domingo, 24 de abril de 2022

Paira

O mau cheiro em Patos de Minas 
é o mau cheiro do Brasil. 
A cidade fede,
o país é fedorento. 
O maquinário local
tritura ossos,
o Brasil leva pessoas 
a buscarem ossos
em lixos. 
Fedorento, o país;
fedorenta, a cidade.
O metrô nova-iorquino,
as esquinas parisienses
(“é Patos ou Paris”),
o ar patense.
A essência do Brasil. 

Leitura de crônicas

Para leitores esporádicos, a crônica é o gênero mais palatável; a poesia, o menos. 

"Ordens são ordens"

(O texto abaixo era para ter sido publicado há um mês. Ainda assim, ei-lo.)

Bolsonaro manda.
Milton Ribeiro obedece. 

Os amigos deles ganham.
O restante das escolas perdem.

A caterva aplaude.
A horda bate palma. 

"Divino"

Muitas coisas feitas em nome de deus deixam o diabo muito feliz ou o fazem dar zombeteira gargalhada. 

Entrevista com Luís André Nepomuceno


Dos filtros em redes sociais

Enquanto os pobres estão procurando por comida em lixeiras, a classe média faz de conta que não tem nada com isso, o que significa fazer de conta que não elegeu, conscientemente, a barbárie, a defesa de ditadores e de ditaduras, a pobreza em qualquer sentido e a violência em todos os sentidos. Essa mesma classe média, fingindo bom-mocismo, faz suas doações de alimentos, postando a seguir as fotos em redes sociais. Um dos filtros do Instagram é a hipocrisia. 

Tolhimento

Sou contra qualquer coisa que tolhe o crescimento psíquico e intelectual. Por isso, sou contra a burocracia. Ela sequestra nosso tempo, nosso corpo e nossa mente, jogando-nos num porão sem luz, quente e abafado, pleno de coisas que não servem para nada, mas com as quais somos obrigados a lidar. 

Ode à velha camiseta surrada

Está no romance Relicário de todas as coisas, do escritor Luís André Nepomuceno: “Profundas como são, as noites dizem mais do que o dia”. Sim. Sou criatura da noite. Não só pelo que cantam o Bruce Springsteen e a Patti Smith: “A noite pertence aos amantes”. Ou estes àquela. Tanto faz. Além do mais, noites abarcam “mistérios”, sugestões, aquilo que só é intuído mas não tornado claro nem clarividência. Felizes os que mergulham na noite saindo de casa; felizes os que mergulham na noite ficando em casa.

Todavia, a noite, em tese, não tem algo que é um prazer dos dias: a velha camiseta surrada. Sim, ela pode ser usada à noite, mas essa velha camiseta é insuperável quando vestida, por exemplo, numa pacífica tarde de domingo. A noite tem suas belezas, suas sombras, suas luzes, seus meios-tons, seus matizes indefinidos, imprecisos. O dia e a noite têm glórias diferentes. Uma das glórias do dia é usar a velha camiseta surrada. Elas podem ser usadas à noite, o que seria uma libertação. Afinal, isso seria levar para a noite a essência do que somos durante o dia.

A velha camiseta surrada em que entramos durante o dia, num dia de folga, é companheira que gostaríamos de levar para a vida toda. Nem precisam ser passadas; se estão limpinhas, nos envolvem com sua tranquila experiência, fazendo com que sejamos aquilo que somos quando destituídos de vaidades, de acessórios, de manhas, de artimanhas, de invólucros. A velha camiseta surrada é expressão do que somos quando estamos à vontade, seja sozinhos, seja acompanhados. Usualmente, não a vestimos diante dos quais não conhecemos bem, não a vestimos perante desconhecidos, não a vestimos quando queremos conquistar, não a vestimos quando é hora de sair para o trabalho. Fazer tudo isso com ela, repito, seria libertador, mas não é a norma.

A velha camiseta surrada é abrigo, familiaridade, descompromisso bom, preguiça benéfica, relaxamento necessário, paz revigoradora, refúgio ascético. Ela, sim, conhece nosso cheiro real, sabe daquilo que somos quando não precisamos fingir nem usar máscaras. A noite nos dá a possibilidade de exercemos um lado que é um rito, e, como ritual, requer preparo, roupagem, essências não produzidas por nós. A noite com suas poções e suas nuances é o exercício de nosso lado escuro, obscuro, de que somos também feitos e de que tanto precisamos. A velha camiseta surrada é a nossa parceira de nossa faceta solar.

Não é fácil se livrar de uma velha camiseta surrada. Os desavisados, por vezes, não entendem os motivos pelos quais não nos desapegamos de vez de uma peça que, em aparência, nada mais tem a oferecer. Tenho três ou quatro dessas camisetas mantidas há décadas (a velha camiseta surrada é um dos prazeres da maturidade). Sempre que abro o guarda-roupas e me deparo com uma delas, penso ser chegado o momento de me livrar dela. Resoluto, retiro-a do cabide. No momento de jogá-la fora, eu a revisto, revestindo-me de regozijo. A velha camiseta surrada me lembra de que a simplicidade é confortável e sábia. 

segunda-feira, 11 de abril de 2022

Fascismo e viço

Há pessoas feias sem viço e pessoas feias com viço. Há pessoas bonitas sem viço e pessoas bonitas com viço. O viço em si não torna ninguém feio nem torna ninguém bonito. Quando o viço existe, confere a quem o tem uma “atmosfera” ou um “astral” que é fácil perceber mas que não é fácil de definir. O viço confere a quem o tem um aspecto geral que passa a ideia de um corpo saudável e de uma mente ativa. Quem é viçoso transmite uma ideia de saúde, de madura paz. No outro lado da moeda, uma pessoa sem viço passa a ideia de murchidão. 

Levando-se em conta o que o bolsonarismo tem feito com o Brasil, não é possível constatar viço. O Brasil perdeu o viço porque os indivíduos não têm terreno propício para vicejarem. Quem vota em quem defende tortura não é viçoso, quem defende a morte como conduta não é viçoso. E quem está preocupado com belezas ou com elevações ou com inteligências tem sido banido, seja com sutileza, seja com brusquidão. Não é fácil vicejar quando o fascismo abre suas asas. O vicejo pleno está ligado ao ambiente do indivíduo, pois, sozinho, não há como ninguém ser mais forte do que a sociedade em que está inserido.

O Brasil apodreceu, murchou. É uma terra em que alguns ignorantes bradam descarada violência e outros ignorantes bradam disfarçada violência. Aqueles tiraram as máscaras, assumindo que são a favor da morte do que for diferente deles; estes mantém disfarce de civilidade. Estes e aqueles são idênticos em essência. O que muda são os métodos de que se valem para implantar uma sociedade em que o indivíduo pensante e sensível deve ser apagado. O Brasil é um país cuja população foi carcomida pelos vermes do fascismo, os quais adentraram os corpos e, de dentro para fora, fizeram jorrar pústulas doentias e trevosas. 

