Embora o amor carnal e seus desdobramentos seja temática em grande parte da literatura, ele não é imprescindível para que haja um grande livro. Penso em “Viagens de Gulliver” e em “Moby Dick”. Ainda que se alegue que em “Moby Dick”, logo no começo da história, tenha havido contato físico entre o narrador e o personagem Quiqueg, o que houve na estalagem não foi a edificação de uma relação amorosa no sentido de se construir algo ao longo do tempo. Foi uma cena no enredo; mesmo tendo sido uma cena que suscite dúvidas e cogitações, isso não faz com que o livro tenha um enredo romântico, não importa o sentido que se dê ao termo “romântico”. “Viagens de Gulliver”, com sua galhofa amarga, e “Moby Dick”, com sua elevada cogitação metafísica, são obras destituídas de amor.
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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017
sábado, 1 de outubro de 2016
O riso triste de Viagens de Gulliver
Causa espanto o quanto Viagens de Gulliver (1726), de Jonathan Swift (1667-1745) é lúdico e demolidor. Na obra, acompanhamos as peripécias por que passa Lemuel Gulliver, que é o narrador. Tendo realizado quatro viagens, o que lemos são as notícias que Gulliver nos dá dos lugares em que esteve: nas três primeiras jornadas, em Lilipute, Brobdingnag, Laputa, Balnibarbi, Glubbdubdrib, Luggnagg e no Japão; na quarta, vai ao País dos Houyhnhnms.
Ainda que se alegue que a quarta viagem não tenha o humor das anteriores, isso não é o mesmo que dizer que ela não tenha humor algum. De qualquer modo, mesmo havendo a insistência de que não há nada de engraçado na última jornada do narrador, por ela ter um tom mais filosófico, soturno e reflexivo, isso não anula a graça e a graciosidade do livro. Ao mesmo tempo em que diverte, o artifício de Swift, ao criar o crédulo e ingênuo narrador Gulliver, criou um ataque corrosivo contra o homem e contra as nações, num tom que mistura galhofa e contundência.
Susan Sontag, no livro Sobre Fotografia, escreveu: “A operação balzaquiana consistia em ampliar pequenos detalhes, como numa ampliação fotográfica” (1). Essa ampliação tem a capacidade de fazer com que nossa “cegueira” seja diminuída. O exagero faz com que olhemos de outro modo coisas que estão diante de nós; por estarmos acostumados a elas, geralmente não as observamos, mas se observarmos, constatamos que tudo pode ser mais estranho do que o que nos revela nossa vista cansada e saturada. A ampliação ou o exagero tornam inéditos um mundo que nos parecia não ter mais novidade. Súbito, damo-nos conta de que há um modo de olhar, seja literalmente, seja metaforicamente, que banha de novidade algo em que não mais prestávamos atenção ou em que nunca havíamos prestado.
Essa ampliação pode trazer à tona a beleza ou a feiura. O que temos de repugnante pode se tornar mais evidente quando observado com olhar de lupa. Gulliver, em sua segunda jornada, está em Brobdingnag; nessa terra, ele convive com gigantes, diferentemente da primeira viagem, em que ele convivera com criaturas minúsculas. Em Brobdingnag, Gulliver é encarado como “lusus naturae” [divertimento da natureza] (2). Na estratégia de Swift, em que o narrador é agora minúsculo, o viajante tem diante de si seres gigantes, o que amplia as imperfeições de seus corpos. Encarado como brinquedo pelas mulheres de Brobdingnag, Gulliver é colocado no seio de uma delas. Diz ele:
“Devo confessar que nada me repugnou tanto como a vista do seu seio monstruoso, que não sei a que posso comparar, a fim de dar ao leitor uma idéia do seu tamanho, da sua forma e da sua cor. Mediria uns 6 pés de comprimento e nunca menos de 16 de circunferência. O bico teria, no mínimo, a metade do tamanho de minha cabeça, e ostentava tão grande variedade de manchas, borbulhas e sardas, que não se poderia imaginar espetáculo mais nauseoso” (3).
