domingo, 8 de março de 2020

Quase castos

É o flerte por si, em si. 
Não vão para a cama 
nem daqui a dois minutos 
nem no ano que vem.  

Olhares que muito sugerem 
mas que nada prometem. 
Dois desconhecidos que se olham 
furtivamente à meia luz. 
Não estão se despindo no futuro; 
estão se criando no presente.  

Ela se levanta, olha pela última vez, vai embora.  
Ele a observa se afastar, chama o garçom.  
Contente, pede mais uma.

domingo, 1 de março de 2020

Enquanto Eu Respirar

Uma colega de trabalho me emprestou o livro Enquanto Eu Respirar, de Ana Michelle Soares, publicado pela Sextante. É sobre a convivência da autora com o câncer.

Quando comecei a ler, logo gostei de como Ana Michelle Soares, ou AnaMi, como ela gosta de ser chamada, não quis soar profunda nem quis soar literária em sua escrita. Justamente por assim escrever, o livro, em sua “simplicidade”, torna-se denso, bonito, triste, comovente. Outro grande mérito de Ana Michelle Soares é não cair num mequetrefe discurso de autoajuda nem cair em pobre pieguice.

O livro é triste e é bonito. Na vida, tristeza e boniteza não se excluem. A autora narra, com uma pitada de humor aqui e outra ali, que ter câncer não é o mesmo que assinar uma sentença de morte, ainda que se tenha plena consciência de que ela, a morte, possa vir antes do que se imaginava. O belo paradoxo narrado em Enquanto Eu Respirar é o de que a real consciência da finitude é libertadora.

Sempre digo que escrever um livro é um ato a favor da vida, um ato de crença na vida. Nesse sentido, a mera existência de Enquanto Eu Respirar é um atestado de fé; valho-me da palavra “fé” não no sentido religioso, cristão, mas uma fé que se faz no dia a dia porque a pessoa se dá conta de que a vida, apesar de todos os pesares, é um troço que vale a pena ser vivido.

A autora dedica grande parte do livro a relatar a amizade com Renata, carinhosamente chamada de Rê, que também tinha câncer. É emocionante acompanhar a convivência entre as duas, o amor de uma pela outra, ambas frequentemente às voltas com sessões de quimioterapia ou com outros procedimentos relacionados ao tratamento.

Por isso de que já falei, o livro já valeria a pena. Mas, há mais. Enquanto Eu Respirar, sem cair em conselhos bobos ou cheios de pseudossabedoria, alerta-nos para o quanto perdemos tempo com coisas que não têm importância alguma. Num sentido amplo, em seu jeitão simples e despojado, o livro nos conclama a amar, a mergulhar na vida, a não adiar sentimentos e a dar valor nas coisas ditas simples. Para quem está doente, uma brisa pode ser uma dádiva, mas por que precisamos ficar doentes para percebermos que a brisa é uma dádiva?

Outra questão mencionada no livro é o quanto alguns médicos ainda vacilam por não enxergarem no doente não uma estatística, não um número, não um entrave para o plano de saúde. Por um lado, há doentes que não facilitam tratamentos; por outro, há médicos que não entendem que no corpo com câncer ou com qualquer outra doença, mora um ser humano. Uma sintonia entre médico e paciente é possível. 

Os trechos em que a relação médico-paciente é desenvolvida pela autora remeteram-me às obras de Oliver Sacks (um de seus livros é inspiração para o filme Tempo de Despertar) e ao livro Sem Causar Mal, escrito por Henry Marsh, médico inglês. Tanto Sacks quanto Marsh entenderam que um corpo doente é tão belo quanto qualquer outro corpo. 

Essa atmosfera paira em Enquanto Eu Respirar. Os que se interessarem pelo livro podem também conferir o perfil @paliativas, mantido por Ana Michelle Soares, no Instagram. Ela escreveu em seu livro: “É triste não poder falar sobre amor”. Por isso mesmo, Enquanto Eu Respirar é um livro feliz, pois é um livro que exala amor. 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Folha do cinismo

O editorial em que a Folha de S.Paulo se diz sob ataque, intitulado “Sob ataque, aos 99”, chega a ser cínico, não porque ela não esteja sendo atacada, mas porque ela ajudou a colocar no poder gente que nunca respeitou a democracia, que defende ditadores e torturadores, gente que só veio a falar em presunção de inocência quando o envolvido era um miliciano. Seria cara de pau da Folha dizer ter suposto que o cenário seria diferente deste em vigor. Ela está sendo tão patética quanto foi o Lobão quando ele gravou vídeo dizendo-se arrependido de seu voto para presidente.

“Frustraram-se, faz tempo, as expectativas de que a elevação do deputado à suprema magistratura pudesse emprestar-lhe os hábitos para o bom exercício do cargo”, publicou a Folha. “Frustraram-se”?! Ora, ninguém é imbecil a ponto de supor que haveria “hábitos para o bom exercício do cargo”. Mudanças de hábitos vêm de dentro para fora, são frutos de reflexão. Nem cândidas ovelhas em pastos viçosos e verdejantes esperavam que a suprema magistratura pudesse tornar um tosco que elogia tortura em um cavalheiro respeitador de princípios democráticos.

Grande parte dos ataques contra a Folha tem partido de pessoas que não querem democracia, que são xenófobas, homofóbicas, afetadas, racistas, elitistas, defensoras de ditaduras, adeptas de incivilidades. Gente que aplaude quando o chefe de uma nação, em vez de responder a questionamentos pertinentes, apela para a vulgaridade ou para a fuga.

Dito isso, é preciso dizer também que os ataques são tão tacanhos quanto o próprio jornal. O cinismo da Folha não é justificativa para que ela seja atacada, mas, além de expor os vitupérios que tem recebido, o periódico de São Paulo deveria fazer seu mea-culpa na patuscada que agora grassa dos pampas à caatinga. A Folha está colhendo o que ela mesma e tantos outros ajudaram a robustecer. Os frutos envenenados vão parar também na mesa de quem não os plantou. 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Mandamentos

Homem religioso mandou — 
fiel votou.

Homem religioso mandou —
fiel acreditou em messias.

Homem religioso mandou — 
fiel defendeu tortura.

Homem religioso mandou — 
fiel desmaiou.

Homem religioso mandou — 
fiel acordou.

Homem religioso mandou — 
fiel deu grana.

