domingo, 20 de setembro de 2015

LANÇAMENTO DE LIVRO

Em breve, lançarei mais um livro. Dessa vez, pela Chiado Editora, que tem sede em Portugal. O livro será lançado no Brasil e em Portugal; poderá ser adquirido também no formato “e-book”. O título é Dislexias. A produção está na fase final: a capa já foi definida e as revisões derradeiras já estão ocorrendo. Brevemente, mais detalhes. 

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

DA NATUREZA DOS MILAGRES

Quando pequeno, minha mãe recomendava que eu fosse à missa. Eu ia. Mais pela recomendação do que pelo desejo de ir. Ainda na pré-adolescência, eu abandonaria o hábito. Eu ia à igreja dos Capuchinhos, por morar perto dela. Na época, havia a chamada missa das crianças, que ocorria aos domingos, às 9h.

A igreja ficava cheia. Quando era chegada a hora de as pessoas receberem as hóstias, o padre ficava perto do altar; havia dois ou três ajudantes que iam para outros pontos, a fim de também distribuírem hóstias.

Eu sempre me tornava ansioso, por supor que não haveria hóstia o bastante para aquele tanto de gente; afinal, os cálices não eram grandes. Imagina se faltasse hóstia para os desejosos? Nunca faltou. Na minha cabeça, ocorria, durante a celebração, o milagre da multiplicação das hóstias. 

terça-feira, 15 de setembro de 2015

SOBRE LER

Um livro pode ser ponte. 
Um livro pode ser muro. 
O leitor pode ler ponte quando há muro.
O leitor pode ler muro quando há ponte. 
Seja por desaviso. 
Seja por má-fé. 

SIMPÓSIO SOBRE CYRO DOS ANJOS É REALIZADO

No fim de semana, participei, no Unipam (Centro Universitário de Patos de Minas), do Primeiro Simpósio de escritores de Minas: Cyro dos Anjos. Publico nesta postagem algumas fotos e a programação do evento. Publico também um texto meu sobre o escritor a que o simpósio era dedicado.

Programação

11/09

19h, abertura
19h15, apresentação musical: canções folclóricas de Minas, com o Grupo Tupam (Núcleo de Arte e Cultura/Unipam)
19h30, mesa-redonda de abertura:
Professor doutor Élcio Lucas (Unimontes): “O homem que espia o homem: o Belmiro por trás da letra”
Professor doutor Luís André Nepomuceno (Unipam): “A menina do sobrado: o amor e o belo como distintivos sociais”
Mediador: Professor Lívio Soares de Medeiros

12/09

14h, mesa-redonda 1
Professor mestre Carlos Roberto da Silva (Unipam): “O herói fracassado em O amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos: notas de leitura”
Professora mestra Bruna Pereira Caixeta (doutoranda em Teoria e História Literária pela Unicamp): “A menina do sobrado e o romance não autobiográfico de Cyro dos Anjos”
Professor doutor Frederico de Sousa Silva (UFU): “Apontamentos clássicos em Cyro dos Anjos”
Mediador: Luís André Nepomuceno

15h45, mesa-redonda 2
Professor Moacir Manoel Felisbino (Unipam): “Ofício de escritor — da arquitetura textual à indagação acerca do sentido da vida em Abdias
Professor Lívio Soares de Medeiros (IFTM): “Poemas coronários, de Cyro dos Anjos: impressões de leitura
Mediador: Carlos Roberto da Silva

Belmiro Borba e Belmiro Montesclarino — Lívio Soares de Medeiros

Cyro dos Anjos publicou “Poemas coronários” em 1964. O livro havia sido escrito no ano anterior, de vinte e dois de agosto a dezenove de setembro, enquanto o autor estava internado. Os doze breves poemas que compõem o volume foram escritos na iminência da morte.

O autor logo anuncia um eu lírico para os poemas — Belmiro Montesclarino. De imediato, a “piscadela” nos remete ao narrador de “O amanuense Belmiro”, romance de Cyro dos Anjos. Ora, se por um lado há que se tomar certo cuidado ao associar a biografia do autor à sua obra, por outro, o próprio Cyro dos Anjos, ao nomear o eu lírico de “Poemas coronários” como sendo Belmiro Montesclarino, propõe um jogo lúdico-literário-biográfico. Afinal, Cyro dos Anjos é de Montes Claros; além do mais, ele, de fato, relembremos, esteve internado devido a problemas coronários.

Seria útil e didático comentar brevemente cada um dos “Poemas coronários”. A paráfrase deles que faço a seguir os empobrecerá, mas será útil para que se tenha uma visão global do que é, em minha leitura, o corpo do texto. Os poemas não têm títulos. Na ordem em que aparecem, enumero-os e comento-os a seguir:

Poema 1: celebra-se o nascimento do dia;
Poema 2: na iminência da morte, cria-se um deus;
Poema 3: não se quer nem o deus de Aristóteles nem o deus de Espinosa: quer-se um deus com zangas e birras, mas que seja bom;
Poema 4: confessa-se a fragilidade que se tem, bem como a dependência que se tem dos outros;
Poema 5: a morte é visita; pede-se que ela vá embora, pois há um filho para se criar;
Poema 6: não saber quem se é nem se o que se é vale para algo;
Poema 7: atmosfera de tristeza e de fragilidade. O tom é quixotesco;
Poema 8: expressa-se a alegria de estar vivo ao acordar (o que acaba remetendo o leitor ao primeiro poema do livro);
Poema 9: “O corpo vence a morte”;
Poema 10: a vida vale a pena, desde que vivida uns pelos outros;
Poema 11: a família do autor é apresentada;
Poema 12: a morte tem belo aspecto; desculpas são pedidas “aos poetas de ofício”.

Emerge da leitura dos doze textos o retrato de um eu lírico fragilizado, humanizado. Essa fragilidade se expressa em textos que não têm conhecidos (embora eficazes) truques literários. A literariedade, que poderia ter ficado mais evidente do que o que se confere na leitura, está em segundo plano (os textos, por exemplo, são classificados como poesia muito mais em função do aspecto visual do que pela cadência que têm); o que há são os medos, inseguranças e alegrias de quem está num hospital, temendo perder a vida. É como se o que importasse não fosse fazer literatura, mas, sim, registrar o que poderiam ser as últimas palavras a serem escritas por um paciente em um hospital.

