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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

"MEMÓRIA DE MINHAS PUTAS TRISTES"


Um dia desses, perguntaram-me se eu havia lido o “Memória de minhas putas tristes”, do Gabriel García Márquez; a tradução é de Eric Nepomuceno. Eu disse que li quando foi lançado, mas que não havia me entusiasmado com o trabalho. A pessoa que me perguntou sobre minha leitura disse que havia gostado muito.

Fiquei com isso na ideia e decidi reler o livro recentemente. Só digo: não sei onde eu estava com a cabeça quando não vi a beleza que há no escrito. Eu havia gostado pouco. Antes da releitura eu não poria “Memória de minhas putas tristes” no panteão das obras do autor. Agora, mudei de ideia.

A temática do amor na velhice não é novidade no escritor colombiano; mesmo assim, nem enredo nem personagens soam como mais do mesmo. Narrado em primeira pessoa, procedimento que não é regra em García Márquez, “Memória de minhas putas tristes” é a história de um velho que decide se dar de presente, no dia em que completaria noventa anos, uma noite de amor com uma adolescente virgem.

Em tempos de engajamento contra a pedofilia, o anúncio de um enredo assim pode sugerir algo insidioso. Entretanto, não é o que exala das páginas do livro, que é um hino à vida, ao amor. Com seu usual senso de humor, García Márquez vai narrando as mudanças pelas quais passa um velho que se vê, de repente, louco de amor.

No que poderia haver repugnância, há uma história tocante, engraçada, lírica e reveladora das coisas que só o amor, e mais nada, leva-nos a fazer. História bonita, a qual mostra que ele, o amor, embora seja sempre o mesmo, não tem regras.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

GARCÍA MÁRQUEZ EM MANDARIM

Li que “O amor nos tempos do cólera”, do García Márquez, foi lançado oficialmente em mandarim (cópias ilegais do livro, bem como de “Cem anos de solidão”, já circulavam pela China). 

 “Cem anos de solidão”, após publicação legal (no sentido da lei), em 2011, já vendeu mais de um milhão de cópias – sim, a China é também mercado para a literatura. Obviamente, os editores esperam que “O amor nos tempos do cólera” obtenha êxito similar. 

A nota triste é que o escritor sofre de demência senil. Jaime García Márquez, irmão do autor colombiano, disse que “do ponto de vista físico ele está bem, embora já tenha alguns conflitos de memória”. Segundo Jaime, o irmão mantém o humor; ainda de acordo com Jaime, a senilidade é comum na família deles. Gabriel García Márquez tem 84 anos.

sábado, 4 de julho de 2009

"COISAS QUE VOCÊ PODE DIZER SÓ DE OLHAR PARA ELA"

Terminei de assistir há pouco a “Coisas que você pode dizer só de olhar para ela” (Things you can tell just by looking at her), escrito e dirigido por Rodrigo García, que é filho de Gabriel García Márquez. O filme é de 2000.

A obra é dividida em segmentos ou capítulos. À medida que o filme avança, vamos sendo apresentados aos personagens. A narrativa, que começa fatiada, aos poucos vai fazendo sentido, pois gradativamente os protagonistas vão se tornando presentes nas vidas uns dos outros.

O universo feminino é tratado com sensibilidade e inteligência. Mulheres às voltas com a profissão e com a busca do amor, num drama que consegue ser lírico e divertido. Os capítulos fazem com que as conheçamos tanto no trabalho quanto na intimidade de suas casas. Glenn Close, Cameron Diaz, Calista Flockhart, Kathy Baker, Holly Hunter e Amy Brenneman estão no filme.

Rodrigo García parece ter herdado do pai o gosto pelo humor. Há um momento em que a personagem Carol Faber (Cameron Diaz) está lendo um livro em braile – ela é cega. A irmã dela chega e pergunta que livro Carol está lendo. A princípio, ela brinca, dizendo se tratar de “Homens são de Marte, mulheres são de Vênus”. Mas depois comenta que na verdade está lendo “Cem anos de solidão”.

Há um anão, uma personagem cega, uma outra com câncer. Aos dramas psicológicos, juntam-se as limitações do corpo. Mas tudo tratado de tal modo a evitar que o filme se torne um dramalhão barato.

