segunda-feira, 20 de julho de 2015

HAICAI 36

Tornou-se apóstata.
Nenhuma religião
venceu a aposta. 

QUÍMICA

W.H. Auden, no livro “A mão do artista”, em ensaio intitulado “Ler”, escreveu, de acordo com tradução de José Roberto O’Shea, que “há pessoas que são inteligentes demais para se tornarem escritores”. Já Oscar Wilde, logo no comecinho de “O retrato de Dorian Gray, escreveu, segundo tradução de Oscar Mendes, que toda arte é completamente inútil”. Por fim, Ivan Turguêniev, por intermédio do personagem Bazárov, no romance “Pais e filhos”, conforme tradução de Rubens Figueiredo, escreveu: “Um químico honesto é vinte vezes mais útil do que qualquer poeta”. Preciso estudar química. 

sexta-feira, 17 de julho de 2015

HUMOR E AMOR

Terminei de ler há instantes o ensaio “Hamlet e Dom Quixote”, escrito por Ivan Turguêniev, autor do romance “Pais e filhos”. O ensaio é uma das coisas mais belas e sensatas que já li. Num dos trechos, segundo tradução de Rubens Figueiredo, lê-se: “Dom Quixote é ridículo... mas, no riso, existe uma força reconciliadora e reparadora — e se não sem motivo que dizem ‘o que faz rir é bem servido’, pode-se acrescentar que aquele de quem se riu já foi perdoado, e está mesmo prestes a ser amado”.

A associação entre o riso e o amor me remeteu a W.H. Auden. O livro “A mão do artista”, publicado pela Siciliano, reúne ensaios de Auden; num deles, intitulado “Notas sobre o cômico”, o poeta escreveu, segundo tradução de José Roberto O’Shea: “Não encontro um denominador comum entre as pessoas de que gosto ou que admiro, mas entre as que amo: todas me fazem rir”. 

SOBRE A REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL

De algum tempo para cá, a redução da maioridade penal de dezoito para dezesseis anos (Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 171/93) entrou na pauta das discussões. É mais um dos temas delicados que têm habitado o debate político no Brasil, em função da violência que envolve o adolescente, seja essa violência cometida por ele, seja ele a ser a vítima em um contexto violento.

Não é raro os defensores da redução da maioridade penal se valerem do seguinte argumento: “E se um menor com dezesseis anos matar sua mãe? Você acha justo que ele continue livre?”. O questionamento apela para a emoção, tem cara de infalibilidade. No entanto, parte do pressuposto de que a violência sempre virá do outro, de que ela nunca virá de um dos nossos.

Eu poderia perguntar, dentre outras coisas o seguinte: “E se seu filho menor matasse alguém?”. Não faria sentido descartar a possibilidade de que um dos nossos pode ser violento. Não tenho filhos, mas não faria sentido, caso tivesse, eu afirmar que um filho meu jamais seria capaz de matar alguém. Afirmar isso é argumento que apela para a emoção, bem como é apelar para a emoção perguntar o que eu faria se um menor matasse algum ente meu.

Obviamente, se há a proposta de se reduzir a maioridade penal, leva-se em conta que o adolescente, nesse caso, não é a vítima, mas, sim, aquele que a perpetra. Sentindo-se insegura e acuada, a sociedade reage, propondo que o jovem que tenha dezesseis ou dezessete anos passe a responder, como maior de idade, pelos delitos que vier a praticar.

Entidades sociais e de direitos humanos já se posicionaram contra a redução da maioridade penal. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) se disseram contra a redução. O Unicef argumenta que ela fere o que está posto no Estatuto da Criança e do Adolescente.

Dada a violência que assusta a população, a proteção a que tem direito os jovens de até dezessete anos é vista por uma grande parcela da sociedade como conivência do Estado diante da violência que pode vir a ser causada pelos adolescentes. A redução da maioridade penal, ainda que tenha de passar por trâmites legais, é a solução mais fácil para se enfrentar o problema. Nem toda solução fácil é necessariamente ilusória, mas é preciso ter desconfiança quanto às soluções fáceis.

Suponho que aqueles que advogam a redução da maioridade penal não creem que isso resolveria o problema da violência no Brasil. Penso que acreditam que isso diminuiria essa violência. Todavia, é preciso ter em mente os pressupostos que sustentariam a redução. Dependendo de quais sejam esses pressupostos, ter-se-á um paliativo, não uma proposta sólida, que leve em conta o longo prazo.

Um dos modos de se defender a redução da maioridade penal é considerar o indivíduo em si, como que apartado do meio em que ele está inserido. Nessa ótica, levar-se-ia em conta o suposto caráter do delinquente, deixando de lado o quadro social que o gerou. Numa análise assim, o sujeito é mau por não ter caráter, por não prestar, por não ter compaixão; exclusivamente sobre tal indivíduo recairia a responsabilidade pelas contravenções que ele praticou ou pratica.

Vítimas da violência praticada por adolescentes argumentam que é contra a redução da maioridade penal aquele que nunca foi vítima de tal violência. Nesse caso, o argumento é novamente de ordem pessoal: “Sou a favor da redução porque fui vítima. Você defende bandido por nunca terem apontado uma arma em sua cabeça”.

Embora ninguém nunca tenha apontado uma arma em minha cabeça, isso não quer dizer que eu não seja, diariamente, vítima da violência. Sou do tipo noturno. Sempre que estou chegando em casa, de madrugada, fico apreensivo no momento em que tenho de abrir o portão. Se estou nas proximidades de onde moro e percebo que há gente por perto, procuro adiar o momento de abrir o portão, dando mais algumas voltas pelas ruas — o que é, devido à hora avançada, também perigoso. Mesmo durante o dia, não deixo o portão aberto em momento algum. Tenho plena consciência do que é viver numa sociedade violenta, sei o que é sentir-se desprotegido.

À parte o que penso sobre a redução da maioridade penal, sou cidadão; como tal, sou vítima da violência. Em minha família, sabemos bem da truculência que pode acometer qualquer um. Tenho um irmão que hoje é paraplégico por ter levado um tiro, depois de uma discussão no trânsito, aqui em Patos de Minas. Dois sujeitos o perseguiram numa moto (meu irmão também estava de moto). Quando chegaram perto dele, deram dois tiros; um dos disparos acertou a medula.

Como os dois que foram atrás de meu irmão nunca foram identificados nem capturados, não há como saber se eram menores; se tomo a liberdade de contar esse episódio, é para ilustrar que sei do que a violência é capaz. Perguntei a meu irmão; ele me disse ser contra a redução da maioridade penal.