As bocas sem dinheiro têm o mau hálito da fome; as bocas com dinheiro têm o mau hálito da perversidade travestida de ilustração; com dinheiro ou sem dinheiro, há pobres e podres bocas. O Brasil bolsonarista é fétido. O fascismo é encarniçado; para se alimentar, precisa fazer com que o outro seja carniça. Um país putrefato não dá à subjetividade a possibilidade do florescimento. O fascismo é o apagamento e a anulação do indivíduo. O que se vê nas ruas do Brasil bolsonarista não são almas férteis, mas hordas mortíferas. Somos um país sem viço. 

domingo, 10 de abril de 2022

Em breve, novo livro de Luís André Nepomuceno

Em breve, o escritor Luís André Nepomuceno lança seu novo livro, Relicário de Todas as Coisas. Neste vídeo, o autor lê trechos do romance.



quinta-feira, 7 de abril de 2022

Gerenciamento

O funcionário José alertou o gerente Masterson sobre a copiadora, que estava sem tinta. O gerente enviou e-mail para todos da empresa passando endereço onde cópias são baratas.

O funcionário Pedro alertou o gerente Masterson sobre a máquina de etiquetar, que havia estragado. O gerente enviou e-mail para todos da empresa pedindo que alguém com caligrafia bonita escrevesse os preços nos produtos.

O funcionário Bernardo alertou o gerente Masterson sobre o teto do almoxarifado, que estava com goteira. O gerente enviou e-mail para todos da empresa pedindo que alguém com habilidade para reparos em edificações parasse o gotejamento.

O funcionário João alertou o gerente Masterson sobre animas peçonhentos estarem sendo vistos nas dependências da firma. O gerente enviou cartilha para todos da empresa sobre o que fazer em caso de males causados por animais peçonhentos.

No fim do mês, José, Pedro, Bernardo e João foram demitidos. O gerente Masterson teve aumento de salário. E um escorpião picou Marcos, “que não tinha entrado na história”. 

terça-feira, 5 de abril de 2022

Não sou pró-ativo

Pró-ativo: esse é novo termo, a nova modinha no mundo trabalhista. É um jeito perfumadinho de dizer que o trabalhador tem de, sem receber a mais por isso, prestar serviços aos superiores, devido à tecnologia, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana; é um modo cheirosinho de dizer que o trabalhador tem de fazer aquilo que não é a função dele. Os chefes vão dizer que não é nada disso; os puxa-sacos dos chefes, que chefes se sentem, vão dizer que não é nada disso. Recitarão credos do empreendedorismo dos “coaches”. 

Interiores

Leitura é a mais bela decoração de interiores. 

quinta-feira, 31 de março de 2022

A educação após Bolsonaro

Com a devida autorização do autor, publico o texto abaixo.
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A educação após Bolsonaro
Luís André Nepomuceno

Em 1949, Theodor Adorno publicou “Crítica cultural e sociedade”, um ensaio desconcertante, em que ele dizia que escrever poesia após Auschwitz é um ato bárbaro. O filósofo de Frankfurt parecia antever uma dificuldade imensa de retorno à consciência ilustrada depois da degeneração da cultura em tamanhos atos de barbárie. Adorno pensava a profundidade que se encerra no seio do totalitarismo. E sobre ele precisamos também pensar com urgência.

O totalitarismo, dizia Hanna Arendt, diferentemente das políticas ditatoriais e dos governos despóticos, encontra-se dentro do indivíduo. Sua ação é no interior de cada um, transformando ou consolidando profundamente sua forma de agir e de pensar, por meio da propaganda e da doutrinação. Como no fascismo, por exemplo. Por isso, essa “sociedade secreta montada à luz do dia” precisa de uma massa humana amorfa, fácil de ser manipulada, uma massa sem consciência de si e do outro, por vezes até mesmo indiferente à política, uma massa ressentida e ignorante das complexidades que a manipulam.

Mais que isso, o totalitarismo implica a morte do indivíduo e de sua consciência, a anulação de sua memória e de sua identidade, agora disposta a colaborar com a nova máquina política de aniquilação do outro, o outro negro, o outro pobre, o outro índio, o outro mulher, o outro socialista, o outro diferente, que deve ser banido. Dizem que soldados portugueses cristãos, em guerras no oriente, eram orientados a não olhar nos olhos dos inimigos muçulmanos, para não se darem conta de que por trás dos olhos havia um ser humano. Era melhor compreendê-los como abstrações a ser exterminadas.

Essa massa disforme que se entrega ao totalitarismo são os indivíduos “fáceis”, imbuídos de uma consciência social e política frágil. Em nosso cenário, o governo Bolsonaro descobriu que esses indivíduos, bem como instituições inteiras, são tão fáceis quanto as mulheres ucranianas que Arthur do Val observou, pleno de excitação.

O modelo totalitário de Bolsonaro também entendeu que as escolas precisam ser fáceis de alguma forma. Por isso, aplaudiu o antigo projeto da Escola sem Partido, um modelo ultraconservador de tendência fundamentalista e neoliberal que, antes de ser acusado de ideológico, apressa-se em dizer que o outro é que é ideológico, como fácil motivação para persegui-lo. É por meio de uma campanha totalitária, apoiada inclusive por grupos neopentecostais, que pais e estudantes conservadores buscam impor uma agenda puritana nos domínios da sala de aula. Hipócritas e reacionários, procuram vigiar cada passo do professor, ávidos por flagrar nele alguma insinuação sexual, alguma ideologia de gênero ou doutrinação marxista. Qualquer indivíduo é suspeito no modelo totalitário, dizia Hanna Arendt.

Em dezembro de 2018, um mês depois da eleição de Bolsonaro, mães de alunos de uma escola municipal no interior de São Paulo proibiram seus filhos de assistir ao espetáculo teatral “Miguilim Mutum”, da Companhia Azul Celeste (baseado na obra de Guimarães Rosa), porque alegaram que tinham receio sobre o conteúdo da peça. O espetáculo foi cancelado. Que pena: se tivessem assistido, os meninos teriam se encantado com o mágico universo da infância de Miguilim e seu duro aprendizado rumo à vida adulta. Mães puritanas, movidas pela máquina totalitária, subtraíram a seus filhos a chance da maturidade. Talvez tenha faltado a elas os óculos que o personagem usa na última cena para enxergar o mundo.

Professores de português já me confessaram que se veem forçados a levar para a sala de aula um amontoado de textos insípidos, frases sem contexto para análise sintática, por receio de represália dos pais. Enquanto isso, a escola vai deixando de
formar o leitor, com toda a sua potencialidade crítica, com toda a inteligência que lhe é devida, sem que ele suspeite que a aula de português, para além da gramática, da sintaxe, é também, e essencialmente, a amplitude da consciência crítica sobre o humano. Lemos para entender que por trás dos olhos apavorados do outro existe um ser com história, identidade e memória subjetiva.

O pior legado de Bolsonaro não será a economia (que esta, com o tempo, se conserta), nem a polarização política, nem mesmo a negligência com a saúde. O pior legado de Bolsonaro estará dentro do indivíduo: a educação depois de seu plano totalitário, a dificuldade imensa de retorno ao discernimento ilustrado depois da degeneração da cultura, a transformação sombria da consciência das pessoas. Deste legado vêm todos os outros. 

quarta-feira, 30 de março de 2022

Sem nós

Vivem dizendo que é preciso salvar o planeta antes que seja tarde. Na verdade, é preciso nos salvar antes que seja tarde; assim que for, não haverá nem bocas nem mãos humanas expressando ser tarde demais. Como não nos salvaremos, a Terra seguirá, com vigor, seu curso, sem saber que a vida é mais farta sem nós. 

