Abaixo, transmissão ao vivo que fiz pelo Youtube. No vídeo, comento sobre meus livros e sobre algumas fotos que tirei recentemente.
sexta-feira, 24 de maio de 2019
Comentário sobre meus livros e sobre fotos recentes de minha autoria
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domingo, 19 de maio de 2019
A renovação não virá
O Atlético Mineiro fez um péssimo negócio quando demitiu Thiago Larghi e contratou Levir Culpi. Não tendo ele feito trabalho bom na recente passagem pelo clube, foi demitido; no lugar dele, a equipe contratou Rodrigo Santana, enquanto o time partia em busca de novo técnico; flertou-se com Rogério Ceni; as negociações não foram para frente.
O técnico Jorge Jesus assistiu no estádio Independência ao jogo entre Atlético e Flamengo, ontem, o que foi o bastante para que se cogitasse que o português possa ser contratado pelo time de BH. Todavia, Rodrigo Santana (que já treinou a URT) tem feito um belo trabalho no Atlético, que está, com doze pontos, a apenas um do líder Palmeiras. Impossível prever, mas pode ser que em vez de efetivar um técnico que tem feito um belo trabalho, o Atlético se dê mal, investindo num técnico conhecido mas que pode não dar certo no clube, o que seria, em poucos meses, uma reedição do que ocorreu quando Larghi foi demitido e Culpi foi contratado.
Os chamados técnicos de grife, também conhecidos como medalhões, não têm mostrado desempenho à altura do nome ou da fama que têm. Mesmo Felipão, cuja equipe lidera o campeonato brasileiro, é criticado por não propor nada novo, por insistir num esquema de jogo anacrônico, mesmo a equipe sendo a líder do torneio.
Mano Menezes, outro dos técnicos graúdos, é questionado, estando no Cruzeiro há tempos e mesmo tendo conquistado títulos na equipe. Os que cobram mais de Mano alegam que, com o elenco que ele tem em mãos, era para o Cruzeiro estar jogando um futebol bem melhor do que o praticado atualmente. O campeonato brasileiro está no começo, de modo que não é hora ainda de ligar o sinal de alerta quanto à performance da equipe no que diz respeito a rebaixamento. Todavia, caso o time não avance na Libertadores, em que terá parada duríssima, contra o River Plate, e caso empenho e desempenho no campeonato brasileiro continuem ruins como estão, o trabalho de Mano talvez passe a ser questionado até por aqueles que ainda concordam com o que ele tem feito.
Vanderlei Luxemburgo, após hiato longe do futebol como técnico, estreou hoje no Vasco, que, em São Januário, empatou com o Avaí — 1 a 1. Luxemburgo é outro medalhão que há tempos, não só pelo tempo que ficou longe dos campos, não propõe nada novo. Tem a chance agora, no comando do Vasco. Será mais do mesmo ou vai apresentar alguma ousadia? Lembremos que o elenco do Vasco está longe de elencos poderosos, como os do Flamengo, do Grêmio ou do Cruzeiro.
Poder-se-ia argumentar que por isso mesmo seria difícil para Luxemburgo ousar, pois o elenco não daria ao técnico possibilidade de inovações. Todavia, a nova geração de técnicos tem o nome de Fernando Diniz, que está no Fluminense; mesmo tendo Ganso no elenco, o time não é estrelado como o de outras equipes brasileiras. Diniz não pode ser acusado de não buscar novos caminhos para o futebol praticado no Brasil. Sem elenco badalado, tem mostrado ímpeto e exibido um jeito de jogar que pode não agradar aos defensores do futebol proposto pelos medalhões, mas que é um alento na pasmaceira do futebol nacional. Não creio que os medalhões vão apresentar algo novo. Restaria torcer para que os dirigentes investissem em novos e ousados fôlegos. Mas duvido de que isso vá ocorrer.
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Fim do namoro?
Esta é a capa da piauí deste mês. Está aqui por duas razões: há dias, eu a postei em rede social, mas não consegui, na ocasião, descobrir de quem era a autoria do desenho; é de Nadia Khuzina. Eu já suspeitava de que fosse dela, por ela já ter feito outras capas para a revista, mas não tinha então a certeza. Crédito dado, pois.
A outra razão pela qual publico a capa do periódico: Olavo de Carvalho anunciou que não mais se meteria no governo, o que foi interpretado como sendo ele mais um apoiador a ter pulado fora. Não sei se Carvalho já mudou de ideia quanto a não se meter no governo e se ele está mesmo pulando fora. Se estiver, o namoro da capa da piauí teria chegado ao fim. De qualquer modo, ainda que Carvalho pule fora do barco, o barco não vai pular fora de Carvalho. A não ser que o barco afunde de vez.
À parte Carvalho, recentemente, o cantor e compositor Lobão anunciou que pulou fora. O MBL também sido crítico contra o governo federal. Para o MBL, Carvalho é influência nefasta, com o que concorda a ala militar do governo. Todavia, o núcleo familiar de Bolsonaro obedece às ordens de Carvalho.
O que é fato: com apenas cinco meses de governo, já se fala em impeachment. Tanto que anteontem (ou, talvez, trasanteontem), no medidor de tendências do Google (Google trends), buscas como “impeachment inabilidade” e “impeachment de Bolsonaro entra no radar” aumentaram (captura de tela na postagem).
Ainda que o governo federal tenha se mostrado inábil para negociar na câmara dos deputados, não conseguindo se articular nem com os aliados, ainda que os setores que apoiaram Bolsonaro não consigam se entender, não vislumbro impeachment, no que posso estar errado. Se o governo cair, terá sido por outro(s) fator(es). Se.
