quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Sessão de autógrafos do livro Dislexias

























(Fotos: Alexandre Rosa)

Ontem à noite, na Casa Grande — Cervejas Especiais, ocorreu sessão de autógrafos de meu livro Dislexias. Ao João Paulo, proprietário da casa, e à Fabiane Araújo, obrigado por ceder o espaço e pela colaboração.

Ao Gabriel CZ e à Kelle CZ, obrigado pela força nos bastidores.

Ao Alexandre Rosa, obrigado por ter fotografado a noite.

À Fabiana Gonçalves Melo, obrigado pelo incentivo sem fim e pelo apoio logístico na noite de ontem.

Obrigado a todos os que compareceram. 

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Amor escrito

Eu escrevo para ti.
Escreves para mim.
Escrevemos para nós
as mesmas coisas.

As mesmas coisas
que escreveram
os que escreveram
o amor que tiveram.

Nosso amor é o mesmo.
Um mesmo que é nosso.
Sendo nosso, é único.
É amor, é todo amor.

Ao escrever um para o outro,
escrevemos as mesmas coisas.
As mesmas coisas escritas
por todos os que amaram.

Somos nós todos os amores,
somos o amor que é nosso.
Somos outros e o que somos.
Nós e eles, todos os amores. 

Esquece o penteado

Desconheço invenção mais bela do que uma mulher de cabelos desgrenhados. Esse desgrenhamento pode ser espontâneo ou pode ser feito de caso pensado. Pode ser causado pela própria dona dos cabelos, pode ser elaborado num salão ou pode ser esculpido a partir das mãos de quem a mulher escolher para amar.

Há um momento nas preliminares e depois do amor feito em que a mulher pode ter no rosto a beleza, a sensualidade, o olhar brilhante e a malícia. Em momentos assim, os cabelos, fora de ordem, são a criação mais robusta e bela da natureza.

Cabelos desgrenhados evidenciam o poder do que é sensual, sugerem liberdade, convidam sem apelos desesperados. Desestabilizados, desestabilizam, atiçam. A beleza e a poderosa latência da natureza estão numa mulher de cabelos desgrenhados. São a força da selvageria aliada à corporificação do belo. Momento em que a mulher gera vontade de tato, de contemplação, de sexo. 

Dislexias na Casa Grande

Hoje, na Casa Grande — Cervejas Especiais, sessão de autógrafos de meu livro Dislexias. Ao mesmo tempo, haverá mais uma edição do Bolacha com Cerveja, em que Gabizão Alves, manejando discos de vinil, vai executar rock progressivo.

A Casa Grande fica na Pará 408, pertinho do antigo 1ª Via Shopping. O evento começa às 19h. Aguardo vocês. 

domingo, 11 de setembro de 2016

Convivências

O ímpeto que me levou à luz me trouxe a escuridão.
Eu percorro claridades sem me esquecer do que 
ensinam as noites sem cidades e sem luas.
Insurjo-me contra o que não brilha e contra
aquilo que não aprendeu a ser escuro pleno.
A luz que ofusca, o breu que impede a visão.
Eu cortejo os dois, eu os misturo em amálgama,
alquimia poderosa feita de pulso selvagem e ato.
Componho cantos para a luz de minha casa,
eu teço odes para a escuridão onde moro.
Não saio para a luz sem levar meu escuro.
Não entro no escuro sem acender minha luz. 

Sessão de autógrafos

sábado, 10 de setembro de 2016

Repercussão

Fotopoema 396

Conto 87

Certa vez, sentindo desconforto nas costas, Tadeu pediu a Maria das Dores, com quem era casado, que fizesse massagem nele. Gostou. A seguir, pediu a ela que se deitasse de bruços sobre ele. Gostou. Continuando deitado, pediu à esposa que caminhasse sobre as costas dele. Gostou. Hoje em dia, sempre se regozija quando Maria das Dores o pisa. 

A indicação de Reinaldo Azevedo

A edição que tenho do “Ética”, do Spinoza, foi publicada pela Autêntica. A orelha do livro contém um texto impagável, que é parte da exclusão do filósofo do judaísmo. Um trecho: “Nós (...) expulsamos, amaldiçoamos e esconjuramos Baruch de Spinoza (...). Maldito seja de dia e maldito seja de noite, maldito seja em seu deitar, maldito seja em seu levantar, maldito seja em seu sair, e maldito ele em seu entrar”. O texto foi proferido contra Spinoza em vinte e sete de julho de 1656, quando ele tinha vinte e três anos.

Lembrei-me dessa história pelo seguinte: o cartaz de divulgação do filme “Aquarius” tem uma frase do Reinaldo Azevedo: “O dever das pessoas de bem é boicotar “‘Aquarius’”. Segundo o que li, Azevedo, dando provas de total ausência de humor, não teria gostado da ironia do cartaz. E já que ele diz que pessoas de bem devem boicotar “Aquarius”, assistirei ao filme assim que possível. 

Entre nós

Somos apenas humanos.
Houvesse alguma coisa 
lá fora para nos perdoar, 
perdoados estaríamos.
Na falta desse algo, 
que não nos falte perdão. 

Mais um convite

Pessoas, na terça-feira, dia 13/09, vai haver mais uma sessão de autógrafos de meu livro Dislexias. Vai ser na Casa Grande — Cervejas Especiais, a partir das 19h. Fica na rua Pará 408, pertinho do antigo 1ª Via Shopping. Aguardo vocês.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Os Pessoas e eu

Ser o que se é em cada minúcia.
Aprender com os outros, ser os outros,
sem deixar de ser o que se é.
Ser os outros ao modo do que se é.
Ser quem se é à maneira do que se é.
Assim sendo, tentando escrever à
Fernando Pessoa, escrevo a meu modo. 

