sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Haicai 73

Ah, fala mais, Mourão.
Não escutes o que dizem;
abre teu aflito coração. 

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Chamas e mesóclises

“Até que enfim temos um presidente que sabe falar, que sabe português”, disseram alguns pró-golpistas logo após Temer ter solapado a presidência. Pois aquele cujo português foi elogiado cortou e congelou gastos na... educação. Há vários modos de queimar um país. Nem todos são por intermédio de chamas. 

A fogueira

Queimem os museus!
Queimem Luzia!
Queimem as universidades públicas!
Queimem os institutos federais!
Queimem os hospitais públicos!
Queimem os gays!
Queimem a Petrobrás!
Queimem os Correios!
Queimem as cartas!
Queimem os bandidos!
Queimem as mulheres!
Queimem os livros!
Queimem os velhos!
Queimem o Cerrado! o Pantanal! a Amazônia!

Rápido!: 
queimem o nordeste,
a Rocinha, 
os doentes,
os falidos,
as Marias, 
os Josés, 
os comunistas,
os professores,
os amantes,
os cubanos,
os que andam de bicicleta,
os deficientes,
os feios,
os índios,
Lula,
os que visitam Lula,
os que votam em Lula, 
os que não votam em Bolsonaro,
os que não têm armas,
as putas,
os ateus,
os desdentados,
os gentis,
os sem-terra,
os loucos!

Vamos salvar o Brasil!
Queimem os rios agora!
Só assim essa gente vai arder,
sem ninguém para jogar água na fogueira! 

Uma curiosidade

Frases de Bolsonaro:

• “Espero que saia; infartada, com câncer, de qualquer jeito” (referindo-se a Dilma). 
• “O erro da ditadura foi torturar e não matar”. 
• “Eu sou favorável à tortura”.
• “Eu acho que essa polícia militar do Brasil tinha que matar é mais”. 
• “Vamos fuzilar a petralhada”.
• “Ustra é um herói”.
• “Através do voto você não vai mudar nada nesse país. Só vai mudar no dia em que partimos para uma guerra civil”.
• “Eu sonego tudo o que for possível”.
• “Só não te estupro porque você não merece”.

O que Bolsonaro teria dito tivesse não ele (mas outro presidenciável) passado pelo que passou ontem em Juiz de Fora? 

Apontamento 379

Sem leitura, somos a versão mais feia de nós mesmos. 

“Todo Dia a mesma Noite”

O jornalismo brasileiro não se dedica a matérias de fôlego, alimentando-se da preguiça mental de parte dos leitores, ao mesmo tempo em que fomenta essa mesma preguiça. Uma das exceções é a revista Piauí, que ainda realiza matérias densas, escritas com capricho.

Outra louvável exceção no jornalismo do país é a Daniela Arbex, autora de Holocausto Brasileiro e de Cova 312. A jornalista lançou neste 2018 Todo Dia a mesma Noite: a História não Contada da Boate Kiss.

Na noite de vinte e sete de janeiro de 2013, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, a Kiss pegou fogo. Duzentas e quarenta e duas pessoas morreram. Ao esmiuçar a tragédia, Daniela Arbex mistura inteligência, objetividade e afeto num texto que, a despeito da abordagem jornalística, que ela não abandona, emociona não pela desgraça do ocorrido, conhecida de todos, mas por a jornalista evidenciar o aspecto humano e individual de alguns dos personagens que perderam entes no dia do incêndio.

Esse debruçamento sobre o indivíduo já havia sido feito no brilhante Holocausto Brasileiro, em que a jornalista conta a história de famoso manicômio em Barbacena/MG, que por décadas do século XX foi uma usina que fazia adoecer e matava pessoas, com a anuência de políticos e de parte de uma ignorante sociedade. A mesma ignorância e a mesma desumanidade estão presentes em Todo Dia a mesma Noite. Ao se aproximar de sobreviventes ou ao abordar familiares destroçados pelas perdas de familiares na boate, Daniela Arbex revela o descaso e o oportunismo de políticos ou o radicalismo tosco e a falta de compaixão de quem se diz religioso, ao mesmo tempo em que, ao se voltar para os que perderam filhos no incêndio, a jornalista exibe as minúcias do que é ser gente.

O olhar cuidadoso, terno e jornalístico que Arbex tem ao contar a história acaba fazendo com que ela roce a literatura, o que só torna o livro mais grandioso ainda. Marcelo Canellas, autor do prefácio, foi muito feliz ao escrever que Todo Dia a mesma Noite é um “inventário de saudades”. A poética expressão de Canellas dá o tom do livro, que, a despeito de lidar com perdas e com sofrimento, em momento algum resvala na pieguice.

Os objetos que temos são parte de nossa história. Assim, um batom, um par de sapatos, um vestido ou um telefone podem assumir uma dimensão tocante quando os associamos a uma pessoa. Enquanto as dezenas de corpos eram retirados da boate, num dos celulares, ao lado da palavra “mãe”, havia cento e trinta e quatro chamadas não atendidas.

Ao se aproximar dos que foram diretamente afetados pelo incêndio, incluindo familiares, sobreviventes e profissionais que lidaram com o acontecimento, Daniela Arbex emociona; além do mais, o livro acaba sendo alerta quanto ao que pode ocorrer quando há descaso e protelação. Todo Dia a mesma Noite é um documento, uma obra-prima do jornalismo, um sopro de literatura e um testemunho de humanidade. 

Todas as pessoas

A leitura é o começo.
O princípio é o verbo.
Que foi conjugado.
Sou conjugação.
És.
Conjuguemos. 

Uma ponte entre o interior do Brasil e o interior da Escócia


Há tempos, venho fotografando a ponte sobre o Rio Paranaíba, aqui em Patos de Minas. Recentemente, desde que passei a fotografar com um drone, voltei a fotografar a construção, que acho muito bonita.

Há alguns dias, assisti ao filme Calibre, em cartaz na Netflix. Logo no começo da produção, dois amigos estão no interior da Escócia, num carro, dirigindo-se a um local onde iriam caçar. Numa tomada aberta, uma ponte aparece. Ela é muito parecida com a ponte do Paranaíba.

