quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Assistir para escrever

Já escrevi que valeu a pena aprender inglês, pois assim posso ler a revista The New Yorker, que publicou recentemente texto sobre Caetano Veloso. Se você também é fã do periódico, não deixe de assistir ao filme A crônica francesa, do diretor Wes Anderson. Além de brincadeiras, piscadelas e alusões quanto ao universo da brilhante revista, o trabalho é uma bela reflexão, dentre outras, sobre o ato de escrever. 

Descartes

Na segunda parte de seu Discurso do método, René Descartes (1596-1650) elenca quatro preceitos que seriam os pilares de sua conduta. O primeiro desses preceitos diz o seguinte: “Jamais aceitar algo como verdadeiro sem saber com evidência que seja tal” [1]. Avant la lettre, Descartes ofereceu dica básica de como se precaver contra notícias falsas na era da internet.
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[1] DESCARTES, René. Discurso do método; Meditações. Tradução de Roberto Leal Ferreira. 2ª edição. São Paulo. Martin Claret. 2012. 

domingo, 13 de fevereiro de 2022

A história por trás da foto (110)


Uma coisa é a foto concebida na mente; outra coisa é a foto realizada. Esse princípio vale para qualquer produção. No meu caso, geralmente, a foto realizada está aquém da foto concebida. Isso não significa que a foto realizada não possa estar além da foto concebida. Há ocasiões em que foto ou fotos podem ficar melhores do que aquilo que havia sido imaginado.

Foi o que ocorreu ontem. O Luiz Araújo, comerciante e fotógrafo, havia encomendado uma máscara para que fosse usada em um ensaio fotográfico. Tendo a máscara aspecto sinistro, a ideia era, naturalmente, realizar imagens com atmosfera sinistra. Para isso, o Luiz convidou o Douglas Rodrigues (os dois são amigos) para que ele fosse o modelo.

Além da máscara, para compor o visual, o Luiz me pediu emprestado um blusão verde que tenho. De minha parte, achei melhor pedir ao Douglas que usasse uma capa amarela que também tenho. Além da máscara e da capa, um porrete também comporia o figurino. Decididos esses aspectos, fomos realizar os registros.

Para as fotos que tirei, eu já tinha em mente que usaria flash em todas elas. O flash, além de, nesse ensaio, jogar luz sobre o assunto principal, permitiria que eu subexpusesse o ambiente, por intermédio do manejo de ISO, de abertura e de velocidade. Para que a velocidade da cortina não estivesse acima da velocidade de sincronismo do flash (ou para que estivesse pouco acima da velocidade de sincronismo), usei na lente um filtro ND. 

Observando as fotos ainda no visor, eu já estava gostando dos resultados. Quando comecei a fazer a edição das imagens, fui fazendo os ajustes na intenção de intensificar nelas o caráter sinistro, caráter esse que era, desde o início, minha intenção.

Eu poderia intencionar, mas poderia, seja como for, errar a mão nas capturas das imagens ou na edição. O figurino estava perfeito, de modo que caberia a mim, a partir da composição, das técnicas no momento do clique e da edição, materializar o que estava no pensamento. Os resultados me satisfizeram. Agradeço ao Luiz Araújo, pelo convite para que eu também fizesse algumas fotos, e ao Douglas Rodrigues, pela presteza e paciência durante o ensaio.
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Ficha técnica

Câmera: Canon EOS R
Lente: Canon 50mm 1.8
Flash: Godox AD600BM
Modificador de luz: sombrinha refletora de um metro e vinte de diâmetro. 
Filtro ND acoplado à lente

1/250
F/2.5
ISO 100 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

“Meninos” diante do microfone

O Flow tem o que a maioria dos “podcasts” ou dos canais de “youtubers” têm: pessoas sem preparo, seja em que aspecto for, que fazem piadinhas (sem graça) e usam a informalidade para camuflar a falta de conhecimento. Sem leitura, sem preparo e sem maturidade, investem em tecnologia e em apuro técnico (boa captação de áudio e de vídeo), não se preocupando em cuidar do mais importante: ideias a favor da vida em comunidade e do conhecimento.

Uma das manhas de quem é despreparado é se esconder por trás de um suposto humor e de uma duvidosa informalidade. Ri-se muito, fazem-se muitos gracejos, mas, na maioria das vezes, esses gracejos mais constrangem do que divertem. A razão é que esses bobos inconsequentes não têm estofo, não têm lastro; são uma legião de imaturos. São incapazes de falar seriamente; não entendem que a vida não é feita somente de gracejos imbecis.

Na tentativa de não perder a galinha que dá aos chamados produtores de conteúdo muito ouro, o Flow convidou o professor André Lajst para que ele explicasse o que todo mundo sabe: defender nazismo é defender assassinato, não somente de judeus. A conversa com o professor escancara o que boa parte dos “podcasts” e dos canais de “youtubers” é, mesmo quando feitos por gente que já era famosa em outros meios: diversão de moleques.

O Flow, dentre tantos, nada mais é do que a expressão de uma profunda incapacidade de comprometimento. A internet está cheia de “influencers” que dizem ter o tom e o dom de uma conversa de boteco, mas eles não entendem haver momentos em que a seriedade é o único tom viável, pela simples obviedade de que há assuntos sérios, não entendem que seriedade não implica caretice, não entendem que o boteco pode ser lugar de conversa densa.
 
Esses “meninos” querem ser espirituosos, mas não têm uma gota de carisma nem se preocupam em conquistá-lo, pois já supõem tê-lo; não se preocupam em se (in)formar a partir de sólida trajetória de leitura e de constante preocupação com o ato de aprender. São crescidinhos, bancados por gente poderosa, mas quando diante de um adulto bem (in)formado, revelam a fragilidade de uma criança mimada. 

Haicai sonoro

Cama ao som de Sade.
O corpo toca a cor do céu,
pois o amor é com você. 

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Não sigo o Fluxo

Monark, do Flow, alegando liberdade de expressão, defendeu a existência de um partido que não admitia liberdade de expressão, de um partido que praticou eugenia, de um partido que executou extermínios. Não é por não saber o que foi o nazismo que Monark defende a existência de nazistas. 

sábado, 5 de fevereiro de 2022

Você está no Tinder?

Felicity Morris é a diretora do documentário O Golpista do Tinder (2022). O enredo já é clássico: mulheres ingênuas caem na lábia de quem finge amá-las, na intenção de obter delas o dinheiro que elas (não) têm. O nome do sujeito é Shimon Hayut. 

Esperto, vai logo dizendo amar as conquistas recentes, ao mesmo tempo em que mostra para elas um modo de vida milionário, com viagens quase diárias em jatinhos particulares, carrões caríssimos, roupas de grife, comida cara e hotéis com piscinas privadas nos quartos. Espertalhão, maneja com esmero as mentiras em redes sociais. Geralmente, o golpe começa no Tinder. 

