sexta-feira, 12 de abril de 2019

"Não matou ninguém"

“O exército não matou ninguém”; alega-se que ele é do povo. Não matou ninguém, mesmo atirando oitenta vezes. Oitenta tiros são um “incidente”. A morte de Evaldo Rosa dos Santos foi um “incidente”. Oitenta balas perfazem um “incidente”.

Segundo o dicionário Houaiss, uma das definições para a palavra “incidente”: “Dificuldade passageira que não modifica o resultado de uma operação, de uma linha de conduta”. A morte de um é tida como “incidente”. Quantas mortes são necessárias para que a morte depois de oitenta tiros deixe de ser considerada “incidente”? 

Do que se recomenda

É mais fácil ser político em meio a um bando de desinteressados. Infeliz daqueles (e, em especial, infeliz dos jovens) que endossam as palavras de um mandatário quando ele diz querer que os jovens não se interessem por política. Para os políticos, o desinteresse do cidadão é ótimo. Todavia, a partir do momento em que o cidadão não se interessa por política, ele nem saberá como cobrar o que é dele por direito, por mais que esbraveje em redes sociais.

Consequências do não interesse por política são visíveis quando a pessoa cobra de um vereador o que é da alçada do presidente, quando cobra do presidente o que é da alçada de um governador, cobra de um governador o que é da alçada de um deputado federal... As redes sociais escancararam outra consequência do desinteresse por política: publicações que se querem politizadas não passam de deselegância, notícia falsa ou destempero.

Num país de despolitizados que acreditam estar fazendo política quando insultam, mentem ou divulgam notícias falsas, querer jovens que não se interessem por política é um desserviço ao país (mais um), ainda mais vindo de alguém que deveria incentivar o conhecimento, em vez de ficar fazendo gesto, enquanto segura uma criança, como se estivesse com uma arma em mãos. Cargos políticos são para serem escrutinados vinte e quatro horas por dia. Um cidadão que não se interesse por política abre mão de seus direitos e é manipulado para que apoie causas que são prejudiciais a si mesmo. O desinteresse por política faz com que o cidadão não exija aquilo que ele merece. Acreditar em mamadeira de piroca e em kit gay é sintoma de desinteresse por política.

Política é possibilidade de transformação; o mesmo com a arte, com a ciência. Além do mais, o jovem não pode se iludir: se é para que ele seja um astronauta, como parece desejar o mandatário, é preciso, antes, predispor-se a estudar com dedicação, por anos, pelo menos, muita matemática, muita astronomia e muita física. Não é fácil ser um astronauta, mas é fácil proferir tolas platitudes.

Querer que um jovem não se interesse por política (ou banir da juventude a possibilidade de ela se interessar por política) é correr o risco de que no futuro o jovem seja um político tão obtuso quanto um político que diz querer uma garotada que não se interesse por política. O conhecimento é fascinante demais, tudo é fascinante e diverso demais; em contraposição, nada mais perigoso e boçal do que alguém que despreza os afluentes do conhecimento. No mais, um imbecil é um imbecil — seja na Terra, seja fora dela. 

Interpretação

Toda noite, 
em seu sono inquieto, 
a verdade se te revela.
Não sabes interpretá-la.

Todo dia, 
em tua vigília desatenta, 
a verdade se te revela.
Não sabes interpretá-la. 

quarta-feira, 10 de abril de 2019

A inflação e as mangas

Mais um índice do governo federal neste ano: a inflação do mês de março atingiu a maior taxa desde 2015, segundo o Valor: 0,75%. Todavia, o próprio governo já deu a solução para o problema, pelo menos no que diz respeito à alimentação: se faltar grana para a comida, a ministra da agricultura, pecuária e abastecimento, Tereza Cristina, dá a dica: “Nós não passamos muita fome porque temos mangas nas nossas cidades”.

Não sei como estão os mangueirais no Brasil afora. Nas palavras da ministra, “não passamos muita fome”, o que autoriza a conclusão de que há quem passe alguma fome; e que só não passam mais fome graças às mangas; ou que se o sujeito estiver com fome, é só ele se valer de mangas, já que, de acordo com a ministra, há delas em nossas cidades. De fato: daqui de casa, pude divisar dois pés de manga, um em cada um de quintais nas redondezas.

A fala de Tereza Cristina também autoriza concluir que aquele que por ventura estivesse passando fome poderia ter uma alimentação à base de manga; ou só de manga, já que se o sujeito não tem dinheiro para comprar outros alimentos, restaria a ele a opção de ir ao pé de manga mais próximo e colher uma fruta. Se ela não estiver totalmente madura, esse sujeito pode, talvez, pedir algum sal emprestado, na tentativa de temperar a iguaria.

A ministra não revelou dados sobre se o número de mangueirais atenderia de modo apropriado os que têm fome. Mas caso ela concorde com o pensamento do Paulo Guedes, pode ser que ela esteja levando em conta que, dependendo da situação, quando o sujeito se aposentar, recebendo quatrocentos reais por mês, como a reforma da previdência prevê num dos casos, haverá, quem sabe, dinheiro para comprar... mangas, as quais, além de estarem à disposição, segundo Tereza Cristina, nas cidades, podem ser adquiridas nas casas do ramo. 

Trabalhos meus à venda

Fotos de minha autoria estão à venda em bancos de imagens. Podem ser adquiridas por intermédio deles ou diretamente comigo. Concentro-me principalmente sobre a fauna e a flora do cerrado, bioma em que vivo; as fotos podem ser itens de decoração.

Eu me dedico também à literatura, tendo já lançado seis livros (os últimos quatro, pela Chiado, editora portuguesa). Os livros são os seguintes:

• Leve poesia (2000): poemas; temáticas variadas;
• Algo de sempre (2003): poemas; temáticas variadas;
• Dislexias (2016): poemas; cada um deles contém um trocadilho com a língua portuguesa;
• Amor de palavra (2017): poemas; a temática é o amor, numa abordagem mais carnal;
• Anacrônicas (2018): coletânea de crônicas que publiquei na imprensa desde a primeira metade da década de 90;
• O livro de João (2018): livro infantil.