O trabalho sujo

O burocrata carece de capacidade reflexiva. Ao não refletir, ele não tem uma teoria. Mesmo não tendo, ele propõe uma prática, que, precisamente por não ter uma teoria, danifica o trabalho e prejudica as pessoas. Não tendo passado por uma reflexão (o burocrata é burocrata porque não sabe refletir), a prática dos burocratas é cruel, sem espirituosidade. Ela desconsidera essências e se concentra sobre inutilidades. A burocracia é uma prática destituída de senso de elevação. Ela é mundana, no sentido mais tacanho, mais sujo. 

quinta-feira, 24 de março de 2022

A pastoral dourada

Não houvesse religião,
os fanáticos inventariam
outros modos de matar.

Não houvesse religião, 
os frágeis inventariam 
outros salvadores.

Não houvesse religião,
os calhordas inventariam 
outros jeitos de lucrar.

Não houvesse religião, 
os salafrários incutiriam
nos ingênuos outros medos.

Não houvesse religião,
os aproveitadores criariam
outras maneiras de transar.

Mas inventaram religião.
O pagamento é em ouro.
Para a educação, nem giz.

Amém.

quarta-feira, 16 de março de 2022

Prime Video x Netflix

Em 2001, o Vasco, em tese, sem receber dinheiro, estampou, nas camisas dos jogadores, numa peleja contra o São Caetano, o logotipo do SBT, na intenção de provocar a Globo, que transmitiu o jogo. Foi muito divertido assistir à partida. Enquanto digito estas palavras, o Tuntum está jogando contra o Cruzeiro pela Copa do Brasil. O jogo está sendo transmitido pela Prime Video. Na camisa do Tuntum, o logotipo da Netflix. Que o patrocínio tenha rendido uma grana legal para o Tuntum. 

terça-feira, 15 de março de 2022

Burocracia versus criatividade

Não basta à burocracia padecer de vexatória falta de criatividade e de constrangedora falta de inteligência: a burocracia abomina a inteligência. Nesse quadro, os inteligentes usam a tecnologia e causam mais tempo para a criatividade, não importa o ramo em que atuam. O burocrata usa a tecnologia e retira das pessoas o tempo criativo que elas poderiam ter, não importa o ramo em que atua.  

Das lições do café

Sempre que estou com pressa, faço trapalhada no momento de colocar o pó de café no filtro. Encho demais a colher e parte do pó acaba caindo sobre a pia. Uma patuscada. Já quando despejo o café na manha, com menos pó na colher, não há sujeira. Dentre outras coisas, o café ensina que uma limpeza alcançada na calma é sábia, ao passo que uma lambança criada na sofreguidão é desarrazoada. 

Patetice

Imagine um judeu pedir a um nazista 
que ele grave um vídeo parabenizando os judeus.

Imagine um palestino pedir a um israelense antiPalestina 
que ele grave um vídeo parabenizando os palestinos. 

Imagine uma mulher pedir a Bolsonaro 
que ele grave um vídeo parabenizando as mulheres. 

Antiburocrata

Dos quatro livros que encomendei hoje, três deles têm os seguintes títulos: Sociedade do cansaço, O ócio criativo, O direito à preguiça. Creio que serão úteis em minha “cruzada” antiburocrática, assim como foi Realismo capitalista. Pode ser que essa “cruzada” gere, quem sabe, um livro. 

Sobre a erudição

A erudição deve ser recurso criativo, não artimanha que tenta camuflar algum temor ou alguma deficiência. Além do mais, não se deve revestir o escritor que não se é com a erudição que se supõe ter. 

terça-feira, 1 de março de 2022

Circos











Dos devaneios infantis, um dos meus era trabalhar em circo. Para já estar preparado quando a oportunidade aparecesse, aprendi a andar com as mãos e a fazer malabarismo. O devaneio nunca se fez na prática; o que permaneceu foi o fascínio por circos. Sempre que algum aporta por aqui, vou conferir. 

A impressão que tenho é a de que o circo tradicional está acabando. Aqueles circos itinerantes, feitos com poucos recursos, não raramente mantidos por causa de uma tradição familiar, esse circo, suponho, não vai demorar a desparecer. Enquanto isso não ocorre (se é que vai mesmo ocorrer), sigo indo a circos sempre que há deles por perto.

Na sexta, vinte e cinco de fevereiro, fui a um circo que estava na cidade. Em essência, o que apresentaram foi um espetáculo infantil. Ainda assim, fácil supor as horas de ensaio, de preparação e de força corporal para que as apresentações ocorram. 

O trabalho circense se vale de fisicalidade, da iluminação, de horas e horas de prática, da iluminação, de talento interpretativo e de outros recursos cênicos, que variam de circo para circo.  É um trabalho difícil e bonito, a glorificação do corpo e da teatralidade. 

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Cuidado

Cuida de uma criatura. Pode ser um cachorro, um gato, um coelho, um hamster. Cuida de uma criatura. Pessoas são criaturas. 

sábado, 19 de fevereiro de 2022

A história por trás da foto (111)


Antes da chuva de hoje à tarde, a intenção era ir à Lagoa Grande fotografar um casal de amigos numa daquelas chamadas bicicletas de carga. Veio a chuva. Pensei comigo que o ensaio não ocorreria. Quando a garoa deu trégua, fui para a Lagoa Grande. Montei o equipamento. O casal de amigos chegou, mas desistiu de fazer as fotos. Como o equipamento já estava montado, chamei um garoto que estava por perto para que eu o fotografasse na bicicleta dele. O nome do garoto é Artur (não sei se a grafia está correta). Além de topar ser fotografado, o Artur chamou mais dois amigos dele que estavam por perto. A partir daí foi uma farra. Nesta foto, o Artur demonstra que não precisa da bicicleta dele para decolar. 

Fotopoema 423

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Quase castos 2

O flerte vale por si.
Não precisa levar à cama.
Flertar não é prometer.
Leve porque sem expectativas,
o flerte se compraz
no presente do indicativo.

Os afoitos não entendem o flerte.
Os apressados não o apreciam.

O flerte não é convite, não é proposta.
É acontecimento apreciado por aqueles 
que têm as manhas do amor. 

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Assistir para escrever

Já escrevi que valeu a pena aprender inglês, pois assim posso ler a revista The New Yorker, que publicou recentemente texto sobre Caetano Veloso. Se você também é fã do periódico, não deixe de assistir ao filme A crônica francesa, do diretor Wes Anderson. Além de brincadeiras, piscadelas e alusões quanto ao universo da brilhante revista, o trabalho é uma bela reflexão, dentre outras, sobre o ato de escrever. 

Descartes

Na segunda parte de seu Discurso do método, René Descartes (1596-1650) elenca quatro preceitos que seriam os pilares de sua conduta. O primeiro desses preceitos diz o seguinte: “Jamais aceitar algo como verdadeiro sem saber com evidência que seja tal” [1]. Avant la lettre, Descartes ofereceu dica básica de como se precaver contra notícias falsas na era da internet.
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[1] DESCARTES, René. Discurso do método; Meditações. Tradução de Roberto Leal Ferreira. 2ª edição. São Paulo. Martin Claret. 2012. 

domingo, 13 de fevereiro de 2022

A história por trás da foto (110)


Uma coisa é a foto concebida na mente; outra coisa é a foto realizada. Esse princípio vale para qualquer produção. No meu caso, geralmente, a foto realizada está aquém da foto concebida. Isso não significa que a foto realizada não possa estar além da foto concebida. Há ocasiões em que foto ou fotos podem ficar melhores do que aquilo que havia sido imaginado.

