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terça-feira, 11 de julho de 2017

Plataforma L

Manuel Bandeira e
Machado de Assis
estiveram num 
mesmo bonde.

Fernando Sabino e
Manuel Bandeira 
estiveram num
mesmo ônibus.

Leio e viajo. 

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Luzes e nódoas

Vira e mexe, como diriam os antigos, eu cito um trecho do Manuel Bandeira no qual ele diz que a poesia é “nódoa no brim”. Uma rápida consulta em meu blogue me revela que já mencionei esse trecho do Bandeira em pelo menos três postagens.

Volto a ele pela mesma temática sobre a qual já escrevi: em termos modernos, uma beleza imaculada demais pode, de modo paradoxal, não ser tão sedutora quanto uma beleza “conspurcada”. Metaforicamente, é preciso haver uma nódoa, sob o risco de se incorrer numa beleza limpinha demais, bem-comportada demais.

É preciso “estragar” o belo, “dessacralizá”-lo, “desrespeitá”-lo. Uma beleza que descambe para a assepsia absoluta corre o risco de parecer artificial. Podemos ter o anseio de sermos imaculados ou de produzirmos algo imaculado, mas sob qualquer aspecto estamos longe disso. Além do mais, nossas “impurezas” têm seu encanto e beleza. Belezas e encantos humanos, é verdade, mas belezas. Ainda bem que temos nódoas.

Ontem, folheei alguns livros do Manoel de Barros em busca de uma frase dele. Eu me lembrava do teor dela, mas não me lembrava das palavras exatas. Enquanto a procurava, eu me deparei com o seguinte trecho, extraído de “O livro das ignorãças”:

“Aos blocos semânticos dar equilíbrio. Onde o abstrato entre, amarre com arame. Ao lado de um primal deixe um termo erudito. Aplique na aridez intumescências. Encoste um cago ao sublime. E no solene um pênis sujo” (1). Os oximoros que o poeta usa intensificam a ideia de que o imaculado deve ser “poluído”. É quando fica pleno de humanidade.

O preceito do Manoel de Barros acabou me remetendo a um do Mario Benedetti, que li recentemente. Cito como está no texto original, com tudo em minúsculas:

“com o desejo mais terno do que outras noites
tateou as pernas da mulher nova
que felizmente não eram de carrara (...)
com o polegar e o indicador reconheceu os lábios
que felizmente não eram de coral” (2).

A idealização é capaz de prodígios, de produzir obras-primas. Ela é inevitável; perpassa não só nosso imaginário, mas toda a história da arte. Seria irresponsável afirmar que idealizações não contém verdades humanas.

O Modernismo, que para muitos produziu uma arte “menor” se comparada com a arte clássica, investiu pesado na dessacralização do fazer artístico e da arte em si mesma, o que é uma de suas grandes conquistas. Boccaccio, Rabelais, Cervantes ou Sterne já haviam feito uma saudável farra com a literatura. No Modernismo, isso se tornou muito forte.

Trechos como o de Manoel de Barros ou o de Benedetti, citados acima, são exemplos do que a literatura moderna conquistou. São nódoas a revelar nossa condição de seres que comportam o sublime e o sujo. Em nós, o elevado e trivial se misturam. Que haja luzes e nódoas.
_____

(1) BARROS. Manoel de. O livro das ignorãças. 4ª edição. Rio de Janeiro. Record. 1997. Pag. 21.
(2) BENEDETTI, Mario. O amor, as mulheres e a vida. Tradução de Julio Luis Gehlen. Campinas. Verus. 2010. Pág. 63.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Por favor, uma dose de nódoa

Estou lendo “La verdad de las mentiras”, do Mario Vargas Llosa. Além de uma bela introdução em que o escritor discorre sobre o paradoxo de que a literatura “mente” para trazer à tona verdades que de outro modo continuariam escondidas, o livro tem vinte e cinco ensaios sobre romances que marcaram o século XX.

Um dos ensaios do livro de Llosa é sobre “Mrs. Dalloway”, da Virginia Woolf. Septimus Warren Smith é nome de personagem criado por ela nesse livro. O enredo, que prima por aquela famosa aparente simplicidade de alguns grandes escritos, narra um dia da senhora Dalloway. A “monotonia” é quebrada por um evento drástico — o suicídio de Septimus Warren Smith.

A partir daí, escreve Llosa: “En alguna parte leí que un célebre calígrafo japonés acostumbraba macular sus escritos con una mancha de tinta. ‘Sin ese contraste no se apreciaría debidamente la perfección de mi trabajo’, explicaba. Sin la pequeña huella de cruda realidad que la historia de Septimus Warren Smith deja en el libro, no sería tan impoluto y espiritual, tan áureo y tan artístico el mundo en el que nació — y contribuye tanto a crear — Clarissa Dalloway”. O suicídio de Septimus Warren Smith “conspurca” a “pureza” da narrativa em “Mrs. Dalloway”. O personagem “estraga” o livro.