Segundos dados publicados pelo Pragmatismo Político, “dos 21 milhões de adolescentes brasileiros, apenas 0,013% cometeu atos contra a vida. Na verdade, são eles, os adolescentes, que estão sendo assassinados sistematicamente. O Brasil é o segundo país no mundo em número absoluto de homicídios de adolescentes, atrás da Nigéria. Hoje, os homicídios já representam 36,5% das causas de morte, por fatores externos, de adolescentes no País” [1].

Os números acima revelam que a minoria dos adolescentes são infratores. Todavia, as propostas de redução da maioridade penal levam em conta essa minoria. Um debate tão importante não pode ser pautado pela exceção, mas, sim, levar em conta o contexto que produz a violência. Exatamente por isso o debate não é fácil; exatamente por isso ele dever ser realizado.

O Estado não pode se furtar à obrigação de investir na educação, na inserção, na inclusão. Investir na educação não é o mesmo que relegar a segundo plano a punição contra os delitos. Ainda que se alegue que a redução da maioridade penal tenha sido adotada em outros países (e ela foi), a prática não teve como consequência a diminuição da criminalidade nos cinquenta e quatro países em que houve a redução, ainda de acordo com o Pragmatismo Político (ver nota 1). Ainda em consonância com o sítio pesquisado, Alemanha e Espanha voltaram atrás na decisão quanto à redução da maioridade.

Não professo nenhuma religião; independentemente disso, declaração da Pastoral da Juventude, organização ligada à igreja católica, cavouca uma ferida: “Mesmo com a diversidade étnica e social da população brasileira, as pessoas submetidas ao sistema prisional têm quase sempre a mesma cor e provêm da mesma classe social e territórios geográficos historicamente deixados às margens do processo do desenvolvimento brasileiro: são pessoas jovens, pobres, periféricas e negras” [2].

É preciso ainda dizer que há a ideia de se lucrar com a redução da maioridade penal. Ariel de Castro Alves, em entrevista para o Le Monde Diplomatique Brasil deste mês de julho, comenta: “Por trás do movimento pela redução da idade penal temos muitos parlamentares ligados às empresas de segurança privada ou às indústrias de armamentos. Muitos dos que trabalham nessas empresas de segurança privada são policiais; na verdade, são agentes da segurança pública que investem na insegurança pública para vender seus serviços particulares de segurança privada. Essas empresas querem pegar o filão dos presídios a serem privatizados. Para elas, quanto mais insegurança pública e mais presos, maiores os lucros!” [3].

A sociedade brasileira segrega, o que só aumenta a complexidade do debate que envolve a redução da maioridade penal. Qualquer solução para o problema da violência não pode deixar de levar em conta que parte dessa violência surge precisamente por causa da segregação. Penso que nenhum cidadão defenderia bandidos (a não ser que ele seja um). É claro que sou a favor de punições. Todavia, a violência é multifacetada e tem inúmeras causas. O debate que temos pela frente é longo, a tarefa é difícil. Nem por isso deveria deixar de ser realizada.
_____

[1] http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/03/jovens-negros-e-pobres-as-principais-vitimas-da-reducao-da-maioridade-penal.html. Acesso em 28/03/2015.
[2] Idem.
[3] Le Monde Diplomatique Brasil, edição de julho de 2015, página 8. 

OFICINA

Consegui
bigorna e 
martelo.
Agora,
conserto
a alma. 

quarta-feira, 15 de julho de 2015

RÁDIO

À distância, 
escuta. 
Num áudio 
ideal, 
escutaria
um sussurro. 

REPRESENTAÇÃO

O pessoal do Bastidores da Mídia, página que curto no Facebook, chamou a atenção para dois trechos do Reinaldo Azevedo. Um deles é de 2013; o outro é de 2015.

Em oito de abril de 2013, Azevedo escreveu: “A frase [não me representa] não passa de uma tolice autoritária, típica de gente que não entende o que é o processo democrático e pretende vencer no berro, e é um emblema desses tempos de minorais mimadas pela imprensa e pelos Poderes constituídos”. Em dez de julho de 2015, escreveu: “Sou católico, mas o papa Francisco não me representa”.

No trecho de 2013 ele se definiu; no de 2015, em ato falho, revelou-se. 

terça-feira, 14 de julho de 2015

(DES)APONTAMENTO 31

Em Fortaleza, jegues passearam pelo aeroporto: o realismo mágico voa alto. 

domingo, 12 de julho de 2015

UM CIGARRO

— Me dá um cigarro aí.
— Ué, você fuma?!
— Sim. Fumo, mas não trago.
— Pois deveria trazer.

(Há tempos, um diálogo com mais ou menos esse teor me foi relatado pelo Manoel Almeida, desenhista e advogado.) 

sábado, 11 de julho de 2015

APONTAMENTO 268

Parece coragem — mas é inconsequência. 

quinta-feira, 9 de julho de 2015

CONTO 79

É só um flerte. Ela precisa dele para se sentir bonita; ele, para se sentir poeta. Ela é bonita. 

quarta-feira, 8 de julho de 2015

DAS CAPACIDADES

Ele não sabe argumentar.
Flerta com o linchamento.
Quem não tem recado
atira a primeira pedra.
Ele atira a segunda.
Só pararam na terça. 

sábado, 4 de julho de 2015

EXORTAÇÃO

VENTOS DESCONHECIDOS

Agora há pouco, o Tito, cachorro que tenho, teve medo: o vento derrubara uma vasilha de plástico, que caiu a uns dois metros dele. O temor foi tão grande que ele fez menção de entrar dentro de casa, o que ele não faz, por eu não permitir. Só depois de eu mexer na vasilha é que ele se acalmou. De modo análogo, não raro, sentimos medo, por não sabermos o que a natureza está ventilando. 

quinta-feira, 2 de julho de 2015

“ESTRELAS QUE ME GUIAM RUMO À SALVAÇÃO”

No trabalho de conclusão de curso de pós-graduação que fiz em filosofia, apresentei texto intitulado “A filosofia da MPB”. Minha ideia é a de que letras de canções populares podem realizar reflexões filosóficas. No trabalho, como argumento, separei algumas letras e as comentei.

Não raro, penso em fazer o mesmo com letras de canções internacionais. Se essa tarefa ainda não foi realizada, isso se deve a uma preguiça congênita e a uma desavergonhada indisciplina, o que, é claro, depõe contra mim.

Por causa disso, tenho pensado com frequência num trecho, que tem teor filosófico, de “Africa”, do Toto: “I seek to cure what’s deep inside / Frightened of this thing that I’ve become [Busco curar o que está bem no fundo / Assustado com esta coisa que me tornei]. 