Em outro momento, em que também narra a convivência que teve com as mulheres de Brobdingnag, Gulliver diz: “Frequentemente me despiam, da cabeça aos pés, e me colocavam deitado a fio comprido sobre os seus ventres; o que sobremodo me repugnava; porque, para dizer a verdade, a pele delas soltava um cheiro nauseabundo” (4).
No universo criado por Swift, se na primeira viagem o narrador é a criatura que foi observada em detalhes pelos habitantes de Lilipute, que eram minúsculos em relação a Gulliver, na segunda viagem, ele é quem padece por causa do cheiro exalado pelos habitantes de Brobdingnag. Todavia, reitero, Swift zomba não só da soberba dos indivíduos, mas também da soberba das nações, com seus sistemas políticos e seu ufanismo. Em documento divulgado por Gulliver, consta que Lilipute é “delícia e terror do universo” (5); a metrópole de Brobdingnag tem a alcunha de “Orgulho do Universo” (6).
Swift, ao criar um narrador quase isento ao narrar o que havia testemunhado, mofa ainda das propaladas conquistas da racionalidade. O século XX, muito em virtude do morticínio que foi capaz de produzir, graças ao avanço da ciência, continuou pondo em xeque a supremacia da razão como sendo capaz de nos tornar mais plenos. Jung (1875-1961), no ensaio “Chegando ao inconsciente”, escreveu:
“O lema ‘querer é poder’ é a superstição do homem moderno. Para sustentar essa crença, no entanto, o homem contemporâneo paga o preço de uma incrível falta de introspecção. Não consegue perceber que, apesar de toda a sua racionalização e eficiência, continua à mercê de ‘forças’ fora de seu controle. Seus deuses e demônios absolutamente não despareceram” (7).
Jogando sobre sua época um olhar zombeteiro e impiedoso, Viagens de Gulliver, já no século XVIII, o século do Iluminismo, movimento intelectual que advogou o poder da razão, demole a crença na capacidade que essa mesma razão tem de explicar o que somos ou de ser nossa redentora. Na primeira viagem, Gulliver dá notícia de uma guerra que ocorrera porque os habitantes não conseguem chegar a um consenso sobre se o ovo deve ser quebrado a partir da ponta mais grossa ou da mais fina; na terceira, um homem estava estudando há oito anos um modo de extrair raios de sol dos pepinos, enquanto outro se esforçava para transformar o gelo em pólvora; na quarta, a despeito da aparente perfeição da sociedade dos Houyhnhnms, em que os cavalos é que são racionais, ao passo que os homens nem são capazes de articular linguagem, a razão dos equinos os conduziu ao embotamento da capacidade de compaixão e a uma hierarquia em que um cavalo é segregado por causa de seu aspecto físico, numa sinistra eugenia:
(...) “Entre os Houyhnhnms, o branco, o alazão e o castanho-escuro não tinham exatamente o formato do baio, do ruço rodado e do preto; não haviam nascido com as mesmas aptidões intelectuais, nem com capacidade para aprimorá-las, e continuavam sempre, portanto, na condição de criados, sem aspirar jamais a elevar-se acima da própria raça” (8).
Em Viagens de Gulliver, indivíduo e sociedade são doentes e dignos de pena e de riso — um riso que, no leitor adulto, já tendo em si a malícia e já sendo apto a compreender ironias amargas, nunca é pueril, nunca deixa esquecer que estamos rindo de algo lamentável. O corpo social e o corpo individual se refletem. O homem, microcosmo, é tão conspurcado quanto a coletividade, macrocosmo. O livro pode ser lido como uma espécie de rol das corrupções do caráter dos indivíduos e do espírito das nações.
_____
(1) SONTAG, Susan. Sobre Fotografia. Tradução Rubens Figueiredo. 1ª edição. São Paulo. Companhia das Letras. 2004. Pág. 175.
(2) SWIFT, Jonathan. Viagens de Gulliver. Tradução Octavio Mendes Cajado. São Paulo. Círculo
do Livro. [19--]. Pág. 92.