Não sei com exatidão onde fica a ponte lá na Escócia. Nesta postagem, a primeira imagem é uma foto que tirei da tela da televisão enquanto eu assistia ao filme; a segunda é uma foto que tirei da ponte aqui em Patos de Minas. 

Cabelo

Assisti ao filme Hair (1979) quando eu tinha oito ou nove anos. Não entendi o enredo, não entendi a proposta, não entendi o contexto, não entendi a linguagem, não entendi nada. Depois, no fim da adolescência, fui trabalhar em rádio; a emissora tinha o álbum (salvo engano, LP duplo) com a trilha sonora do filme. Com frequência, eu executava “Aquarius”, cantada pela Melba Moore. Quando eu levava ao ar a canção, eu prometia a mim mesmo que assistiria novamente a Hair. Há pouco, quase quarenta anos depois do lançamento do filme, conferi novamente o musical. Que filmão! O diretor é Milos Forman; o roteiro ficou por conta de Gerome Ragni, James Rado e Michael Weller.

Toda obra de arte é fruto do período em que foi produzida. Hair, além de ser consequência do espírito de fim da década de 70, teve a intenção de levar às telas um retrato do que era esse mesmo período. Focando na crítica contra a guerra que os EUA deflagraram no Vietnã, Hair tem a intenção de se voltar para a mesma época que o produziu, desnudando-a. Conseguiu.

A cultura rebelde do período está no filme. Jovens se voltando contra a insana guerra no Vietnã se veem obrigados a embarcar para o conflito, de onde nem sabem se voltarão vivos. Foi natural que o cinema dos EUA voltasse suas lentes para o evento. Nessa visita, muita bobagem foi feita, mas Hair faz parte das obras-primas que abordaram o que ocorreu no Vietnã.

Numa época como a de agora, em que a caretice dá berros e se excita com o uso de cassetetes, Hair prova que envelheceu bem, mostrando-se necessário quando de seu lançamento e na atualidade. O libelo pacifista, com sua ode ao corpo, à música e à juventude, é um manifesto libertário conclamando ao amor. É tudo a que, por exemplo, um defensor de torturadores não quer assistir. 

A negação da história

Um intelectual pode saber mais sobre determinado aspecto de um país do que um cidadão desse mesmo país, não importa qual ele seja. Assim, um italiano pode saber mais sobre Shakespeare do que um inglês, um austríaco pode saber mais sobre Machado de Assis do que um brasileiro.

Todavia, espera-se que a embaixada de determinado país saiba algo do território que representa. Mesmo assim, quando a embaixada da Alemanha no Brasil postou vídeo sobre o nazismo, os comentários de alguns brasileiros foram sintoma do que parte da população se tornou: um grupo que não se informa e que, em consequência, nega qualquer ciência ou qualquer evidência.

Houve brasileiros que, no perfil do Facebook da embaixada alemã, disseram que o holocausto... não existiu. Comentários desse naipe revelam a cegueira que a falta de conhecimento pode causar. O correspondente, fosse na física, seria dizer que a Terra não é redonda, o que muitos dizem, não só no Brasil. O problema é que a ignorância é raivosa; a mordida dela pode matar.

Casos como esse revelam um dos problemas do excesso de ignorância: ele atravanca o desenvolvimento por se agarrar a noções primárias, pueris. Uma coisa é uma criança de cinco anos se surpreender ao saber que o planeta que habita é redondo; outra é um adulto esbravejar e brigar por causa disso.

A ignorância torna-se inimiga da história, do óbvio, do outro. A ignorância é confortável, fugir dela dá trabalho. Ela não atrapalha somente os que a escolhem. A falta de sutileza quer que o Sol gire em torno da Terra ou que a história seja apagada e reescrita em caixa alta, com grunhidos, muitas onomatopeias e uma profusão de xingamentos, preconceitos e pontos de exclamação. 

De volta

Quando a seca vai embora,
o cerrado não renasce: 
não morreu.
No tempo das águas,
ele sai de casa. 

Sob o signo da inteligência

O essencial W. H. Auden, numa de suas tiradas, escreveu num de seus ensaios que “algumas pessoas são inteligentes demais para se tornarem escritores”. Quando leio ou releio Wisława Szymborska (1923-2012), expressões como “que inteligência espantosa” sempre me ocorrem. A impressão que ela me passa é a de que tem uma inteligência inesgotável, por mais generalizado ou impreciso que algo assim possa soar.

Com a tradução de Regina Przybycien, a piauí deste setembro publicou alguns breves textos da autora polonesa. São eles respostas dadas por Szymborska a leitores que queriam seus textos publicados numa revista para a qual a escritora trabalhava. As respostas de Szymborska revelam mais uma vez brilhantismo e humor.

Um exemplo: “Não, não temos manuais de escrita de romances. Parece que nos Estados Unidos se publicam coisas assim, mas nos permitimos duvidar de seu valor, isso porque o autor que conhecesse uma receita infalível para o sucesso literário preferiria ele próprio se valer dela em vez de ganhar a vida escrevendo manuais. Simples, não é? Simples”.

Outro: “A falta de talento literário não é nenhuma desgraça. Pode acontecer a pessoas inteligentes, esclarecidas, nobres e extremamente talentosas em outras áreas. Quando dizemos que um texto é pobre, não pretendemos ofender ninguém nem lhe tirar a fé no sentido da existência. Mas, de fato, nem sempre proferimos o nosso julgamento com uma cortesia chinesa. Ah, os chineses. Esses sabiam, em tempos idos, antes da Revolução Cultural, responder aos poetas pouco afortunados. A resposta era mais ou menos assim: ‘Os seus poemas superam tudo que já foi e que ainda será escrito. Se fossem publicados, sob sua luz ofuscante empalideceria toda a literatura, e os outros autores que dela se ocupam sentiriam dolorosamente o seu próprio nada...’”.

O humor e a inteligência de Wisława Szymborska me deixam com vontade de ter sido amigo dela, ou de, pelo menos, ter tido a oportunidade de conviver com ela. Ao interagir com pessoas, ela era tão adorável quanto é no que escreveu? Nunca terei resposta para isso, mas a pergunta me ocorre. Algumas pessoas são inteligentes demais. 