COMO ASSIM?!

Como sempre.
Como nunca.
Como dito.

O que você come? 

terça-feira, 30 de junho de 2015

FOTOPOEMA 374

BANDA JANELA VERDE EM EVENTO DOMINICAL

No domingo (28/06), na casa do fotógrafo Gabriel CZ, ocorreu evento com a participação da banda Janela Verde. CZ e os integrantes do grupo, após conversas, decidiram realizar algo em horário incomum: pela manhã. Na ocasião, a banda executou canções de autoria própria.

De acordo com CZ e com a banda, a intenção do evento, além de promover o ajuntamento de pessoas que, seja produzindo música, seja apreciando-a, participam do momento musical vivido na cidade, era divulgar o trabalho do Janela Verde; o EP deles pode ser conferido no Youtube. A intenção da banda é fazer show de lançamento desse EP. 

DERROTAS E VITÓRIAS

Assistindo a Argentina e Paraguai. No futebol atual, melhor perder como o Paraguai do que ganhar como o Brasil. 

segunda-feira, 29 de junho de 2015

O PAÍS DO FUTEBOLZINHO

Relevem o truísmo: o tempo passa, as coisas mudam. Não importa se melhoram nem se pioram. Elas mudam. Fiquemos, por ora, assim. O futebol mudou. Se melhorou ou se piorou, não é o que argumento. O que afirmo é mais um truísmo: o futebol de hoje não é o mesmo, por exemplo, de há vinte anos.

Não me refiro às maracutaias. A prisão de alguns figurões da Fifa não é dedetização forte o bastante para que haja limpeza na entidade e em seus tentáculos. Contudo, sejamos esperançosos; que sejam as prisões realizadas recentemente o chute inicial para se banir a podridão.

Apesar dos esquemas escusos dos que comandam o futebol, o esporte mudou dentro de campo. O fiasco do ludopédio praticado aqui é consequência de um jeito de praticar o esporte que se tornou obsoleto dentro de campo. O futebol europeu também é corrupto. A diferença entre o futebol deles e o nosso é a de que a corrupção deles não os impediu de, em campo, modificarem o modo como vinham jogando ao longo das décadas. O estrago da corrupção, em campo, é maior aqui.

Os sete gols da Alemanha no ano passado e a recente desclassificação na Copa América são sintomas visíveis de bastidores torpes. Isso não é ainda o que pode haver de pior. Chegará o dia em que a seleção da CBF não vai se classificar para uma Copa do Mundo. Chegará o dia em que os grandes clubes brasileiros vão apresentar um futebol mais chinfrim do que o que temos presenciado.

Ao lamaçal da Fifa e da CBF, junte-se nossa congênita falta de disciplina. Depois de não ter mais como piorar, o futebol brasileiro terá de assumir que não mais basta a genialidade de um ou de outro para que haja conquistas. Ainda que exista, no futuro, uma limpeza na corrupção da CBF, dentro de campo não haverá mudança se técnicos e jogadores não perceberem que futebol também se estuda, que futebol exige concentração e disciplina.

Além do mais, alguns jogadores têm na seleção brasileira uma apatia que não têm em clubes europeus. Não me deparo com isso quando assisto a jogos de outras seleções sul-americanas. Aliás, salvo estarem fazendo um teatrinho, o que confiro são seleções se doando em campo, a despeito da corrupção que existe também nas federações futebolísticas desses países. Não há nelas a preguiça e o tipo arrogante que caracteriza o time da CBF. 

sábado, 27 de junho de 2015

VÍRUS NO FUTEBOL

Segundo o Dunga, alguns jogadores tiveram virose. O nome do vírus é CBF. 

sexta-feira, 26 de junho de 2015

EXEMPLOS

Argentina e Colômbia estão jogando pela Copa América. Partida aguerrida, disputada com raça, com alma, com entrega... Esses atributos que a seleção da CBF não tem. 

quinta-feira, 25 de junho de 2015

JOICE HASSELMANN E AS PALAVRAS ALHEIAS

A Joice Hasselmann foi acusada de plagiar sessenta e cinco (!) reportagens. Ela negou; em nota publicada no Facebook, esbravejou contra aqueles que a estão acusando, mas... apagou, do blogue em que escreve, as postagens que estão sendo acusadas de serem plágio. Ora, se ela garante que os textos são dela, se ela está certa disso, por que apagá-los?... 

FAÇA NEGÓCIO COMIGO E SE DÊ BEM

O assunto de hoje é um dos mais importantes de que vou tratar desde quando cheguei a este planeta, há cinco mil e três anos. Eu poderia estar em qualquer lugar do Universo. Se estou aqui, é por querer o bem de vocês. Guardem no coração as palavras que direi. Quando eu terminar, sigam as instruções de meus colaboradores.

Caso você receba um salário mínimo, dê-me cinquenta por cento do que você ganha. Se recebe dois, dê-me quarenta por cento; se três, trinta por cento; se quatro, vinte por cento; se mais de quatro, bastam dez por cento.

Se você estiver desempregado, não há problema; caso receba ajuda financeira de algum parente ou de algum amigo, dê-me sessenta por cento desse valor. Caso você esteja sendo bancado pelo cônjuge, dê-me setenta por cento do que seu parceiro ou parceira lhe der.

Pode ser o caso de você, embora desempregado, fazer alguns bicos. Se você estiver nessa situação, dê-me oitenta por cento do que você arrecada com seus trabalhos. Se você ganhar na lotofácil, mega-sena, timemania ou afins, dê-me noventa por cento do que você ganhar. Caso receba dinheiro de aluguel, dê-me cem por cento do valor.

Vocês já conhecem meu trabalho. Sabem que não sou desses charlatões que prometem mundos e fundos caso vocês deem seu dinheiro para eles. Não sou mundano. Doando seu dinheiro para mim, vocês terão acesso, depois de mortos, a deleites inefáveis. A linguagem de que vocês dispõem é chinfrim demais para alcançar a grandeza das delícias que sei que vocês terão, desde que sigam minhas ordens.

Sou um enviado. Estou aqui para interceder por vocês. Sou a ponte entre vocês e o reino das delícias eternas. Sem mim, haverá para vocês danação pelo resto da morte; comigo, garantem entrada para mananciais de bonanças imorredouras.

Vou me valer de uma parábola, de uma analogia, de uma metáfora. Fazendo negócio comigo, é como se vocês comprassem ingresso para assistir a uma partida de futebol num estádio. Só que nesse jogo vocês estarão em campo, marcando com minha intercessão golaços que lhe garantirão passeio fecundo e cheio de regozijo em campos verdejantes, pródigos e eternos.