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segunda-feira, 13 de maio de 2019
Pequeno é quem votou; pequena é a Globo
A Globo, ao entregar a Sidão, goleiro do Vasco, o “prêmio” de “melhor” jogador da partida realizada ontem, contra o Santos, tentou fazer novamente o que a emissora insiste em realizar: entretenimento em vez de jornalismo. Só que no caso da entrega do “prêmio”, não houve entretenimento, ainda que ruim, mas sarcasmo, ironia e desrespeito contra um profissional. Se alguém jogar mal, que seja criticado, que seja cobrado, mas partir para uma zombaria impensada e cruel é história bem diferente de exercer uma crítica que pode até ajudar o profissional a melhorar.
O goleiro do Vasco foi submetido a uma humilhação. Segundo o que li, os profissionais da emissora que estavam no estádio trabalhando durante a partida teriam sido contra a entrega do “prêmio”. A ordem para que ele fosse dado a Sidão teria partido de algum diretor de esporte, cujo nome não consegui apurar.
O que não tem sido dito até então é o quanto é preciso criticar o comportamento do torcedor, dos que escolheram Sidão como o “melhor” da partida, levando-se em conta que a votação tenha de fato sido como a Globo anuncia, ou seja, por intermédio de escolha dos internautas. Não se mencionou que as pessoas, não somente no futebol, não têm senso o bastante para separar o que é gracejo ou humor inteligente do que é ofensa e desrespeito contra alguém que estava exercendo sua profissão.
O que os torcedores fizeram é a expressão de uma sociedade que não tem pudor de achincalhar alguém que estava trabalhando. Não satisfeita com o achincalhamento, ficou colada na tela da TV para conferir ao vivo a materialização de uma atitude pequena, atroz, levada a cabo por uma emissora que nunca se preocupou em tratar o futebol com abordagem jornalística, fazendo, em vez disso, um espetáculo acrítico e dedicado a uma turba mais preocupada em ver sangue do que sensatez. A Globo deve ser — e foi — criticada pelo que fez com o Sidão, mas não pode ser acusada de não ser reflexo de parte dos que a assistem. Ela não deveria abonar a burrice e a maldade de parte dos telespectadores; entretanto, a história do canal é a prova de que respeito nunca foi moeda corrente nas ondas globais.
Neste ano, a Globo não transmite na totalidade, via Premiere, nem jogos do Palmeiras nem do Athletico Paranaense no campeonato brasileiro. Isso não quer dizer que o império esteja abalado (além do mais, no ano que vem, a emissora pode recuperar direitos de transmissão dessas duas equipes no torneio), mas que os times percebam que há alternativas fora das galhofas sem graça da Globo. Do que ainda não sabemos, é se as galhofas dos concorrentes serão tão cretinas quanto as da emissora carioca.
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sexta-feira, 10 de maio de 2019
Todos os números do presidente
Havia sido divulgado que o exército dera oitenta tiros e matou Evaldo Rosa dos Santos, no dia sete de abril deste ano, no Rio de Janeiro. Evaldo morreu no mesmo dia; Luciano Macedo morreria onze dias depois, em decorrência dos tiros dados pelo exército. Oitenta e três disparos acertaram o carro em que Evaldo e Luciano estavam.
Todavia, laudo divulgado anteontem revela que houve mais de duzentos disparos contra o carro em que os assassinados estavam. “Mais de duzentos” é um número muito impreciso; o laudo, ou pelo menos o que foi divulgado dele, dirime um pouco dessa imprecisão:
• um tenente disparou 77 vezes (há registros de mais 11 tiros dados pela arma dele no mesmo dia, mas não há confirmação de que teriam sido dados na ação que matou Evaldo Rosa dos Santos e Luciano Macedo);
• outro militar disparou 54 vezes;
• três soldados atiraram 20 vezes cada um;
• outro disparou 14 vezes;
• os demais atiraram de 1 a 9 vezes.
A despeito dos dados acima, a imprecisão permanece no trecho “os demais atiraram de 1 a 9 vezes”. Desconsiderada essa imprecisão, tem-se a seguinte conta:
77 + 54 + 60 + 14 = 205
Sem se levar em conta “os demais”, que atiraram de 1 a 9 vezes, houve 205 disparos. Para efeitos matemáticos e históricos, caso se faça um contingenciamento no número de disparos, tem-se que, por exemplo, 30% de 205 equivalem a 61,5, o que já é um número exorbitante, levando-se em conta que o assunto são disparos contra um carro de civis que estavam indo a uma festa.
Ainda assim, bem sabemos que não haveria problema para o ministro da educação, se fosse o caso, transformar 61,5 em 6,15, valendo-se de barras de chocolate. Também sabemos que, para o presidente, não importa o número de disparos, “o exército não matou ninguém”.
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segunda-feira, 6 de maio de 2019
Vai que...
Há dias, o presidente exibiu cicatriz na barriga causada pela facada e o ministro da educação exibiu cicatriz no ombro causada por acidente. Se a onda pega, que ninguém no governo passe por circuncisão.
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sábado, 4 de maio de 2019
Poema republicano
“O erro da ditadura foi torturar e não matar.
“Eu sou favorável à tortura.
“Eu acho que essa polícia militar do Brasil tinha que matar é mais.
“Policial que não mata não é policial”.
“O exército não matou ninguém”.
“Ustra é um herói.
“Eu sonego tudo o que for possível.
“Espero que saia; infartada, com câncer, de qualquer jeito.
“Só não te estupro porque você não merece.
“Sou homofóbico, sim, com muito orgulho.
“Prefiro ter um filho viciado do que [sic] um filho homossexual.
“Temos famílias (...): quem quiser vir fazer sexo com mulher, fique à vontade”.