Abaixo, links para aquisição de minhas fotos ou de meus livros.
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https://bit.ly/2D7HoZr

https://adobe.ly/2UKOoFA

https://bit.ly/2uYbKcc

https://bit.ly/2UiJlZx 

Entranha

Sou 
a mosca na sopa,
a pedra no sapato,
a alface no dente,
a mancha no branco,
a dúvida na fé,
o silêncio no vozerio,
a página que falta,
a sede no deserto,
a unha encravada,
o silêncio que ignora,
a palavra que desconheces,
o sim que almejas,
o não que tens,
o buraco na estrada,
o zíper que emperra,
o ás que não tens,
o bolso furado,
a gravata que aperta,
o dente que dói,
a nota desafinada,
o frio sem blusa,
o calor que sufoca,
o mindinho na quina,
o caminho por engano,
o gás que acaba,
o nó górdio,
o cisco no olho,
a casca no chão,
o sono que não vem,
a coceira nas costas,
o bicho na goiaba,
o dinheiro perdido,
a contraindicação do remédio,
a palavra que não consegues,
o sino sem igreja,
os quilos a mais,
o arroz queimado,
a equação não resolvida,
o salto que quebrou.

Se conseguisses,
ficarias livre de mim.
Estou em ti
no que és.
Sou uma das coisas
que não querias ser. 

Prioridades

Para saber o que é “golden shower”, rapidez. Para se posicionar sobre oitenta tiros dados “por engano”, silêncio (até o momento em que digito estas palavras). Cada um tem suas prioridades. 

Oitenta

Oitenta tiros.
Todos esses disparos
são culpados.
Não serão punidos.
Darão quantos tiros
forem desnecessários.
Só vão sossegar 
quando tudo estiver
branquinho, limpinho.
O sangue derramado 
não deixará manchas,
os disparos não deixarão rastros.
Tiros não são de festim,
fogos não são de artifício,
balas não são doces.
Os atiradores não pensaram
para atirar.
Não pensaram depois.
Cidadãos de bem consigo,
não esperam respostas porque 
não fizeram pergunta.´

Ah, o ministério da educação...

O novo ministro da educação, Abraham Weintraub, disse em setembro do ano passado que as universidades do nordeste não deveriam ensinar conteúdos como sociologia e filosofia (sic). Vélez já foi um erro infame. Agora, Weintraub. O Reinaldo Azevedo escreveu que com Weintraub na educação, o Planalto “só dobra a dose do remédio errado”. 

Números 2

Há quem prefira culpar a chuva 
quando o bueiro entope.

Há quem prefira culpar a chama do fogão 
quando o alimento é queimado.

Há quem prefira culpar os números 
quando o político vai mal. 

Mulheres e policiais, segundo Damázio


Acabei me esquecendo de comentar: Moro nomeou Wilson Salles Damázio como conselheiro no ministério da justiça. Damázio considera que homossexualidade é desvio de conduta e que as mulheres acham “o máximo estar dando para um policial”. Moro, que já aceitara os pedidos de desculpa de Lorenzoni, aceitou as de Damázio, que ainda disse: “O policial exerce um fascínio no dito sexo frágil. Eu não sei por que mulher gosta tanto de farda”. Ainda de acordo com o pensamento do conselheiro, é no veículo oficial dos fardados que o furor aumenta: “Dentro da viatura, então, o fetiche vai lá em cima”.

Negações

Nega 
os números,
as palavras,
a ciência.

Nega 
o fato,
o bom senso,
o patente.

Nega 
a mim,
a você,
o que somos.

Nega 
o outro,
ao outro,
você.

Nega 
a lógica,
a história,
a si mesmo.

Nega 
o destempero,
o despreparo,
a cegueira.

Afunda 
negando
a inteligência.
Leva-nos.

Negando,
morre afogado,
insano,
negando a morte. 

Números

O presidente do Brasil é ruim ou péssimo para 30% dos brasileiros, a pior avaliação no primeiro trimestre entre os presidentes eleitos para um primeiro mandato desde a redemocratização. Os números são ainda piores do que os divulgados no mês passado, quando 24% julgaram o governo ruim ou péssimo. Pesquisa foi realizada pelo Datafolha.

A pesquisa é divulgada poucos dias depois de o mandatário declarar não ter nascido para ser presidente, o que os mais atentos já haviam percebido há muito. A queda até agora foi rápida demais em muito pouco tempo. Um deputado pode dizer bravatas e, no máximo, tornar-se figura folclórica. Bravatas de um presidente têm custo doloroso, se não para ele, para a população.

Reflexos de um governo que ainda não começou desembocam nos números da pesquisa: na região sul, o presidente obteve 68% dos votos; 54% já dizem que ele fez menos do que o esperado. Na região sudeste, ele obteve 65,4% dos votos; o percentual de frustrados chega a 59%.

Enquanto isso, na mesma semana em que afirmou que nasceu para ser militar, não presidente, o presidente deu a entender que talvez o MEC tenha um novo chefe a partir de amanhã. Se, por um lado, resta a esperança de que isso ocorra, por outro, há o temor, pois aquele ou aquela que virá pode ser pior do que o atual ministro.

À parte o que vier no ministério da educação, tivesse o presidente a sabedoria de escutar menos os sectários e mais os sensatos, pode ser que ele começasse a governar. Só que os cem primeiros dias de governo não dão a entender que ele e os filhos tornar-se-ão dispostos a prestar atenção em quem ainda tenta ajudá-los. Em vez de começar a agir, o presidente prefere não aceitar ou ironizar, pelo menos publicamente, os números que evidenciam a rejeição contra o governo federal. Nada mais esperado. 

terça-feira, 2 de abril de 2019

"Que vocês se explodam!"