Existem muitos que dizem ser como eu sou. Não se deixe levar por eles. Eu — e somente eu — sou o único e legítimo enviado das estrelas. Não jogue nas mãos de safados aproveitadores tudo o que você é em vida nem jogue fora tudo o que você poderá ser depois de ter morrido. Eu não vendo ilusões — eu garanto sua felicidade eterna. Siga agora as instruções de meus colaboradores. 

quarta-feira, 24 de junho de 2015

APONTAMENTO 266

Tem uma leveza bonita. Acho que é o jeito de se movimentar. Não é malemolente nem acelerado. Não há arrancos, não há lentidão. É como se fosse um movimento sutil (por isso marcante) e contínuo. Um meio termo que também está na voz, que, se não grita, também, sem afetação, não sussurra. Um modo de existir que não é apagado, mas que está longe de querer ofuscar. Uma existência que flui, que parece se esgueirar. Sem esforço aparente, destaca-se. É como se existir fosse a mais espontânea das ações. 

CONTO 78

Era o primeiro jantar que Ana Cláudia e Celso compartilhavam depois da briga. Estavam à mesa mais por insistência dele que por desejo dela, que ainda assim aquiesceu. O encontro foi na casa de Ana Cláudia, que preparou pato com laranja. Foi essa a primeira vez na qual ele achou que a comida dela não estava gostosa. Secretamente, ela teve a mesma opinião dele, ciente de que a refeição estava insossa por ela não ter seguido preceito que ela mesma criara — o de que se for para temperar com rancor, melhor não cozinhar. 

IMAGINAÇÃO E LEITURA

O engano daquele que tem imaginação é mais rico do que a platitude daquele que é mediano. A imaginação fértil precisa de solo fértil. Se não o acha no ambiente em que está, acha-o nos livros de que se vale. A leitura tonifica a imaginação; não bastasse, é escudo contra a mediocridade, seja a própria, seja a alheia. 

terça-feira, 23 de junho de 2015

SOBRE CAVALOS E ÉGUAS

Depois de prestar atenção danada em conversa de adultos, menino pergunta:

— Pai, por que estão chamando aquele cavalo ali de égua? 

FOTOPOEMA 373

segunda-feira, 22 de junho de 2015

BRANCO E VERDE

ROLA (2)

Sobre a frase do Boechat, Lenine aderiu... ao rolo: disse, no sábado, o mesmo que o jornalista dissera na sexta. A plateia gostou, repetiu: houve revoada. 

EM MÃOS

As atitudes que deixou de tomar:
a vida que poderia ter sido.

Os sonhos de que abriu mão:
a vida que poderia ter tido.

As viagens que acabou não fazendo:
a vida que poderia ter ido.

Resta-lhe uma vida na palma da mão:
já começou a deslizar pelos dedos. 

O CHARME DA ETIMOLOGIA

Tinha comigo que a palavra “glamour” já havia sido aportuguesada. Na dúvida, dicionário. Conferi. Não há em português o termo “glamur”. Ainda insistindo, fui ao Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, editado pela Academia Brasileira de Letras. Nele, também não há “glamur”.

De volta ao Houaiss, o dicionário que consultei, digitei “glamour”. Lendo a etimologia da palavra, revelação: “Ing. glamour (1715) ‘feitiço, encantamento, magia’, este do escocês glamour, glamer, alt. do ing. grammar ‘gramática’, pela associação que se fazia entre a erudição e as práticas ocultas”. 

QUEM QUER SER MODELO?

Recentemente, Pedro Andrade, por intermédio de rede de TV americana para a qual trabalha, exibiu breve documentário em que o universo dos modelos masculinos é destrinchado. Ao desnudar esse mundo, a produção destaca que o encantamento associado à profissão de modelo é, na maioria dos casos, ilusório. Na prática, o dia a dia da maioria desse pessoal não tem charme nem grana.

O auge da carreira é fazer sucesso em Nova Iorque. Poucos são os que conseguem estar lá. Só que conseguir estar lá não é ainda garantia de êxito. Muitos dos que vão para a cidade ou voltam para o lugar de onde saíram depois de pouco tempo ou levam uma vida com menos grana do que se supõe. A rigor, somente um dos modelos apresentados no documentário tem carreira longa e dinheiro sendo modelo. Ele é uma espécie de versão masculina de Gisele Bündchen. Chama-se Alex Lundqvist.

Depois de assistir ao documentário, a conclusão fácil é a de que, no ambiente dos modelos masculinos, o sucesso não é a regra, diferentemente da ideia que se pode ter. Mas, a rigor, o sucesso, pelo menos tal qual está presente no imaginário, é exceção não somente no mundo dos modelos masculinos. 

APONTAMENTO 265

A erudição pode trazer elegância, mas arrotar erudição é deselegante, seja na fala, seja na escrita. 

domingo, 21 de junho de 2015

APONTAMENTO 264

Valeu a pena estudar inglês: a revista The New Yorker existe. 

sábado, 20 de junho de 2015

APONTAMENTO 263

O grande escritor não foge dos grandes temas. 

APONTAMENTO 262

Luiz Carlos Jr., narrador do Sportv, informou que Messi deixou a Argentina com treze anos. Ele tinha problema de crescimento; o tratamento custava novecentos dólares por mês. Nenhum time argentino quis bancá-lo; o Barcelona quis. Ao querer, não só resolveu o problema de Messi, mas também criou um gigante do futebol. 

sexta-feira, 19 de junho de 2015

ROLA

O “vai procurar uma rola”, do Boechat, foi o assunto do dia. Mas, também dele, fico com o “tomador de grana de fiel”. 

"A LEITURA PODE TORNAR VOCÊ MAIS FELIZ?"

A revista The New Yorker publicou mais um elegante artigo, intitulado “A leitura pode tornar você mais feliz?” [Can reading make you happier?]. O texto foi escrito por Ceridwen Dovey. Dentre outras vantagens, Dovey elenca os benefícios neurológicos advindos da leitura de ficção. 

À parte tais benefícios, num trecho, ela escreve: “Numa era secular, eu suspeito de que ler ficção seja um dos poucos caminhos remanescentes para a transcendência, aquele elusivo estado em que a distância entre o eu e o universo encolhe”.