Homem religioso mandou — 
fiel se calou.

Homem religioso mandou — 
fiel não estudou.

Homem religioso mandou — 
fiel mentiu.

Homem religioso mandou — 
fiel se ajoelhou.

Homem religioso goza. 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Natural da Ádria

Milicianos
são amigos uns dos outros,
promovem churrasco para os pares, 
zombam de leis,
matam Marielles,
têm amigos na presidência,
são homenageados pelos homens do presidente,
presenteiam ordens cumpridas.
Miliciano silencia miliciano que sabe muito.
Miliciano que silencia miliciano que sabe muito é silenciado.
Miliciano de terno caro sai incólume. 

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

É assim

É preciso fazer. É preciso produzir. É preciso criar. O que, talvez, não tem significado nem sentido agora, terá depois, para alguém, em algum lugar. Não sugiro com isso que quando o Bruce Hornsby compôs “The way it is” ele estivesse supondo que compusera algo sem valor, sem sentido, sem significado. O que escrevo, é só para dizer que, nesta madrugada, “The way it is” faz sentido (como sempre). Eu sei que o Bruce Hornsby existe, sei que “The way it is” existe. Eu agradeço a ele e à canção. Graças aos dois, existo melhor nesta madrugada. 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Crenças

1
Há quem acredite que 
o hábito faz o padre.

Há quem acredite que
a farda faz o patriotismo.

Há quem acredite que
o púlpito faz o pastor.

Existem hábitos que violentam.
Existem hábitos que corrompem.
Existem hábitos que estupram.

Existem fardas que violentam.
Existem fardas que corrompem.
Existem fardas que estupram.

Existem púlpitos que violentam.
Existem púlpitos que corrompem.
Existem púlpitos que estupram.

Há quem acredite em imaculados.

2
Há quem acredite que
o discurso faz o cidadão de bem.

O discurso
violenta,
corrompe,
estupra,
tortura.

O jornal acoberta
o hábito,
a farda,
o púlpito,
o discurso.

Há quem acredite no jornal. 

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Água cadente

A sede não tem fim.
No país dos alimentos envenenados,
querem privatizar a água.

Os que já morrem famintos
morrerão de sede.
Os que já morrem sedentos
Morrerão de sede.

A carne é cara,
o combustível é caro,
a água será cara.

Na líquida meritocracia,
ricas taças em mãos
que empunham látegos
invisíveis e eficazes.

Na sólida sarjeta,
a sede de um homem
ergue, com fome,
os lábios para o céu,
bebendo da água
que cai para todos.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Variações sobre um tema

Tema:
Presidente diz que, se tivesse este poder, “teria anulado, cancelado” investigações contra Flávio Bolsonaro.

Variação 1:
O presidente não anula a investigação contra o filho Flávio Bolsonaro porque não tem poder para isso.

Variação 2:
Houvesse como, o presidente livraria o filho Flávio Bolsonaro das investigações de que este é alvo.

Variação 3:
Tivesse poder para isto, o presidente cancelaria investigações contra Flávio Bolsonaro.

Variação 4:
As investigações contra Flávio Bolsonaro não foram anuladas porque o pai dele afirmou que não tem esse poder.

Variação 5:
Flávio Bolsonaro não está livre de investigações porque o pai dele diz que não tem poder para cancelá-las.

Variação 6:
Flávio Bolsonaro ainda está sob escrutínio da justiça porque o pai dele alega não ter poder para anular as investigações.

Variação 7:
Dependesse do pai dele, Flávio Bolsonaro não estaria sendo investigado.

Variação 8:
O pai de Flávio Bolsonaro diz não ter poder para impedir as investigações contra o filho, mas que, se tivesse, impedi-las-ia.

Variação 9:
Haveria interrupção nas investigações contra Flávio Bolsonaro se o pai dele tivesse poder para bani-las.

Variação 10:
Flávio Bolsonaro é investigado; não seria se dependesse do pai.

O escrevinhador deste texto acredita que as investigações contra o rebento serão anuladas. Ou canceladas. Ou arquivadas. Ou “esquecidas”. 

domingo, 5 de janeiro de 2020

Fartura e falta

Livros didáticos têm “muita coisa escrita.
O céu tem muita estrela.
A partitura tem muita nota.
O mar tem muita água.
O carro tem muita peça.
O prédio tem muito tijolo.
O corpo tem muito átomo.
A floresta tem muita árvore.

A mente dele tem muita burrice. 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

2020 hoje, sempre

2020 não será melhor. Torturadores continuarão torturando; defensores de torturadores continuarão os defendendo. Ditadores continuarão governando; defensores de ditadores continuarão os defendendo. Milicianos continuarão comandando; defensores de milicianos continuarão os defendendo. Ignorantes continuarão atacando o conhecimento; defensores de ignorantes continuarão os defendendo.

Os que acreditam em “kit gay” e em mamadeira de piroca continuarão existindo. Os que acham que “o exército não matou ninguém” continuarão existindo. Os que desejam câncer para o outro continuarão existindo. Os que se dizem de bem e defendem assassinatos e assassinos continuarão existindo. Os que não querem cultura continuarão existindo, bem como os que não querem ciência. 2020 não será melhor.

Isso não é pretexto para que nada façamos. O embate deve prosseguir não porque um novo ano começou, mas porque ideias de extermínio e de exclusão não desapareceram junto com a fumaça dos fogos de artifício depois de meia-noite. Corpos afundam no mar, mas há mitos inaugurais bonitos e atávicos que são recriados, há ventos e espíritos que pairam sobre a água de que bebemos. 