Não se pode dizer que não houve aviso. Não me refiro ao que escrevo, ao que publico. Refiro-me ao que a imprensa nacional tem publicado. Não escrevo para avisar, para aconselhar. Escrevo porque gosto de escrever; escrevendo, atendo a essa necessidade. Isso é o que importa. De quebra, se o texto é de teor político, eu me sinto um cidadão melhor, o que também é o bastante para que eu escreva.

Eu tenho escrito, a imprensa nacional — e internacional — tem escrito, tem admoestado, tem avisado, tem dado a dica: em relações internacionais, palavras podem ter um peso desastroso. O representante de um país é capaz de um estrago econômico e humano. A escolha das palavras é importante em toda situação, das mais corriqueiras às mais valiosas. Diplomacia não é terreno para destemperos, para rompantes, para amadores, para os que não têm polidez nem equilíbrio.

“Quero que vocês se explodam”. Foram essas as palavras de Flávio Bolsonaro, publicadas no Twitter, sobre a nota de repúdio publicada ontem pelo Hamas (em postagem anterior, comentei sobre o assunto). A nota de Flávio Bolsonaro foi apagada depois. Claro que o estrago já estava feito.

É direito dele querer que qualquer um se exploda. Só que não é direito dele, no caso em questão, manifestar isso publicamente porque as implicações de uma declaração assim não vão recair somente sobre a vida pessoal dele, com a qual ele faz o que bem entender, mas sobre todo um país. Declarações como essas são graves, podem ter drásticas consequências econômicas.

Quando se representa um país, é dever de qualquer cidadão manter um mínimo de compostura, de tato, de controle. A mais dura das assertivas pode ser dita com a escolha correta das palavras. Prova disso é a própria nota do Hamas divulgada ontem. Justamente pela escolha cuidadosa das palavras é que ela é incisiva. Houvesse alguém escrito “quero que o Brasil se exploda”, isso seria coisa de quem é despreparado e de quem se entrega a rompantes — o que poderia implicar danos econômicos. Diplomacia é terreno melindroso. Cada discurso, casa texto, cada declaração, cada palavra devem ser refletidos, ponderados. Um país não deve pagar pelas bravatas de um inconsequente. A diplomacia é bem mais complexa do que um “que vocês se explodam”.

Qualquer ser humano com algum senso de responsabilidade e com alguma inteligência sabe disso. Só que não se pode deixar de apontar o destempero e as consequências que ele pode ter numa questão tão delicada. Não na esperança de que isso vá mudar o temperamento e a mentalidade do bufão destrambelhado, mas na certeza de que a palavra corretamente aprendida e apreendida é capaz de ajudar na construção de muita coisa, incluindo na de um ser humano. 

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Era uma vez a diplomacia

Mais trapalhadas da diplomacia brasileira. Dessa vez, por causa da visita a Israel. O colunista Josias de Souza, do UOL, elenca o que ele chamou de três gols — contra: a não transferência da embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém desagradou a Israel; o que vai haver em Jerusalém é um escritório de representação comercial (primeiro gol contra); os palestinos, mesmo cientes da não abertura da embaixada em Jerusalém, condenaram a abertura do escritório comercial e chamaram de volta Ibrahim Alzeben, o embaixador no Brasil. Consequências na prática: prejuízos para o agronegócio, pois os árabes podem passar a comprar de outros (segundo gol contra); por fim, o governo brasileiro já tem um escritório comercial em Ramallah, que fica a quinze quilômetros de... Jerusalém. Não há a necessidade de mais um escritório comercial na região (terceiro gol contra).

Foi isso o que noticiou Josias de Souza em seu blogue. A lambança já seria o bastante fosse só isso. Só que em diplomacia as consequências são internacionais, não ficam restritas ao quintal de casa. O Hamas, movimento de resistência islâmica, publicou hoje em seu site nota de repúdio contra a visita do governo brasileiro a Israel. O Hamas pede recuo quanto à abertura do escritório em Jerusalém, ao mesmo tempo evidenciando que as jogadas da diplomacia brasileira na recente visita ameaçam os laços com nações árabes e islâmicas.

Em sanha de negar conquistas de governos anteriores, a diplomacia brasileira (e o governo como um todo) pode jogar por terra o que o Itamaraty construiu. Estou lendo Quem manda no mundo? [Who rules the world?], do Noam Chomsky, publicado em 2016. Sobre a questão Israel-Palestina, ele escreve: “Negociações sérias teriam que ocorrer sob os auspícios de alguma parte neutra, de preferência uma parte que imponha algum respeito internacional — talvez o Brasil” [1].

A diplomacia brasileira, até recentemente, gozava de prestígio. Agora, é achincalhada. A revista Jacobin, em matéria publicada em 26 de fevereiro, chamou Ernesto Araújo de “o pior diplomata do mundo”, já condenando, no lide, a patética subserviência do governo brasileiro ao governo trumpista. Estou curioso para ler outra matéria, esta, publicada na piauí deste mês, intitulada “O anti-iluminista”: Consuelo Dieguez faz o perfil de Araújo. A chamada de capa: “Ernesto Araújo, o chanceler brasileiro que idolatra Donald Trump”. 
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[1] Chomsky, Noam. Quem manda no mundo? Tradução de Renato Marques. 1ª edição. São Paulo. Planeta. 2017. Pág. 102. 

domingo, 31 de março de 2019

Não começou

O insano revisionismo (ditaduras militares, nazismo) do governo federal é patológico por querer negar a história e, por vezes, a ciência (Ernesto Araújo, Ricardo Salles). Nessa insanidade, ou querem dar nomes novos a atrocidades do passado ou querem delegar a outros, que não os autores, responsabilidades por crimes cometidos ou querem destruir conquistas de governos anteriores, sejam elas quais forem.

O problema de se governar desse modo é que tal abordagem nada constrói, justamente por estar preocupada em destruir e em achar eufemismos para barbaridades (chamando-as, por exemplo, de "probleminha"). Destruir é a coisa mais fácil que há, não somente na política. O difícil é edificar, pois isso requer alguma vontade e alguma inteligência. É por isso que o governo federal não tem prontas nem sequer as bases de alguma construção.

