domingo, 13 de dezembro de 2015

APONTAMENTO 300

Desde que cumpridas algumas protocolares, bobas e chatas obrigações civilizatórias, não deixe de achar um jeito de soltar a besta que há em você. 

(DES)APONTAMENTO 45

Sou um incompetente: não tenho a menor ideia do que fazer com o que sou. 

APONTAMENTO 299

O envolvimento não garante o gostar, mas não há gostar sem envolvimento. Onde não havia gostar, pode haver, desde que haja envolvimento. De imediato, pode haver uma fagulha que leve ao desejo de convivência; pode-se sentir uma atração imediata por algo ou por alguém. Isso, todavia, ainda não é envolvimento. Além do mais, é exatamente o envolvimento que pode fazer com que a fagulha inicial não vire chama.

Por outro lado, mesmo não tendo havido tal fagulha, o envolvimento pode levar à chama, à amizade, à paixão, ao amor. É possível passar a gostar ou a amar sem que, de início, nada tenha sido sentido ou pressentido. Há um desejo de proximidade que pode ir num crescendo à medida que nos envolvemos. Temos o poder de nos envolvermos. Por vezes, ele leva a outro poder, que é o de amar. Faz todo sentido dizer: passou a amar porque se envolveu. 

PALAVRA POR PALAVRA

Lendo o livro “Essa estranha instituição chamada literatura”, que contém uma entrevista com Jacques Derrida, deparo-me, na introdução, escrita por Evando Nascimento, com o instigante trecho: “Um dia a literatura poderá desaparecer (talvez já esteja desparecendo, submersa num contexto hipermidiático e hipermercadológico), pois não passa de uma simples inscrição, um traço discursivo diferencial”. O trecho é de Nascimento.

A literatura, tal como é configurada hoje, pode acabar. O que não pode acabar é a palavra. A princípio, o enunciado é paradoxal. É que estou considerando literatura não qualquer enunciado produzido a partir da palavra. Num sentido bem amplo, se há palavra, há literatura. Assim, um texto publicitário poderia ser considerado literatura, desde que nele houvesse palavra(s).

Chamo de literatura, numa definição rápida e simples, a literatura de imaginação; levo em conta textos ficcionais, poéticos; textos “inúteis”, no sentido da gratuidade com que podem ser escritos. Em suma, textos sem função mercadológica, ainda que posteriormente o autor venha a lucrar com eles. Essa literatura talvez acabe; a habilidade ao lidar com a palavra não pode acabar.

O manejo da palavra pode levar à clareza de pensamento, à lucidez. Muitas vezes não se tem uma noção clara das coisas exatamente por não se ter a capacidade de lidar com essa coisa por intermédio da palavra. Sim, há o inefável, mas se não se acha sequer uma tentativa de se transmiti-lo, ele morre com quem passou por ele. É preciso que se tente dizer, ainda que o inefável seja o que se esteja tentando dizer. A palavra é um meio de dizer. Um meio para a compreensão, a clareza.

Não considero perigoso não haver literatura; considero perigoso não haver palavra. Ou, igualmente perigoso, haver palavra somente para alguns; mais perigoso ainda, se esses alguns tiverem pretensões de poder. É preciso buscar, não necessariamente a literatura, mas a palavra. Sem ela, é-se vítima fácil, e quem tem interesse em vitimar ou dominar não se furtará a usar a palavra como uma das ferramentas. A palavra é para todos, pois todos podem se tornar melhores e mais inteligentes com ela. 

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

SEDES

A garganta acusa o desejo pela água,
mas a sede está no corpo todo.

O boca acusa o desejo pelo beijo,
mas a sede é do corpo todo. 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

A QUE LUTA

Em noites insones, 
ia do asfalto
às estrelas.

Em certa
madrugada, 
perdeu o sono, 
perdeu o juízo. 
Mas só depois
de perder o medo, 
achou-se. 

PRATO

APONTAMENTO 298

A vida já é cheia demais do que poderia ter sido. Capricha no que é. 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

COMO CONQUISTAR UM CLIENTE

1
Há uns quinze anos, entrei em uma loja para comprar um equipamento de som. Já na hora do pagamento, a gerente, que eu já conhecia, inicia com o vendedor um teatrinho:
— Uai, Fulano, você tem certeza de que o preço tá certo? Tá muito barato, não?
O vendedor, já devidamente amestrado pelos empreendedores, cumpre o papel dele exigido: maneja alguns papéis, finge estar consultando tabelas; por fim, diz à gerente:
— Conferi aqui; o preço é esse mesmo.
Quase pedi aos dois que parassem com aquele teatro fajuto, pois eu levaria o equipamento de som. Além do mais, por eu já conhecer a gerente, não esperava aquela atitude vindo dela. Levei o som. Nunca mais voltei à loja.

2
Hoje pela manhã, entrei em uma mercearia para comprar café, arroz e açúcar. O arroz era de marca desconhecida por mim. Ao perguntar a um rapaz se a marca era boa, ele pergunta para uma senhora, não sei se exercendo truquezinho de vendedor:
— Mãe, lá em casa a gente usa este arroz aqui, não é?
— Não. Lá em casa eu uso marca melhor.
Eu trouxe para casa o café e o açúcar. Mesmo não tendo trazido o arroz, a mercearia ganhou um cliente. 

domingo, 6 de dezembro de 2015

APONTAMENTO 297

Quando se ama, qualquer palavra ou manifestação vinda do ser amado assume significado transcendental. O que vem do ser amado eleva, por mais banal que seja. Um “bom-dia” via celular, um doce, o simplesmente estar perto de quem tanto se quer. A voz, a pele, o som da risada, o jeito de caminhar, os gestos, os talentos. As coisas que compõem o que a pessoa é significam demais para quem contempla; diante do ser amado, pacifica-se, agita-se, sonha, perde-se; longe dele, pacifica-se, agita-se, sonha, perde-se, comprazendo-se no desassossego. Quem ama quer falar do amor que sente. Se não pode fazê-lo, quanto mais se cala, mais sente necessidade de manifestar o amor sentido. Quando conversa com alguém, quer achar um modo de falar nem que seja o nome de quem se ama, pois é sempre gostoso pronunciar o nome de quem se ama. 