Fim.
“Eu sou favorável à tortura.
“Eu acho que essa polícia militar do Brasil tinha que matar é mais.
“Policial que não mata não é policial”.
“O exército não matou ninguém”.
“Ustra é um herói.
“Eu sonego tudo o que for possível.
“Espero que saia; infartada, com câncer, de qualquer jeito.
“Só não te estupro porque você não merece.
“Sou homofóbico, sim, com muito orgulho.
“Prefiro ter um filho viciado do que [sic] um filho homossexual.
“Temos famílias (...): quem quiser vir fazer sexo com mulher, fique à vontade”.
Fim.
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quinta-feira, 2 de maio de 2019
Classe
Não é só parcela da classe média que gostaria de ser rica. Há parcela de pobres que também gostaria. A diferença é que os pobres não pensam que são.
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Dísticos familiares
“Temos famílias”:
se o exército der oitenta tiros, não terá matado ninguém.
“Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade”:
“Temos famílias”.
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quarta-feira, 1 de maio de 2019
Por si
Não temo a escuridão.
Temo as criaturas que nela pode haver.
Não criaturas sobrenaturais —
nelas, não creio.
Eu temeria a escuridão
a depender das criaturas naturais
que nela estivessem comigo.
São elas o que eu temeria
no escuro ou no claro.
Sozinho, eu vagaria sem medo
pelas trevas ou pelas luzes.
Mas há seres à espreita
quando falta claridade
ou quando falta escuridão.
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terça-feira, 30 de abril de 2019
Os que não suportam a arte
Há quem não suporte a arte. Esse alguém pode ser um intelectual, um presidente, um professor, um gari. Há quem não suporte a arte por ter medo dela. Ou por ter inveja dela. Ou porque é imbecil. A arte incomoda certas pessoas porque elas têm medo de olharem para si no espelho; elas têm medo de olhar para quem se olha no espelho e têm medo de serem olhadas por quem se encara no espelho e as encara.
Há quem tenha medo da arte porque ela inquieta, rebela-se, pergunta, analisa, maravilha-se, denuncia, zomba. Já queimaram livros, já queimaram pessoas, mas a arte, teimosa e bela, aí está, encarando e deixando sem chão criaturas destituídas de senso artístico. Sem saber o que fazer com a arte, essas pessoas ora matam, ora xingam, ora torturam...
Os que não suportam a arte sabem destruir, desfazer, desmanchar, gritar, prender, matar; incapazes de edificar, o verbo, neles, é somente fúria, demolição e ausência de pensamento. Há analfabetos que não suportam a arte; há pessoas cultas que não suportam a arte. Os que se esqueceram de que foram crianças não suportam a arte.
Não suporta a arte quem não entende que somos mais obscuros do que gostaríamos e quem supõe que as questões da vida estão demarcadas rigidamente, como num tabuleiro de damas. Não suporta a arte quem é incapaz de sentir o belo ou quem é incapaz de produzi-lo. Quem não vislumbra no outro homem todos os outros homens não suporta a arte.
Não suporta a arte quem se fecha no próprio corpo, quem não o entende, quem tem medo do próprio corpo, quem demoniza o que ele quer e quem tem medo do corpo do outro, do querer do corpo do outro. Não suporta a arte quem não é capaz do refinamento da inteligência ou da grandeza de ações. Não suporta a arte quem não percebeu que somos, ao mesmo tempo, ricos deuses e pobres diabos.
Os maniqueístas não suportam a arte. Os machões que berram forte a fim de esconder a criançona chorona que há neles não suportam a arte. Não suportam a arte os que não admitem diversidades. Não suporta a arte quem não quer se conhecer e quem não quer conhecer o outro.
Não suporta a arte quem não aguenta três acordes de lucidez. Não suporta a arte quem não sabe o que fazer com uma mulher sedenta ou com uma que procura aconchego. Não suportam a arte os que dependem de um revólver para se sentirem homens. Não suportam a arte os vassalos das fardas, os que cantam com fingida pungência o hino nacional e lesam os cofres públicos.
Não suportam a arte os que erguem muros. Não suportam a arte os que não têm a menor ideia do que sejam sutilezas, do que sejam detalhes, do que sejam pequenas, frequentes e frutíferas transformações. Quem não planta não suporta a arte; não suporta a arte quem destrói a plantação.
Quem só sabe ser barulhento não suporta a arte, bem como quem não sabe se calar. Quem não é capaz de amar não suporta a arte. Os que não gostam de gente não suportam a arte; os destituídos do senso do espanto não a suportam. Os que esquartejam, torturam e assassinam não a suportam. Os que defendem esquartejamentos e torturas não a suportam. Os que defendem ditadores não a suportam. Os ditadores não a suportam. Os que confundem patriotada com patriotismo não suportam a arte. Pode-se esquartejar ou torturar ao som de Mozart. Quem assim age não entendeu a essência da arte, que é comunhão, elevação.
O terreno da arte não são engessadas e superficiais certezas, mas movediças, inspiradoras, iluminadoras e profundas incertezas. A arte requer coragem. Também por isso os covardes não a suportam.
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domingo, 28 de abril de 2019
Velozes e furiosos
A família Bolsonaro tem pelo menos quarenta e quatro multas de trânsito. O presidente, a atual esposa dele e os filhos do militar da reserva foram multados nos últimos cinco anos. As infrações estão registradas no Detran/RJ. As multas da família perfizeram R$ 5.800,00. A maioria delas, vinte e quatro das quarenta e quatro, é por excesso de velocidade.
O presidente anunciou que cancelaria a instalação de oito mil fotossensores nas estradas. Ele também quer revisar contratos já existentes. Além disso, anunciou que é intenção dobrar para 40 pontos o limite de infrações em um ano. Na legislação atual, o limite são 20 pontos.
