Mostrando postagens com marcador PT. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador PT. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Gratto, Muylaert

Hoje pela manhã, recebi via whatsapp um vídeo que tem narração de um texto [1] atribuído a Herton Gustavo Gratto. À medida que o texto vai sendo lido, belas imagens completam o trabalho. Eu nunca tinha ouvido falar de Herton Gustavo Gratto. Conferi o perfil dele no Facebook. O texto que recebi pela manhã foi escrito por ele; está na linha do tempo do ator, dramaturgo, poeta, roteirista e compositor, segundo identificação fornecida por ele.

No texto, o eu lírico é de uma pessoa de classe média ou de classe alta que assume o discurso de ataque contra o ex-presidente Lula não pelos erros dele, mas pelos acertos. Para muitos, não é paradoxal criticar alguém pelos acertos. Tais acertos deram alguma possibilidade de ascensão intelectual e financeira a quem não tinha contexto favorável para exercer a inteligência. Isso, estranhamente, incomoda muitos que têm dinheiro (ou pensam que têm).

O tom do texto de Herton Gustavo Gratto acabou me remetendo ao filme Que horas ela volta?, de 2015, dirigido por Anna Muylaert, que também é a roteirista. Jéssica (interpretada por Camila Márdila), personagem do filme de Muylaert, é encarnação ou personificação dos atacados no eu lírico do poema de Gratto. Ou, seguindo linha cronológica, o texto de Gratto é a transformação em verso do roteiro da diretora.

O filme não menciona nomes de políticos, mesmo deixando claro que a história se passa num período em que, graças às políticas públicas implantadas pelo PT, o viciado cenário social brasileiro, governado há séculos pela “elite da rapina” (valendo-me de expressão do Jessé Souza), deu oportunidade de conquistas financeiras e intelectuais a pobres.

No livro Cheiro de goiaba, Plinio Apuleyo Mendoza pergunta a Gabriel García Márquez: “Que tipo de governo você desejaria para o seu país?”. A resposta do escritor é simples: “Qualquer governo que faço os pobres felizes. Imagine!” [2].

Lula fez com que os pobres percebessem em dimensão inédita que o país é deles também e que eles também têm o direito de ser felizes. Tanto o filme de Muylaert quanto o texto de Gratto escancaram que há uma parte da elite que se ressente com a felicidade do outro se esse outro for pobre. Até o Reinaldo Azevedo admite que “é evidente que Lula está sendo vítima de um processo de exceção e de procedimentos que agridem o direito de defesa” [3]. Uma elite que faz maracutaias para que as riquezas do país sejam somente dela não vai garantir a um ex-metalúrgico barbudo, de dicção ruim e com quatro dedos numa das mãos o direito de defesa.
_____

[1] Disponível em https://bit.ly/2ErGSmG. Acesso em 06/04/2018.

[2] MÁRQUEZ, García Gabriel. Cheiro de goiaba: conversas com Plinio Apuleyo Mendoza. Tradução de Eliane Zagury. Rio de Janeiro. Record. 1993. Pág. 113.

[3] Disponível em https://bit.ly/2q8oafG. Acesso em 06/04/2018. 

domingo, 15 de março de 2015

SANHA

Num estado democrático, prefiro participar de uma eleição a participar de um apoio a um golpe. Prefiro ficar em casa a participar de um evento regado a grosserias, preconceitos, histerias e palavrões. São reveladoras do que somos não somente as palavras que proferimos, mas também as que nos seduzem. Em última instância, proferimos as que nos seduziram. As fotos e os discursos das manifestações de quinze de março de 2015 deixam claro que tipos de palavras seduzem os manifestantes.

A direita, em sua maioria branca e de classe média, segue a cartilha ditada pelos grandes meios de comunicação do País, os quais preferem divulgar a ideia de que o Brasil passa pela maior corrupção que já houve. Produzindo sem interrupções um arremedo de jornalismo, donos de jornais, de rádios, de “sites” e de TVs instigaram a classe média, que exibiu em cartazes e em discursos a “fineza” de que é capaz.