A ingenuidade das mulheres que foram vítimas do golpista está não em terem acreditado no amor que Shimon Hayut diz sentir e, marota e convincentemente, expressa: a ingenuidade delas está em, após muito pouco tempo, começarem a dar dinheiro para ele e assim continuarem mesmo depois de, por diversas vezes, nada terem recebido como pagamento. Com o dinheiro que ia extorquindo de uma, ele pagava farra para outra(s). 

O mundo embrutece. É louvável quando há pessoas que não perderam a boa-fé. Todavia, quando a boa-fé vem temperada com ingenuidade, a pessoa pode se tornar vítima de salafrários. Sem calçados de proteção, não se recomenda andar em terreno infestado por víboras.

Hayut é esperto. Sabe manipular emoções, corações; conhece a alma feminina. Por isso, tem a manha de, sobretudo, como mentir para as mulheres. As mentiras que ele conta são inverossímeis, atrapalhadas, fantásticas, mas é precisamente de algo fantástico e mirabolante que ele precisa para fazer com que as mulheres deem a ele a grana delas. Ele tem ciência do paradoxo: se a mentira for simples, não convence. Ele tem clara noção de que, para convencer, a mentira tem de ser fantasiosa, tem de ter um enredo. Com outras palavras: Hayut cria uma história, uma ficção, o que prova o poder do ato de contar uma história, o poder da ficção elaborada com maestria.

Hayut domina seu ofício. Sabe que o mundo está cheio de pessoas boas — mas crédulas demais. Uma das entrevistadas, já no fim do documentário, diz que apesar de estar ainda devendo dinheiro a bancos por causa do golpe aplicado pelo espertalhão, ainda acredita no amor. Isso é ótimo. Mas que ela se lembre de um famoso cobrador de impostos, que menciono sem gota de proselitismo, a quem se atribui esta frase: “Sede prudentes como as serpentes e sem malícia como as pombas”. 

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Cozinhei feijão pela primeira vez

As pessoas com talento para cozinhar dizem com frequência que cozinhar não tem segredo. No rigor da expressão, não tem mesmo, pois nada tem segredo. Há algumas coisas que não sabemos decifrar, mas isso não significa que são absolutamente indecifráveis. Podem ser indecifráveis para nós, podem ser indecifráveis por enquanto. 

Quando os talentosos dizem que cozinhar não tem segredo, querem dizer, com boa intenção, que cozinhar é fácil, que bastariam alguns macetes e truques para que a alquimia de produzir sabor  e alimento seja alcançada. Em tese, desde que não haja nível de exigência nem mediano, qualquer um pode cozinhar. No meu caso, cozinhar significa não produzir sabor, significa não ter a capacidade de dar aos alimentos a condição que eu desejar.

O Nivaldo, um dos meus irmãos, que infelizmente morreu em 2019, era um grande cozinheiro. Transitava bem na comida tradicional, era capaz de reinventá-la e era capaz de criar pratos, de recriar receitas. Não é o meu caso. Só comecei a fazer algumas gororobas para mim com o advento das panelas que podem ser ligadas na tomada. Nelas, insiro arroz (com ou sem legumes) e carne. Também aprendi a refogar vagem, o que faço nos dias em que não estou com preguiça. Como geralmente estou, na maioria das vezes, a vagem vai para a mesma panela do arroz.

Gosto demais do feijão quando ele acabou de ficar pronto. Com uma colher furada, é bom demais pegá-lo feito na hora, jogá-lo sobre o arroz, temperar o feijão com sal e, sobre eles, jogar um ovo com a gema mole. O problema é que não tenho as manhas para fritar ovo. Hoje, pela primeira vez, cozinhei feijão.

Não foi fácil tomar essa decisão. Sempre ouvi dizer que é preciso cuidado ao lidar com panelas de pressão. Ora, se pessoas experientes dizem isso, eu, que não sei nada sobre cozinhar, ficava muito temeroso de explodir a panela, o telhado, a casa. Depois de décadas criando coragem e depois de conversar com algumas pessoas, hoje, pela vez primeira, cozinhei feijão.

A primeira dificuldade foi colocar a tampa na panela. De jeito nenhum aquela se encaixava nesta. Custou-me deixá-las em sintonia. Mesmo assim, foi um encaixe que não me convenceu. Todavia, melhor eu não consegui. Liguei a chama do fogão e comecei a torcer — de longe, sempre no temor de a panela explodir a Via Láctea. O tempo foi passando e nada de a panela começar a fazer aquele chiado típico.

Comecei a ficar muito preocupado. Além do mais, em dois pontos da panela, borbulhas começaram a escapar pela tampa, em que há a inscrição “3 sistemas de segurança”. Esses dizeres, em vez de me acalmarem, mais alarmados me deixaram, pois se não houvesse um grande perigo, não haveria três sistemas de segurança. Entre supor que a inscrição seja apenas mais uma barata jogada de “marketing” e acreditar que de fato há perigo, considerei somente a segunda hipótese.

Por via das dúvidas, saí da cozinha e fiquei observando, de uma “esquina” da casa, noutro cômodo, o que ocorria com a panela de pressão. Fiz com que o Tito, meu cachorro, fosse para o quintal, a fim de protegê-lo de uma possível explosão, mesmo ciente de que esse cuidado com o Tito seria inútil caso a Via Láctea fosse dizimada.

Os minutos foram de apreensão, de agonia. Enquanto as borbulhas saíam tampa afora, eu não sabia se aguardava mais um pouco ou se me arriscava a ir correndo até o fogão para desligar a chama, fugindo logo a seguir. Por fim, timidamente, o chiado começou; depois, um dispositivo sobre a tampa da panela começou a girar. Eu nem me lembrava da última vez em que havia escutado esse saudoso chiado aqui em casa.

Acalmado então, chamei o Tito de volta e disse a ele que o Universo, em tese, não estava mais em risco. Ele ficou aliviado com a notícia. Minutos depois, apaguei a chama, esperei algum tempo, destampei a panela. Um inebriante cheiro de feijão tomou conta da cozinha. Peguei uma colher furada, joguei o feijão sobre o arroz. A aventura foi muito exigente. Daqui a algumas décadas, reflito sobre fritar ou não um ovo. 

domingo, 30 de janeiro de 2022

A história por trás da(s) foto(s) (109)





Nas fotos, Mateus Dias (contrabaixo, vocal), Vithor Psycho (bateria, vocal), Junnyn Martins (guitarra, vocal) e Lucas Rabelo (teclado), integrantes da banda Cena de Cinema. Quando me pediram que eu fizesse alguns registros de uma das apresentações deles, eu já sabia, de antemão, que o lugar em que tocariam é iluminado por um tipo e uma cor de luz. Comecei a pensar então num tipo de iluminação que eu poderia levar na intenção de tornar os registros coloridos, em vez de deixá-los praticamente monocromáticos.

