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sábado, 15 de outubro de 2011

"NAMORADOS PARA SEMPRE"

É difícil ficar indiferente a “Namorados para sempre” (Blue Valentine, EUA, 2010), dirigido por Derek Cianfrance. Mas antes de eu comentar sobre possíveis razões dessa dificuldade em se ficar indiferente ao filme, útil lembrar que a versão em português do título não condiz com o original.

Os americanos comemoram o dia dos namorados em 14 de fevereiro, dia de São Valentim. O dia dos namorados, eles o chamam de Valentine’s Day. Já a palavra “valentine” pode ser a mensagem ou cartão que se manda no dia dos namorados; também tem o sentido de o namorado ou namorada escolhido no Dia de São Valentim; por fim, “valentine” pode ser também um trabalho artístico que expressa afeto por algo ou alguém. Assim, pode-se dizer: “His photos are a valentine to Rio de Janeiro”.

Ainda sobre o título, há a palavra “blue”, que, além de dar nome à cor, é também um adjetivo que pode ser entendido como “tristonho”, “melancólico”. De modo que a versão em português – “Namorados para sempre” – está distante da ideia transmitida pelo título original. Fosse eu dar palpite, sugeriria algo como Namoro triste. Até entendo a busca por um título chamativo, que contenha apelo comercial, mas é ruim quando há o desvirtuamento ou desafino em relação à obra original.

O filme não nos deixa indiferentes. Pode-se até não gostar, mas não imagino que haverá indiferença: Cindy Heller (Michelle Williams) é casada com Dean Pereira (Ryan Gosling). No presente, ele trabalha como pintor e ela é enfermeira num hospital.  As famílias de ambos não são o que chamaríamos de famílias felizes. À parte isso, Dean, que outrora pensava em não ter ele mesmo sua família, apaixona-se por Cindy; casam-se. Antes disso, um dos relacionamentos de Cindy havia sido com Bobby Ontario (Mike Vogel); a convivência de Cindy e Bobby acabaria tendo profundas consequências no relacionamento entre ela e Dean.

O filme ora narra o presente ora narra o passado. É assim que, iniciada a trama, vemos como está hoje o casal Cindy e Dean. Nas cenas seguintes, sempre havendo esse ir e vir entre o presente e o passado, compreendemos como se conheceram e a vida que levavam nessa época.

Os retornos ao passado vão contextualizando a debacle que é o casamento de Cindy e Dean. Incomoda, incomoda muito o absoluto fastio mostrado por ela, enquanto ele ainda tenta salvar o relacionamento. Há uma cena em que ele quer fazer amor; ela, a contragosto, permite. Mal ele começa, a expressão de Cindy é um esgar de repulsa e infelicidade.

O vigor do passado e o fracasso no presente. À medida que o filme vai avançando, a gente quer entender o motivo pelo qual Cindy está tão entediada, irascível e infeliz. No todo, fiquei com a impressão de que ela se casou com Dean sem, a rigor, amá-lo – ainda que possa ter pensado que amava.

O filme nos leva a refletir sobre o que as escolhas da juventude podem acarretar quando vem a maturidade. Leva-nos a refletir sobre o que um dia foi amor (ou pelo menos parecia ser) e o que ele pode se tornar à medida que os anos vão se passando.

É um retrato triste – blue – do que pode se tornar um casamento quando não há mais amor e quando se perde até a admiração que se tinha. Há um momento em que Cindy cobra de Dean que ele exerça os potenciais que tem; ele, por sua vez, está satisfeito com o trabalho de pintor, que o permite, por exemplo, tomar uma cervejinha às 8 horas da manhã.

Há cenas em que Cianfrance, o diretor, prefere o close, o corte rápido, o movimento rápido – o que acaba sendo uma bela saída para mostrar o estado de confusão e de agitação por que passam Cindy e Dean no presente. O final mantém o tom de todo o filme: inquietante.