Até o momento em que escrevo este texto, não há base legal alguma para o “impeachment” da presidente. Protestar contra a corrupção que há na Petrobras ou em qualquer outra esfera governamental e reclamar de elevação de preços é direito; pedir o “impeachment” ou mesmo um golpe militar é ingenuidade, má-fé ou preconceito contra o que o PT realizou.

As manifestações reiteraram o que a campanha eleitoral já havia deixado às claras: há uma classe média no Brasil que não está preocupada em entender o processo histórico que tem solapado pobres e negros. Essa classe média alega que está gritando contra a corrupção; ela está, na verdade, exibindo seus preconceitos. Há um lado bom: esse pessoal se desnudou. Eles mesmos estão propalando seu ranço e seu ódio. Não que essa ojeriza seja algo novo, mas agora é algo escancarado.

A maioria dos manifestantes de domingo não são paladinos do bem comum. O protesto deles não é a favor do Brasil, mas a favor da manutenção de um estado de coisas em que outros cheiros e outras gentes, considerados, por eles, menos sofisticados, menos refinados e menos merecedores de uma vida melhor, devem permanecer à parte. Para tal, é preciso banir o PT, que, a despeito dos erros, melhorou a vida de milhões de pobres.

Seria burrice minha negar a corrupção no Partido dos Trabalhadores. Contudo, dizer que o PT é o maior responsável pela corrupção no País é sinal de ingenuidade ou de desonestidade intelectual. Ademais, o PT, ainda no poder, é o mais parecido que há contra a política neoliberal. A despeito das mudanças por que passou e dos erros pelos quais é responsável, o partido realizou um projeto social que ficou longe da agenda do PSDB enquanto os tucanos estiveram no governo federal.

Previsões são um risco. Ainda mais num cenário político que está sujeito a flutuações globais. Ainda assim, arrisco dizer que a esquerda (nem algo que se pareça com ela) não ganhará as próximas eleições presidenciais no Brasil. Mas isso, é claro, não tira de mim o ideal, que é continuar acreditando numa vida melhor para aqueles que a classe média tem insistido em excluir ao longo das décadas.

Nesse sentido, o PT é transitório. Se politicamente ele morrer, isso não significa a morte dos ideais de seus fundadores nem daqueles que vieram antes deles. À parte isso, a vida me ensinou que não é preciso temer a classe dos pobres, bem como me ensinou que é preciso, sim, temer a mídia que temos e a sanha daqueles que estão em sintonia com o que ela defende. Temê-los, contudo, não significa silenciar-me.

domingo, 26 de outubro de 2014

DILMA REELEITA

Globo, Veja, Jovem Pan, Uol, jornal Estado de Minas, jornal Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, Tim... Ainda não conseguiram. Dilma (cujo nome uso como metonímia) ganhou a eleição contra todos eles. Isso é ótimo, não somente pela vitória da presidente em si, mas também por ser mais uma prova (a exemplo do que ocorreu em 2010) de que, embora sejam muito poderosos, esses meios de comunicação não tiveram, nem em 2010 nem em 2014, o poder avassalador que já tiveram (esse poderio pode ser recuperado).

Como já previsto antes de a campanha política começar, foram eleições que transformaram redes sociais em guerra virtual. O clima de intolerância e de ranço, que até então era velado ou era menos expressivo, deu as caras na internet e nas ruas, provando que milhões não querem debater, mas reproduzir e continuar exercendo preconceitos seculares.

Detratores do PT, seja por má-fé, seja por ignorância, têm os argumentos: quando não é a corrupção, que existe nos dois partidos, vêm com aquela história de implantação de ditadura, de comunismo, de Cuba. Enquanto seguem com essa monocórdica balela, o governo petista é eleito democraticamente pela quarta vez.

Se comparado com o de 2010, o clima de recrudescimento aumentou neste 2014. Imprensa e meios de comunicação interesseiros e rancorosos estão mais vorazes do que nunca. Proclamada a vitória da petista, já começaram os ataques. Há várias empresas de “informação” semelhantes às que mencionei acima. Fiquemos atentos a elas todas e continuemos buscando outras possibilidades de informação.