O caráter frágil a que me referi acima é também estilístico. Os “Poemas coronários” se valem da retórica da falsa modéstia. Antes mesmo do primeiro poema, numa espécie de introdução, o eu lírico usa as expressões “lira ingênua”, “escritor menor” e “imperito nas artes poéticas”; no último poema, recordemos, esse mesmo eu lírico pede desculpas “aos poetas de ofício”. Cyro do Anjos, prosador que era, estava, nos “Poemas coronários”, pisando terreno que não percorria em sua trajetória de escritor. Essa falsa modéstia acaba por estar em sintonia com o tom espontâneo dos poemas.

De “O amanuense Belmiro”, valho-me de uma frase, a fim de realçar algumas diferenças entre o narrador do romance e o eu lírico dos “Poemas coronários”. Num dado momento, Belmiro anuncia: “Creio que já não quero o mito mas a pessoa”. A pessoa em questão é Carmélia, de quem Belmiro fala ao longo da obra.

Os “Poemas coronários” abrem mão de um mito, por assim dizer; abrem mão do mito literário. Em “O amanuense Belmiro”, há a construção de um personagem/narrador. Dito de outro modo: forja-se um personagem/narrador. Seria um tanto difícil para o leitor que não teve contato pessoal com Cyro dos Anjos apontar o que dele, Cyro dos Anjos, há em Belmiro. Em contrapartida, talvez um tanto irresponsavelmente, afirmo: o eu lírico dos “Poemas coronários” é Cyro dos Anjos. Se não o é plenamente, pelo menos o é em maior escala do que Belmiro Borba. Este passa o livro todo construindo um mito, seja por não ter Carmélia, seja por edificar uma persona literária. Quando não tem mais a capacidade de erigir mitos, desiste de escrever.

Nesse sentido, é curioso o quanto o narrador Belmiro é diferente do narrador Casmurro. Menciono isso por já ter havido comparações entre Cyro dos Anjos e Machado de Assis. À parte a concordância ou a não concordância quanto a tais comparações, Casmurro e Belmiro diferem nisto: aquele, terminada sua narrativa, já adquiriu o gosto pela escrita; tanto é assim que anuncia, nas linhas finais de “Dom Casmurro”, que iniciará a escrita de outro livro; já Belmiro, mesmo tendo escrito o segmento “esta literatura íntima é a minha salvação”, acaba por anunciar que não há mais o que escrever, pois a vida se tornara vazia. Um dá sentido à vida por intermédio da escrita; o outro abandona a escrita por ter perdido o sentido da vida.

























segunda-feira, 14 de setembro de 2015

FULANO, BELTRANO E SICRANO

“Por que hão de os homens separar-se pelas ideias? De bom grado, eu sacrificaria minha ideia mais nobre para não perder um amigo. Neste mundo, sou apenas um procurador de amigos”.
Cyro dos Anjos

1
Fulano torce para o time A.
Beltrano torce para o time A.
Deram-se bem por causa disso.

Fulano votou no candidato A.
Beltrano voltou no candidato B.
Fulano brigou com Beltrano por causa disso.

2
Fulano votou no candidato A.
Beltrano votou no candidato A.
Deram-se bem por causa disso.

Fulano torce para o time A.
Beltrano torce para o time B.
Beltrano brigou com Fulano por causa disso.

3
Sicrano, enquanto isso,
mudou-se para Miami. 

APONTAMENTO 281

É preciso duvidar de quase tudo, mas é preciso acreditar em algo. 

domingo, 13 de setembro de 2015

DO TODO À PARTE

Conhecer 
todo o prazer 
de que teu corpo 
é capaz.

Conhecer 
todo prazer 
de que teu corpo 
é capaz. 

ENSAIA

Saia de cara limpa,
saia da preguiça,
saia de cena,
saia do conforto.

Saia para o trabalho,
saia para casa,
saia para a escola,
saia para a noite.

Saia de pé.
Saia para o amor.

Se longa,
se velha,
se justa,
se nova,
se curta,
se larga...

Caso
se lembre
de mim,
saia. 

"EVERYBODY HURTS", DO R.E.M.

O pop/rock tem diversas canções tristes. Uma com um clima bem melancólico é “Everybody hurts”, do R.E.M. Por si, a voz do Michael Stipe já é merencória (o que, claro, não é problema algum). Não bastasse, em “Everybody hurts” o arranjo é lamentoso, o que acaba gerando um paradoxo instigante, pois a letra tem um tom que conclama à não desistência. A faixa tem uma voz triste, amparada por um triste arranjo, numa letra a qual diz que não se deve desistir. Uma bela canção. 

BUSCAS

Se não me entrego à poesia, 
ela me busca.

Se ela não se entrega a mim,
eu a busco.

Eu dependo dela. 
Ela não depende de mim. 

APONTAMENTO 280

Os sexos têm pontos em comum de que nem suspeitamos e diferenças de que nem fazemos ideia. 

CRUZEIRO E ATLÉTICO EMPATAM NO MINEIRÃO

Depois de um primeiro tempo chocho, Cruzeiro e Atlético fizeram um memorável segundo tempo há pouco, no Mineirão. Com Mena tendo sido expulso aos seis minutos da segunda etapa, a pressão do Atlético passou a ser grande, embora tenha sido o Cruzeiro, com Alisson e com Willian, a ter as grandes chances. Mesmo assim, a impressão que se tinha era a de que, devido à forte pressão que fazia, seria questão de tempo para que o Atlético marcasse. O que ocorreu, aos quarenta e três, por intermédio de Carlos.