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Caminhante

O caminho que me leva a mim 
corre em minhas veias,
passa por ti, por águas e livros.
Meu caminho tem silêncios 
e pistas de dança lotadas.
Quero gentes e solidões,
cerrado e ruas cheias.
Quero disciplina e devaneio.
O caminho que me leva a mim
tem caminhos e desencontros. 

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Vamos combinar

Acho que eu já disse por aqui que não gosto de autorretratos nem gosto de ser fotografado. Se esta postagem tem um autorretrato meu, é só pelo fato de eu ter achado divertido a camiseta ter cores bem parecidas com as da capa de meu livro, o Dislexias. Esse não foi o único motivo que fez comprar a peça, mas foi um dos.

Por falar em meu livro, em breve, mais uma sessão de autógrafos... 

domingo, 4 de setembro de 2016

Em setembro

Ventos de agosto sopram
em setembro.
Feliz é o vento —
não sabe se é
agosto ou inverno,
não sabe
que é vento,
não sabe
que é feliz.

Feliz, sopra,
conduzindo-me
para outubro. 

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

"Sobre a escrita", de Stephen King

Jamais li um livro de ficção do Stephen King. Em minha juventude, eu me senti compelido a conhecer o trabalho do autor, depois de conferir uma entrevista com o Renato Russo em que o vocalista da Legião disse que era fã dos trabalhos do escritor americano. Mas o desejo de ler King não foi adiante.

Há coisa de uns seis meses, li um texto na revista The New Yorker em que se elogiava “Sobre a escrita” [On writing]. Desde então, fiquei muito curioso para fazer a leitura, que terminei há pouco. O livro é indispensável para quem gosta de escrever ou para quem se interessa pela carpintaria literária.

A tradução é de Michel Teixeira; a obra foi publicada pela editora Suma de Letras, braço editorial da Objetiva. É um livro que comove e que diverte. Li boa parte dele na rodoviária de São Paulo, enquanto aguardava o ônibus para Patos de Minas. Houve trechos que me deixaram com vontade de gargalhar e trechos que me encheram os olhos d’água. Não me senti à vontade, em público, nem para o choro nem para a gargalhada.

Stephen King é sucesso de público, não de crítica, a qual não raro o desanca. Esqueça a crítica e leia “Sobre a escrita”. Se por um lado não se pode ensinar alguém como escrever, por outro, isso não quer dizer que não haja atitudes a serem seguidas por quem deseja se dedicar ao ofício. É sobre isso que King escreve em seu livro.

Ele mostra o que há de prática e de prático nesse ofício. Ao falar de coisas como estabelecer metas de quantas palavras escrever por dia e de disciplina, o autor dessacraliza o ato da escrita, sem deixar de mostrar o que pode haver de mágico no envolvimento com as palavras.

O autor não abre concessões: o trabalho de escrever exige conhecimento do idioma, da gramática; exige estudo, leitura. Parecem coisas óbvias, mas é preciso que sejam ditas, para que não se suponha o escritor como alguém que recebe dos céus as bênçãos das musas. Ainda que tais musas existam, não virão sem o trabalho “braçal” de quem escreve.

“Sobre a escrita” é didático, sem ser professoral nem presunçoso. É um livro sobre o que fazer para se escrever, o que não quer dizer que é só fazer essas coisas para se tornar um grande autor. Há a intenção de ensinar, não como quem passa uma receita ou redige um manual.

É um livro generoso — de modo honesto, aberto, King compartilha com os leitores as miudezas, as dores e as alegrias do ato da escrita. Muitos preferem manter uma aura de pseudomistério quando se trata de escrever. King tem o bom senso de não cair nessas balelas. O livro está longe dos discursos dos gurus da autoajuda, que prometem sucesso em caso de determinada fórmula ser seguida. O livro não dá ao leitor um falso passe de mágica de como se tornar um mago das palavras, mas compartilha não só o pensamento de que é possível que ele, leitor, torne-se um escritor, mas também a delícia que pode ser alcançada quando se escreve.

Sem pedantismo, King enfatiza o óbvio que ou não é dito ou é maquiado: não há escritor sem trabalho e sem esforço. O autor, misturando ora sua vida pessoal e ora seus textos como exemplos, achou um tom no qual o que parece obviedade não soa como desrespeito à inteligência do leitor. Vale dizer ainda que um dos pontos altos do livro é a ênfase na ideia de que escrever é um trabalho como qualquer outro. Num texto fluente, é como se King tivesse desmontado os mecanismos ou as engrenagens que podem fazer de alguém um escritor. 

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Literatura, futebol e salmão

Eu queria comer algo de verdade. Eu havia acabado de sair da Bienal, em São Paulo. No evento, estavam vendendo sanduíches, cachorros-quentes e afins. Digo que isso não é comida de verdade. Longe de casa, num hotel que não servia almoço, perguntei para a funcionária da recepção onde eu poderia comer algo que não lembrasse um sanduíche. Ela me indicou um bar que fica bem em frente ao hotel, ao mesmo tempo em que parece ter lido em minha expressão uma certa incredulidade. Quando eu estava prestes a deixar a recepção do hotel, a funcionária disse: “É bar, mas servem comida”.

Entrei e pedi uma cerveja. Eu me sentei perto do cubículo em que o cozinheiro estava fritando um peixe. Olhando para a panela, contemplei um pedaço de salmão. Pedi a ele (não ao salmão, mas ao cozinheiro) que preparasse também para mim um salmão. Pedi ainda que houvesse pouca salada e pouco arroz. Enquanto a comida estava sendo preparada, eu ia tomando a cerveja.

