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sábado, 2 de novembro de 2019

Lambança diplomática

Primeiro, o mandatário brasileiro disse que não parabenizaria o presidente eleito da Argentina, Alberto Fernández. Agora, Bolsonaro tem dito que não irá à posse do argentino. Ainda no rol das lambanças do clã da família bolsonarista, Eduardo Bolsonaro postou imagem em que, à direita, ele, Eduardo, está em meio a armas; à esquerda, Estanislao Fernández, filho de Alberto Fernández, está usando fantasia. Enquanto isso, Trump não se fez de rogado: ligou para o presidente eleito da Argentina e o parabenizou, ocasião em que teria dito: “Parabéns pela grande vitória. Vimos pela televisão. Você vai fazer um trabalho fantástico”.

Embora se possa elencar semelhanças entre Trump e Bolsonaro e embora o presidente brasileiro não esconda a admiração que tem pelo colega norte-americano, há uma diferença básica: Trump não é tão burro quanto Bolsonaro nem quanto a família deste. Trump é esperto o bastante para saber que inabilidade nas relações diplomáticas pode implicar perda de dinheiro para os países. Não há como eu saber o que de fato Trump pensa sobre Alberto Fernández. Isso não importa. O que importa é que ele não foi imbecil o bastante a ponto de não perceber que ele tem um papel diplomático e político a cumprir. Ao ligar para Fernández, Trump está no mínimo levando em conta que ele representa os EUA e que há parceria comercial entre o país dele e a Argentina.

Em âmbito mundial, a Argentina é o terceiro maior comprador de produtos do Brasil. Goste Bolsonaro ou não, Fernández foi eleito democraticamente. Além disso, há uma série de acordos comerciais que vêm sendo alinhavados ao longo do tempo; parte desses acordos ainda não foi implementada ou não foi concluída. Faniquitos não deveriam fazer parte do comportamento de um presidente, mas o nosso é pródigo em fricotes, seja quando não responde a questionamentos que são da alçada dele responder, abandonando coletivas de imprensa, seja quando não responde a questionamentos e prefere a falta de compostura nas palavras, seja quando é destemperado em transmissões ao vivo, seja quando não pensa no país e faz declarações infantis, rancorosas e toscas. Bolsonaro não tem de bajular Fernández, mas se Bolsonaro e família ficassem calados em questões que resvalam para a diplomacia, já estariam fazendo bem para o Brasil. 

terça-feira, 2 de abril de 2019

"Que vocês se explodam!"

Não se pode dizer que não houve aviso. Não me refiro ao que escrevo, ao que publico. Refiro-me ao que a imprensa nacional tem publicado. Não escrevo para avisar, para aconselhar. Escrevo porque gosto de escrever; escrevendo, atendo a essa necessidade. Isso é o que importa. De quebra, se o texto é de teor político, eu me sinto um cidadão melhor, o que também é o bastante para que eu escreva.

Eu tenho escrito, a imprensa nacional — e internacional — tem escrito, tem admoestado, tem avisado, tem dado a dica: em relações internacionais, palavras podem ter um peso desastroso. O representante de um país é capaz de um estrago econômico e humano. A escolha das palavras é importante em toda situação, das mais corriqueiras às mais valiosas. Diplomacia não é terreno para destemperos, para rompantes, para amadores, para os que não têm polidez nem equilíbrio.

“Quero que vocês se explodam”. Foram essas as palavras de Flávio Bolsonaro, publicadas no Twitter, sobre a nota de repúdio publicada ontem pelo Hamas (em postagem anterior, comentei sobre o assunto). A nota de Flávio Bolsonaro foi apagada depois. Claro que o estrago já estava feito.

É direito dele querer que qualquer um se exploda. Só que não é direito dele, no caso em questão, manifestar isso publicamente porque as implicações de uma declaração assim não vão recair somente sobre a vida pessoal dele, com a qual ele faz o que bem entender, mas sobre todo um país. Declarações como essas são graves, podem ter drásticas consequências econômicas.

Quando se representa um país, é dever de qualquer cidadão manter um mínimo de compostura, de tato, de controle. A mais dura das assertivas pode ser dita com a escolha correta das palavras. Prova disso é a própria nota do Hamas divulgada ontem. Justamente pela escolha cuidadosa das palavras é que ela é incisiva. Houvesse alguém escrito “quero que o Brasil se exploda”, isso seria coisa de quem é despreparado e de quem se entrega a rompantes — o que poderia implicar danos econômicos. Diplomacia é terreno melindroso. Cada discurso, casa texto, cada declaração, cada palavra devem ser refletidos, ponderados. Um país não deve pagar pelas bravatas de um inconsequente. A diplomacia é bem mais complexa do que um “que vocês se explodam”.

