Para os que acreditam, a vida que levamos, cheia de atribulações, de dificuldades, é um estágio para que se tenha algo melhor depois do instante da morte. Caso se queira um corpo saudável, em forma, é preciso praticar atividade física e cuidar da alimentação. O dinheiro, quando vem, não costuma vir fácil; para que se chegue a ele, é preciso percorrer um caminho difícil. Como um todo, as agruras vêm antes, o prazer vem depois. Com o álcool, o processo se inverte — as delícias vêm antes das ressacas.
sábado, 22 de agosto de 2015
(DES)APONTAMENTO 32
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quinta-feira, 20 de agosto de 2015
GENTILI
Recentemente, Danilo Gentili ironizou convite de Maurício Meirelles, humorista, para que o apresentador do SBT se apresentasse em Boa Vista, capital de Roraima. Eis a resposta de Gentili: “Show em Roraima? Tá louca que vou fazer show nessa bosta de lugar? Vocês vão pagar meu cachê com o quê? Com peixe ou com prostitutas? Prefiro fazer show no inferno”.
O Danilo Gentili é engraçado (mas nem tanto assim) quando diz que é humorista.
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quarta-feira, 19 de agosto de 2015
NO CONSULTÓRIO
— Do que exatamente você tem vergonha?
— De existir.
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DOS LAPSOS
Hoje pela manhã, para aula de inglês, levei três textos: a letra da canção “Cool kids”, do Echosmith, a crônica “Os diferentes”, do Artur da Távola, e uma postagem de ontem, sobre moda, da Cynara Menezes.
No que entrego os textos para os estudantes, um deles logo me pergunta: “Ué, Lívio, o título da música é esse mesmo?”. Confiro o que eu digitara. Em vez de “Cool kids” (“Garotos descolados”), digitei “Cook kids”. “Cook” é o verbo “cozinhar”. Terá sido reminiscência de “Modesta proposta e outros textos satíricos”, do Swift?...
APONTAMENTO 276
O brasileiro não convive bem com o brasileiro. Quando muito, suporta-o.
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segunda-feira, 17 de agosto de 2015
CACHORROS E TUCANOS
Ontem, na Avenida Paulista, em São Paulo, manifestante concedeu entrevista para a Jovem Pan. Quando o repórter da emissora perguntou para o transeunte sobre o motivo pelo qual ele estava com o cachorro dele na manifestação, o entrevistado disse que decidira levar o quadrúpede para, com isso, simbolizar a cachorrada que, segundo ele, a política brasileira se tornou.
O manifestante fez bem em levar um cachorro. Afinal, se tivesse levado, por exemplo — e apenas por exemplo —, um tucano, o cidadão poderia ter se encrencado, pois a ave, de bela plumagem, não pode ser presa.
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domingo, 16 de agosto de 2015
SOBRE FOTO À VENDA
Sei que eu saiba o motivo pelo qual isso tenha ocorrido, esta é a foto minha mais comercializada no Alamy, banco de imagens por intermédio do qual vendo parte de meu acervo fotográfico. A imagem está longe de ser a minha preferida, mesmo levando-se em conta somente as que estão no Alamy.
Se quiser conferir mais de meu trabalho à venda no banco de imagens, basta clicar aqui. Caso se interesse em adquirir alguma das imagens, isso pode ser feito via Alamy. Mas, se preferir, entre em contato direto comigo, deixando comentário (que não será publicado) nesta postagem.
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VASCO FORA DE CAMPO
A falta de educação não implica o fiasco; de modo análogo, a gentileza não assegura o êxito. Ainda assim, a campanha horrorosa do Vasco no primeiro turno do campeonato brasileiro tem se mostrado um fiasco fora de campo também.
Ontem, demitiram o Celso Roth. Até aí, nenhum problema, mesmo tendo-se noção de que ele não é o responsável único pela campanha irrisória do Vasco. Mas, em última instância, os cartolas têm o direito de contratar ou de demitir quem quiserem, por mais estapafúrdias que sejam tais demissões (geralmente são).
Quem anunciou que Roth não seria mais o técnico do Vasco foi o vice-presidente de futebol da equipe, José Luis Moreira. Ele foi lacônico: “O treinador tá fora (...). Celso Roth tá fora do Vasco”. A brevidade ou a objetividade não são problemas. Aliás, são até recomendadas. A questão do cartola do Vasco foi o tom que ele usou.
Ele foi deselegante, mal-educado. A grosseria dele ficou ainda mais evidenciada quando, minutos depois, Roth concedeu entrevista plena de civilidade. Não há como saber o que houve nos bastidores; julgando pelo que foi ao ar, ficou claro o grau de “profissionalismo” dos que mandam no Vasco.
Não vale o argumento de que o dirigente estava, por assim dizer, de cabeça quente. Além do mais, esses momentos são mais reveladores do que as calmarias. Quando reassumiu, o Eurico Miranda disse que o respeito voltara. Não é o que o primeiro turno do torneio demonstrou. No segundo, a equipe terá de fazer muito para fugir do rebaixamento. O torcedor da equipe merece mais — dentro e fora de campo.
APONTAMENTO 275
A fome não é uma boa conselheira quanto ao sabor dos alimentos.
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APONTAMENTO 274
Lá no alto, o urubu é o ponto nas frases azuis que o céu de agosto escreve.
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APONTAMENTO 273
Se é do Haiti, atacam. Se é da Europa, bajulam.
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APONTAMENTO 272
A manha não é escrever nem falar sobre tudo, mas sobretudo.
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A FORÇA DE CAETANO
De vez em quando, acordo com vontade de escutar determinado artista. No dia treze, quinta-feira, acordei querendo escutar Caetano Veloso. Acho que foi devido ao ocorrido com imigrantes haitianos no dia primeiro deste mês, em São Paulo. É que desde então tenho me lembrado de “Haiti”, do Caetano.
Na quinta, mal tendo me levantado, passei a escutar várias canções do baiano (dentre elas, “Haiti”). Enquanto eu ia escutando, a força das letras do artista foi tomando conta. São letras tão poderosas, que não é exagero dizer que Caetano não faz “apenas” música — ele é criador também de literatura.
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quarta-feira, 12 de agosto de 2015
EM FORMA
Tu és a beleza.
A beleza em forma.
A beleza em forma de gente.
Em minhas mãos,
que tu sejas beleza
em forma de poesia.
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PROGRAMA CONTA-GOTAS EM MAIS UM HORÁRIO
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ARQUIVO
Texto escrito,
eu o salvei no
disco rígido.
Ficou guardado
por tempo demais.
Todo o computador
já cheirava a mofo.