O próprio cozinheiro me serviu o que ele havia preparado. Perguntou-me se eu queria outra cerveja; pedi um refrigerante. Ele foi pegá-lo. Tendo voltado, perguntou de onde eu era. Eu disse que era de Minas Gerais. Ele quis saber se eu era de Belo Horizonte. “Não, de Patos de Minas”, eu disse. Respondendo à minha pergunta sobre de onde ele era, o cozinheiro disse: “Sou de Alagoas, terra do Graciliano Ramos”.

A partir daí, iniciamos conversa sobre escritores e sobre literatura. Heleno, cozinheiro e dono do bar, já leu muito. Tem quarenta anos. Mora em São Paulo desde os dezesseis. Desde então, trabalhou em hotéis durante boa parte desse tempo. Há cinco meses, deixou o ramo hoteleiro e abriu o bar. Heleno não tem curso superior. Segundo ele, começou a estudar gastronomia, mas não terminou o curso. À medida que ele ia conversando, eu ficava impressionado com a familiaridade que ele demonstrava ter não somente com os autores do nordeste, mas também com os demais escritores nacionais e internacionais.

Ele mencionou Sade, Drummond, Machado, João Cabral, Cecília Meireles, Llosa, Suassuna... Dos autores de que falava, comentava os livros que havia lido, citava trechos, fazia referência a cenas.

A conversa rendia. Quanto mais a gente batia papo, mais eu me surpreendia com o vasto conhecimento que Heleno tem da literatura universal. Num certo momento, perguntei-lhe se escrevia. Segundo o que respondeu, não, mas que tinha vontade de se arriscar. Tentei encorajá-lo para que começasse.

Os demais fregueses do bar já estavam se alimentando. Quando queriam pedir algo, eram atendidos pela esposa de Heleno. Quando um novo freguês chegou, pedindo uma refeição, o dono do bar se afastou. Quando voltou, continuamos nossa conversa sobre escritores.

Quando eu já estava quase terminando minha refeição, o dono do bar me perguntou se eu gostava de futebol. Tive a impressão que o tom dele era de quem não acreditava que gosto de futebol. “Sou cruzeirense; e você?” Ele é flamenguista. A partir daí, passamos a falar de futebol.

Eu e ele não tivemos o privilégio de assistir nem ao Santos de Pelé nem ao Botafogo de Garrincha. Mesmo assim, elencamos os melhores times que presenciamos. Depois de ponderações, cortes e argumentos, chegamos a esta lista: o Flamengo de 1981, o São Paulo do Telê, o Palmeiras de meados da década de noventa, o Corinthians de 1998 e o Cruzeiro de 2003. Meu companheiro de conversa fez a ressalva: “Mas aquele time do Atlético mineiro do começo da década de oitenta, o time do Reinaldo, era um baita time”.

Achei curioso ele se lembrar tão nítido do Flamengo e do Atlético do comecinho da década de oitenta, pois, se tem quarenta anos, ele tinha uns seis quando esses times brilharam. Quando falamos do rubro-negro, dei a escalação do time, só que fora de ordem. Heleno escalou os jogadores nas posições que ocupavam, encostando o indicador da mão direita na mesa do bar, indicando onde estariam os atletas, como se a mesa fosse um campo de futebol.

Enquanto conversávamos, tive a ideia de dar a ele um exemplar de meu livro Dislexias. Assim que paguei a conta, atravessei a rua, fui ao quarto do hotel e peguei o livro. Voltei ao bar, fiz a dedicatória. Heleno a leu, me agradeceu e disse que faria questão de fazer a leitura. É gratificante imaginar que poderei ser lido por ele. 

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Disfarce

Arremedo de luz julga ter dissipado a neblina.
Arremedo seduz arremedo.
Amanhã, voltaremos.
Voltaremos depois de amanhã
e depois de depois de amanhã
e depois de depois de depois de amanhã
e assim por diante enquanto a luz for disfarce. 

domingo, 28 de agosto de 2016

Rastejante

Apontamento 350

O Thiago de Mello escreveu que “a poesia não é a coisa dita, mas o modo de dizê-la”. Em O Banquete, do Platão, Pausânias, em seu discurso de enaltecimento do amor, diz, segundo a tradução de J. Cavalcante de Souza: (...) “Beber, cantar, conversar, nada disso em si é belo, mas é na ação, na maneira como é feito, que resulta tal; o que é bela e corretamente feito fica belo, o que não o é fica feio. Assim é que o amar e o Amor não é todo ele belo e digno de ser louvado, mas apenas o que leva a amar belamente”. O Artur da Távola, numa de suas crônicas fala sobre o saber tornar bonito o amor que se tem. No jeito de fazer, a busca pelo belo. Caprichar no verso, nas palavras, nos atos. O que me leva a Ricardo Reis, um dos heterônimos do Fernando Pessoa: “Para ser grande, sê inteiro: nada / Teu exagera ou exclui. / Sê todo em cada coisa. Põe quanto és / No mínimo que fazes”. 

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Apontamento 349

Quando o escritor é grande, a releitura é parcial. Relembramos personagens, enredo, versos, trechos: isso, claro, é sintoma de releitura. Contudo, a releitura pode ser também leitura, por trazer ineditismos, nuances não percorridas previamente. É como se voltássemos ao rio de Heráclito. O grande livro é um rio estático. Mas é rio. Quando voltamos a nos banhar, já não somos mais os mesmos. As palavras estão imóveis, não foram reconfiguradas, não mudaram de lugar. Nós é que mudamos. Nessa mudança, quanto mais crescemos, maior é o livro-rio. 