Em vez de governar no presente, o que não implica fingir que não houve passado, para um amanhã melhor, o que se vê é o governo federal e seus familiares do alto escalão recrudescendo discursos bélicos, em vez de apresentarem projetos e de agirem para executá-los. Sintomaticamente, em vez de tentar resolver problemas, o governo vai à caça deles; exemplo disso foi o caso da tentativa de transferência da embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém. Embora tenha sido promessa de campanha, o que haverá em Jerusalém não é uma embaixada, mas um escritório comercial. Três meses se passaram e o Brasil segue à deriva.

O governo tem na abjeta reforma da previdência, que será aprovada, a esperança de que ela dê algum fôlego para ele. Quando isso ocorrer, enquanto o governo estiver inspirando, a vida dos pobres começará a piorar. Terá sido esse o legado de uma equipe sem programa político. Uma equipe que insiste em negar a história e que somente sabe demolir. 

sexta-feira, 29 de março de 2019

Livros meus à venda

Confirmando: meus livros estão à venda na Livraria Cultura.  

Tabata Amaral

Em meio a figuras desprezíveis e perniciosas como um Ricardo Vélez, figuras sem verdadeiro espírito público, figuras com pouca inteligência, é um alento haver pessoas como a deputada Tabata Amaral, vinte e cinco anos. Ela passou por Harvard, tendo estudado ciências políticas e astrofísica.

Um político não tem de ter obrigatoriamente um belo currículo acadêmico, mas teria de ter pelo menos espírito público. Tabata tem razão em reclamar do PowerPoint do ministro da educação, que, ademais, não apresentou até agora nenhum projeto, mas o que a deputada chamou de lista de desejos.

Tabata Amaral é exceção na câmara dos deputados; está rodeada de um monte de gente elitista, tosca, careta, machista. Gente que não sabe falar, que não sabe o que fazer, que não tem proposta, que não está a fim de trabalhar para o bem público. Tão infrutífero é o cenário que, suspeito, Tabata Amaral não irá longe na política, por ser ela bem maior do que a politicagem feita no país. Estando eu errado, caso ela siga carreira política, terá sido oásis em terras inóspitas. Aliás, ela não terá sido oásis. Ela é. 

quarta-feira, 27 de março de 2019

E conhecereis a mentira, e a mentira vos aprisionará

Das estratégias políticas, a chantagem é uma das mais baixas. Vinda do atual governo, é esperada. Paulo Guedes, que vinha se mantendo um tanto silencioso, se comparado com os demais ministros, começou a se manifestar, por saber que precisa ir a campo defender a hedionda reforma da previdência. Não demorou e foi logo chantageando: sem reforma da previdência, sem pagamentos dos servidores.

A chantagem dele inspirou empresários. Capitaneados por Flávio Rocha, dono da Riachuelo, e por Luciano Hang, dono da Havan, declararam: sem reforma da previdência, sem emprego. Hang já havia chantageado ou amedrontado seus funcionários durante a campanha para as últimas eleições.

Caso políticos e empresários a favor da reforma percebam que chantagens não estejam sendo eficazes, partirão para o WhatsApp, disseminando, novamente, notícias falsas, pois sabem que parte da população não confere a veracidade do que recebe no aplicativo; empresários e políticos sabem que as pessoas são tolamente crédulas. Aguardemos que item ou que mentira vai substituir a mamadeira de piroca.

Enquanto isso, hoje, estudantes da universidade Mackenzie, em São Paulo, não quiseram receber a visita do presidente, que, tendo sido informado dos protestos dos discentes, não foi ao local. Ontem, o ministro da economia não foi à Comissão de Constituição e Justiça. Todavia, não nos iludamos: esses políticos sabem o que fazem. Se há uma legião sectária e que não se dá o trabalho de buscar informação ou dados, é mais fácil chantagear, inventar inimigos, mentiras e ameaças. 

terça-feira, 26 de março de 2019

“Performando” sinapses desequilibrantes

Sempre que o assunto é o vocabulário de alguém, eu me lembro de uma frase do Proust, a qual vivo citando: “Todos chamam de claras as ideias que estão num mesmo grau de confusão que as suas”. Recentemente, eu me lembrei da irônica máxima por causa do palavrório de que o Tite tem se valido.

Sebastião Lazaroni foi técnico da seleção brasileira. Também se aventurou num português menos futebolístico; ele usou expressões como “galgar parâmetros”, “lastro físico” e “losango flutuante”. A gororoba verbal não resultou em sucesso com a seleção.

Que me consta, Lazaroni não é modelo para Tite, que, mesmo assim, soltou expressões do tipo “sinapses no último terço”, “extremos desequilibrantes” e “performar o resultado”; por certo, o técnico deve ter escutado “performar” em palestra de algum empreendedor, pois os chamados palestrantes empreendedores adoram importar anglicismos, que não raro denotam desconhecimento do português.

No caso do Tite, a despeito da vitória no amistoso de hoje, anglicismos e expressões técnicas passam a impressão que são usados como tentativa, ainda que inconsciente, de camuflar o óbvio: o futebolzinho mixuruca que a seleção tem jogado. Mais cedo, não acompanhei a coletiva do técnico, de modo que não sei como ele performou; não sei se achou que os extremos desequilibrantes jogaram bem ou se ficou satisfeito com as sinapses. Sei que foi mais um joguinho da seleção. 

segunda-feira, 25 de março de 2019

Sobre vendas de fotos em bancos de imagens

Comecei a fotografar de modo mais intenso em 2004. Três anos depois, passei a vender fotos minhas num banco de imagens, o Alamy. Recentemente, imagens de minha autoria estão à venda também na página da Adobe Stock

Gosto da foto desta postagem. Foi tirada no dia vinte e dois de dezembro de 2005. Está à venda no Alamy, mas foi recusada pela Adobe Stock. A justificativa da Adobe ao não aceitar a imagem: “Percebemos que há pós-processamento e/ou ruído excessivo e, por isso, não podemos aceitá-la em nossa coleção. Artefatos/ruído excessivos podem ser causados por pouca luz, configurações de câmera ruins, forte compactação ou pós-produção excessiva”.