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APONTAMENTO 272
A verdade é que sempre dependi de quem escreve bem. Também por isso sempre fui um leitor de revistas: os elegantes editoriais de Almyr Gajardoni nos primórdios da Superinteressante, os textos que Ailin Aleixo escrevia para a Vip, os ensaios de Sérgio Augusto para a Bravo!, o humor de Verissimo e de Millôr nas publicações por que passaram... Continuo sendo um leitor de revistas. Recentemente, achei mais uma razão para continuar assim: Cynara Menezes, com a coluna Boteco Bolivariano, na Caros Amigos.
sábado, 1 de agosto de 2015
DUAS MÃES
Mãe 1
Eram mais ou menos sete e vinte da manhã. Eu começaria a dar aula às sete e meia. Ao lado de onde eu trabalhava, havia uma padaria; eu estava tomando café. Foi quando chegou um garoto de uns, suponho, treze, catorze anos; a mãe o acompanhava.
— Mãe, me dá uma Coca-Cola.
— Meu filho, já falei com você. O café da manhã é uma refeição importante: você precisa se alimentar melhor...
— Mãe, me dá uma Coca-Cola.
O garoto recebeu o refrigerante.
— Mãe, quero uma esfirra.
— Meu filho, não é hora de comer essas coisas. Café da manhã é hora de comer frutas, de tomar leite...
— Mãe, quero uma esfirra.
O garoto a recebeu.
_____
Mãe 2
Eu estava num supermercado. Próximo à seção de chocolates, havia um garoto de uns, presumo, cinco ou seis anos. Ele seguia ao lado da mãe.
— Mãe, quero um chocolate.
— Já falei que você não deve ficar comendo essas coisas com frequência. Você vai comer chocolate quando eu disser que você pode comer chocolate.
— Mãe, me dá um chocolate!
— Você não vai ganhar chocolate hoje. Pronto e acabou.
O garoto começa a chorar bem alto. Exalta-se. Dá birra. Deita-se no chão, gritando. A mãe, de olhos arregalados, olha para o menino. Mesmo diante da situação, ela conferiu um tom calmo à voz:
— Hum, então o senhor agora aprendeu a dar birra. Pois fique aí com seu chilique. Eu tenho mais o que fazer.
Dizendo isso, a mãe saiu empurrando o carrinho de compras. O menino, cujos berros já podiam ser escutados em todo o supermercado, gritou mais alto ainda. A mãe, conseguindo aparente impassibilidade, continuou se afastando do garoto. Tendo chegado ao fim de uma das prateleiras, virou à esquerda, sem olhar para o filho, que parou, súbito, de chorar. Esperou alguns segundos. Não tendo mais notícia da mãe, saiu correndo atrás dela.
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quarta-feira, 29 de julho de 2015
HAICAI 39
Sem mas nem porém.
O que há é sempre mais.
Assim seja: amém.
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HAICAI 38
Madrugada; silêncio ativo.
Nesta hora, eu me desponto.
Tens um corpo: sou cativo.
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OUTRA QUADRINHA
Ele é o sujeito.
Ela é o objeto.
Ele é o abjeto.
Ela se sujeita.
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QUADRINHA
Ela não precisa da rima,
ele não precisa da musa.
Tudo então é sem escusa.
Com palavra, dá em cima.
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HAICAI 37
Que a casa não caia.
Mais Darcy Ribeiro
e menos Malafaia.
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TRAJETOS
As mãos sabem o caminho
que o pensamento sugere.
O corpo sabe os desejos
que a imaginação incendeia.
Eu sei onde fica tua casa.
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terça-feira, 28 de julho de 2015
BAHIA
Bahia de todos os cantos.
De todos os corpos.
A Bahia é África.
É casa em forma
de Brasil.
Meu ar,
meu bar,
meu lar,
meu mar,
meu par.
Sabem meus pés
que a Bahia
é minha asa.
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segunda-feira, 27 de julho de 2015
MEU POEMA SOBRE A FALTA DO QUE DIZER
O melhor poema
sobre a falta
do que dizer
seria o branco
sem palavras.
Agora é tarde:
a falta do que
dizer tornou-se
algo que não
deveria ter
sido dito.
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domingo, 26 de julho de 2015
sexta-feira, 24 de julho de 2015
CARA DE UM...
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quinta-feira, 23 de julho de 2015
APONTAMENTO 271
Nem todo mundo está pronto para a beleza, e mesmo quando se está, sempre é possível estar mais pronto para ela.
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APONTAMENTO 270
Ao ler a frase “se você se suicidasse, estaria matando a pessoa errada”, Fulano entende o aforismo como carta branca para matar o próximo... Alguém escreve que não gosta da cor amarela: um leitor interpreta que a pessoa não gosta nem de verde nem de vermelho nem de azul... Sujeito diz que é canhoto — é entendido que ele está achincalhando os destros... Uma pessoa ironiza o radicalismo, mas pelos radicais é enaltecida... É moeda corrente a incapacidade de interpretação levar a vitupérios. Swift, dentre outras coisas, zomba dessa incapacidade no “Viagens de Gulliver”. Ela é tão velha quanto o homem. As redes sociais a escancararam.
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quarta-feira, 22 de julho de 2015
VEJA x RECORD
A Veja pergunta para que serve o Pan; a Record pergunta para que serve a Veja. Esta, por não lucrar o bastante com o torneio; aquela, por lucrar.
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APONTAMENTO 269
Não sem motivo, está no imaginário a eficaz ideia de que o mundo é um palco e de que somos os atores. Não nos esqueçamos contudo de que histórias pululam na coxia de cada um.
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APONTAMENTO 268
Tenho em mim turbilhão. Se for para falar dele, que seja em forma de arte (ou que haja a tentativa dela). Se não for assim, que esse turbilhão permaneça, para os que estão de fora, silêncio.
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CHOVENDO DINHEIRO
Depois que o comediante Simon Brodkin, na pele de seu personagem Jason Bent, aproximou-se de Sepp Blatter, cartola da Fifa, no início de uma coletiva de imprensa, e jogou dinheiro (falso) sobre Blatter, o ainda presidente da Fifa disse que teriam de limpar o recinto antes de a conferência se iniciar, retirando o “dinheiro” que Brodkin jogara. O chefão da Fifa disse, referindo-se ao que acontecera por causa da atitude do comediante: “Isso nada tem a ver com o futebol”.
A frase de Blatter é apenas protocolar, pois o episódio tem, sim, muito a ver com o futebol. Se posteriormente tiver pensado sobre o assunto e se tiver sido sincero consigo em sua reflexão (do que duvido), Blatter admitirá que a performance de Brodkin levou ao palco o que, em essência, é o futebol.
Simon Brodkin, contundente, levou para o palco o mundo dos que comandam o futebol no mundo. Ao executar seu papel, ele, interpretando, fingindo ser Jason Bent, revelou, exatamente por intermédio desse fingimento, o... fingimento que é a Fifa, o teatro que é a Fifa. Esse é exatamente um dos poderes do teatro, um dos poderes da arte: ao fingir, escancara a realidade, descortina o que somos.