Convite

Na terça-feira que vem (30/08), vou lançar, durante a Bienal Internacional do Livro, em São Paulo, meu livro Dislexias.

Nós vamos, não vamos?... 

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Apontamento 348

Não basta o talento para o canto: a ousadia de buscar ouvidos alheios compõe o que é o dom de cantar. Não basta o talento para a escrita: a atitude de buscar outras leituras compõe o que é o dom de escrever. Quando pleno, o talento não se fecha em si; é genuíno quando reverbera no outro. A coragem compõe também o dom de amar. 

Apontamento 347

O mundo lá fora canta. Pseudocanto da pseudossereia. Vícios, diversões tecnológicas, distrações, trabalhos inócuos. Há muita gente interessada em nosso tempo e em nossa energia. São criativos, inovadores. Tudo muito sedutor, incitante, excitante. Todavia, o canto afinado está é dentro da gente. 

Gaiolas e pássaros

1
Gaiola sem pássaro
é melhor do que
pássaro com gaiola.

2
Gaiola sem pássaro
não é solidão.
Pássaro sem gaiola
é amplidão.

3
Alguma coisa
incomodava a gaiola.
Estudou, pesquisou-se,
ponderou — agiu.
Deixando ir o pássaro,
a gaiola teve paz. 

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Rafaela

No fim de semana, fotografei a Rafaela, filha do Manoel, um amigo. Os registros foram feitos para o álbum de quinze anos. 

Proposta

Sua chegada suave não me abalou.
Você chegou, foi ficando;
de mansinho, fui gostando.

Passei a aguardar sua chegada.
Agora, em vez de chegar,
por que você não fica? 

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Exortação

Quem ama enxerga
no que ama aquilo
que o ser amado
às vezes não enxerga
dentro de si mesmo.

Admiro-te incansável.
Convivo com o que és,
sei o que podes ser.
Que enxergues em ti
o que em ti eu amo. 

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Incidências

Quando não calculo o instante,
sempre estás comigo.
Quando não meço o lugar,
sempre estás onde estou.
Coincidência isso não é: é amor.
Mas amor realizado é coincidência.
Em momento incalculável,
em lugar imensurável,
que eu incida em ti,
que tu incidas em mim. 

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Uma partida de vôlei

O jogo entre Brasil e China (vôlei feminino) terminou há instantes, no Rio. Foi uma daquelas disputas que provam que o esporte pode ser uma das mais belas invenções. Tudo foi nobre e elevado, celebração da técnica, do talento, do corpo. Um espetáculo bonito como a vida pode ser. A China, tendo eliminado o Brasil, vai disputar a semifinal. 

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Labial

Os lábios se encostam:
digo teu nome.

Os lábios se encostam:
devoro teu beijo. 

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Haicai antropofágico

Você querendo me devorar com fervor. 
Eu, com vontade, querendo te comer. 
O corpo é substância que (se) faz amor. 

(Des)apontamento 52

escrevi que Rochefoucauld e Oscar Wilde fariam sucesso no Twitter. Revi essa opinião. Não fariam sucesso no Twitter porque os aforismos deles são inteligentes. 

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Concordância

Eu:
corpo são.

Tu:
corpo são.

Nós:
corpos são. 

Por aí

Alcance

Se minhas palavras tiverem
as delícias de teu corpo,
serão deliciosas a teus ouvidos.
Estivesse eu por perto,
elas seriam, diante deles, sussurro.
Aceita, à distância,
vontades que gritam. 

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

A política local — minha “contribuição”

Não é segredo para ninguém que trabalhei numa das empresas de um dos grupos políticos da cidade. Reitero: trabalhei numa das empresas. Como patrões, fizeram a parte deles; como empregado, tentei fazer a minha.

A relação era profissional. Jamais me envolvi na disputa política nem desse nem daquele grupo; nunca fiz campanha para nenhum deles, justamente por ser desejo meu ter a cidade representada por pessoas que não coadunem com nenhum dos grupos políticos que se revezam há décadas no poder local.

Jamais estabeleci, seja com que político for, relação que não fosse profissional, justamente para me manter à vontade para não me envolver e à vontade para me posicionar como cidadão e como eleitor. A já tão incensada aliança entre os grupos políticos locais não me seduz, como não me seduziria a não aliança entre eles.

O texto a seguir, a despeito da tentativa de humor de que se vale, tem, justamente nessa tentativa, o descontentamento meu. Foi o modo que achei de ser incisivo quanto ao cenário político daqui. Na leitura do que se segue, é preciso que você ative o senso de ironia, de sarcasmo ou de cinismo.

*****

Há uma foto circulando nas redes sociais em que os dois mandantes dos grupos políticos locais estão à mesma mesa. Sobre ela, há quitutes e xícaras de café. Um dos comensais está mastigando algo; a maioria dos demais olha para a lente da câmera. Os sorrisos são discretos. Há seis pessoas na foto.

A aliança entre os dois grupos já vinha sendo ventilada há meses. Uma vez confirmada, isso vai facilitar demais a vida dos redatores na campanha política. Terão clima de tranquilidade para redigir seus textos. Nem precisarão se esforçar a fim de produzir discursos que se queiram retumbantes.

Dando minha contribuição para esse cenário, deixo, a seguir, um discurso, que pode ser adaptado ou modificado a bel-prazer, de acordo com o que pedirem as circunstâncias. O texto é um esboço em que os dois grupos podem se pautar quando apresentarem o programa de poder que estão urdindo.