Se o goleiro Victor falhara no gol do Cruzeiro, redimiu-se, defendendo o pênalti cobrado por Willian, que esteve ofuscado enquanto Luxemburgo comandou a Raposa recentemente. No duelo particular entre Cruzeiro e Atlético, dentro do campeonato brasileiro, a Raposa teve vantagem sobre o Galo, pois o Cruzeiro venceu no primeiro turno. Já os corintianos ficaram satisfeitos com o empate no Mineirão: o Corinthians está a cinco pontos do Atlético. 

domingo, 6 de setembro de 2015

"OPERILDA NA ORQUESTRA AMAZÔNICA"

Na noite de sábado, dentro da programação do Balaio, aqui em Patos de Minas, conferi o espetáculo “Operilda na orquestra amazônica”. Operilda é interpretada pela atriz Andréa Bassitt. Em cena, ela se apresenta ao lado dos músicos Elaine Giacomelli (piano), Clara Bastos (contrabaixo), Paula Souza Lima (violino), Joca Araújo (clarinete e flauta), Joyce Peixoto (trombone) e Cássia Maria (percussão). A direção musical é do maestro Miguel Briamonte. A geral, de Regina Galdino.

Trata-se de uma criação que é teatral e que é, ao mesmo tempo, musical. Agrada a crianças — com piadas criativas — e agrada a adultos — com humor criativo. Não bastasse, “Operilda na orquestra amazônica” conta a história de grandes compositores da música brasileira, ao mesmo tempo em que evidencia o espetáculo que é a natureza daqui.

No contexto em que vivemos, a produção se torna necessária para o Brasil, não para que ele olhe para si com benevolência ou com condescendência, mas para que ele olhe para si e enxergue um País talentoso, musical, criativo e de natureza exuberante. “Operilda na orquestra amazônica” inspira, mostra-nos que o povo brasileiro pode ser tão grande e exuberante quanto o chão que pisa.
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Consegui a foto via Facebook (https://www.facebook.com/Operilda). Não havia autoria do registro. 

APONTAMENTO 279

Não sei o que é mais danoso: se uma inteligência malévola ou se uma burrice malévola. Se igualmente danosas, diferem-se, contudo, nos métodos. Todavia, podem ser, ambas, eficazes. 

domingo, 30 de agosto de 2015

MORRE OLIVER SACKS

Oliver Sacks morreu hoje. No dia dezenove de fevereiro deste ano, ele publicou, no jornal The New York Times, uma carta de despedida. Sacks tinha câncer.

Por algumas vezes, escrevi sobre os médicos. Em especial, sobre a questão de que muitos deles estão se esquecendo de que os pacientes são, antes de qualquer coisa, gente.

Matéria publicada hoje por The New York Times tem frase de Sacks referindo-se a A. R. Luria, que Sacks muito admirava. Segundo o médico americano, com Luria, “a ciência se tornou poesia”.

Também Sacks fez a ciência ficar bonita. Nesse sentido, foi poeta. Pena que muitos médicos, que tratam pacientes como fardo, não se inspirem em Sacks. Hoje, a ciência ficou menos bonita. 

CELESTIAIS


Ambas as fotos foram tiradas ontem. A do pôr do Sol, às 17h45; a do nascer da Lua, às 18h36. 

HADDAD E O ZÉ RODINHA

Fernando Haddad, em São Paulo, tem sido criticado por quem o Mauro Cezar Pereira, da ESPN, chama de Zé Rodinha: dentre as características do Zé Rodinha, uma é ser contra a faixa para ciclistas. Para ele, a cidade é só dos carros. Há alguns dias, um motorista, num veículo, depois de xingar uma ciclista que se valia da faixa destinada a bicicletas, disse à mulher que São Paulo não é Amsterdã. Mas nem tudo é boçalidade. Aqui em Patos, dias atrás, numa academia, havia uma jovem usando uma camiseta com seguintes dizeres: “No Haddad, no gain

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

(DES)APONTAMENTO 35

Nem todo livro que fica em pé sozinho se sustenta quando lido. 

(DES)APONTAMENTO 34

Evite trocadilhos inevitáveis. 

(DES)APONTAMENTO 33

A telepatia é precursora dos dispositivos de comunicação sem fio. 

ROCK IN RIO

O Rock in Rio proibiu o uso de pau de “selfie”.  A ideia é tentar fazer com que as pessoas olhem para o palco durante os shows.
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O Rock in Rio proibiu o uso de pau de “selfie”. O pessoal vai ter de se virar com as próprias mãos. 

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

COMO SE DAR BEM

A maioria das pessoas quer se dar bem na vida. Dar-se bem na vida pode ter significados diferentes. Para um, seria morar em Fernando de Noronha; para outro, em Paris. Não importa onde se queira estar, as dicas abaixo são infalíveis para os que querem se dar bem no mundo corporativo, embora possam ser usadas em outros ambientes.

Os truques a seguir foram reunidos por uma equipe de profissionais que se deram bem nos locais em que trabalham. Todos eles ocupam hoje cargo de chefia nas empresas em que estão. Mesmo atarefados, reuniram-se e elaboraram o documento que se segue, dando provas da benevolência que têm. A enumeração adotada não diz respeito a hierarquia, mas a didatismo. Eis os macetes.

1. Elege um inimigo — qualquer um

A tática é ótima. Se quiseres jeito eficaz e rápido de chegar a teus objetivos, inventa um inimigo. A turba ficará tensa, não terá paz. Por causa disso, o populacho divulgará boatos, distorcerá fatos — inventando uma gravidade que não se confirma se confrontada com a realidade. Um ambiente instável é terra fértil para espertalhões. És ou não um espertalhão?

2. Tergiversa

Conta com a falta de memória das pessoas. Se, por acaso, alguém te interpelar, se, por acaso, alguém perceber algum deslize teu, cria tergiversações. Um blá-blá-blá qualquer, de preferência cheio do politicamente correto, tem eficácia. Vai a algum meio de comunicação e dá qualquer declaração. Jornais, revistas, sítios, emissoras de televisão e de rádio gostam dessas coisas.