Com isso em mente, decidi que duas luzes seriam o bastante para o visual que eu vislumbrava. O passo seguinte foi escolher as cores dessas luzes. Optei pelo vermelho e pelo azul. Levei, pois, dois flashes e os tecidos azul e vermelho, já fabricados com o propósito de conferirem à luz a cor que cada um dos tecidos tem. 
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Abaixo, rede social da banda e dos integrantes dela:

@bandacenadecinema
@mateusdias.bto
@vithorpsycho.bto
@junnynmartins
@uscal
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Abaixo, ficha técnica das fotos:

1/160
f/5.6
ISO 400

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Ecléticos

Quando a pessoa tem talentos, tudo o que ela realiza fica, no mínimo, muito bem feito. Uma das razões disso é que a inteligência dessas pessoas confere a elas o senso de não tentarem fazer aquilo para o que não levam jeito. 

Aos pobres o que é dos pobres

Assisti a Robin Hood (2018) (em português, o filme recebeu o título de Robin Hood: a origem), do diretor Otto Bathurst, no cinema. Saí da sala escura com a intenção de escrever sobre a produção. O tempo foi passando, a intenção cedeu espaço à preguiça. Ainda assim, de tempos em tempos, uma voz em minha cabeça ficava sussurrando: “Preciso escrever sobre Robin Hood, preciso escrever sobre Robin Hood”. Só que, passando o tempo, os detalhes a que eu havia assistido iam se perdendo, até que na memória restasse somente a essência. Passei então a procurar o filme para assistir a ele novamente. Ontem, por fim, isso ocorreu.

Os roteiristas são Ben Chandler e David James Kelly; os créditos dão conta de que o roteiro é baseado numa história daquele; não consegui descobrir a que gênero pertence essa história. No filme de Otto Bathurst, Robin of Loxley [Taron Egerton] é um nobre inglês que volta para casa depois de participar durante quatro anos de guerra contra muçulmanos. Enquanto esteve na guerra, foi dado como morto por autoridade corrupta. De volta à sua casa, descobre que Marian [Eve Hewson], com quem ele mantinha um relacionamento, está com Will Tillman [Jamie Dornan].

Por demais conhecida, a história de Robin Hood, no roteiro do filme, serve para que problemas contemporâneos sejam exibidos. As ações de um personagem que roubava ou furtava dos ricos para dar aos pobres o dinheiro conseguido é pano de fundo para prementes questões de hoje. Não que os problemas exibidos no filme não existissem durante as Cruzadas. A questão é a abordagem, pois os personagens têm comportamento e mentalidade de século XXI. O roteiro deixa de lado acuidade histórica e abarca anacronismos. Isso acaba dando ao trabalho uma falta verossimilhança que, em certos momentos, chega a incomodar, mas que não chega a superar os méritos que tem.

Logo de cara, há embate de etnias, em que ingleses estão lutando contra árabes. Também estão presentes religiosos corruptos e cidadãos desonestos ocupando cargos legais. No universo de Robin Hood, podres estão os religiosos, podres estão os representantes da lei. Em conjunto, tramam a favor de si e contra o povo. 

Não há elementos novos no filme, o que, em si, não é um problema. Está presente, por parte de religiosos e de autoridades, a invenção de um inimigo do povo, quando, na verdade, o inimigo é o que se disfarça de amigo; está presente a invenção do inferno para plantar o medo na população; está presente a desigualdade de distribuição de renda. Embora essas questões já fossem problemas na Idade Média, são tratadas no filme como se os personagens estivessem no século XXI. Por outro lado, são questões atuais, assim como atuais (e antigos) são os mecanismos pelos quais ricos religiosos e ricas autoridades saqueiam o povo. 

A crítica brasileira não deu bola para o filme; colocaram as mãos no bolso e saíram assoviando, fingindo nada ter a ver com invenções de inimigos, demonizações de personagens ou elaboração de infernos. Muitas autoridades religiosas e laicas, canalhas e imprestáveis, continuam se valendo de velhos estratagemas para manterem o povo domesticado. Os problemas que Robin Hood tem, que estão longe de anulá-lo como criação artística, são bem menores do que a gigantesca relevância da produção. 

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Outra vez, sobre a inspiração

Volto ao tema da inspiração. Não para jogar sobre ele uma luz diferente das que joguei no passado. Reli há pouco o que já escrevi sobre a inspiração. Este texto é mais do mesmo. Se, ainda assim, vai sendo escrito, é porque tenho vontade de escrevê-lo e porque não tenho, por ora, outra coisa para dizer.

Há escritores que descreem da inspiração, há escritores que acreditam nela. De todo modo, tanto estes quando aqueles dependem, é claro, da materialização das palavras. Eu acredito na inspiração, mas não em algumas das causas que podem atribuir a ela.

É que o romantismo inventou o mito do poeta inspirado, iluminado, ao passo que eles mesmos, os românticos, ralavam muito para escrever; qualquer um que leve a sério o ato de escrever sabe que escrever um bilhete é difícil. Creio, como dito, na existência da inspiração. Contudo, mesmo quando ela ocorre, ela não é tudo. Ela pode ajudar, pode ser um começo, uma bússola, uma dica, uma possibilidade, um fio a ser desenrolado, mas não muito mais do que isso.

É possível escrever sem inspiração? É, não importa o gênero textual, mas qualquer gênero pode ser escrito com inspiração. As pessoas associam a inspiração à poesia, não levando em conta que a poesia é um gênero como qualquer outro. Não estou desprezando a inspiração nem a poesia; o que digo é que a inspiração é um ingrediente. Se esse ingrediente faltar, nem por isso, desde que assim deseje o criador, vai faltar a criação.

O que escrevo pode ou não nascer da inspiração. Há momentos em que há inspiração; há momentos em que há intenção. Esta não vale nem mais nem menos do que aquela. A diferença é que aquela é involuntária; esta, voluntária. Além do mais, esta pode ser auxiliar daquela, pois há a inspiração que é consequência da intenção. De tanto o sujeito escrever, de tanto matutar em sua área, seja qual for, num dia é visitado pela inspiração, que pode ser, depois de fermentação no inconsciente, resultado de esforço repetido. 

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

A Outra Terra


Uma obra-prima não tem de necessariamente lidar com um grande tema. Trivialidades podem ser o substrato de um monumental trabalho. Não é, pois, a temática que define o que é ou o que não é uma obra de arte. O que define isso é o modo como o artista desenvolve a temática de que decide se ocupar. Todavia, o grande artista não tem medo de enfrentar uma grande temática. A Outra Terra (2011), é uma obra-prima com uma grande temática. 

Dirigido por Mike Cahill e roteirizado por ele e por Brit Marling, que é a atriz principal da produção, A Outra Terra é um filme de ficção científica. Como todo grande filme de ficção científica, está preocupado nem tanto ou não exclusivamente com os desígnios do Universo, embora isso possa perpassar em filmes de ficção científica, mas com o que é essa coisa que chamamos de ser humano. Tanto é assim que o roteiro, ao mencionar biólogos, afirmando que cada vez mais estudam coisas cada vez menores, e astrônomos, afirmando que cada vez mais estudam coisas cada vez maiores, cogita a ideia de que talvez o grande mistério seja o bicho homem visto de perto, o que, sim, acaba remetendo a Caetano, com o famoso verso “de perto, ninguém é normal. 