Foi o que ocorreu ontem. O Luiz Araújo, comerciante e fotógrafo, havia encomendado uma máscara para que fosse usada em um ensaio fotográfico. Tendo a máscara aspecto sinistro, a ideia era, naturalmente, realizar imagens com atmosfera sinistra. Para isso, o Luiz convidou o Douglas Rodrigues (os dois são amigos) para que ele fosse o modelo.

Além da máscara, para compor o visual, o Luiz me pediu emprestado um blusão verde que tenho. De minha parte, achei melhor pedir ao Douglas que usasse uma capa amarela que também tenho. Além da máscara e da capa, um porrete também comporia o figurino. Decididos esses aspectos, fomos realizar os registros.

Para as fotos que tirei, eu já tinha em mente que usaria flash em todas elas. O flash, além de, nesse ensaio, jogar luz sobre o assunto principal, permitiria que eu subexpusesse o ambiente, por intermédio do manejo de ISO, de abertura e de velocidade. Para que a velocidade da cortina não estivesse acima da velocidade de sincronismo do flash (ou para que estivesse pouco acima da velocidade de sincronismo), usei na lente um filtro ND. 

Observando as fotos ainda no visor, eu já estava gostando dos resultados. Quando comecei a fazer a edição das imagens, fui fazendo os ajustes na intenção de intensificar nelas o caráter sinistro, caráter esse que era, desde o início, minha intenção.

Eu poderia intencionar, mas poderia, seja como for, errar a mão nas capturas das imagens ou na edição. O figurino estava perfeito, de modo que caberia a mim, a partir da composição, das técnicas no momento do clique e da edição, materializar o que estava no pensamento. Os resultados me satisfizeram. Agradeço ao Luiz Araújo, pelo convite para que eu também fizesse algumas fotos, e ao Douglas Rodrigues, pela presteza e paciência durante o ensaio.
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Ficha técnica

Câmera: Canon EOS R
Lente: Canon 50mm 1.8
Flash: Godox AD600BM
Modificador de luz: sombrinha refletora de um metro e vinte de diâmetro. 
Filtro ND acoplado à lente

1/250
F/2.5
ISO 100 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

“Meninos” diante do microfone

O Flow tem o que a maioria dos “podcasts” ou dos canais de “youtubers” têm: pessoas sem preparo, seja em que aspecto for, que fazem piadinhas (sem graça) e usam a informalidade para camuflar a falta de conhecimento. Sem leitura, sem preparo e sem maturidade, investem em tecnologia e em apuro técnico (boa captação de áudio e de vídeo), não se preocupando em cuidar do mais importante: ideias a favor da vida em comunidade e do conhecimento.

Uma das manhas de quem é despreparado é se esconder por trás de um suposto humor e de uma duvidosa informalidade. Ri-se muito, fazem-se muitos gracejos, mas, na maioria das vezes, esses gracejos mais constrangem do que divertem. A razão é que esses bobos inconsequentes não têm estofo, não têm lastro; são uma legião de imaturos. São incapazes de falar seriamente; não entendem que a vida não é feita somente de gracejos imbecis.

Na tentativa de não perder a galinha que dá aos chamados produtores de conteúdo muito ouro, o Flow convidou o professor André Lajst para que ele explicasse o que todo mundo sabe: defender nazismo é defender assassinato, não somente de judeus. A conversa com o professor escancara o que boa parte dos “podcasts” e dos canais de “youtubers” é, mesmo quando feitos por gente que já era famosa em outros meios: diversão de moleques.

O Flow, dentre tantos, nada mais é do que a expressão de uma profunda incapacidade de comprometimento. A internet está cheia de “influencers” que dizem ter o tom e o dom de uma conversa de boteco, mas eles não entendem haver momentos em que a seriedade é o único tom viável, pela simples obviedade de que há assuntos sérios, não entendem que seriedade não implica caretice, não entendem que o boteco pode ser lugar de conversa densa.
 
Esses “meninos” querem ser espirituosos, mas não têm uma gota de carisma nem se preocupam em conquistá-lo, pois já supõem tê-lo; não se preocupam em se (in)formar a partir de sólida trajetória de leitura e de constante preocupação com o ato de aprender. São crescidinhos, bancados por gente poderosa, mas quando diante de um adulto bem (in)formado, revelam a fragilidade de uma criança mimada. 

Haicai sonoro

Cama ao som de Sade.
O corpo toca a cor do céu,
pois o amor é com você. 

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Não sigo o Fluxo

Monark, do Flow, alegando liberdade de expressão, defendeu a existência de um partido que não admitia liberdade de expressão, de um partido que praticou eugenia, de um partido que executou extermínios. Não é por não saber o que foi o nazismo que Monark defende a existência de nazistas. 

sábado, 5 de fevereiro de 2022

Você está no Tinder?

Felicity Morris é a diretora do documentário O Golpista do Tinder (2022). O enredo já é clássico: mulheres ingênuas caem na lábia de quem finge amá-las, na intenção de obter delas o dinheiro que elas (não) têm. O nome do sujeito é Shimon Hayut. 

Esperto, vai logo dizendo amar as conquistas recentes, ao mesmo tempo em que mostra para elas um modo de vida milionário, com viagens quase diárias em jatinhos particulares, carrões caríssimos, roupas de grife, comida cara e hotéis com piscinas privadas nos quartos. Espertalhão, maneja com esmero as mentiras em redes sociais. Geralmente, o golpe começa no Tinder. 

A ingenuidade das mulheres que foram vítimas do golpista está não em terem acreditado no amor que Shimon Hayut diz sentir e, marota e convincentemente, expressa: a ingenuidade delas está em, após muito pouco tempo, começarem a dar dinheiro para ele e assim continuarem mesmo depois de, por diversas vezes, nada terem recebido como pagamento. Com o dinheiro que ia extorquindo de uma, ele pagava farra para outra(s). 

O mundo embrutece. É louvável quando há pessoas que não perderam a boa-fé. Todavia, quando a boa-fé vem temperada com ingenuidade, a pessoa pode se tornar vítima de salafrários. Sem calçados de proteção, não se recomenda andar em terreno infestado por víboras.

Hayut é esperto. Sabe manipular emoções, corações; conhece a alma feminina. Por isso, tem a manha de, sobretudo, como mentir para as mulheres. As mentiras que ele conta são inverossímeis, atrapalhadas, fantásticas, mas é precisamente de algo fantástico e mirabolante que ele precisa para fazer com que as mulheres deem a ele a grana delas. Ele tem ciência do paradoxo: se a mentira for simples, não convence. Ele tem clara noção de que, para convencer, a mentira tem de ser fantasiosa, tem de ter um enredo. Com outras palavras: Hayut cria uma história, uma ficção, o que prova o poder do ato de contar uma história, o poder da ficção elaborada com maestria.

