Mostrando postagens com marcador Folha de S.Paulo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Folha de S.Paulo. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Folha do cinismo

O editorial em que a Folha de S.Paulo se diz sob ataque, intitulado “Sob ataque, aos 99”, chega a ser cínico, não porque ela não esteja sendo atacada, mas porque ela ajudou a colocar no poder gente que nunca respeitou a democracia, que defende ditadores e torturadores, gente que só veio a falar em presunção de inocência quando o envolvido era um miliciano. Seria cara de pau da Folha dizer ter suposto que o cenário seria diferente deste em vigor. Ela está sendo tão patética quanto foi o Lobão quando ele gravou vídeo dizendo-se arrependido de seu voto para presidente.

“Frustraram-se, faz tempo, as expectativas de que a elevação do deputado à suprema magistratura pudesse emprestar-lhe os hábitos para o bom exercício do cargo”, publicou a Folha. “Frustraram-se”?! Ora, ninguém é imbecil a ponto de supor que haveria “hábitos para o bom exercício do cargo”. Mudanças de hábitos vêm de dentro para fora, são frutos de reflexão. Nem cândidas ovelhas em pastos viçosos e verdejantes esperavam que a suprema magistratura pudesse tornar um tosco que elogia tortura em um cavalheiro respeitador de princípios democráticos.

Grande parte dos ataques contra a Folha tem partido de pessoas que não querem democracia, que são xenófobas, homofóbicas, afetadas, racistas, elitistas, defensoras de ditaduras, adeptas de incivilidades. Gente que aplaude quando o chefe de uma nação, em vez de responder a questionamentos pertinentes, apela para a vulgaridade ou para a fuga.

Dito isso, é preciso dizer também que os ataques são tão tacanhos quanto o próprio jornal. O cinismo da Folha não é justificativa para que ela seja atacada, mas, além de expor os vitupérios que tem recebido, o periódico de São Paulo deveria fazer seu mea-culpa na patuscada que agora grassa dos pampas à caatinga. A Folha está colhendo o que ela mesma e tantos outros ajudaram a robustecer. Os frutos envenenados vão parar também na mesa de quem não os plantou. 

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

A Época do cinismo

A revista Época tentou fazer um mea-culpa, dizendo ser contra o fim da democracia. Dentre outras coisas, escreveu a revista: “As democracias eram solapadas no passado por golpes militares, revoluções, incêndios e tumultos. Desmoronavam em meio à guerra e à peste. (...) As democracias não morrem mais assim, como bem argumentam os cientistas políticos americanos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. Na maioria dos casos modernos, as democracias são corroídas lentamente, em passos pouco visíveis”. Nem tão pouco visíveis assim. A Época faz parte das organizações Globo, e a Globo, não podemos nos esquecer, já apoiou dois golpes: o militar de 1964 e o institucional de 2016.

Prossegue a revista: “É preciso dizer um altissonante ‘não’ àqueles que querem romper as regras do jogo democrático, que negam a legitimidade dos oponentes, que cultivam a intolerância ou encorajam a violência, aqueles que admitem a restrição — mínima que seja — às liberdades civis. Basta do arbítrio que já macula o passado!”.

A desfaçatez da revista é a mesma com que outros representantes da imprensa e dos meios de comunicação têm agido. Veja, IstoÉ, Jovem Pan, Rede Globo, Folha de S.Paulo, Estadão, dentre outros, inflamaram manifestantes cheios de anacronismos históricos e de desinformação, que, não raro, vestiam a camisa de uma empresa, a CBF, cujo ex-presidente não pode sair do país sob risco de ser preso por causa de corrupção. Revistas, rádios e TVs agiram com irresponsabilidade, abandonaram o jornalismo e agora não sabem o que fazer com os filhotinhos que criaram, pois não esperavam que a prole fosse escolher o caminho truculento.

Para uma parte da imprensa e dos meios de comunicação, readotar uma política neoliberal era o plano. Não contavam com a assunção descarada de gente que apoia tortura, assassinato, gente de “bem” que quando regurgita “bandido bom é bandido morto” não pensa num Geddel, por exemplo. Uma publicação como a Época dizer que “é preciso dizer um altissonante ‘não’ àqueles (...) que cultivam a intolerância ou encorajam a violência” é tão cínico quanto um torturador dizer que preza pela integridade física dos que mutila. 

domingo, 26 de outubro de 2014

DILMA REELEITA

Globo, Veja, Jovem Pan, Uol, jornal Estado de Minas, jornal Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, Tim... Ainda não conseguiram. Dilma (cujo nome uso como metonímia) ganhou a eleição contra todos eles. Isso é ótimo, não somente pela vitória da presidente em si, mas também por ser mais uma prova (a exemplo do que ocorreu em 2010) de que, embora sejam muito poderosos, esses meios de comunicação não tiveram, nem em 2010 nem em 2014, o poder avassalador que já tiveram (esse poderio pode ser recuperado).