Qualquer ser humano com algum senso de responsabilidade e com alguma inteligência sabe disso. Só que não se pode deixar de apontar o destempero e as consequências que ele pode ter numa questão tão delicada. Não na esperança de que isso vá mudar o temperamento e a mentalidade do bufão destrambelhado, mas na certeza de que a palavra corretamente aprendida e apreendida é capaz de ajudar na construção de muita coisa, incluindo na de um ser humano. 

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Era uma vez a diplomacia

Mais trapalhadas da diplomacia brasileira. Dessa vez, por causa da visita a Israel. O colunista Josias de Souza, do UOL, elenca o que ele chamou de três gols — contra: a não transferência da embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém desagradou a Israel; o que vai haver em Jerusalém é um escritório de representação comercial (primeiro gol contra); os palestinos, mesmo cientes da não abertura da embaixada em Jerusalém, condenaram a abertura do escritório comercial e chamaram de volta Ibrahim Alzeben, o embaixador no Brasil. Consequências na prática: prejuízos para o agronegócio, pois os árabes podem passar a comprar de outros (segundo gol contra); por fim, o governo brasileiro já tem um escritório comercial em Ramallah, que fica a quinze quilômetros de... Jerusalém. Não há a necessidade de mais um escritório comercial na região (terceiro gol contra).

Foi isso o que noticiou Josias de Souza em seu blogue. A lambança já seria o bastante fosse só isso. Só que em diplomacia as consequências são internacionais, não ficam restritas ao quintal de casa. O Hamas, movimento de resistência islâmica, publicou hoje em seu site nota de repúdio contra a visita do governo brasileiro a Israel. O Hamas pede recuo quanto à abertura do escritório em Jerusalém, ao mesmo tempo evidenciando que as jogadas da diplomacia brasileira na recente visita ameaçam os laços com nações árabes e islâmicas.

Em sanha de negar conquistas de governos anteriores, a diplomacia brasileira (e o governo como um todo) pode jogar por terra o que o Itamaraty construiu. Estou lendo Quem manda no mundo? [Who rules the world?], do Noam Chomsky, publicado em 2016. Sobre a questão Israel-Palestina, ele escreve: “Negociações sérias teriam que ocorrer sob os auspícios de alguma parte neutra, de preferência uma parte que imponha algum respeito internacional — talvez o Brasil” [1].

A diplomacia brasileira, até recentemente, gozava de prestígio. Agora, é achincalhada. A revista Jacobin, em matéria publicada em 26 de fevereiro, chamou Ernesto Araújo de “o pior diplomata do mundo”, já condenando, no lide, a patética subserviência do governo brasileiro ao governo trumpista. Estou curioso para ler outra matéria, esta, publicada na piauí deste mês, intitulada “O anti-iluminista”: Consuelo Dieguez faz o perfil de Araújo. A chamada de capa: “Ernesto Araújo, o chanceler brasileiro que idolatra Donald Trump”. 
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[1] Chomsky, Noam. Quem manda no mundo? Tradução de Renato Marques. 1ª edição. São Paulo. Planeta. 2017. Pág. 102. 

domingo, 24 de março de 2019

Um dia como outro

Raposas políticas sabem negociar. Nem sempre a favor do povo, mas sabem negociar. A única coisa em comum que o presidente tem com as raposas políticas é o desinteresse que boa parte desse pessoal tem pela vida dos mais pobres. O que o presidente não tem é a manha para a conversa, o traquejo para o diálogo. Ele é tão inábil que não consegue se entender nem com aqueles que são a favor do grande desejo do governo federal — a aprovação da desumana reforma da previdência.

A grande mídia, obviamente, é a favor da reforma; grandes empresas são a favor; parte dos políticos são a favor. Nada disso surpreende, bem como não surpreende a falta de habilidade do presidente em dialogar com os que estão em sintonia com o que é até agora o grande desejo do governo federal.

Ainda no terreno da inabilidade ou da gafe, no Chile, o presidente brasileiro agradeceu ao povo venezuelano. Sebastián Piñera, presidente chileno, posteriormente, criticou o colega brasileiro, não pelo lapso deste, mas por não concordar com frases já ditas pelo mandatário brasileiro. Para fechar, um dos filhos do presidente disse que “será necessário o uso da força” contra a Venezuela, para, depois, amenizar, dizendo, que o Brasil “não pensa em intervir militarmente”.