Diante do Universo, a simples sugestão de que talvez sejamos o que há de mais complicado que há nele soa arrogante; ainda assim, nada mais humano do que a arrogância. Se não arrogância, nada mais humano do que a constatação de que medimos tudo quanto há a partir dessa coisa que somos, como já preconizava o sofista Protágoras: “O homem á a medida de todas as coisas”. A preocupação de A Outra Terra somos nós (dessa linhagem, A Chegada (2016), de Denis Villeneuve, e Love (2011), de William Eubank, são outros belos exemplos).

Nos primeiros oito minutos de A Outra Terra já sabemos que Rhoda Williams [Brit Marling] carregará consigo o peso da culpa. Dirigindo bêbada após sair de uma festa em que celebrava a aprovação no MIT (Massachusetts Institute of Technology), Rhoda bate num carro e mata quase todos os integrantes de uma família. O sobrevivente é John Burroughs [William Mapother], compositor prestigioso que entrou em coma depois do acidente. Tendo “acordado”, leva, sem a esposa e sem o filho, mortos na colisão, uma vida deseixada. Já Rhoda, saindo da prisão após quatro anos, procura John na intenção de dizer a ele que ela é a motorista que causou a morte da família de John (quando do acidente, Rhoda era menor de idade — tinha dezessete anos —, e, pela lei então vigente em Connecticut, embora com autorização legal para dirigir, o nome dela, por ela ser menor, não foi divulgado para a sociedade nem revelado a John).

Só que Rhoda fraqueja, vacila, desconversa. Uma carreira brilhante na astronomia havia sido interrompida depois que ela matou a família de John. Agora, lutando para se desculpar diante dele, ela carrega consigo o peso da culpa, ao mesmo tempo em que deseja a redenção. Tem-se na culpa a grande temática de A Outra Terra (outro filme que aborda essa temática é o também brilhante O Operário (2004), de Brad Anderson). Os encontros com John vão se amiudando, Rhoda vai seguindo sem coragem de contar a ele que ela estava dirigindo o carro na noite do fatal acidente. John, por sua vez, vai recobrando o ânimo, passa a se envolver novamente com a música; a casa dele, que no começo do filme era escura, passa a ter janelas abertas, a luz solar vai dourando o ambiente, conferindo a ele ideia de calidez, de aconchego. Numa cena plena de significados, John pega um telescópio para observar a outra Terra: as janelas da casa de John estão abertas para enxergar o exterior e para receber o que o lado de fora tem a oferecer. O lado de fora trouxe o Sol, trouxe Rhoda.

(A despeito da poeticidade da cena, vale dizer, não em nome do preciosismo, mas da verossimilhança mesmo, que John, com um telescópio caseiro, viu consideráveis detalhes da outra Terra. O filme se passa numa época em que poderosos telescópios já eram feitos pelo homem. Assim, seria possível ter uma visão muito mais precisa da superfície do planeta. Isso poderia ter sido considerado, ainda que levasse, consequentemente, a um enredo diferente do que se tem, mas com as mesmas implicações caso fizessem questão delas.)

Enquanto trabalha na limpeza de uma escola de ensino médio e realiza gestos da mais tocante ternura, quando, por exemplo, vai visitar, no hospital, Purdeep [Kumar Pallana], seu colega de trabalho, Rhoda é pressionada por si mesma a contar para John o que ela causou à família dele. Ela quer se redimir, está mesmo arrependida; sabe que para ter paz na consciência, precisa escancarar para John que ela era a motorista do carro no dia em que a família dele morreu.

Os desdobramentos filosóficos de A Outra Terra são instigantes: o que seríamos não fossem nossas culpas? e se houvesse um lugar em que uma versão de nós sem nossos erros existisse? o que é, de fato, encontrar-se consigo mesmo? o que é se achar? o que faríamos se nos achássemos?... Como seria cada um sem o seu “inferno” pessoal?... Na falta de respostas, olhemos para nós, abramos portas e janelas, observemos o céu. Que não haja um cometa se aproximando da Terra em rota de colisão. 

sábado, 15 de janeiro de 2022

Decisão

Toninho Pedregulho acordou desejoso de mudar a rotina. Agindo em consonância com o desejo, entrou em um supermercado a que nunca tido a fim de comprar uma garrafa de pinga. Caminhando por entre as fileiras embotadas de produtos inúteis, ele viu, sem que se dessem conta dele, sua esposa beijando um homem. Resoluto, Toninho Pedregulho nunca mais mudou a rotina. 

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Ponte sob o rio Paranaíba

Fotos da enchente do Rio Paranaíba, em Patos de Minas. Registros feitos hoje.









 

domingo, 9 de janeiro de 2022

Apontamentos dominicais pós-terceira dose da vacina contra covid

1.
Vacinas não são garantia absoluta. Pouca coisa na medicina tem garantia absoluta. A extirpação de um câncer não quer dizer que ele jamais voltará; um remédio contra a gripe não dá a certeza de que a gripe cederá. Vacinas são armadura para o corpo. A armadura não assegura àquele que a usa sair vivo do combate, mas é melhor combater dentro de uma. 

2.
No Brasil, o segundo semestre do ano passado teve queda no número de mortes por covid. A razão disso é a vacina. Tivesse o país um governo que não sabotasse a vacinação, o fim do ano teria sido auspicioso. Dados internacionais divulgados no fim de 2021 revelaram que 95% dos internados por covid eram não vacinados. 

3.
Teorias da conspiração são coisas de quem fala, dentre outros assuntos, de ameaça comunista sem sequer ter uma ideia do que foi o comunismo ou do que tenha sido ou do é um regime político, não importa qual. Não bastasse a falácia ou o desvario da apregoada, há décadas, ameaça comunista, o teórico da conspiração não se dá conta de que insumos chineses estão presentes em dezenas de remédios. No mundo tal como configurado hoje, é difícil ingerir ou consumir algo que não venha da China. Mas, então, um apoucado presidente arrota descalabros que acham guarida em quem já tem, há muito tempo, na corrente sanguínea, substâncias fabricadas na China. 

4.
Apesar do presidente que o Brasil tem, um presidente que, a princípio, indicou remédios ineficazes contra a covid e que faz de tudo para sabotar a vacina, tomei a terceira dose. No contexto brasileiro, isso é uma gigantesca vitória da ciência e do atendimento público, tudo o que Bolsonaro tem destruído. 

5.
Nos três momentos em que eu estava saindo dos locais de vacinação, senti um vigor que não era corporal, mas anímico. É claro que imunidade implica vigor físico; todavia, o vigor que comento agora diz respeito ao estado de ânimo com que saí do local de vacinação depois de cada uma das três doses da vacina. Além da questão política, pois cada dose da vacina que é aplicada em cada cidadão é uma vitória contra Bolsonaro, há a questão de eu sair mais preparado para a vida. Não iludido com inexistentes garantias absolutas, mas esperançoso.