O texto de Dovey é sobre as serventias da leitura; percorrê-lo é vivenciá-las. Borges, numa penada, resumiu o que o texto da revista The New Yorker advoga — e o que todo leitor de ficção ou de poesia sabe: “A leitura é um forma de felicidade”. 

quinta-feira, 18 de junho de 2015

OS NOMES DOS LUGARES

Tenho certo fascínio por nomes de lugares. Mogadíscio é um nome de que gosto muito. Num dos caminhos que dão acesso a Belo Horizonte, há a região conhecida como Serra da Saudade. O lugar é perigoso, exige muito de quem esteja dirigindo por lá. Mas o nome é muito bonito. Um dos mais bonitos que já vi. Talvez só não seja mais belo do que Vila das Almas, nome de lugarejo que divisei à beira da rodovia, certa vez, indo para Diamantina. Vila das Almas... É um fabuloso nome para um romance. 

AMARELINHA

Ontem, a Colômbia venceu o Brasil por um a zero, em jogo pela Copa América. “É preciso respeitar a amarelinha”. Houve um tempo em que essa frase era referência à cor da camisa da seleção brasileira. 

terça-feira, 16 de junho de 2015

APONTAMENTO 261

O futebol uruguaio é mais aguerrido do que técnico; o argentino, aguerrido e técnico; o brasileiro, técnico, imbele e indisciplinado. 

APONTAMENTO 260

Nos grandes escritores, cada palavra é importante. 

É...

Vai dar pé:
ela tem fé,
ela tem sé,
ela tem Zé. 

CONTO 77

Há algum tempo, Zenon vinha flertando com Marta, que trabalhava num restaurante que ele passara a frequentar. A aliança na mão esquerda dela o fazia desistir de abordagem contundente. Além do mais, terminado o almoço, ele nem pensava nela. Numa noite insone, contudo, pensou. Nesse exato instante, Marta, que jamais havia pensado em Zenon, nele pensou. No outro dia, quando os olhares dos dois se encontraram, houve fagulha que denunciou a latência do fogo. O tempo passou. Não deixaram brotar o incêndio. 

segunda-feira, 15 de junho de 2015

APONTAMENTO 259

Escrever letra de música é uma habilidade diferente da habilidade de escrever poesia. Uma letra de música pode ser poética, mas um conto também pode. Dito com outras palavras: nem todo letrista tem habilidade para escrever poesia; nem todo poeta tem habilidade para escrever letra de música. É claro que uma pessoa pode ter as duas habilidades.

Como a poesia ou como a prosa, a letra de música pode condensar a complexa e multifacetada existência humana. Como gênero literário (encaro a letra de música como gênero), ela pode ser tão rica quanto qualquer outro texto em prosa ou em verso. Não que a letra de música precise soar como grande literatura, mas grande literatura ela pode ser. 

FUSÃO

Em toda manhã, 
que fique algo 
da noite:
a lembrança 
de um sonho, 
a presença 
de um corpo.

Em toda tarde, 
que fique algo
da manhã:
a lembrança 
de um café, 
a presença 
de uma voz.

Em toda noite, 
que fique algo
da tarde:
a lembrança 
de um livro, 
a presença 
de um flerte.

Seja 
meu agora
legado
que recebo
e herança
que deixo. 

domingo, 14 de junho de 2015

"VAGÃO"

Eu me emociono quando a simplicidade se transforma em arte. Quando em arte é transformada, a simplicidade tem, paradoxalmente, o poder de mostrar o quanto a vida pode ser complicada. É um paradoxo triste e bonito. O drama da vida pode estar em qualquer um, em qualquer lugar.

De nossas vidas, até que ponto somos autores, até que ponto somos escritos? Escolhemos ou somos escolhidos? Ou há uma mistura dos dois? Qual o papel do acaso? Qual nosso papel? Somos todos os autores dessa história ou somos personagens? Se personagens, quem está nos escrevendo?

Essas ideias esparsas me ocorreram enquanto eu assistia a “The lunchbox” [“Dabba”, 2013], do diretor Ritesh Batra, também autor do roteiro. Salvo engano, o filme não tem título em português, o que é uma pena. Se tivesse, e se tivesse havido tradução literal, o filme chamar-se-ia, segundo pesquisa que fiz (não sei se correta), “Vagão” (tradução de “Dabba”); em inglês, recebeu o título de “The lunchbox (“A Marmita”).

O sistema de entregas de marmitas na gigantesca Bombaim é conhecido como sendo um dos mais eficientes do mundo. Todavia, “The lunchbox” conta a história de uma entrega incorreta. Saajan Fernandes (interpretado por Irrfan Khan), certo dia, recebe seu almoço no escritório. Mas a refeição era para ter ido para o marido de Ila (interpretada por Nimrat Kaur). Ila mesma preparara a comida, numa tentativa de reaquecer seu casamento, que ia mal.

A partir daí, Ila e Saajan começam a se corresponder; as cartas ou os bilhetes eram acondicionados nas marmitas. Sem se conhecerem pessoalmente, eles, contudo, passam a saber um do outro por intermédio das correspondências. Num toque de humor do roteiro, os dois chegam a “brigar”, como se fossem namorados. Também engraçada é a participação de Auntie — voz de Bharati Achrekar. É que de Auntie, somente temos acesso à voz. Os diálogos entre ela e Ila conferem leveza ao filme.

“The lunchbox” é poético, lírico; é um filme sobre encontros e sobre desencontros; uma história feita de coincidências e do que parece prestes a acontecer. É um daqueles raros filmes construídos a partir de uma densa simplicidade, a partir de ricos detalhes. “The lunchbox” tem o poder de tornar melhor quem o assiste. E se você gosta de cozinhar, delicie-se. 

METADE

Tito, o cachorro aqui de casa, ainda não se acostumou de todo com meu equipamento fotográfico. Ora fica à vontade, ora fica ressabiado. Num desses momentos de desconfiança, escondeu-se parcialmente por detrás da parede que separa a cozinha do quintal. Não haveria como não tirar a foto. 

SEDENTO

“Mais do mesmo”: eles visitam essa torneira com frequência. Se a câmera está por perto, faço a foto. 

PRESCRIÇÃO

Ontem, narrador do SporTV, de que não sei o nome, resumindo a trajetória do jogador Allano, do Cruzeiro, diz que o jovem já estava desistindo de ser jogador de futebol, tendo procurado emprego numa farmácia. Hoje, tem oportunidade de ser titular de um grande time. A vida tem... remédio... 

sábado, 13 de junho de 2015

CASA

Haverá o dia em que 
não terei mais de habitar meu corpo. 
Quando esse dia chegar, 
não importa o que venha depois, 
se danação, 
se bênção, 
se escuridão silente e perene, 
terá início uma era de paz. 

quinta-feira, 11 de junho de 2015

APONTAMENTO 258

Entre o rio e os afluentes não há hierarquia: tudo são águas. 

quarta-feira, 10 de junho de 2015

ROXETTE E A VELHICE

Sinal inequívoco de velhice: durante aula, estava eu explicando o quanto o inglês é um idioma onomatopaico. De passagem, como exemplo, citei o duo sueco Roxette, que tem um CD intitulado “Crash! Boom! Bang!”. Uma aluna logo disse: “Ah, Lívio, minha mãe adora escutar as músicas desse povo aí”. Quando esse povo surgiu para o pop, eu já trabalhava em rádio... 