A internet trouxe mais opções quando se tem o interesse em saber o que tem ocorrido. Qualquer pessoa pode informar ou opinar (o que é ótimo). Isso deixa a veiculação de conteúdos muito pulverizada. Parece-me que justamente essa pulverização é que faz com que Globos, Vejas e que tais ainda sejam influentes: não há como o cidadão, considerado individualmente, ser mais poderoso do que as tentáculos das empresas que citei.

Mas o Brasil não é feito só de Globos, Vejas e congêneres. Existem Fórum, Carta Capital, Pragmatismo Político, Dilma Bolada, Jeferson Monteiro, Luis Nassif, Viomundo, Cynara Menezes, Pablo Villaça... São cidadãos e empresas que simbolizam um Brasil que é bonito, corajoso, lúcido, talentoso, inteligente e bem-humorado. 

Não se incomodam em ver negros na universidade, não se incomodam quando o jardineiro compra um bom carro, não se incomodam quando a empregada doméstica usa um sapato que tem o mesmo preço do sapato usado pela patroa. Não estão a serviço dos próprios umbigos. São a favor do Brasil. 

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

POR QUE DIGITO "13" (MAIS ALGUNS MOTIVOS)

Antes de alegar corrupção contra algum partido, qualquer simpatizante de qualquer um dos partidos que disputam a eleição presidencial deveria ter a noção de que houve corrupção de ambas as partes. A diferença é o tratamento que se dá a ela: os grandes meios de comunicação abafam ou minimizam a corrupção no PSDB, e a amplificam quando é no PT.

O que deveria haver é punição em ambos os lados. De qualquer modo, para os incautos que queiram saber de alguns delitos do PSDB, confiram este “link”. Os do PT estão em qualquer edição da Veja; os do PSDB, não.

Em postagem anterior, publicada também no Facebook, elenquei algumas razões pelas quais voto em Dilma. Nesta postagem, cito mais alguns motivos que justificam meu voto.

Antes de listar esses motivos, devo, de antemão, dizer que sou contra o neoliberalismo defendido pelo PSDB. Lembro-me de que, certa vez, em Belo Horizonte, num encontro de professores, o nome do Michel Camdessus apareceu num texto. Quanto alguém perguntou quem era Camdessus, respondi que ela era o diretor do Fundo Monetário Internacional.

É nítida em minha memória a época em que o nome do presidente do FMI estava todos os dias no noticiário econômico nacional. Isso não foi há muito tempo; historicamente, foi ontem. O PSDB e seu neoliberalismo faziam com que o Brasil se tornasse refém de órgãos econômicos internacionais. Foi no governo do PT que o Brasil se livrou da dívida externa.

Há dois modelos econômicos em disputa. Eu me decidi por um. Lembro-me do País no período militar, fui testemunha da redemocratização, acompanhei o engodo Collor (não votei nele), passei pela ascensão do neoliberalismo e vivenciei os anos do PT no governo federal.

Nesta postagem, vou me valer de um texto de Najla Passos. Foi publicado no sítio da revista Fórum. Na postagem, Passos assinala nove diferenças entre os modelos econômicos do PT e do PSDB. Em breve, pretendo mencionar outro texto: este, de Cynara Menezes. Por agora, os comparativos de Najla Passos:

1 – Inflação

O governo do PSDB sabe o pânico que o brasileiro tem da inflação, que durante décadas corroeu salários e reduziu o poder de compra do trabalhador e cujo recorde, em 1993, chegou a 2.477% ao ano. É por isso que usa a mídia que lhe serve para atemorizar o povo dizendo que a inflação está fora de controle. Isso não é verdade. Durante o governo FHC, o PSDB conseguiu reduzir a inflação a 1,6% em 1998, às custas de juros altos e muito arrocho para o trabalhador. Mesmo assim não conseguiu mantê-la neste patamar. Quando eledeixou a presidência, a inflação batia a casa dos 12%, quase o dobro dos 6,5% que temos hoje com Dilma, que a manteve sempre dentro das metas, mesmo aumentando os salários e garantindo mais direitos aos trabalhadores. A principal diferença entre os dois modelos, portanto, é quem paga a conta pelo controle da inflação. E no modelo do PSDB, certamente é o trabalhador.