6.
Eu não quero passar para o outro nada que possa ser fatal para ele. O Artur da Távola, pródigo em neologismos, criou o vocábulo “eutro”, junção de “eu” e de “outro”. O Kiss, em “We are one”, canta “you are me, I am you”. O outro é a minha comunidade. Se o outro está bem, a possibilidade de eu ficar bem aumenta. Se eu estou mal, a possibilidade de o outro estar mal aumenta. Viver é interagir. Se eu estiver gripado, não vou sair por aí espirrando na cara do outro. Se eu não tenho covid, não vou passar para o outro algo que pode ser fatal para o que ele é. Se o outro não tem covid, não vai passar para mim algo que pode ser fatal para o que sou. O mínimo que devo fazer em nome do senso de comunidade ou de coletividade é me vacinar. 

7.
Acredito mesmo que mais cedo ou mais tarde a humanidade vai sucumbir, seja diante de um vírus, de uma praga, de uma catástrofe natural, de uma guerra. Só que isso não é pretexto para que nada façamos na intenção de seguirmos vivos. É preciso teimar a favor da vida, não a favor de um babaca presidente que já se declarou a favor da tortura, da morte. Não há na história um governante insano que tenha promovido a vida. Todos os governos insanos levaram a tragédias, a mortes, a guerras, a fomes, a pobrezas. A insanidade não gosta da vida.

8.
Minha manhã de domingo começou com uma vitória contra a ignorância, uma vitória daquilo que o espírito humano pode ter de nobre, elevado. Qualquer nobreza ou elevação é uma vitória contra o bolsonarismo. 

sábado, 8 de janeiro de 2022

Natural

A natureza é indiferente a nossas vidas. De nada adiantam mandingas, rezas, preces, orações, pedidos, apelos, superstições, rogos, prédicas, simpatias, súplicas. Diante das forças da natureza, pouco ou nada podemos fazer quando ela age com vigor. Ela não sabe se somos pios ou se somos ímpios. A natureza não sabe que deus (não) existe. O fervoroso morreu soterrado ao lado do ateu, que, vivo, seguiu; o ímpio foi levado pelas águas enquanto o religioso conseguiu se agarrar a um galho de árvore e sobreviver. Ela, mãe e esposa dedicada, chegou a tempo, embarcou, mas aves causaram a queda do avião; ele, negligente com a família, se atrasou para o voo fatal porque estava com a amante. Não importa para a natureza se somos éticos ou antiéticos, corruptos ou honestos, trabalhadores ou preguiçosos, sensatos ou antivacinas, burgueses ou andarilhos. Nossos códigos, convenções, moedas ou divisas não são levados em conta pela natureza, que segue, age, reage, com ou sem nós. Nosso controle sobre nossas vidas é uma ilusão, um fiapo. Não sabemos os desígnios, os mecanismos — se é que os há. 

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Aos que perguntaram, aos que perguntam, aos que por ventura vierem a perguntar

Vou salvar o link desta postagem e, no futuro, quando alguém me perguntar, via internet, por que desprezo Bolsonaro, pedirei à pessoa que leia o que agora digito. É que desde 2018, tenho escrito sobre as inúmeras razões pelas quais sou contra Bolsonaro e as coisas que ele defende, coisas essas já esmiuçadas em postagens anteriores. Para eu não ter de ficar digitando a mesma resposta quando a mesma pergunta for feita, fica ou ficará esta postagem como resposta.

Desde, pelo menos, 2018, tenho deixado claros os motivos pelos quais considero Bolsonaro um vitupério. É claro que quem me pergunta por que não aprovo o presidente nunca leu nada do que escrevo; não há o menor problema nisso. Eu também não leio nada do que escrevem ou do que postam as pessoas que me fazem essa pergunta, o que não é um problema; além do mais, as publicações delas não aparecem para mim. Assim como eu tenho outras coisas para ler, essas pessoas que me perguntam por que não aprovo Bolsonaro têm outras coisas para ler. Em arranjos que não sei decifrar, de vez em quando, uma dessas pessoas chega ao que publico.

Talvez as postagens delas não apareçam para mim em função dos algoritmos usados em redes sociais, mas não sei se o motivo é mesmo esse. Lembrando-me agora das pessoas que já me fizeram, via internet, perguntas sobre meus posicionamentos políticos, dou-me conta de que não sei o que essas pessoas têm em mente na atualidade, pois ou não convivo com elas ou nunca conferi o que escrevem ou o que postam, mesmo eu sabendo que me enviaram pedido de amizade virtual há tempos, mas se me perguntam por que sou contra Bolsonaro, elas também não sabem o que tenho em mente, por não conviverem comigo ou por não lerem o que escrevo. Se soubessem, não me perguntariam sobre algo que venho respondendo há anos. Eu as ignoro, no sentido de não saber o que pensam, elas me ignoram (nada disso, que fique claro, é problema), só que, de vez em quando, sem que eu saiba com precisão os motivos pelos quais isso ocorre, elas se deparam com algo que escrevi. 

Há dois caminhos para que se tenha acesso aos motivos pelos quais acho Bolsonaro desprezível. O primeiro, e um pouco mais longo do que o segundo, é ir conferindo minhas postagens de 2018 para cá, embora as anteriores a esse período já deixem claro que não faria o menor sentido eu dar crédito ao presidente. Ter escrito o que escrevi ao longo das décadas e depois concordar com o credo bolsonarista seria incongruência de minha parte; eu teria de ter mudado muito para me sentir em sintonia com quem diz de si mesmo “minha especialidade é matar”. Sendo assim, os que quiserem mais respostas para a pergunta sobre por que escrevo contra Bolsonaro podem conferir também as postagens escritas antes de 2018. Como não deleto o que publico, fiquem à vontade para a leitura. São textos curtos, simples, diretos.

O caminho mais curto, que apresenta um “resumão” dos motivos pelos quais desaprovo Bolsonaro, seria a leitura de O Fim do Brasil. Esse meu breve livro tem alguns textos (poemas em sua maioria) que deixam claro o que penso do país de 2013 para cá, mesmo não sendo o livro restrito unicamente a esse corte temporal. Se os que me perguntam por que não aprovo Bolsonaro não têm tempo para ler o que venho publicando em redes sociais, pode ser que queiram entender as razões de minha desaprovação a partir de uma leitura que demanda menos tempo do que ler o que venho publicando na internet. O link para se adquirir o livro é este: (se a pressa for muita, pode-se pedir a versão eletrônica, que, nesse formato, estará disponível para leitura imediatamente). 

sábado, 1 de janeiro de 2022

A Filha Perdida

Forçoso dizer logo de cara que nada li da Elena Ferrante a não ser os textos (crônicas?) que ela publicou no jornal The Guardian. Sim, isso significa conhecer parte minúscula da obra dela. Mesmo assim, esse quase nada é brilhante. É que o filme A Filha Perdida é baseado num dos livros de Elena Ferrante. A diretora e roteirista é Maggie Gyllenhaal (a atuação dela em Secretária, do diretor Steven Shainberg, a partir de um conto de Mary Gaitskill, é estupenda).
 
Em A Filha Perdida, Leda, interpretada por Olivia Colman, está em férias numa praia grega. Lá, ela tem contato com uma família que logo, logo faz com que ela, Leda, se lembre da família que teve. Em saltos temporais que ora mostram o desenrolar da vida de Leda enquanto ela curte as férias, ora colocam em cena o passado dela, o enredo vai se desenvolvendo.