Como já previsto antes de a campanha política começar, foram eleições que transformaram redes sociais em guerra virtual. O clima de intolerância e de ranço, que até então era velado ou era menos expressivo, deu as caras na internet e nas ruas, provando que milhões não querem debater, mas reproduzir e continuar exercendo preconceitos seculares.

Detratores do PT, seja por má-fé, seja por ignorância, têm os argumentos: quando não é a corrupção, que existe nos dois partidos, vêm com aquela história de implantação de ditadura, de comunismo, de Cuba. Enquanto seguem com essa monocórdica balela, o governo petista é eleito democraticamente pela quarta vez.

Se comparado com o de 2010, o clima de recrudescimento aumentou neste 2014. Imprensa e meios de comunicação interesseiros e rancorosos estão mais vorazes do que nunca. Proclamada a vitória da petista, já começaram os ataques. Há várias empresas de “informação” semelhantes às que mencionei acima. Fiquemos atentos a elas todas e continuemos buscando outras possibilidades de informação.

A internet trouxe mais opções quando se tem o interesse em saber o que tem ocorrido. Qualquer pessoa pode informar ou opinar (o que é ótimo). Isso deixa a veiculação de conteúdos muito pulverizada. Parece-me que justamente essa pulverização é que faz com que Globos, Vejas e que tais ainda sejam influentes: não há como o cidadão, considerado individualmente, ser mais poderoso do que as tentáculos das empresas que citei.

Mas o Brasil não é feito só de Globos, Vejas e congêneres. Existem Fórum, Carta Capital, Pragmatismo Político, Dilma Bolada, Jeferson Monteiro, Luis Nassif, Viomundo, Cynara Menezes, Pablo Villaça... São cidadãos e empresas que simbolizam um Brasil que é bonito, corajoso, lúcido, talentoso, inteligente e bem-humorado. 

Não se incomodam em ver negros na universidade, não se incomodam quando o jardineiro compra um bom carro, não se incomodam quando a empregada doméstica usa um sapato que tem o mesmo preço do sapato usado pela patroa. Não estão a serviço dos próprios umbigos. São a favor do Brasil. 

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

O BRASIL QUE ODEIA

A Folha de S.Paulo noticiou ontem que Aécio teria debochado de Dilma após o mal-estar que ela sentiu depois do debate promovido pelo SBT. Em conversa com Marina Silva, o tucano teria dito: “Deu o desespero. Viu que ela passou mal?”. Isso não surpreende. O mundo está cheio de pessoas que debocham, por exemplo, de tombos ou que torcem para que a doença de alguém se agrave. Lembro-me de que quando o Lula foi diagnosticado com câncer, houve quem publicasse em blogues desejar a morte dele.

Se comparado com o do médico Milton Pires, do Rio Grande do Sul, o comentário de Aécio soa como inocente trecho de contos de fadas: Pires, sabedor de que Dilma tivera um mal-estar depois do debate, postou no Facebook: “Tá se sentindo mal? A pressão baixou? Chama um médico cubano, sua grande filha da puta!”. Como era de se esperar, a postagem obteve muitas curtidas. Segundo o Pragmatismo Político, Pires é funcionário da prefeitura de Porto Alegre. O comentário postado pelo médico mostra o nível que tem havido no “debate”. 

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

HIPOCRISIA VENCE — DE NOVO — AS ELEIÇÕES

O Vladimir Safatle, da Folha de S.Paulo, publicou ontem um texto em que mencionou o conservadorismo das campanhas de Aécio, Dilma e Marina no que diz respeito a costumes. Safatle se referia a assuntos como aborto e casamento entre pessoas do mesmo sexo. Em sua coluna, o autor ainda faz referência a Gregorio Duvivier, que, em texto publicado anteontem, disse que nestas eleições há “pastor demais e maconha de menos”, referindo-se à falta de debate em torno de tópicos considerados polêmicos por conservadores. Duvivier, em seu artigo, sugere que “ateus, maconheiros, vagabundas, pederastas, sapatões e travestis” se unam, alegando que o lado de lá, o lado dos conservadores, está “bem juntinho”.

Tanto o texto de Safatle quanto o de Duvivier quase que inevitavelmente nos levam a refletir sobre a hipocrisia. O dicionário Aulete, em sua versão digital, tem a seguinte definição para “hipócrita”: “Que simula ter uma qualidade ou sentimento que não tem, ou finge ser verdadeira alguma coisa (sabendo que não o é)”. Safatle ilustra bem a questão: “Se a filha adolescente do deputado conservador engravidar sem querer ele será o primeiro a aparecer por lá [clínica de aborto]. O que é proibido no Brasil é reconhecer tal prática”.

Nem toda conservadora já abortou, nem todo conservador se enriquece às custas do dinheiro de ingênuos fiéis. Mas nem Aécio nem Dilma nem Marina conseguiriam se eleger sem o voto dos conservadores, o que mostra a obsolescência de nossa sociedade; não conseguiriam governar sem o voto de milhões de supostos paladinos dos bons costumes, o que mostra o tamanho da hipocrisia de nossa sociedade.