Mesmo levando-se em conta que o registro foi feito com uma Canon EOS 20D, que já produzia ruído com ISO 400, o que usei na captura, a imagem não me parece “ruidosa” demais. Também não havia pouca luz. Quanto às “configurações de câmera ruins”, não sei se estão se referindo ao ISO. Os demais ajustes foram 1/800 e F/8.0. Velocidade de 1/800 e abertura F/8.0, por si, não são problemas, e me pareceram ajustes adequados para o que era minha intenção.

Não haveria sentido argumentar com a equipe da Adobe, tentando fazer com que mudassem de ideia quanto à recusa da foto, pois já haviam explicado possíveis razões para não comercializarem o registro. A imagem, embora tenha passado pelo controle de qualidade do Alamy, não passou no da Adobe Stock. É preciso entender que não há o menor problema na recusa, ainda mais que, no meu caso, o número de aceitações é superior ao número de recusas, tanto no Alamy quanto no Adobe Stock.

Relato essa história a fim de ilustrar que a não aceitação de um trabalho seu por determinado banco de imagens não significa que você seja ruim; além disso, é a recusa que pode fazer com que você busque melhorar. Critérios variam. Isso, obviamente, não pode ser justificativa para que você deixe de buscar a excelência. O Adobe Stock é mais flexível quanto a aceitar contribuições dos usuários, ainda que um número razoável de imagens tenha, a princípio, sido recusado. Quando comecei a comercializar minhas imagens no Alamy, pediam um determinado número de imagens no primeiro envio (não me lembro do número exato de fotos que podiam ser enviadas nessa primeira remessa). Noventa por cento dessas imagens deveriam ser aprovadas, para que o fotógrafo pudesse dar início à comercialização de suas fotos no banco de imagens.

Na busca da excelência, o domínio da técnica, ainda que ele não resolva tudo, é imprescindível para o êxito quando se tem a intenção de fazer registros profissionais. Esse domínio, não raro, é negligenciado; quem assim faz, alega que coisas como intuição, inspiração, olhar e concepção de mundo são mais importantes do que a técnica. De fato, são, mas é preciso entender que a técnica é poderosa aliada de coisas como intuição, inspiração, olhar e concepção de mundo. A técnica não deve ser encarada como algema, mas como ferramenta de libertação, como possibilidade de se ir mais longe no universo da fotografia, ainda que haja recusas no meio do caminho. Sempre haverá recusas. Não somente na fotografia. Bons cliques. 

domingo, 24 de março de 2019

Um dia como outro

Raposas políticas sabem negociar. Nem sempre a favor do povo, mas sabem negociar. A única coisa em comum que o presidente tem com as raposas políticas é o desinteresse que boa parte desse pessoal tem pela vida dos mais pobres. O que o presidente não tem é a manha para a conversa, o traquejo para o diálogo. Ele é tão inábil que não consegue se entender nem com aqueles que são a favor do grande desejo do governo federal — a aprovação da desumana reforma da previdência.

A grande mídia, obviamente, é a favor da reforma; grandes empresas são a favor; parte dos políticos são a favor. Nada disso surpreende, bem como não surpreende a falta de habilidade do presidente em dialogar com os que estão em sintonia com o que é até agora o grande desejo do governo federal.

Ainda no terreno da inabilidade ou da gafe, no Chile, o presidente brasileiro agradeceu ao povo venezuelano. Sebastián Piñera, presidente chileno, posteriormente, criticou o colega brasileiro, não pelo lapso deste, mas por não concordar com frases já ditas pelo mandatário brasileiro. Para fechar, um dos filhos do presidente disse que “será necessário o uso da força” contra a Venezuela, para, depois, amenizar, dizendo, que o Brasil “não pensa em intervir militarmente”.

A família do presidente (ele incluído) e integrantes do primeiro escalão do governo federal não levam em conta que em assuntos internacionais palavras podem ter consequências nefastas (em postagem anterior, comentei o quanto pegou mal a declaração de Onyx Lorenzoni, sobre o “banho de sangue” da ditadura chilena). Temperança e jogo de cintura, quando o assunto é a relação entre países, são pedra de toque que levam, no mínimo, a uma imagem de civilidade.

Enquanto isso, no Congresso, há a possibilidade de mais uma derrota do governo federal, que concedeu a turistas da Austrália, do Canadá, dos Estados Unidos e do Japão dispensa de visto para entrar no Brasil. Mesmo partidos simpáticos ao governo atacaram o decreto presidencial. Já houve derrota do governo federal quanto a decreto, o que alterava a Lei de Acesso à Informação.

Num país desinformado que acredita em mentiras disseminadas via WhatsApp, pleno de pessoas que nem se dão o trabalho de conferir a veracidade do que recebem via celular, a convivência interna continua dando sinais de degenerescência: a conta no Youtube do garoto conhecido como Michelzinho, filho de Michel Temer, teve comentários grotescos após a prisão do ex-presidente, como se o filho dele tivesse culpa pelo que fez o pai, e ontem, em São Paulo, durante o incêndio na favela do Cimento, houve motoristas que, passando perto do local, comemoraram o acontecimento. Há quem prefira não enxergar o incêndio. 

"Banho de sangue"

A perigosa patuscada continua. Dessa vez, protagonizado por Onyx Lorenzoni, que elogiou as “bases macroeconômicas da ditadura de Pinochet. Lorenzoni defendia então a reforma da previdência no Brasil. Anteontem, em entrevista à Rádio Gaúcha, ele tentou justificar a reforma da previdência, afirmando que no período de Pinochet, o Chile teve de dar um banho de sangue. Triste, o sangue lavou as ruas do Chile.

Ivan Flores, presidente da Câmara dos Deputados chilena, afirmou que Lorenzoni afrontou os que perderam familiares na ditadura do país. Jaime Quintana, presidente do Senado no Chile, disse não se lembrar de declarações desse teor vindas de um mandatário de governo.