Com o objetivo de acentuar o congraçamento, pode-se escolher um líder de cada grupo: o líder A leria o primeiro parágrafo; o líder B, o segundo; o líder A, o terceiro; o líder B, o quarto — e assim por diante. Numa outra ocasião, o líder B leria o primeiro parágrafo; o líder A, o segundo; o líder B, o terceiro; o líder A, o quarto — e assim por diante. Ficaria muito... fofo... Eis, pois, a seguir, minha colaboração para o debate político local.
_____

O mundo vive novos tempos. Patos de Minas não pode ficar para trás. Nossa cidade, que sempre esteve à frente dos ventos que trazem as grandes mudanças e as grandes novidades, não pode perder o trem da história. Se por um lado não podemos abrir mão de nossas tradições, por outro, não podemos deixar de estarmos em sintonia com o que há de moderno e de pulsante nos tempos que correm.

Novos tempos pedem novas atitudes, novas abordagens, novos enfoques. Diante disso, para nós, integrantes dessa aliança, é um prazer unir dois grupos que, apesar das diversidades políticas, sempre tiveram um bem em comum; esse bem em comum é o bem que queremos para nossa querida e amada Patos de Minas.

Nós percebemos que é hora de deixarmos rivalidades políticas para trás. Como nunca, é hora de lutarmos em prol da nossa Patos de Minas. Tendo em mente o futuro dos patenses, decidimos que este é o momento de unirmos forças. A força de um grupo; a força do outro grupo. O que até agora foi rivalidade política vive, nestas eleições, um novo tempo. O que até agora foi rivalidade política se transforma em vontade de fazer uma Patos de Minas pronta para os desafios que virão.

A vida e a política ensinaram aos dois grupos que a união é mais forte do que a individualidade. Acertos foram feitos, arestas foram eliminadas. O que temos agora é uma aliança que dará ao futuro de Patos de Minas novos ares, novos líderes. Patos de Minas terá, a partir de agora, um novo desenvolvimento, uma nova pujança, uma nova força motora que conduzirá a cidade a um patamar jamais sonhado pelos líderes políticos que vieram antes de nós.

Neste momento ímpar da história patense, pedimos aos eleitores do grupo A ou do grupo B que deixem para trás as rivalidades, os ataques, as farpas, as picuinhas. O momento é de união, de congraçamento. Vamos unir inteligências dos grupos para que possamos criar uma cidade mais próspera do que ela já é.

Eleitores, é hora de encarar o futuro com ousadia, com felicidade. É hora de deixar de lado as diferenças de opinião e de unir forças para que a grande vitoriosa seja a população da nossa poderosa, amada e pulsante Patos de Minas. Vocês, eleitores, são os vitoriosos. Nós, ao juntarmos forças, estamos apenas atendendo ao chamado que veio das ruas. Nós existimos para servir o eleitor. Nossa missão é fazer com que seu voto, eleitor, seja o pontapé inicial para o crescimento, para a mudança, a educação, a saúde, o lazer.

Patos de Minas é maior do que o grupo A ou o grupo B. O eleitor é maior do que qualquer rivalidade política que possa ter existido no passado. Diante desse fato inegável, é que estamos aqui, diante de vocês, para que abracem a causa da união, do desenvolvimento. É hora de nos darmos as mãos. É hora de, num só abraço, elegermos uma cidade pronta para os desafios do mundo de hoje. 

Uma tarântula para García Márquez

No já longínquo vinte e quatro de agosto de 1996, publiquei, num jornal local, em coluna que eu mantinha, breve nota sobre a palavra “tarântula”. Na ocasião, mencionei o que o Aurélio dizia sobre o termo: “Espécie de aranha européia da família dos licosídeos, cuja picada causa febre, delírio e, segundo a crença popular, singulares sintomas que levariam o doente a cantar e dançar”.

É a palavra com o significado mais fabuloso que conheço. Na mesma nota publicada em 1996, sugeri aos leitores que conferissem no dicionário o significado de “tarantismo” (ou “tarantulismo”). Segundo o Houaiss: “Afecção nervosa caracterizada por desejo incontrolável de dançar, atribuída à picada de aranha (tarântula)”.

Esta postagem não é propaganda do que já fiz nem ataque de saudosismo. Não sou do tipo saudosista. Pode ser que quando eu ficar ainda mais velho eu passe a ser. Escrevo esta postagem por ter lido há instantes que um novo tipo de tarântula foi descoberto recentemente na Colômbia, segundo a Newsweek.

A descoberta foi publicada em artigo, que tem autoria de Carlos Perafán, William Galvis, Miguel Gutiérrez e Fernando Perez-Miles. Ainda de acordo com a Newsweek, o novo tipo de tarântula foi descoberto nas proximidades de onde viveu o García Márquez (ele nasceu em Aracataca). Como, segundo a revista, os cientistas são fãs do escritor, decidiram homenageá-lo ao batizarem o novo tipo de tarântula, que tem o nome científico de Kankuamo marquezi. Puro realismo mágico. 

Fresta

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Os comensais

Há muito tempo, li que comida “tem de ter cor, cheiro e sabor”. Não sei cozinhar. Todavia, tenho a impressão de que sei apreciar, embora eu possa estar enganado quanto a isso. Estando ou não, o pensamento de que a comida “tem de ter cor, cheiro e sabor” nunca saiu da minha cabeça.