Hayut domina seu ofício. Sabe que o mundo está cheio de pessoas boas — mas crédulas demais. Uma das entrevistadas, já no fim do documentário, diz que apesar de estar ainda devendo dinheiro a bancos por causa do golpe aplicado pelo espertalhão, ainda acredita no amor. Isso é ótimo. Mas que ela se lembre de um famoso cobrador de impostos, que menciono sem gota de proselitismo, a quem se atribui esta frase: “Sede prudentes como as serpentes e sem malícia como as pombas”. 

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Cozinhei feijão pela primeira vez

As pessoas com talento para cozinhar dizem com frequência que cozinhar não tem segredo. No rigor da expressão, não tem mesmo, pois nada tem segredo. Há algumas coisas que não sabemos decifrar, mas isso não significa que são absolutamente indecifráveis. Podem ser indecifráveis para nós, podem ser indecifráveis por enquanto. 

Quando os talentosos dizem que cozinhar não tem segredo, querem dizer, com boa intenção, que cozinhar é fácil, que bastariam alguns macetes e truques para que a alquimia de produzir sabor  e alimento seja alcançada. Em tese, desde que não haja nível de exigência nem mediano, qualquer um pode cozinhar. No meu caso, cozinhar significa não produzir sabor, significa não ter a capacidade de dar aos alimentos a condição que eu desejar.

O Nivaldo, um dos meus irmãos, que infelizmente morreu em 2019, era um grande cozinheiro. Transitava bem na comida tradicional, era capaz de reinventá-la e era capaz de criar pratos, de recriar receitas. Não é o meu caso. Só comecei a fazer algumas gororobas para mim com o advento das panelas que podem ser ligadas na tomada. Nelas, insiro arroz (com ou sem legumes) e carne. Também aprendi a refogar vagem, o que faço nos dias em que não estou com preguiça. Como geralmente estou, na maioria das vezes, a vagem vai para a mesma panela do arroz.

Gosto demais do feijão quando ele acabou de ficar pronto. Com uma colher furada, é bom demais pegá-lo feito na hora, jogá-lo sobre o arroz, temperar o feijão com sal e, sobre eles, jogar um ovo com a gema mole. O problema é que não tenho as manhas para fritar ovo. Hoje, pela primeira vez, cozinhei feijão.

Não foi fácil tomar essa decisão. Sempre ouvi dizer que é preciso cuidado ao lidar com panelas de pressão. Ora, se pessoas experientes dizem isso, eu, que não sei nada sobre cozinhar, ficava muito temeroso de explodir a panela, o telhado, a casa. Depois de décadas criando coragem e depois de conversar com algumas pessoas, hoje, pela vez primeira, cozinhei feijão.

A primeira dificuldade foi colocar a tampa na panela. De jeito nenhum aquela se encaixava nesta. Custou-me deixá-las em sintonia. Mesmo assim, foi um encaixe que não me convenceu. Todavia, melhor eu não consegui. Liguei a chama do fogão e comecei a torcer — de longe, sempre no temor de a panela explodir a Via Láctea. O tempo foi passando e nada de a panela começar a fazer aquele chiado típico.

Comecei a ficar muito preocupado. Além do mais, em dois pontos da panela, borbulhas começaram a escapar pela tampa, em que há a inscrição “3 sistemas de segurança”. Esses dizeres, em vez de me acalmarem, mais alarmados me deixaram, pois se não houvesse um grande perigo, não haveria três sistemas de segurança. Entre supor que a inscrição seja apenas mais uma barata jogada de “marketing” e acreditar que de fato há perigo, considerei somente a segunda hipótese.

Por via das dúvidas, saí da cozinha e fiquei observando, de uma “esquina” da casa, noutro cômodo, o que ocorria com a panela de pressão. Fiz com que o Tito, meu cachorro, fosse para o quintal, a fim de protegê-lo de uma possível explosão, mesmo ciente de que esse cuidado com o Tito seria inútil caso a Via Láctea fosse dizimada.

Os minutos foram de apreensão, de agonia. Enquanto as borbulhas saíam tampa afora, eu não sabia se aguardava mais um pouco ou se me arriscava a ir correndo até o fogão para desligar a chama, fugindo logo a seguir. Por fim, timidamente, o chiado começou; depois, um dispositivo sobre a tampa da panela começou a girar. Eu nem me lembrava da última vez em que havia escutado esse saudoso chiado aqui em casa.

Acalmado então, chamei o Tito de volta e disse a ele que o Universo, em tese, não estava mais em risco. Ele ficou aliviado com a notícia. Minutos depois, apaguei a chama, esperei algum tempo, destampei a panela. Um inebriante cheiro de feijão tomou conta da cozinha. Peguei uma colher furada, joguei o feijão sobre o arroz. A aventura foi muito exigente. Daqui a algumas décadas, reflito sobre fritar ou não um ovo. 

domingo, 30 de janeiro de 2022

A história por trás da(s) foto(s) (109)





Nas fotos, Mateus Dias (contrabaixo, vocal), Vithor Psycho (bateria, vocal), Junnyn Martins (guitarra, vocal) e Lucas Rabelo (teclado), integrantes da banda Cena de Cinema. Quando me pediram que eu fizesse alguns registros de uma das apresentações deles, eu já sabia, de antemão, que o lugar em que tocariam é iluminado por um tipo e uma cor de luz. Comecei a pensar então num tipo de iluminação que eu poderia levar na intenção de tornar os registros coloridos, em vez de deixá-los praticamente monocromáticos.

Com isso em mente, decidi que duas luzes seriam o bastante para o visual que eu vislumbrava. O passo seguinte foi escolher as cores dessas luzes. Optei pelo vermelho e pelo azul. Levei, pois, dois flashes e os tecidos azul e vermelho, já fabricados com o propósito de conferirem à luz a cor que cada um dos tecidos tem. 
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Abaixo, rede social da banda e dos integrantes dela:

@bandacenadecinema
@mateusdias.bto
@vithorpsycho.bto
@junnynmartins
@uscal
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Abaixo, ficha técnica das fotos:

1/160
f/5.6
ISO 400

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Ecléticos

Quando a pessoa tem talentos, tudo o que ela realiza fica, no mínimo, muito bem feito. Uma das razões disso é que a inteligência dessas pessoas confere a elas o senso de não tentarem fazer aquilo para o que não levam jeito. 

Aos pobres o que é dos pobres

Assisti a Robin Hood (2018) (em português, o filme recebeu o título de Robin Hood: a origem), do diretor Otto Bathurst, no cinema. Saí da sala escura com a intenção de escrever sobre a produção. O tempo foi passando, a intenção cedeu espaço à preguiça. Ainda assim, de tempos em tempos, uma voz em minha cabeça ficava sussurrando: “Preciso escrever sobre Robin Hood, preciso escrever sobre Robin Hood”. Só que, passando o tempo, os detalhes a que eu havia assistido iam se perdendo, até que na memória restasse somente a essência. Passei então a procurar o filme para assistir a ele novamente. Ontem, por fim, isso ocorreu.

Os roteiristas são Ben Chandler e David James Kelly; os créditos dão conta de que o roteiro é baseado numa história daquele; não consegui descobrir a que gênero pertence essa história. No filme de Otto Bathurst, Robin of Loxley [Taron Egerton] é um nobre inglês que volta para casa depois de participar durante quatro anos de guerra contra muçulmanos. Enquanto esteve na guerra, foi dado como morto por autoridade corrupta. De volta à sua casa, descobre que Marian [Eve Hewson], com quem ele mantinha um relacionamento, está com Will Tillman [Jamie Dornan].