APONTAMENTO 257

Do lirismo derramado, fujo mais do que foge — dizem — da cruz o diabo. Pareço me sair melhor na contenção do que no estilo caudaloso. Com este, eu não saberia me virar; com aquela, arrisco o que fazer. 

APONTAMENTO 256

Ronaldo Fenômeno criticando a CBF. Quando a poeira baixar,  ele volta a ser amiguinho deles. 

APONTAMENTO 255

O povo brasileiro é melhor do que a chamada grande imprensa e do que os chamados grandes meios de comunicação do Brasil. 

CONTO 76

Adamastor estava se sentindo muito mal por ganhar menos do que a esposa. A princípio, fingiu ignorar. Depois, não resistindo, desquitou-se. Num rompante, decidiu que ficaria sem mulher. Isso durou dois anos e quatro meses. Hoje, é gigolô. 

terça-feira, 9 de junho de 2015

APONTAMENTO 254

Simplesmente não sei do que falam algumas letras do Zé Ramalho. “Beira--mar”, por exemplo, é sobre o quê? Não sei. Mas nem a poesia nem a música precisam ser entendidas pela lógica. Não dou a mínima se não entendo a letra de “Beira-mar”; quero mais, agora, é esgoelar “há peixes milagrosos, insetos nocivos / Paisagens abertas, desertos medonhos / Léguas cansativas, caminhos tristonhos / Que fazem o homem se desenganar”. 

HAICAI 35

Folhas, o vento leva. 
Folhas em branco, 
a caneta não releva. 

HAICAI 34

Em mim estão
o problema e
a solução. 

segunda-feira, 8 de junho de 2015

"RUSH"

Quando o esporte é levado para as páginas de um livro ou para o enquadramento das câmeras, não raro há criações belíssimas. Jamais assisti a uma partida de beisebol, mas “Por amor” [For love of the game] é um belo filme; nunca assisti a uma partida de futebol americano, mas “Um sonho possível” [The blind side] conta uma tocante história. Não importa se a abordagem é ficcional ou não: qualquer esporte é pleno de grandes histórias.

Por pensar assim, é que fiz questão de conferir “Rush: no limite da emoção” [Rush, 2013], do diretor Ron Howard; o roteiro é de Peter Morgan. O filme relata a temporada de 1976 da fórmula 1, quando James Hunt (interpretado por Chris Hemsworth) foi o campeão. Nesse tempo, a disputa era acirrada entre ele e Niki Lauda (vivido por Daniel Brühl), que sofreu um acidente durante uma corrida, quase tendo morrido. Na batida, Lauda teve queimaduras severas; mesmo assim, pouco mais de um mês depois, voltou às pistas.

“Rush” revela a relação especular que havia entre os dois pilotos. Lauda era o cerebral; Hunt, o emocional. Lauda, comedido fora das pistas; Hunt, envolvido com farras. Em comum, o talento incomum ao dirigir um carro. À medida que eu ia assistindo ao filme, eu ficava me perguntando o que nele seria biográfico e o que seria ficcional. Conferindo uma entrevista com Niki Lauda no YouTube, ele disse ter gostado muito de “Rush”, o que leva a crer que os elementos de realidade ficcionada não comprometeram a acuidade do trabalho. O próprio Lauda, no vídeo que assisti, usou o adjetivo “accurate” (acurado) para se referir ao trabalho de Ron Howard.

Gostando ou não de fórmula 1, assista a “Rush”. O filme exibe duas pessoas díspares, mas que tinham em comum o talento para dirigir e a força para causar uma grande rivalidade no automobilismo. Ainda que fosse pura ficção, “Rush” já convenceria como um excelente filme de ação com um primoroso enredo. Só que o filme não é pura ficção. Lauda e Hunt, que morreu em 1993, são a força... motriz da obra. Uma coisa é ter uma boa história para contar; outra é saber o que fazer com ela. Ron Howard e Peter Morgan souberam. 

APONTAMENTO 253

A fênix mudou de nome em agosto de 1976: passou a se chamar Niki Lauda. 

domingo, 7 de junho de 2015

APONTAMENTO 252

A excelência é exceção, mas nem por isso a mediocridade deveria se tornar regra. 

ATENÇÃO

Para conseguir do Tito essa “pose”, fiz um trinado com a língua atrás dos dentes superiores. Ele achou tudo muito esquisito. 

"GRAVIDADE"

Quando “Gravidade” (Gravity, 2013), do diretor Alfonso Cuarón, foi lançado, a CNN teve a ideia de perguntar para um astronauta (não me lembro do nome dele) sobre a verossimilhança da produção. De acordo com o astronauta, o filme, no aspecto científico, não se sustenta. Ressaltou, contudo, que a produção de Cuarón é excelente entretenimento. O roteiro foi escrito por ele (Alfonso Cuarón) e por Jonás Cuarón.

Com o atraso de sempre, somente ontem é que conferi o filme, que tem no elenco Sandra Bullock (no papel de Ryan Stone) e George Clooney (no papel de Matt Kowalski). Ryan e Matt passam aperto quando a nave em que estão é atingida por estilhaços de satélites.

A partir desse momento, começam os problemas deles. São tantos que a partir de certo trecho do filme o espectador já passa a se perguntar qual encrenca virá a seguir. O próximo percalço passa a ser aguardado — e ele invariavelmente surge.

Dito assim, pode-se ter a impressão de que o enredo seria mera sucessão de tribulações vividas no espaço por astronautas. Isso não ocorre graças ao elemento humano que o filme tem. Trata-se, em última instância, de um enredo sobre a luta pela vida. Se falta ao filme verossimilhança científica, ele tem o mérito de ter verossimilhança quanto ao caráter e à dimensão humana dos personagens, mesmo às vezes sendo estranho Ryan estar em missão tão arriscada sem saber os rudimentos de como operar as engenhocas com que tem de lidar.

Os roteiristas acertaram em salpicar o filme com pitadas de humor aqui e ali, o que impediu que o drama de Ryan e de Matt se tornasse melodramático e monótono. Um dado curioso é o de que embora o filme se passe na órbita da Terra, ele é minimalista, a despeito de o cenário ser a vastidão do espaço. Na versão do título em português, mantiveram o original, o que foi decisão acertada, já que em inglês a palavra “gravidade” também tem duplo sentido.