3. Semeia, sem plausibilidade, o pânico

Eleger um inimigo e semear o pânico são coisas diferentes. Todavia, as duas estratégias, que correm paralelas, podem se tocar num ponto ou noutro. O pânico não precisa estar personificado, embora possa ser representado por um “inimigo”, por uma pessoa. Não estando numa pessoa, a criação do pânico pode estar numa ideia, num boato, numa mentira. A rigor, quanto mais etérea for a causa do pânico, melhor. Para dar credibilidade a teu embuste, contrata profissionais que darão aura de ciência a teus caprichos. De preferência, profissionais raivosos, rancorosos. Mas lembra-te também dos falsamente comedidos. Há uma parcela da população (embora seja minoria) que, mesmo sendo facilmente enganada, não quer saber de gritaria.

4. Fala alto

Quando se fala alto, confere-se autoridade ao que se fala. Autoridade falsa, enganosa. Estratégia que convence os tolos; por isso, convence a maioria. Fala alto, bate na mesa. Manha antiga, porém eficaz. O vozerio não tem capacidade para apreciar sutilezas, mas se impressiona com berros sem sentido.

5. Mente

Parece desnecessário elencar esse preceito. Mesmo assim, ei-lo. Sê teatral. Se tiveres dificuldade, procura um ator profissional; aprende com ele truques, macetes, poses, expressões, gestos. Capricha na fala, cuida da voz, investe em roupas. Não importa o que tu és; o que importa é a imagem que passas; o que importa é o que pareces ser. Mente descaradamente. Teu interesse está acima da verdade.

6. Nega evidências

Vez ou outra algum espertinho vai apontar tuas incongruências, vai desnudar aquilo que está óbvio, mas que não é percebido pela multidão. Se perceberes que as coisas podem se complicar, nega as evidências, nega o óbvio. Maquia tuas mentiras caso sejam flagradas. Faz isso sem medo. Lembra-te de que os incautos não têm inteligência para perceber a essência das coisas. Uma maquiagem caprichada esconderá deles qualquer evidência.

7. Tem preconceitos

São indispensáveis. Não se pode ter medo de ostentá-los. Quem deseja o poder não pode deixar de ter preconceitos. Não importa o alvo que escolheres. Não importa se mulheres, se homossexuais, se negros, se estrangeiros, se todos eles. Caso não tenhas preconceito, forja pelo menos um. Essa artimanha seduz os tolos; tu precisas da tolice.

8. Esquece a lógica

Se quiseres o poder com a essência do que és, esquece a lógica. Melhor dizendo: cria tua própria lógica, que não precisa estar em sintonia com a lógica verdadeira. Contradições, rompantes, mentiras, textos que se contradigam. Tudo é válido, tudo pode ser útil para ti, desde que embrulhado em papel de boa aparência.

9. Ignora o bom senso

Desconsidera o que tem solução fácil. O que importa é teu modo de fazer as coisas, o teu jeito de resolvê-las. Se alguém sugerir para ti uma solução mais prática, rápida e fácil, desconsidera. Quando for o caso, dá um tempo e depois implanta a solução sugerida por outrem como se ela fosse tua. Não deves obediência a nada, a não ser a tuas próprias vontades.

10. Bajula

Sem bajular, não chegarás ao poder. Bajula principalmente aqueles que tu queres derrubar. Lembra-te, contudo, de também bajular aqueles que não queres prejudicar. Esquece os que estão no baixo escalão. Bajula os grandes. Sê agradável com eles. Mente para eles. Diante deles, inventa para eles qualidades que não têm, faz de conta que tens interesse nas vidas deles, finge achar graça das piadas — comumente ridículas — que contam.

11. Age como se tivesses cultura

Colhe nas redes sociais algumas citações. Ninguém nunca leu uma linha, por exemplo, de Shakespeare. Pega uma frase tolinha qualquer e diz que é do escritor inglês. Ou do Einstein. Ou do Churchill. Ou do Pelé. Escolhe um nome conhecido; ou um desconhecido. De vez em quando, não importa se num contexto formal ou se no cafezinho da tarde, anuncia, em tom de suposta sabedoria, uma dessas frases, ligando-a a algum nome. Diz, por exemplo, “‘é preciso acreditar em si mesmo para se conquistar o que se quer, é preciso ter garra, é preciso ter perseverança, é preciso ter foco, é preciso passar por cima dos obstáculos, principalmente quando os obstáculos forem pessoas’, como bem nos ensina Wittgenstein”. Teus colegas de trabalho ficarão impressionados. Com duas ou três atuações dessas, adquirirás fama de culto.

12. Repete chavões (abrem mais do que portas)

Teu discurso não pode ser inovador. É preciso que capriches na dicção, é preciso que moldes a voz. Contudo, é necessário que tu te lembres de que esses cuidados não implicam um discurso original. Esquece os filósofos, esquece os sábios, esquece os pensadores, ignora os escritores, ignora leituras úteis; desconsidera tiradas inteligentes, passa ao largo de algo que lembre perspicácia, brilhantismo, originalidade. Repete lugares-comuns, colhe citações em sítios de autoajuda. Sê piegas, sê superficial. Teu alvo é a maioria. A maioria é ignara. A maioria não merece que tenhas escrúpulos. 

terça-feira, 25 de agosto de 2015

APONTAMENTO 278

Transforma em arte o que tens de pior. Isso vai melhorar o que tens de melhor. 

APONTAMENTO 277

Não confundir tenacidade com rosnados. Estes têm fúria; aquela pode ter silêncio. 

domingo, 23 de agosto de 2015

TITO, O HORRENDO

Este é Tito, meu cachorro. 

SONORO

Que minha voz,
junto a teu corpo,
reverbere nas curvas
de tua orelha.
Que minha voz, 
junto a teu corpo,
passeie em tua
pele eriçada. 

sábado, 22 de agosto de 2015

(DES)APONTAMENTO 32

Para os que acreditam, a vida que levamos, cheia de atribulações, de dificuldades, é um estágio para que se tenha algo melhor depois do instante da morte. Caso se queira um corpo saudável, em forma, é preciso praticar atividade física e cuidar da alimentação. O dinheiro, quando vem, não costuma vir fácil; para que se chegue a ele, é preciso percorrer um caminho difícil. Como um todo, as agruras vêm antes, o prazer vem depois. Com o álcool, o processo se inverte — as delícias vêm antes das ressacas. 