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Haicai 75

Acharam um Moro.
Podem quebrar mais
do que o decoro. 

domingo, 29 de dezembro de 2019

Aprendizados

Coisas que foram “ensinadas” neste ano:

• a alta do dólar é algo bom;
• o pobre não sabe poupar;
• desempregados devem bancar programa de geração de empregos;
• os Beatles surgiram para implantar o comunismo;
• o Brasil era socialista;
• a Terra é plana;
• o Leonardo DiCaprio dá dinheiro para tacar fogo na Amazônia;
• ONGs são responsáveis por queimadas na Amazônia;
• o Greenpeace derramou óleo no litoral brasileiro;
• o peixe é inteligente: desvia do óleo;
• o ambiente é um entrave para os negócios;
• questão ambiental só importa para os veganos;
• fiscais do Ibama e do Instituto Chico Mendes são criminosos;
• os garimpeiros e os madeireiros devem ser defendidos dos fiscais do ambiente;
• os fiscais do ambiente devem ser desarmados; a população deve ser armada;
• as ações criminosas dos desmatadores devem ser encorajadas;
• o aquecimento global é uma invenção marxista;
• universidades públicas escondem plantações de maconha e produzem drogas sintéticas;
• faculdades de humanidades não trazem retorno à sociedade;
• estudantes e professores que protestam são imbecis;
• professor é inimigo; miliciano é amigo;
• Paulo Freire não presta;
• as escolas têm “kit gay” e mamadeira de piroca;
• a escravidão foi benéfica para os descendentes dos escravos;
• não existe racismo no Brasil;
• o Brasil pode ser destruído por feitiçaria e sacrifícios;
• o turismo sexual deve ser estimulado;
• os direitos humanos são deletérios;
• a fome no Brasil é mentira;
• as normas de combate ao trabalho escravo devem ser afrouxadas;
• o trabalho infantil é bom;
• é hipocrisia a crítica de nepotismo quanto à indicação de Eduardo Bolsonaro para a embaixada americana;
• o INPE e o IBGE divulgam dados incorretos;
• blocos de rua no carnaval são adeptos do “golden shower”;
• o golpe que levou à ditadura militar deve ser comemorado;
• torturadores e ditadores devem ser exaltados;
• a implantação do excludente de ilicitude e do AI-5 não são tão impossíveis assim;
• alvejar alguém com centenas de tiros é apenas um incidente: “O exército não matou ninguém”;
• dentro de casa, uma arma e um liquidificador oferecem o mesmo risco;
• veículos de comunicação que não apoiam o governo devem ser intimidados; seus anunciantes devem ser ameaçados;
• as críticas são a mídia querendo derrubar o presidente e são pessoas torcendo contra o governo;
• comerciais de estatais não podem mostrar jovens negros nem podem mostrar homossexuais;

2020 vem aí. Pleno de pessoas a fim de “aprender”. 

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Chatice

Natal

Alastra ignorância e arrota preconceitos, mitifica torturadores e adora assassinos. Em nome do que chamou de “menino Jesus”, enviou mensagem me desejando “um santo Natal”. Fiquei comovido com a desfaçatez. 

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Ora, ora

Para ela,
rezar é uma tortura.
Ora ela reza para que
o capitão expulso torture,
ora ela reza para que
os oponentes dele
sejam torturados. 

Mais burocracia

O burocrata, em regra, lê mal e escreve mal. Por não saber ler e não saber escrever, as regras que ele mesmo estipula, no mais das vezes, são ininteligíveis. Ele considera que tolos cliques numa tela são mais importantes do que saber ler, do que saber escrever, do que ser criativo. O burocrata enxerga a tecnologia como um fim em si, não como um meio. O burocrata se regozija em produzir autômatos como ele. 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Retorno à burocracia

O primeiro “pecado” da burocracia é a falta de imaginação. Ficasse só nisso, ela até que seria suportável. O problema é que a burocracia atinge, mais cedo ou mais tarde, o reino da burrice. Ao fazer isso, atrapalha toda a comunidade. Com a burocracia, se o objetivo é sair do destino “A” e chegar ao destino “B”, esse caminho não pode ser feito de modo direto. É preciso, antes, que se fique emperrado no setor “A1”, depois no setor “A2”, depois no setor “A3”, depois no setor “A4”... O número de setores, antes que se chegue a “B”, dependerá dos caprichos e da falta de imaginação dos burocratas.

O princípio básico da burocracia é este: se é possível complicar, não faz sentido simplificar. O sonho da burocracia é ser sofisticada, eficaz, mas ela não entende que excesso de documentos não implicam eficiência. A burocracia criou para si a ilusão de que papeladas, assinaturas, trâmites e detalhes inúteis são indícios de rigor, de organização, de autoridade. Não há nada disso. Quanto mais papeladas, assinaturas, trâmites e detalhes inúteis, maior a expressão da ineficácia e da burrice da burocracia.

Se a burocracia fosse um reino fechado em si e que atuasse somente para aqueles que, destituídos de senso de encantamento, enxergassem nela alguma utilidade, não haveria problema. Os burocratas reunir-se-iam em suas mansões de documentos e ficariam tramitando até o fim dos tempos sua papelada inútil. Só que isso não ocorre. Os burocratas, à medida que a tecnologia vai avançando, vão se especializando em... criar mais burocracia — para os outros.

A informática, aliada da velocidade, é, nas mãos dos burocratas, instrumento de inutilidades e de lentidão. Alegando coisas como competência, produtividade, transparência, agilidade, os burocratas acabam prestando um desserviço, fazendo com que todos ao redor fiquem presos nas garras de tarefas que emperram a produção, tarefas que ocupam um todo considerável de trabalhadores que, não estivessem envolvidos com tolas burocracias, poderiam estar sendo úteis.

A burocracia é o mundo do faz-de-conta. Sem se predispor a resolver os verdadeiros problemas, ela trata de inventar encrencas de outra ordem. Nessa inocuidade, os burocratas, pagos para resolverem problemas ou para criarem soluções, acabam informatizando um problema onde antes havia uma solução ou onde, pelo menos, não havia um problema. A burocracia é engodo com cara de solução. A burocracia é a “arte” de desenvolver picuinhas que nada têm a ver com agilidade nem com solução de percalços, embora os burocratas se vendam como pertencentes à quintessência do trabalho e como os arautos-mores de palavrinhas como “empreendedorismo” e “pró-atividade”, que estão na moda entre eles.

A burocracia é a morada do lugar-comum, a casa do discurso empolado, o lar do discurso pseudointeligente. Reina na burocracia o mundo da aparência, em atitudes que se vestem e se revestem de mais e de mais papéis, de mais e de mais cliques, para não revelarem o que há por trás delas: dispêndio improdutivo de tempo e desperdício de talentos. Sei que tenho de conviver com infernos; a burocracia é só um deles. Ela é coisa inútil alçada à condição de pilar principal no funcionamento das coisas. Não é a burocracia que faz um país. Fosse, o Brasil seria grande. 

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Os quereres

Queres rebeldia?
Sê tua sagacidade.

Queres beleza?
Sê teu poema.

Queres paz?
Sê tua dança.

Queres saúde?
Sê teu rabanete.