A atitude de Brodkin é circense: nada mais apropriado para o circo macabro que a Fifa se tornou. Ele joga “dinheiro” sobre Blatter: nada mais adequado para quem é o chefe de uma entidade que, em nome ganância, destruiu o espírito de verdadeiro futebol. Brodkin foi moleque, ousado, sagaz. Por essas atitudes, ele, sim, tem a ver com o futebol. Blatter e sequazes engessados é que nada têm a ver com o esporte.
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terça-feira, 21 de julho de 2015
CONTA-GOTAS
No primeiro dia do mês passado, comecei, pela Clube FM, a apresentar o programa Conta-Gotas. Desde então, tenho tido a oportunidade não só de matar a saudade do tempo em que eu fazia rádio: tenho falado de livros, filmes, poesia, futebol, política... Há ironias, textos de minha autoria, textos alheios, coisas velhas e coisas antigas... A atração é gravada aqui em casa. Envio a locução, sem trilha e sem mixagem; o Wallisson Silva, que trabalha para o Sistema Clube de Rádio, insere, trilhas e vinhetas, editando o programa, que dura no máximo dez minutos. Conto com sua audiência.
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segunda-feira, 20 de julho de 2015
HAICAI 36
Tornou-se apóstata.
Nenhuma religião
venceu a aposta.
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QUÍMICA
W.H. Auden, no livro “A mão do artista”, em ensaio intitulado “Ler”, escreveu, de acordo com tradução de José Roberto O’Shea, que “há pessoas que são inteligentes demais para se tornarem escritores”. Já Oscar Wilde, logo no comecinho de “O retrato de Dorian Gray”, escreveu, segundo tradução de Oscar Mendes, que “toda arte é completamente inútil”. Por fim, Ivan Turguêniev, por intermédio do personagem Bazárov, no romance “Pais e filhos”, conforme tradução de Rubens Figueiredo, escreveu: “Um químico honesto é vinte vezes mais útil do que qualquer poeta”. Preciso estudar química.
sexta-feira, 17 de julho de 2015
HUMOR E AMOR
Terminei de ler há instantes o ensaio “Hamlet e Dom Quixote”, escrito por Ivan Turguêniev, autor do romance “Pais e filhos”. O ensaio é uma das coisas mais belas e sensatas que já li. Num dos trechos, segundo tradução de Rubens Figueiredo, lê-se: “Dom Quixote é ridículo... mas, no riso, existe uma força reconciliadora e reparadora — e se não sem motivo que dizem ‘o que faz rir é bem servido’, pode-se acrescentar que aquele de quem se riu já foi perdoado, e está mesmo prestes a ser amado”.
A associação entre o riso e o amor me remeteu a W.H. Auden. O livro “A mão do artista”, publicado pela Siciliano, reúne ensaios de Auden; num deles, intitulado “Notas sobre o cômico”, o poeta escreveu, segundo tradução de José Roberto O’Shea: “Não encontro um denominador comum entre as pessoas de que gosto ou que admiro, mas entre as que amo: todas me fazem rir”.
SOBRE A REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL
De algum tempo para cá, a redução da maioridade penal de dezoito para dezesseis anos (Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 171/93) entrou na pauta das discussões. É mais um dos temas delicados que têm habitado o debate político no Brasil, em função da violência que envolve o adolescente, seja essa violência cometida por ele, seja ele a ser a vítima em um contexto violento.
Não é raro os defensores da redução da maioridade penal se valerem do seguinte argumento: “E se um menor com dezesseis anos matar sua mãe? Você acha justo que ele continue livre?”. O questionamento apela para a emoção, tem cara de infalibilidade. No entanto, parte do pressuposto de que a violência sempre virá do outro, de que ela nunca virá de um dos nossos.
Eu poderia perguntar, dentre outras coisas o seguinte: “E se seu filho menor matasse alguém?”. Não faria sentido descartar a possibilidade de que um dos nossos pode ser violento. Não tenho filhos, mas não faria sentido, caso tivesse, eu afirmar que um filho meu jamais seria capaz de matar alguém. Afirmar isso é argumento que apela para a emoção, bem como é apelar para a emoção perguntar o que eu faria se um menor matasse algum ente meu.
Obviamente, se há a proposta de se reduzir a maioridade penal, leva-se em conta que o adolescente, nesse caso, não é a vítima, mas, sim, aquele que a perpetra. Sentindo-se insegura e acuada, a sociedade reage, propondo que o jovem que tenha dezesseis ou dezessete anos passe a responder, como maior de idade, pelos delitos que vier a praticar.
Entidades sociais e de direitos humanos já se posicionaram contra a redução da maioridade penal. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) se disseram contra a redução. O Unicef argumenta que ela fere o que está posto no Estatuto da Criança e do Adolescente.
Dada a violência que assusta a população, a proteção a que tem direito os jovens de até dezessete anos é vista por uma grande parcela da sociedade como conivência do Estado diante da violência que pode vir a ser causada pelos adolescentes. A redução da maioridade penal, ainda que tenha de passar por trâmites legais, é a solução mais fácil para se enfrentar o problema. Nem toda solução fácil é necessariamente ilusória, mas é preciso ter desconfiança quanto às soluções fáceis.
Suponho que aqueles que advogam a redução da maioridade penal não creem que isso resolveria o problema da violência no Brasil. Penso que acreditam que isso diminuiria essa violência. Todavia, é preciso ter em mente os pressupostos que sustentariam a redução. Dependendo de quais sejam esses pressupostos, ter-se-á um paliativo, não uma proposta sólida, que leve em conta o longo prazo.
Um dos modos de se defender a redução da maioridade penal é considerar o indivíduo em si, como que apartado do meio em que ele está inserido. Nessa ótica, levar-se-ia em conta o suposto caráter do delinquente, deixando de lado o quadro social que o gerou. Numa análise assim, o sujeito é mau por não ter caráter, por não prestar, por não ter compaixão; exclusivamente sobre tal indivíduo recairia a responsabilidade pelas contravenções que ele praticou ou pratica.
Vítimas da violência praticada por adolescentes argumentam que é contra a redução da maioridade penal aquele que nunca foi vítima de tal violência. Nesse caso, o argumento é novamente de ordem pessoal: “Sou a favor da redução porque fui vítima. Você defende bandido por nunca terem apontado uma arma em sua cabeça”.
Embora ninguém nunca tenha apontado uma arma em minha cabeça, isso não quer dizer que eu não seja, diariamente, vítima da violência. Sou do tipo noturno. Sempre que estou chegando em casa, de madrugada, fico apreensivo no momento em que tenho de abrir o portão. Se estou nas proximidades de onde moro e percebo que há gente por perto, procuro adiar o momento de abrir o portão, dando mais algumas voltas pelas ruas — o que é, devido à hora avançada, também perigoso. Mesmo durante o dia, não deixo o portão aberto em momento algum. Tenho plena consciência do que é viver numa sociedade violenta, sei o que é sentir-se desprotegido.