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

GENTILI

Recentemente, Danilo Gentili ironizou convite de Maurício Meirelles, humorista, para que o apresentador do SBT se apresentasse em Boa Vista, capital de Roraima. Eis a resposta de Gentili: “Show em Roraima? Tá louca que vou fazer show nessa bosta de lugar? Vocês vão pagar meu cachê com o quê? Com peixe ou com prostitutas? Prefiro fazer show no inferno”.

O Danilo Gentili é engraçado (mas nem tanto assim) quando diz que é humorista. 

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

NO CONSULTÓRIO

— Do que exatamente você tem vergonha?
— De existir. 

DOS LAPSOS

Hoje pela manhã, para aula de inglês, levei três textos: a letra da canção “Cool kids”, do Echosmith, a crônica “Os diferentes”, do Artur da Távola, e uma postagem de ontem, sobre moda, da Cynara Menezes.

No que entrego os textos para os estudantes, um deles logo me pergunta: “Ué, Lívio, o título da música é esse mesmo?”. Confiro o que eu digitara. Em vez de “Cool kids” (“Garotos descolados”), digitei “Cook kids”. “Cook” é o verbo “cozinhar”. Terá sido reminiscência de “Modesta proposta e outros textos satíricos”, do Swift?... 

APONTAMENTO 276

O brasileiro não convive bem com o brasileiro. Quando muito, suporta-o. 

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

CACHORROS E TUCANOS


Ontem, na Avenida Paulista, em São Paulo, manifestante concedeu entrevista para a Jovem Pan. Quando o repórter da emissora perguntou para o transeunte sobre o motivo pelo qual ele estava com o cachorro dele na manifestação, o entrevistado disse que decidira levar o quadrúpede para, com isso, simbolizar a cachorrada que, segundo ele, a política brasileira se tornou.

O manifestante fez bem em levar um cachorro. Afinal, se tivesse levado, por exemplo — e apenas por exemplo —, um tucano, o cidadão poderia ter se encrencado, pois a ave, de bela plumagem, não pode ser presa. 

domingo, 16 de agosto de 2015

SOBRE FOTO À VENDA

Sei que eu saiba o motivo pelo qual isso tenha ocorrido, esta é a foto minha mais comercializada no Alamy, banco de imagens por intermédio do qual vendo parte de meu acervo fotográfico. A imagem está longe de ser a minha preferida, mesmo levando-se em conta somente as que estão no Alamy.

Se quiser conferir mais de meu trabalho à venda no banco de imagens, basta clicar aqui. Caso se interesse em adquirir alguma das imagens, isso pode ser feito via Alamy. Mas, se preferir, entre em contato direto comigo, deixando comentário (que não será publicado) nesta postagem. 

VASCO FORA DE CAMPO

A falta de educação não implica o fiasco; de modo análogo, a gentileza não assegura o êxito. Ainda assim, a campanha horrorosa do Vasco no primeiro turno do campeonato brasileiro tem se mostrado um fiasco fora de campo também.

Ontem, demitiram o Celso Roth. Até aí, nenhum problema, mesmo tendo-se noção de que ele não é o responsável único pela campanha irrisória do Vasco. Mas, em última instância, os cartolas têm o direito de contratar ou de demitir quem quiserem, por mais estapafúrdias que sejam tais demissões (geralmente são).

Quem anunciou que Roth não seria mais o técnico do Vasco foi o vice-presidente de futebol da equipe, José Luis Moreira. Ele foi lacônico: “O treinador tá fora (...). Celso Roth tá fora do Vasco”. A brevidade ou a objetividade não são problemas. Aliás, são até recomendadas. A questão do cartola do Vasco foi o tom que ele usou.

Ele foi deselegante, mal-educado. A grosseria dele ficou ainda mais evidenciada quando, minutos depois, Roth concedeu entrevista plena de civilidade. Não há como saber o que houve nos bastidores; julgando pelo que foi ao ar, ficou claro o grau de “profissionalismo” dos que mandam no Vasco.

Não vale o argumento de que o dirigente estava, por assim dizer, de cabeça quente. Além do mais, esses momentos são mais reveladores do que as calmarias. Quando reassumiu, o Eurico Miranda disse que o respeito voltara. Não é o que o primeiro turno do torneio demonstrou. No segundo, a equipe terá de fazer muito para fugir do rebaixamento. O torcedor da equipe merece mais — dentro e fora de campo. 

APONTAMENTO 275

A fome não é uma boa conselheira quanto ao sabor dos alimentos. 

APONTAMENTO 274

Lá no alto, o urubu é o ponto nas frases azuis que o céu de agosto escreve. 

APONTAMENTO 273

Se é do Haiti, atacam. Se é da Europa, bajulam. 

APONTAMENTO 272

A manha não é escrever nem falar sobre tudo, mas sobretudo. 

A FORÇA DE CAETANO

De vez em quando, acordo com vontade de escutar determinado artista. No dia treze, quinta-feira, acordei querendo escutar Caetano Veloso. Acho que foi devido ao ocorrido com imigrantes haitianos no dia primeiro deste mês, em São Paulo. É que desde então tenho me lembrado de “Haiti”, do Caetano.

Na quinta, mal tendo me levantado, passei a escutar várias canções do baiano (dentre elas, “Haiti”). Enquanto eu ia escutando, a força das letras do artista foi tomando conta. São letras tão poderosas, que não é exagero dizer que Caetano não faz “apenas” música — ele é criador também de literatura. 

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

EM FORMA

Tu és a beleza. 
A beleza em forma. 
A beleza em forma de gente. 
Em minhas mãos, 
que tu sejas beleza
em forma de poesia. 

PROGRAMA CONTA-GOTAS EM MAIS UM HORÁRIO

ARQUIVO

Texto escrito, 
eu o salvei no
disco rígido. 
Ficou guardado
por tempo demais. 
Todo o computador
já cheirava a mofo. 

