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terça-feira, 24 de março de 2015

domingo, 14 de setembro de 2014

AINDA SOBRE O RACISMO

Há uma crônica que li há algum tempo (acho que é do Verissimo); ela tem um diálogo mais ou menos assim:

— Ei, cara, há um tempão a gente não se vê. E a sua mãe, ainda trabalha na zona?
— Sim, ela ainda está lá, aprendendo com a sua.

Depois do breve diálogo, os dois amigos se abraçam e se despedem um do outro.

O que um amigo diz para outro ou o que um casal diz durante diálogo não é encarado seja como preconceito seja como xingamento por se levar em conta o contexto em que o “xingamento” é feito. Não faria sentido acusar a namorada de um negro de racismo se a ouvissem dizendo para ele, de modo insinuante, algo assim: “Gorila, vamos sair daqui agora?...”.

O que difere o xingamento de torcedores racistas do diálogo entre um casal ou do diálogo entre amigos é o contexto; as palavras podem até ser exatamente as mesmas. O tom, o contexto e as intenções são, todavia, diferentes. Atitudes como a dos torcedores que xingaram o goleiro Aranha, do Santos, desmascaram o mito da tão propalada democracia racial no Brasil, escancarando algo que o discurso nega: em palavras, divulga-se que o Brasil não é racista; em atos, o racismo viceja.

No imbróglio com Patrícia Moreira, a torcedora do Grêmio que xingou goleiro do Santos, quem se portou com dignidade foi ele. Não somente por ter denunciado Patrícia e outros torcedores ainda durante a partida, mas também por ter se negado a participar de circo midiático em que Aranha e Patrícia estariam juntos, numa armação hipócrita que por certo teria um discurso politicamente correto de que não há racismo no Brasil.

Em desdobramento recente, um eletricista chamado Elton Grais tentou incendiar a casa de Patrícia (não havia ninguém no local no momento da tentativa, pois a torcedora está em casa de familiares). Chamado, o corpo de bombeiros domou as chamas antes que tomassem conta do local. Grais, que declarou ter se sentido “ofendido” com o xingamento de Patrícia, caiu em desatino ao tentar justiçar o desatino da torcedora gremista. 

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

CALA A BOCA, PELÉ!

O que se passa na cabeça do Pelé?! Hoje, a mais recente declaração “genial” dele foi a de que o Aranha (goleiro do Santos), que sofreu ofensas racistas lá em Porto Alegre, durante uma partida contra o Grêmio, “se precipitou” ao reagir contra quem o chamou de macaco. Edson Arantes do Nascimento disse ainda que cansou de ser tratado assim e que nunca reclamou.

A burrice pode estar num jogador de futebol ou em alguém com pós-doutorado. Isso, compreendo. O que não entendo é: será que o Pelé não tem ninguém que lhe diga que ele deveria calar a boca?! Vá lá que o amigo ou o assessor de imprensa ficasse sem jeito de dizer a Pelé para calar a boca... Que se valesse então de um eufemismo, dizendo algo do tipo “Pelé, acho que você deveria guardar suas opiniões para si”. Ou então: “Pelé, vamos analisar com calma o problema?”...

Ou será que o Pelé é turrão? De repente, não escuta aqueles que querem o bem dele (suponho que muita gente queira o bem do falastrão). Se Pelé não for cabeça-dura, será ele uma daquelas pessoas que se sobressaem gigantescamente em uma atividade mas não têm o menor senso para os demais afluentes das relações humanas?... Será que a natureza “obrigou” Pelé a saber fazer somente uma coisa na vida?... Será que ele não é capaz de se calar?... 

sábado, 6 de setembro de 2014

O RACISMO E O POLITICAMENTE CORRETO

Casos como o de Patrícia Moreira trazem à tona o debate sobre o racismo no Brasil. Ela xingou o Aranha, goleiro do Santos, de “macaco”. Em depoimento à polícia, Patrícia admitiu o xingamento, mas alegou que não teve a intenção de ser racista; ontem, durante declaração para a imprensa, em “choro” sem lágrima, voltou a dizer que não era racista. Patrícia pode responder por injúria racial; além dos xingamentos dela, há fotos antigas nas quais ela aparece em atitude preconceituosa, segurando um macaco de pelúcia vestido com a camisa do Internacional, e fazendo cara de nojo, segundo o divulgado pelo UOL.

O Grêmio foi excluído da Copa do Brasil em virtude do “espetáculo” estrelado por Patrícia e por outros gremistas. Mesmo o clube tendo colaborado com a polícia, está fora do torneio (é possível haver recurso contra a decisão). O caso, melindroso por si, ganhou mais um elemento: um dos auditores do caso que excluiu o time gaúcho é investigado pelo STJD, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva, de ter sido racista no Facebook. O nome dele é Ricardo Graiche. Em 2012, Graiche teria realizado postagens em que havia preconceito contra negros. Ele deletou a conta no Facebook depois da repercussão do caso, também informa o UOL.

À parte o que fizeram Patrícia e outros gremistas no estádio, e à parte o que foi noticiado sobre Ricardo Graiche, escutei um conhecido meu dizendo, sobre o caso ocorrido lá em Porto Alegre, no jogo em que o Aranha foi xingado de “macaco”: “Essa patrulha do politicamente correto... Nem se pode mais xingar o sujeito de macaco”. De fato, existe por aí o patrulhamento do politicamente correto, e que é de fato muito chato; às vezes, é até hipócrita — a pessoa canta o hino nacional com aparente fervor (atitude politicamente correta), mas, na surdina, locupleta-se com dinheiro público.