Queres humor?
Sê tua pilhéria.

Queres elegância?
Sê teu corpo.

Queres realização?
Sê teu dom.

Queres pontualidade?
Sê teu relógio.

Queres o bem?
Sê tua inteligência.

Queres sofisticação?
Sê teus livros.

Queres um caminho?
Sê teu guia.

Queres deus?
Sê teu milagre. 

Haicai 74

Afaga larápio.
Inventando despiste,
culpa DiCaprio. 

Água cadente

A sede não tem fim:
no país dos alimentos envenenados,
querem privatizar a água.

Os que já morrem famintos
morrerão de sede.
Os que já morrem sedentos
morrerão de sede.

A carne é cara,
o combustível é caro,
a água será cara.

Na líquida meritocracia,
ricas taças em mãos
que empunham látegos
invisíveis e eficazes.

Na sólida sarjeta,
a sede de um homem
ergue, com fome,
os lábios para o céu,
bebendo da água
que cai para todos. 

sábado, 2 de novembro de 2019

Lambança diplomática

Primeiro, o mandatário brasileiro disse que não parabenizaria o presidente eleito da Argentina, Alberto Fernández. Agora, Bolsonaro tem dito que não irá à posse do argentino. Ainda no rol das lambanças do clã da família bolsonarista, Eduardo Bolsonaro postou imagem em que, à direita, ele, Eduardo, está em meio a armas; à esquerda, Estanislao Fernández, filho de Alberto Fernández, está usando fantasia. Enquanto isso, Trump não se fez de rogado: ligou para o presidente eleito da Argentina e o parabenizou, ocasião em que teria dito: “Parabéns pela grande vitória. Vimos pela televisão. Você vai fazer um trabalho fantástico”.

Embora se possa elencar semelhanças entre Trump e Bolsonaro e embora o presidente brasileiro não esconda a admiração que tem pelo colega norte-americano, há uma diferença básica: Trump não é tão burro quanto Bolsonaro nem quanto a família deste. Trump é esperto o bastante para saber que inabilidade nas relações diplomáticas pode implicar perda de dinheiro para os países. Não há como eu saber o que de fato Trump pensa sobre Alberto Fernández. Isso não importa. O que importa é que ele não foi imbecil o bastante a ponto de não perceber que ele tem um papel diplomático e político a cumprir. Ao ligar para Fernández, Trump está no mínimo levando em conta que ele representa os EUA e que há parceria comercial entre o país dele e a Argentina.

Em âmbito mundial, a Argentina é o terceiro maior comprador de produtos do Brasil. Goste Bolsonaro ou não, Fernández foi eleito democraticamente. Além disso, há uma série de acordos comerciais que vêm sendo alinhavados ao longo do tempo; parte desses acordos ainda não foi implementada ou não foi concluída. Faniquitos não deveriam fazer parte do comportamento de um presidente, mas o nosso é pródigo em fricotes, seja quando não responde a questionamentos que são da alçada dele responder, abandonando coletivas de imprensa, seja quando não responde a questionamentos e prefere a falta de compostura nas palavras, seja quando é destemperado em transmissões ao vivo, seja quando não pensa no país e faz declarações infantis, rancorosas e toscas. Bolsonaro não tem de bajular Fernández, mas se Bolsonaro e família ficassem calados em questões que resvalam para a diplomacia, já estariam fazendo bem para o Brasil. 

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Flamengo dá uma surra no Grêmio

A instituição Grêmio, os torcedores do time e os atletas que estiveram há pouco em campo no Maracanã não merecem o que ocorreu hoje no estádio; o Portaluppi, com a empáfia dele, sim. A goleada do Flamengo deixou claro, mais uma vez, o atraso dos técnicos brasileiros em relação aos estrangeiros. Técnicos, ex-técnicos, jogadores e ex-jogadores do futebol jogado por aqui, num deletério corporativismo, têm distribuído farpas, alegando que o brasileiro tem a mania de valorizar o que vem de fora em detrimento do que há aqui, numa referência indireta aos elogios que têm sido feitos para Jorge Jesus.

De fato, isso é da natureza de parte dos brasileiros, que preferem deglutir qualquer gororoba que venha de fora em vez de dar valor às coisas boas que temos. Todavia, no caso específico do futebol, no todo, não temos bons técnicos. No geral, os que temos servem para o futebolzinho praticado aqui; não sobrevivem a vinte minutos nas grandes competições, não sobrevivem a dois jogos contra um técnico estrangeiro (refiro-me, neste último caso, ao Grêmio de há pouco, que enfrentou o Flamengo, com seu técnico português).

Não é preciso entender de futebol para se constatar que o Grêmio foi esmagado no jogo de hoje no Maracanã. Jorge Jesus, ainda que sem querer, esfregou na cara do ludopédio brasileiro o quanto somos incompetentes para produzir um futebol respeitável e profissional. O jeitinho, a falta de profissionalismo e a cabotinice foram pisoteados na partida que terminou há pouco.

Suspeito de que o River Plate será o campeão da Libertadores; à parte isso, Jorge Jesus é a prova de que cartolas e técnicos brasileiros estão aquém do futebol mundial. Mesmo sem ganhar a Libertadores, Jorge Jesus é a grande lição que o futebol brasileiro seguirá não aprendendo. O Grêmio foi pequeno, foi a cara do futebol aqui jogado. A instituição Grêmio é imensa; o atual técnico deles sentiu na pele que pueris jogos de palavras, vaidade e presunção não ganham partidas.

Tivesse o futebol brasileiro alguma humildade, estivessem os que gerem esse esporte a fim de aprenderem algo, isso já teria sido feito depois do 7 a 1 lá no Mineirão, na Copa de 2014; a goleada não serviu para nada, pois o futebol daqui continuou sofrível. Hoje, tivemos mais uma lição de que chega o dia em que amadorismo e arrogância são moídos. O futebol daqui seguirá iludido e dizendo para si mesmo que é bom, enquanto leva goleadas, sejam elas dadas por técnicos estrangeiros, sejam dadas por jogadores do exterior. 