Eu queria simpatizar com Leda. Ou, melhor dizendo, eu queria entendê-la. Terminado o filme, com ela não simpatizei, não a entendi. E isso é ótimo — a pior coisa que pode acontecer para quem cria um personagem é esse personagem ser insosso, esquecível. Não há como ser indiferente a Leda.

O filme de Maggie Gyllenhaal lida com a temática do casamento e os cansaços a que ele pode levar. Mas, há mais: a produção não tem medo de abordar as agruras da maternidade. Dito com outras simples palavras, a questão de que a pessoa pode não estar pronta para ou pode não querer ser mãe/pai. 

Leda não queria mesmo ser mãe ou não estava pronta para ser mãe? Não importa se isto ou aquilo. Independentemente da resposta, por que o passado tanto a atormenta? Por que ela tanto lamenta a mãe que foi? A pergunta nos leva, aparentemente, a deduzir a mãe que ela gostaria de ter sido. Mas será que ela gostaria mesmo de ter sido a mãe que deduzimos que ela gostaria de ter sido?... Não sei.

Do que sei, é que A Filha Perdida suscita questões demais. Sugere-se algo “apodrecido” em Leda (as frutas podres sobre a mesa, a minhoca (?) que sai de dentro da boneca). Por outro lado, leva-se em conta haver uma jovem com esplendor intelectual e com um potencial gigantesco tendo de cuidar das filhas pequenas e de conviver com um marido que não a satisfazia sexualmente.

Conhecendo a Leda do passado, queremos entender a Leda do presente. Ou, pelo menos, queremos, vá lá, justificar a Leda do presente. Nada disso se conclui (não bastasse, o filme de Maggie Gyllenhaal tem o mérito de evidenciar que Dakota Johnson não se resume à patuscada que é Cinquenta Tons de Cinza). À medida que A Filha Perdida ia se desdobrando, ora eu pensava “esse filme é ruim, mas é bom”, ora eu pensava “esse filme é bom, mas é ruim”. Iniciados os créditos, pensei: “Esse filme é uma obra-prima”. 

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Contrafação

Parte da classe média brasileira imita, sem sucesso, o que os EUA têm de bom, e consegue, na verdade, piorar o que eles têm de ruim. 

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Preposições

Sob as águas, 
em tragédia brasileira, 
a Bahia.

Sobre as águas, 
em veículo aquático, 
o presidente.

Sob a lama, 
em legado bolsonarista, 
o Brasil. 

domingo, 26 de dezembro de 2021

Não é só um cometinha

O diretor Adam McKay não tem medo de ser óbvio em Não Olhe para Cima (2021). O roteiro é dele e de David Sirota. Logo no início do filme já sabemos que ele desenvolver-se-á quando dois astrônomos, Randall Mindy [Leonardo DiCaprio] e Kate Dibiasky [Jennifer Lawrence] têm provas visuais e matemáticas de que um cometa vai atingir e destruir a vida na Terra.

O destemor de McKay quanto à obviedade está na ausência de sutilezas com relação aos personagens, que acabam sendo estereótipos das categorias a que pertencem. Assim, Randall Mindy é o cientista desajeitado, Kate Dibiasky é a cientista jovem que não se adéqua, a presidente Orlean [Meryl Streep] é o político imbecil, Brie Evantee [Cate Blanchett] é a apresentadora midiática no que a mídia tem de pior, Peter Isherwell [Mark Rylance] é o magnata sem escrúpulos que manda na presidente por ter sido o maior financiador da campanha dela.

Pode-se argumentar haver algum arco dramático na trajetória de Randall Mindy, que acaba deixando-se seduzir (no caso em questão, literalmente) pelos apelos midiáticos. Todavia, Não Olhe para Cima não é um filme sobre estudos de personagens, mas uma produção que escancara, sem sutilezas, uma época sem sutilezas.

Randall e Kate são ridicularizados não somente porque os negacionistas desdenham deles, mas também porque a mensagem que entregam, que é o fim iminente da vida na Terra, é levada ao público não de modo espalhafatoso, circense. Mesmo quando dão um polimento na imagem de Randall, a notícia do fim da vida na Terra não é absorvida por grande parte do público, que, anestesiado, vai para as redes sociais fazer piadinhas com a tragicidade do evento cósmico.

O filme é uma sátira-espelho de um tempo, que finge nada ter a ver com a destruição do planeta e que ri daquilo que não tem graça nenhuma. Adam McKay entrega algo que, se levar ao riso, será aquele tipo de riso travado de quando se está diante da perigosa burrice dos que detêm o poder.

Curiosamente, uma das poucas metáforas do filme (senão a única) é o cometa em si. E, caso raro, uma metáfora que pode ser encarada em dois planos — o literal e o figurado. A metáfora, em regra, não é interpretada ao pé da letra. Se alguém diz “você é Sol da minha vida”, sabe-se, é claro, que ninguém é o Sol. Ou seja, a frase “você é o Sol da minha vida” vale não pelo que é literalmente dito, mas por aquilo que se quer dizer, por aquilo que é sugerido.
 
De modo análogo, o cometa em Não Olhe para Cima pode ser uma metáfora, e ainda que assim interpretado, o diretor, mantendo o tom do filme, deixa óbvia essa metáfora. Há, por exemplo, a criação de dois movimentos sociais: os que se organizam para pedir à população que não olhe para cima e os que se organizam para pedir à população que enxergue o óbvio, bastando, para isso, olhar para cima. Como metáfora, o cometa simboliza tudo aquilo que a ciência descobre e o efeito que isso tem numa sociedade idiotizada. (A bem-vinda obviedade de Não Olhe para Cima lembra a igualmente bem-vinda de Viagens de Gulliver, do Jonathan Swift.)

No filme, a presidente Orlean, movida também por interesses financeiro-pessoais, é uma negacionista. O cometa é uma ameaça que vem do céu, mas pode ser metáfora de uma ameaça que existe em forma minúscula e que não é só uma “gripezinha”. De resto, quando o assunto é um governante negacionista, sabemos bem que no cenário como o do filme, um desses governantes diria algo como “é só um cometinha”. 

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

A promessa

Beijos, carícias, peles eriçadas, preliminares ditosas. Nus, os dois. Sexos ávidos pela trama. Ela diz:
— Hoje, não. Pensando bem, quero que você seja não o meu primeiro homem, mas o segundo. 

Llosa

O Vargas Llosa continua lamentável. Com relação ao Brasil, já compôs loas para o Moro. Agora, mais recentemente, quanto ao Chile, louvou José Antonio Kast. É muito fácil apoiar a extrema-direita quando não se é alvo dela. Mas não nos esqueçamos de que há casos em que os alvejados por ela, ainda assim, glorificam o algoz. Isso ocorre, por exemplo, no Brasil. 

O que se aceita

Queiroga disse que mortes de crianças por covid “estão dentro de patamar aceitável”. Para o governo Bolsonaro, o que é inaceitável é a vida. 

