sábado, 24 de outubro de 2020
Ambos
quarta-feira, 21 de outubro de 2020
Que morram mais 150 mil
sábado, 17 de outubro de 2020
Mais burocracia
No que há burocracia não há bom senso.
sexta-feira, 16 de outubro de 2020
Dinheiro limpo
quinta-feira, 15 de outubro de 2020
15/10
sexta-feira, 9 de outubro de 2020
... Eles existem
Não confiamos nos narradores dos contos de Edgar Allan Poe. Um dos menos confiáveis é o narrador de “O caso do sr. Valdemar”, publicado pela primeira vez em dezembro de 1845. No enredo, um sujeito interessado em magnetismo, que será explicado em linhas gerais já, já, diz a princípio que ainda não havia tido a oportunidade de usar esse conhecimento no momento em que alguém estivesse morrendo.
Sobre o magnetismo, também conhecido como magnetismo animal: no século XIX, o médico alemão Franz Anton Mesmer tratou de pacientes que padeciam de espasmos epiléticos e transes sonambúlicos. A técnica de que ele se valia tornar-se-ia conhecida como mesmerismo. Mesmerismo ou magnetismo são termos intercambiáveis; algumas técnicas do magnetismo foram incorporadas depois na hipnose. No conto de Poe, o narrador, repito, é entusiasta do magnetismo, que, no período oitocentista, foi usado como tratamento e como paliativo contra dores. Para os adeptos da prática, os humanos, os demais animais e os vegetais teriam uma força natural invisível; essa força poderia curar, sendo transmitida pelo magnetizador para o magnetizado.
Ele combina então com um amigo (o Valdemar do título do conto) que essa tentativa seria feita quando os médicos decidissem que a morte de Valdemar, que era tuberculoso, era iminente. Feito o procedimento, o magnetizado é dúbio no que responde, afirmando estar morto e magnetizado. De qualquer modo, o narrador e uma pequena junta médica deixam Valdemar nesse estado ou nesse limbo por quase sete meses, tendo confabulado que despertar o tísico senhor seria causar a morte dele. Quando, por fim, decidem desmagnetizá-lo, há o horrendo desfecho (em Poe, a expressão “horrendo desfecho” soa até redundante).
Poe, não somente em função de seu trabalho em jornais, mas também por causa de sua mente analítica, interessou-se pela ciência da época, num tempo em que ciências como a medicina e a psicologia ainda não haviam definido com exatidão seu campo de estudo. A atmosfera romântica ainda pairava; não raro, relatos de casos clínicos soavam mais literários do que científicos.
Não nos esqueçamos de que Poe é literato, e um literato imbuído do romantismo como movimento cultural. Poe se vale da ciência para dar verossimilhança às histórias que conta, mas uma verossimilhança que se sustenta, é claro, no ambiente diegético dos contos. Poe não quer fazer ciência, mas, sim, levar à literatura o que a ciência da época andava investigando, levar à literatura o que seria padecer dos distúrbios estudados pela ciência da época.
Volto à ideia de que Poe deu verossimilhança ao conto de terror, de mistério, mas, em saboroso paradoxo, não raro, Poe cria um narrador que não inspira confiança no leitor (o mesmo ocorre quando lemos as palavras de Dom Casmurro). No escritor inglês, os narradores podem estar sob o efeito de drogas ou podem ter propensão a alucinações ou a demais estados de alteração mental.
Alguns exemplos: Egeu, o narrador de “Berenice”, declara que sua estirpe “tem sido chamada uma raça de visionários”; William Wilson, no conto de mesmo nome, revela que descende “de uma raça que se assinalou, em todos os tempos, pelo seu temperamento imaginativo e facilmente excitável”; o narrador de “O coração denunciador” afirma que tem sido “nervoso, muito nervoso, terrivelmente nervoso”; o narrador de “Eleonora” também admite que provém “de uma raça notável pelo vigor da imaginação e pelo ardor da paixão”. E como fica o narrador de “O caso do sr. Valdemar”? O título original do conto é “The Facts of M. Valdemar’s Case”. Chamo a atenção para a palavra “fatos”. Vamos, pois, a eles...