APONTAMENTO 272

A verdade é que sempre dependi de quem escreve bem. Também por isso sempre fui um leitor de revistas: os elegantes editoriais de Almyr Gajardoni nos primórdios da Superinteressante, os textos que Ailin Aleixo escrevia para a Vip, os ensaios de Sérgio Augusto para a Bravo!, o humor de Verissimo e de Millôr nas publicações por que passaram... Continuo sendo um leitor de revistas. Recentemente, achei mais uma razão para continuar assim: Cynara Menezes, com a coluna Boteco Bolivariano, na Caros Amigos. 

sábado, 1 de agosto de 2015

DUAS MÃES

Mãe 1

Eram mais ou menos sete e vinte da manhã. Eu começaria a dar aula às sete e meia. Ao lado de onde eu trabalhava, havia uma padaria; eu estava tomando café. Foi quando chegou um garoto de uns, suponho, treze, catorze anos; a mãe o acompanhava.

— Mãe, me dá uma Coca-Cola.
— Meu filho, já falei com você. O café da manhã é uma refeição importante: você precisa se alimentar melhor...
— Mãe, me dá uma Coca-Cola.
O garoto recebeu o refrigerante.
— Mãe, quero uma esfirra.
— Meu filho, não é hora de comer essas coisas. Café da manhã é hora de comer frutas, de tomar leite...
— Mãe, quero uma esfirra.

O garoto a recebeu.
_____

Mãe 2

Eu estava num supermercado. Próximo à seção de chocolates, havia um garoto de uns, presumo, cinco ou seis anos. Ele seguia ao lado da mãe.

— Mãe, quero um chocolate.
— Já falei que você não deve ficar comendo essas coisas com frequência. Você vai comer chocolate quando eu disser que você pode comer chocolate.
— Mãe, me dá um chocolate!
— Você não vai ganhar chocolate hoje. Pronto e acabou.
O garoto começa a chorar bem alto. Exalta-se. Dá birra. Deita-se no chão, gritando. A mãe, de olhos arregalados, olha para o menino. Mesmo diante da situação, ela conferiu um tom calmo à voz:
— Hum, então o senhor agora aprendeu a dar birra. Pois fique aí com seu chilique. Eu tenho mais o que fazer.

Dizendo isso, a mãe saiu empurrando o carrinho de compras. O menino, cujos berros já podiam ser escutados em todo o supermercado, gritou mais alto ainda. A mãe, conseguindo aparente impassibilidade, continuou se afastando do garoto. Tendo chegado ao fim de uma das prateleiras, virou à esquerda, sem olhar para o filho, que parou, súbito, de chorar. Esperou alguns segundos. Não tendo mais notícia da mãe, saiu correndo atrás dela. 

quarta-feira, 29 de julho de 2015

HAICAI 39

Sem mas nem porém. 
O que há é sempre mais. 
Assim seja: amém. 

HAICAI 38

Madrugada; silêncio ativo. 
Nesta hora, eu me desponto. 
Tens um corpo: sou cativo. 

OUTRA QUADRINHA

Ele é o sujeito. 
Ela é o objeto. 
Ele é o abjeto. 
Ela se sujeita. 

QUADRINHA

Ela não precisa da rima, 
ele não precisa da musa.
Tudo então é sem escusa. 
Com palavra, dá em cima. 

HAICAI 37

Que a casa não caia.
Mais Darcy Ribeiro
e menos Malafaia. 

TRAJETOS

As mãos sabem o caminho 
que o pensamento sugere. 
O corpo sabe os desejos 
que a imaginação incendeia. 
Eu sei onde fica tua casa. 

terça-feira, 28 de julho de 2015

BAHIA

Bahia de todos os cantos. 
De todos os corpos. 
A Bahia é África. 
É casa em forma
de Brasil.

Meu ar, 
meu bar, 
meu lar,
meu mar, 
meu par.

Sabem meus pés 
que a Bahia
é minha asa. 

segunda-feira, 27 de julho de 2015

MEU POEMA SOBRE A FALTA DO QUE DIZER

O melhor poema
sobre a falta
do que dizer
seria o branco
sem palavras.
Agora é tarde:
a falta do que
dizer tornou-se
algo que não
deveria ter
sido dito. 

quinta-feira, 23 de julho de 2015

APONTAMENTO 271

Nem todo mundo está pronto para a beleza, e mesmo quando se está, sempre é possível estar mais pronto para ela. 

APONTAMENTO 270

Ao ler a frase “se você se suicidasse, estaria matando a pessoa errada”, Fulano entende o aforismo como carta branca para matar o próximo... Alguém escreve que não gosta da cor amarela: um leitor interpreta que a pessoa não gosta nem de verde nem de vermelho nem de azul... Sujeito diz que é canhoto — é entendido que ele está achincalhando os destros... Uma pessoa ironiza o radicalismo, mas pelos radicais é enaltecida... É moeda corrente a incapacidade de interpretação levar a vitupérios. Swift, dentre outras coisas, zomba dessa incapacidade no “Viagens de Gulliver”. Ela é tão velha quanto o homem. As redes sociais a escancararam. 

quarta-feira, 22 de julho de 2015

VEJA x RECORD

A Veja pergunta para que serve o Pan; a Record pergunta para que serve a Veja. Esta, por não lucrar o bastante com o torneio; aquela, por lucrar. 

APONTAMENTO 269

Não sem motivo, está no imaginário a eficaz ideia de que o mundo é um palco e de que somos os atores. Não nos esqueçamos contudo de que histórias pululam na coxia de cada um. 

APONTAMENTO 268

Tenho em mim turbilhão. Se for para falar dele, que seja em forma de arte (ou que haja a tentativa dela). Se não for assim, que esse turbilhão permaneça, para os que estão de fora, silêncio. 