Apontamento 378

Viver não é amanhã nem logo ali nem ontem. A vida é agora. O resto é imaginação e memória. 

Política e futebol


Tentar separação radical entre futebol e política seria negar o uso que governos nacionais e internacionais já fizeram do esporte, bem como negar a atuação politizada de estrelas do futebol. A democracia corintiana, cujo rosto mais conhecido era Sócrates, é só um exemplo da imbricação entre os conteúdos esportivo e político.

Recentemente, desde quando torcidas em estádios começaram a manifestar ameaçadora burrice, alguns clubes tornaram público que discordam de atitudes beligerantes ou preconceituosas, mostrando mais uma vez que há momentos nos quais futebol e política se misturam. As ilustrações desta postagem, disponíveis no Twitter do brilhante Mauro Cezar, exibem alguns dos clubes que se posicionaram contra a intransigência. 

Biologia e psicanálise

Há espécies 
que giram 
em torno 
do próprio rabo.

Há espécies 
que querem 
policiar o alheio. 

Pelo direito à jabuticaba

Hamilton Mourão disse que o décimo terceiro salário é jabuticaba. Na analogia dele, jabuticabas e décimo terceiro são coisas que só existem no Brasil. O que ele disse, seja por ignorância, seja por má-fé, não é verdade, pois outros países pagam o décimo terceiro salário.

#MourãoNão #JabuticabaSim

Francisco, o papa

Editorial escrito por Silvio Caccia Bava e publicado na edição deste setembro no Le Monde Diplomatique Brasil tem estes dados: 49% dos que têm mais de 25 anos ainda não completaram o ciclo do Ensino Fundamental (IBGE); 95 milhões de brasileiros têm renda de até R$ 14,00 por dia (46%), e 41 milhões, renda entre R$ 14,00 e R$ 21,00 por dia (20%). O argumento de Bava é que num cenário como o brasileiro, é preciso ser simples para se falar a linguagem do eleitorado.

Essa simplicidade é uma arte, pois ela não é sinônimo de simploriedade. Ser simplório é fácil; ser simples é difícil. No mundo de hoje, penso que dois líderes têm o dom da simplicidade: o Mujica, que foi presidente do Uruguai, e o papa Francisco, embora o pontífice argentino tenha de lidar com esta mancha asquerosa da igreja católica, que são os casos de pedofilia ao redor do mundo. Fiéis e parte do clero cobram dele mais energia ao punir religiosos pedófilos.

Um espírito aberto há de considerar alentador acompanhar as declarações do papa, que já enfrenta oposição na ala mais conservadora da igreja. Sem medo de dizer o óbvio, valendo-se de uma linguagem acessível, Francisco, para as multidões, entrega uma mensagem comprometida com a fé dos católicos e com a atualidade. Ontem, no Twitter, ele publicou: “Rezemos para que no mundo prevaleçam os programas de desenvolvimento e não aqueles para os armamentos”. Simples, de fácil compreensão, mas não simplório. 

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

A Época do cinismo

A revista Época tentou fazer um mea-culpa, dizendo ser contra o fim da democracia. Dentre outras coisas, escreveu a revista: “As democracias eram solapadas no passado por golpes militares, revoluções, incêndios e tumultos. Desmoronavam em meio à guerra e à peste. (...) As democracias não morrem mais assim, como bem argumentam os cientistas políticos americanos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. Na maioria dos casos modernos, as democracias são corroídas lentamente, em passos pouco visíveis”. Nem tão pouco visíveis assim. A Época faz parte das organizações Globo, e a Globo, não podemos nos esquecer, já apoiou dois golpes: o militar de 1964 e o institucional de 2016.

Prossegue a revista: “É preciso dizer um altissonante ‘não’ àqueles que querem romper as regras do jogo democrático, que negam a legitimidade dos oponentes, que cultivam a intolerância ou encorajam a violência, aqueles que admitem a restrição — mínima que seja — às liberdades civis. Basta do arbítrio que já macula o passado!”.

A desfaçatez da revista é a mesma com que outros representantes da imprensa e dos meios de comunicação têm agido. Veja, IstoÉ, Jovem Pan, Rede Globo, Folha de S.Paulo, Estadão, dentre outros, inflamaram manifestantes cheios de anacronismos históricos e de desinformação, que, não raro, vestiam a camisa de uma empresa, a CBF, cujo ex-presidente não pode sair do país sob risco de ser preso por causa de corrupção. Revistas, rádios e TVs agiram com irresponsabilidade, abandonaram o jornalismo e agora não sabem o que fazer com os filhotinhos que criaram, pois não esperavam que a prole fosse escolher o caminho truculento.

Para uma parte da imprensa e dos meios de comunicação, readotar uma política neoliberal era o plano. Não contavam com a assunção descarada de gente que apoia tortura, assassinato, gente de “bem” que quando regurgita “bandido bom é bandido morto” não pensa num Geddel, por exemplo. Uma publicação como a Época dizer que “é preciso dizer um altissonante ‘não’ àqueles (...) que cultivam a intolerância ou encorajam a violência” é tão cínico quanto um torturador dizer que preza pela integridade física dos que mutila. 

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

O todo

Sonhos de larvas,
realidades de aves.
Munido de asas e de pés,
acha trechos de céu na terra,
de terra no céu.
Telúrico e elevado,
serve a dois senhores. 

Chamas e mesóclises

O país ruiu. Para piorar, ontem, o incêndio no museu do Rio. E o Brasil não é fênix.  “Até que enfim temos um presidente que sabe falar, que sabe português”, disseram os pró-golpistas logo após Temer ter solapado a presidência. Pois aquele cujo português foi elogiado cortou e congelou gastos na... educação. Há vários modos de queimar um país. Nem todos são por intermédio de chamas. 

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Da linguagem

Há uma discussão entre os adeptos da gramática e os que acham que ela deve ser totalmente banida. À parte o que pensa cada um dos grupos, linguagem é poder. Uma revolução que se preze ou uma emancipação genuína para o indivíduo passa pelo domínio da linguagem. Se esse caminho será atingido por intermédio da gramática, da leitura, da mistura dos dois, da escola, do autodidatismo ou de outra abordagem, tanto faz.