VASCO NA SÉRIE B

O Vasco é grande, é maior do que qualquer cartola, mas, neste momento, tem o tamanho de seu presidente. 

APONTAMENTO 296

Nunca nutri grandes esperanças nem quanto à humanidade nem quanto aos desígnios da vida, se é que os há. Há em mim um intenso sentimento de resignação; todavia, do outro lado da moeda, um intenso desejo de rebeldia. Eu me rebelo contra, para me valer de uma expressão do Drummond, o “sistema de erros” do mundo, mesmo sem nutrir expectativas quanto à mudança de atitude na pequenez do homem. Essa minha inútil rebeldia convive com a profunda certeza de que nada vai mudar. Se mudar, será para pior. Mas sei que minha rebeldia não se calará. Ela não deixa de ser uma espécie de esperança. Inútil. Mas esperança. É paradoxal, mas é assim. Apesar de minha resignação, eu me rebelo, também numa tentativa de me sentir mais próximo de outros que já se rebelaram. Minha rebeldia é meu jeito de ter esperança, ainda que uma esperança estranha. Minha rebeldia é meu modo de não me render à insanidade. 

ZUM NO TITO




Para estas fotos do Tito, meu cachorro, decidi me valer de uma técnica chamada de “zooming”: aumenta-se o tempo de exposição, baixando-se a velocidade; a seguir, enquanto se aperta o obturador, move-se a lente, lidando com o zum dela, seja aproximando-se do assunto, seja afastando-se dele. É possível brincar bastante com a técnica. 

sábado, 5 de dezembro de 2015

"INVENCÍVEL"

Ter uma grande história em mãos pode, paradoxalmente, ser “perigoso” quando se deseja contá-la, pois, quando é contada, a produção pode ficar menor do que a história, pode não fazer jus a ela. É o que ocorreu com “O show de Truman”. O argumento do enredo é brilhante; mesmo assim, a execução dele não gerou um filme à altura.

Não é o que ocorreu com “Invencível” [Unbroken], de 2014. O roteiro, além de ter os irmãos Coen como autores, conta com o trabalho de Richard LaGravenese e William Nicholson. É baseado no livro “Unbroken: A World War II Story of Survival, Resilience, and Redemption”, de Laura Hillenbrand (a mesma autora de “Seabiscuit”). Não conheço o livro, mas, a partir dele, nasceu um grande filme.

A produção é dirigida pela Angelina Jolie. Para mim, isso foi surpresa. Eu não sabia da atuação dela como diretora. Comecei a assistir a “Invencível” nos momentos iniciais, sem saber que havia sido dirigido pela atriz. Terminado o filme, já nos créditos, é que fiquei sabendo que ela é a diretora. E que direção ela realizou!

“Invencível” narra a trajetória real do atleta Louis Zamperini. Durante a Segunda Guerra, o avião em que ele estava cai no Pacífico. Quarenta e sete dias depois, período esse passado num bote, Zamperini e outros dois sobreviventes da queda do avião são resgatados — por japoneses. O que já estava penoso para eles torna-se tortura, humilhação e desumanidade.

Como cheguei desavisado ao filme, eu o assisti pensando que se tratava de história “meramente” ficcional. Eu, que já estava gostando do que estava assistindo, mais ainda gostei quando, nas cenas finais, fiquei sabendo que a produção é inspirada na vida de Zamperini. “Invencível”, a despeito da violência que retrata, humaniza e sensibiliza, por Zemperini mostrar a força e a nobreza que o espírito humano pode ter.

APONTAMENTO 295

Ora, já que a educação é um produto, pode-se descer o cacete à vontade: um produto não sente dor. 

O PRODUTO DA EDUCAÇÃO

Para alguns empreendedores, 
educação é um produto.

Para alguns empreendedores, 
educação é um produto
em que se pode bater com cassetete.

Para alguns professores, 
educação é gente. 

APONTAMENTO 294

Se a burocracia resolvesse alguma coisa, as coisas estariam... resolvidas... 

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

CONTRA SI

Ninguém é obrigado a produzir prova contra si mesmo. É sabido, todavia, que governos e autoridades já se valeram de determinado ato legal realizado pelo cidadão para condenar o indivíduo. Uma, digamos, inocente ida ao cinema poderia ser usada pelas autoridades como justificativa para encarceramento, sob alegação de que o sujeito, em vez de assistir ao filme, estava... hum... tramando contra o Estado. Havia ainda a ação de delatores, simpatizantes de alguma causa repressora. Pode-se, é claro, tramar algo num cinema, mas nem sempre é o caso. Contudo, qualquer gesto pode ser usado a fim de punir quando o algoz é insano.

Hoje, um celular capta áudio e vídeo. O cidadão pode produzir, numa escala bem maior do que a que existiu no passado, condenação contra si mesmo. Há uma vigilância e um desejo de punir que são bem mais perigosos do que foram outrora: essa atitude punitiva continua sendo exercida não somente por quem é considerado ou nomeado autoridade, mas, de modo bem mais vigoroso do que no passado, pelos concidadãos, que, devido à tecnologia, têm mais possibilidade de registrar ações num dispositivo eletrônico; tais ações podem ser usadas numa condenação, seja ela de ordem legal, seja ela de ordem estritamente moral.