CHOVENDO DINHEIRO

Depois que o comediante Simon Brodkin, na pele de seu personagem Jason Bent, aproximou-se de Sepp Blatter, cartola da Fifa, no início de uma coletiva de imprensa, e jogou dinheiro (falso) sobre Blatter, o ainda presidente da Fifa disse que teriam de limpar o recinto antes de a conferência se iniciar, retirando o “dinheiro” que Brodkin jogara. O chefão da Fifa disse, referindo-se ao que acontecera por causa da atitude do comediante: “Isso nada tem a ver com o futebol”.

A frase de Blatter é apenas protocolar, pois o episódio tem, sim, muito a ver com o futebol. Se posteriormente tiver pensado sobre o assunto e se tiver sido sincero consigo em sua reflexão (do que duvido), Blatter admitirá que a performance de Brodkin levou ao palco o que, em essência, é o futebol.

Simon Brodkin, contundente, levou para o palco o mundo dos que comandam o futebol no mundo. Ao executar seu papel, ele, interpretando, fingindo ser Jason Bent, revelou, exatamente por intermédio desse fingimento, o... fingimento que é a Fifa, o teatro que é a Fifa. Esse é exatamente um dos poderes do teatro, um dos poderes da arte: ao fingir, escancara a realidade, descortina o que somos.

A atitude de Brodkin é circense: nada mais apropriado para o circo macabro que a Fifa se tornou. Ele joga “dinheiro” sobre Blatter: nada mais adequado para quem é o chefe de uma entidade que, em nome ganância, destruiu o espírito de verdadeiro futebol. Brodkin foi moleque, ousado, sagaz. Por essas atitudes, ele, sim, tem a ver com o futebol. Blatter e sequazes engessados é que nada têm a ver com o esporte. 

terça-feira, 21 de julho de 2015

CONTA-GOTAS

No primeiro dia do mês passado, comecei, pela Clube FM, a apresentar o programa Conta-Gotas. Desde então, tenho tido a oportunidade não só de matar a saudade do tempo em que eu fazia rádio: tenho falado de livros, filmes, poesia, futebol, política... Há ironias, textos de minha autoria, textos alheios, coisas velhas e coisas antigas... A atração é gravada aqui em casa. Envio a locução, sem trilha e sem mixagem; o Wallisson Silva, que trabalha para o Sistema Clube de Rádio, insere, trilhas e vinhetas, editando o programa, que dura no máximo dez minutos. Conto com sua audiência. 

segunda-feira, 20 de julho de 2015

HAICAI 36

Tornou-se apóstata.
Nenhuma religião
venceu a aposta. 

QUÍMICA

W.H. Auden, no livro “A mão do artista”, em ensaio intitulado “Ler”, escreveu, de acordo com tradução de José Roberto O’Shea, que “há pessoas que são inteligentes demais para se tornarem escritores”. Já Oscar Wilde, logo no comecinho de “O retrato de Dorian Gray, escreveu, segundo tradução de Oscar Mendes, que toda arte é completamente inútil”. Por fim, Ivan Turguêniev, por intermédio do personagem Bazárov, no romance “Pais e filhos”, conforme tradução de Rubens Figueiredo, escreveu: “Um químico honesto é vinte vezes mais útil do que qualquer poeta”. Preciso estudar química. 

sexta-feira, 17 de julho de 2015

HUMOR E AMOR

Terminei de ler há instantes o ensaio “Hamlet e Dom Quixote”, escrito por Ivan Turguêniev, autor do romance “Pais e filhos”. O ensaio é uma das coisas mais belas e sensatas que já li. Num dos trechos, segundo tradução de Rubens Figueiredo, lê-se: “Dom Quixote é ridículo... mas, no riso, existe uma força reconciliadora e reparadora — e se não sem motivo que dizem ‘o que faz rir é bem servido’, pode-se acrescentar que aquele de quem se riu já foi perdoado, e está mesmo prestes a ser amado”.

A associação entre o riso e o amor me remeteu a W.H. Auden. O livro “A mão do artista”, publicado pela Siciliano, reúne ensaios de Auden; num deles, intitulado “Notas sobre o cômico”, o poeta escreveu, segundo tradução de José Roberto O’Shea: “Não encontro um denominador comum entre as pessoas de que gosto ou que admiro, mas entre as que amo: todas me fazem rir”. 

SOBRE A REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL

De algum tempo para cá, a redução da maioridade penal de dezoito para dezesseis anos (Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 171/93) entrou na pauta das discussões. É mais um dos temas delicados que têm habitado o debate político no Brasil, em função da violência que envolve o adolescente, seja essa violência cometida por ele, seja ele a ser a vítima em um contexto violento.

Não é raro os defensores da redução da maioridade penal se valerem do seguinte argumento: “E se um menor com dezesseis anos matar sua mãe? Você acha justo que ele continue livre?”. O questionamento apela para a emoção, tem cara de infalibilidade. No entanto, parte do pressuposto de que a violência sempre virá do outro, de que ela nunca virá de um dos nossos.

Eu poderia perguntar, dentre outras coisas o seguinte: “E se seu filho menor matasse alguém?”. Não faria sentido descartar a possibilidade de que um dos nossos pode ser violento. Não tenho filhos, mas não faria sentido, caso tivesse, eu afirmar que um filho meu jamais seria capaz de matar alguém. Afirmar isso é argumento que apela para a emoção, bem como é apelar para a emoção perguntar o que eu faria se um menor matasse algum ente meu.

Obviamente, se há a proposta de se reduzir a maioridade penal, leva-se em conta que o adolescente, nesse caso, não é a vítima, mas, sim, aquele que a perpetra. Sentindo-se insegura e acuada, a sociedade reage, propondo que o jovem que tenha dezesseis ou dezessete anos passe a responder, como maior de idade, pelos delitos que vier a praticar.

Entidades sociais e de direitos humanos já se posicionaram contra a redução da maioridade penal. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) se disseram contra a redução. O Unicef argumenta que ela fere o que está posto no Estatuto da Criança e do Adolescente.