À parte o que penso sobre a redução da maioridade penal, sou cidadão; como tal, sou vítima da violência. Em minha família, sabemos bem da truculência que pode acometer qualquer um. Tenho um irmão que hoje é paraplégico por ter levado um tiro, depois de uma discussão no trânsito, aqui em Patos de Minas. Dois sujeitos o perseguiram numa moto (meu irmão também estava de moto). Quando chegaram perto dele, deram dois tiros; um dos disparos acertou a medula.
Como os dois que foram atrás de meu irmão nunca foram identificados nem capturados, não há como saber se eram menores; se tomo a liberdade de contar esse episódio, é para ilustrar que sei do que a violência é capaz. Perguntei a meu irmão; ele me disse ser contra a redução da maioridade penal.
Segundos dados publicados pelo Pragmatismo Político, “dos 21 milhões de adolescentes brasileiros, apenas 0,013% cometeu atos contra a vida. Na verdade, são eles, os adolescentes, que estão sendo assassinados sistematicamente. O Brasil é o segundo país no mundo em número absoluto de homicídios de adolescentes, atrás da Nigéria. Hoje, os homicídios já representam 36,5% das causas de morte, por fatores externos, de adolescentes no País” [1].
Os números acima revelam que a minoria dos adolescentes são infratores. Todavia, as propostas de redução da maioridade penal levam em conta essa minoria. Um debate tão importante não pode ser pautado pela exceção, mas, sim, levar em conta o contexto que produz a violência. Exatamente por isso o debate não é fácil; exatamente por isso ele dever ser realizado.
O Estado não pode se furtar à obrigação de investir na educação, na inserção, na inclusão. Investir na educação não é o mesmo que relegar a segundo plano a punição contra os delitos. Ainda que se alegue que a redução da maioridade penal tenha sido adotada em outros países (e ela foi), a prática não teve como consequência a diminuição da criminalidade nos cinquenta e quatro países em que houve a redução, ainda de acordo com o Pragmatismo Político (ver nota 1). Ainda em consonância com o sítio pesquisado, Alemanha e Espanha voltaram atrás na decisão quanto à redução da maioridade.
Não professo nenhuma religião; independentemente disso, declaração da Pastoral da Juventude, organização ligada à igreja católica, cavouca uma ferida: “Mesmo com a diversidade étnica e social da população brasileira, as pessoas submetidas ao sistema prisional têm quase sempre a mesma cor e provêm da mesma classe social e territórios geográficos historicamente deixados às margens do processo do desenvolvimento brasileiro: são pessoas jovens, pobres, periféricas e negras” [2].
É preciso ainda dizer que há a ideia de se lucrar com a redução da maioridade penal. Ariel de Castro Alves, em entrevista para o Le Monde Diplomatique Brasil deste mês de julho, comenta: “Por trás do movimento pela redução da idade penal temos muitos parlamentares ligados às empresas de segurança privada ou às indústrias de armamentos. Muitos dos que trabalham nessas empresas de segurança privada são policiais; na verdade, são agentes da segurança pública que investem na insegurança pública para vender seus serviços particulares de segurança privada. Essas empresas querem pegar o filão dos presídios a serem privatizados. Para elas, quanto mais insegurança pública e mais presos, maiores os lucros!” [3].
A sociedade brasileira segrega, o que só aumenta a complexidade do debate que envolve a redução da maioridade penal. Qualquer solução para o problema da violência não pode deixar de levar em conta que parte dessa violência surge precisamente por causa da segregação. Penso que nenhum cidadão defenderia bandidos (a não ser que ele seja um). É claro que sou a favor de punições. Todavia, a violência é multifacetada e tem inúmeras causas. O debate que temos pela frente é longo, a tarefa é difícil. Nem por isso deveria deixar de ser realizada.
_____
[1] http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/03/jovens-negros-e-pobres-as-principais-vitimas-da-reducao-da-maioridade-penal.html. Acesso em 28/03/2015.
[2] Idem.
[3] Le Monde Diplomatique Brasil, edição de julho de 2015, página 8.
OFICINA
Consegui
bigorna e
martelo.
Agora,
conserto
a alma.
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quinta-feira, 16 de julho de 2015
quarta-feira, 15 de julho de 2015
RÁDIO
À distância,
escuta.
Num áudio
ideal,
escutaria
um sussurro.
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REPRESENTAÇÃO
O pessoal do Bastidores da Mídia, página que curto no Facebook, chamou a atenção para dois trechos do Reinaldo Azevedo. Um deles é de 2013; o outro é de 2015.
Em oito de abril de 2013, Azevedo escreveu: “A frase [não me representa] não passa de uma tolice autoritária, típica de gente que não entende o que é o processo democrático e pretende vencer no berro, e é um emblema desses tempos de minorais mimadas pela imprensa e pelos Poderes constituídos”. Em dez de julho de 2015, escreveu: “Sou católico, mas o papa Francisco não me representa”.
No trecho de 2013 ele se definiu; no de 2015, em ato falho, revelou-se.
terça-feira, 14 de julho de 2015
(DES)APONTAMENTO 31
Em Fortaleza, jegues passearam pelo aeroporto: o realismo mágico voa alto.
segunda-feira, 13 de julho de 2015
domingo, 12 de julho de 2015
UM CIGARRO
— Me dá um cigarro aí.
— Ué, você fuma?!
— Sim. Fumo, mas não trago.
— Pois deveria trazer.
(Há tempos, um diálogo com mais ou menos esse teor me foi relatado pelo Manoel Almeida, desenhista e advogado.)
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sábado, 11 de julho de 2015
APONTAMENTO 268
Parece coragem — mas é inconsequência.
quinta-feira, 9 de julho de 2015
CONTO 79
É só um flerte. Ela precisa dele para se sentir bonita; ele, para se sentir poeta. Ela é bonita.
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quarta-feira, 8 de julho de 2015
DAS CAPACIDADES
Ele não sabe argumentar.
Flerta com o linchamento.
Quem não tem recado
atira a primeira pedra.
Ele atira a segunda.
Só pararam na terça.
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terça-feira, 7 de julho de 2015
APONTAMENTO 267
Algumas produções afrontam a inteligência. Por isso, fazem sucesso.
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sábado, 4 de julho de 2015
VENTOS DESCONHECIDOS
Agora há pouco, o Tito, cachorro que tenho, teve medo: o vento derrubara uma vasilha de plástico, que caiu a uns dois metros dele. O temor foi tão grande que ele fez menção de entrar dentro de casa, o que ele não faz, por eu não permitir. Só depois de eu mexer na vasilha é que ele se acalmou. De modo análogo, não raro, sentimos medo, por não sabermos o que a natureza está ventilando.
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quinta-feira, 2 de julho de 2015
“ESTRELAS QUE ME GUIAM RUMO À SALVAÇÃO”
No trabalho de conclusão de curso de pós-graduação que fiz em filosofia, apresentei texto intitulado “A filosofia da MPB”. Minha ideia é a de que letras de canções populares podem realizar reflexões filosóficas. No trabalho, como argumento, separei algumas letras e as comentei.