Tudo isso me remete ao Manuel Bandeira. Não somente por ele ter a aparente simplicidade a que já fiz referência, mas por ele ter expressado tão bem, com tão poucas palavras, que o espírito da poesia, por mais paradoxal que possa soar, é o de “estragar” as coisas, é o de “incomodar” as coisas. É curioso: a beleza precisa de uma “mancha”. No modo como encaro as coisas, isso vale até para a beleza física das pessoas. É preciso algo que “destoe”. Escreveu o Bandeira: “A poesia é a nódoa no brim”. 

terça-feira, 14 de outubro de 2014

"ESTRAGUE" O TEXTO

O Bandeira escreveu que a poesia é a “nódoa no brim”. De modo correlato, o texto literário precisa ser “estragado”, é preciso “avacalhar” a feitura dele; a “nódoa” é um dos ingredientes quando se compõe um tecido literário. O grande escritor sabe “manchar” o texto dele.

O Charles Bukowski não é um autor lírico; pelo menos, não no sentido tradicional do termo. Isso não quer dizer que não haja poesia no trabalho dele. Um texto pode ser poético sem se valer do lirismo. Do Bukowski, o conto “A mulher mais linda da cidade” é um exemplo disso: não tem lirismo, mas tem poesia. Do autor, estou lendo “Pulp”, o último livro publicado por ele. Segundo a tradução de Marcos Santarrita, há em “Pulp” o seguinte trecho:

“Aí a porta se abriu de repente. E entrou a tal mulher.

“Ora, tudo que posso dizer é que existem bilhões de mulheres no mundo, certo? Algumas bem vistosas. Muitas muito bonitas. Mas de vez em quando a natureza nos sai com um truque bestial, reúne todos os atributos numa mulher especial, uma mulher inacreditável. Quer dizer, a gente olha e não acredita. Tudo se move em perfeita ondulação, mercúrio, serpente, a gente vê umas cadeiras, um cotovelo, uns peitos, um joelho, e tudo se funde numa unidade gigantesca, um todo inesquecível, com aqueles olhos lindíssimos a sorrir, a boca meio descaída, os lábios imóveis como prontos para estourar numa gargalhada, pela sensação de impotência da gente. E elas sabem se vestir, e o cabelo longo incendeia o ar. Tudo demais, porra”.

Até o trecho “o cabelo longo incendia o ar”, tem-se um lirismo... tradicional, ainda que se argumente que termos como “bestial”, “cotovelo” e “joelho” possam quebrar tal lirismo. Contudo, o segmento “tudo demais, porra” não somente é um daqueles trechos que revelam o estilo de um autor: esse “tudo demais, porra” é a nódoa no brim num devaneio que até então vinha sendo composto com imagens poéticas, líricas. “Estragar” um texto não é o único modo para se fazer literatura, mas Bukowski, ao “desrespeitar” o texto dele, a fez. 

quarta-feira, 9 de julho de 2014

PRÊMIO NOBEL PARA RONALDO

Ronaldo, vulgo Fenômeno, postou no Instagram um texto em que se lê:

“PRÊMIOS NOBEL

“ALEMANHA 102
“BRASIL 0

“E você acha que 7 x1 foi goleada?”.

De antemão: o futebol é disputa; o prêmio Nobel, não. Além do mais, o povo de um país não deve ser julgado pela quantidade de prêmios Nobel que esse país detém: não bastassem as questões políticas que podem permear uma premiação ou outra do Nobel, o fato de o Brasil não ter nenhum laureado não significa incapacidade da população. O brasileiro é tão capaz quanto qualquer pessoa de qualquer nacionalidade. Se não temos um Nobel, isso se deve muito mais a questões históricas do que à falta de talento de nossa gente.

Na literatura, que é uma área de que dou notícia, Drummond, João Cabral, Guimarães Rosa, Bandeira ou Lúcio Cardoso, só para ficar em alguns exemplos, poderiam ter sido agraciados com o prêmio. Ronaldo, que foi um craque em campo, não sabe disso. Exatamente por isso, não deveria ter propagado piada (sem graça) sobre aquilo de que nada entende.

Por fim, há algo que me soa estranho: Ronaldo foi jogador de futebol. A piada ruim e sem criatividade divulgada por ele diz respeito a algo que ocorreu com colegas de profissão dele. Além da burrice da postagem, a atitude do ex-jogador revela uma profunda falta de ética e de solidariedade para com os colegas de profissão.