Muito mais do que no passado, é preciso ficar atento, é preciso não confiar, é preciso tomar cuidado com o que é dito para alguém ou com o que é feito diante de alguém. Além do mais, as redes sociais fizeram boa parte das pessoas banir o limite entre o público e o privado. Nos tempos que correm, viver é produzir “provas” contra si mesmo. 

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

FOTOPOEMA 381

APONTAMENTO 293

O artista deve auscultar o coração. O seu e o dos outros. Essa auscultação implica falar menos e escutar mais. Que o artista escute, não importa se esteja auscultando os muitos tagarelas ou se, quando possível, os poucos silenciosos. 

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

AUTOAJUDA

Quando se trata do gênero autoajuda, não há como discordar da mensagem: penso que ninguém contestaria, por exemplo, o pensamento de que é preciso ter perseverança. O que torna o gênero autoajuda pobre não é nem tanto a mensagem em si, mas a obviedade. Os truísmos do discurso da autoajuda chegam a ser irritantes. Autores e palestrantes do gênero, espalhando lugares-comuns, acabam por retirar da vida uma complexidade que existe. Não há no discurso deles espaço para nuances; não há áreas sombrias, incompreendidas.

Livros e palestras de autoajuda incomodam por, de modo enviesado, afirmarem também que não se sabe interpretar um exemplo. Digamos que eu tome conhecimento da vida de uma pessoa que saiu de uma cidadezinha qualquer do interior e se deu bem, financeira e pessoalmente (sendo que esse era o objetivo dessa pessoa) numa metrópole, depois de muito cair e levantar. Ora, uma trajetória assim é exemplo eloquente. Não é necessário alguém dizer que é preciso ousar para se dar bem.

O discurso da autoajuda passa a ideia de que a fórmula do êxito foi finalmente descoberta. Cientes disso, palestrantes, valendo-se de técnicas teatrais, jogam suas “pérolas” para a multidão: “Novos tempos pedem novos paradigmas! O mundo é multifacetado. Não se vive mais hoje como se vivia há dez anos. Aquele que não se atualiza está fora do mercado! Vamos, ajam! O que vocês estão esperando? Sejam os donos das vidas de vocês!”. Como parte do “kit”, uma canção pode ser executada quando o evento está prestes a acabar. Lembro-me muito bem de um tempo em que “Friends for life (amigos para siempre)” era moeda corrente depois de palestras.

Boa parte dos discursos de autoajuda preferem ignorar que não há receita para o sucesso. Ou, dizendo com outras palavras, não há a garantia de que se determinados passos forem seguidos, o sucesso vai ser alcançado. Se, por um lado, é difícil imaginar que a inação leve a grandes êxitos, por outro, não é certo que todo aquele que age e persiste conseguirá o que almeja. Além do mais, êxito ou fracasso estão inseridos numa trama tão vasta e com tantos elementos, que não há como afirmar com exatidão o que levou alguém a fracassar ou a ter sucesso. 

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

APONTAMENTO 292

Não faria sentido viver integralmente com a preocupação quanto ao legado. Uma generosa dose de inconsequência premeditada, por mais paradoxal que isso possa soar, é necessária. Essa inconsequência premeditada, contudo, não nos livra da responsabilidade que temos com relação a nosso legado. Se a dose dessa inconsequência deve ser generosa, também generosa deve ser a preocupação com o legado. Isso vale para uma pessoa, para uma empresa, para um profissional, para a imprensa. É incrível o quanto esta não está preocupada com o legado que tem produzido. 

APONTAMENTO 291

É curioso: quando a gente assiste a um filme novamente, a trama parece se passar mais rapidamente, o enredo parece ser mais resumido e econômico. Quanto mais tempo demoramos para rever a produção, maior é essa impressão. É como se o filme tivesse sido “encurtado”. Os desdobramentos da história parecem se resolver de modo mais sucinto do que a primeira vez em que conferimos o trabalho. 

DO CÉU

Um negro muro de água 
se forma no céu. 
A alvenaria aérea rui. 
Estilhaços líquidos 
caem sobre a terra,
que suga todos eles, 
matando uma sede
ancestral e fecunda. 

APONTAMENTO 290

Já escrevi que acho a palavra "perfunctório" horrorosa; é uma das mais feias da língua portuguesa. Já "calêndula" é perfeita: não bastasse a beleza da flor a que a palavra se refere, "calêndula" é gostosa de se pronunciar.

DUO

Por ti, 
duas partes:
uma é tesão, 
a outra é ternura.
Nesse todo, 
enquanto
uma parte explode, 
a outra eclode. 

(DES)APONTAMENTOS 44

Terá a peça “Macaquinhos” entrado para os... anais do teatro brasileiro?

A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (87)

Esta foto começou a ser feita às 21h14. O tempo de exposição foi de quatro minutos e quarenta e um segundos. Logo, a foto, iniciada às 21h14, terminou às 21h18. Durante esse tempo, a câmera registrou o movimento das nuvens.

A intenção inicial não era captar movimento de nuvens, mas, sim, de estrelas, que comporiam o cenário de fundo para esta árvore, que acho belíssima. Contudo, havia luar, a noite estava clara. De acordo com um calendário lunar que consultei via internet, a Lua estaria numa fase em que não estaria visível.

Não foi o que ocorreu. Como havia luar, uma exposição muito longa, o que era a intenção inicial, para se produzir o facho das estrelas, faria com que houvesse luz demais, com que a imagem ficasse muito clara. Ainda assim, fui experimentando diferentes ajustes, diferentes exposições, até o ponto em que o movimento nas nuvens fosse registrado. 

ALQUIMIA

Tens um encantamento.
A magia que tens fascina
por seres quem és.
Tu existes.
Existindo,
tu me encantas.
Quem me dera
ser mágico,
quem me dera
coser tramas,
cozer sortilégios,
misturar poções
numa química
que te trouxesse.
Tuas mágicas me incitam.
Excitado, anseio
por feitiço que te traga. 