É o domínio da linguagem que dá clareza num cenário que é turvo, eis o paradoxo, por causa do excesso de informação. A informação em si é linguagem. Assim sendo, pode ser manejada, burilada. Pode servir a um fim, a uma ideologia, a uma arte, a uma ciência, a uma manipulação. Seja no indivíduo, seja na coletividade, há uma consistência que somente pode ser alcançada a partir do domínio da linguagem.

A aquisição dessa linguagem a que me refiro é trabalhosa. Ela paira acima do trivial, do lugar-comum, da futilidade. É uma linguagem que se debruça sobre o que temos de essência e que procura enxergar com nitidez o embaralhamento a que somos submetidos. Por ser trabalhosa, demanda disciplina, dedicação.

Há que se levar em conta o cenário brasileiro, em que muitos não têm a oportunidade de dominar nem os rudimentos dessa mesma linguagem. Ainda que o acesso à educação, em termos proporcionais, tenha melhorado se comparado a séculos anteriores, tal acesso não é universal. No caso do Brasil, nem sei se um dia será.

O embate entre os defensores da gramática e os defensores do banimento de qualquer gramática é menor diante da gravidade que há no não domínio da linguagem. Quem a domina e quer usá-la para fins escusos tem interesse em que os outros não a dominem. O cidadão que domina a linguagem cria para si um caminho para ir mais longe no que é e um escudo para se proteger do que o mundo pode ser. 

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

O velho e o jovem

Por vezes, 
esboçou conjugar 
o ímpeto juvenil
e o pouco de sensatez
da maturidade.
Mas não.
Foi um jovem imbecil
e tornou-se um velho enfastiado. 

Daciolo e a maçonaria

Há dias, assisti a um vídeo (não sei quando ele foi gravado) em que o aloprado Daciolo disse que, se eleito for, vai expulsar a maçonaria do Brasil. Temer é maçom. Será que o Daciolo diria para o golpista "fora, Temer"? 

Burocracia

José foi para o céu.
Não entrou porque não tinha
a papelada requerida pelo sistema.

José foi enviado para o inferno.
Não entrou porque Lúcifer encasquetou
estar faltando um carimbo numa das vias do formulário.

Sem ter para onde ir, José está no limbo.
Lá ficará, preenchendo papéis eternidade afora. 

Fronteira

Se é pobre, 
moreno ou negro e 
fala espanhol, 
querem fustigá-lo.

Se é rico, 
branco e 
fala inglês, 
tapete vermelho. 

Um celular e um corpete

Os cidadãos de Patópolis estavam indignados contra os políticos. A situação no país era periclitante. Ana Maria inflou o peito, olhou-se no espelho, saiu do banheiro, apagou as luzes da casa e foi para o coreto da cidade, que ficava numa ampla e arborizada praça. Joaquim Santos, o homem mais rico da cidade, discursou. Pedro Matias, o mais pobre, discursou. Na pequena multidão, cartazes contra os políticos podiam ser vistos. Ana Maria erguia acima da cabeça um desses cartazes; nele, os dizeres “Chega de corrupção!”. As letras vermelhas haviam sido escritas em caixa alta.

Era um domingo à noite. Na manhã do dia seguinte, Ana Maria foi para Passarópolis, onde estudava. Ela aproveitou os quarenta minutos da viagem para fazer as contas de quanto tinha para receber dos alunos da outra turma. Nos cálculos de Ana Maria, o dinheiro daria para ela comprar um novo modelo de celular e um corpete. Terminadas as contas, conferiu os arquivos que enviara, por intermédio de aplicativo de mensagens, para os alunos. Eram fotos que ela tirou de uma prova que havia feito três dias antes. Como a professora geralmente aplicava a mesma prova nas duas turmas, sempre havia ávidos compradores dos arquivos de Ana Maria.

Ela havia criado um grupo de vinte e duas pessoas em aplicativo para celular. Nas mensagens que trocavam, acertavam os valores da transação. Ana Maria sabia que uma vez passadas as fotos para os alunos, os arquivos poderiam ser enviados para outros estudantes, o que ela levava em conta na hora de definir quanto cobraria pelas fotos.

Enquanto o ônibus se movia, Ana Maria estava contente, já se imaginando com o celular e o corpete novos. No sábado seguinte, data em que os cidadãos haviam marcado outra manifestação contra os políticos, Ana Maria, em vez de compor outro cartaz, fotografou os protestos com um celular novinho, deliciando-se com os recursos do aparelho e com a textura do corpete. 

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Fotos com drone (2)













Haicai 72

No relógio, tique-taques.
De madrugada, irritam
teus velhos achaques. 

Sobre a formalidade

Investe-se demais na informalidade. Isso, em si, não é o problemático. O problema, todavia, ocorre quando se apoia na informalidade excessiva para não se assumir aquilo que daria trabalho para ser levado a cabo. Seguindo essa linha, ancora-se na informalidade para não ter de se entregar a um aprendizado ou a um dever.

Qualquer pessoa que tenha algum domínio da língua portuguesa e que use esse conhecimento em suas relações é, com frequência, considerada pedante, chata, careta. Pode haver pedantismo, chatice ou caretice no modo como uma pessoa usa o idioma, mas o cuidado com ele não é necessariamente sintoma de algo negativo.

O excesso de informalidade acabou criando a cultura do descompromisso, do estranhamento quando alguém opta pelo uso esmerado das palavras. Nesse quadro, alimenta-se a ideia de que o uso com capricho da língua está, pela existência dele em si, ligado a algo formal. Tal ideia não se sustenta. Na descontração, no carisma e no humor pode haver o cuidado com o modo como nos expressamos.

Caretas são o machismo, a xenofobia, o racismo, a intolerância, a prepotência. Buscar a excelência ao escrever e ao falar não impede adequação da linguagem nem transforma de modo compulsório um indivíduo num chato. Muitos nem se dão conta de que o excesso de informalidade pode ser invasivo, constrangedor, perturbatório.