No primeiro segmento, Glenn Close é a doutora Keener, que cuida da mãe inválida. No segundo, Rebecca (Holly Hunter) é uma gerente de banco que lida com uma gravidez indesejada e com uma pedinte de rua que parece saber mais sobre Rebecca do que ela própria. No terceiro, Rose (interpretada por Kathy Baker) se debate sobre tentar começar ou não um romance com um anão (Danny Woodburn) que se muda para a casa em frente à dela. No quarto segmento, Calista Flockhart é Christine, lésbica que lê cartas de tarô e convive com a tristeza de ver sua amante (interpretada por Valeria Golino) definhar por causa do câncer. Por fim, no quinto segmento, Amy Brenneman é a detetive Kathy Faber, que passa a analisar a própria solidão depois que sua irmã cega começa a namorar.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

APONTAMENTO 41

“Cheiro de goiaba” é um livro de entrevistas com García Márquez. Nele, o autor colombiano responde a perguntas de Plinio Apuleyo Mendoza. Em determinado trecho, Mendoza pergunta a García Márquez que personagem literário ele gostaria de ter criado. Resposta: o Conde Drácula, de Bram Stoker.

Nunca me perguntaram que personagem eu gostaria de ter criado. Certamente, devido ao fato de que nunca criei um. Dos que tenho acompanhado, há um que eu queria que fosse criação minha: Humbert Humbert, o narrador de “Lolita”, de Vladimir Nabokov.

Que personagem literário você gostaria de ter criado?

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

EM COMUM

“Há muitas coisas que atribuímos ao demônio sem sabermos que são coisas de Deus que não sabemos entender” (García Márquez).

“Todos os que são incapazes de compreender um deus vêem-no como um demônio e, assim, se protegem de sua aproximação” (Joseph Campbell).

Salvo engano, a frase de García Márquez está em “O amor nos tempos do cólera” (vertido para o cinema não há muito tempo), mas não estou certo disso. Procurei meu exemplar aqui em casa e não o achei. Deve estar emprestado. Se estiver com você que me lê, gentileza conferir se a frase está nele mesmo; basta conferir os trechos que estão marcados por mim.

O trecho de Joseph Campbell foi extraído de “O herói de mil faces”. A bonita idéia do livro é a de que a humanidade tem construído ao longo do tempo um só mito – o monomito, termo que Campbell pegou emprestado de Joyce.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

ARACATACA E CORDISBURGO


Assisti a um documentário sobre “Cem anos de solidão”. Algumas cenas foram feitas em Aracataca, onde nasceu García Márquez. As cenas me fizeram lembrar de quando estive em Cordisburgo, terra em que nasceu Guimarães Rosa. Estive lá de passagem, com destino à Gruta de Maquiné, que fica perto da cidade.

No documentário sobre “Cem anos de solidão”, exibiram pequenos estabelecimentos comerciais cujos nomes fazem alusão a personagens ou episódios da saga dos Buendía. O mesmo se dá em Cordisburgo. Os personagens de Guimarães Rosa nomeiam de oficina de bicicleta a borracharia, bares e mercearias.

Acima, duas fotos feitas em Cordisburgo. Na primeira delas, fachada da casa em que Guimarães Rosa viveu. Hoje, é um museu. A outra foto foi tirada no interior da construção.

SOLIDÃO E LIBERDADE

Tolstoi, em texto sobre “Guerra e paz” (traduzido por João Gaspar Simões), escreve, entre outras coisas, sobre o livre arbítrio, a liberdade. Não é essa a única discussão do texto, mas sobre ela, diz ele que há coisas que podemos – ou não – fazer. Já outras, não podemos deixar de fazer. Ele chega a dar alguns exemplos de coisas que não podemos deixar de fazer: “Não posso, durante uma batalha, deixar de partir para o ataque com os meus camaradas e não fugir quando todos fogem à volta de mim”. Também dá exemplos de coisas que podemos deixar de fazer: “Posso neste momento deixar de escrever”.

García Márquez disse que escrever é um dos atos mais solitários que ele consegue imaginar. Mas depois de ler as considerações de Tolstoi, não se pode deixar de pensar no ato de escrever como sendo também um ato de plena liberdade. Tanto que “posso neste momento deixar de escrever”.