O cheiro e o sabor podem parecer óbvios. Pode parecer desnecessário dizer que uma comida precisa ter cheiro e sabor. Todavia, não é bem assim. A cor não tem de ser necessariamente saturada. O prato pode não ser vistoso, pode não ter cores berrantes. Cores sutis ou não saturadas não sinalizam comida ruim. Há nuances, sutilezas, alimentos saborosos que não têm cores vibrantes.

Culinária é ritual. Sei que pode haver muito de careta, de arcaico e de afetado no que querem que seja ritual. Se há afetação, ritual não é, mas pose. O prazer de comer não está ligado a poses; por isso mesmo, etiqueta demais é desnecessária (bem como etiqueta de menos não é recomendada). Cor, cheiro e sabor são parte do ritual.

Pode-se comer sem a companhia de alguém. Já li por aí que o Drummond achava deselegante se alimentar quando havia pessoas por perto. Mesmo assim, o ritual da comida está intimamente ligado ao ato de celebrar. Comer é celebrar; celebrar de modo solitário é sem graça.

A celebração é parte do ritual. Que os comensais estejam reunidos para acompanhar, cheirar e degustar o que estiver sendo preparado. Que estejamos nas imediações da feitura, numa distância em que seja possível se dar conta, de antemão, do cheiro. O mesmo Drummond nos recomendou conviver com que nos propusermos a escrever. Convivamos com o preparo da comida. Que haja amizade, que haja amor. No ar, o cheiro. Quando a comida é servida, cheiro e cor. Tudo sem pressa, sem presunção. Cheiros, cores, sabores, olhares, risos, brindes.

Comer é celebrar. É um outro modo de dizer para as pessoas o quanto gostamos delas, o quanto fazemos questão da presença delas. A rigor, comer é atender a uma necessidade fisiológica; só que, ainda bem, achamos um modo de unir essa necessidade à possibilidade de congraçamento, de alegria, de sintonia. 

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Convite

Recebi da Chiado Editora o convite para a sessão de autógrafos de meu livro Dislexias, em São Paulo. Será durante a Bienal. Você vai, não é mesmo? 

domingo, 31 de julho de 2016

A história por trás da foto (93)





Há um tempão, era meu objetivo fotografar palha de aço, depois de se atear fogo nela. É que o efeito que há quando a palha de aço é girada enquanto pega fogo é muito legal. Para concretizar minha intenção, contei, ontem, com a ajuda do amigo Luiz Araújo, que não somente sugeriu um lugar seguro em que as imagens pudessem ser feitas (é que as faíscas que são liberadas pela palha de aço podem causar incêndios), como se predispôs a passar correndo em frente à lente, a fim de que diferentes efeitos fossem produzidos enquanto eu fotografava.

Esse tipo de foto requer longa exposição. No caso das fotos desta postagem, esse tempo foi de trinta segundos; obviamente, a câmera estava apoiada em tripé. Somente na última foto da sequência o Luiz ficou sem sair do lugar; nas demais, ele passou correndo em frente à lente enquanto eu fotografava. Para que efeitos dessa natureza fossem produzidos, o Luiz prendeu a palha de aço naquelas presilhas que usamos quando prendemos a guia na coleira dos cachorros; essa guia, por sua vez, era girada. 

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Apontamento 346

Inicialmente, vontade de amor, vontade de amar. Depois, essa vontade se materializa: surge uma pessoa. A vontade de amar é irmã da busca pela beleza. Quer-se um amor, acredita-se no belo. A pessoa amada é bela. Quem ama é belo. A beleza que é buscada em si, no outro, nas coisas. O amor é o reino da beleza no cotidiano, nas coisas materiais, nas trivialidades. Vestir as roupas, dar uma última olhada no espelho, sair. O amor é dentro de casa e fora. Dentro de quem ama e fora. Olhar para as coisas com amor é melhor. Não para as coisas, que não precisam de que as olhemos com amor. É melhor para nós, que precisamos de amar e de amor. 

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Apontamento 345

Psiquicamente, a sociedade está doente. O equilíbrio é aparente, uma fina casca que reveste o tecido social. Sob esse frágil revestimento, multidões frustradas, tristes. Uma sociedade composta de indivíduos infantilizados, fracos, que se entristecem por causa de coisas sem importâncias — se colegas da empresa realizam uma festa e o sujeito não é convidado, ele fica ofendido, às vezes até deixando de conversar com os colegas que estavam na festa.

Em cenários assim, numa tentativa pueril de se afirmar e de camuflar a fraqueza que se tem, passa-se a fazer ataque gratuito e velado contra o outro, não raro antes mesmo de se ter sofrido um ataque. As redes sociais escancaram isso. Do nada, o sujeito escreve coisas como “aqueles que me invejam vão assistir à minha vitória”, “minha capacidade é maior do que sua inveja” ou outros clichês do gênero. Há dias, numa academia, uma garota estava usando uma camiseta com os seguintes dizeres: “Que toda inveja se transforme em massa magra”. A rigor, uma análise corajosa e minuciosa acabaria por revelar que a vida de ninguém é invejável.

De antemão, a pessoa, nesse tipo de frase, apresenta as armas, as disputas, as retaliações. O outro é invariavelmente o capaz de sentir inveja, o empecilho para que objetivos sejam alcançados; se forem, é preciso dizer ao outro, de modo intempestivo e deselegante, que o outro terá de engolir, por causa da inveja a ele atribuída, a vitória alcançada. O outro é o inimigo, o obstáculo. Se o ataque é para alguém específico, se é uma indireta para determinada pessoa, imaturidade torná-la pública. Que se diga para o alvo do ataque o que os outros não precisam ler.