Dada a violência que assusta a população, a proteção a que tem direito os jovens de até dezessete anos é vista por uma grande parcela da sociedade como conivência do Estado diante da violência que pode vir a ser causada pelos adolescentes. A redução da maioridade penal, ainda que tenha de passar por trâmites legais, é a solução mais fácil para se enfrentar o problema. Nem toda solução fácil é necessariamente ilusória, mas é preciso ter desconfiança quanto às soluções fáceis.

Suponho que aqueles que advogam a redução da maioridade penal não creem que isso resolveria o problema da violência no Brasil. Penso que acreditam que isso diminuiria essa violência. Todavia, é preciso ter em mente os pressupostos que sustentariam a redução. Dependendo de quais sejam esses pressupostos, ter-se-á um paliativo, não uma proposta sólida, que leve em conta o longo prazo.

Um dos modos de se defender a redução da maioridade penal é considerar o indivíduo em si, como que apartado do meio em que ele está inserido. Nessa ótica, levar-se-ia em conta o suposto caráter do delinquente, deixando de lado o quadro social que o gerou. Numa análise assim, o sujeito é mau por não ter caráter, por não prestar, por não ter compaixão; exclusivamente sobre tal indivíduo recairia a responsabilidade pelas contravenções que ele praticou ou pratica.

Vítimas da violência praticada por adolescentes argumentam que é contra a redução da maioridade penal aquele que nunca foi vítima de tal violência. Nesse caso, o argumento é novamente de ordem pessoal: “Sou a favor da redução porque fui vítima. Você defende bandido por nunca terem apontado uma arma em sua cabeça”.

Embora ninguém nunca tenha apontado uma arma em minha cabeça, isso não quer dizer que eu não seja, diariamente, vítima da violência. Sou do tipo noturno. Sempre que estou chegando em casa, de madrugada, fico apreensivo no momento em que tenho de abrir o portão. Se estou nas proximidades de onde moro e percebo que há gente por perto, procuro adiar o momento de abrir o portão, dando mais algumas voltas pelas ruas — o que é, devido à hora avançada, também perigoso. Mesmo durante o dia, não deixo o portão aberto em momento algum. Tenho plena consciência do que é viver numa sociedade violenta, sei o que é sentir-se desprotegido.

À parte o que penso sobre a redução da maioridade penal, sou cidadão; como tal, sou vítima da violência. Em minha família, sabemos bem da truculência que pode acometer qualquer um. Tenho um irmão que hoje é paraplégico por ter levado um tiro, depois de uma discussão no trânsito, aqui em Patos de Minas. Dois sujeitos o perseguiram numa moto (meu irmão também estava de moto). Quando chegaram perto dele, deram dois tiros; um dos disparos acertou a medula.

Como os dois que foram atrás de meu irmão nunca foram identificados nem capturados, não há como saber se eram menores; se tomo a liberdade de contar esse episódio, é para ilustrar que sei do que a violência é capaz. Perguntei a meu irmão; ele me disse ser contra a redução da maioridade penal.

Segundos dados publicados pelo Pragmatismo Político, “dos 21 milhões de adolescentes brasileiros, apenas 0,013% cometeu atos contra a vida. Na verdade, são eles, os adolescentes, que estão sendo assassinados sistematicamente. O Brasil é o segundo país no mundo em número absoluto de homicídios de adolescentes, atrás da Nigéria. Hoje, os homicídios já representam 36,5% das causas de morte, por fatores externos, de adolescentes no País” [1].

Os números acima revelam que a minoria dos adolescentes são infratores. Todavia, as propostas de redução da maioridade penal levam em conta essa minoria. Um debate tão importante não pode ser pautado pela exceção, mas, sim, levar em conta o contexto que produz a violência. Exatamente por isso o debate não é fácil; exatamente por isso ele dever ser realizado.

O Estado não pode se furtar à obrigação de investir na educação, na inserção, na inclusão. Investir na educação não é o mesmo que relegar a segundo plano a punição contra os delitos. Ainda que se alegue que a redução da maioridade penal tenha sido adotada em outros países (e ela foi), a prática não teve como consequência a diminuição da criminalidade nos cinquenta e quatro países em que houve a redução, ainda de acordo com o Pragmatismo Político (ver nota 1). Ainda em consonância com o sítio pesquisado, Alemanha e Espanha voltaram atrás na decisão quanto à redução da maioridade.

Não professo nenhuma religião; independentemente disso, declaração da Pastoral da Juventude, organização ligada à igreja católica, cavouca uma ferida: “Mesmo com a diversidade étnica e social da população brasileira, as pessoas submetidas ao sistema prisional têm quase sempre a mesma cor e provêm da mesma classe social e territórios geográficos historicamente deixados às margens do processo do desenvolvimento brasileiro: são pessoas jovens, pobres, periféricas e negras” [2].

É preciso ainda dizer que há a ideia de se lucrar com a redução da maioridade penal. Ariel de Castro Alves, em entrevista para o Le Monde Diplomatique Brasil deste mês de julho, comenta: “Por trás do movimento pela redução da idade penal temos muitos parlamentares ligados às empresas de segurança privada ou às indústrias de armamentos. Muitos dos que trabalham nessas empresas de segurança privada são policiais; na verdade, são agentes da segurança pública que investem na insegurança pública para vender seus serviços particulares de segurança privada. Essas empresas querem pegar o filão dos presídios a serem privatizados. Para elas, quanto mais insegurança pública e mais presos, maiores os lucros!” [3].

A sociedade brasileira segrega, o que só aumenta a complexidade do debate que envolve a redução da maioridade penal. Qualquer solução para o problema da violência não pode deixar de levar em conta que parte dessa violência surge precisamente por causa da segregação. Penso que nenhum cidadão defenderia bandidos (a não ser que ele seja um). É claro que sou a favor de punições. Todavia, a violência é multifacetada e tem inúmeras causas. O debate que temos pela frente é longo, a tarefa é difícil. Nem por isso deveria deixar de ser realizada.
_____

[1] http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/03/jovens-negros-e-pobres-as-principais-vitimas-da-reducao-da-maioridade-penal.html. Acesso em 28/03/2015.
[2] Idem.
[3] Le Monde Diplomatique Brasil, edição de julho de 2015, página 8.