(DES)APONTAMENTO 43

Quando se expressa, a inteligência pode, às vezes, ser chata. Quando se expressa, a imbecilidade sempre é. 

VERSOS POBRES

Charlie Sheen revelou que pessoas 
extorquiram grana dele para 
que não divulgassem 
que ele tem aids.

Em Governador Valadares, 
houve comerciante que aumentou 
o valor da água mineral 
depois da tragédia no Rio Doce.

Um problema pessoal, 
uma tragédia causada por uma empresa ou 
a educação pública propalada pelos 
chamados empreendedores 
como um produto.

Você lucra com o quê? 

sábado, 14 de novembro de 2015

EM CAMPO

Revoada de quero-queros no jogo entre Vitória e Ceará, pela série B do brasileiro. O futebol ainda tem beleza. 

É PATOS OU...

Encaradas na perspectiva da passagem do tempo, as coisas podem vir a soar de modo diferente. Nessa perspectiva, o que era risível pode se tornar, na falta de adjetivo melhor, estranho. Dito com outras palavras: o contexto pode mudar o sentido do que foi dito. Políticos locais (sou de Patos de Minas), em arroubos ufanistas, costumavam dizer: “É Patos ou Paris”. 

VALE!

Num certo dia, mata-se uma pessoa.
Em outro certo dia, uma multidão.

Num certo dia, mata-se um peixe.
Em outro certo dia, um doce rio.

O que vale é lucrar. 

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

POEMA DATADO

Hoje, sexta-feira 13.
Amanhã, sábado 14.
Depois de amanhã, domingo 15.

E ontem, quinta-feira 12. 

terça-feira, 10 de novembro de 2015

"QUANTO VALE OU É POR QUILO?"

“Quanto vale ou é por quilo?” (2005), do diretor Sergio Bianchi, não pode ser acusado de fugir de temas que pululam no cotidiano brasileiro. Bianchi também assina o roteiro, ao lado de Sabina Anzuategui, Eduardo Benain e Newton Cannito. O filme aborda o racismo e a corrupção, ambos entranhados na cultura do brasileiro.

“Quanto vale ou é por quilo?” é levemente inspirado num conto de Machado de Assis — o brilhante “Pai contra mãe” — e em alguns textos de Nireu Cavalcanti. Há várias tramas no filme, vários personagens. Uma dessas tramas é inspirada no conto de Machado. Contudo, mesmo os personagens que são inspirados em “Pai contra mãe” têm uma psicologia diferente.

O fio condutor é o de que as relações sociais de exercício do poder não mudaram desde a abolição da escravatura. É feito um paralelo entre o tempo em que a escravidão era institucionalizada e a era moderna, em que a escravidão, velada, vale-se de outros mecanismos.

O lado bom do filme: sobra para todo mundo: pretos, brancos, ricos, pobres, ONGs, entidades filantrópicas, políticos, polícia, empresas... Ninguém presta, nada presta. Paradoxalmente, isso acaba se tornando um dos problemas de “Quanto vale ou é por quilo?”: ele é maniqueísta demais — todo mundo é bandido. Ou, pelo menos, aqueles que têm voz são. Além do mais, uma cena ou outra me pareceram artificiais, a despeito de bons atores na trama. Essa inverossimilhança de uma cena ou outra e o maniqueísmo dos personagens que vivem o enredo não desabonam o trabalho, que exibe nossa feiura.  

Um ingrediente vital do filme é mostrar que quem é vítima de vícios e de corrupções há séculos, acaba, mesmo assim, reproduzindo esses mesmos vícios e essas mesmas corrupções. E um lembrete: quando os créditos começam, há uma cena final que modifica cena prévia do filme. É importante assistir a essa cena final.

A temática é pesada, densa, violenta.  Um trabalho ousado que quer abarcar não somente a questão racial, mas também a questão da política, da corrupção, do jeito capitalista de resolver as coisas, do jeitinho brasileiro de resolver as coisas. O filme escancara a sujeira do Brasil. Por tocar feridas e por suscitar reflexões, imprescindível. 

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

EU RIO

Não consigo rir dos vereadores de Campinas.
Não consigo rir dos Bolsonaros.
Não consigo rir dos Malafaias.
Não consigo rir dos Cunhas.
Não consigo rir dos Danilos Gentilis.
Não consigo rir dos Rafinhas Bastos.
Não consigo rir dos que jogam cascas de bananas.

Não consigo rir de tombo.
Não consigo rir de banguela.
Não consigo rir de quem deu branco.
Não consigo rir de quem fala “célebro”.
Não consigo rir de quem caiu na pegadinha da TV.
Não consigo rir de quem crê em certos pastores.
Não consigo rir de quem acredita em certos padres. 

MAIS UM FRACASSO

Como um todo, a natureza nos faz desprovidos de bilhões de habilidades e providos (mas nem tanto assim) de outras. Minha incapacidade em abrir embalagens é vexaminosa. Eu me perco diante de uma. E de nada adianta seguir as instruções que comumente estão expressas nas embalagens; em vez de me ajudarem, essas instruções me confundem. Qualquer coisa para mim está sempre muito, muito bem fechada. Meu sangue não tem uma gota de algo que se pareça com o talento do MacGyver, aquele do seriado que fazia proezas com, por exemplo, um chiclete e um grampo para cabelos.

Mais cedo, eu havia pedido cartuchos de tinta para a impressora. Chegaram há pouco. Um dos cartuchos é para imprimir em preto-e-branco; o outro, em cores. O que imprime em cores está ainda intocado; há trinta e dois minutos estou lutando para tentar abrir a embalagem do que contém tinta preta. Até agora, o fracasso é vergonhoso.