É mais fácil dizer que o outro é formal ou é empolado do que assumir a tarefa de tentar soar bonito, grandioso, respeitoso. Ancorados em seu comodismo, muitos preferem enxergar formalidade ou chatice em quem muitas vezes tem, sim, respeito pelo outro e amor pelo idioma. 

Veja só

A editora Abril, que publica, dentre outras revistas, a Veja, dá, agora, prova de sua desonestidade não somente em seu carro-chefe, mas também em não pagar os direitos dos profissionais que demitiu recentemente. Cerca de oitocentas pessoas foram recentemente mandadas embora pela família Civita. Dessas oitocentas pessoas, cento e cinquenta são jornalistas.

É direito da editora contratar e demitir quem ela quiser, quando quiser. O direito que ela não tem é o de dar o cano nos que trabalharam para ela. Desonesta com o país, qualquer um sabe que a Abril sempre foi. O que eu não sabia é que ela é desonesta na hora de pagar direitos trabalhistas de quem ela demite.

Os jornalistas que foram dispensados criaram um comitê, que por sua vez emitiu comunicado em que tornaram público o vilipêndio da Abril na recusa da editora em pagar o que a lei ainda assegura a trabalhadores. O vexaminoso comportamento da família Civita me remete a Balzac, para quem “por trás de toda grande fortuna há um crime”.

A Veja, a despeito de não fazer jornalismo, vai continuar tendo um séquito à disposição, leitores que seguirão acompanhando o semanário, ainda que a revista abandone o papel e se torne disponível somente em telas eletrônicas. Quanto aos processos que receberá por parte dos profissionais que demitiu, a família Civita sabe que está do lado mais forte na disputa que terão contra ela.

Os que dizem que a Veja abandonou o jornalismo e passou a se dedicar a outro tipo de coisa, do modo como vejo, erram no julgamento: não há como abandonar o que nunca se fez. Outra frase do Balzac se aplica também à revista da Abril: “Se a imprensa não existisse, seria preciso não inventá-la”. A Veja vai continuar existindo. 

sábado, 4 de agosto de 2018

Engastalhados

Abraço não desejado
de mil e um abraços,
camisa de força,
o mundo engastalha.

A mosca ficou engastalhada no cortinado.
O inseto ficou engastalhado na teia.
A raposa ficou engastalhada na armadilha.
O homem ficou engastalhado na vida. 

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

O chamado de Dom Quixote

Dom Quixote é uma alma boa, um coração puro. Ele é a vontade de que o mundo seja um lugar justo. Jamais será. Mesmo assim, embora Quixote lute contra o que seu delírio vê como inimigo, a essência do que o move, que é o desejo de uma vida bonita e sem ultrajes, é bonita demais. Quixote vale não pelo que tem de risível, mas pelo que tem de puro, por seu desejo em lutar a favor dos desvalidos. (Sobre alguém ser risível, Melville, outro gigante, no monumental Moby Dick, escreveu: “O homem que tenha alguma coisa de abundantemente risível a seu propósito, estai certos, há nele mais do que supondes”, segundo tradução de Pericles Eugênio da Silva Ramos.)

Quixote será sempre perdedor na labuta a que se propõe; mesmo assim, ela deve ser realizada por ser nobre. Louco, lírico, delirante... Quixote ensina não somente sobre a natureza da insânia, mas também, e principalmente, sobre a beleza de um ideal bonito. Ainda que se alegue insanidade para ele e sanidade para nós, o doce cavaleiro nos ensina que existe uma centelha de pureza e de preocupação com o destino dos que não têm vez. Quixote nos revela que loucura são o comodismo, a pasmaceira, a futilidade. Ele não está sozinho, Sancho Pança não está sozinho, eles estão conosco — e o mundo está cheio de moinhos. Prontos para a batalha?... 

A lama do negócio

Dependendo do anúncio que estejam criando, é natural agências publicitárias buscarem linguagem descontraída. Essa linguagem ou o tom coloquial, por si, não são erros nem indícios de falta de domínio do português. Ainda assim, há casos em que as agências pecam em seus textos por não contarem em suas equipes nem com redatores que tenham algum domínio do idioma em que escrevem nem com revisores que tenham olhar de lupa para os anúncios que serão veiculados.

Agências publicitárias adoram dizer que cuidam bem da imagem do cliente. Todavia, negligenciar o português é sintoma de descuido dessa imagem. O dono de uma empresa pode até não ter ciência das dificuldades da língua portuguesa, mas ele não gostaria de saber que há erro em anúncio de sua empresa.

O curioso na história é que, não raro, as agências dão menos importância ao português até quando divulgam ou comentam o próprio trabalho. Por um lado, aprenderam a editar bem as imagens, a criar “layouts” bonitos, envolventes, modernos, agradáveis; por outro, no todo, agências publicitárias não contam em seus quadros com redatores preparados.

Numa olhadela em textos produzidos por algumas empresas de publicidade, eu me deparei com “padrão estético suave [...] mais cheio de significados”, “sintetizamos às principais áreas”, “é isso meus amigos”, “arrazo”, “os profissionais que compõe nossa seleção”... Com exceção deste último, fossem os trechos que citei interpretados por um locutor, e não textos em telas de computadores e de celulares, não haveria problema. Só que assim como uma foto amadora ou um “layout” canhestro deporiam contra uma agência e contra o cliente que ela atende, um texto desleixado depõe contra também.

Por melhores que tenham sido o atendimento e os bastidores de uma campanha, o que chega ao público deve ser profissional. O que se vê na publicidade nacional é o desconhecimento de noções básicas da língua portuguesa. Nomes como Fernando Pessoa escreveram anúncios publicitários e teorizaram sobre a propaganda. Redatores de agências não têm a obrigação de serem literatos, mas têm o dever de saber os rudimentos do idioma em que escrevem. Isso também é cuidar bem do cliente, é respeitá-lo, é ser profissional.

O português vacilante conspurca o que pode estar visualmente bonito ou bem interpretado numa locução. É nítido o quanto o pessoal da publicidade e da propaganda lida bem com programas de edição de fotos, de vídeos e de áudios, bem como é claro o quanto lidam mal com as palavras. Mas, elas, as agências, parecem não se importar com isso. Nem os clientes. 

terça-feira, 31 de julho de 2018

Apontamento 377

Leio para estudar o idioma, para me estudar, para te estudar. Ler é um modo de amar, um jeito de amor. 