Não raro, penso em fazer o mesmo com letras de canções internacionais. Se essa tarefa ainda não foi realizada, isso se deve a uma preguiça congênita e a uma desavergonhada indisciplina, o que, é claro, depõe contra mim.
Por causa disso, tenho pensado com frequência num trecho, que tem teor filosófico, de “Africa”, do Toto: “I seek to cure what’s deep inside / Frightened of this thing that I’ve become [Busco curar o que está bem no fundo / Assustado com esta coisa que me tornei].
COMO ASSIM?!
Como sempre.
Como nunca.
Como dito.
O que você come?
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terça-feira, 30 de junho de 2015
FOTOPOEMA 374
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BANDA JANELA VERDE EM EVENTO DOMINICAL
No domingo (28/06), na casa do fotógrafo Gabriel CZ, ocorreu evento com a participação da banda Janela Verde. CZ e os integrantes do grupo, após conversas, decidiram realizar algo em horário incomum: pela manhã. Na ocasião, a banda executou canções de autoria própria.
De acordo com CZ e com a banda, a intenção do evento, além de promover o ajuntamento de pessoas que, seja produzindo música, seja apreciando-a, participam do momento musical vivido na cidade, era divulgar o trabalho do Janela Verde; o EP deles pode ser conferido no Youtube. A intenção da banda é fazer show de lançamento desse EP.
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DERROTAS E VITÓRIAS
Assistindo a Argentina e Paraguai. No futebol atual, melhor perder como o Paraguai do que ganhar como o Brasil.
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segunda-feira, 29 de junho de 2015
O PAÍS DO FUTEBOLZINHO
Relevem o truísmo: o tempo passa, as coisas mudam. Não importa se melhoram nem se pioram. Elas mudam. Fiquemos, por ora, assim. O futebol mudou. Se melhorou ou se piorou, não é o que argumento. O que afirmo é mais um truísmo: o futebol de hoje não é o mesmo, por exemplo, de há vinte anos.
Não me refiro às maracutaias. A prisão de alguns figurões da Fifa não é dedetização forte o bastante para que haja limpeza na entidade e em seus tentáculos. Contudo, sejamos esperançosos; que sejam as prisões realizadas recentemente o chute inicial para se banir a podridão.
Apesar dos esquemas escusos dos que comandam o futebol, o esporte mudou dentro de campo. O fiasco do ludopédio praticado aqui é consequência de um jeito de praticar o esporte que se tornou obsoleto dentro de campo. O futebol europeu também é corrupto. A diferença entre o futebol deles e o nosso é a de que a corrupção deles não os impediu de, em campo, modificarem o modo como vinham jogando ao longo das décadas. O estrago da corrupção, em campo, é maior aqui.
Os sete gols da Alemanha no ano passado e a recente desclassificação na Copa América são sintomas visíveis de bastidores torpes. Isso não é ainda o que pode haver de pior. Chegará o dia em que a seleção da CBF não vai se classificar para uma Copa do Mundo. Chegará o dia em que os grandes clubes brasileiros vão apresentar um futebol mais chinfrim do que o que temos presenciado.
Ao lamaçal da Fifa e da CBF, junte-se nossa congênita falta de disciplina. Depois de não ter mais como piorar, o futebol brasileiro terá de assumir que não mais basta a genialidade de um ou de outro para que haja conquistas. Ainda que exista, no futuro, uma limpeza na corrupção da CBF, dentro de campo não haverá mudança se técnicos e jogadores não perceberem que futebol também se estuda, que futebol exige concentração e disciplina.
Além do mais, alguns jogadores têm na seleção brasileira uma apatia que não têm em clubes europeus. Não me deparo com isso quando assisto a jogos de outras seleções sul-americanas. Aliás, salvo estarem fazendo um teatrinho, o que confiro são seleções se doando em campo, a despeito da corrupção que existe também nas federações futebolísticas desses países. Não há nelas a preguiça e o tipo arrogante que caracteriza o time da CBF.
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sábado, 27 de junho de 2015
VÍRUS NO FUTEBOL
Segundo o Dunga, alguns jogadores tiveram virose. O nome do vírus é CBF.
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sexta-feira, 26 de junho de 2015
EXEMPLOS
Argentina e Colômbia estão jogando pela Copa América. Partida aguerrida, disputada com raça, com alma, com entrega... Esses atributos que a seleção da CBF não tem.
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quinta-feira, 25 de junho de 2015
JOICE HASSELMANN E AS PALAVRAS ALHEIAS
A Joice Hasselmann foi acusada de plagiar sessenta e cinco (!) reportagens. Ela negou; em nota publicada no Facebook, esbravejou contra aqueles que a estão acusando, mas... apagou, do blogue em que escreve, as postagens que estão sendo acusadas de serem plágio. Ora, se ela garante que os textos são dela, se ela está certa disso, por que apagá-los?...
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FAÇA NEGÓCIO COMIGO E SE DÊ BEM
O assunto de hoje é um dos mais importantes de que vou
tratar desde quando cheguei a este planeta, há cinco mil e três anos. Eu
poderia estar em qualquer lugar do Universo. Se estou aqui, é por querer o bem
de vocês. Guardem no coração as palavras que direi. Quando eu terminar, sigam
as instruções de meus colaboradores.
Caso você receba um salário mínimo, dê-me cinquenta por
cento do que você ganha. Se recebe dois, dê-me quarenta por cento; se três,
trinta por cento; se quatro, vinte por cento; se mais de quatro, bastam dez por
cento.
Se você estiver desempregado, não há problema; caso receba
ajuda financeira de algum parente ou de algum amigo, dê-me sessenta por cento
desse valor. Caso você esteja sendo bancado pelo cônjuge, dê-me setenta por
cento do que seu parceiro ou parceira lhe der.
Pode ser o caso de você, embora desempregado, fazer alguns
bicos. Se você estiver nessa situação, dê-me oitenta por cento do que você
arrecada com seus trabalhos. Se você ganhar na lotofácil, mega-sena, timemania
ou afins, dê-me noventa por cento do que você ganhar. Caso receba dinheiro de
aluguel, dê-me cem por cento do valor.
Vocês já conhecem meu trabalho. Sabem que não sou desses
charlatões que prometem mundos e fundos caso vocês deem seu dinheiro para eles.
Não sou mundano. Doando seu dinheiro para mim, vocês terão acesso, depois de mortos,
a deleites inefáveis. A linguagem de que vocês dispõem é chinfrim demais para
alcançar a grandeza das delícias que sei que vocês terão, desde que sigam
minhas ordens.
Sou um enviado. Estou aqui para interceder por vocês. Sou a
ponte entre vocês e o reino das delícias eternas. Sem mim, haverá para vocês
danação pelo resto da morte; comigo, garantem entrada para mananciais de
bonanças imorredouras.