2 – Desemprego

No governo FHC, a orientação da política econômica foi a da estabilização da moeda. No governo Lula, o crescimento econômico simultâneo à distribuição de renda. No governo Dilma, é a manutenção do emprego combinada com baixa taxa de juros. Não por acaso, em 4 anos, Dilma criou mais postos de trabalho do que FHC em 8: uma média de 1,79 milhões ao ano, nos governos petistas, contra a média de 627 mil ao ano, na era tucana. O Brasil de Dilma tem as menores taxas de desemprego da sua história: 5,4% em 2013, contra 12,2% em 2002. Isso deixa os donos do capital furiosos. É que os empresários não gostam que o governo mantenha o desemprego baixo porque isso gera poder de barganha para o trabalhador. Os economistas do PSDB, a eles atrelados, dizem até que “uma certa taxa de desemprego faz bem à economia”. Já o PT defende que é possível crescer aumentando os salários para distribuir renda, o que é confirmado pela experiência dos últimos 12 anos.

3 – Salário

As diferenças entre as políticas públicas tucanas e petistas para o salário mínimo ficam claras com os números. Em 2002, o mínimo era de R$ 200, o equivalente a 1,42 cesta básica. Hoje, é de R$724, o que permite comprar 2,24 cestas básicas. Uma mudança e tanto no poder de compra do trabalhador, que, combinada com programas sociais, ajudou mais de 50 milhões de brasileiros a saírem da pobreza. O salário mínimo, hoje, também tem maior participação no PIB: atinge 34,4%.

4 – Juros

No auge da crise de 1998, a maior enfrentada pelo governo do PSDB, a Taxa Selic chegou a 45%. Ou seja, o grande investidor que tinha R$ 1 milhão em aplicações ganhava R$ 450 mil só deixando o dinheiro no banco. O presidente do Banco Central, à época, era o mesmo Armínio Fraga, responsável pela elaboração do programa econômico de Aécio e cotado por ele para reassumir o órgão. Já nos governos do PT, os juros sempre registraram patamares inferiores. A presidenta Dilma mudou as regras da poupança e usou os bancos públicos para pressionar os privados a baixarem os juros. Mas quando reduziu a Taxa Selic para 2%, enfrentou uma poderosa campanha midiática para que eles voltassem a subir: a campanha do tomate, focada no preço sazonal de um único produto. Com a posterior mudança do cenário internacional pós-crise, acabou tendo que ceder e elevar as taxas, que hoje estão em na casa dos 11% ao ano, ainda bem distantes dos 45% do governo FHC.

5 – Dívida pública

O perfil da dívida brasileira mudou muito do governo do PSDB para o do PT. Na era tucana, a divida era externa, cobrada em dólar. E FHC fazia qualquer coisa para perseguir o superávit primário destinado a pagar seus altos juros: ajustes fiscais, demissões, reduções de direitos. Além de que mantinha o país subjugando às exigências do FMI. Os governos do PT saldaram os débitos do país com o FMI. Agora, a dívida é interna. Pode ser rolada e controlada com a emissão de mais títulos e até mais moeda. Além disso, vem diminuindo significativamente seu peso no orçamento.

6 – Política industrial

A desindustrialização atingiu quase todo o mundo no pós-crise econômica mundial de 2008. Os Estados Unidos, só agora, conseguiram retomar o nível de industrialização de 2006. A Itália apresenta um índice 20 pontos menor. O Brasil, no entanto, cresceu 11%, um dos maiores patamares conforme a OCDE, ao contrário do que martela a mídia comprometida com a oposição. Nestas eleições, são dois modelos em disputa. O PT propõe a manutenção do ativismo da política industrial e recuperação das suas potências, com papel forte do Estado e coordenação das políticas (desenvolvimentismo). Já o PSDB propõe a perda do ativismo e da potência, com o Estado sendo substituído pelas forças do mercado. Na contramão do mundo, volta a pregar a total abertura às importações sem preparar a indústria nacional para a competição. Um modelo que já não deu certo nos anos 1990.