Fotopoema 419 / Haicai 71

Fotos com drone (1)










Garoto-propaganda afiado

Do ponto de vista estritamente comercial, o anúncio da Gillette estrelado por Neymar é um sucesso. Ainda sob a ótica marqueteira, investir num texto piegas foi a decisão certa, pois a pieguice comove muitos. O tom é de se buscar uma simbiose entre o "herói" e o público. Se os dois estiverem em sintonia, o "herói" erguer-se-á.

Esse é o astral da estratégia. Todavia, nessa vida tão multifacetada, nem tudo é dinheiro. O comercial soa falso não só pela abordagem melosa, mas porque o jogador não caiu num sentido metafórico. As quedas dele em campo, não importa se fingidas, não importa se inevitáveis, compõem o que faz parte da profissão dele: todo jogador de futebol cai. Ao querer transformar as quedas em campo de Neymar em metáfora que simbolizaria o erguer de quem estava arrasado, a peça publicitária parte da premissa de que houve derrocada do jogador fora (e dentro) de campo, o que não ocorreu. Tanto é assim que num evento ocorrido recentemente em São Paulo, o pai do jogador disse que a carreira do filho continuaria sendo gerenciada como vinha sendo. O comercial da Gillette prova que o pai do atleta falou a verdade.

Neymar não é um derrotado, não caiu, não ruiu. Mesmo nunca tendo sido eleito o melhor do mundo (numa premiação em que um sujeito como o ex-técnico Parreira vota) nem nunca tendo ganhado uma Copa do mundo (título que ele ainda pode conquistar), Neymar é um profissional bem-sucedido. O comercial da Gillette é só a mais recente prova disso.

Tudo na produção foi pensado para causar empatia. Em muitos, causou e vai causar. Só que a pieguice destrói o potencial, a eficácia e o efeito de um texto. Claro que o apelo fácil à comoção era um dos objetivos do comercial. Reitero: foram bem-sucedidos. Mas a ideia de fragilidade e de humanidade veiculada num anúncio publicitário não me comove. Neymar continua sendo um eficiente garoto-propaganda e não é ainda o garoto-futebol que mídia e anunciantes insistem em dizer que ele é. 

sábado, 21 de julho de 2018

Que livro você é?

A edição da revista Quatro cinco um deste julho tem texto de Ramin Bahrani; ele fez refilmagem e roteiro de Fahrenheit 451, que já havia sido adaptado para o cinema por François Truffaut, em 1966. Tanto a versão de Truffaut quanto a de Bahrani têm como base o indispensável livro de mesmo título, publicado em 1953 por Ray Bradbury.

Admiro a coragem de diretores que ousam adaptar para o cinema um grande livro, pois existe a conhecida brincadeira a afirmar que, em geral, livros ruins dão filmes bons e livros bons dão filmes ruins. Tanto o filme de Truffaut quanto o de Bahrani não confirmam a “tese” da brincadeira.

A refilmagem de 2018 incorporou a internete como elemento. Aliás, na distopia do filme, essa internete (ou o desdobramento dela), embora tenha preservado comportamentos bizarros fáceis de serem conferidos em postagens ou comentários de redes sociais ou em sítios de notícias, é a detentora absoluta das mentes dos que nela navegam, algo que já ocorre e que se agiganta mais do que a capacidade de armazenamento dos dispositivos eletrônicos. A distopia no filme de Bahrani tem elementos facilmente identificáveis em qualquer regime totalitário, de modo que não há como o espectador não se remeter, por exemplo, a outra poderosa e eloquente distopia do século XX, 1984, do George Orwell, publicado em 1949. 

Fahrenheit 451 não deixa de tocar a ferida: se a sociedade que exibe é regida por opressores que não querem ter acesso a livros, a conhecimento, a liberdade, assim é por elas, as pessoas, terem permitido que as coisas tomassem o rumo que tomaram. Sem cair em discursos longos ou em libelos juvenis contra a publicidade e contra o controle absoluto nas mãos de poucos, Bahrani não deixa de evidenciar o perigo que há quando a tecnologia, para o cidadão, torna-se um fim em si mesma e não um instrumento para que a pessoa seja alguém melhor, enquanto, para o governo, torna-se ferramenta de esmagamento de individualidades. Essa mesma tecnologia, no filme, faz com que a queima de livros ou de pessoas seja espetáculo curtido e compartilhado, enquanto as imagens ardentes aparecem nas paredes dos edifícios. Mesmerizadas pelo show, as pessoas não têm acesso às palavras que poderiam esclarecer o que ocorre na abafadora atmosfera de Fahrenheit 451.

Em determinado momento do filme, uma personagem diz: “O Ministério tem apagado línguas a fim de apagar o pensamento”. Volto a Orwell; em 1984, há o mesmo procedimento, o de se eliminar a linguagem para se manipular o outro. Aliás, a perda da palavra, do verbo, é o mesmo que acomete os humanos no magnífico O Planeta dos Macacos, publicado em 1963, do Pierre Boulle.

Claro que não é coincidência 1984, Fahrenheit 451 e O Planeta dos Macacos lidarem com a perda da capacidade de verbalização. Reflexos de seu tempo, essas obras têm o cerne das distopias, ou seja, não são exercícios de adivinhação nem são deduções do porvir. Elas são hipérboles ou recrudescimentos de tendências que já estavam presentes na época em que foram escritas. O filme de Ramin Baharani manteve a essência da distopia de Bradbury no universo sufocante que exibe e no amor pelos livros que teima em existir.

O amor pela palavra vai permanecer porque ele é o amor pela humanidade. Podem queimar livros, podem queimar pessoas, podem tentar impedir a rebeldia, podem matar, incinerar, deletar, prender. Não conseguirão impedir o voo das palavras. Vocês passarão, elas passarinho. 

quinta-feira, 19 de julho de 2018

ESPN

Na chamada grande imprensa e nos chamados grandes meios de comunicação, infelizmente, quase que apenas os profissionais da área esportiva têm feito jornalismo contundente no Brasil. Essa contundência faz com que, não raro, resvalem em temas que, a rigor, deveriam ser abordados por colegas de outras áreas. Ainda bem que o bom jornalismo esportivo tem levado em conta não somente o esporte em si, mas tem entendido que há aspectos sociológicos e políticos que se refletem no esporte.