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Como eu escrevo

José Nunes faz doutorado em direito pela UnB. Paralelamente, ele tem um projeto intitulado Como Eu Escrevo, em que algumas perguntas são enviadas para escritores e pesquisadores. Fui um dos entrevistados no projeto. Caso alguém se interesse em conferir, é só clicar aqui

sábado, 7 de setembro de 2019

Os indecentes

O Crivella quis proibir veiculação de HQ contendo beijo gay. A história, publicada em 2010, foi escrita por Allan Heinberg e desenhada por Jim Cheung. A atitude do prefeito é anacrônica e ditatorial: os exemplares disponíveis na Bienal estavam lacrados. Não bastasse, acabou se tornando um garoto-propaganda involuntário para o trabalho, que passou a ser muito procurado (esgotou-se no evento) e divulgado. O @felipeneto vai distribuir dez mil livros com temática LGBT no evento, numa bela resposta à atitude tacanha do Crivella.

Há quem alegue ser indecência ou ser ataque contra a família quando há a expressão de comportamentos homossexuais. Curiosamente, esse pessoal não enxerga problemas quando de fato há. Para eles, um beijo gay é indecência, mas aplaudir quem defende ditador pedófilo, aplaudir quem defende tortura ou aplaudir quem nega o conhecimento científico não é indecência.

Os que se declaram plenos de espírito cívico deveriam se lembrar da Constituição: “É livre a manifestação do pensamento”. Ou ainda: “É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”. (Por falar em atividade científica, há quem aplauda governo que veta pesquisa contra câncer ou que nega dados quanto a queimadas.) 

sábado, 31 de agosto de 2019

Tia Olinda

Esta é minha tia Olinda; ela é irmã de meu pai (ele morreu há vinte anos). Olinda tem oitenta, é viúva há sessenta. Se não me engano, um trem de ferro passou por cima do ex-marido dela numa visita que ele fez a um parente em Barbacena. Viúva aos vinte anos, Olinda nunca se casou novamente. Ela e o ex-marido tiveram três filhos.

Há um tempão era ideia minha fotografar a tia Olinda, que é uma senhora simples e que mora no mesmo lugar, uma casa também simples, desde que tenho memória. Durante a sessão de fotos, ela disse que a casa estava desarrumada, mas comentei com ela que minha intenção era buscar certa espontaneidade não só no lugar, mas também em minha tia.

Para isso, nada de poses mirabolantes; ademais, não faria sentido pedir isso a uma senhora. Procurei apenas pedir a ela que se virasse e que ora encarasse a lente, ora não a encarasse. O ensaio foi breve e frutífero. A tia Olinda não ficou sem jeito diante da lente, para a qual ofereceu expressão e olhar fortes.

Enquanto eu tirava as fotos, ela ficou rememorando as histórias da família, em especial, as ligadas a mim e a meus irmãos. Num certo momento, disse-me que quando eu era pequeno, eu dizia que queria ser escritor quando eu crescesse. Eu jamais me lembraria disso. 

A rigor, mesmo depois de a tia Olinda ter mencionado a pequena história, não consigo me lembrar de alguma vez ter dito que eu queria ser escritor. Mesmo assim, fiquei contente em saber que na infância eu expressava esse desejo, que, afinal, concretizou-se. 

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Os insistentes

Não sabemos rastrear o fio da memória. Do “nada”, uma lembrança vem à tona. Hoje, eu me lembrei da Amway. Fiquei o dia todo com a lembrança na cabeça. Depois do trabalho, fiz breve pesquisa, na intenção de saber se a empresa ainda existe. Não entendi muito bem o que era (nem entendi há pouco, conferindo a página deles) a Amway quando algumas pessoas me procuraram para que eu me tornasse, se bem me lembro, consumidor e vendedor do empreendimento. Conferindo a versão brasileira do sítio deles, leio o trecho: “Somos a maior empresa de vendas diretas do mundo”. Há ainda: “Bônus de Ativação, Bônus de Performance, Bônus de Liderança, Bônus por Novas Qualificações”.

Não sei se a companhia mantém hoje o “modus operandi” da época em que alguns vendedores deles me procuraram. Ainda no sítio, há a informação de que estão no Brasil há vinte e sete anos, ou seja, desde 1992. A memória que tenho nunca foi prodigiosa quanto a datas, mas enquanto fiquei matutando sobre a Amway, tive a sensação de que os representantes dela haviam me procurado antes desse ano.

Não faço a menor ideia de como me acharam, não me lembro de nenhum dos que vinham aqui em casa. Nada de nomes, nada dos rostos deles; quase tudo sumiu. O que ficou: chegavam de carro e estavam sempre com roupas impecáveis. Pena que roupas não impedem chatice. Eram uns caras muito aporreantes. Fosse hoje, suponho que eu teria sido menos sutil; fosse hoje, eu teria achado um modo de pedir a eles que não mais me procurassem. Na época, não agi assim. Sou de 1970; isso quer dizer que eu tinha vinte e um ou vinte e dois anos quando esse pessoal chegava por aqui. A velhice não é pretexto para que se perca a polidez, mas tira o drama que há quando temos de pedir a alguém que não mais nos procure. Na época, não tive o expediente de deixar claro para eles que eu não estava nada interessado no que eles estavam me propondo.

Difícil imaginar uma pessoa menos apta para vender do que eu. Por falha minha, não sabiam disso; repetiam e repetiam, num proselitismo monótono, que eu deveria ser parte da Amway. Na época, não estando eu enganado, era mais ou menos assim: se eu topasse o negócio, eu teria de ser cliente da Amway, comprando uns produtos deles (não sei se são os mesmos tipos de produtos anunciados no sítio deles conforme o que conferi há pouco) e, ao mesmo tempo, não estando eu incorreto, tendo de oferecer a possíveis compradores esses mesmos produtos. Pode não haver exatidão nessa logística apontada por mim; mesmo assim, estou certo: eu teria de lidar com vendas.

A falta de talento para vender não impede a desconfiança quando dinheiro fácil é anunciado. O pessoal que vinha aqui em casa me enchia de fartas promessas de ganhos financeiros, o que, segundo eles, permitiria que eu realizasse meus sonhos, fossem eles quais fossem. Do pouco que ficou na memória daquelas visitas inconvenientes, há uma frase, dita por um dos caras que estavam aqui: “Meu sonho é enviar meus filhos pra estudar na Europa”.