(3) Idem. Pág. 79.
(4) Ibidem. Pág. 103.
(5) Ibidem. Pág. 37.
(6) Ibidem. Pág. 86.
(7) JUNG, Carl Gustav [et al.]. O homem e seus símbolos [concepção e organização Carl G. Jung]. Tradução Maria Lúcia Pinho. 3ª edição especial. Rio de Janeiro. HarperCollins Brasil. 2016. Pág. 103.
(8) SWIFT, Jonathan. Viagens de Gulliver. Tradução Octavio Mendes Cajado. São Paulo. Círculo
do Livro. [19--]. Pág. 235.
Ainda que se alegue que a quarta viagem não tenha o humor das anteriores, isso não é o mesmo que dizer que ela não tenha humor algum. De qualquer modo, mesmo havendo a insistência de que não há nada de engraçado na última jornada do narrador, por ela ter um tom mais filosófico, soturno e reflexivo, isso não anula a graça e a graciosidade do livro. Ao mesmo tempo em que diverte, o artifício de Swift, ao criar o crédulo e ingênuo narrador Gulliver, criou um ataque corrosivo contra o homem e contra as nações, num tom que mistura galhofa e contundência.
Susan Sontag, no livro Sobre Fotografia, escreveu: “A operação balzaquiana consistia em ampliar pequenos detalhes, como numa ampliação fotográfica” (1). Essa ampliação tem a capacidade de fazer com que nossa “cegueira” seja diminuída. O exagero faz com que olhemos de outro modo coisas que estão diante de nós; por estarmos acostumados a elas, geralmente não as observamos, mas se observarmos, constatamos que tudo pode ser mais estranho do que o que nos revela nossa vista cansada e saturada. A ampliação ou o exagero tornam inéditos um mundo que nos parecia não ter mais novidade. Súbito, damo-nos conta de que há um modo de olhar, seja literalmente, seja metaforicamente, que banha de novidade algo em que não mais prestávamos atenção ou em que nunca havíamos prestado.
Essa ampliação pode trazer à tona a beleza ou a feiura. O que temos de repugnante pode se tornar mais evidente quando observado com olhar de lupa. Gulliver, em sua segunda jornada, está em Brobdingnag; nessa terra, ele convive com gigantes, diferentemente da primeira viagem, em que ele convivera com criaturas minúsculas. Em Brobdingnag, Gulliver é encarado como “lusus naturae” [divertimento da natureza] (2). Na estratégia de Swift, em que o narrador é agora minúsculo, o viajante tem diante de si seres gigantes, o que amplia as imperfeições de seus corpos. Encarado como brinquedo pelas mulheres de Brobdingnag, Gulliver é colocado no seio de uma delas. Diz ele:
“Devo confessar que nada me repugnou tanto como a vista do seu seio monstruoso, que não sei a que posso comparar, a fim de dar ao leitor uma idéia do seu tamanho, da sua forma e da sua cor. Mediria uns 6 pés de comprimento e nunca menos de 16 de circunferência. O bico teria, no mínimo, a metade do tamanho de minha cabeça, e ostentava tão grande variedade de manchas, borbulhas e sardas, que não se poderia imaginar espetáculo mais nauseoso” (3).
Em outro momento, em que também narra a convivência que teve com as mulheres de Brobdingnag, Gulliver diz: “Frequentemente me despiam, da cabeça aos pés, e me colocavam deitado a fio comprido sobre os seus ventres; o que sobremodo me repugnava; porque, para dizer a verdade, a pele delas soltava um cheiro nauseabundo” (4).
No universo criado por Swift, se na primeira viagem o narrador é a criatura que foi observada em detalhes pelos habitantes de Lilipute, que eram minúsculos em relação a Gulliver, na segunda viagem, ele é quem padece por causa do cheiro exalado pelos habitantes de Brobdingnag. Todavia, reitero, Swift zomba não só da soberba dos indivíduos, mas também da soberba das nações, com seus sistemas políticos e seu ufanismo. Em documento divulgado por Gulliver, consta que Lilipute é “delícia e terror do universo” (5); a metrópole de Brobdingnag tem a alcunha de “Orgulho do Universo” (6).