Lorenzoni deveria se lembrar de que nem todo mundo é como o chefe dele, que, por exemplo, em evento oficial, elogia ditador pedófilo. Pelo cargo que ocupa, Lorenzoni deveria entender que as palavras que profere têm peso, têm consequências. Mas, novamente, ele não tem no chefe exemplo do que poderia ser considerado retidão ou comedimento.

O legado de Araújo

“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”.
Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas

O Guimarães Rosa, que foi médico, escritor e diplomata, disse certa vez, numa entrevista, que o trabalho dos diplomatas é consertar os estragos dos políticos. Só que no caso do Brasil, a diplomacia não vai consertar os estragos do governo federal, cuja avaliação positiva, aliás, caiu 15 pontos, segundo o Ibope. Ernesto Araújo, ministro das relações exteriores, defende ideias como a de que o aquecimento global é trama marxista (sic). Não é de se esperar que alguém com um pensamento assim conserte trapalhadas diplomáticas.

A congressista norte-americana Alexandria Ocasio-Cortez tem consciência plena de que o aquecimento global não é trama marxista. Ela afirma que é legítimo não querer ter filhos por causa do aquecimento global, alegando que as vidas das crianças serão muito difíceis por causa das mudanças climáticas no planeta. Em nome da consciência, Ocasio-Cortez acha digno não trazer novas vidas à tona; em nome de anacronismo patológico, Araújo se alinha com aqueles para quem não há aquecimento global, o que, em consequência, dá passe livre para destruição ainda mais intensa da natureza.

Ocasio-Cortez não propõe método deliberado para que não haja mais pessoas, o que é a proposta de David Benatar, autor do livro Better never to have been (algo como Melhor nunca ter nascido); na obra, o pensamento de que a saída mais digna para a humanidade é a extinção, defendendo que nascer é sempre um mal e que a procriação deveria parar. Benatar não defende nem assassinato nem suicídio.

A revista Jacobin foi incisiva em matéria que é retrato acurado do Brasil recente, chamando Ernesto Araújo de “o pior diplomata do mundo”. A diplomacia brasileira, que já teve intelectuais como o já citado Guimarães Rosa e inteligências como a de Celso Amorim, tem agora de lidar com Araújo.

Pode-se não concordar com Ocasio-Cortez nem com David Benatar. Todavia, não se pode acusá-los de não estarem preocupados com a condição humana; nenhum deles pode ser acusado de ignorar a complexidade da existência. Suspeito eu de que seremos extintos não por ideias similares às de David Benatar e às de Ocasio-Cortez, mas por mentes distorcidas como as daqueles que atribuem aquecimento global a inexistentes complôs ideológicos. O que mata é a ignorância.

quarta-feira, 20 de março de 2019

Vão

No salão oval,
o carrasco ordenou.
O serviçal se pôs de joelhos.

A casa é branca.
A ducha é dourada.

Agradecido,
feliz 
e úmido,
o deslumbrado
lambeu
as botas
do algoz.

Agora, o vassalo 
está em casa.
Foi-se embora o brilho
de quem implorava
para ser dominado.
Tristonho, 
sem receber notícias,
o capacho
anseia pelo cheiro
daquele que o
subjugou.

Frágil, 
rendido,
apaixonado,
inconsolável,
apaga a luz do quarto,
louco para
preencher 
o vão
que ficou
atrás de si. 

domingo, 17 de março de 2019

Engavetamentos

Crer que a esquerda inventou a degeneração e que a direita resgatou a virtude é de uma ingenuidade que não é tocante porque é perigosa. Acreditar em coisas assim é, antes de tudo, revelador de um total desconhecimento do que significa ser humano, é ignorar que todos temos a devassidão e a castidade, o bem e o mal. Somos todos capazes dos atos mais nobres e das atitudes mais torpes. Atribuir condutas éticas ou comportamentais absolutas a espectros ideológicos é deletéria ignorância ou asquerosa má-fé. 

Conclusão

Ele homenageia milicianos.
Ele contrata milicianos.
Ele é amigo de milicianos.
Ele tira foto com milicianos.
Ele abastece milicianos.
Por eles é abastecido.

De tudo isso,
concluo eu,
concluem os de
senso atilado,
concluímos nós:
miliciano não é;
anjo de bem 
é o que ele é, 
anjos de bem,
o que somos. 

quinta-feira, 14 de março de 2019

Fotos minhas à venda

Desde hoje, fotos minhas à venda no banco de imagens da Adobe, o Adobe Stock. Pouco a pouco, vou inserir outros arquivos.

Para conferir, clique aqui

Coincidência

A casa de um miliciano fica ao lado 
da casa de uma autoridade: 
o perigo mora ao lado.

A casa de uma autoridade fica ao lado 
da casa de um miliciano: 
o perigo mora ao lado.

Onde mora a coincidência? 

sábado, 9 de março de 2019

Da recusa em atacar

Não sou torcedor nem do Vasco nem do Flamengo, que jogaram há pouco no Maracanã. Houve empate por 1 a 1. O jogo foi movimentado, o Vasco empatou aos noventa e cinco minutos de jogo.

Já nos acréscimos, aos noventa e dois minutos, em contra-ataque, o Flamengo quase fez dois a zero. Na conclusão da jogada, houve escanteio. O Flamengo, em vez de jogar a bola na área ou tentar, de algum modo, atacar, no momento de bater escanteio, tentou chutar a bola sobre defensor vascaíno; em vez disso, houve tiro de meta para o Vasco.

Podem duvidar do que vou escrever, mas no momento em que houve esse lance, pensei comigo: “Ridículo, um time se recusar a atacar, ainda que esteja perto do fim. O Vasco ainda pode fazer um gol, o que seria merecido, devido à recusa do Flamengo em atacar”. O Vasco, então, cobrou o tiro de meta, atacou e teve pênalti a seu favor. Maxi López bateu e empatou a partida.