Logo no segundo parágrafo, o narrador anuncia: “Torna-se agora necessário que eu exponha os fatos [itálico do autor] – até onde alcança minha compreensão” [1]. Todavia, no décimo parágrafo do conto, o narrador, que, curiosamente, identifica-se com uma inicial, a letra “P” (quem sabe, uma brincadeira com “P” de Poe), declara: “O senhor L***1 teve a bondade de satisfazer meu desejo de tomar notas de tudo quanto ocorresse, e é dessas suas notas que o que vou agora narrar foi na maior parte condensado ou copiado verbatim [itálico do autor]” [2].
Tem-se, pois um problema: o mesmo narrador, que se predispusera a expor fatos declara que a versão desses mesmos fatos não diz respeito somente ao modo como ele, narrador, presenciou e vivenciou o que ocorreu; tais supostos fatos chegam até nós a partir das lembranças do narrador e das notas tomadas por um médico que compunha a pequena junta que cuidava do sr. Valdemar. O narrador e o médico que escrevera as notas estiveram diante do mesmo fenômeno. Ainda assim, preferiu o narrador se valer também da subjetividade alheia para contar sua história.
Nem é preciso discutir o conceito da palavra fato nem é preciso debater possíveis motivos pelos quais a objetividade absoluta é impossível para nós. Ainda que o narrador se livrasse de emoções e de percepções e de escolhas pessoais (como se isso fosse possível), o que ele nos conta é a realidade como ela foi percebida não somente por ele, mas também por outras pessoas que estiveram diante dos estranhos acontecimentos que acometeram o senhor Valdemar. Como leitores, temos acesso não somente ao universo perceptivo do narrador, mas também ao universo perceptivo registrado nas anotações de um médico. O narrador assume a “coautoria” do que ele conta.
Isso, por si, já torna problemático o uso da palavra “fatos” no título original do conto, bem como torna problemática a afirmação inicial, por parte do narrador, de que exporia as coisas tais quais ocorreram de acordo com sua compreensão. Uma certa desconfiança já começa a se insinuar no leitor. Essa desconfiança se solidifica quando a “insegurança” do narrador é escancarada. Ele escreve: “Sinto agora ter chegado a um ponto desta narrativa diante do qual todo leitor passará a não dar crédito algum” [3].
O que se tem: aquele mesmo narrador que havia anunciado que contaria fatos, primeiramente se vale de anotações de outra pessoa para narrar o que ele mesmo, narrador, havia presenciado. Depois, ainda que estando a narrar, volto a insistir, fatos, o narrador diz que “todo leitor passará a não dar crédito algum” no que lerá.
É como se o narrador estivesse inseguro quanto à sua escrita. Ele inicia sua história propalando que haverá fatos, que haverá objetividade, mas, à medida que o relato vai seguindo, o que antes era intenção de objetividade efetiva-se como insegurança narrativa. O que aconteceu com o sr. Valdemar não é nada crível, mas, ainda que fosse, paira em nós a sensação de que, não bastasse o que há de assombroso e sobrenatural no que é contado, o narrador é um dos “culpados” para que duvidemos da veracidade do que se conta. Terminada a leitura, fica para o leitor não o ideal da objetividade, mas a presença da subjetividade, algo que, por fim, era tão caro aos românticos.