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A filosofia que cria cordeirinhos para abate
Alegar questões financeiras para não investir em filosofia e em sociologia nas universidades é balela. Em si, os cursos não requerem investimentos pesados, pois não requerem laboratórios nem equipamentos caros, o que é demanda de outros cursos; outro dado que deve ser levado em conta é o de que discentes de filosofia e de sociologia representam 2% dos que estão em cursos superiores em universidades públicas. Fosse mesmo questão econômica, o governo preocupar-se-ia, dente outras coisas, em gastar menos com o cartão corporativo, também mantido pelos contribuintes. Nos dois primeiros meses do atual governo federal, o aumento de gastos com o cartão corporativo foi 16% maior em relação à média dos últimos quatro anos. E olha que esse perdulário governo defendida o fim desse cartão. Não só o manteve como elevou os gastos com ele.
Respeitar o dinheiro do contribuinte é dar a ele oportunidades, não privá-lo delas, não privá-lo do conhecimento, e só uma mente limitada hierarquiza o saber, separando-o em útil e em inútil. Não existe conhecimento inútil. Atribuir níveis de importância aos diversos afluentes do conhecimento é não querer dar a oportunidade ao cidadão de ser uma pessoa mais plena, mais capaz, com maior noção do mundo em que vive, não importa se essa pessoa é um técnico em eletrotécnica ou se é um neurologista. Dominar uma engenharia não significa que alguém não possa conhecer o percurso histórico, sociológico e filosófico por que vem passando a humanidade; isso faz parte da plenitude do que é ser cidadão. A estratégia de excomungar filosofia e sociologia nada tem a ver com questões econômicas, embora seja esse o pretexto.
Para o governo federal, os estudos de humanas não respeitam o dinheiro do contribuinte e não dão retorno imediato. Mentes pequenas não conseguem vislumbrar mais longe do que o dia de amanhã. Há retornos que são imediatos e há retornos que demoram a surgir. Além do mais, o imediatismo não dever ser essência política de um governo. Ao mesmo tempo em que há questões pragmáticas e urgentes, por outro lado, um país precisa de planejamento para o que não é imediato. Qualquer gestor de qualquer área sabe disso. Todavia, é mais fácil apelar para um imediatismo inconsequente do que apresentar um projeto que vislumbre décadas no porvir.
A estratégia de banimento dos estudos de humanidades é simples, mas de eficácia incontestável. Em essência, é uma estratégia que não permite ao ser humano o acesso à palavra. Sem esse acesso, a pessoa vai se tornando algo parecido com um autômato, uma criatura sem capacidade de organizar pensamento e sem capacidade de (se) observar, dois graves entraves para essa própria criatura e para a elevação do pensamento social. Esse cenário é perfeito para engodos políticos. Nesse viés, distopias como “1984”, do George Orwell, e “O planeta dos macacos”, do Pierre Boulle, são contundentes retratos do que pode ocorrer quando o acesso à palavra vai se esvaindo. Mas livros são palavras. Palavras ampliam e refinam o cidadão. Um sujeito com noção histórica, sociológica e filosófica é pedra no sapato e rocha recalcitrante em qualquer projeto que pretenda execrar o pensamento. Para muitos, o negócio é gerar cordeirinhos que se jactam de serem enfileirados para tosa e abate.
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Robusta clausura
Tenho medo do mundo,
do meu país,
da minha cidade.
Tenho medo de ti.
Tenho recebido o mundo
em telas que reluzem
e em páginas que elucidam.
Eu me fechei,
fechei as portas da casa,
acionei todos os cadeados.
Lá fora,
armas calibradas
e encontros desequilibrados,
sem filosofia, sem sociologia,
sem palavras.
Estão ocos e furiosos.
Nem suspeitam de que
não sou o único
que não desistiu.
Nem desconfiam
da existência dos
que acreditam no belo.
Não sabem que são
transitórios como um tiro
e que somos teimosos
como um verso.
do meu país,
da minha cidade.
Tenho medo de ti.
Tenho recebido o mundo
em telas que reluzem
e em páginas que elucidam.
Eu me fechei,
fechei as portas da casa,
acionei todos os cadeados.
Lá fora,
armas calibradas
e encontros desequilibrados,
sem filosofia, sem sociologia,
sem palavras.
Estão ocos e furiosos.
Nem suspeitam de que
não sou o único
que não desistiu.
Nem desconfiam
da existência dos
que acreditam no belo.
Não sabem que são
transitórios como um tiro
e que somos teimosos
como um verso.
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Do alto
Eu estava a uns treze quilômetros de Patos de Minas quando tirei a foto. O drone estava a mais ou menos duzentos metros de altura de onde eu estava.
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quinta-feira, 25 de abril de 2019
Presidente preocupado com higiene peniana
Sumário de hoje das aventuras no planalto central: o presidente do Brasil mandou tirar do ar um comercial do Banco do Brasil. O filme de trinta segundos contém diversidade racial e sexual. O diretor de comunicação e marketing da estatal, Delano Valentim, foi afastado do cargo. O equitativo dignatário manda afastar ou exonerar quem não pensa como ele ou quem, por exemplo, aplica multa nele devido a pesca irregular.
Ainda em questões relativas ao ambiente sexual, hoje pela manhã, em café com jornalistas, o consciencioso comandante disse que “o Brasil não pode ser um país do mundo gay, de turismo gay. Temos famílias”. Mais: o atencioso mandatário disse, ao visitar o MEC, estar preocupado com um dado alarmante: as amputações de pênis no Brasil por falta de higiene. Consciente de seus atributos, o presidente disse que “é preciso buscar uma maneira de sair ajudando as pessoas”. O governante está certo, pois cuidados higiênicos assegurariam um “golden shower” limpinho.