Não sei se o sonho dele se concretizou. Que tenha se concretizado. A impressão que eu tinha na época é a de que o pessoal que vinha aqui estava iludido quanto à possibilidade de ficar rico em pouco tempo. Pode ser que tenham mesmo ficado ricos em pouco tempo, pode ser que sejam ricos hoje (torço mesmo para que sim); do que sei, é que minha inépcia para vender não me deixaria milionário, fosse eu seguir a proposta deles, nem daqui a um milhão, quinhentos mil e duzentos e treze anos. Além do mais, não tenho talento para ganhar dinheiro.

Eu me lembro vagamente de que havia uma espécie de hierarquia, uma classificação para os vendedores. Pedras preciosas é que nomeavam essas classificações. Nada entendo de gemas, mas digamos que o diamante fosse o topo no sistema criado pela Amway naquele tempo; o auge, pois, seria tornar-se um vendedor-diamante. Sei que eu não sairia da base da pirâmide.

Em retrospecto, percebo que errei ao não ter deixado claro para eles que eu estava achando tudo aquilo muito cansativo. Fui convidado a participar de pelo menos uma reunião. Claro que não fui. Isso, penso, deveria ter sido motivo para que eles não me procurassem mais. Eu não ter ido à tal reunião parece ter atiçado ainda mais o desejo deles em me tornar um dos integrantes da rede. Sim, eram um porre, mas isso não implica dizer que fossem maus indivíduos. Não lembro se eram de Patos de Minas. Na época, eu pensava neles como pessoas maçantes querendo dinheiro de um modo que não se ajusta ao que sou. 

Se alguém que trabalha na Amway (ou para a Amway) ler este texto, entenda que ele não é um ataque contra ela nem contra quem presta algum serviço para ela nem contra quem recebe salário da empresa nem contra quem tenha se tornado um vendedor rico, mas apenas o registro de lembrança que me chegou hoje, lembrança de uns caras insistentes e bem vestidos. Se você que me lê agora é um dos que vinham aqui, que você e seus companheiros de venda tenham ficado ricos. Tendo ficado ou não tendo ficado, sintam-se convidados para um café, desde que não insistam em me oferecer algo para eu vender.

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Cinzas

Podem queimar o país.
Os bichos morrerão,
vão compor as
cinzas do amanhã.
Podem queimar o país.
O fogo infernal é aqui,
liberado numa assinatura,
festejado por demônios
em gabinetes,
em ricos infernos
e em pobres mentalidades.
Os homens morrerão.
Vão compor as cinzas
do depois de amanhã. 

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Bolsonaro e Johnny Bravo

Bolsonaro se comparou com Johnny Bravo. Concordo. A similaridade é exata tendo o presidente se dado conta do sarcasmo do desenho animado ou tendo o presidente não se dado conta do sarcasmo do desenho animado. Se Bolsonaro se deu conta, ele se assume tão ridículo quanto Johnny Bravo, que não é quixotesco, mas, sim, ridículo (Quixote tem bom coração, o que, claro, não é ridículo). Se Bolsonaro não se deu conta da paródia ou da sátira que é o desenho animado, ele estaria (o que não surpreende) reagindo como alguns leitores que, numa passagem do Viagens de Gulliver, supõem que o que está sendo debatido de fato é se o ovo deve ser quebrado pela ponta mais fina ou pela ponta mais grossa. Johnny Bravo é uma espécie de Bolsonaro “avant la lettre”; Bolsonaro é uma espécie de Johnny Bravo que se tornou presidente. 

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Nove quilos de filé mignon

O presidente Jair Bolsonaro voltou a defender ontem a indicação de Eduardo Bolsonaro para a embaixada do Brasil nos Estados Unidos. Disse Bolsonaro, o pai: “Se puder dar um filé mignon para o meu filho, dou” (nesse caso, o filho não estaria mais envolvido com hambúrgueres, como ele, filho, disse que esteve, mas com filé mignon). Disse ainda o pai que pretende “beneficiar o filho, sim”. Depois, voltou ao filé mignon: “Mas não tem nada a ver com filé mignon essa história aí”, para então afirmar, com tautologia, que a intenção é aprofundar relações com os Estados Unidos.

Bolsonaro, o pai, disse que “não é nepotismo” indicar o filho para o cargo na embaixada. Uma das definições de “nepotismo”, segundo o Houaiss, é esta: “Favoritismo para com parentes, especialmente pelo poder público”. O presidente agora não admite dar o nome certo ao ato de indicar o filho dele para a embaixada. Para os eleitores de Bolsonaro, o pai, que não gostaram da indicação de Bolsonaro, o filho, para o cargo diplomático, a justificativa de Bolsonaro, o pai, foi esta: “Quem diz que não vai mais votar em mim, paciência”.

Esse mesmo presidente nepotista é o campeão do fisiologismo (a “nova” política) quanto à relação com deputados para a aprovação da reforma da previdência. O mesmo presidente que se vale de filé mignon como metáfora para justificar o nepotismo para com o filho dele é o presidente que apoiou uma previdência que, dentre outros descalabros, propunha que um cidadão recebesse quatrocentos reais por mês. Liguei para um açougue e perguntei o valor do quilo de filé mignon. “Quarenta e quatro reais”, informou-me a funcionária. Com os quatrocentos reais da aposentadoria que foi apoiada por Bolsonaro, daria para ele comprar nove quilos de filé mignon para o filho indicado à embaixada. 

Vozes e línguas

O Caetano quer sentir a língua dele roçar a de Camões. A voz do Morten Harket, aqui e ali, roça a do Marian Gold. Duvidas? Então escuta. 

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Em breve, novo livro


Meu novo livro, de ficção, já está sendo diagramado pela editora. Esta é a capa. 

domingo, 30 de junho de 2019

Como não interpretar um texto

Um internauta, a quem vou atribuir o nome de “X”, comentou recentemente, no Facebook, um texto que escrevi. (Vou chamar o internauta de “X” porque, para esta postagem, o que importa não é o nome que uma pessoa tem, mas o que se deu a partir do que escrevi.)

“X” afirmou que um texto escrito por mim estabelecia o que ele, “X”, chamou de paralelo entre um fato e o presidente da república ou um paralelo entre o fato e a suposta responsabilidade do presidente da república. Tenho as capturas de tela dos comentários do internauta e das minhas respostas a eles.

Não entendi bem o uso da palavra “paralelo”, por entender que um paralelo é feito entre uma coisa e outra(s). Mas o que importa é que “X” escreveu que, ainda que não tenha sido minha pretensão (“pretensão” foi o termo usado pelo internauta), eu teria afirmado em meu texto ou teria dado a entender em meu texto que há alguma ligação entre os 39 quilos de cocaína que estavam no avião da FAB e o presidente da república.

