. Em meio a tanta gente, ele era o poeta. E alta noite fomos ver a lua no Parque Municipal. Alguém apareceu com um violão: depois de um sambinha ou outro, ele começou a tocar — e a cantar! — ‘Blue moon’. Tomados de entusiasmo etílico, por pouco não celebramos o insólito acontecimento jogando Etienne Filho dentro do lago. Depois subimos a pé a Avenida João Pinheiro e já somos apenas três, em companhia do poeta de nossa admiração. Vamos para o banco de sempre na Praça da Liberdade, puxar uma angustiazinha:

— Que sentido têm as coisas?

— Que somos nós, diante da eternidade?

A alma encharcada de literatura até o rabo. Mas o poeta não deixa por menos:

— Bom mesmo é mulher. [4]

Por certo, muitos já deduziram que o comentário “bom mesmo é mulher” foi feito por Vinicius de Moraes. O comentário do poeta não somente confere humor ao texto: ele quebra o que poderia ter se tornado uma digressão de tom filosófico. No mais, esse suposto tom filosófico havia sido insinuado de modo tímido. Tanto é assim que o narrador se valeu da expressão “puxar uma angustiazinha”. Houvesse de fato a intenção de se levar a crônica para reflexão mais densa, o substantivo “angústia” não estaria no diminutivo. O narrador está quase a mofar de qualquer sentimento de inquietação que pudesse ter tomado conta dos amigos alcoolizados.

Todavia, não nos esqueçamos de que a crônica, em sua trivialidade, pode nos remeter a reflexões drásticas, contundentes. Para exemplificar o que digo, cito trecho de “A lua quadrada de Londres”, também de Fernando Sabino:

Lembro-me de uma história — história que inventei, mas que nem por isso deixa de ser verdadeira. Era um marinheiro dinamarquês, de um cargueiro atracado no porto do Rio de Janeiro por uma noite apenas. Saíra pela cidade desconhecida, de bar em bar, e vinha voltando solitário e bêbado pela madrugada, quando se deu o milagre: nas sujas águas do canal do Mangue, viu refletida uma claridade difusa — ergueu os olhos e viu que as nuvens se haviam rasgado no céu, e o Cristo surgira para ele, braços abertos, em todo o seu divino esplendor. Fulminado pela visão, caiu de joelhos e chorou de arrependimento pela vida de pecado e impenitência que levara até então. De volta à sua terra, converteu-se, tornou-se místico, acabou num convento. E anos mais tarde, depois de uma vida inteira dedicada a Deus, o monge recebe a visita de um brasileiro. Aquele homem era da cidade em que se dera o milagre da sua conversão.

— O que o senhor viu foi a estátua do Corcovado — explicou o carioca.

Não diz a história se o religioso deixou de sê-lo, por causa da prosaica revelação. Não diz, porque me eximo de acrescentar que, na realidade, depois de viver tanto tempo uma crença construída sobre o equívoco, este equívoco passava a ser mesmo um milagre, como tudo mais nesta vida. [5]

O que o marinheiro supôs ser uma epifania nada mais era do que a estátua do Cristo Redentor. Ora, precisamente esse tema está presente no filme O planeta dos macacos, de 2001, do diretor Tim Burton. No enredo, os macacos veneram um deus, que chamam de Calima. Próximo do término do filme, é revelado que a palavra Calima nada mais é do que sílabas de um aviso de segurança que havia numa nave. Os macacos louvavam um engodo. Nesse momento, é inevitável que o espectador pense nas religiões que a humanidade tem edificado para si. As implicações de que a crença em um deus pode ser fruto de um engano são poderosas demais. Exatamente essas implicações estão presentes no breve trecho da crônica de Fernando Sabino. Por trás do humor e da leveza do texto dele, há uma profícua possibilidade de reflexão.

Antonio Candido, em texto intitulado “A vida ao rés-do-chão”, elogia a crônica como gênero. Mesmo assim, no primeiro parágrafo de seu texto, pondera: “Não se imagina uma literatura feita de grandes cronistas, que lhe dessem o brilho universal dos grandes romancistas, dramaturgos e poetas. Nem se pensaria em atribuir o Prêmio Nobel a um cronista, por melhor que fosse”. [6] Eu não veria como contrassenso cogitar-se atribuir o prestigioso prêmio a um cronista, embora isso de fato nunca tenha ocorrido. Mas o que faz a literatura ser o que é não são os prêmios que por ventura ela venha a receber. A literatura é feita do que somos; o que somos pode ser mostrado a partir da caça a uma baleia, a partir de um homem que vê a estátua do Cristo Redentor e pensa estar diante de uma epifania ou a partir de uma pulga.
___________

[1] Melville, Herman. Moby Dick. Tradução de Pericles Eugênio da Silva Ramos. Círculo do Livro. 1994. P. 535.

