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sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Resvalos

Nietzsche resvala na poesia.
Guimarães Rosa resvala na filosofia.
Eu resvalo na leitura. 

quarta-feira, 26 de julho de 2017

“Caderno de Poesias”

Certas leituras fazem com que eu faça sentido, com que eu faça sentindo. Foi assim com a leitura de “Caderno de Poesias”, coletânea de textos escolhidos pela cantora Maria Bethânia. Além do livro, há um DVD, em que os textos selecionados por Bethânia são ora declamados ora cantados por ela. Livro e DVD, que não são vendidos separadamente, foram lançados em 2015 pela editora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Tudo é bonito no trabalho. O livro tem diagramação sóbria e artística. Além dos textos, há reproduções de trabalhos realizados por artistas plásticos brasileiros; pinturas, gravuras ou desenhos dialogam com os textos escolhidos por Bethânia. Não bastasse esse diálogo intertextual entre diferentes linguagens, há ainda um diálogo de textos escritos com outros textos escritos, pois a cantora une diferentes autores num só registro declamado.

Não somente a estética do livro é apurada. O DVD, gravado em Diamantina/MG, tem, além da beleza do canto de Bethânia, a imensa habilidade dela na arte da declamação. Dizendo de outro modo, Bethânia é também atriz. Há uma comovente beleza tanto no livro quanto no DVD, uma sofisticação que nada tem de afetada. No registro em DVD, Bethânia foi acompanhada por um percussionista e por um violonista.

Um bom livro sempre nos torna belos e lúcidos. Hoje, apreciei o livro e o DVD. Estou lucidamente belo. Ou belamente lúcido. Não bastasse a confluência de artes que há em “Caderno de Poesias”, o trabalho é uma aula de história, a história do Brasil ou a de traços do caráter do brasileiro, a partir do olhar artístico, seja de letristas, de escritores, de artistas plásticos. O que emerge do caderno de poesia que Bethânia nos oferta é um Brasil talentoso, rico, multifacetado, eclético.

Todavia, não há ingenuidades. A exaltação do país em “Caderno de Poesias” não diz respeito a pseudoufanismos, a patriotadas. Os problemas sociais do Brasil convivem, no livro e no DVD, tanto em textos quanto em trabalhos plásticos, com o amor, a saudade, a reflexão sobre o que somos, a política, a exaltação da natureza e a preocupação ecológica. O que surge é uma parte do que somos, de nosso caráter, de nossa arte.

Para Bethânia, não há hierarquia de gêneros nem separação entre o erudito e o popular. Na força de sua declamação, há Patativa do Assaré e Fernando Pessoa, Fausto Fawcett e Guimarães Rosa. O talento de Bethânia faz com que o poder do texto, não importa se sua matriz tenha sido um livro ou um disco, venha à tona, numa interpretação contida, mas comovente e poderosa.

“Caderno de Poesia” é alento, alívio, tributo ao que o espírito humano pode criar. Um show de brasilidade, de confluências artísticas, de espírito gregário. É incrível o quanto o trabalho é, ao mesmo tempo, visceralmente brasileiro e cosmopolita. 

segunda-feira, 13 de março de 2017

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Narradores felizes

Há narradores felizes. O narrador de “O amor nos tempos do cólera” é feliz; Riobaldo, a despeito do que conta, é um dos narradores mais felizes que há. A persona literária de Borges é muito feliz. Essa persona e Riobaldo têm em comum o encantamento pelo mundo, pela metafísica, pela cogitação. Otto Lara Resende, em suas crônicas, foi outro que criou um narrador muito feliz. 

terça-feira, 27 de outubro de 2015

APONTAMENTO 289

O Guimarães Rosa escreveu que “o sertão está tem toda a parte”; o García Márquez, que “Aracataca foi desde suas origens um país sem fronteiras”; por fim, o Tolstói: “Se queres ser universal, canta tua aldeia”. A literatura ensina o cosmopolitismo também. 