Antes de eu voltar à questão linguística: eu teria de ser muito burro ou muito irresponsável ou muito inconsequente se eu afirmasse haver alguma ligação entre a cocaína e o presidente. Que prova(s) tenho eu disso? Nenhuma. Em meu texto, que logo, logo será transcrito, afirmo que havia num avião da FAB 39 quilos de cocaína. Isso é fato. Em nenhuma parte de meu texto menciono seja o nome do presidente seja alguma expressão seja alguma palavra que a ele possa se referir.

Todavia, até agora, tenho somente afirmado que não escrevi o que “X” disse que escrevi. Para ser didático e para ser mais claro, transcrevo, a seguir, o que publiquei. Minha postagem, cujo título é “De grão em grão”, foi esta:

Trinta e nove quilos.
De cocaína.
Transportada por militar.
Em avião da FAB.

A poeira vai baixar.
O pó vai percorrer outros ares.
A única certeza:
“Ao pó tornarás”.

Ainda que o presidente estivesse a bordo do avião em que estava a cocaína e ainda que eu tivesse escrito, nessa hipótese, que o presidente estava a bordo, eu não estaria ligando o mandatário à droga, eu não estaria fazendo associação entre a droga e o político ou afirmando ser a droga do político. “X” afirma ter dado uma opinião sobre meu texto. Não, ele não deu opinião: ele distorceu minhas palavras.

Ele teria dado uma opinião se ele tivesse escrito algo do tipo “seu texto é ruim”, “seu texto é chato”. Coisas desse teor seriam opiniões, e mesmo opiniões sobre um texto deveriam ser embasadas nele. “X” não deu uma opinião, não adjetivou. A partir do momento em que ele afirma que fiz associação entre o presidente da república e a droga, ou “X” está sendo injusto ou está sendo mau leitor. O que ele fez não foi dar uma opinião, mas afirmar que escrevi o que não escrevi.

É nítido que tive a intenção de soar literário na postagem. Claro que pode-se ter a opinião de que a peça, feita para ser literária, é ruim. Contudo, embora o texto literário seja aberto a diversas interpretações, essas interpretações têm de partir é do texto. Se assim não for, o que há não é interpretação, mas palpite, opinião, afirmações sem fundamento, sem base, sem critério — a não ser os critérios subjetivos ou vagos que alguém possa ter. Vagueza e subjetividade não dão a ninguém o direito de afirmar que alguém escreveu algo sem que se prove, a partir do texto, que esse alguém escreveu esse algo; vagueza e subjetividade não são interpretação.

“X”, ao afirmar que é opinião dele haver em meu texto implicações entre a droga e o presidente, teria de mostrar, a partir de trechos do que escrevi, em que pontos estariam essas implicações. Ora, é muito fácil ler algo e simplesmente declarar seja o que for, sem apontar sequer uma palavra que justifique o argumento. Se assim for, posso ler qualquer coisa e afirmar que o autor disse qualquer coisa. É pouco inteligente e muito fácil afirmar que alguém escreveu algo sem que se demonstre, a partir do texto, essa afirmação.

Todo leitor leva para o texto do outro os vieses, as opiniões, as idiossincrasias, as vivências e, dependendo de quem seja a pessoa, os preconceitos desse leitor (não estou sugerindo que “X” seja preconceituoso). Isso é inevitável. Mas não se pode esquecer: o texto é do outro. Do ou-tro. Antes de se afirmar o que o outro declarou, é preciso o básico: o que o outro de fato declarou? Pode haver subentendidos no que o outro escreveu, pode haver ironias, pode haver sugestões? Claro que sim. Mas não há em meu texto a menor sugestão de que associei o presidente da república aos 39 quilos de cocaína que estavam no avião da FAB.

Todo leitor chega ao texto do outro com tudo o que ele, leitor, é. Todavia, isso não exime esse leitor da responsabilidade que ele deve ter ao atribuir ao outro palavras, ideias ou sugestões que podem não estar no texto do outro. Se isso for feito por se ignorar preceitos básicos de interpretação, há esperança, pois isso é o tipo da coisa que se resolve com um pouco de leitura e de senso, e aquela pode ajudar muito neste. Se isso for feito devido à má-fé, e acredito que não tenha sido esse o caso de “X”, então não tenho sugestões para que a falha seja superada. O que está em questão no comentário de “X” não é algo relativo a divergência política. Fosse isso, não haveria o que eu dizer, pois do mesmo modo que “X” tem o ponto de vista dele, tenho o meu. O que está em questão diz respeito ao modo e ao ato de ler.

Nunca comentei uma postagem de “X”. Elas não aparecem em minha linha do tempo. Numa única vez, visitei o perfil de “X”, que havia comentado numa postagem minha duvidar de pesquisas, sendo que bastaram alguns segundos dessa minha única visita ao perfil dele para me deparar com duas... pesquisas (tenho as capturas de tela).

Mesmo eu não sabendo o que “X” posta, se algum dia eu me decidir por comentar alguma coisa que ele escreveu ou que compartilhou (não sei se ele escreve textos próprios ou se somente compartilha conteúdos alheios), tomarei muito cuidado para não atribuir à postagem ou ao texto dele algo que nela ou nele não está. É o mínimo que devo fazer ao comentar o compartilhamento de alguém ou o trabalho de alguém.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Rihanna de Azevedo

“É ela! É ela! — murmurei tremendo”.
“You can stand under my umbrella, ella, ella”…
“E o eco ao longe suspirou — é ela!”... “Ella, ella”... 

Duo

quarta-feira, 26 de junho de 2019

De grão em grão

Trinta e nove quilos.
De cocaína.
Transportada por militar.
Em avião da FAB.

A poeira vai baixar.
O pó vai percorrer outros ares.
A única certeza:
“Ao pó tornarás”. 

domingo, 23 de junho de 2019

Fotopoema

Revistas

A IstoÉ já foi um saboroso contraponto à Veja. Hoje, aquela é uma embaraçosa e ruborizadora versão desta. 