7 – Consumo e desenvolvimento

No modelo do PSDB – centrado no estado mínimo, privatizações e controle privado da economia – a taxa de investimentos chegou a atingir 15,1%. Mas nos governos do PT, com o Estado mais forte, ela subiu e hoje já registra 19,5%. É claro que o modelo de crescimento petista também é baseado na ampliação do mercado interno. Mas ao contrário do que dizem os críticos, pelo menos desde 2007, com a criação do PAC, o investimento passou a ter maior participação no crescimento do que o consumo. Portanto, é falacioso esse papo da oposição de que o crescimento brasileiro se sustenta apenas na ampliação do mercado interno, um modelo que já estaria esgotado.

8 – Política externa

Durante o governo do PSDB, o foco da política externa brasileira era o relacionamento diplomático e econômico com os países desenvolvidos, onde o Brasil era sempre a parte mais fraca e sem grandes poderes de barganha. Já os governos petistas fortaleceram as relações Sul-Sul, com o Mercosul, Brics e Unasul, que o deixaram menos suscetível às exigências dos grandes. A proposta do PSDB, no entanto, é retomar o foco anterior. Para a cúpula econômica tucana, o Mercosul dá prejuízo e o Brasil nem deveria manter relações com países que classificam como “bolivarianos”. Já o PT defende a ampliação do modelo, com a criação e fortalecimento do Banco dos Brics e cada vez mais independência dos desenvolvidos e mais solidariedade entre os iguais.

9 – Missão do BNDES

No governo do PSDB, a principal missão do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e social (BNDES) era sanear as empresas públicas destinadas à privatização e financiar os investidores que iriam adquiri-las, no chamado Programa Nacional de Desestatização. Portanto, era usado para ajudar a reduzir o estado e o patrimônio do povo brasileiro. Em 2002, seu lucro foi de R$ 550 milhões. No governo petista, a missão do BNDES é incentivar o crescimento, investindo nas empresas brasileiras de todas as áreas. No governo Dilma, 93 das 100 maiores empresas brasileiras receberam recursos do BNDES. Das 500 maiores, 480 foram contempladas. Em 2013, seu lucro foi de R$ 8,15 bilhões.

(Fonte: http://www.revistaforum.com.br/blog/2014/10/9-diferencas-entre-os-modelos-economicos-psdb-e-pt/.) 

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O CAIPIRA E O COSMOPOLITA

Há situações em que uma pessoa se revela. O mesmo vale para um povo: há situações em que ele se revela. Ou, pelo menos, parte dele. Foi assim em 2010; está sendo assim em 2014. Os nordestinos têm sido escarnecidos via internet. Já houve quem sugerisse que se jogasse uma bomba atômica por lá; já houve quem sugerisse que eles, os nordestinos, morressem devido ao Ebola.

Quem publica em rede social um pensamento assim enche-se de entusiasmo quando alguém como FHC diz que os eleitores do PT são, nas palavras dele, “menos informados”: “O PT está fincado nos menos informados, que coincide de ser os mais pobres”. Conclui FHC que o PT se destaca nos, segundo termo usado por ele, “grotões”.

Vinda de Fernando Henrique Cardoso, esse tipo de declaração não surpreende; em 1996, ele dissera que somos caipiras: “Como vivi fora do Brasil, na Europa, no Chile, na Argentina, me dei conta disso: os brasileiros são caipiras”.

Declarações como a dele só confirmam aquela velha ideia de que estudo e inteligência não andam necessariamente juntos: FHC tem estudo. Só que uma parte da população, que se julga bem-informada por acompanhar a Veja, o Estadão, a Folha de S.Paulo, a Globo e o UOL, por exemplo, sente-se mais bonita, mais inteligente e mais civilizada do que os pobres — em especial, depois de um FHC desovar seu rosário neoliberal.