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quarta-feira, 24 de abril de 2019
Ponto de vista
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terça-feira, 23 de abril de 2019
Charge 10
Tenho feito uma série de charges sobre a atual relação Brasil/EUA. Na série, eu me valho de alguns cenários urbanos famosos no Brasil. Não é o caso do cenário local; ainda assim, decidi inseri-lo na série.
segunda-feira, 22 de abril de 2019
Defensores de Olavo de Carvalho x defensores dos militares
Um vídeo em que Olavo de Carvalho critica os militares foi postado no sábado no canal de Jair Bolsonaro no Youtube (a crítica foi retirada do canal posteriormente). Carlos Bolsonaro compartilhou esse mesmo vídeo no Twitter. Carvalho diz: “Qual foi a última contribuição nacional das escolas militares para a alta cultura nacional? As obras do Euclides da Cunha. Depois de então foi só cabelo pintado e voz empostada. Cagada, cagada”.
A troca de farpas entre os integrantes do governo que defendem Carvalho e os integrantes do governo que pertencem ao exército parece que vai continuar, o que é indicativo de que a governança seguirá sem início. Além dessa inócua discussão, há quem prefira debater questões relativas a “golden shower”, há quem demore para se posicionar sobre assassinato — “o exército não matou ninguém” ou há quem tenha se predisposto a esconder estudos que, em tese, justificam a reforma da previdência.
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Charge 9
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Charge 8
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domingo, 21 de abril de 2019
O governo que (se) esconde
O governo federal decretou sigilo sobre os estudos que embasam a reforma da previdência. Isso, na prática, significa que nós, cidadãos, não teremos acesso a dados econômicos e sociais que a sustentam. Vou sempre repetir: essa reforma prevê, dentre outras atrocidades, que uma pessoa venha a receber, entre os sessenta e os setenta anos, quatrocentos reais por mês. Sob ponto de vista estritamente financeiro, descontadas as implicações desumanas da reforma, entendo os empresários a apoiarem, mas quem não é empresário, que pode, aliás, estar nesse grupo que receberá quatrocentos reais por mês durante dez anos, só pode apoiar a reforma da previdência por desinformação ou por estar inserido em grupo que será pouco afetado por ela. Ainda assim, isso seria um total descaso desses grupos quanto à maioria do povo, o que não é surpresa em se tratando de Brasil.
Quanto ao sigilo acerca dos “estudos” que embasam a reforma, ora, o raciocínio chega a ser simplista: se ela fosse boa para o povo, por que esconder dele, povo, os “cálculos” que a sustentam? Por que esconder do povo algo que fosse bom para ele? Se, de fato, ela fosse boa para a população, esses “estudos” tinham de ser, sim, divulgados, espalhados, explicados. Mas não: mais uma vez, o governo opta por atuar na surdina, nas sombras, longe das luzes da humanidade.
É preciso lembrar que não é a primeira vez que o atual governo tenta esconder dos cidadãos informações que são de direito dele, cidadão, conhecer. Já haviam tentado privar a população de dados essenciais, restringindo a lei de acesso à informação; agora, querem esconder do povo os “estudos” em que se baseiam para realizar a reforma da previdência. O que se tem é um governo que nega o óbvio (“o exército não matou ninguém”) e que decidiu esconder do povo dados que terão como consequência um país de velhos miseráveis, desvalidos e sem amparo, precisamente na fase da vida em que mais precisam de apoio. Como a reforma tem incentivo dos grandes empresários, será aprovada, com ou sem divulgação de “estudos” que a sustentam.
Quanto ao sigilo acerca dos “estudos” que embasam a reforma, ora, o raciocínio chega a ser simplista: se ela fosse boa para o povo, por que esconder dele, povo, os “cálculos” que a sustentam? Por que esconder do povo algo que fosse bom para ele? Se, de fato, ela fosse boa para a população, esses “estudos” tinham de ser, sim, divulgados, espalhados, explicados. Mas não: mais uma vez, o governo opta por atuar na surdina, nas sombras, longe das luzes da humanidade.
É preciso lembrar que não é a primeira vez que o atual governo tenta esconder dos cidadãos informações que são de direito dele, cidadão, conhecer. Já haviam tentado privar a população de dados essenciais, restringindo a lei de acesso à informação; agora, querem esconder do povo os “estudos” em que se baseiam para realizar a reforma da previdência. O que se tem é um governo que nega o óbvio (“o exército não matou ninguém”) e que decidiu esconder do povo dados que terão como consequência um país de velhos miseráveis, desvalidos e sem amparo, precisamente na fase da vida em que mais precisam de apoio. Como a reforma tem incentivo dos grandes empresários, será aprovada, com ou sem divulgação de “estudos” que a sustentam.
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sábado, 20 de abril de 2019
Cruzeiro é campeão mineiro
No dia dez de abril, o Atlético/MG, jogando fora de casa pela Libertadores, tomou quatro gols; no mesmo dia, o Cruzeiro, em casa, também jogando pela Libertadores, fez quatro gols. Depois disso, no Atlético, Levir Culpi foi demitido. O próximo compromisso dos times seria a decisão do campeonato mineiro. O momento do Atlético, complicado na Libertadores, deixou otimistas alguns cruzeirenses e deixou apreensivos alguns atleticanos para a decisão do mineiro.
O primeiro jogo da final foi no domingo passado. Embora o Atlético tenha perdido por dois a um lá no Mineirão, o time já não foi a bagunça que vinha sendo com o Levir Culpi. Sob o comando de Rodrigo Santana, técnico que entrou no lugar de Levir, o Atlético já deu mostras, na primeira partida da decisão do campeonato mineiro, de que o time havia, por assim dizer, renovado-se.