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Até quinta

Qualquer um que tenha tido interesse em ler o que o Jessé Souza tem publicado, falado e divulgado já sabia quem são Moro e similares. Todavia, mesmo quem nunca tinha lido nem escutado Jessé Souza já podia deduzir, pelos fatos em si, que Moro e os satélites dele não são exemplos de ética no trabalho. Só os ingênuos acreditavam nisso; os mal-intencionados, por conveniência, fingiam acreditar, concentrados muito mais em interesses próprios do que em algo parecido com bem-estar coletivo.

Bastaria prestar atenção nos excessos e descaminhos da Lava-Jato para se saber que a operação estava sendo conduzida não em concordância com a (bela) teoria do direito, mas em sintonia com desejos de um grupo de pessoas, que tiveram no jornalismo brasileiro a interpolação dos descalabros da operação. Um jornalismo canalha, que sempre tratou Moro como herói. Houve quem ingenuamente tenha acredito nisso, apesar das evidências que sempre houve de que ele não é confiável. Não foram somente livros que divulgaram isso; a imprensa independente e até alguns jornalistas de maior alcance já escancaravam quem era Moro e o que é a Lava-Jato nos moldes como ela vinha sendo conduzida.

A leitura de livros nem seria necessária para se chegar a conclusões assim. Agora, o pouco ou o não destaque que a chamada grande imprensa ou o chamado grande jornalismo não dão ao que foi divulgado ontem pelo Intercept é só mais um sintoma de que não temos, nos grandes meios de comunicação do país, empresários comprometidos com o bem público. Nesse escaldado indigesto e fétido, Bolsonaro não tem colhões para demitir Morno nem este tem a hombridade de abrir mão do cargo; tanto este quanto aquele são vaidosos e arrogantes demais. A grande imprensa seguirá atendendo aos interesses dos barões que a detém e o judiciário seguirá piando fino e fazendo de conta que não houve nada demais. Amanhã é terça-feira; depois, quarta. Na quinta, Moro já estará incólume (a bem da verdade, está e sempre esteve). Os fãs já estão loucos para vestirem a camisa da CBF. 

Terêncio e o juiz

Não raro, eu me esqueço das coisas que escrevi. O assunto de que vou tratar neste texto, suspeito, já foi abordado por mim. O problema da repetição não me incomoda, mas sei que pode incomodar um leitor ou outro. Releve, pois, a repetição, você que com ela se incomodar.

Eu tinha uns sete ou oito anos. Estava aqui em casa um cantor ensaiando algumas canções com meu pai, que tocava violão; não me lembro do nome dele (o do meu pai, eu me lembro). Esse cantor se dizia muito religioso. O papa da época era o João Paulo II. Num momento em que não estava havendo ensaio, o interlocutor de meu pai disse que o papa era “um homem santo”.

Meu pai começou então um longo discurso contra essa ideia, alegando que, antes de ser papa, Wojtyła era homem, e, como tal, estava sujeito às intempéries, fraquezas e nobrezas que podem ocorrer com qualquer um. O cantor não concordou; voltaram, ele e meu pai, ao ensaio, este ficando com o elemento humano do papa; aquele, com o suposto caráter divino do representante católico.

Não raro, meu pai tecia duros comentários contra padres, categoria que para ele era desprezível. Sempre que ele ficava sabendo de alguma ação danosa realizada por alguém da igreja católica, ele vinha sempre com o discurso de que “a pior classe de gente que existe são os padres”. Nunca entendi essa aversão dele contra religiosos católicos. Eu deveria ter conversado com meu pai sobre essa questão; como isso nunca ocorreu, fiquei sem saber por que os delitos de outros profissionais eram mais tolerados do que os delitos do clero. Claro que se espera que um padre, em teoria, seja virtuoso, mas, como meu pai sempre dizia, antes de alguém ser padre, esse alguém é um homem, e meu pai era capaz de nomear a hipocrisia quando diante dela. Ele morreu; fiquei sem saber a razão de tanta ojeriza dele contra padres. Há canalhas em qualquer profissão.

O que restou disso em mim foram a resignação e a ciência de que o ser humano é capaz dos atos mais vis, não importa quem ele seja. Felizmente, não ficou em mim apenas o ranço contra a espécie. Meu pai tinha bem desenvolvido e definido o senso de que podemos ser imprestáveis; todavia, ele não conseguiu desenvolver com a mesma acuidade o senso de que podemos valer alguma coisa. O resultado em mim de ter convivido com uma pessoa como meu pai foi que logo, logo eu já sabia que não valemos grande coisa. Disso, graças ao modo como meu pai encarava a vida, eu soube desde cedo; em contrapartida, ainda bem jovem aprendi que pode haver beleza em nós.

A convivência com a literatura solidificou o pensamento de que podemos ser uns trastes, bem como intensificou a ideia de que temos capacidade de nobreza, o que a vida acabaria me mostrando e ainda me mostra. Uma das consequências naturais da criação que recebi por intermédio de meu pai e das leituras que fui realizando foi a de não edificar ídolos, pois já estava arraigada em mim a constatação de nossos humanos limites; outra consequência foi não ter me tornado um ingênuo. Dos seres humanos, espero o pior, ciente de que somos capazes do melhor.

Na juventude, eu ainda não conhecia a máxima do Terêncio: “Sou humano; nada do que é humano me é estranho”. Mesmo sem conhecer a sentença, já corria em mim o remédio que me fazia entender que marmanjos que estupram uma garotinha ou filha que mata a mãe se valendo de um machado são expressões de capacidades humanas. Isso não significa ser inabalável, isso não significa que crimes não merecem punição; significa tão somente não encarar o pior de nós como se não fôssemos capazes de atrocidades.

Obviamente, esse pensamento é estendido às esferas da vida como um todo. Não importa se o delito venha de um pedreiro, de um médico ou de um professor, há em mim a resignação ou a compreensão de que estamos sendo nada mais do que humanos quando incorremos em erros, sejam eles pequenos, sejam grandes. Convivo com o outro na profunda certeza de que ele tem o pior e o melhor da espécie, na certeza de que tenho o pior e o melhor da espécie.

Mesmo assim, por muito tempo, tive dificuldade em entender a credulidade que é sintoma de tola ou de perigosa ingenuidade. O que leva alguém a acreditar, por exemplo, num pastor que alega fazer milagres ou num juiz politiqueiro que se arvora como representante da justiça? Todavia, quando eu me fazia esse tipo de pergunta, eu não estava me dando conta do óbvio: a credulidade ingênua ou a ingenuidade crédula são também expressões do que significa ser gente. “Nada do que é humano me é estranho”.