Swift, ao criar um narrador quase isento ao narrar o que havia testemunhado, mofa ainda das propaladas conquistas da racionalidade. O século XX, muito em virtude do morticínio que foi capaz de produzir, graças ao avanço da ciência, continuou pondo em xeque a supremacia da razão como sendo capaz de nos tornar mais plenos. Jung (1875-1961), no ensaio “Chegando ao inconsciente”, escreveu:
“O lema ‘querer é poder’ é a superstição do homem moderno. Para sustentar essa crença, no entanto, o homem contemporâneo paga o preço de uma incrível falta de introspecção. Não consegue perceber que, apesar de toda a sua racionalização e eficiência, continua à mercê de ‘forças’ fora de seu controle. Seus deuses e demônios absolutamente não despareceram” (7).
Jogando sobre sua época um olhar zombeteiro e impiedoso, Viagens de Gulliver, já no século XVIII, o século do Iluminismo, movimento intelectual que advogou o poder da razão, demole a crença na capacidade que essa mesma razão tem de explicar o que somos ou de ser nossa redentora. Na primeira viagem, Gulliver dá notícia de uma guerra que ocorrera porque os habitantes não conseguem chegar a um consenso sobre se o ovo deve ser quebrado a partir da ponta mais grossa ou da mais fina; na terceira, um homem estava estudando há oito anos um modo de extrair raios de sol dos pepinos, enquanto outro se esforçava para transformar o gelo em pólvora; na quarta, a despeito da aparente perfeição da sociedade dos Houyhnhnms, em que os cavalos é que são racionais, ao passo que os homens nem são capazes de articular linguagem, a razão dos equinos os conduziu ao embotamento da capacidade de compaixão e a uma hierarquia em que um cavalo é segregado por causa de seu aspecto físico, numa sinistra eugenia:
(...) “Entre os Houyhnhnms, o branco, o alazão e o castanho-escuro não tinham exatamente o formato do baio, do ruço rodado e do preto; não haviam nascido com as mesmas aptidões intelectuais, nem com capacidade para aprimorá-las, e continuavam sempre, portanto, na condição de criados, sem aspirar jamais a elevar-se acima da própria raça” (8).
Em Viagens de Gulliver, indivíduo e sociedade são doentes e dignos de pena e de riso — um riso que, no leitor adulto, já tendo em si a malícia e já sendo apto a compreender ironias amargas, nunca é pueril, nunca deixa esquecer que estamos rindo de algo lamentável. O corpo social e o corpo individual se refletem. O homem, microcosmo, é tão conspurcado quanto a coletividade, macrocosmo. O livro pode ser lido como uma espécie de rol das corrupções do caráter dos indivíduos e do espírito das nações.
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(1) SONTAG, Susan. Sobre Fotografia. Tradução Rubens Figueiredo. 1ª edição. São Paulo. Companhia das Letras. 2004. Pág. 175.
(2) SWIFT, Jonathan. Viagens de Gulliver. Tradução Octavio Mendes Cajado. São Paulo. Círculo
do Livro. [19--]. Pág. 92.
(3) Idem. Pág. 79.
(4) Ibidem. Pág. 103.
(5) Ibidem. Pág. 37.
(6) Ibidem. Pág. 86.
(7) JUNG, Carl Gustav [et al.]. O homem e seus símbolos [concepção e organização Carl G. Jung]. Tradução Maria Lúcia Pinho. 3ª edição especial. Rio de Janeiro. HarperCollins Brasil. 2016. Pág. 103.