O lance do Flamengo foi um retrato do que é futebol brasileiro, em que boa parte dos times considerados grandes se recusa a atacar, ainda que esteja empatando. A despeito de Vasco e Flamengo terem feito um jogo cheio de oportunidade para gols, coisa rara no futebol brasileiro, os lances dos acréscimos ilustram bem a indolência, o comodismo e a pobreza técnica do futebol nacional.

Repito: futebol nacional. A maioria das equipes tidas como grandes do futebol aqui jogado tem uma abordagem pobre, sem criatividade, sem ousadia. Menciono a partida terminada há pouco no Maracanã por ser o jogo a que assisti e por ter eu pensado que o Flamengo poderia ser punido por decidir não atacar quando teve o escanteio a seu favor.

É claro que o Flamengo poderia levar gol ainda que tivesse tentado atacar quando da cobrança do escanteio. Mas isso é cogitação. O que não é: tomando a decisão de não atacar, ao propor enrolar no campo de ataque, o rubro-negro levou o gol de empate. Nada mais típico do pouco criativo e pouco combativo futebol brasileiro.

quinta-feira, 7 de março de 2019

Um

Um alega que religiões africanas causam terremotos. Um declara que escreveu livro em coautoria com Tocqueville. Um acredita que a Terra é plana. Um declara que universidade é para a elite. Um diz que adora a natureza; apoia quem derruba árvore. Um diz que caixa dois era crime; agora não é. Um acredita que a corrupção foi inventada recentemente e foi desinventada recentemente. Um declara que era contra a reforma da previdência; agora não é. Um se regozija quando um compatriota político é ameaçado de morte (Schadenfreude). Um se regozija quando alguém perde um ente (Schadenfreude). Um acredita que a escatologia foi inventada não há muito tempo. Um assina texto em cuja breve biografia é dito que ele estudou um Yale; não estudou. Um acredita que caudilhos não são corruptos. Um adultera mapa para beneficiar mineradores. Um afirma ter mestrado sem ter. Um nunca leu nada; diz saber muito. Um afirma que o aquecimento global é trama marxista. Um diz que é cidadão de bem; defende ditador pedófilo. Um diz que os índios são latifundiários. Um deseja câncer para o outro. Um diz que é cidadão de bem; tem ligação com milicianos.

Um de cada vez. São um corpo. 

quarta-feira, 6 de março de 2019

Enquanto isso no carnaval

Multidões entoaram “mantra” dizendo para o presidente do país ir tomar no c*. O presidente posta vídeo de um homem enfiando o dedo no c*. Esse carnaval entrou para os... anais da república.

terça-feira, 5 de março de 2019

Cortando o sete

Para que ele não seja confundido com o nove, há quem prefira cortar o sete, em vez de melhorar a caligrafia. Armar a população é cortar o sete.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Minúsculo pela própria natureza

O comunicado (estampado nesta postagem) que o ministério da educação publicou contra Lauro Jardim, há alguns dias, tem dois problemas; um deles é feio, levando-se em conta que se trata do ministério da educação; o outro é muito grave, levando-se em conta que se trata do ministério da educação. O erro feio é o português sofrível do texto; o erro grave são as mentiras, desmentidas posteriormente não somente por Lauro Jardim. O comunicado do MEC tem ainda uma questão estética: ele é todo escrito em caixa alta, que é o correspondente gráfico do grito. O MEC não adotou apenas uma estética de gosto duvidoso: ele emitiu uma nota redigida por alguém que não sabe escrever, publicou-a sem que ela passasse por um revisor e, pior do que isso, mentiu.

A mais recente lambança do ministério foi a carta enviada para as escolas; pedia-se que o hino nacional fosse executado e que os alunos fossem filmados durante a cantoria do símbolo nacional. A missiva é um festival de arbitrariedades contra a constituição: abandona a laicidade e, contrariando os princípios da impessoalidade, ostenta bordão de campanha política; há mais: atenta contra leis de uso de imagem e de privacidade. Uma nova carta será enviada às escolas.

O ato em si de cantar o hino nacional não é sintoma de amor ao país. Há muito sonegador estufando o peito e entoando de modo pungente (essa palavra é muito feia) os versos de Joaquim Osório Duque-Estrada e a música de Francisco Manuel da Silva. Nessa mixórdia, eu me lembrei da letra da canção: “Vamos cantar juntos o Hino Nacional / A lágrima é verdadeira”. 

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Eficácia

O corpo está 
velho, cansado. 
É honesto. 
Sempre foi. 
Nunca deixou 
de trabalhar. 
Triste, 
o corpo decente e 
humano é 
menor 
do que 
indecências.

“Mas um corpo honesto, 
cansado e 
pobre 
serve para quê?”, 
perguntam os indecentes.

Um corpo não 
consegue se aposentar.
Outro se aposenta com quase nada.
Banido da história,
o corpo velho,
cansado e pobre
expira.

Indecências são eficazes. 

Ainda a reforma da previdência

Segundo informa a Folha de S.Paulo, uma das consequências da reforma da previdência será a seguinte: vai incentivar os jovens, especialmente os menos qualificados, a aceitar trabalhos com menos direitos. Na mesma matéria, Clemente Ganz Lúcio, diretor técnico do Dieese (Departamento Intersindical de Estudos Socioeconômicos), disse haver o risco de que “muitos cheguem aos 60 anos sem trabalho e não tenham uma proteção contra a pobreza”.

O tal do mercado está exultante, pois sabe que a reforma será aprovada. Sabe também que ela tem de ser aprovada mais rapidamente, ciente de que alguma hecatombe possa ocorrer no governo federal, o que dificultaria a aprovação. Empresas, grandes ou não, estão interessadas nessa aprovação, exatamente por, dentre outras razões, terem de arcar com menos obrigações trabalhistas.

Para o trabalhador, a regra é simples: ele terá de trabalhar mais com menos direitos. Dentre outras desumanidades, o texto da reforma da previdência prevê, por exemplo, que uma pessoa entre sessenta e sessenta e nove anos pode receber quatrocentos reais por mês, sendo que esse valor não está ligado a nenhum indexador, o que pode fazer com que, daqui a algum tempo, esses quatrocentos reais podem equivaler a cem.