Na embalagem, há a instrução de como ter acesso ao cartucho. Procurei segui-la. Além do mais, anos de convivência com a língua inglesa têm de servir para algo de vez em quando. No invólucro do cartucho, há uma lingueta na parte superior; nela, lê-se: “Open (tear open here)”. Confiando em meu inglês, manejei a lingueta, a qual acabei destruindo, sem conseguir abrir o continente do cartucho, que, lá de dentro da embalagem, dando gargalhadas estrondosas, zomba de mim. Se num futuro remoto eu conseguir abri-la, haverá depois o drama de tentar inserir o danado do cartucho na impressora... 

ANTES

Numa exceção, 
encolheram o nome dele
depois que ele nasceu. 
Foi assim que Irineu
começou a vida
avant la lettre

SUPERFICIAL

A neve sobre a grama,
um quadro de Van Gogh,
a capa de The dark side of the moon,
a textura da pétala,
a casca da romã,
o livro em Braille,
a cor de tua pele:
nem toda superfície
é fútil. 

(DES)APONTAMENTO 42

Amigo comenta que foi dispensado do serviço militar porque o peso dele não era o bastante para os requisitos do exército: na época, esse amigo pesava quarenta e cinco quilos. Foi a partir desse episódio que o Kundera chegaria ao título “A insustentável leveza do ser”. 

VERMELHIDÃO

sábado, 7 de novembro de 2015

A TOALHA

Tatiana acordou. Teve um sonho ruim, em que um ônibus, estando na pista central das três que compunham percurso de rodovia, tentou pegar a da direita. Só que o acesso ousado pelo motorista era nada mais do que um barranco. Mal começara a atravessá-lo, o ônibus se descontrolou. Tatiana acompanhava a cena dirigindo um carro que seguia atrás do ônibus. Quando ele chegou à pista que era seu objetivo, tombou. Nesse momento, Tatiana acordaria.

Durante alguns minutos, ficou se perguntando que significado o sonho teria. Não chegando a conclusão alguma, prometeu a si mesma começar, finalmente, a leitura de “A interpretação dos sonhos”, do Freud. A manhã ainda não estava aberta, mas nesgas de luz se insinuavam pelo quarto através da janela. Pela respiração de João Carlos, marido dela, Tatiana sabia que ele ainda dormia pesado.

Com passos sonolentos, ela entrou no banheiro. Assim que olhou para a direita, viu a toalha no suporte, ao lado do espelho. Intuiu naquele instante que o dia dela seria terrível. Ficou olhando para a toalha, que, a rigor, não estava pendurada, mas embolada no suporte, entre este e a parede. Há anos aquilo a irritava. 

No auge da paixão, relevam-se coisas que depois passarão a espezinhar. Nos meses seguintes ao casamento, Tatiana ignorava o modo como a toalha era deixada no suporte por João Carlos. Duzentos e treze dias depois de estarem casados, ela pediu ao marido que não deixasse a toalha daquele jeito, mas, sim, que a pendurasse, para que ela secasse rapidamente, para que não ficasse com cheiro ruim. Como o pedido foi infrutífero, ela voltou a abordar o assunto com o marido, argumentando que sempre tivera um certo asco quanto a toalhas, e que não era higiênico deixar uma toalha toda espremida entre o suporte e a parede. De nada adiantou. Meses depois, veio uma discussão. Ela não segurou: “Será que o senhor é tão incompetente que não consegue pendurar uma toalha?”.

Depois da discussão, a toalha viveu dezesseis dias de estiramento. Passado esse tempo, voltou a ser o chumaço criado diariamente por João Carlos. A fim de evitar brigas, Tatiana não expressava o incômodo que sentia. Dois filhos e seis anos se passaram. Naquela manhã em que sonhou com o ônibus, levantou-se e se deparou com o bolo entre a parede e o suporte. Houve em Tatiana algo inédito, a clarividência com a qual admitiu o que vinha se insinuando há tempos, mas que ela, a princípio, negara para si mesma: não mais suportava a convivência com o marido. Tempo houve em que isso foi apenas um sussurro, um sopro. As repetidas miudezas do cotidiano, de mansinho, fizeram com que aquilo que era uma nuvenzinha fosse se agigantando até o ponto em que ela teve a certeza de que não queria mais viver com João Carlos.

Encarando a toalha toda embolada, ela não sabia se sentia mais raiva do marido ou de si mesma, por não ter tido a coragem de acabar com um relacionamento cujos sonhos e alegrias não mais existiam. O que havia era um arremedo de casamento, um teatro social e familiar. Deixando de olhar para a peça no suporte, mirou-se no espelho, perguntando-se o que tinha feito da própria vida. De onde estava, pôde ouvir o marido mudar a posição do corpo na cama. Mas ela sabia que ele ainda não acordara. Olhando-se no espelho, disse em voz baixa: “Tenho trinta e um anos”. Sentiu-se velha. Reparou nas rugas, que ainda eram incipientes, mas que lhe pareceram profundas e ancestrais. Culpou-se por não mais querer o marido, pois sabia que ele a amava; culpou-se por não conseguir passar por cima dos defeitos dele; culpou-se por não ter deixado de sonhar com alguém mais idealista, mais ambicioso, mais cheio de ímpeto; culpou-se por cozinhar para ele de modo automático, por fazer amor de modo automático, por ostentar uma alegria automatizada. Teve vontade de chorar. Por segundos, voltou a olhar para o que considerou um trapo entre o suporte do banheiro e a parede. Apoiando as mãos na pia, estava se observando outra vez. Esquadrinhava o rosto quando disse, novamente em voz baixa: “Você precisa mudar de vida, Tatiana”. Depois, jogou a toalha. 