O tempo é relativo, tanto na física quanto em nós. Com tão poucos personagens num cenário, paradoxalmente, tão limitado, terminados os noventa minutos do filme, fica-se com a impressão de que menos minutos de passaram. Sintoma de que assisti-lo não é perder tempo. 

sábado, 6 de junho de 2015

ATLÉTICO/MG 1 x 3 CRUZEIRO

Numa boa partida, o Cruzeiro derrotou o Atlético no Independência. Levando-se em conta as circunstâncias, a vitória cruzeirense é um feito. O Atlético está em melhor fase, vinha jogando melhor do que o Cruzeiro, que tem padecido depois do desmanche por que passou, terminada a temporada passada.

O Atlético era o favorito. Quando joga no Independência, é forte. Além do mais, não havia torcedor do Cruzeiro nem do Atlético que não tivesse em mente o dado de que o dono da casa estava a onze jogos sem perder para o Cruzeiro. Começada a partida, ainda que se argumente que Leonardo Silva estava impedido (estava mesmo) no lance que originaria o gol do Atlético, marcado por Luan, aos treze minutos do primeiro tempo, isso não anula o melhor momento vivido pelo Galo.

Com um a zero para o Atlético, pensei que o recente tabu seria mantido: a configuração conduzia a mais uma vitória atleticana, embora o Cruzeiro estivesse mais aguerrido do que esteve em partidas que disputou recentemente. O time do Atlético, veloz e melhor taticamente, foi melhor no primeiro tempo, o que não impediu o Cruzeiro de empatar, aos quarenta e seis, com gol contra de Gemerson.

No intervalo, Wallison é substituído por Gabriel Xavier. Com trinta e um segundos de bola rolando no segundo tempo, Xavier desempata. Depois, deixaria o jogo, com dores na coxa; foi substituído por Alano. Aos vinte e seis, depois de cruzamento de Damião, Marquinhos pegou de primeira, marcando o terceiro gol do Cruzeiro. (Assistindo ao jogo, quando me dei conta de que ele chutaria de primeira, cheguei a dizer “não” em voz alta, considerando que ele erraria; com a bola na rede, meu não se transformou em “sim”.) No segundo tempo, melhor foi a Raposa, mesmo considerando-se as excelentes defesas do Fábio.

Fui contra a demissão de Marcelo Oliveira. Não sou a favor de Luxemburgo no Cruzeiro. É claro que me lembro daquele formidável time de 2003, que era treinado por ele, Luxemburgo; eu estava lá no Mineirão quando da partida contra o Paysandu (jogo que decretou o título do Cruzeiro). Sei reconhecer a importância que o técnico teve para o Cruzeiro, mas não o vejo como sendo ideal para o time neste momento.

Os defensores de Luxemburgo têm dados convincentes para me refutar: no meio de semana, o Cruzeiro derrotou o Flamengo; hoje, no Independência, a Raposa quebrou escrita recente, em que o elenco atleticano vinha saindo vitorioso. Obviamente, estou satisfeito com a vitória cruzeirense, conseguida há pouco. Ainda assim, não sinto firmeza no que Luxemburgo possa vir a fazer no Cruzeiro neste 2015. Que eu esteja errado. 

quarta-feira, 3 de junho de 2015

A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (84)

Devo esta foto a meus alunos do IFTM: hoje à tarde, com paciência, predispuseram-se a chutar esta bola diversas vezes, para que eu a fotografasse enquanto ela estivesse viajando. Quando tive tal ideia, pensei que a execução seria fácil, por eu estar acostumado a fotografar aves durante o voo.

Todavia, na prática, logo percebi que seria difícil capturar a bola depois de ela ter sido chutada, pois o tempo que ela permanecia no ar era breve, de modo que estava difícil achá-la durante o trajeto; depois de achá-la, a dificuldade seguinte era conseguir uma imagem focada. Após algumas tentativas — e contando com os chutes dos alunos —, pude conseguir um registro satisfatório. 

(DES)APONTAMENTO 30

Decidiu comprar perfume no concorrente da loja que frequentava. Nem se deu conta de que o cheiro do preconceito não sai. 

APONTAMENTO 251

Dá-me algumas horas de leitura e dir-te-ei quem sou. 

terça-feira, 2 de junho de 2015

ROUPAGEM

Para oferecer, tenho versos.
São eles o que eu consigo.
A poesia não está na moda.
Isso não tem importância.
Tentar a melhor roupa tem. 

CAMPANHA DE O BOTICÁRIO É ATACADA

Preconceituosos se insurgiram contra a campanha de O Boticário para o dia dos namorados. A música de fundo é um trecho, em versão instrumental, de “Toda forma de amor”, do Lulu Santos. Vão atacá-lo também? 

PONDO-SE


O registro foi realizado ontem. Eu estava no campus do IFTM, aqui em Patos de Minas. 

segunda-feira, 1 de junho de 2015

(DES)APONTAMENTO 29

Cláusula de contrato se eu fosse dirigente: goleiro que leva cartão por cera recebe metade do salário no mês. 

sábado, 30 de maio de 2015

BAND É PUNIDA APÓS COMENTÁRIO DE DATENA

Recentemente, a Band foi obrigada pelo Ministério Público a veicular chamada em que se evidencia a laicidade do Estado brasileiro. À parte, por ora, o questionamento se tal laicidade se faz na prática, o Ministério Público tomou a decisão por causa de comentário feito por Datena, que atacou os ateus. Segundo ele, os que não temem Deus ou que nele não acreditam perpetuam as desgraças do mundo. Tivesse Datena um pouquinho de senso histórico, antes de falar a bobagem que falou, consideraria as atrocidades que são feitas em nome de Deus. 

quinta-feira, 28 de maio de 2015

(DES)APONTAMENTO 28

POSTERGAÇÃO

Há o momento certo
para começar. 
Chama-se agora
Damos a ele a
propriedade de
tornar-se depois

SERVENTIA

Serve para a poesia
um amor que deu certo. 
Ou um que malogrou.

A amizade serve, 
bem como o ódio.
Servem a culinária 
ou a política.

Servem os nobres, 
servem os tolos, 
servem os cães, 
servem os risos.

O que para mim existe
existe para servir à poesia. 

AUTORIA

Minhas palavras são 
tão claudicantes quanto eu. 
Claudicam, 
vacilam, 
temem, 
tremem.

Mas são minhas. 

(DES)APONTAMENTO 27

CBF tirou da fachada de sua sede o nome de Marín: alegaram que só um amador se deixa pegar do modo como ele se deixou. 