No entanto, diga-se, quando em campanha, o atual governo nunca sinalizou que estava preocupado com pobres (nem com negros, com homossexuais, com índios, com árvores). O que o então candidato havia dito é que era contra a reforma da previdência. Não me surpreende ele ter mudado de ideia, pois a reforma é deletéria em relação aos pobres. Seria estranha uma atitude dele que favorecesse algum lado mais fraco das relações sociais. A compra de votos de parlamentares já começou. Para fechar, um lembrete: grandes empresas devem quatrocentos e cinquenta bilhões para a previdência. 

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

(Des)apontamento 55

Em 1517, Martinho Lutero propôs a reforma da providência. 

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Previdência

O mercado, monstro onipresente com cara de mocinho, vem se regozijando com a reforma trabalhista. Agora já está esfregando as mãos para que a reforma da previdência, proposta pelo governo federal, seja aprovada (mais cedo ou mais tarde, será). Os militares? Não estão preocupados com isso, pois estão de fora da futura previdência. Eles estão de olho é na reforma apresentada pelo Moro, que dará a eles carta branca para matarem mais (pobres), alegando “violenta emoção”.

E os parlamentares? Ah, sim, os parlamentares. Os atuais não serão afetados pela reforma da previdência. De quebra, foram escutados pelo Moro, que deixou de fora da proposta apresentada por ele a criminalização de caixa dois (seria causar nos parlamentares violentas emoções).

Tem-se então: boa parte dos parlamentares, capachos das grandes corporações, nada perderão do muito que já têm; elas, por sua vez, já estão fabricando mais látegos. Os militares, de prontidão, estão batendo continência.

E os pobres? Muitos morrerão recebendo, de acordo com texto da reforma, quatrocentos reais por mês. Os que a previdência não matar, emoções violentas matarão. No caixão, os homens podem usar azul; as mulheres, rosa.

Lá do alto, observando, acima de todos, o deus mercado sorri e toma um gole de uísque, contemplando sua obra. E viu que isso era bom. 

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

B&B

Os áudios que Bebianno e Bolsonaro enviaram um para o outro são insossos se considerarmos o conteúdo deles. Ainda assim, chamou minha atenção o tom subserviente de Bebianno. No mais, o episódio não vai melar o governo de Bolsonaro, que, de quebra, conta com o peleguismo de seus “exércitos” e de seus acólitos. Mesmo insossas, as conversas, pelo menos, têm momento de humor involuntário por parte de Bolsonaro, que, vetando a ida à Amazônia dos ministros Ricardo Salles e Damares Alves, pergunta: “Quem tá sendo o capeta dessa viagem à Amazônia?”. (A Damares aprovaria as palavras que o presidente usou nessa pergunta?...)

Vade-retro! 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

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Extra! Extra!
Circulando mais um
jornal de ofertas!

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Atenção, meu senhor,
atenção, minha senhora!

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Opções imperdíveis
para todos os gostos!

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Quer ver pobre sufocado?...
Venha à nossa loja!

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Quer ver negro morto?...
Venha à nossa loja!

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Quer matar negro?...
Venha à nossa loja!

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Quer matar pobre?...
Venha à nossa loja!

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Sufoque, mate e fique livre! 

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Inteligência banida

Deve ser muito difícil escrever ou falar na obrigação de causar polêmica ou na de vender muito. Causar polêmica é fácil, mas fico pensando em quantos espíritos muito capazes têm de usar seu talento em textos escritos com o único propósito de causar impacto midiático ou com o único propósito de soar polêmico ou, o que é pior, de soar verdadeiro quando não passa de engodo.

Mesmo o público que supõe consumir informação densa ou que a ela tem acesso está acostumado a se guiar pela falta de análise e de profundidade. Para esse público, Boechat morreu porque criticou Malafaia, um texto de meia página é chamado de textão. Esse público, precisamente por ser superficial, vende-se ou rende-se ao “jornalismo” de grupos de WhatsApp, incentiva o “debate” com memes de gosto duvidoso e de teor mentiroso, preconceituoso; é um público que não produz ideias, que não consome ideias. A fim de faturar e de agradar a esse grupo superficial, além, é claro, de manter o cabresto nesses superficiais leitores, espectadores e ouvintes, grande parte da chamada grande mídia não faz jornalismo. O que essa grande parte da mídia tem feito é tão superficial quanto o público que a alimenta e por ela é alimentado, numa danosa, perigosa e acomodada via de mão dupla.

De um lado, o jornalismo não se aprofunda por querer um mau leitor; do outro, o leitor nada exigente continua acessando a grande mídia porque o que ela oferece é palatável, embora esquálido e, não raro, mentiroso. Aquele que quiser uma análise sem os vícios da preguiça e da falta de profissionalismo tem de fugir de veículos consagrados (Veja, Estadão, Globo, Jovem Pan...), os quais iludem muitos consumidores, que acreditam no arremedo de jornalismo dessas e de outras grandes corporações.

Para o ouvinte, o espectador ou o leitor exigente e que não seja bobo, uma alternativa é o jornalismo independente, não vinculado às grandes corporações; outra é o jornalismo do exterior ou o jornalismo de algumas empresas estrangeiras que atuam no país (The Intercept, Le Monde Diplomatique Brasil...).

Inteligências com muito a contribuir nas redações vão sendo banidas das grandes empresas, que passam a dar espaço a subservientes e a pessoas sem lastro como um Kim Kataguiri. São poucos os que sabem escrever, que sabem pensar, que sabem analisar e que não têm preconceitos a ter espaço nas megacorporações midiáticas nacionais. Elas preferem um papagaio puxa-saco a um profissional questionador. Num espaço assim, as grandes inteligências, caso não consigam outro ambiente para trabalhar, não florescem. Pelo menos, não para o leitor, o espectador ou o ouvinte.