Há outro aspecto desse narrador que me chama a atenção: nos contos de Poe, os narradores são, eles mesmos, os que têm alterações em suas mentes. É bastante divulgada a noção de que uma das inovações de Poe foi ter feito com que o medo ou o terror estivessem não no mundo físico, exterior, mas na mente de quem narra a história. É o que ocorre nos contos que mencionei há pouco. Todavia, pelo menos em tese, a despeito da desconfiança que o narrador de “O caso do sr. Valdemar” provoca, não é ele, o narrador, que está passando por uma alteração de seu estado mental. Poder-se-ia alegar que apenas uma mente enlouquecida alegaria haver algum fato na história de um homem que, magnetizado, fica num limbo entre a vida e a morte. Mesmo assim, o terror que lemos, em teoria, não é criação da mente do narrador, mas algo pelo qual passa o desafortunado Valdemar. Não é o narrador que, ainda que narre em primeira pessoa, procedimento comum em Poe, está passando por uma experiência mental drástica e aterradora, mas outro personagem cuja história é contada, e isso faz com que o narrador de “O caso do sr. Valdemar”, ainda que tenha nos contado algo que permeia o imaginário assombrado e assombroso de Poe, seja uma exceção no universo criado pelo escritor norte-americano.
Mas, ainda assim, não nos esqueçamos: estou falando de Edgar Allan Poe. A despeito do que defendo quanto à técnica narrativa em “O caso do sr. Valdemar”, poderíamos cogitar que, mesmo assim, o narrador estivesse, ele também, passando por alguma alteração mental? Caso sim, isso seria algo que minha leitura não detectou. De qualquer modo, a razão, tal qual a concebemos, não habita os contos de Poe. Quando se trata dele, o que posso afirmar é que eu não acredito em narradores, mas que eles existem, eles existem.
_____
[1] Poe, Edgar Allan, 1809-1849. Contos de terror, de mistério e de morte. Tradução de Oscar Mendes. 6ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 2017. Pág. 208.
[2] Idem. Página 211.
[3] Ibidem. Página 214.
quarta-feira, 7 de outubro de 2020
Mandante e mandados
Chega de índios
quarta-feira, 30 de setembro de 2020
Meu livro no Kindle
Para adquirir, é só clicar aqui.
Pegadas
Não satisfeito, rugiu.
Insatisfeito, cuspiu fogo.
Queimou
galhos,
filhotes,
páginas.
O deus que veneram
anuiu, culpou os índios.
Desembestada, segue a manada.
O legado são rastros incendiários.
terça-feira, 22 de setembro de 2020
Primavera de 2020
Traz teus
brotos,
flores,
frutas,
frutos,
rosas,
árvores,
arbustos,
pólenes.
Vem!
Mostra teu viço,
aproxima-te com teus tons,
tuas cores primaveris.
Entra, fica à vontade.
Saudações,
estação florida.
Chega mais perto.
Brota, viceja.
Já antevejo
as chamas
que produzirás,
já concebo
tuas labaredas
lambendo as estrelas.
Já é hora de
“ir passando a boiada”.
Vais gerar belas cinzas, primavera.
segunda-feira, 14 de setembro de 2020
O Pequod e o Brasil
terça-feira, 1 de setembro de 2020
Violências
sexta-feira, 28 de agosto de 2020
Teclas
a mão assassina
elege milícia.
Com astúcia,
a mão assassina
elege a súcia.
Desavergonhada,
a mão assassina
elege a porrada.
Da ribalta,
a mão assassina
elege a malta.
Como serva,
a mão assassina
elege a caterva.
Do pódio,
a mão assassina
elege o ódio.
Com alarde,
a mão assassina
elege o covarde.
Sem pudor,
a mão assassina
elege torturador.
Com descaramento,
a mão assassina elege
o desmatamento.
Com arrogância,
a mão assassina elege
a ignorância.
Com sandice,
a mão assassina elege
a burrice.
Primeiras-damas
“Bela, recatada e do lar”.
Michelle:
bela, recatada e dólar.
Jornada
terça-feira, 25 de agosto de 2020
Haicais
segunda-feira, 24 de agosto de 2020
O feitiço...
Pancadas
Porradas
Na porrada
O rapaz brigão achava que tudo se resolvia na porrada.
O homem brigão achava que tudo se resolvia na porrada.
O menino, o rapaz e o homem são a mesma pessoa.
O homem brigão chamou para a porrada outro homem.