Dos meios de comunicação do Brasil, a ESPN tem feito um serviço louvável. Ao mesmo tempo em que se dedicam a analisar, principalmente o futebol, sob o ponto de vista tático e sob o prisma das contratações e dos bastidores, entendem que há outras facetas que precisam ser mencionadas. Ao mencioná-las, a ESPN faz um jornalismo gigante, ético e de fato comprometido com o país e seu esporte. Muitos não entendem essa abordagem, por preferirem pseudonacionalismos ou patriotadas em formas de gritos. Os que não percebem o poder da sutileza e da inteligência amiúde concluem que a ESPN não torce a favor do esporte brasileiro.

Em redes sociais e em sítios, acompanho alguns dos integrantes da equipe do canal. Um dos que acompanho é o Breiller Pires, que escreve para o El País Brasil. Seja na TV, seja no espaço em que escreve, Breiller se mostra um conhecedor do futebol, das implicações político-sociais-ideológicas que pode haver nele e do idioma. Muitos alegarão que o domínio do português é condição básica para se exercer o jornalismo, mas não é o que tem ocorrido. Por isso, aludi ao português do Breiller Pires, não importa se escrevendo para o El País, não importa se falando na ESPN.

Outro que acompanho, via Twitter, Instagram e Youtube, é o Mauro Cezar. Em suas redes sociais, além de exibir o apurado senso crítico e a aguda inteligência, que já podem ser conferidos na ESPN, o comentarista não se cala diante dos que arrotam ignorância (a resposta do Mauro a um desses sem capacidade de expressão ilustra esta postagem).

Mesmo deixando de ter direitos de transmissão de grandes campeonatos de futebol, a ESPN é um refrigério para os que acreditam no poder que o jornalismo tem. As concorrentes do canal ou apelam para um assepsia acrítica ou para um histrionismo cansativo. A ESPN acerta no tom e na crítica (que assim continuem). O tipo de jornalismo que fazem surpreende, levando-se em conta que a corporação Walt Disney é a dona do canal. Já demitiram o José Trajano, o que foi uma baita perda para a emissora. Mesmo assim, que continuem a fazer no Brasil o que deveria estar sendo feito pelas outras corporações também: jornalismo. 

domingo, 8 de julho de 2018

Resenha sobre meu livro

A “booktuber” Isabella Lubrano, do canal Ler Antes de Morrer, publicou resenha de meu livro Anacrônicas.

sábado, 7 de julho de 2018

Reflexo em campo

É natural que muitos se perguntem o que estava errado quando o Brasil é eliminado de uma Copa do mundo. O torneio de seleções passado, realizado aqui, deixou gritante um traço que não é somente do jogador de futebol brasileiro, mas do brasileiro como um todo: falta de preparo psicológico. Pode haver essa falta de preparo em qualquer idade e em qualquer profissão, e quando se está diante de uma situação drástica ou decisiva, o despreparo desestrutura o indivíduo.

Em 2014, na Copa realizada aqui, a imagem de um Thiago Silva combalido e sentado na bola ilustra a fragilidade psicológica daquele time (e também a deste de 2018). Há momentos na vida em que é preciso haver lastro para que se esteja apto a suportar eventuais grandes desafios. Qualquer um com um pouco de imaginação é capaz de imaginar a gigantesca pressão que há sobre um jogador que disputa uma partida decisiva numa Copa do Mundo. No caso do Brasil, esse jogador não tem na Confederação Brasileira de Futebol uma empresa que se preocupa com o esporte que gerencia. Não bastasse, há o traço sociológico do oba-oba, do improviso, do jeitinho, da ideia de que basta o talento para se ser bem-sucedido em momentos cruciais.

Não faria sentido subestimar o talento, não levá-lo em conta. Só que mesmo em esportes coletivos, o talento, por si, não consegue resolver tudo. E mesmo o talentoso ou mesmo o gênio (o que é algo muito, muito raro), se não tiverem o mínimo de maturidade para lidar com seus talentos (ainda que não haja tal maturidade em outros aspectos da vida), não poderão exercer suas capacidades em plenitude. Mesmo a genialidade requer um mínimo de disciplina.

Não avisto para breve no horizonte uma mudança em nosso famoso jeitinho: o futebol aqui praticado vai continuar sendo comandado pela incompetência da CBF e a ideia (que não corresponde aos fatos atuais) de que somos o melhor futebol do mundo vai continuar sendo bombardeada nas mídias e incentivada por internautas “anômimos” e por ex-jogadores, “parças” que, em redes sociais, repetem chavões que nada acrescentam para a melhoria do futebol, dentro ou fora do campo.

No esporte individual, é possível ao atleta fugir do que é a moeda corrente em seu país de origem. No caso do esporte coletivo, é mais difícil, pois é pouco provável que a maioria dos jogadores de uma equipe tenham a percepção de que há como ser divertido ou espirituoso sem cair no descompromisso ou na crença de que basta o talento para se resolver as coisas.

Numa atmosfera assim, em que a entidade que comanda o futebol nacional é gerenciada por quem nem deve saber o que é uma bola e num país em que disciplina e seriedade são características consideradas caretas, é espantoso o futebol nacional ter tido as conquistas que já teve. Se, como um povo, assumíssemos nossos defeitos e se nos comprometêssemos a assumir que autocomplacência imatura não faz ninguém crescer, isso poderia criar uma onda que chegaria aos gramados. Mas o que chega a eles é o nosso despreparo e nossa falta de disciplina e de seriedade. Poderíamos ser mais, dentro e fora de campo. 

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Haicai 71

Na mente, entulho.
Pensamento cismado
é fonte de barulho. 