Vou me valer de uma parábola, de uma analogia, de uma
metáfora. Fazendo negócio comigo, é como se vocês comprassem ingresso para
assistir a uma partida de futebol num estádio. Só que nesse jogo vocês estarão
em campo, marcando com minha intercessão golaços que lhe garantirão passeio
fecundo e cheio de regozijo em campos verdejantes, pródigos e eternos.
Existem muitos que dizem ser como eu sou. Não se deixe levar
por eles. Eu — e somente eu — sou o único e legítimo enviado das estrelas. Não
jogue nas mãos de safados aproveitadores tudo o que você é em vida nem jogue
fora tudo o que você poderá ser depois de ter morrido. Eu não vendo ilusões —
eu garanto sua felicidade eterna. Siga agora as instruções de meus
colaboradores.
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quarta-feira, 24 de junho de 2015
APONTAMENTO 266
Tem uma leveza bonita. Acho que é o jeito de se movimentar. Não é malemolente nem acelerado. Não há arrancos, não há lentidão. É como se fosse um movimento sutil (por isso marcante) e contínuo. Um meio termo que também está na voz, que, se não grita, também, sem afetação, não sussurra. Um modo de existir que não é apagado, mas que está longe de querer ofuscar. Uma existência que flui, que parece se esgueirar. Sem esforço aparente, destaca-se. É como se existir fosse a mais espontânea das ações.
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CONTO 78
Era o primeiro jantar que Ana Cláudia e Celso compartilhavam depois da briga. Estavam à mesa mais por insistência dele que por desejo dela, que ainda assim aquiesceu. O encontro foi na casa de Ana Cláudia, que preparou pato com laranja. Foi essa a primeira vez na qual ele achou que a comida dela não estava gostosa. Secretamente, ela teve a mesma opinião dele, ciente de que a refeição estava insossa por ela não ter seguido preceito que ela mesma criara — o de que se for para temperar com rancor, melhor não cozinhar.
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IMAGINAÇÃO E LEITURA
O engano daquele que tem imaginação é mais rico do que a platitude daquele que é mediano. A imaginação fértil precisa de solo fértil. Se não o acha no ambiente em que está, acha-o nos livros de que se vale. A leitura tonifica a imaginação; não bastasse, é escudo contra a mediocridade, seja a própria, seja a alheia.
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terça-feira, 23 de junho de 2015
SOBRE CAVALOS E ÉGUAS
Depois de prestar atenção danada em conversa de adultos, menino pergunta:
— Pai, por que estão chamando aquele cavalo ali de égua?
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FOTOPOEMA 373
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segunda-feira, 22 de junho de 2015
ROLA (2)
Sobre a frase do Boechat, Lenine aderiu... ao rolo: disse, no sábado, o mesmo que o jornalista dissera na sexta. A plateia gostou, repetiu: houve revoada.
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EM MÃOS
As atitudes que deixou de tomar:
a vida que poderia ter sido.
Os sonhos de que abriu mão:
a vida que poderia ter tido.
As viagens que acabou não fazendo:
a vida que poderia ter ido.
Resta-lhe uma vida na palma da mão:
já começou a deslizar pelos dedos.
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O CHARME DA ETIMOLOGIA
Tinha comigo que a palavra “glamour” já havia sido aportuguesada. Na dúvida, dicionário. Conferi. Não há em português o termo “glamur”. Ainda insistindo, fui ao Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, editado pela Academia Brasileira de Letras. Nele, também não há “glamur”.
De volta ao Houaiss, o dicionário que consultei, digitei “glamour”. Lendo a etimologia da palavra, revelação: “Ing. glamour (1715) ‘feitiço, encantamento, magia’, este do escocês glamour, glamer, alt. do ing. grammar ‘gramática’, pela associação que se fazia entre a erudição e as práticas ocultas”.
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Etimologia
QUEM QUER SER MODELO?
Recentemente, Pedro Andrade, por intermédio de rede de TV americana para a qual trabalha, exibiu breve documentário em que o universo dos modelos masculinos é destrinchado. Ao desnudar esse mundo, a produção destaca que o encantamento associado à profissão de modelo é, na maioria dos casos, ilusório. Na prática, o dia a dia da maioria desse pessoal não tem charme nem grana.
O auge da carreira é fazer sucesso em Nova Iorque. Poucos são os que conseguem estar lá. Só que conseguir estar lá não é ainda garantia de êxito. Muitos dos que vão para a cidade ou voltam para o lugar de onde saíram depois de pouco tempo ou levam uma vida com menos grana do que se supõe. A rigor, somente um dos modelos apresentados no documentário tem carreira longa e dinheiro sendo modelo. Ele é uma espécie de versão masculina de Gisele Bündchen. Chama-se Alex Lundqvist.
Depois de assistir ao documentário, a conclusão fácil é a de que, no ambiente dos modelos masculinos, o sucesso não é a regra, diferentemente da ideia que se pode ter. Mas, a rigor, o sucesso, pelo menos tal qual está presente no imaginário, é exceção não somente no mundo dos modelos masculinos.
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Pedro Andrade
APONTAMENTO 265
A erudição pode trazer elegância, mas arrotar erudição é deselegante, seja na fala, seja na escrita.
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domingo, 21 de junho de 2015
APONTAMENTO 264
Valeu a pena estudar inglês: a revista The New Yorker existe.
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Revista The New Yorker
sábado, 20 de junho de 2015
APONTAMENTO 263
O grande escritor não foge dos grandes temas.
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APONTAMENTO 262
Luiz Carlos Jr., narrador do Sportv, informou que Messi deixou a Argentina com treze anos. Ele tinha problema de crescimento; o tratamento custava novecentos dólares por mês. Nenhum time argentino quis bancá-lo; o Barcelona quis. Ao querer, não só resolveu o problema de Messi, mas também criou um gigante do futebol.
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sexta-feira, 19 de junho de 2015
ROLA
O “vai procurar uma rola”, do Boechat, foi o assunto do dia. Mas, também dele, fico com o “tomador de grana de fiel”.
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"A LEITURA PODE TORNAR VOCÊ MAIS FELIZ?"
A revista The New Yorker publicou mais um elegante artigo, intitulado “A leitura pode tornar você mais feliz?” [Can reading make you happier?]. O texto foi escrito por Ceridwen Dovey. Dentre outras vantagens, Dovey elenca os benefícios neurológicos advindos da leitura de ficção.
À parte tais benefícios, num trecho, ela escreve: “Numa era secular, eu suspeito de que ler ficção seja um dos poucos caminhos remanescentes para a transcendência, aquele elusivo estado em que a distância entre o eu e o universo encolhe”.
O texto de Dovey é sobre as serventias da leitura; percorrê-lo é vivenciá-las. Borges, numa penada, resumiu o que o texto da revista The New Yorker advoga — e o que todo leitor de ficção ou de poesia sabe: “A leitura é um forma de felicidade”.