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

O otimista Bresser-Pereira

Pesquisas recentes têm revelado a queda de Bolsonaro. Diante de números, o imprescindível Luiz Carlos Bresser-Pereira, após pesquisa divulgada pelo Datafolha, escreveu no Facebook: “Os brasileiros caíram em si. Depois do imenso erro que cometeram elegendo um presidente de extrema-direita, eles voltaram a pensar”. Quisera eu pensar como o Bresser-Pereira, mas não consigo deixar de supor que o brasileiro está mais do que pronto para, assim que tiver oportunidade, eleger um governo cuja tosquedade seja similar ou pior do que a de Bolsonaro. No futuro, o brasileiro somente não elegerá um governo que defenda tortura e ditadores e que homenageia milicianos se tal candidato não apontar no horizonte. 

sábado, 18 de dezembro de 2021

Cléverson Lima

Fiquei sabendo há pouco que o Cléverson Lima morreu. Estava morando na cidade de onde veio, Araxá. Quem frequentou bares em Patos de Minas na década de 1990 e na década de 2000 se lembra do Cléverson Lima.

Não havia como não gostar dele: agregador, talentoso, carismático; tinha humor involuntário e uma capacidade assombrosa de saber de cor toneladas de canções; sobretudo, foi um sujeito com alma generosa, boa. Assistindo a shows dele em bares de Patos de Minas e da região, tive momentos memoráveis, catárticos. Assistir às apresentações dele era um modo de ser feliz.

Não sei detalhes sobre a morte do Cléverson. Num áudio que me enviaram, é dito que infarto foi a causa. A fim de materializar minha admiração pelo Cléverson, eu o mencionei em dois de meus livros: no Algo de Sempre, há um poema em que faço referência ao Cléverson; no Anacrônicas, há uma crônica sobre ele. Ambos os textos estão também neste blogue. Abaixo, links em que há a presença do Cléverson.
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https://liviosoares.blogspot.com/2008/09/clverson-lima.html

https://liviosoares.blogspot.com/2009/06/fotopoema-110-cleverson-lima_27.html

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

A velha novidade

Assisto novamente a filmes como se eu quase estivesse assistindo a eles pela primeira vez. Assim foi ontem com Newness (2017), dirigido por Drake Doremus e roteirizado por Ben York Jones. No enredo, Martin Hallock [Nicholas Hoult] e Gabi Silva [Laia Costa] são dois jovens que se conhecem por intermédio de aplicativo telefônico.

O filme pode ser entendido como o amor nos tempos do celular. Newness é um retrato poético e eficaz de como os jovens de relacionam com a tecnologia e com o que sentem. Ela é, por assim dizer, personagem, é extensão dos mundos de Martin e de Gabi. 

Se, por um lado, o casal está antenado quanto a relacionamentos que começam na esfera eletrônica, por outro, os dramas, as dúvidas, as dificuldades de que padecem são os mesmos a que o amor pode levar, não importa a época em que ocorra. Newness é um filme sobre o amor, tem os ingredientes dele, com suas alegrias e seus pesos. 

Martin e Gabi não sabem o que fazer com o que sentem. Ou assim se tornam quando entendem que gostam um do outro. E não há tecnologia que ensine o que fazer com isso; a resposta, se é que há, é de cada um. No que diz respeito à tecnologia, estão em sintonia com o tempo em que vivem; no que diz respeito ao amor, as dificuldades que enfrentam no dia a dia da relação são as dificuldades de sempre, as alegrias que vivenciam são as de sempre. Em meio à parafernália eletrônica, o amor, na ótica, do filme, permanece o mesmo.

A paleta da produção é pouco saturada, as cores são frias, as imagens são subexpostas, a profundidade de campo é reduzida. Nessas escolhas estéticas, Martin e Gabi são com frequência mostrados em contraluz. A câmera de Drake Doremus, quase sempre em movimento, ora enquadra os personagens em tomadas fechadas, ora os observa com discrição, seja através de uma vidraça, seja a partir de outro cômodo. Em imprecisos contornos, somos postos diante das imprecisões de Martin e de Gabi.

A despeito da estética descolada, Newness é filme cujos personagens principais são, no fundo, conservadores. Martin e Gabi se entregam à vida e ao amor, às diversões e às possibilidades de encontros que nasceram a partir de aplicativos para celulares. Os dois jovens não sabem ao certo o que fazer com o que querem nem o que fazer com o que supõem querer. Querem crer que o conservadorismo não combina com o modo de vida que elegeram; destrambelham-se, contudo, quando tentam não ser conservadores.

Martin e Gabi são o amor como ele sempre foi, embora tentem exercê-lo no que julgam ser contemporâneo. O celular substituiu as encardidas missivas. No entanto, o casal encarna o amor no que ele tem de antigo e, talvez, de perene. Ele, o amor, pode fazer com que, diante da tela de um telefone ou numa pista de dança, a pessoa tenha em si os mesmos sentimentos de quando bilhetes marcando hora e local de encontros eram entregues às escondidas. 

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Canções em casamentos

Recentemente, a Carina Fragozo, responsável, no YouTube, pelo canal English in Brazil, publicou um vídeo em que ela menciona cinco canções que são escolhidas com frequência para serem executadas em casamentos porque parecem românticas. Todavia, esse suposto romantismo estaria nos arranjos, mas não nas letras. Dentre essas canções, Carina menciona, por exemplo, “More than words”, da banda Extreme. 

O vídeo dela me fez lembrar de que aqui em Patos de Minas, é comum os noivos pedirem que “Hallelujah”, a clássica canção do Leonard Cohen, seja executada em cerimônias de casamento. É claro que o casal tem direito de escolher a canção que bem entender. Mesmo assim, tenho a impressão de que parte desses casais não pediriam a execução de “Hallelujah” durante seus casamentos se conhecessem o teor do que é cantado. Ainda no terreno das impressões, outra que tenho é a de que os noivos, talvez, deixem-se guiar pela melodia e pelo pequeno coral. Reunidos — o título da canção, a melodia, o coral e o arranjo — confeririam uma atmosfera “sagrada” ao aleluia de Leonard Cohen.  