A família do presidente (ele incluído) e integrantes do primeiro escalão do governo federal não levam em conta que em assuntos internacionais palavras podem ter consequências nefastas (em postagem anterior, comentei o quanto pegou mal a declaração de Onyx Lorenzoni, sobre o “banho de sangue” da ditadura chilena). Temperança e jogo de cintura, quando o assunto é a relação entre países, são pedra de toque que levam, no mínimo, a uma imagem de civilidade.

Enquanto isso, no Congresso, há a possibilidade de mais uma derrota do governo federal, que concedeu a turistas da Austrália, do Canadá, dos Estados Unidos e do Japão dispensa de visto para entrar no Brasil. Mesmo partidos simpáticos ao governo atacaram o decreto presidencial. Já houve derrota do governo federal quanto a decreto, o que alterava a Lei de Acesso à Informação.

Num país desinformado que acredita em mentiras disseminadas via WhatsApp, pleno de pessoas que nem se dão o trabalho de conferir a veracidade do que recebem via celular, a convivência interna continua dando sinais de degenerescência: a conta no Youtube do garoto conhecido como Michelzinho, filho de Michel Temer, teve comentários grotescos após a prisão do ex-presidente, como se o filho dele tivesse culpa pelo que fez o pai, e ontem, em São Paulo, durante o incêndio na favela do Cimento, houve motoristas que, passando perto do local, comemoraram o acontecimento. Há quem prefira não enxergar o incêndio. 

"Banho de sangue"

A perigosa patuscada continua. Dessa vez, protagonizado por Onyx Lorenzoni, que elogiou as “bases macroeconômicas da ditadura de Pinochet. Lorenzoni defendia então a reforma da previdência no Brasil. Anteontem, em entrevista à Rádio Gaúcha, ele tentou justificar a reforma da previdência, afirmando que no período de Pinochet, o Chile teve de dar um banho de sangue. Triste, o sangue lavou as ruas do Chile.

Ivan Flores, presidente da Câmara dos Deputados chilena, afirmou que Lorenzoni afrontou os que perderam familiares na ditadura do país. Jaime Quintana, presidente do Senado no Chile, disse não se lembrar de declarações desse teor vindas de um mandatário de governo.

Lorenzoni deveria se lembrar de que nem todo mundo é como o chefe dele, que, por exemplo, em evento oficial, elogia ditador pedófilo. Pelo cargo que ocupa, Lorenzoni deveria entender que as palavras que profere têm peso, têm consequências. Mas, novamente, ele não tem no chefe exemplo do que poderia ser considerado retidão ou comedimento.

O legado de Araújo

“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”.
Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas

O Guimarães Rosa, que foi médico, escritor e diplomata, disse certa vez, numa entrevista, que o trabalho dos diplomatas é consertar os estragos dos políticos. Só que no caso do Brasil, a diplomacia não vai consertar os estragos do governo federal, cuja avaliação positiva, aliás, caiu 15 pontos, segundo o Ibope. Ernesto Araújo, ministro das relações exteriores, defende ideias como a de que o aquecimento global é trama marxista (sic). Não é de se esperar que alguém com um pensamento assim conserte trapalhadas diplomáticas.

A congressista norte-americana Alexandria Ocasio-Cortez tem consciência plena de que o aquecimento global não é trama marxista. Ela afirma que é legítimo não querer ter filhos por causa do aquecimento global, alegando que as vidas das crianças serão muito difíceis por causa das mudanças climáticas no planeta. Em nome da consciência, Ocasio-Cortez acha digno não trazer novas vidas à tona; em nome de anacronismo patológico, Araújo se alinha com aqueles para quem não há aquecimento global, o que, em consequência, dá passe livre para destruição ainda mais intensa da natureza.

Ocasio-Cortez não propõe método deliberado para que não haja mais pessoas, o que é a proposta de David Benatar, autor do livro Better never to have been (algo como Melhor nunca ter nascido); na obra, o pensamento de que a saída mais digna para a humanidade é a extinção, defendendo que nascer é sempre um mal e que a procriação deveria parar. Benatar não defende nem assassinato nem suicídio.