Aos cinco minutos da decisão de hoje, Ricardo Oliveira acertou o travessão do Cruzeiro; aos onze, Ígor Rabelo, em lance contra o próprio gol, acertou o travessão do goleiro Vítor. Aos vinte e nove, o Atlético, merecidamente, já que vinha jogando melhor, marcou: após defesa de Fábio em chute de Ricardo Oliveira, Elias, de cabeça, fez o gol.
Após o intervalo, o Atlético continuou jogando melhor. Percebi no Cruzeiro uma certa apatia, como se o time não estivesse com vontade de jogar, como se demonstrasse pouco interesse pela partida. Mesmo assim, aos trinta e quatro, Fred, cobrando pênalti, que foi marcado após análise de vídeo pelo árbitro, marcou. A Raposa segue invicta na temporada.
Fosse eu torcedor do Atlético, estaria otimista quanto ao futuro, a despeito da situação ruim do time na Libertadores. A equipe errou feio ao demitir Thiago Larghi e ao contratar Levir Culpi. Agora, tenta corrigir a lambança, investindo em Rodrigo Santana, que é promissor. Do lado do Cruzeiro, o torcedor, embora campeão hoje, se for sincero, saberá que o time tem de jogar melhor do que o que jogou hoje se quiser ir longe na Libertadores ou se quiser fazer um belo campeonato brasileiro.
quinta-feira, 18 de abril de 2019
quarta-feira, 17 de abril de 2019
O não desejado 2
Depois do não do Museu de História Natural de Nova York (comentei o fato em nota anterior), agora foi a vez de outro prestigioso local na cidade não querer o presidente brasileiro, segundo informou Helena Chagas, do site Os Divergentes. Dessa vez, a negativa foi do restaurante Cipriani. Por enquanto, o evento da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, em meados de maio, continua sem local.
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O terno não faz o político
O governo federal estuda a possibilidade de que servidores no Palácio do Planalto sejam proibidos de usar jeans no trabalho. A normativa pode se estender a visitantes da casa. Enquanto isso, anuncia que o salário mínimo não terá aumento real...
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Onde o país?
O país havia começado
para mais gentes.
Os donos de sempre
não gostaram;
destruíram esse começo.
Hoje, outra vez,
moro num país
que, novamente,
não começou.
Moro num arremedo
de nação que adoece
quem edifica
e enriquece
quem demole.
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terça-feira, 16 de abril de 2019
Resumão
O governo federal propôs que o salário mínimo não tenha aumento real (aumento real é quando o salário sobe além da inflação, o que vinha sendo feito em governos anteriores). Enquanto isso, projeto de lei do governo que se nega a dar aumento real para trabalhadores assalariados cogita perdoar bilhões de endividamentos de ruralistas. O rombo aos cofres públicos seria de R$ 30 bilhões.
Damares, a ministra que viu Jesus na goiabeira, disse que a submissão da mulher no casamento é uma “questão de fé”. Já o Paulo Guedes disse que o presidente não vai mais interferir nos aumentos de preços da Petrobras.
Os caminhoneiros, por sua vez, não descartam nova greve, já que, para eles, o pacote de medidas anunciado pelo governo federal não passa de, segundo eles, “cortina de fumaça” a fim de se evitar que eles, caminhoneiros, entrem em greve.
O país segue risível, estático, perigoso e caótico.
Damares, a ministra que viu Jesus na goiabeira, disse que a submissão da mulher no casamento é uma “questão de fé”. Já o Paulo Guedes disse que o presidente não vai mais interferir nos aumentos de preços da Petrobras.
Os caminhoneiros, por sua vez, não descartam nova greve, já que, para eles, o pacote de medidas anunciado pelo governo federal não passa de, segundo eles, “cortina de fumaça” a fim de se evitar que eles, caminhoneiros, entrem em greve.
O país segue risível, estático, perigoso e caótico.
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segunda-feira, 15 de abril de 2019
O não desejado
As rejeições e as trapalhadas internacionais do governo federal prosseguem. O mandatário do poder executivo já havia causado mal-estar entre políticos do Chile quando por lá esteve, elogiando Pinochet (há ditadores que o presidente do Brasil elogia e há ditadores que ele critica; o critério, suspeito, é o Trump quem define).
Depois, veio o mal-estar com os palestinos, quando o governo federal anunciou a transferência da embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém; ao voltar atrás, ficou mal com Israel; na semana passada, voltou a ficar mal com Israel, após comentar o Holocausto. Voltando atrás, o presidente escreveu carta para autoridades israelenses. Sim, o governante brasileiro se indispôs, em questão de dias, com palestinos e com israelenses.
Também na semana passada, a atualmente ridícula diplomacia brasileira recebeu outro golpe: Bill de Blasio, prefeito de Nova York, fazendo menção ao político brasileiro, disse que este tem “racismo evidente” e mencionou a homofobia do chefe do executivo brasileiro. Afirmou Bill de Blasio: “Esse cara é um ser humano muito perigoso”. De Blasio completou, referindo-se ao Museu de História Natural de Nova York, que abrigaria evento em que o presidente brasileiro estaria presente: “Se você está falando de uma instituição apoiada publicamente e está falando de alguém [o presidente brasileiro] que está fazendo algo tangivelmente destrutivo, fico desconfortável com isso” — declarou De Blasio à rádio WNYC.