(DES)APONTAMENTO 26

Enquanto trabalhava, Urnaldo leu que alguns deputados assistiam a pornografia durante votação da reforma política. Considerou isso um desaforo. A seguir, foi passear pelo sítio da Hustler. 

(DES)APONTAMENTO 25

Deputados assistindo a pornografia durante votação da reforma política. Certo eleitor achou um desaforo: não compartilharam o vídeo com ele. 

POR MÚSICA

— Você não teria por aí algo para comer? Mas algo que não valha nada.
— Ué, tenho aqui uma vasilhinha. Dentro, mamão e banana. 
— Hum, tá muito saudável.
— Você gosta é do que não presta.
— Sim, é como na letra do Skank: “Acredito em tanta coisa que não vale nada”.
— Eu também sou assim.
— É?... Já que é assim, para continuar com música, “somos iguais em desgraça”.
— Ué, essa é de quem?
— É do Cazuza.
— Cazuza?!
— Sim.
— Qual música?
— Não me lembro. Vou conferir aqui.
— Beleza.
— “Blues da piedade”.
— “Somos iguais em desgraça”. Pior é que é.
— Já que o papo tá musical, vamos de Metallica: “Sad but true”... 

(DES)APONTAMENTO 24

Sujeito, de carro, jogando casca de mexerica pela janela. Um dos pedaços da casca foi parar dentro de outro carro. E o indivíduo nem pra jogar um gomo! 

FIFA, CBF, GLOBO...

Depois da prisão de Marín, está sendo cogitada a possibilidade de as investigações revelarem suposta participação da Globo no esquema de corrupção dos dirigentes do futebol mundial. Não sei se sou pessimista ou se sou realista, mas bato o martelo: a gosma não vai nem respingar na Globo. 

quarta-feira, 27 de maio de 2015

"LET THE RIVER RUN"

Mais uma vez, o Cruzeiro deu provas de que não é confiável quando tem diante de si, no Mineirão, jogos decisivos contra equipes estrangeiras. No jogo que terminou há pouco, o River Plate, com mérito e com louvor, tirou a Raposa da Libertadores.

A partida desnudou o que vinha sendo camuflado pelo fato de o Cruzeiro ter seguido na competição, após eliminar o São Paulo: o time está mau. A sensação — ilusória — de que o Cruzeiro tinha fôlego para seguir na Libertadores aumentou depois de a equipe de BH ter vencido o River Plate, lá na Argentina, por um a zero, na semana passada.

Num jogo dinâmico, os jogadores do Cruzeiro pareciam estar a quilômetros de distância uns dos outros. O River Plate se esbaldou no desajeitamento cruzeirense, dando uma aula de técnica, de empenho, de futebol. O Cruzeiro fez um papelão; à parte isso, digam o que disserem, argentino sabe jogar futebol.

No intervalo, bem que o jogador Willian, em entrevista, disse que seria preciso conversar, pois se corria o risco de um vexame, que ocorreu. O baile que o River Plate deu evidenciou a fragilidade do Cruzeiro, que não decolou no campeonato brasileiro, sob a alegação de que o objetivo era a Libertadores. Se jogar a bolinha que jogou há pouco, pode ser que não decole nem no torneio nacional. 

GÊNERO

As autoridades chegaram à CBF. O globo gira; a Globo, poderosa, não roda, não dança. 

SIMETRIAS

Neste momento, no Beira-rio, o que é vermelho em um é branco no outro. E vice-versa. 

O PLACAR DO JOGO

Hoje, o gerenciamento do futebol mundial levou um gol, marcado pela justiça. Isso prova o tipo de profissional que é responsável por esse esporte mundo afora. O jogo ainda não acabou. 

PRISÃO DE MARÍN

O FBI e a polícia suíça prenderam José Maria Marín. Eu nem sabia que eles entendiam de futebol. 

terça-feira, 26 de maio de 2015

LAIA

Antes de ser padre, ele é gente.
Antes de ser cientista, ele é gente.
Antes de ser ator, ele é gente.
Antes de ser professor, ele é gente.
Antes de ser padeiro, ele é gente.
Antes de ser preto, ele é gente.
Antes de ser branco, ele é gente.
Antes de ser leitor, ele é gente.
Antes de ser gari, ele é gente.
Antes de ser jogador, ele é gente.
Antes de ser marceneiro, ele é gente.

Antes de ser gente, ele é Hitler.
Antes de ser único, é mais um. 

APONTAMENTO 250

La Rochefoucauld faria sucesso no Twitter. Oscar Wilde também. 

A FÁBULA DA RAPOSA QUE GOSTAVA DE CHOCOLATE

Era uma vez, num reino muito distante, há muito tempo, uma Raposa que era famosa por sua magnanimidade. Certo dia, ela fez uma proposta para seus discípulos, dizendo o seguinte: “Meus caros, nosso reino ainda é pequeno. Somos apenas cento e um habitantes. Proponho o seguinte: deixarei esta caixa atrás daquela árvore ali adiante. Peço que cada um traga um docinho de chocolate para mim. Escolham um pedaço pequeno, que caiba no bolso, de modo que não seja possível saber se vocês estão trazendo ou não o docinho. Os que trouxerem, que façam a gentileza de deixar o agrado dentro da caixa. Faço isso para que eu tenha uma ideia sobre o quanto sou querida por vocês”.

Fizeram a contagem dos docinhos. Haviam sido depositados quarenta e nove. A Raposa convocou o Reino do Cerrado (era esse o nome do lugar) para um colóquio. Disse que esperava cem docinhos. Terminou o discurso destacando seu espírito libertário e anunciando que haveria mudanças em como o reino seria governado. Estando a sós em sua toca, chamou um dos vassalos e pediu a ele que descobrisse quem não havia deixado docinhos na caixa. Cinquenta e um animais foram saboreados pela Raposa, que no banquete se valeu também de batata frita. De sobremesa, comeu docinhos de chocolate. 

A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (83)


Se por um lado cenário está longe de ser o ideal, por outro, eu não poderia deixar de fazer o registro. Há pouco, estava em meu quarto. De lá, eu podia escutar as vozes dos anus-brancos. Só que houve um momento em que o vozerio soou próximo demais; olhei pela janela. Havia dois deles pousados nesta antena, que fica na casa do vizinho.

Imediatamente, saí do quarto e fui pegar a câmera. Como a antena não fica muito no alto, nem troquei a lente, ciente de que uma 18-200, a lente que estava no equipamento, seria o bastante para a realização da foto. De dentro do quarto, quando apontei para a antena, um dos anus-brancos já havia partido. Do que está nesta imagem, pude tirar duas fotos.