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quinta-feira, 18 de junho de 2015
OS NOMES DOS LUGARES
Tenho certo fascínio por nomes de lugares. Mogadíscio é um nome de que gosto muito. Num dos caminhos que dão acesso a Belo Horizonte, há a região conhecida como Serra da Saudade. O lugar é perigoso, exige muito de quem esteja dirigindo por lá. Mas o nome é muito bonito. Um dos mais bonitos que já vi. Talvez só não seja mais belo do que Vila das Almas, nome de lugarejo que divisei à beira da rodovia, certa vez, indo para Diamantina. Vila das Almas... É um fabuloso nome para um romance.
AMARELINHA
Ontem, a Colômbia venceu o Brasil por um a zero, em jogo pela Copa América. “É preciso respeitar a amarelinha”. Houve um tempo em que essa frase era referência à cor da camisa da seleção brasileira.
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terça-feira, 16 de junho de 2015
APONTAMENTO 261
O futebol uruguaio é mais aguerrido do que técnico; o argentino, aguerrido e técnico; o brasileiro, técnico, imbele e indisciplinado.
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APONTAMENTO 260
Nos grandes escritores, cada palavra é importante.
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É...
Vai dar pé:
ela tem fé,
ela tem sé,
ela tem Zé.
ela tem fé,
ela tem sé,
ela tem Zé.
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CONTO 77
Há algum tempo, Zenon vinha flertando com Marta, que trabalhava num restaurante que ele passara a frequentar. A aliança na mão esquerda dela o fazia desistir de abordagem contundente. Além do mais, terminado o almoço, ele nem pensava nela. Numa noite insone, contudo, pensou. Nesse exato instante, Marta, que jamais havia pensado em Zenon, nele pensou. No outro dia, quando os olhares dos dois se encontraram, houve fagulha que denunciou a latência do fogo. O tempo passou. Não deixaram brotar o incêndio.
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segunda-feira, 15 de junho de 2015
APONTAMENTO 259
Escrever letra de música é uma habilidade diferente da habilidade de escrever poesia. Uma letra de música pode ser poética, mas um conto também pode. Dito com outras palavras: nem todo letrista tem habilidade para escrever poesia; nem todo poeta tem habilidade para escrever letra de música. É claro que uma pessoa pode ter as duas habilidades.
Como a poesia ou como a prosa, a letra de música pode condensar a complexa e multifacetada existência humana. Como gênero literário (encaro a letra de música como gênero), ela pode ser tão rica quanto qualquer outro texto em prosa ou em verso. Não que a letra de música precise soar como grande literatura, mas grande literatura ela pode ser.
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FUSÃO
Em toda manhã,
que fique algo
da noite:
a lembrança
de um sonho,
a presença
de um corpo.
Em toda tarde,
que fique algo
da manhã:
a lembrança
de um café,
a presença
de uma voz.
Em toda noite,
que fique algo
da tarde:
a lembrança
de um livro,
a presença
de um flerte.
Seja
meu agora
legado
que recebo
e herança
que deixo.
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domingo, 14 de junho de 2015
"VAGÃO"
Eu me emociono quando a simplicidade se transforma em arte. Quando em arte é transformada, a simplicidade tem, paradoxalmente, o poder de mostrar o quanto a vida pode ser complicada. É um paradoxo triste e bonito. O drama da vida pode estar em qualquer um, em qualquer lugar.
De nossas vidas, até que ponto somos autores, até que ponto somos escritos? Escolhemos ou somos escolhidos? Ou há uma mistura dos dois? Qual o papel do acaso? Qual nosso papel? Somos todos os autores dessa história ou somos personagens? Se personagens, quem está nos escrevendo?
Essas ideias esparsas me ocorreram enquanto eu assistia a “The lunchbox” [“Dabba”, 2013], do diretor Ritesh Batra, também autor do roteiro. Salvo engano, o filme não tem título em português, o que é uma pena. Se tivesse, e se tivesse havido tradução literal, o filme chamar-se-ia, segundo pesquisa que fiz (não sei se correta), “Vagão” (tradução de “Dabba”); em inglês, recebeu o título de “The lunchbox (“A Marmita”).
O sistema de entregas de marmitas na gigantesca Bombaim é conhecido como sendo um dos mais eficientes do mundo. Todavia, “The lunchbox” conta a história de uma entrega incorreta. Saajan Fernandes (interpretado por Irrfan Khan), certo dia, recebe seu almoço no escritório. Mas a refeição era para ter ido para o marido de Ila (interpretada por Nimrat Kaur). Ila mesma preparara a comida, numa tentativa de reaquecer seu casamento, que ia mal.
A partir daí, Ila e Saajan começam a se corresponder; as cartas ou os bilhetes eram acondicionados nas marmitas. Sem se conhecerem pessoalmente, eles, contudo, passam a saber um do outro por intermédio das correspondências. Num toque de humor do roteiro, os dois chegam a “brigar”, como se fossem namorados. Também engraçada é a participação de Auntie — voz de Bharati Achrekar. É que de Auntie, somente temos acesso à voz. Os diálogos entre ela e Ila conferem leveza ao filme.
“The lunchbox” é poético, lírico; é um filme sobre encontros e sobre desencontros; uma história feita de coincidências e do que parece prestes a acontecer. É um daqueles raros filmes construídos a partir de uma densa simplicidade, a partir de ricos detalhes. “The lunchbox” tem o poder de tornar melhor quem o assiste. E se você gosta de cozinhar, delicie-se.
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METADE
Tito, o cachorro aqui de casa, ainda não se acostumou de todo com meu equipamento fotográfico. Ora fica à vontade, ora fica ressabiado. Num desses momentos de desconfiança, escondeu-se parcialmente por detrás da parede que separa a cozinha do quintal. Não haveria como não tirar a foto.
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SEDENTO
“Mais do mesmo”: eles visitam essa torneira com frequência. Se a câmera está por perto, faço a foto.
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PRESCRIÇÃO
Ontem, narrador do SporTV, de que não sei o nome, resumindo a trajetória do jogador Allano, do Cruzeiro, diz que o jovem já estava desistindo de ser jogador de futebol, tendo procurado emprego numa farmácia. Hoje, tem oportunidade de ser titular de um grande time. A vida tem... remédio...
sábado, 13 de junho de 2015
CASA
Haverá o dia em que
não terei mais de habitar meu corpo.
Quando esse dia chegar,
não importa o que venha depois,
se danação,
se bênção,
se escuridão silente e perene,
terá início uma era de paz.
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quinta-feira, 11 de junho de 2015
APONTAMENTO 258
Entre o rio e os afluentes não há hierarquia: tudo são águas.