Por demais conhecida, a história de Robin Hood, no roteiro do filme, serve para que problemas contemporâneos sejam exibidos. As ações de um personagem que roubava ou furtava dos ricos para dar aos pobres o dinheiro conseguido é pano de fundo para prementes questões de hoje. Não que os problemas exibidos no filme não existissem durante as Cruzadas. A questão é a abordagem, pois os personagens têm comportamento e mentalidade de século XXI. O roteiro deixa de lado acuidade histórica e abarca anacronismos. Isso acaba dando ao trabalho uma falta verossimilhança que, em certos momentos, chega a incomodar, mas que não chega a superar os méritos que tem.

Logo de cara, há embate de etnias, em que ingleses estão lutando contra árabes. Também estão presentes religiosos corruptos e cidadãos desonestos ocupando cargos legais. No universo de Robin Hood, podres estão os religiosos, podres estão os representantes da lei. Em conjunto, tramam a favor de si e contra o povo. 

Não há elementos novos no filme, o que, em si, não é um problema. Está presente, por parte de religiosos e de autoridades, a invenção de um inimigo do povo, quando, na verdade, o inimigo é o que se disfarça de amigo; está presente a invenção do inferno para plantar o medo na população; está presente a desigualdade de distribuição de renda. Embora essas questões já fossem problemas na Idade Média, são tratadas no filme como se os personagens estivessem no século XXI. Por outro lado, são questões atuais, assim como atuais (e antigos) são os mecanismos pelos quais ricos religiosos e ricas autoridades saqueiam o povo. 

A crítica brasileira não deu bola para o filme; colocaram as mãos no bolso e saíram assoviando, fingindo nada ter a ver com invenções de inimigos, demonizações de personagens ou elaboração de infernos. Muitas autoridades religiosas e laicas, canalhas e imprestáveis, continuam se valendo de velhos estratagemas para manterem o povo domesticado. Os problemas que Robin Hood tem, que estão longe de anulá-lo como criação artística, são bem menores do que a gigantesca relevância da produção. 

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Outra vez, sobre a inspiração

Volto ao tema da inspiração. Não para jogar sobre ele uma luz diferente das que joguei no passado. Reli há pouco o que já escrevi sobre a inspiração. Este texto é mais do mesmo. Se, ainda assim, vai sendo escrito, é porque tenho vontade de escrevê-lo e porque não tenho, por ora, outra coisa para dizer.

Há escritores que descreem da inspiração, há escritores que acreditam nela. De todo modo, tanto estes quando aqueles dependem, é claro, da materialização das palavras. Eu acredito na inspiração, mas não em algumas das causas que podem atribuir a ela.

É que o romantismo inventou o mito do poeta inspirado, iluminado, ao passo que eles mesmos, os românticos, ralavam muito para escrever; qualquer um que leve a sério o ato de escrever sabe que escrever um bilhete é difícil. Creio, como dito, na existência da inspiração. Contudo, mesmo quando ela ocorre, ela não é tudo. Ela pode ajudar, pode ser um começo, uma bússola, uma dica, uma possibilidade, um fio a ser desenrolado, mas não muito mais do que isso.

É possível escrever sem inspiração? É, não importa o gênero textual, mas qualquer gênero pode ser escrito com inspiração. As pessoas associam a inspiração à poesia, não levando em conta que a poesia é um gênero como qualquer outro. Não estou desprezando a inspiração nem a poesia; o que digo é que a inspiração é um ingrediente. Se esse ingrediente faltar, nem por isso, desde que assim deseje o criador, vai faltar a criação.

O que escrevo pode ou não nascer da inspiração. Há momentos em que há inspiração; há momentos em que há intenção. Esta não vale nem mais nem menos do que aquela. A diferença é que aquela é involuntária; esta, voluntária. Além do mais, esta pode ser auxiliar daquela, pois há a inspiração que é consequência da intenção. De tanto o sujeito escrever, de tanto matutar em sua área, seja qual for, num dia é visitado pela inspiração, que pode ser, depois de fermentação no inconsciente, resultado de esforço repetido. 

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

A Outra Terra


Uma obra-prima não tem de necessariamente lidar com um grande tema. Trivialidades podem ser o substrato de um monumental trabalho. Não é, pois, a temática que define o que é ou o que não é uma obra de arte. O que define isso é o modo como o artista desenvolve a temática de que decide se ocupar. Todavia, o grande artista não tem medo de enfrentar uma grande temática. A Outra Terra (2011), é uma obra-prima com uma grande temática. 

Dirigido por Mike Cahill e roteirizado por ele e por Brit Marling, que é a atriz principal da produção, A Outra Terra é um filme de ficção científica. Como todo grande filme de ficção científica, está preocupado nem tanto ou não exclusivamente com os desígnios do Universo, embora isso possa perpassar em filmes de ficção científica, mas com o que é essa coisa que chamamos de ser humano. Tanto é assim que o roteiro, ao mencionar biólogos, afirmando que cada vez mais estudam coisas cada vez menores, e astrônomos, afirmando que cada vez mais estudam coisas cada vez maiores, cogita a ideia de que talvez o grande mistério seja o bicho homem visto de perto, o que, sim, acaba remetendo a Caetano, com o famoso verso “de perto, ninguém é normal. 

Diante do Universo, a simples sugestão de que talvez sejamos o que há de mais complicado que há nele soa arrogante; ainda assim, nada mais humano do que a arrogância. Se não arrogância, nada mais humano do que a constatação de que medimos tudo quanto há a partir dessa coisa que somos, como já preconizava o sofista Protágoras: “O homem á a medida de todas as coisas”. A preocupação de A Outra Terra somos nós (dessa linhagem, A Chegada (2016), de Denis Villeneuve, e Love (2011), de William Eubank, são outros belos exemplos).

Nos primeiros oito minutos de A Outra Terra já sabemos que Rhoda Williams [Brit Marling] carregará consigo o peso da culpa. Dirigindo bêbada após sair de uma festa em que celebrava a aprovação no MIT (Massachusetts Institute of Technology), Rhoda bate num carro e mata quase todos os integrantes de uma família. O sobrevivente é John Burroughs [William Mapother], compositor prestigioso que entrou em coma depois do acidente. Tendo “acordado”, leva, sem a esposa e sem o filho, mortos na colisão, uma vida deseixada. Já Rhoda, saindo da prisão após quatro anos, procura John na intenção de dizer a ele que ela é a motorista que causou a morte da família de John (quando do acidente, Rhoda era menor de idade — tinha dezessete anos —, e, pela lei então vigente em Connecticut, embora com autorização legal para dirigir, o nome dela, por ela ser menor, não foi divulgado para a sociedade nem revelado a John).