Não há a proposta do encontro, da sintonia, da comunhão, da partilha, do congraçamento. O que existe é o embate, a proposta belicosa, o desafio, a ofensa gratuita, o ressentimento. Há alguns dias, enquanto eu estava almoçando num restaurante, uma pessoa chega ao local; na camisa que ela usava, os dizeres “fuck you”. O sujeito sai para as ruas, entra num recinto para almoçar e está dizendo aos que passarem pelo caminho dele para eles irem se foder. Quando li o que estava escrito na camiseta dele, lamentei não estar usando uma com algum trecho do John Lennon. Na ocasião, eu me lembrei de “Mind games”, que diz: “Love is the answer”. 

"Eu quero saber"

Saborosos segundos de música pop: o “aú” em “I wanna know”, com o Alesso. 

quarta-feira, 27 de julho de 2016

O discurso de Michelle Obama

Assisti há pouco ao discurso da Michelle Obama durante a convenção nacional dos democratas. Já era minha intenção conferi-lo. Depois de ler elogioso texto de Sarah Larson, publicado na New Yorker, deixei de adiar e assisti ao discurso.

Trata-se de política, é claro, mas é incrível o quanto o discurso dela faz o obtuso Donald Trump soar mais estúpido do que o que ele já é por si. Michelle Obama acertou no tom, que passa pelo humor, pela incisividade e, como não poderia deixar de ser, pelos recentes eventos sociais nos EUA.

Logo no começo, num comentário que mistura leveza com cuidado de mãe, ela menciona o primeiro dia em que as filhas dela foram à escola depois de ela e de o marido estarem na Casa Branca. Segundo Michelle, havia utilitários pretos para levar as filhas dela ao colégio, guarda-costas armados; já dentro dos carros, as filhas encostaram os rostos contra o vidro do carro. A única coisa que ela diz ter conseguido pensar foi: “O que fizemos?”.

A partir daí, as filhas dela são o fio condutor a partir do qual Michelle Obama elenca as razões pelas quais apoia a candidatura de Hillary Clinton para presidente dos EUA. Com sobriedade, humor e contundência (“acordo todos os dias numa casa que foi construída por escravos”), Michelle provou que a arte do discurso ainda existe. 

Apontamento 344

Recentemente, quando houve a tentativa de golpe militar na Turquia, os estúdios da CNN no país foram invadidos pelos militares. Desde o 11 de setembro, deixei de ser o fã da CNN que eu era. À parte isso, se na Turquia invadiram a emissora, claro que era para que ela não divulgasse o golpe que então tentava se instalar. Por aqui, quando há golpe, parte da grande mídia não precisa ser invadida pelos golpistas. 

Apontamento 343

O problema não é a assessoria de comunicação de Temer, no que teria sido uma tentativa de popularização da imagem dele, chamar a imprensa para cobrir a ida do presidente à escola do filho dele no primeiro dia de aula do garoto. O problema é parte da imprensa ter atendido ao chamado. 

Apontamento 342

Conhecimento gera mistério. 

terça-feira, 26 de julho de 2016

A titânica "Todo mundo quer amor"

O Jesus não tem dentes no país dos banguelas, dos Titãs, é um discão. Uma das faixas geniais é “Todo mundo quer amor”. Os dois primeiros versos são líricos: “Todo mundo quer amor / Todo mundo quer amor de verdade”. Todavia, esse lirismo logo é quebrado assim que o Arnaldo Antunes começa a interpretar a letra, que não é cantada, mas, sim, declamada. E que interpretação! Além do mais, a quebra do lirismo, presente em toda a declamação, ocorre também quando há os palavrões, que, não bastassem reforçarem a universalidade da afirmação “todo mundo quer amor”, são antilíricos.

O uso do palavrão, por si, é fácil; todavia, é difícil usá-lo num contexto em que a impressão que se tem é a de que só um palavrão caberia. Alguém (não lembro quem) disse que o palavrão tem o lugar dele (assim como todas as demais palavras). Esse alguém disse que quando a gente bate o dedinho do pé numa quina, só um palavrão nos “salva”. (Essa coisa de haver a palavra certa me remeteu ao John Lennon: perguntaram para ele o motivo do desespero em “Help”. Ele respondeu dizendo que estava precisando de... socorro. Completando, alegou que quando a pessoa está se afogando, ela não diz algo do tipo “por favor, venha aqui me salvar, pois estou me afogando”.)

Em “Todo mundo quer amor”, não se fica com a sensação de que o uso dos palavrões é forçado. Ou com a sensação de que foram usados para irritar a sensibilidade de algum pudico. Combinam tanto com o que é a letra, que é difícil imaginar algo que daria certo no lugar deles. Isso, por si, já é muito, mas há mais: é uma faixa profundamente em sintonia com a poética e com o espírito dos Titãs. 

domingo, 24 de julho de 2016

À tua boca

Gosto da tua boca 
Quando ela é silêncio.
Gosto da tua boca 
quando ela dá forma a tuas palavras.
Gosto da tua boca
quando meus lábios encostam nela.
Gosto da tua boca 
quando sedenta por gozo.

Dedico à tua boca fabulosa, 
uma ode e um beijo. 
Embora breve a ode,
que seja longo, o beijo. 

Uma formiga sem qualidades

Sempre volto à questão do trabalho. Se eu não me policiar, acabo me tornando monotemático. Não que eu me culpe por isso. Mas sempre busco variações, seja por atender a um desejo interno de escrever algo com outro teor, seja na ilusão de soar eclético. Só que desta vez volto à arena trabalhista. Que o assunto não esteja cansando supostos leitores.