(8) SWIFT, Jonathan. Viagens de Gulliver. Tradução Octavio Mendes Cajado. São Paulo. Círculo
do Livro. [19--]. Pág. 235.
quarta-feira, 28 de setembro de 2016
“A incrível história de Adaline”
O narrador de “Viagens de Gulliver”, do Jonathan Swift, realiza quatro viagens. Na terceira delas, um dos lugares visitados é Luggnagg. Lá, alguns habitantes são imortais. Não morrem — mas envelhecem. Depois de ter se deparado com pessoas decrépitas e que haviam perdido o tino, o narrador conclui, segundo tradução de Octavio Mendes Cajado: “Acreditará facilmente o leitor que, depois do que vi e ouvi, o meu grande anseio de perpetuidade decresceu muitíssimo. Envergonharam-me profundamente as deleitosas visões que eu imaginara, e cuidei que tirano algum poderia inventar uma morte a que eu não me atirasse com prazer”.
Adaline Bowman (Blake Lively) tem algo em comum com os decrépitos de Luggnagg: ela também é imortal. Só que ela não envelhece. Após estranho acidente, quando ela já era mãe e já havia ficado viúva, o corpo de Adaline para de envelhecer. À medida que as décadas vão passando, ela sabe que não vai morrer.
Esse é o fio condutor de “A incrível história de Adaline” [The age of Adaline] (2015), do diretor Lee Toland Krieger. Os roteiristas são J. Mills Goodloe e Salvador Paskowitz. Além de Blake Lively, Michiel Huisman, interpretando Ellis Jones, é protagonista.
Se na viagem a Luggnagg Gulliver, o narrador, descobre as desvantagens da imortalidade, admitindo que a natureza faz certo em tirar a vida dos corpos à medida que vão envelhecendo, Adaline, que não envelhece, depara-se com outra desvantagem da imortalidade: ela passa a não ter relações afetivas que tenham significado profundo, pois aqueles que ela ama vão envelhecer e morrer, ao passo que ela continuará jovem e viva. Como explicar ao parceiro e às pessoas o não envelhecimento? Adaline foge do amor ou de quaisquer laços duradouros.
Tendo ficado viúva, convive com Flemming (Ellen Burstyn), a filha, que, no aspecto visual, está bem mais velha do que a mãe. É a única pessoa que sabe que Adaline não envelhece. Só que décadas de negações de vínculos afetivos acabam causando em Adaline uma espécie de esterilidade ou de torpor psicológico. Mesmo sentindo falta de fortes vínculos afetivos, ela rechaça aqueles que tentam se aproximar dela. Em meio a essa atmosfera feita de recusa e de desejo, entra em cena Ellis Jones.
À medida que a trama avança, é natural que fiquemos curiosos para saber o destino de Adaline, não só quanto a Ellis. Contudo, ao lado dessa expectativa, fica-se torcendo para que a narrativa não se torne açucarada demais. Quando o filme termina, há alívio, pois o roteiro, embora flerte com a pieguice, roçando-a em algumas cenas, não descamba totalmente para ela.
“A incrível história de Adaline” é mais uma produção que lida com a temática da imortalidade e suas implicações no dia a dia de quem não morre. O desfecho é verossímil. Nos instantes finais, há uma cena em que Adaline se olha no espelho; a sequência é prosaica e poética.
quarta-feira, 19 de agosto de 2015
DOS LAPSOS
Hoje pela manhã, para aula de inglês, levei três textos: a letra da canção “Cool kids”, do Echosmith, a crônica “Os diferentes”, do Artur da Távola, e uma postagem de ontem, sobre moda, da Cynara Menezes.
No que entrego os textos para os estudantes, um deles logo me pergunta: “Ué, Lívio, o título da música é esse mesmo?”. Confiro o que eu digitara. Em vez de “Cool kids” (“Garotos descolados”), digitei “Cook kids”. “Cook” é o verbo “cozinhar”. Terá sido reminiscência de “Modesta proposta e outros textos satíricos”, do Swift?...
quinta-feira, 23 de julho de 2015
APONTAMENTO 270
Ao ler a frase “se você se suicidasse, estaria matando a pessoa errada”, Fulano entende o aforismo como carta branca para matar o próximo... Alguém escreve que não gosta da cor amarela: um leitor interpreta que a pessoa não gosta nem de verde nem de vermelho nem de azul... Sujeito diz que é canhoto — é entendido que ele está achincalhando os destros... Uma pessoa ironiza o radicalismo, mas pelos radicais é enaltecida... É moeda corrente a incapacidade de interpretação levar a vitupérios. Swift, dentre outras coisas, zomba dessa incapacidade no “Viagens de Gulliver”. Ela é tão velha quanto o homem. As redes sociais a escancararam.