Só que Rhoda fraqueja, vacila, desconversa. Uma carreira brilhante na astronomia havia sido interrompida depois que ela matou a família de John. Agora, lutando para se desculpar diante dele, ela carrega consigo o peso da culpa, ao mesmo tempo em que deseja a redenção. Tem-se na culpa a grande temática de A Outra Terra (outro filme que aborda essa temática é o também brilhante O Operário (2004), de Brad Anderson). Os encontros com John vão se amiudando, Rhoda vai seguindo sem coragem de contar a ele que ela estava dirigindo o carro na noite do fatal acidente. John, por sua vez, vai recobrando o ânimo, passa a se envolver novamente com a música; a casa dele, que no começo do filme era escura, passa a ter janelas abertas, a luz solar vai dourando o ambiente, conferindo a ele ideia de calidez, de aconchego. Numa cena plena de significados, John pega um telescópio para observar a outra Terra: as janelas da casa de John estão abertas para enxergar o exterior e para receber o que o lado de fora tem a oferecer. O lado de fora trouxe o Sol, trouxe Rhoda.

(A despeito da poeticidade da cena, vale dizer, não em nome do preciosismo, mas da verossimilhança mesmo, que John, com um telescópio caseiro, viu consideráveis detalhes da outra Terra. O filme se passa numa época em que poderosos telescópios já eram feitos pelo homem. Assim, seria possível ter uma visão muito mais precisa da superfície do planeta. Isso poderia ter sido considerado, ainda que levasse, consequentemente, a um enredo diferente do que se tem, mas com as mesmas implicações caso fizessem questão delas.)

Enquanto trabalha na limpeza de uma escola de ensino médio e realiza gestos da mais tocante ternura, quando, por exemplo, vai visitar, no hospital, Purdeep [Kumar Pallana], seu colega de trabalho, Rhoda é pressionada por si mesma a contar para John o que ela causou à família dele. Ela quer se redimir, está mesmo arrependida; sabe que para ter paz na consciência, precisa escancarar para John que ela era a motorista do carro no dia em que a família dele morreu.

Os desdobramentos filosóficos de A Outra Terra são instigantes: o que seríamos não fossem nossas culpas? e se houvesse um lugar em que uma versão de nós sem nossos erros existisse? o que é, de fato, encontrar-se consigo mesmo? o que é se achar? o que faríamos se nos achássemos?... Como seria cada um sem o seu “inferno” pessoal?... Na falta de respostas, olhemos para nós, abramos portas e janelas, observemos o céu. Que não haja um cometa se aproximando da Terra em rota de colisão. 

sábado, 15 de janeiro de 2022

Decisão

Toninho Pedregulho acordou desejoso de mudar a rotina. Agindo em consonância com o desejo, entrou em um supermercado a que nunca tido a fim de comprar uma garrafa de pinga. Caminhando por entre as fileiras embotadas de produtos inúteis, ele viu, sem que se dessem conta dele, sua esposa beijando um homem. Resoluto, Toninho Pedregulho nunca mais mudou a rotina. 

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Ponte sob o rio Paranaíba

Fotos da enchente do Rio Paranaíba, em Patos de Minas. Registros feitos hoje.









 

domingo, 9 de janeiro de 2022

Apontamentos dominicais pós-terceira dose da vacina contra covid

1.
Vacinas não são garantia absoluta. Pouca coisa na medicina tem garantia absoluta. A extirpação de um câncer não quer dizer que ele jamais voltará; um remédio contra a gripe não dá a certeza de que a gripe cederá. Vacinas são armadura para o corpo. A armadura não assegura àquele que a usa sair vivo do combate, mas é melhor combater dentro de uma. 

2.
No Brasil, o segundo semestre do ano passado teve queda no número de mortes por covid. A razão disso é a vacina. Tivesse o país um governo que não sabotasse a vacinação, o fim do ano teria sido auspicioso. Dados internacionais divulgados no fim de 2021 revelaram que 95% dos internados por covid eram não vacinados. 

3.
Teorias da conspiração são coisas de quem fala, dentre outros assuntos, de ameaça comunista sem sequer ter uma ideia do que foi o comunismo ou do que tenha sido ou do é um regime político, não importa qual. Não bastasse a falácia ou o desvario da apregoada, há décadas, ameaça comunista, o teórico da conspiração não se dá conta de que insumos chineses estão presentes em dezenas de remédios. No mundo tal como configurado hoje, é difícil ingerir ou consumir algo que não venha da China. Mas, então, um apoucado presidente arrota descalabros que acham guarida em quem já tem, há muito tempo, na corrente sanguínea, substâncias fabricadas na China. 

4.
Apesar do presidente que o Brasil tem, um presidente que, a princípio, indicou remédios ineficazes contra a covid e que faz de tudo para sabotar a vacina, tomei a terceira dose. No contexto brasileiro, isso é uma gigantesca vitória da ciência e do atendimento público, tudo o que Bolsonaro tem destruído. 

5.
Nos três momentos em que eu estava saindo dos locais de vacinação, senti um vigor que não era corporal, mas anímico. É claro que imunidade implica vigor físico; todavia, o vigor que comento agora diz respeito ao estado de ânimo com que saí do local de vacinação depois de cada uma das três doses da vacina. Além da questão política, pois cada dose da vacina que é aplicada em cada cidadão é uma vitória contra Bolsonaro, há a questão de eu sair mais preparado para a vida. Não iludido com inexistentes garantias absolutas, mas esperançoso.

6.
Eu não quero passar para o outro nada que possa ser fatal para ele. O Artur da Távola, pródigo em neologismos, criou o vocábulo “eutro”, junção de “eu” e de “outro”. O Kiss, em “We are one”, canta “you are me, I am you”. O outro é a minha comunidade. Se o outro está bem, a possibilidade de eu ficar bem aumenta. Se eu estou mal, a possibilidade de o outro estar mal aumenta. Viver é interagir. Se eu estiver gripado, não vou sair por aí espirrando na cara do outro. Se eu não tenho covid, não vou passar para o outro algo que pode ser fatal para o que ele é. Se o outro não tem covid, não vai passar para mim algo que pode ser fatal para o que sou. O mínimo que devo fazer em nome do senso de comunidade ou de coletividade é me vacinar. 

7.
Acredito mesmo que mais cedo ou mais tarde a humanidade vai sucumbir, seja diante de um vírus, de uma praga, de uma catástrofe natural, de uma guerra. Só que isso não é pretexto para que nada façamos na intenção de seguirmos vivos. É preciso teimar a favor da vida, não a favor de um babaca presidente que já se declarou a favor da tortura, da morte. Não há na história um governante insano que tenha promovido a vida. Todos os governos insanos levaram a tragédias, a mortes, a guerras, a fomes, a pobrezas. A insanidade não gosta da vida.

8.
Minha manhã de domingo começou com uma vitória contra a ignorância, uma vitória daquilo que o espírito humano pode ter de nobre, elevado. Qualquer nobreza ou elevação é uma vitória contra o bolsonarismo. 

sábado, 8 de janeiro de 2022

Natural

A natureza é indiferente a nossas vidas. De nada adiantam mandingas, rezas, preces, orações, pedidos, apelos, superstições, rogos, prédicas, simpatias, súplicas. Diante das forças da natureza, pouco ou nada podemos fazer quando ela age com vigor. Ela não sabe se somos pios ou se somos ímpios. A natureza não sabe que deus (não) existe. O fervoroso morreu soterrado ao lado do ateu, que, vivo, seguiu; o ímpio foi levado pelas águas enquanto o religioso conseguiu se agarrar a um galho de árvore e sobreviver. Ela, mãe e esposa dedicada, chegou a tempo, embarcou, mas aves causaram a queda do avião; ele, negligente com a família, se atrasou para o voo fatal porque estava com a amante. Não importa para a natureza se somos éticos ou antiéticos, corruptos ou honestos, trabalhadores ou preguiçosos, sensatos ou antivacinas, burgueses ou andarilhos. Nossos códigos, convenções, moedas ou divisas não são levados em conta pela natureza, que segue, age, reage, com ou sem nós. Nosso controle sobre nossas vidas é uma ilusão, um fiapo. Não sabemos os desígnios, os mecanismos — se é que os há. 