Nas páginas iniciais de “O homem sem qualidades”, do Robert Musil, o narrador, segundo tradução de Lya Luft, diz: “Ganhou-se em realidade, perdeu-se em sonho. Não nos deitamos mais sob a árvore, espiando o céu entre o dedo grande do pé e o dedo médio, mas trabalhamos; também não devemos nem passar fome nem sonhar demais, se quisermos ser eficientes, mas comer bifes e fazer exercício. É exatamente como se a velha humanidade ineficiente tivesse adormecido sobre um formigueiro; quando despertou a humanidade nova, as formigas tinham entrado no seu sangue, e desde então ela precisa fazer movimentos incessantes, sem conseguir se livrar desse chatíssimo ímpeto de fanatismo pelo trabalho”.

Qualquer cidade com cem mil habitantes já deixa nítido que a imagem do formigueiro, usada por Musil, cai bem para o mundo que criamos para nós. Talvez, nessa comparação, possa-se dizer que elas, as formigas, sejam mais organizadas do que nós. Sendo ou não, vistos de cima, somos, por assim dizer, formigas nos movimentando pelas cidades.

Boa parte desse movimento é causado pelo trabalho. Rendemo-nos a um furor veloz que precisa ser produtivo, que necessita de números, de estatísticas, de bater as metas do mês anterior ou do ano anterior. Joga-se sobre o indivíduo a responsabilidade por coisas que não dependem só dele. Se a venda de março foi inferior à de fevereiro, a culpa é sempre de quem não soube navegar nas “águas de março”. É mais fácil culpar alguém do que admitir que há coisas que não estão sob nosso controle.

O maior ato de rebeldia é acreditar na individualidade. Que seja luta inútil, mas é luta nobre de que não se pode desistir. Tal qual é configurado no todo, não se pode deixar que o trabalho seja nosso dono. Em maior ou menor grau, todos somos vítimas do mundo. É preciso fugir dos algozes, que são poderosos. Todos estão aí para nos impedir de sermos o que somos, ainda que não tenhamos exatidão quanto ao que somos.

Apesar dessa inexatidão, estamos muito longe de sermos o que quer de nós o mercado. Quando me refiro ao trabalho, não defendo uma horda de preguiçosos, mas uma legião de criativos. São poucos os que têm a oportunidade de trabalhar naquilo que de fato sabem fazer, em algo que não tome mais da metade de suas vidas com alguma coisa que terá embotado a criatividade. No mundo trabalhista como ele é, no geral, o que querem de nós são somente números, seja de horas a mais trabalhadas, seja de metas a serem batidas.

Nem menciono a impossibilidade de cada um fazer o que tivesse vontade de — isso é privilégio de poucos. O que sempre defendo é que não podemos ser engolidos pela sanha trabalhista. É imprescindível preservar em nós o poderio que temos de criar, não importa o pendor da criatividade. Precisamos achar um tempo para nós, para o que somos.

Volto a Musil. Ainda nas páginas iniciais de “O homem sem qualidades”, e ainda na tradução de Lya Luft, lê-se: “E como a posse de qualidades pressupõe certa alegria por serem reais, podemos entrever como uma pessoa que não tenha senso de realidade nem em relação a ela própria pode sentir-se de repente um homem sem qualidades”. O trabalho, na maior parte dos casos, impede que tenhamos acesso a nossas maiores riquezas. Privados da realidade que somos em essência, tornamo-nos formigas sem qualidades. 

"A lenda de Tarzan"

A vida real não tem Tarzans que intercedam a favor dos colonizados. Menciono isso porque a relação do colonizado com o colonizador é um dos temas abordados por “A lenda de Tarzan” (2016), em cartaz nos cinemas. A direção é de David Yates; o roteiro ficou por conta de Adam Cozad e de Craig Brewer.

O embate entre colonizados e colonizador não é novo. Foi assim na hoje chamada América Latina, é assim no Congo que serve de cenário para “A lenda de Tarzan”. Mal tendo chegado à América, os europeus quiseram saber se havia ouro; no filme, a busca é por diamantes, que o colonizador sabe existirem.

A partir daí, é inevitável que também esteja presente na produção o embate entre o que se convencionou considerar civilizado e o que é tido por selvagem. O europeu, ao invadir, considera-se superior precisamente por se ver como o civilizado na relação que tem com os nativos, que são vítimas do poderio do invasor.

No filme de David Yates, há o mote de que a natureza é superior à civilização. Assim, é claro, o homem... natural, que literalmente dialoga com a natureza, é eticamente superior ao citadino, a despeito da tecnologia e da etiqueta inventadas pela civilização.

Alexander Skarsgård faz um ensimesmado Tarzan; Margot Robbie interpreta uma topetuda Jane. Samuel L. Jackson está na pele de George Washington Williams, que, fazendo um mea-culpa, está do lado de Tarzan. Christoph Waltz é, mais uma vez, o vilão, que se chama Leon Rom.

Rom tem um rosário que sempre carrega consigo. Há um cinismo amargo nisso, pois o rosário que ele porta é usado como arma (sic). Esse rosário, precisamente pelo que tem de signo religioso, acaba remetendo à prática de alguns colonizadores religiosos que, em nome da catequização ou da salvação da alma dos chamados selvagens, acabavam, sim, levando maus tratos e morte.

Deixando de lado essas minhas digressões, é preciso lembrar que “A lenda de Tarzan” é, antes de tudo, um filme de aventura, é entretenimento. É mais uma releitura da criação de Edgar Rice Burroughs, a qual, desde o começo do século XX, tem seduzido a imaginação de leitores e de espectadores.