O brigão, de cara e na cara, levou um monte de porrada.
Entendeu que insígnias não socorrem quando a porrada
vem direto na cara e um dente vermelho cai da boca.
O homem brigão juntou pudores, não pediu clemência.
O rapaz brigão quis apelar para a benevolência dos murros.
Sob saraivada de porradas, o homem, que é o rapaz.
Esfolado, luxento e chorão, foi embora um menino.
A porrada como solução
sábado, 22 de agosto de 2020
Razões
ameaçador,
arrogante,
bobo,
boçal,
bronco,
cruel,
desavergonhado,
desinformado,
despreparado,
imaturo,
inapto,
inepto,
maléfico,
mentiroso,
nefasto,
perdido,
pérfido.
perseguidor,
perverso,
preconceituoso,
sinistro,
sórdido,
tacanho,
tosco,
violento.
Uns o elevaram,
sem vernizes
de cultura,
sem disfarces
de humanidade,
por ele ser
quem ele é.
Outros o elevaram
porque diziam,
em arremedo
de civilidade,
que ele mudaria
quando vestisse
trajes de gala.
Uns e outros estão contentes
porque ele é
violento,
tosco,
tacanho,
sórdido,
sinistro,
preconceituoso,
perverso,
perseguidor,
pérfido.
perdido,
nefasto,
mentiroso,
maléfico,
inepto,
inapto,
imaturo,
despreparado,
desinformado,
desavergonhado,
cruel,
bronco,
boçal,
bobo,
arrogante,
ameaçador.
quarta-feira, 19 de agosto de 2020
Haicai 81
Haicai 80
Para armas, benesses.
Assassinos a postos.
Encruzilhada
diversas criaturas mortas.
Há patos, galos, perus...
No açougue, bois, vacas, carneiros...
Algumas espécies podem ser
adivinhadas através das embalagens.
Outras estão fatiadas,
penduradas em ganchos,
sem embalagens.
Demandam conhecimento
técnico para que sejam identificadas.
há uma espécie que morreu há pouco.
Lá jaz; parece alheia aos que passam,
que parecem alheios ao corpo,
coberto por guarda-sóis.
Um tanto curioso,
alguém de nome José
quer saber
o nome da criatura caída,
que segue morta no corredor.
“O nome dele era Moisés”,
diz Mariana, que tem
olhos vivazes.
José agradece a Mariana
pela informação.
Ele segue fazendo compras.
Vai até a seção de frios e
pega um quilo de moelas.
O gerente da empresa
segue averiguando
os lucros do CNPJ.
terça-feira, 18 de agosto de 2020
Ele não lê
Sabe que é possível viver sem ela.
Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“o erro da ditadura foi torturar e não matar”.
Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“eu sou favorável à tortura”.
Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“eu acho que essa polícia militar do Brasil tinha que matar é mais”.
Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“policial que não mata não é policial”.
Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“o exército não matou ninguém”.
Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“Ustra é um herói”.
Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“eu sonego tudo o que for possível”.
Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“espero que saia; infartada, com câncer, de qualquer jeito”.
Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“só não te estupro porque você não merece”.
Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“sou homofóbico, sim, com muito orgulho”.
Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“prefiro ter um filho viciado do que um filho homossexual”.
Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“é só uma gripezinha”.
Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
se tratar de “histeria”.
Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“não sou coveiro”.
Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“e daí?”.
Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“todo mundo morre um dia”.
Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“vamos parar de divulgar números”.
Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“invadam hospitais e filmem leitos vazios”.
Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“hidroxicloroquina salva”.
Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“é preciso tocar a vida”.
Ele não lê poesia.
Sabe que é possível matar sem ela.
sexta-feira, 14 de agosto de 2020
O que importa
Durante o trabalho, na Ilha de Vera Cruz, um servidor não preenche um papel inútil. Os hierárquicos: “É preciso duas cópias do mesmo trabalho. Assine ambas. Depois, refaça o trabalho. Uma vez tendo refeito, envie duas vias dele para os superiores. Depois de enviar, refaça-o e arquive esse refazimento”.