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quarta-feira, 10 de junho de 2015
ROXETTE E A VELHICE
Sinal inequívoco de velhice: durante aula, estava eu explicando o quanto o inglês é um idioma onomatopaico. De passagem, como exemplo, citei o duo sueco Roxette, que tem um CD intitulado “Crash! Boom! Bang!”. Uma aluna logo disse: “Ah, Lívio, minha mãe adora escutar as músicas desse povo aí”. Quando esse povo surgiu para o pop, eu já trabalhava em rádio...
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Roxette
APONTAMENTO 257
Do lirismo derramado, fujo mais do que foge — dizem — da cruz o diabo. Pareço me sair melhor na contenção do que no estilo caudaloso. Com este, eu não saberia me virar; com aquela, arrisco o que fazer.
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APONTAMENTO 256
Ronaldo Fenômeno criticando a CBF. Quando a poeira baixar, ele volta a ser amiguinho deles.
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APONTAMENTO 255
O povo brasileiro é melhor do que a chamada grande imprensa e do que os chamados grandes meios de comunicação do Brasil.
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CONTO 76
Adamastor estava se sentindo muito mal por ganhar menos do que a esposa. A princípio, fingiu ignorar. Depois, não resistindo, desquitou-se. Num rompante, decidiu que ficaria sem mulher. Isso durou dois anos e quatro meses. Hoje, é gigolô.
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terça-feira, 9 de junho de 2015
APONTAMENTO 254
Simplesmente não sei do que falam algumas letras do Zé Ramalho. “Beira--mar”, por exemplo, é sobre o quê? Não sei. Mas nem a poesia nem a música precisam ser entendidas pela lógica. Não dou a mínima se não entendo a letra de “Beira-mar”; quero mais, agora, é esgoelar “há peixes milagrosos, insetos nocivos / Paisagens abertas, desertos medonhos / Léguas cansativas, caminhos tristonhos / Que fazem o homem se desenganar”.
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HAICAI 35
Folhas, o vento leva.
Folhas em branco,
a caneta não releva.
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HAICAI 34
Em mim estão
o problema e
a solução.
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segunda-feira, 8 de junho de 2015
"RUSH"
Quando o esporte é levado para as páginas de um livro ou para o enquadramento das câmeras, não raro há criações belíssimas. Jamais assisti a uma partida de beisebol, mas “Por amor” [For love of the game] é um belo filme; nunca assisti a uma partida de futebol americano, mas “Um sonho possível” [The blind side] conta uma tocante história. Não importa se a abordagem é ficcional ou não: qualquer esporte é pleno de grandes histórias.
Por pensar assim, é que fiz questão de conferir “Rush: no limite da emoção” [Rush, 2013], do diretor Ron Howard; o roteiro é de Peter Morgan. O filme relata a temporada de 1976 da fórmula 1, quando James Hunt (interpretado por Chris Hemsworth) foi o campeão. Nesse tempo, a disputa era acirrada entre ele e Niki Lauda (vivido por Daniel Brühl), que sofreu um acidente durante uma corrida, quase tendo morrido. Na batida, Lauda teve queimaduras severas; mesmo assim, pouco mais de um mês depois, voltou às pistas.
“Rush” revela a relação especular que havia entre os dois pilotos. Lauda era o cerebral; Hunt, o emocional. Lauda, comedido fora das pistas; Hunt, envolvido com farras. Em comum, o talento incomum ao dirigir um carro. À medida que eu ia assistindo ao filme, eu ficava me perguntando o que nele seria biográfico e o que seria ficcional. Conferindo uma entrevista com Niki Lauda no YouTube, ele disse ter gostado muito de “Rush”, o que leva a crer que os elementos de realidade ficcionada não comprometeram a acuidade do trabalho. O próprio Lauda, no vídeo que assisti, usou o adjetivo “accurate” (acurado) para se referir ao trabalho de Ron Howard.
Gostando ou não de fórmula 1, assista a “Rush”. O filme exibe duas pessoas díspares, mas que tinham em comum o talento para dirigir e a força para causar uma grande rivalidade no automobilismo. Ainda que fosse pura ficção, “Rush” já convenceria como um excelente filme de ação com um primoroso enredo. Só que o filme não é pura ficção. Lauda e Hunt, que morreu em 1993, são a força... motriz da obra. Uma coisa é ter uma boa história para contar; outra é saber o que fazer com ela. Ron Howard e Peter Morgan souberam.
APONTAMENTO 253
A fênix mudou de nome em agosto de 1976: passou a se chamar Niki Lauda.
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domingo, 7 de junho de 2015
APONTAMENTO 252
A excelência é exceção, mas nem por isso a mediocridade deveria se tornar regra.
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ATENÇÃO
Para conseguir do Tito essa “pose”, fiz um trinado com a língua atrás dos dentes superiores. Ele achou tudo muito esquisito.
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"GRAVIDADE"
Quando “Gravidade” (Gravity, 2013), do diretor Alfonso Cuarón, foi lançado, a CNN teve a ideia de perguntar para um astronauta (não me lembro do nome dele) sobre a verossimilhança da produção. De acordo com o astronauta, o filme, no aspecto científico, não se sustenta. Ressaltou, contudo, que a produção de Cuarón é excelente entretenimento. O roteiro foi escrito por ele (Alfonso Cuarón) e por Jonás Cuarón.
Com o atraso de sempre, somente ontem é que conferi o filme, que tem no elenco Sandra Bullock (no papel de Ryan Stone) e George Clooney (no papel de Matt Kowalski). Ryan e Matt passam aperto quando a nave em que estão é atingida por estilhaços de satélites.
A partir desse momento, começam os problemas deles. São tantos que a partir de certo trecho do filme o espectador já passa a se perguntar qual encrenca virá a seguir. O próximo percalço passa a ser aguardado — e ele invariavelmente surge.
Dito assim, pode-se ter a impressão de que o enredo seria mera sucessão de tribulações vividas no espaço por astronautas. Isso não ocorre graças ao elemento humano que o filme tem. Trata-se, em última instância, de um enredo sobre a luta pela vida. Se falta ao filme verossimilhança científica, ele tem o mérito de ter verossimilhança quanto ao caráter e à dimensão humana dos personagens, mesmo às vezes sendo estranho Ryan estar em missão tão arriscada sem saber os rudimentos de como operar as engenhocas com que tem de lidar.
Os roteiristas acertaram em salpicar o filme com pitadas de humor aqui e ali, o que impediu que o drama de Ryan e de Matt se tornasse melodramático e monótono. Um dado curioso é o de que embora o filme se passe na órbita da Terra, ele é minimalista, a despeito de o cenário ser a vastidão do espaço. Na versão do título em português, mantiveram o original, o que foi decisão acertada, já que em inglês a palavra “gravidade” também tem duplo sentido.
O tempo é relativo, tanto na física quanto em nós. Com tão poucos personagens num cenário, paradoxalmente, tão limitado, terminados os noventa minutos do filme, fica-se com a impressão de que menos minutos de passaram. Sintoma de que assisti-lo não é perder tempo.
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