O politicamente correto é aparência, não  é  essência.  Fantasiado  de bom--mocismo, passa ideia de correição. Ele sabe fazer pose e sabe iludir desavisados. É cheio de lugares-comuns, adora uma retórica cheia de clichês e adora poses de rapaz trabalhador e de moça casadoira. Embora eu já tenha dito, reitero: abomino o politicamente correto. Em contrapartida, xingar uma pessoa de “macaco” não é se rebelar contra o politicamente correto (rebelar-se contra ele é necessário); xingar alguém de “macaco” é atitude de quem quer ofender e é revelador do que uma pessoa pode estar pensando sobre alguém que é preto; o calor de uma partida de futebol não é pretexto capaz de dissimular a atitude de Patrícia e demais torcedores. 

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

A BOCA DE PATRÍCIA MOREIRA

Patrícia Moreira, a torcedora do Grêmio que, ontem, xingou o Aranha, goleiro do Santos, de macaco, foi afastada de suas atividades no Centro Médico Odontológico da Brigada Militar. Patrícia é auxiliar de saúde bucal. O episódio pode resultar em punição para o Grêmio; a fim de evitá-la, o time já identificou dez torcedores que também foram racistas durante o jogo. Dois dos torcedores eram sócios do clube; foram excluídos, segundo o Grêmio. Os outros oito não poderão mais assistir a jogos do time quando ele jogar em casa. Segundo Aranha, ele também foi chamado de “preto fedido”. 

Sempre que fico sabendo desse tipo de xingamento, eu me lembro de uma frase que diz: “Um gambá cheira o outro e acha que é perfume”. Patrícia, bem como quem xingou o goleiro de “preto fedido” e aqueles que ficaram imitando macacos no jogo de ontem, acham-se, suponho, cheirosos — ou pelo menos acham que o Aranha fede. A Patrícia, o Aranha, você e eu podemos feder ou cheirar bem. Essas questões biológicas e simples parecem não fazer parte do pensamento de Patrícia e afins.

A torcedora do Grêmio e os similares dela que estavam ontem no estádio não devem ter lido “Viagens de Gulliver”, do Jonathan Swift. Se leram, podem ter passado pelo livro como quem está diante de um manual de instalação de suporte de televisor. No livro, Swift relativiza culturas, relativiza nossos cheiros, para afinal fazer concluir que somos feitos de uma mesma matéria — que pode não cheirar tão bem como gostaríamos que cheirasse. Por fim, é irônico: ao ser filmada pela ESPN, Patrícia, auxiliar de saúde bucal, mostrou que o que sai da boca dela não é nada limpo. 

terça-feira, 29 de abril de 2014

EVITE CÃIBRAS

O gesto de Daniel Alves é sofisticado, divertido, sarcástico, irônico, zombeteiro. Ao mesmo tempo, ele realizou uma das tarefas mais básicas do homem (ou do macaco) — alimentar-se. O que é o contexto: dependendo dele, algo tão trivial quanto comer uma banana pode deixar de ser... banal.

Fico me lembrando da cena e me perguntando o que ela ensina. O episódio é engraçado e incisivo. A graça, por si, não torna algo mais eficaz. Ainda assim, é a graça da cena que a torna mais densa. Tivesse Daniel Alves vociferado ou assumido a fúria de um símio desembestado, o ato não teria sido tão eloquente. Daniel Alves concebeu um gesto “simples” e de pura originalidade.

O lance é rápido, é solução momentânea. Há um quê de pilhéria numa resposta que é requintada demais. Se ao jogar a banana o sujeito quis dizer que Daniel Alves é um macaco, ao comê-la, o boleiro “admite” ser um macaco. Ao “assumir” que é um primata, o atleta acaba por colocar em cena um dos grandes poderes do homem, o de superar, com o apoio da galhofa e da inteligência, a estupidez que um ser humano é capaz de gerar.

Enquanto escrevo, sinto que o ato de Daniel Alves quer dizer bem mais do que o que expresso neste texto. Sinto que há um ensinamento óbvio, que todavia não consigo reter; apenas o intuo. Há algo me escapando por entre os dedos. Pode ser que essa suposta obviedade me surja depois de eu haver publicado este apontamento.

Não sou capaz de conceber uma resposta mais poderosa contra o preconceito de que o jogador foi vítima. Foi tudo tão rápido, tão vigoroso: logo depois de pegar a banana no gramado, saborear um pouco dela, dispensá-la e bater o escanteio, Daniel Alves materializou, em poucos segundos, que o espírito humano, às vezes, tem o dom de pairar acima da burrice.

A atitude do jogador não é solução para nada. Tivessem as pessoas, como um todo, a capacidade de se sensibilizar pelo exemplo e pelas ideias, o gesto de Daniel Alves teria consequências positivamente drásticas. Mas, no geral, houvesse essa capacidade, creio que uma banana não seria usada para indicar preconceito. Numa situação como aquela, eu ficaria chateado. Não sei como Daniel Alves se sentiu. Ainda bem que ele soube erguer a cabeça, marcando um inspirador e memorável golaço. 

segunda-feira, 28 de abril de 2014

APONTAMENTO 204

Há um ditado que diz: “Se a vida te der um limão, faz uma limonada”. Daniel Alves ensinou o que se deve fazer quando a vida joga uma banana.