As declarações da autoridade americana foram dadas porque estava havendo apelos dele e de outras pessoas para que o presidente brasileiro não recebesse, no Museu de História Natural de Nova York, homenagem em um evento promovido pela Câmara do Comércio Brasil-EUA. De fato, hoje foi publicada uma nota: “Com respeito mútuo pelo trabalho e pelos objetivos da nossa organização individual, decidimos conjuntamente que o Museu não é a locação ideal para o jantar de gala da Câmara de Comércio Brasil-EUA. Esse tradicional evento será direcionado para outra locação na data e horário originais”.
Antes do cancelamento, o próprio Museu já havia declarado: “Estamos profundamente preocupados, e o evento não reflete de forma alguma a posição do museu de que há uma necessidade urgente de conservar a floresta Amazônica, que tem implicações tão profundas para a diversidade biológica, comunidades indígenas, mudanças climáticas e a saúde futura de nosso planeta. Estamos avaliando as nossas opções”. Hoje, de fato, decidiu-se pela não realização do evento no local.
Como esperado, houve quem assumisse as dores do presidente brasileiro. O assessor do presidente para assuntos internacionais, Filipe Martins, disse que o prefeito de Nova York é “uma toupeira”. Eduardo Bolsonaro, um dos filhos do presidente, também se condoeu: “É a prova que ‘o idiota’ não habita somente a América Latina”. Enquanto digito estas palavras, não fiquei sabendo ainda se alguém já comentou a negativa do Museu de História Natural de Nova York ao presidente brasileiro.
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sábado, 13 de abril de 2019
"O exército não matou ninguém"
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sexta-feira, 12 de abril de 2019
"Não matou ninguém"
“O exército não matou ninguém”; alega-se que ele é do povo. Não matou ninguém, mesmo atirando oitenta vezes. Oitenta tiros são um “incidente”. A morte de Evaldo Rosa dos Santos foi um “incidente”. Oitenta balas perfazem um “incidente”.
Segundo o dicionário Houaiss, uma das definições para a palavra “incidente”: “Dificuldade passageira que não modifica o resultado de uma operação, de uma linha de conduta”. A morte de um é tida como “incidente”. Quantas mortes são necessárias para que a morte depois de oitenta tiros deixe de ser considerada “incidente”?
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Do que se recomenda
É mais fácil ser político em meio a um bando de desinteressados. Infeliz daqueles (e, em especial, infeliz dos jovens) que endossam as palavras de um mandatário quando ele diz querer que os jovens não se interessem por política. Para os políticos, o desinteresse do cidadão é ótimo. Todavia, a partir do momento em que o cidadão não se interessa por política, ele nem saberá como cobrar o que é dele por direito, por mais que esbraveje em redes sociais.
Consequências do não interesse por política são visíveis quando a pessoa cobra de um vereador o que é da alçada do presidente, quando cobra do presidente o que é da alçada de um governador, cobra de um governador o que é da alçada de um deputado federal... As redes sociais escancararam outra consequência do desinteresse por política: publicações que se querem politizadas não passam de deselegância, notícia falsa ou destempero.
Num país de despolitizados que acreditam estar fazendo política quando insultam, mentem ou divulgam notícias falsas, querer jovens que não se interessem por política é um desserviço ao país (mais um), ainda mais vindo de alguém que deveria incentivar o conhecimento, em vez de ficar fazendo gesto, enquanto segura uma criança, como se estivesse com uma arma em mãos. Cargos políticos são para serem escrutinados vinte e quatro horas por dia. Um cidadão que não se interesse por política abre mão de seus direitos e é manipulado para que apoie causas que são prejudiciais a si mesmo. O desinteresse por política faz com que o cidadão não exija aquilo que ele merece. Acreditar em mamadeira de piroca e em kit gay é sintoma de desinteresse por política.
Política é possibilidade de transformação; o mesmo com a arte, com a ciência. Além do mais, o jovem não pode se iludir: se é para que ele seja um astronauta, como parece desejar o mandatário, é preciso, antes, predispor-se a estudar com dedicação, por anos, pelo menos, muita matemática, muita astronomia e muita física. Não é fácil ser um astronauta, mas é fácil proferir tolas platitudes.
Querer que um jovem não se interesse por política (ou banir da juventude a possibilidade de ela se interessar por política) é correr o risco de que no futuro o jovem seja um político tão obtuso quanto um político que diz querer uma garotada que não se interesse por política. O conhecimento é fascinante demais, tudo é fascinante e diverso demais; em contraposição, nada mais perigoso e boçal do que alguém que despreza os afluentes do conhecimento. No mais, um imbecil é um imbecil — seja na Terra, seja fora dela.
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Interpretação
Toda noite,
em seu sono inquieto,
a verdade se te revela.
Não sabes interpretá-la.
Todo dia,
em tua vigília desatenta,
a verdade se te revela.
Não sabes interpretá-la.
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quarta-feira, 10 de abril de 2019
A inflação e as mangas
Mais um índice do governo federal neste ano: a inflação do mês de março atingiu a maior taxa desde 2015, segundo o Valor: 0,75%. Todavia, o próprio governo já deu a solução para o problema, pelo menos no que diz respeito à alimentação: se faltar grana para a comida, a ministra da agricultura, pecuária e abastecimento, Tereza Cristina, dá a dica: “Nós não passamos muita fome porque temos mangas nas nossas cidades”.
Não sei como estão os mangueirais no Brasil afora. Nas palavras da ministra, “não passamos muita fome”, o que autoriza a conclusão de que há quem passe alguma fome; e que só não passam mais fome graças às mangas; ou que se o sujeito estiver com fome, é só ele se valer de mangas, já que, de acordo com a ministra, há delas em nossas cidades. De fato: daqui de casa, pude divisar dois pés de manga, um em cada um de quintais nas redondezas.