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segunda-feira, 9 de março de 2015
NA MÉDIA
Não são liliputianos.
Não são de Brobdingnag.
São medianos.
Tão medianos quanto
o haicai acima.
Nem abaixo
nem acima.
São a média.
São bípedes,
são expansivos.
Quando argumentam,
lembram um houyhnhnm.
Ou um yahoo.
Acham-se sofisticados.
Descontentes,
querem se mudar.
Vão a Laputa!:
lá, sentem-se
pairando acima
da média.
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
A BOCA DE PATRÍCIA MOREIRA
Patrícia Moreira, a torcedora do Grêmio que, ontem, xingou o Aranha, goleiro do Santos, de macaco, foi afastada de suas atividades no Centro Médico Odontológico da Brigada Militar. Patrícia é auxiliar de saúde bucal. O episódio pode resultar em punição para o Grêmio; a fim de evitá-la, o time já identificou dez torcedores que também foram racistas durante o jogo. Dois dos torcedores eram sócios do clube; foram excluídos, segundo o Grêmio. Os outros oito não poderão mais assistir a jogos do time quando ele jogar em casa. Segundo Aranha, ele também foi chamado de “preto fedido”.
Sempre que fico sabendo desse tipo de xingamento, eu me lembro de uma frase que diz: “Um gambá cheira o outro e acha que é perfume”. Patrícia, bem como quem xingou o goleiro de “preto fedido” e aqueles que ficaram imitando macacos no jogo de ontem, acham-se, suponho, cheirosos — ou pelo menos acham que o Aranha fede. A Patrícia, o Aranha, você e eu podemos feder ou cheirar bem. Essas questões biológicas e simples parecem não fazer parte do pensamento de Patrícia e afins.
A torcedora do Grêmio e os similares dela que estavam ontem no estádio não devem ter lido “Viagens de Gulliver”, do Jonathan Swift. Se leram, podem ter passado pelo livro como quem está diante de um manual de instalação de suporte de televisor. No livro, Swift relativiza culturas, relativiza nossos cheiros, para afinal fazer concluir que somos feitos de uma mesma matéria — que pode não cheirar tão bem como gostaríamos que cheirasse. Por fim, é irônico: ao ser filmada pela ESPN, Patrícia, auxiliar de saúde bucal, mostrou que o que sai da boca dela não é nada limpo.
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
"O PRESIDENTE NEGRO"
Terminei de ler ontem “O presidente negro”, romance de Monteiro Lobato. O livro defende a eugenia, alegando a supremacia da etnia branca.Vladimir Nabokov disse certa vez que definitivamente não concordava com o comportamento de seu personagem Humbert, sujeito de meia-idade que se envolve com Lolita, uma ninfeta. Não conheço a biografia de Lobato, de modo que seria um tanto inconseqüente de minha parte ir logo misturando homem e obra. Ainda assim, é digno de nota que o próprio Lobato escreveu: “O Brasil, filho de pais inferiores… destituídos desses caracteres fortíssimos que imprimem… um cunho inconfundível em certos indivíduos, como acontece com o alemão, com o inglês, cresceu tristemente… dando como resultado um tipo imprestável, incapaz de continuar a se desenvolver sem o concurso vivificador do sangue de alguma raça original”. [Aqui, link para que você confira de onde extraí a citação.] Marcia Camargos e Vladimir Sacchetta, autores do prefácio de “O presidente negro”, mencionam a longa correspondência mantida entre Lobato e Renato Kehl, defensor de teorias de purificação étnica. Este chegou a prefaciar um livro de Lobato.
Camargos e Sacchetta preferem não se alongar sobre o suposto racismo de Monteiro Lobato. Afirmam que “O presidente negro” revela “as profundas contradições da sociedade norte-americana” do começo do século XX.