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

"MEDIANERAS"

É muito bom quando filmes ou livros continuam existindo dentro da gente depois de conferidos. Há filmes ou livros que nos deixam com saudade. Já estou com saudade de “Medianeras” (2011), do diretor Gustavo Taretto; o roteiro é dele também. No elenco, Javier Drolas (Martín) e Pilar López de Ayala (Mariana).

O filme é um delicado e reflexivo retrato do que são as relações (amorosas) no mundo de hoje. Na execução, Taretto fez com que Buenos Aires se tornasse, por assim dizer, personagem do filme. Mostra-se a relação do homem com as grandes cidades. Cada pessoa acaba sendo mais uma em meio às multidões. Em outras palavras: a solidão de cada um em meio aos aglomerados. 

Se a cidade é cenário, também é cenário a clausura de cada um. Pessoas fechadas em apartamentos e fechadas em si mesmas — mas que procuram gente, ainda que diante de um teclado de computador. Procurar gente é também um modo de querer ser achado. 

“Medianeras” faz uma terna e delicada reflexão sobre as relações virtuais em que, se, por um lado, há comunicação, por outro, cada um está em seu próprio lugar, diante de seu próprio monitor, digitando sua solidão. Comunica-se com o mundo, é verdade, mas não há o encontro físico.

Como toda obra artística primorosa, “Medianeras” possibilita desdobramentos. São elementos do enredo a função social da arquitetura, a despersonalização que as metrópoles ou as multidões causam, o paradoxo da solidão humana num mundo que possibilita, graças à tecnologia, o contato com o antípoda. Com ar despretensioso, o filme diverte e convida à reflexão.

Os percursos de Martín e Mariana acabaram me remetendo ao belo poema “Amor à primeira vista”, da autora polonesa Wisława Szymborska. Certa vez, quando escrevi sobre o filme “O voo”, também inseri o poema de Szymborska em meu comentário. Pela segunda vez, uma produção cinematográfica me remete ao texto dela, que transcrevo a seguir. A tradução é de Regina Przybycien.
_____

Amor à primeira vista — Wisława Szymborska

Ambos estão certos 
de que uma paixão súbita os uniu. 
É bela essa certeza, 
mas é ainda mais bela a incerteza.

Acham que por não terem se encontrado antes 
nunca havia se passado nada entre eles. 
Mas e as ruas, escadas, corredores 
nos quais há muito talvez se tenham cruzado?

Queria lhes perguntar, 
se não se lembram — 
numa porta giratória talvez 
algum dia face a face? 
um “desculpe” em meio à multidão? 
uma voz que diz “é engano” ao telefone? — 
mas conheço a resposta. 
Não, não se lembram.

Muito os espantaria saber 
que já faz tempo 
o acaso brincava com eles.

Ainda não de todo preparado 
para se transformar no seu destino 
juntava-os e os separava 
barrava-lhes o caminho 
e abafando o riso 
sumia de cena.

Houve marcas, sinais, 
que importa se ilegíveis. 
Quem sabe três anos atrás 
ou terça-feira passada 
uma certa folhinha voou 
de um ombro ao outro? 
Algo foi perdido e recolhido. 
Quem sabe se não uma bola 
nos arbustos da infância?

Houve maçanetas e campainhas 
onde a seu tempo 
um toque se sobrepunha ao outro. 
As malas lado a lado no bagageiro. 
Quem sabe numa note o mesmo sonho 
que logo ao despertar se esvaneceu.

Porque afinal cada começo 
é só continuação 
e o livro dos eventos 
está sempre aberto no meio. 

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

APONTAMENTO 289

A vida é um ensaio, diante da plateia, para um show que não ocorrerá. 

LIÇÃO DE EMPREENDEDORISMO

César, 
Antônio, 
Rejane, 
Tatiana, 
Cássio 
Freitas 
são colegas de trabalho.

Fora de lá, 
César dá aulas particulares de matemática, 
Antônio faz aula de dança, 
Rejane cultiva orquídeas, 
Tatiana estuda à noite, 
Cássio pinta quadros.

Freitas quer ser promovido. 
Em evento da empresa, propõe tarefa. 
Pede que
César, 
Antônio, 
Rejane, 
Tatiana
e
Cássio
fiquem todos sobre um só jornal. 
Liga o som e os conclama a dançarem rumba.

Depois, ele mesmo, Freitas, 
antes de sua fala, 
sobe numa mesa grande, 
imita macaco, cuincha. 
Boa parte dos funcionários fica exultante. 
O dono da empresa achou tudo engraçado. 
Chorou de rir. 
Em seu discurso, 
disse que toda a equipe
deveria se espelhar 
no espírito empreendedor de Freitas. 

domingo, 1 de novembro de 2015

FOTOPOEMA 380

O NÃO VIAJANTE

Sempre me espantou o quanto o homem é um animal que viaja. Admiro esse espírito. Muito antes de haver os meios de transporte de hoje, o ser humano já percorria milhares de quilômetros, valendo-se das próprias pernas, das pernas dos outros animais e de embarcações. Esse ânimo para percorrer longas distâncias sempre me impressionou. Vivo me perguntando como as pessoas acham disposição para ir tão longe. Eu, quando tenho de ir, por exemplo, a Lagoa Formosa (que deve ficar a uns vinte quilômetros de Patos de Minas), já acho melhor ficar por aqui mesmo. Independentemente do meio de transporte, minha preguiça de sair de onde estou é maior do que qualquer anseio de ir a algum lugar. Não bastasse isso, fazer e desfazer malas é muito maçante. Melhor ficar quieto. 

ATLÉTICO 0x3 CORINTHIANS

O Corinthians está entrosado, tem bons jogadores e bom treinador. Levando-se em conta a matemática, o time ainda não é o campeão do torneio. Mas tem tudo para ser. O único time que poderia ameaçá-lo era o Atlético.