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

UMA PALAVRA EM MINHA VIDA

Na primeira metade da década de 90, mantive, no jornal Correio de Patos, semanário que então circulava em Patos de Minas, um espaço intitulado Letras e Músicas. A intenção, como o nome já deixava entrever, era fazer uma coluna que fosse um misto de literatura e de música. No jornal que circulou no dia dezesseis de abril de 1994, publiquei a seguinte nota:

“— Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga não. Deus esteja”. Assim João Guimarães Rosa inicia “Grande Sertão: Veredas”. Dostoiévski também se valeu da palavra nonada no seguinte trecho do livro “A Casa dos Mortos”, tradução de Fernanda Pinto Rodrigues: “Por uma coisa séria, ou por um nonada, zás, me surravam”(...).

No sábado (17/10/2015), eu me deparei novamente com a palavra “nonada”; dessa vez, no “Lazarillo de Tormes” (publicado em meados do século XVI), livro cuja autoria é desconhecida. Logo no terceiro parágrafo da obra, diz o narrador: “Y todo va desta manera; que, confesando yo no ser más santo que mis vecinos, desta nonada, que en este grosero estilo escribo, no me pesará que hayan parte y se huelguen con ello todos los que en ella algún gusto hallaren, y vean que vive un hombre con tantas fortunas, peligros y adversidades”. 

terça-feira, 7 de abril de 2015

DO TRIBUTO A PAUL WALKER

Alguém escreveu que “morrer é dobrar a esquina”. Sempre tive comigo que essa frase é do Guimarães Rosa, mas não estou certo disso. Ontem, ela me ocorreu novamente. Explico por quê.

Não assisti a nenhum dos filmes da franquia “Velozes e furiosos”. Independentemente disso, é claro, fiquei sabendo da morte do Paul Walker; ontem, fiquei sabendo do tributo que há para ele no mais recente filme da série.

Assim que conferi o tributo no Youtube, a frase entre aspas do primeiro parágrafo me veio à mente. É que a homenagem a Paul Walker acaba sendo uma materialização ou concretização do conteúdo que citei.

A sequência que homenageia Walker, a qual se valeu de computação gráfica, é bonita e eficaz. Tanto que nem é preciso ter assistido aos filmes da série para que ela seja compreendida, para que se tenha noção do que é sugerido.

O João Cabral costumava dizer que palavras concretas são mais úteis para a poesia do que as abstratas. Nesse pensamento, a palavra “cadeira”, por exemplo, seria mais eficiente para a linguagem poética do que, por exemplo, a palavra “solidão”.

Talvez por isso eu goste de “morrer é dobrar a esquina”. “Esquina” é um elemento concreto, palpável. Talvez por isso eu tenha gostado da sequência que homenageia Paul Walker. Afinal, talvez, a morte seja tomar outro caminho. Sendo ou não, tal sugestão é bonita. 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

ARCO

“Porei meu arco na nuvem e ele se tornará um sinal da aliança entre mim e a terra” (Gênesis 9, 13).

“Astúcia  que tive uma sonhice: Diadorim passando  debaixo de  um  arco--íris” (João Guimarães Rosa).




quarta-feira, 9 de julho de 2014

PRÊMIO NOBEL PARA RONALDO

Ronaldo, vulgo Fenômeno, postou no Instagram um texto em que se lê:

“PRÊMIOS NOBEL

“ALEMANHA 102
“BRASIL 0

“E você acha que 7 x1 foi goleada?”.

De antemão: o futebol é disputa; o prêmio Nobel, não. Além do mais, o povo de um país não deve ser julgado pela quantidade de prêmios Nobel que esse país detém: não bastassem as questões políticas que podem permear uma premiação ou outra do Nobel, o fato de o Brasil não ter nenhum laureado não significa incapacidade da população. O brasileiro é tão capaz quanto qualquer pessoa de qualquer nacionalidade. Se não temos um Nobel, isso se deve muito mais a questões históricas do que à falta de talento de nossa gente.