[2] Disponível em http://bit.ly/2feGame. Acesso em 13/09/2017.

[3] Sabino, Fernando. As melhores crônicas de Fernando Sabino. 5ª edição. Rio de Janeiro. BestBolso. 2015. Pp. 46 e 47.

[4] Idem. Pp. 58 e 59.

[5] Ibidem. Pág. 69.

[6] Candido, Antonio. A vida ao rés-do-chão. Disponível em http://bit.ly/2fbrODb. Acesso em 14/09/2017. 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Sem amor

Embora o amor carnal e seus desdobramentos seja temática em grande parte da literatura, ele não é imprescindível para que haja um grande livro. Penso em “Viagens de Gulliver” e em “Moby Dick”. Ainda que se alegue que em “Moby Dick”, logo no começo da história, tenha havido contato físico entre o narrador e o personagem Quiqueg, o que houve na estalagem não foi a edificação de uma relação amorosa no sentido de se construir algo ao longo do tempo. Foi uma cena no enredo; mesmo tendo sido uma cena que suscite dúvidas e cogitações, isso não faz com que o livro tenha um enredo romântico, não importa o sentido que se dê ao termo “romântico”. “Viagens de Gulliver”, com sua galhofa amarga, e “Moby Dick”, com sua elevada cogitação metafísica, são obras destituídas de amor. 

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Ainda Bob Dylan

Em 1986, li uma entrevista com o Bob Dylan publicada pela revista Bizz, de que eu era leitor fervoroso. Nunca me esqueci dessa entrevista. Dentre outras coisas, ele disse considerar Freud uma fraude, alegando que a psiquiatria não ajudou ninguém.

Também me lembro com nitidez de ele ter falado sobre o Herman Melville. Foi a partir da entrevista do Bob Dylan que tive a vontade de ler o grandioso “Moby Dick”. Dylan diz na entrevista: “Mas aí você pensa em alguém como Herman Melville, que escreve a partir da experiência, como em ‘Moby Dick’. Acho que há um tanto de fantasia no que escreveu. Dá para vê-lo cavalgando numa baleia?”. Quando fui ler o livro, fiquei o tempo todo aguardando o momento em que alguém (talvez o narrador) cavalgaria numa baleia; não me lembro de tal cena no livro.

Por fim, menciono algo que eu já mencionara num texto que publiquei em 1994, em coluna que eu mantinha em jornal daqui (o nome da coluna era Letras e Músicas): para Bob Dylan, o que mais lhe chama a atenção numa mulher é a voz.

domingo, 21 de dezembro de 2014

"ENSAIOS DE AMOR"

Penso num Einstein, que aos vinte e seis publicou sua Teoria da Relatividade. Ou num Melville, que também aos vinte e seis, publicou seu “Moby Dick”. Ou num Rimbaud, que, ainda adolescente, já era poeta feito. Desde sexta-feira (19/12), tenho pensando em Alain de Botton, que, aos vinte e três, publicou “Ensaios de amor” (Botton está com quarenta e cinco).

Se você acredita no amor, leia “Ensaios de amor”; se você não acredita, leia. Se você gosta de chocolate com setenta por cento de cacau, leia “Ensaios de amor”; se gosta de chocolate com mais de setenta por cento de cacau, leia; se gosta de chocolate com menos de setenta por cento de cacau, leia. Espanta-me como alguém que tinha na época vinte e três anos escreveu um livro tão primoroso sobre o amor.

A edição que li foi publicada pela L&PM Pocket; a tradução é de Fábio Fernandes. Terminado o primeiro capítulo, na página 15, coisa demais já havia acontecido na história, a ponto de eu me perguntar: “Ei, o que mais há para contar?”. Nas primeiras páginas, o livro já continha humor, filosofia e lirismo. Logo no começo da leitura, eu já estava dando gargalhadas, estava refletindo, estava diante da poesia.

A convivência com o texto fluía tão agradável que antes mesmo de terminar a última página eu já estava louco para escrever esta resenha. À medida que eu ia lendo, eu ficava inebriado com, para me valer de uma expressão do advogado Manoel Almeida, a mão solta do autor. Penso no quanto De Botton se divertiu escrevendo “Ensaios de amor”.

Trata-se de um livro de praticamente dois personagens — o narrador e Chloe. Durante um voo, eles se conhecem. O resto você já sabe: eles se apaixonam, passam a viver juntos. O que você não sabe, caso não tenha lido o livro, é claro, é o monumento que Alain de Botton ergueu ao narrar o amor dos personagens.