A obra foi publicada primeiramente em 1926, de setembro a outubro, no jornal carioca A Manhã. Na ocasião, saiu com o título de “O choque”. Duas décadas depois receberia o título que tem hoje.
Ayrton Lobo é o narrador da história. Após sofrer um acidente em seu Ford então recentemente adquirido, Lobo é ajudado pelo professor Benson. O senhor o leva para casa, onde Lobo tem contato com Jane, filha única de Benson.
Desnecessário dizer que Lobo logo se apaixona por Jane. Benson, por sua vez, permite a aproximação. Decidido estava o professor a revelar sua grande invenção, o porviroscópio – máquina que permitia a visualização do futuro até o ano de 3527. Benson, para assombro de Lobo, vai detalhando como funciona a máquina. Ainda envolvido com os relatos, morre. Jane naturalmente assume a continuidade do que o pai começara, em entrevistas semanais que passou a ter com Ayrton Lobo. Este, por sua vez, vai cada vez se apaixonando mais por ela.
A história que Jane escolhe narrar em detalhes se passa nos EUA, no ano de 2228, quando um negro é eleito para a presidência do país. Em “O presidente negro”, os EUA do século XXIII são “a feliz zona que desde o início atraiu os elementos mais eugênicos das melhores raças européias”. Na ótica do livro, o atraso de gente como o brasileiro, por exemplo, deve-se à mistura de raças: “O amor matou no Brasil a possibilidade de uma suprema expressão biológica. O ódio criou na América a glória do eugenismo humano”.
A sociedade de que trata a obra é divida em homens brancos, feministas radicais brancas e homens e mulheres negros. Brancos e feministas se surpreendem quando um candidato negro decide concorrer ao cargo de presidente. A briga das feministas contra os homens brancos acaba dividindo os votos da etnia branca, o que propicia a eleição de Jim Roy, o candidato dos negros. No texto de Lobato, os negros do futuro haviam se submetido a um processo pelo qual suas peles haviam sido clareadas. A despeito desse clareamento, não são, em essência, brancos. A eleição de Jim Roy fará com que o definitivo e fatal golpe eugênico seja aplicado contra os negros.
Ayrton Lobo é um personagem ingênuo, funcionário da firma Sá, Pato & Cia. Embora seja o narrador da história, a notícia que recebemos do futuro nos é dada por intermédio, a princípio, do professor Benson; depois, por Jane. Tanto filha quanto pai são sofisticados, requintados. Pouco antes de morrer, Benson destruíra o porviroscópio, temendo o estrago que a invenção poderia causar se em mãos erradas. O futuro que Jane vai descortinando para Lobo faz parte de sua memória, do que ela observou enquanto teve à disposição a máquina do pai.
O leitor não ri do que apresenta o livro. Não é, por exemplo, como um “Viagens de Gulliver”. O narrador de Swift, ao relatar ingenuamente suas histórias, faz com que nós, leitores, achemos graça do que nos conta o narrador. Não há ironia em “O presidente negro”. Com calma, inteligência e feminilidade, Jane vai conduzindo Lobo, que passa a admirar o futuro eugênico, passando a desprezar o presente limitado e aquém. O narrador Lobo reproduz as palavras de Jane, sempre conscienciosa e certa do que diz. Fossem de Lobo as palavras, talvez o efeito pudesse ser similar ao que sentimos quando lemos o que nos conta Gulliver. Jane, sobre os EUA, declara: “Onde há força vital da raça branca senão lá? Já a origem do americano entusiasma”. Jane não é nem ingênua nem risível. O livro de Monteiro Lobato não está mofando do racismo, mas o endossando. Lamentável.
“O presidente negro” foi relançado recentemente a toque de caixa, quando Barack Obama ainda disputava com Hillary Clinton uma vaga democrata nas eleições presidenciais norte-americanas. Sem saber do que se tratava, gulliverianamente comprei o livro, pensando que ele era uma espécie de ataque contra o racismo...
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