Na literatura, que é uma área de que dou notícia, Drummond, João Cabral, Guimarães Rosa, Bandeira ou Lúcio Cardoso, só para ficar em alguns exemplos, poderiam ter sido agraciados com o prêmio. Ronaldo, que foi um craque em campo, não sabe disso. Exatamente por isso, não deveria ter propagado piada (sem graça) sobre aquilo de que nada entende.

Por fim, há algo que me soa estranho: Ronaldo foi jogador de futebol. A piada ruim e sem criatividade divulgada por ele diz respeito a algo que ocorreu com colegas de profissão dele. Além da burrice da postagem, a atitude do ex-jogador revela uma profunda falta de ética e de solidariedade para com os colegas de profissão. 

sexta-feira, 18 de abril de 2014

O LUGAR DE GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ





Certa vez, estive em Cordisburgo/MG estritamente para conhecer a cidade em que Guimarães Rosa havia nascido. Lá, estive na casa onde o escritor morou, hoje transformada em museu. Durante o trajeto, de dentro do ônibus, pude observar estabelecimentos comerciais cujos nomes fazem referência ao universo de Guimarães Rosa. Lembro-me de haver uma borracharia Grande sertão: veredas. Acho que era mesmo uma borracharia.

Há tempos era minha intenção conferir, por intermédio do Google Maps, Aracataca, na Colômbia; é a cidade em que nasceu Gabriel García Márquez. Hoje, finalmente, “visitei” o lugar. A exemplo de Cordisburgo, com suas referências ao mundo de Guimarães Rosa, há em Aracataca referências ao de García Márquez.

(Essa minha “turnê” por Aracataca confirma a “profecia” do cigano Melquíades, exibindo um óculo de alcance, logo no segundo parágrafo de “Cem anos de solidão”: “Dentro de poco, el hombre podrá ver lo que ocurre en cualquier lugar de la tierra, sin moverse de su casa”.)

Nas imagens desta postagem, conseguidas via Google Maps, dois registros de um comércio em Aracataca; o nome do estabelecimento é o nome da cidade de “Cem anos de solidão”. Também nesta postagem há a frente do museu dedicado a García Márquez; é o lugar em que ele nasceu. O endereço é Carrera 5 Nº 6 — 35. Em frente ao museu, réplicas de como era a casa quando o escritor nasceu podem ser adquiridas.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

APONTAMENTO 171

“O que há num nome?”. O que há na Dublin de Joyce? O que há no sertão de Guimarães Rosa? O que há na Ipiranga e na São João? O que há em Yoknapatawpha? O que há em Macondo? O que há em Coromandel? O que há em você? O que há em mim?... Nada demais em nada disso. É a arte que torna encantado qualquer lugar e encantada qualquer pessoa. Sem ela, não há encanto. Nem em você nem em mim nem em nenhum lugar.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

CONTO 52

Fernando Reis vivia dizendo que seu projeto de vida era comprar um sítio, mudar-se para lá e ficar o dia inteiro lendo Guimarães Rosa, fumando e tomando pinga – não necessariamente nessa ordem. Mas seu último trago, longe do sítio e cercado do barulho da cidade, foi bebido em companhia de um verso de Fernando Pessoa.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

APONTAMENTO 124

“Mestre é quem de repente aprende”, conforme Guimarães Rosa. O que sempre me deixou com a pulga atrás da orelha é a expressão “de repente”. Se a frase fosse “simplesmente” mestre é quem aprende, beleza. Mas há o “de repente”.

Estaria a expressão de repente “apenas” dando um toque literário ou “misterioso” à frase? Em suma: seria o segmento de repente um “mero” truque literário? O que me escapa?

Ou seria o de-repente expressão de um “insight”, de uma “intravisão”, de uma “revelação” ou do que se colhe depois de muitas e insistentes tentativas? Se assim for, o aprendizado não veio de repente, mas, sim, como resultado bonito de um longo e dedicado processo.

Se cogito, é porque o entendimento não se completou. 

Mestre é quem por fim aprende.