Abaixo, tradução da letra. Levei em conta o original gravado pelo compositor canadense. Ele mesmo canta uma versão estendida do texto num show gravado em Londres. Essa versão estendida poderia “redimir” a letra original, para que ela soasse “apropriada” numa cerimônia de casamento. Mesmo assim, ou seja, mesmo levando-se em conta a versão gravada ao vivo em Londres, estão presentes os originais versos “problemáticos” para serem cantados durante um casamento. Não bastasse isso, essa versão tem os seguintes versos:

Bem, talvez haja um Deus lá em cima
Quanto a mim, tudo o que aprendi do amor
É como atirar em alguém que sacou a arma mais rápido do que você
Mas não é um crime você estar aqui hoje à noite
Não é algum peregrino que alegue ter visto a Luz
Não, é um frio e um muito sofrido Aleluia

Agradeço aos músicos Edgar Medeiros e César Braga em virtude das pacientes explicações que me deram quanto ao trecho da letra que faz referências à nomenclatura e às características dos acordes mencionados nos versos da canção. Sem as ajudas do Edgar e do César, eu teria um painel menos vasto do esmero de Cohen. Eis, pois, a tradução, em consonância com a gravação original de “Hallelujah”:  

Agora ouvi dizer que havia um acorde secreto
Que Davi tocava e que agradava ao Senhor [1]
Mas você realmente não se importa com música, não é?
É assim, o quarto, o quinto
O menor desce, o maior sobe
O perplexo rei compondo Aleluia [2]

Sua fé era forte, mas você precisava de prova
Você a viu se banhando no telhado
A beleza dela e o luar sobrepujaram você
Ela amarrou você a uma cadeira da cozinha
E ela destruiu seu trono e cortou seu cabelo
E dos seus lábios ela fez sair o Aleluia [3]

Você diz que levei o nome em vão
Eu nem sei o nome
Mas se eu soubesse, numa boa, o que é isso para você?

Há um clarão de luz em cada palavra
Não importa qual você tenha ouvido
O Aleluia sagrado ou o sofrido

Eu fiz o meu melhor, isso não foi muito
Eu não conseguia sentir, então tentei tocar
Eu falei a verdade, eu não vim para enganar você
E embora tudo tenha dado errado
Ficarei diante do Senhor da Canção
Com nada em minha língua a não ser Aleluia 
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[1] O Davi da estrofe é o do antigo testamento. Segundo o relato bíblico, ele gostava de dançar e de compor elegias.

[2] A segunda metade da primeira estrofe é metalinguística: os versos descrevem o que está ocorrendo nos acordes e em seus graus na harmonia da canção.

[3] A segunda estrofe faz alusão a duas histórias bíblicas. Os três primeiros versos envolvem Davi, Betsabeia e o marido dela, Urias. Davi a vê tomar banho, manda buscá-la, ela engravida dele. Não assumindo a paternidade e livrando a barra de Betsabeia, Davi arquiteta para que Urias morra durante uma batalha. Os três últimos versos envolvem Sansão e Dalila, que, depois de insistências, o convenceu a contar para ela qual era o segredo da descomunal força dele. Tendo por fim obtido a resposta, Dalila, mediante pagamento, entrega Sansão aos inimigos dele.
 

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Bacana















Este é o Vicente, conhecido como Bacana (ou como Chazim). Meu pai e o Bacana tocavam juntos com muita frequência. Era comum ensaiarem num cômodo que ficava ali na praça Bandeirantes (quem também participava dos ensaios era o Formiga, de cujo nome não me lembro). Na época em que esses ensaios ocorriam, eu devia ter, suponho, uns sete ou oito anos. O Bacana gostava de bater na corda mais grave do contrabaixo imitando o que seria o embarque de uma locomotiva. Ele começava golpeando a corda e ia gradativamente aumentando o andamento, até o momento em que a “locomotiva” atingia velocidade de cruzeiro. Meu pai sempre me levava a esses ensaios. Eu mal via o Bacana e já pedia a ele algo do tipo “cara, faz a locomotiva”. 

Com muita frequência, passo em frente ao local de trabalho do Bacana, onde ele ainda vive às voltas com instrumentos musicais, com equipamentos de som e com quem lida com música, seja em que nível for. Sempre que eu passava por lá, ocorria-me o pensamento de que eu precisava fotografar o Bacana, um modo meu de homenagear não só um personagem que marcou minha infância, mas também um modo meu de homenagear uma das grandes figuras da cidade. Na sexta-feira, dia 19 de novembro, conversei pessoalmente com ele e mencionei o desejo de fotografá-lo. Ele topou. Fizemos as fotos hoje pela manhã. 

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Atlético (quase) campeão

Quando o Atlético/MG contratou o Hulk, pensei: “Estão jogando dinheiro fora”. Não jogaram. O jogador é um dos destaques do time, que é cheio de destaques. No que diz respeito ao futebol em campo, as decisões têm sido acertadas. Não sei dizer sobre as finanças e os negócios do clube. Será que amanhã o Atlético será o Cruzeiro de hoje? Não sei. Torço para que não seja, pois esse seria um fiasco não somente para o futebol mineiro, mas para o futebol nacional. Quanto maior o número de times fortes, melhor para o esporte.

Da década de 70 para cá, a única vez em que o Atlético venceu o campeonato brasileiro foi em 1971. Uma das consequências disso é que a maioria da torcida atleticana nunca testemunhou o alvinegro conquistar esse título. O torcedor do time só não se sentirá plenamente satisfeito porque o Atlético não venceu o Flamengo há dias, lá no Maracanã, e porque o Cruzeiro, em tese, assim parece, não vai cair para a série C. Isso não quer dizer que parte da torcida atleticana não se regozije com a continuidade do Cruzeiro na série B. O futebol é como a vida, é a vida em movimento; assim como há na vida, no futebol há Schadenfreude.

De fato, o Atlético não é o campeão brasileiro deste ano. Tem tudo para ser, mas não é. Há jornalistas que andam dizendo que essa recusa em confirmar o time como o campeão brasileiro deste ano é coisa de mineiro, que seria, por natureza, ressabiado, comedido, desconfiado. Nada disso. Boa parte do que dizem sobre o mineiro e sobre o que é a mineiridade é um mito ou um estereótipo. Nem este nem aquele se sustentam diante do que há em meio às montanhas do estado. (Não mineiros dirão que escrever assim é coisa de mineiro.)

O torcedor atleticano não bate o martelo, declarando o time como campeão brasileiro, simplesmente porque esse torcedor seria muito burro se assim declarasse. Uma coisa é o time ser favorito para a conquista do torneio, uma coisa é ter uma das melhores equipes do Brasil, uma coisa é conquistar pontos mesmo quando a equipe não joga bem; outra coisa é não mais poder ser alcançado por nenhum dos adversários. O galo não conta com o ovo da galinha, no que está certo. Seria no mínimo precipitado já se declarar o campeão da peleja.

O efeito psicológico sobre o time, caso o título não venha, pode ser devastador. Em anos anteriores, depois de 1971, o clube esteve com as mãos perto da taça de campeão. Não é novidade disputarem esse título. A novidade é que desde 2003, quando a disputa do torneio passou a ser por pontos corridos, nunca foi tão grande a possibilidade de o Atlético ser o primeiro colocado.

Torcedores imbecis, há deles em todos os times do mundo, assim como há, em todos os times do mundo, torcedores inteligentes. Dito isso, reconheça-se que a torcida do Atlético merece o título que está muito perto de ser conquistado. O Cuca, que não prima por jogos de palavras, disse, todavia, antes da partida de ontem, contra o Corinthians, que era para o torcedor ir para o Mineirão não para torcer, mas para trabalhar.

A torcida foi e trabalhou; a torcida do Atlético trabalha muito. Neste 2021, sendo o time campeão brasileiro, o grito vitorioso, suspeito, embora sem saber se o torcedor atleticano concorda comigo, será mais catártico do que o grito de quando a equipe ganhou a Libertadores.