Para esses que se julgam melhores, o resto da população podem ser os nordestinos ou, por extensão, os pobres (não importa onde vivam), que, nessa ótica, seriam sujos, sem informação, despreparados e descartáveis. Livrar-se deles, os pobres, faria bem para o País, que passaria a conviver com uma elite que adora Paris e que adora inserir termos em inglês em suas conversas.

Não basta o conhecimento histórico (suponho que FHC o tenha), não bastam as viagens (penso que FHC conheça o mundo inteiro), não bastam as leituras (presumo que FHC seja um intelectual). Fernando Henrique Cardoso deu provas de que alguém com leituras, viagens e poder pode não entender o que é o cosmopolitismo. Levando-se em conta as declarações dele, suponho ser inimaginável para ele conceber que há caipiras cosmopolitas nos grotões. 

sexta-feira, 18 de julho de 2014

UM OLHAR SOBRE O BRASIL RECENTE


A editora Geração tem feito um louvável trabalho de cidadania, publicando livros que desmascaram os engodos e preconceitos dos adeptos do neoliberalismo. É da Geração, por exemplo, o imprescindível “A privataria tucana”, escrito por Amaury Ribeiro Jr. O autor disseca a chamada Era das Privatizações, capitaneada por FHC e José Serra. Nem é preciso dizer que o livro não recebeu a devida atenção dos gigantes da mídia.

Prosseguindo em sua corajosa postura, a Geração também lançou “Dez anos que abalaram o Brasil. E o futuro?”, de 2013, escrito por João Sicsú, professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A obra é uma radiografia de o quanto o Brasil melhorou desde o primeiro mandato de Lula. Sicsú é contundente não pelo tom incisivo, mas pelos dados acachapantes que apresenta. Olhando o passado, o autor arrisca um futuro.

Apesar das previsões que faz, o livro, conforme o que o próprio Sicsú escreve, é um registro histórico no sentido de que houve a preocupação maior em registrar os fatos, os dados, e não a versão interesseira destes, divulgada diariamente pelo que o autor chama de barões da mídia. Mesmo em não se confirmando as previsões de Sicsú, “Dez anos que abalaram o Brasil. E o futuro?” é um belo documento de um Brasil que deu certo, mas que é perversamente ignorado, todos os dias, pelos meios de comunicação poderosos.

O livro é escrito com didatismo e com incisiva simplicidade; não tergiversa ao discorrer sobre o preconceito com relação aos milhões de pobres que passaram a ser consumidores nos governos de Lula e de Dilma: “Os novos trabalhadores são socialmente discriminados. São olhados com desconfiança quando adentram os aeroportos com malas de baixa qualidade e com sacolas plásticas nas mãos. Os barões da comunicação estimulam a discriminação quando descrevem seus representantes como usuários de roupas vulgares, que não têm o bom gosto dos ricos”.

Trabalhos como o de Sicsú são históricos não somente por mostrar o que o governo petista fez de bom desde quando assumiu o poder, não somente por oferecer uma possibilidade outra que não seja a que é disseminada pelos conglomerados de mídia. O livro, ainda que essa não tenha sido a intenção do autor, é um tributo não somente ao PT, mas ao povão brasileiro. Um povão que teve sua chance, que tem aprendido que também são de seu direito as riquezas do país. 

domingo, 17 de novembro de 2013

CAÇA AOS BRUXOS?

José Genoino, com capa, entregou-se para a polícia; Henrique Pizzolato, sem capa, voou para a Itália. Fosse ficção, pareceria inverossímil: a realidade é criativa. Na Ilha de Vera Cruz, uns lamentam a prisão dos “mensaleiros”, enquanto outros fazem festa. O que, com o passar do tempo, pode vir a ser lamentável é constatarmos que houve uma caça às bruxas contra o PT, deixando-se de lado os esquemas-mensalões do DEM e do PSDB.

P.S.: Informações sobre a capa podem ser obtidas aqui