Durante o trabalho, na Ilha de Vera Cruz, um servidor é chamado de “gorila fedorento”. Os hierárquicos dizem nos bastidores “nada podemos fazer”; divulgam nota: “Lamentamos profundamente o ocorrido”.
segunda-feira, 27 de julho de 2020
Meus livros na Amazon
terça-feira, 14 de julho de 2020
Flavio Sousa, o corajoso
Meu novo livro à venda
Família
sábado, 11 de julho de 2020
Ler e olhar
quarta-feira, 8 de julho de 2020
Meu novo livro
Desejo
longa,
pródiga
saudável.
Mesmo de corpos
que as negligenciam,
as máscaras caem.
terça-feira, 7 de julho de 2020
Meu novo livro
Haicai 79
mas o advogado do “messias”
escondia “cítrico”.
Haicai 78
Haicai 77
Revolução
domingo, 28 de junho de 2020
Ninguém sabe que estou aqui
Primeiro longa-metragem do diretor, a produção conta a história de Memo Garrido [Jorge Garcia], que vive recluso em lugarejo ao sul do Chile. Morando com um tio, Memo leva os dias criando e tosquiando ovelhas, comercializando a carne delas. Ensimesmado e aparentemente rude, ele tem sobre os ombros o peso de um dom não exercido e a lembrança amarga de evento ocorrido na meninice.
Memo nasceu para cantar. Quando ainda era criança, foi vítima de negociata entre o pai dele e os executivos de uma gravadora. A princípio, o que era para ser uma chance de Memo ser o que é, ou seja, o que era para ser uma chance de ele exercer o talento que tem, torna-se expressão do como funcionam as engrenagens do entretenimento, as quais são reflexo do “sistema de erros” (expressão do Drummond) que é o mundo, e de como elas podem abalar o edifício da psique.
A vida de Memo é pesada — metafórica e literalmente. Angustiado, dá vazão, de modo consciente e inconsciente, ao artista que ele é e que precisa vir à tona, seja como for. Ele pinta as unhas, costura roupas para si, devaneia, sonha. Tem vida repetitiva, fazendo um trabalho que não quer, concebendo na imaginação um mundo para o qual ele tem talento, mas cujas portas lhe foram fechadas em função de preconceitos quanto à aparência dele.
Talento não exercido e passado mal resolvido curvam o grande corpo de Memo, corpanzil que só não é maior do que o talento que tem para cantar. É como se o corpo tivesse mesmo de ser grande para abarcar tudo o que Memo é, toda a habilidade dele para o canto e tudo o que ele cala, tudo o que ele sofre. Tanto é assim, que numa simbólica cena que rende homenagem ao realismo mágico, quando Memo não mais está conseguindo guardar em si o que está pedindo passagem em cada poro, a câmera mostra um ser humano que não tem outra saída a não ser deixar jorrar o que ele vinha reprimindo. Repressão hiperbólica requer saída hiperbólica.
Por trás da expressão casmurra dele, há uma delicadeza que somente pode ser percebida por aqueles com sensibilidade o bastante para entenderem ou perceberem que ele é a pessoa certa no lugar errado, um homem maior do que as circunstâncias que ele não consegue mudar. Mesmo não sendo quixotesco, pois os devaneios que tem são a partir de habilidade existente, Memo vive a angústia de não cantar e o peso de quase ninguém saber com exatidão a história por que passou.
O Artur da Távola, na crônica, “Os diferentes”, escreveu: “A alma dos diferentes é feita de uma luz além. Sua estrela tem moradas deslumbrantes que eles guardam para os poucos capazes de os sentir e entender. Nessas moradas estão tesouros da ternura humana. De que só os diferentes são capazes”. Memo é uma pessoa diferente. Marta [María Paz Grandjean], sobrinha de um comerciante com quem Memo tem contato, deu-se conta disso.