A equipe mineira é mais aguerrida do que técnica. Não que o Atlético seja um time ruim, mas o Corinthians é melhor do que o Galo. No jogo de há pouco, a despeito da maior posse de bola do Atlético, a equipe de São Paulo teve paciência e soube ser letal.

Ainda que tivesse perdido o jogo, o Corinthians continuaria o favorito para a conquista do título. Depois da vitória de hoje, é muito difícil que isso não ocorra. 

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

CRESCIMENTO

Quando tirei a primeira das fotos desta postagem (datas nas fotos), o Tito havia acabado de chegar. Ainda não estava à vontade. O registro mais recente foi feito há pouco. A tentativa de hoje era a de tirar uma foto mais ou menos do mesmo ângulo da primeira. Contudo, o danadinho do cachorro não fica quieto, de modo que tive de me contentar em retratá-lo de outro ângulo, embora a “fera” esteja diante do mesmo degrau. Ainda assim, é possível contemplar em perspectiva o crescimento do Tito. 

CONTO 82

Nazareno deitou-se. Estava sem sono. Após revirar-se por horas e horas e horas e horas na cama, teve certeza de que nunca mais voltaria a dormir. Dormiu. Nunca mais voltou a acordar. 

A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (86)

Gosto de misturas: a mistura entre o coloquial e o erudito, a mistura entre o selvagem e o aculturado... Neste registro, quase sem querer, acabei, pelo menos segundo meu modo de pensar, gerando uma mistura entre o dia e a noite.

A imagem foi criada no dia vinte e um de outubro, às 21h08 (horário brasileiro de verão). Para “iluminar” o céu, longa exposição (trinta segundos) e ISO 500; para iluminar a árvore, uma lanterna. A combinação dos trinta segundos com o ISO 500 acabou iluminando o céu mais do que o suposto por mim; além do mais, havia luar. Por fim, eu não estava longe da cidade, de modo que as luzes urbanas também têm influência no que se pode observar na imagem.

A foto concebida na imaginação é uma coisa; a foto realizada pode não ser bem a foto imaginada. Antes de clicar, imaginei que fosse haver um céu mais escuro, com um tom menos azulado. Além disso, as nuvens acabaram sendo, sob minha ótica, um belo “bônus”, já que a intenção inicial não era “acender” tanto assim as estrelas, em função da proximidade com a área urbana e do luar.

Os trinta segundos de exposição, a princípio usados para que as estrelas fossem “acesas”, acabaram criando leve sensação de movimento nas nuvens que estão na parte superior da imagem. Não era minha intenção causar tal sensação, mas, claro, fiquei contente ao conferir a imagem no computador, quando então me dei conta desse movimento. No instante do clique, tivesse eu me dado conta disso pelo monitor da câmera, teria usado uma exposição um pouco mais longa, a fim de aumentar ainda mais a ideia de movimento nas nuvens. 

terça-feira, 27 de outubro de 2015

APONTAMENTO 289

O Guimarães Rosa escreveu que “o sertão está tem toda a parte”; o García Márquez, que “Aracataca foi desde suas origens um país sem fronteiras”; por fim, o Tolstói: “Se queres ser universal, canta tua aldeia”. A literatura ensina o cosmopolitismo também. 

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

CANTADA CIENTÍFICA

No calor, 
os átomos se distanciam
uns dos outros.
A esse distanciamento,
dá-se o nome de dilatação.
Mas que coisa: 
nem no calor meus átomos 
querem se distanciar dos teus. 

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

(DES)APONTAMENTO 41

A não ser o dinheiro que devem a você, é deselegante cobrar dos outros o que não lhe oferecem espontaneamente. 

APONTAMENTO 288

Creio mesmo que nunca escreverei um grande verso. Mas ainda não desisti de escrever um grande poema. 

APONTAMENTO 287

Algumas religiões prometem o réu. 

PONDO-SE

UMA PALAVRA EM MINHA VIDA

Na primeira metade da década de 90, mantive, no jornal Correio de Patos, semanário que então circulava em Patos de Minas, um espaço intitulado Letras e Músicas. A intenção, como o nome já deixava entrever, era fazer uma coluna que fosse um misto de literatura e de música. No jornal que circulou no dia dezesseis de abril de 1994, publiquei a seguinte nota:

“— Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga não. Deus esteja”. Assim João Guimarães Rosa inicia “Grande Sertão: Veredas”. Dostoiévski também se valeu da palavra nonada no seguinte trecho do livro “A Casa dos Mortos”, tradução de Fernanda Pinto Rodrigues: “Por uma coisa séria, ou por um nonada, zás, me surravam”(...).

No sábado (17/10/2015), eu me deparei novamente com a palavra “nonada”; dessa vez, no “Lazarillo de Tormes” (publicado em meados do século XVI), livro cuja autoria é desconhecida. Logo no terceiro parágrafo da obra, diz o narrador: “Y todo va desta manera; que, confesando yo no ser más santo que mis vecinos, desta nonada, que en este grosero estilo escribo, no me pesará que hayan parte y se huelguen con ello todos los que en ella algún gusto hallaren, y vean que vive un hombre con tantas fortunas, peligros y adversidades”. 

HAICAI 43

Não quero placê. 
Não quero placebo. 
Eu quero você. 

... DE CADA DIA



domingo, 18 de outubro de 2015

(DES)APONTAMENTO 40

José de Alencar, no “Iracema”, escreveu que “tudo passa sobre a terra”. Em tempos atuais, dir-se-ia que tudo assa sobre a terra. 