A revista Jacobin foi incisiva em matéria que é retrato acurado do Brasil recente, chamando Ernesto Araújo de “o pior diplomata do mundo”. A diplomacia brasileira, que já teve intelectuais como o já citado Guimarães Rosa e inteligências como a de Celso Amorim, tem agora de lidar com Araújo.

Pode-se não concordar com Ocasio-Cortez nem com David Benatar. Todavia, não se pode acusá-los de não estarem preocupados com a condição humana; nenhum deles pode ser acusado de ignorar a complexidade da existência. Suspeito eu de que seremos extintos não por ideias similares às de David Benatar e às de Ocasio-Cortez, mas por mentes distorcidas como as daqueles que atribuem aquecimento global a inexistentes complôs ideológicos. O que mata é a ignorância.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

A negação da história

Um intelectual pode saber mais sobre determinado aspecto de um país do que um cidadão desse mesmo país, não importa qual ele seja. Assim, um italiano pode saber mais sobre Shakespeare do que um inglês, um austríaco pode saber mais sobre Machado de Assis do que um brasileiro.

Todavia, espera-se que a embaixada de determinado país saiba algo do território que representa. Mesmo assim, quando a embaixada da Alemanha no Brasil postou vídeo sobre o nazismo, os comentários de alguns brasileiros foram sintoma do que parte da população se tornou: um grupo que não se informa e que, em consequência, nega qualquer ciência ou qualquer evidência.

Houve brasileiros que, no perfil do Facebook da embaixada alemã, disseram que o holocausto... não existiu. Comentários desse naipe revelam a cegueira que a falta de conhecimento pode causar. O correspondente, fosse na física, seria dizer que a Terra não é redonda, o que muitos dizem, não só no Brasil. O problema é que a ignorância é raivosa; a mordida dela pode matar.

Casos como esse revelam um dos problemas do excesso de ignorância: ele atravanca o desenvolvimento por se agarrar a noções primárias, pueris. Uma coisa é uma criança de cinco anos se surpreender ao saber que o planeta que habita é redondo; outra é um adulto esbravejar e brigar por causa disso.

A ignorância torna-se inimiga da história, do óbvio, do outro. A ignorância é confortável, fugir dela dá trabalho. Ela não atrapalha somente os que a escolhem. A falta de sutileza quer que o Sol gire em torno da Terra ou que a história seja apagada e reescrita em caixa alta, com grunhidos, muitas onomatopeias e uma profusão de xingamentos, preconceitos e pontos de exclamação. 

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

WIKILEAKS

De um jeito ou de outro, querem pegar Julian Assange, que vem publicando no site WikiLeaks documentos que desnudam os bastidores da diplomacia americana. O governo dos EUA ainda não chegou a quem forneceu os documentos para Assange.

Por ora, ele está preso não pelo que tem divulgado, mas por um suposto caso de estupro, que teria ocorrido na Suécia.

Ataques e retaliações cibernéticas têm ocorrido. Um grupo de internautas apoiador de Assange e que se intitula Anônimo tem sobrecarregado as páginas do MasterCard e do Visa, que estão impedindo  transações financeiras do criador do WikiLeaks.

Os gigantes Amazon e PayPal também foram atacados. Em contrapartida, Twitter e Facebook deletaram as contas do Operation Payback, outro grupo de ativistas apoiador do WikiLeaks, cujo porta-voz nega ter conexão com os chamados “hacktivists” [amálgama de hackers e ativistas], embora ressalte que tais ataques são reflexo da opinião pública.

Imagine se o que você realmente pensa sobre as pessoas com as quais convive viesse à tona. Isso poderia causar, por exemplo, sua demissão ou um desentendimento grave com sua esposa... Assange mostrou que no macrouniverso da diplomacia valem as mesmas leis que regem o microuniverso das relações interpessoais: é preciso muito cuidado com o que se fala e para quem se fala; é preciso muito cuidado com o que se escreve e para quem se escreve.

Lula criticou a prisão de Assange; o presidente ainda afirmou: "A [presidente eleita] Dilma [Rousseff] tem que saber e falar para os seus ministros que, se não tiver o que escrever, não escreva bobagem, passe em branco a mensagem", disse o presidente. Munida agora de malícia, por um bom tempo a diplomacia mundial vai preferir silenciar a continuar exercendo a confiança no sigilo alheio.

Em meio a ataques e retaliações, nem sempre consigo acessar a página do WikiLeaks (mais cedo, consegui; agora, não). Ainda que a página não volte a estar livre para acesso, penso que Assange deve ter cópia de segurança dos arquivos que colocou à disposição. Tomara.