A fala de Tereza Cristina também autoriza concluir que aquele que por ventura estivesse passando fome poderia ter uma alimentação à base de manga; ou só de manga, já que se o sujeito não tem dinheiro para comprar outros alimentos, restaria a ele a opção de ir ao pé de manga mais próximo e colher uma fruta. Se ela não estiver totalmente madura, esse sujeito pode, talvez, pedir algum sal emprestado, na tentativa de temperar a iguaria.
A ministra não revelou dados sobre se o número de mangueirais atenderia de modo apropriado os que têm fome. Mas caso ela concorde com o pensamento do Paulo Guedes, pode ser que ela esteja levando em conta que, dependendo da situação, quando o sujeito se aposentar, recebendo quatrocentos reais por mês, como a reforma da previdência prevê num dos casos, haverá, quem sabe, dinheiro para comprar... mangas, as quais, além de estarem à disposição, segundo Tereza Cristina, nas cidades, podem ser adquiridas nas casas do ramo.
Trabalhos meus à venda
Fotos de minha autoria estão à venda em bancos de imagens. Podem ser adquiridas por intermédio deles ou diretamente comigo. Concentro-me principalmente sobre a fauna e a flora do cerrado, bioma em que vivo; as fotos podem ser itens de decoração.
Eu me dedico também à literatura, tendo já lançado seis livros (os últimos quatro, pela Chiado, editora portuguesa). Os livros são os seguintes:
• Leve poesia (2000): poemas; temáticas variadas;
• Algo de sempre (2003): poemas; temáticas variadas;
• Dislexias (2016): poemas; cada um deles contém um trocadilho com a língua portuguesa;
• Amor de palavra (2017): poemas; a temática é o amor, numa abordagem mais carnal;
• Anacrônicas (2018): coletânea de crônicas que publiquei na imprensa desde a primeira metade da década de 90;
• O livro de João (2018): livro infantil.
Abaixo, links para aquisição de minhas fotos ou de meus livros.
_____
https://bit.ly/2D7HoZr
https://adobe.ly/2UKOoFA
https://bit.ly/2uYbKcc
https://bit.ly/2UiJlZx
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Entranha
Sou
a mosca na sopa,
a pedra no sapato,
a alface no dente,
a mancha no branco,
a dúvida na fé,
o silêncio no vozerio,
a página que falta,
a sede no deserto,
a unha encravada,
o silêncio que ignora,
a palavra que desconheces,
o sim que almejas,
o não que tens,
o buraco na estrada,
o zíper que emperra,
o ás que não tens,
o bolso furado,
a gravata que aperta,
o dente que dói,
a nota desafinada,
o frio sem blusa,
o calor que sufoca,
o mindinho na quina,
o caminho por engano,
o gás que acaba,
o nó górdio,
o cisco no olho,
a casca no chão,
o sono que não vem,
a coceira nas costas,
o bicho na goiaba,
o dinheiro perdido,
a contraindicação do remédio,
a palavra que não consegues,
o sino sem igreja,
os quilos a mais,
o arroz queimado,
a equação não resolvida,
o salto que quebrou.
Se conseguisses,
ficarias livre de mim.
Estou em ti
no que és.
Sou uma das coisas
que não querias ser.
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Prioridades
Para saber o que é “golden shower”, rapidez. Para se posicionar sobre oitenta tiros dados “por engano”, silêncio (até o momento em que digito estas palavras). Cada um tem suas prioridades.
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Oitenta
Oitenta tiros.
Todos esses disparos
são culpados.
Não serão punidos.
Darão quantos tiros
forem desnecessários.
Só vão sossegar
quando tudo estiver
branquinho, limpinho.
O sangue derramado
não deixará manchas,
os disparos não deixarão rastros.
Tiros não são de festim,
fogos não são de artifício,
balas não são doces.
Os atiradores não pensaram
para atirar.
Não pensaram depois.
Cidadãos de bem consigo,
não esperam respostas porque
não fizeram pergunta.´
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Ah, o ministério da educação...
O novo ministro da educação, Abraham Weintraub, disse em setembro do ano passado que as universidades do nordeste não deveriam ensinar conteúdos como sociologia e filosofia (sic). Vélez já foi um erro infame. Agora, Weintraub. O Reinaldo Azevedo escreveu que com Weintraub na educação, o Planalto “só dobra a dose do remédio errado”.
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Números 2
Há quem prefira culpar a chuva
quando o bueiro entope.
Há quem prefira culpar a chama do fogão
quando o alimento é queimado.
Há quem prefira culpar os números
quando o político vai mal.
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Mulheres e policiais, segundo Damázio
Acabei me esquecendo de comentar: Moro nomeou Wilson Salles
Damázio como conselheiro no ministério da justiça. Damázio considera que
homossexualidade é desvio de conduta e que as mulheres acham “o máximo estar
dando para um policial”. Moro, que já aceitara os pedidos de desculpa de
Lorenzoni, aceitou as de Damázio, que ainda disse: “O policial exerce um
fascínio no dito sexo frágil. Eu não sei por que mulher gosta tanto de farda”.
Ainda de acordo com o pensamento do conselheiro, é no veículo oficial dos
fardados que o furor aumenta: “Dentro da viatura, então, o fetiche vai lá em
cima”.
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Negações
Nega
os números,
as palavras,
a ciência.
Nega
o fato,
o bom senso,
o patente.
Nega
a mim,
a você,
o que somos.
Nega
o outro,
ao outro,
você.
Nega
a lógica,
a história,
a si mesmo.
Nega
o destempero,
o despreparo,
a cegueira.
Afunda
negando
a inteligência.
Leva-nos.
Negando,
morre afogado,
insano,
negando a morte.
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