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

DEUS

Deus não dá carro. 
Deus não castiga. 
Deus não salva.
Deus não dá saúde. 
Deus não envia doença. 
Deus não tem ouvidos. 
Deus não escuta preces. 
Deus não tem eleitos.
Deus não vai à igreja. 
Deus não vai à mesquita. 
Deus não vai ao templo.
Deus não manda chuva. 
Deus não causa seca.
Deus não aprova em concurso.
Deus não cura.
Deus não cuida.
Deus não ganha jogo. 
Deus não perde jogo.
Deus não promove guerras.
Deus não evita acidentes.
Deus não dá vida. 
Deus não dá vida após a morte.
Deus não faz ninguém escrever. 
Deus não me lê. 

LONGA HISTÓRIA

Não escrevo poemas longos
por ter medo de dar bobeira ao escrevê-los.
Ora, mas a maior bobeira é o medo de dar bobeira.
Que venham os poemas longos.
(Este prova que não vieram ainda.) 

APONTAMENTO 286

Todo mundo nasceu para escutar histórias.  Alguns,  também  para  contá--las. 

TU, EU, OS OUTROS

Quem me amar
vai amar meu pai
(sou também o que ele foi).

Quem me amar
vai amar minha mãe 
(sou também o que ela é).

Quem me amar
vai amar meus amigos
(sou também o que são).

Quem me amar
vai amar todos os homens
(sou também o que são).

Quem me amar
vai amar o que sou
(sou também o que sou).

Quem me amar
vai amar a ignorância 
(sou também o que não sei de mim). 

APONTAMENTO 285

A natureza não prega peças, mas, se pregasse, tenho comigo que a maior delas seria o aparente giro do Sol em torno da Terra. 

APONTAMENTO 284

As coisas do corpo fazem bem para as do espírito. Longas peregrinações, grandes escaladas... Isso é penoso para o corpo, mas esse mesmo corpo é que se regozija depois, por ter sido capaz. Regozijado o corpo, regozijada a alma. Transcendental e místico é o corpo. 

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

O TOPO

Nem todo mundo topa o topo.
Nem todo mundo está pronto para ele
(mesmo muitos que muito o querem).

Quem topa mesmo o topo paga caro.
Um preço que dinheiro não compra.
Um preço que nem todo corpo topa pagar.
Que nem toda mente topa pagar.

Poucos topam o topo.
Muitos o tomam pelo que não é.
Lá, poucos estarão.
Por isso, não raro, solitários.
O topo não é lugar de multidão. 

HAICAI 42

Tudo era ócio,
tudo era prazer.
Agora é negócio. 

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

APONTAMENTO 283

Em vez de reclamares de que não há pessoas boas, sê uma pessoa boa. 

HAICAI 41

Digo: eu faço assim:
eu leio e eu escrevo.
Mato, pois, o esplim. 

CBF EM CAMPO

O time da Venezuela é mesmo fraco: perdeu até para a seleção da CBF. 

NOITE E ÁRVORES

O VOO DA CURICACA

Esta também faz parte da série de imagens não feitas com a lente ideal. Hoje, indo para o trabalho, eu tinha acoplada na câmera uma lente 18-135, que não é ideal para fotos de aves e de pássaros. Mesmo assim, quando me dei conta de que a curicaca estava na área, tirei o equipamento fotográfico da mochila e disparei.

Depois de fazer umas três fotos enquanto a curicaca estava no chão, ela foi espantada por um quero-quero, talvez por estar ela perto do ninho dele. Tendo a curicaca decolado, depois da investida do quero-quero, fotografei o voo dela. 

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

FACHOS E PONTOS


Fotografar é também contar uma história. Ou é um modo de olhar para um objeto, uma coisa, um evento, um animal, uma mulher, uma multidão... À medida que a pessoa vai fotografando, ela desenvolve preferências, seja quanto a temáticas, seja quanto a técnicas que serão usadas.

Gosto demais de fotos com longa exposição. Até chego a pensar que, pudesse eu, dedicar-me-ia integralmente a esse tipo de fotografia. A ideia de brincar com o tempo, a ideia de brincar com a luz... Isso é tentador demais para que eu não experimente, para que eu não tente.

Toda foto, não importa o dispositivo em que é produzida, tem um tempo de exposição. Esse tempo de exposição se refere ao tempo que a luz tem para chegar ao filme ou ao cromo (fotos analógicas) ou ao sensor (fotos digitais).

Por convenção, esse tempo de exposição pode vir fracionado. Por exemplo: se o tempo de exposição de uma imagem é de 1/4000, isso significa que a luz teve o tempo de um segundo divido por quatro mil para chegar ao filme, ao cromo ou ao sensor. É mais produtivo escrever 1/4000 do que escrever 0,00025 segundo.

As fotos com longa exposição tem um tempo de exposição... longo... Em fotografia, dois segundos já são considerados um tempo longo. O tempo de exposição pode durar horas. Dito de modo simples: se digo que o tempo de exposição de uma imagem é de duas horas, isso quer dizer que a câmera ficou tirando uma única foto por duas horas; ou ainda que a luz teve duas horas para chegar ao filme, ao cromo ou ao sensor.

Nestas duas imagens, usei diferentes abordagens para o mesmo assunto e para praticamente a mesma composição. Em ambas, a lente está debaixo da árvore e voltada para o céu, de modo que os galhos secos formem a silhueta. 

Na imagem em que as estrelas são pontos de luz, o tempo de exposição é 30 segundos, a abertura é F/5.6 e o ISO é 3200. Na imagem em que as estrelas se transformaram em fachos de luz, o tempo de exposição é seis minutos, a abertura é 5.0 e o ISO é 100.

A técnica não é o mais importante, seja na fotografia, seja em outra manifestação. Contudo, é uma grande aliada. Somente conhecedor da técnica é que eu conseguiria realizar as intenções de produzir pontos de luz numa foto e fachos de luz noutra. Sempre que dou aulas de fotografia, insisto na importância do domínio da técnica.