“Ensaios de amor” é elegante, engraçado, poético, reflexivo. O amor, com suas dores, alegrias, dúvidas e risadas é descrito em capítulos breves; cada parágrafo de cada capítulo é enumerado, como se cada parágrafo fosse, por assim dizer, um apontamento. Tudo vale para que o narrador dê conta de traduzir o amor: filosofia, literatura, sociologia. O livro é um romance, mas é um tratado; é um tratado, mas é um romance.

É engraçado e é erudito: está cheio de piscadelas literárias; numa delas, por exemplo, num passeio que fazem à Espanha, Chloe passa mal. Ela é atendida por um médico chamado Saavedra.

O livro trata o amor de modo honesto. Não foge de suas agruras, de seus destemperos, de seus desatinos, de suas tristezas, de suas dores. Ao mesmo tempo, não se esquece dos pequenos grandes momentos que só o amor é capaz de propiciar. É um livro humano, densamente humano e... amoroso.

Numa feliz coincidência, li boa parte do livro ontem, dia do aniversário de Alain de Botton (só fiquei sabendo do aniversário dele ontem à noite, em pesquisa na internet). Tendo comprado a obra anteontem, anteontem mesmo iniciei a leitura; deliciei-me com ela ontem e terminei de lê-la em torno de 1h deste domingo. Foi uma surpresa receber um presente tão magistral. 

domingo, 10 de fevereiro de 2013

RUNNING WATERS






O Melville escreveu, no comecinho do “Moby Dick”, que “a meditação e a água estão ligadas para sempre”. Num plano de ascendência menor, sempre digo que a água é um belo assunto para a fotografia.

Ontem, tive o privilégio de, mais uma vez, ir até a fazenda do pai do amigo Aldo, com o objetivo exclusivo de fotografar as águas de um córrego que passa dentro da propriedade. Além de mim e do Aldo, foram conosco o Rossi e a Angela, além da Mariana, a adorável filhinha dos dois.

Como de costume, a dona Elza e o senhor Aldir, pais do Aldo, receberam-me com a usual gentileza . Não bastasse a fineza sem afetação dos dois, há sempre um delicioso café e deliciosos biscoitos caseiros à disposição. Após a sessão fotográfica, houve ainda uma apetitosa janta.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

SUSAN BOYLE

Quando li pela primeira vez o nome de Susan Boyle na tela do computador, não me interessei, por achar que se tratava de mais uma dessas inúmeras bobagens divulgadas diariamente nos grandes portais de internete.

Contudo, há mais ou menos um mês, enquanto eu procurava algum texto para uma aula de inglês, eu me deparei com um trecho no sítio do jornal The Guardian que me chamou a atenção: “A Susan Boyle é feia? Ou nós é que somos?”.

Atraído pela frase, li o texto (escrito por Tanya Gold), de que gostei. Mas somente ontem é que conferi o vídeo que tornou Susan Boyle conhecida. Mesmo já ciente da história, por ter lido o artigo veiculado em The Guardian, foi emocionante ter assistido à apresentação dela no “Britain’s Got Talent”, programa exibido por uma TV na Grã-Bretanha.

Britain’s Got Talent” é uma daquelas atrações sádicas em que jurados pagos para serem empafiados detonam quem não se apresenta bem. Quando Boyle entrou no coliseu, houve risos, escárnio e reprovação no ambiente.

Ela foi espontânea, foi sincera, aberta. Foi sem armadura, portando um quê de inocência, de ingenuidade. Pareceu não ter ressentimento algum contra a plateia, que a recebera com ar zombeteiro. Boyle fez o que sempre quis fazer – cantar. Ela passou por complicações durante o nascimento. As sequelas a teriam deixado com um leve dano cerebral. A despeito disso, sempre quis ser cantora profissional. 

Mesmo sem querer, Boyle desestruturou a pasmaceira. No espetáculo tolamente midiático por que somos assolados, ela deu uma porrada no maldoso, deletério e perigoso circo criado por imprensa e meios de comunicação.

A turba fez pilhéria quando Boyle chegou ao palco. Mas turbas se esbaldam em rir do que não tem graça. E ainda que tivesse, é bom que nos lembremos de Melville, que, em seu monumental “Moby Dick”, escreveu: “O homem que tenha alguma coisa de abundantemente risível a seu propósito, estai certos, há nele mais do que supondes” (tradução de Pericles Eugênio da Silva Ramos).

Susan Boyle é linda. Feios somos nós.