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Textual

Ana não conhecia 
Renato pessoalmente.
Ela sabia que ele
era escritor.
Ele sabia que ela
era apresentadora
de um programa de TV.
Mantiveram contato
por telefone.
No dia seguinte,
ela estava lendo 
um livro dele.
Nesse mesmo instante,
dormindo, ele estava 
sonhando com ela.
Mas só em texto foram
versos de um mesmo poema. 

terça-feira, 3 de julho de 2018

Álbum de figurinhas

Num sonho, 
eu tinha figurinhas
de um álbum.
Todas repetidas.
Se você as quiser,
basta sonhar comigo. 

Oito de julho de 2014

O brasileiro tem vontade de gostar do Brasil, ele quer gostar do Brasil, o que, evidentemente, é ótimo. O lado ruim da questão é que no afã de gostar do país em que nasceu ou em que vive, muitos se apegam a ilusões que não são a essência do que é ser ou edificar uma nação.

Desde quando comecei a lidar com internete, tenho falado sobre futebol, esporte que julgo épico, conforme o que já escrevi. Dito isso, reafirmo que não sou antifutebol. Do que não gosto, é saber que a beleza desse esporte, quando jogado em alto nível, está nas mãos de pessoas que estão se lixando para o esporte do Brasil.

O jeito de alguém torcer é reflexo do que esse alguém é em outros aspectos da vida. Se ele não se preocupa em se informar (sobre o futebol), contentando-se apenas em torcer, isso acaba criando uma cultura que nada acrescenta para ele nem para o esporte. Zoar é uma coisa; levar a sério certas mentiras contadas sobre o futebol praticado aqui é outra.

Depois da eliminação da Alemanha na Copa 2018, ex-jogadores e torcedores brasileiros divulgaram em suas postagens que a organização do futebol alemão nada tem para ensinar para o brasileiro. Disseram platitudes usuais tais como “só o Brasil tem cinco estrelas”, “é preciso respeitar o futebol brasileiro”... Ironizaram o jeito alemão de tratar o futebol deles. Declarações assim somente reafirmam o lado ruim do jeitinho brasileiro.

Quanto à Alemanha, o fato de ela ter sido eliminada na primeira fase desta Copa de 2018 não apaga o vexame do Brasil em 2014, lá em Belo Horizonte. Dizer que a organização da Alemanha não tenha valido a pena por ela ter sido eliminada na primeira fase desta Copa é se esquecer da tunda de 7 a 1 que o Brasil levou.

É justamente o que parte da mídia prega, o esquecimento do avassalador 7 a 1. Fosse haver alguma responsabilidade por parte dessa mídia que prega o olvido ou prega a ausência de informação por parte de torcedores que querem amenizar a derrota do time brasileiro aqui no Brasil, o 7 a 1 não deveria ser esquecido, mas, sim, usado para se aprender alguma coisa.

Todavia, isso não vai ocorrer. A imagem de que somos o país do futebol é mais forte do que qualquer vontade de estudar, de aprender, de ler ou de assumir que a organização de nosso futebol, mancomunado com os barões da mídia, é de um amadorismo que atravanca o progresso desse esporte por aqui. Fia-se no talento, no improviso, no jeitinho; prefere-se ignorar os fracassos. Mas isso não é novo. O jeito de parte do brasileiro e de parte da mídia lidar com o futebol é o mesmo quando se trata de outras questões importantes. 

Tite o Osório

Muito tem sido dito sobre a entrevista do Osório, técnico do México, após a derrota para o Brasil pela Copa. Não entendo o trecho “futebol é para homens”, falado por Osório, como machista. Entendo, no caso dessa entrevista dele, “futebol é para homens” como sendo igual a futebol não é para moleques, não é para meninos mimados. Estando eu correto ou estando eu errado em minha interpretação, não estou errado ao dizer que a crítica do Osório foi contra o Neymar.

Osório argumentou ainda que o jogador brasileiro é um mau exemplo, em função de uma teatralidade desonesta, antiesportiva. Logo, logo, foi resgatada uma entrevista do Tite, concedida em 2012, em que ele critica Neymar pela teatralidade antiesportiva do jogador, quando Tite era o técnico do Corinthians, e Neymar era jogador do Santos. A entrevista de Tite em 2012 e a de Osório depois da derrota para o Brasil nesta Copa têm algo em comum: ambos disseram que Neymar é um mau exemplo.

Tanto Tite quanto Osório escancararam a condição humana. Numa análise ideal, Tite deveria condenar Neymar publicamente (o que ele, Tite, fez em 2012) pela teatralidade do jogador durante esta Copa. Só que agora Tite é técnico do Neymar. Em conversas particulares, o técnico até pode ter chamado a atenção do jogador (não se sabe se isso ocorre(u)), mas, em público, não quer causar um possível mal-estar no time.

Ao defender Neymar agora, durante a Copa, o técnico conferiu dois pesos para a mesma medida, para o mesmo comportamento, para o mesmo jogador. Ao defender Neymar, Tite, no mínimo, foi contraditório. Boa parte da imprensa e dos meios de comunicação parece estar com medo de dizer isso, pois, no todo, o técnico tem sido incensado, bajulado.

Ele foi contraditório, mas exigir dele que não fosse seria esperar demais de um ser humano. Pode-se argumentar, com razão, que no futebol os técnicos quase nunca admitem que erraram ou que determinado jogador deles é desleal ou tem comportamento antiesportivo. A questão é que essa falta de ímpeto ou de coragem ou de sinceridade não se dá somente no universo do futebol. O ser humano, no dia a dia, muito raramente tem a... ousadia de assumir publicamente questões melindrosas ou contraditórias.

As coletivas do Tite são enfadonhas, estudadas demais, delicadinhas em excesso. Não bastasse, há uma parte dos repórteres que o poupam de questionamentos incisivos, mesmo sendo eles necessários. À parte isso, ainda que ele não ganhe esta Copa nem outra qualquer no futuro, Tite já é um sujeito vitorioso na profissão de técnico.

A entrevista em que ele defende Neymar quanto a algo que ele mesmo, Tite, já havia criticado o jogador merece reprovação. Mesmo assim, em situações assim, levo em conta que coragem, rebeldia, ousadia e honestidade não são predicados comuns em nós, não importa a profissão. Isso não elimina a contradição de Tite, mas revela que ele é tão humano quanto eu e quanto você.