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domingo, 17 de dezembro de 2017

Você é sonso?

Quando eu era pequeno, minha mãe me dizia que eu era sonso. Com isso, ela queria dizer que eu era lento, bobo. Passei décadas supondo que esse era o sentido do vocábulo “sonso”. Num dia, enquanto eu estava folheando um velho dicionário em busca de uma palavra, meus olhos se deparam com a palavra “sonso”. O significado dela me surpreendeu: “Que ou aquele que finge não ter defeitos ou se faz de simplório, palerma, inocente, mas faz coisas reprováveis dissimuladamente ou pelas costas; manhoso, dissimulado, santo do pau oco”.

A definição acima é a que está na versão eletrônica do dicionário Houaiss, que tem o mesmo teor da definição do Aurélio, com a qual me deparei há tempos. Ou seja, o sonso não é um palerma, um bobo. Ele se finge de. A cultura popular pegou a parte visível do fingimento e a tomou como significado da palavra, quando de fato a totalidade do significado está no fingimento e no que ele esconde.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Regra

Não há regra para a palavra que vem:
pode surgir no silêncio ou na boate.
Não há regra para a palavra que busco:
pode estar em meu quarto ou na multidão.
Sem regra, nem sempre vem quando quero;
ou pode vir quando não a estou buscando. 

quinta-feira, 21 de maio de 2015

O SOM E O SIGNIFICADO

Há palavras cujas sonoridades estão em sintonia com o significado que têm. A palavra “catacumba”, por exemplo, soa tão soturna quanto seu significado. Dizê-la em voz alta já é produzir algo tenebroso. Outra palavra cuja sonoridade é a cara de seu significado é a palavra “recalcitrante”. Haverá algo mais... recalcitrante do que a própria palavra “recalcitrante”?... 

terça-feira, 18 de março de 2014

ELAS

1. Saiba tratá-las com reverência. Saiba desrespeitá-las.

2. Prefira as simples, sem contudo descartar as sofisticadas.

3. Seja terno com elas, sem deixar de aprender a pegá-las de jeito.

4. Não se esquecer de que levá-las a sério não é o mesmo que perder o senso de humor.

5. Preste culto a elas; use-as; abuse delas.

6. Gostam de ser escutadas, gostam de surpresas.

7. Repare se o silêncio delas é próprio de cada uma ou se é causado por você. Se causado por você, cuidado para não emudecê-las.

8. Com jeito, você pode trocá-las, colocá-las em cima, de lado, no meio...

9. Entenda de ponto final e de reticências.

10. Perca o medo, ouse; elas vão gostar.

11. Perca o medo, ouse; você vai gostar.

12. Não importa se feia ou se bonita: há momento para todas.

13. Dê risada com elas, ache graça delas, mas sabendo ser sério quando se deve.

14. Valorize as velhas, sem deixar de dar atenção para as novas.

15. Pode haver uma parecida com a outra, mas cada uma é única.

16. Tenha persistência sutil; entregar-se-ão.

17. Não é por terem escolhido você que todas merecem ser usadas. Saiba dizer “não”, saiba deixar para trás, sem todavia deixar de aprender a dizer “sim”.

18. Aquela que não serve para você pode ser tudo o que outro procura.

19. Nem todo flerte precisa acabar em casamento.

20. Dizer “não” não é dizer “nunca”; dizer “sim” não é dizer “sempre”.

21. Saiba o que cada uma quer dizer.

22. Pode ser pior trocar uma pela outra; pode ser melhor trocar uma pela outra.

23. Elas podem ferir, elas podem curar. Podem servir à guerra ou ao amor; depende de quem esteja lidando com elas.

24. Podem funcionar sozinhas, mas são capazes de prodígios quando acompanhadas.

25. Feliz aquele que se dedica a elas, as palavras. 

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

APONTAMENTO 45

Tantos textos têm dito o que sou. Prossigo escrevendo os meus. Numa dessas, digo o que você é; numa dessas, digo o que sou.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

MÉTODO

Estou fazendo testes, escrevendo sem pensar no que está sendo feito. Estou tentando, por assim dizer, soltar a mão. Quando termino, hora de reler. De vez em quando, do palavrório caótico, tem saído uma frase que considero valer a pena. Preciso aprender a pensar menos...

sábado, 18 de outubro de 2008

PREFIXO

Quando não escrevo,
prendo-me.
Quando escrevo,
aprendo-me.

APONTAMENTO 35

Súbito, surge um texto que tem pressa de ser escrito. Apanho pedaço de papel qualquer. Para apoiá-lo, pego uma revista e começo a escrever ligeiro, afoito para jogar no papel as idéias. De repente, leve susto, suspensão; paro de escrever. Da capa da revista, Shakespeare a me decifrar.

LAVOURA / FOTOPOEMA 32


18/10

Em meu aniversário,
disparei a fazer versos
madrugada adentro
(renascer faz bem).

A partir de hoje,
farei aniversário
todos os dias.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

REUNIÃO

Eu deveria ter
mais reuniões
chatas e burocráticas.
Sempre que há uma,
escrevo um poema.

sábado, 4 de outubro de 2008

NOITE BRANCA

Tão bonito,
esse branco da folha
lisa e imaculada.
Bobagem palavra qualquer
a conspurcar sua magnitude.
Se for para preenchê-lo,
que se faça jus à sua grandeza.
Com medo de estragá-lo
e com reverência,
contemplo pacientemente.
Minutos vão se passando,
e uma poesia branca
como papel sem literatura
toma conta de minha vida.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

CARÁTER LITERÁRIO

1

Não queria uma poesia
que se volta para si.
Não me volto para
a metalinguagem,
queria abandoná-la.
Mas ela não me deixa.
Eu não queria,
mas sou metalingüístico.
Meus escritos
se voltam para si.
Minha existência
se volta para mim.

2

O buço dela me remete
a um buço descrito em Kundera.
A vida me remete à literatura
ou a literatura me remete à vida?

Adquiri um jeito literário
de olhar, de falar, de pensar, de sentir.
Sou conseqüência literária.


terça-feira, 16 de setembro de 2008

HAICAI 5

Árdua lei:
a isto, que rápido leste,
tempo dediquei.