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Aos que perguntaram, aos que perguntam, aos que por ventura vierem a perguntar

Vou salvar o link desta postagem e, no futuro, quando alguém me perguntar, via internet, por que desprezo Bolsonaro, pedirei à pessoa que leia o que agora digito. É que desde 2018, tenho escrito sobre as inúmeras razões pelas quais sou contra Bolsonaro e as coisas que ele defende, coisas essas já esmiuçadas em postagens anteriores. Para eu não ter de ficar digitando a mesma resposta quando a mesma pergunta for feita, fica ou ficará esta postagem como resposta.

Desde, pelo menos, 2018, tenho deixado claros os motivos pelos quais considero Bolsonaro um vitupério. É claro que quem me pergunta por que não aprovo o presidente nunca leu nada do que escrevo; não há o menor problema nisso. Eu também não leio nada do que escrevem ou do que postam as pessoas que me fazem essa pergunta, o que não é um problema; além do mais, as publicações delas não aparecem para mim. Assim como eu tenho outras coisas para ler, essas pessoas que me perguntam por que não aprovo Bolsonaro têm outras coisas para ler. Em arranjos que não sei decifrar, de vez em quando, uma dessas pessoas chega ao que publico.

Talvez as postagens delas não apareçam para mim em função dos algoritmos usados em redes sociais, mas não sei se o motivo é mesmo esse. Lembrando-me agora das pessoas que já me fizeram, via internet, perguntas sobre meus posicionamentos políticos, dou-me conta de que não sei o que essas pessoas têm em mente na atualidade, pois ou não convivo com elas ou nunca conferi o que escrevem ou o que postam, mesmo eu sabendo que me enviaram pedido de amizade virtual há tempos, mas se me perguntam por que sou contra Bolsonaro, elas também não sabem o que tenho em mente, por não conviverem comigo ou por não lerem o que escrevo. Se soubessem, não me perguntariam sobre algo que venho respondendo há anos. Eu as ignoro, no sentido de não saber o que pensam, elas me ignoram (nada disso, que fique claro, é problema), só que, de vez em quando, sem que eu saiba com precisão os motivos pelos quais isso ocorre, elas se deparam com algo que escrevi. 

Há dois caminhos para que se tenha acesso aos motivos pelos quais acho Bolsonaro desprezível. O primeiro, e um pouco mais longo do que o segundo, é ir conferindo minhas postagens de 2018 para cá, embora as anteriores a esse período já deixem claro que não faria o menor sentido eu dar crédito ao presidente. Ter escrito o que escrevi ao longo das décadas e depois concordar com o credo bolsonarista seria incongruência de minha parte; eu teria de ter mudado muito para me sentir em sintonia com quem diz de si mesmo “minha especialidade é matar”. Sendo assim, os que quiserem mais respostas para a pergunta sobre por que escrevo contra Bolsonaro podem conferir também as postagens escritas antes de 2018. Como não deleto o que publico, fiquem à vontade para a leitura. São textos curtos, simples, diretos.

O caminho mais curto, que apresenta um “resumão” dos motivos pelos quais desaprovo Bolsonaro, seria a leitura de O Fim do Brasil. Esse meu breve livro tem alguns textos (poemas em sua maioria) que deixam claro o que penso do país de 2013 para cá, mesmo não sendo o livro restrito unicamente a esse corte temporal. Se os que me perguntam por que não aprovo Bolsonaro não têm tempo para ler o que venho publicando em redes sociais, pode ser que queiram entender as razões de minha desaprovação a partir de uma leitura que demanda menos tempo do que ler o que venho publicando na internet. O link para se adquirir o livro é este: (se a pressa for muita, pode-se pedir a versão eletrônica, que, nesse formato, estará disponível para leitura imediatamente). 

sábado, 1 de janeiro de 2022

A Filha Perdida

Forçoso dizer logo de cara que nada li da Elena Ferrante a não ser os textos (crônicas?) que ela publicou no jornal The Guardian. Sim, isso significa conhecer parte minúscula da obra dela. Mesmo assim, esse quase nada é brilhante. É que o filme A Filha Perdida é baseado num dos livros de Elena Ferrante. A diretora e roteirista é Maggie Gyllenhaal (a atuação dela em Secretária, do diretor Steven Shainberg, a partir de um conto de Mary Gaitskill, é estupenda).
 
Em A Filha Perdida, Leda, interpretada por Olivia Colman, está em férias numa praia grega. Lá, ela tem contato com uma família que logo, logo faz com que ela, Leda, se lembre da família que teve. Em saltos temporais que ora mostram o desenrolar da vida de Leda enquanto ela curte as férias, ora colocam em cena o passado dela, o enredo vai se desenvolvendo.

Eu queria simpatizar com Leda. Ou, melhor dizendo, eu queria entendê-la. Terminado o filme, com ela não simpatizei, não a entendi. E isso é ótimo — a pior coisa que pode acontecer para quem cria um personagem é esse personagem ser insosso, esquecível. Não há como ser indiferente a Leda.

O filme de Maggie Gyllenhaal lida com a temática do casamento e os cansaços a que ele pode levar. Mas, há mais: a produção não tem medo de abordar as agruras da maternidade. Dito com outras simples palavras, a questão de que a pessoa pode não estar pronta para ou pode não querer ser mãe/pai. 

Leda não queria mesmo ser mãe ou não estava pronta para ser mãe? Não importa se isto ou aquilo. Independentemente da resposta, por que o passado tanto a atormenta? Por que ela tanto lamenta a mãe que foi? A pergunta nos leva, aparentemente, a deduzir a mãe que ela gostaria de ter sido. Mas será que ela gostaria mesmo de ter sido a mãe que deduzimos que ela gostaria de ter sido?... Não sei.

Do que sei, é que A Filha Perdida suscita questões demais. Sugere-se algo “apodrecido” em Leda (as frutas podres sobre a mesa, a minhoca (?) que sai de dentro da boneca). Por outro lado, leva-se em conta haver uma jovem com esplendor intelectual e com um potencial gigantesco tendo de cuidar das filhas pequenas e de conviver com um marido que não a satisfazia sexualmente.

Conhecendo a Leda do passado, queremos entender a Leda do presente. Ou, pelo menos, queremos, vá lá, justificar a Leda do presente. Nada disso se conclui (não bastasse, o filme de Maggie Gyllenhaal tem o mérito de evidenciar que Dakota Johnson não se resume à patuscada que é Cinquenta Tons de Cinza). À medida que A Filha Perdida ia se desdobrando, ora eu pensava “esse filme é ruim, mas é bom”, ora eu pensava “esse filme é bom, mas é ruim”. Iniciados os créditos, pensei: “Esse filme é uma obra-prima”.