quinta-feira, 26 de março de 2015

RECEITA

Tenho os condimentos.
Tenho o modo de preparo. 
Tenho os continentes.
Não ficou gostoso.

O ingrediente que falta,
não achei no Google: 
falta-me ao menos
uma colher de talento. 

FUTEBOL: CONSIDERAÇÕES

No futebol, o que é jogar melhor? Depende do critério que se adote. Um time pode criar mais chances do que o adversário, mas não ser vitorioso. Criam-se oportunidades; contudo, tais oportunidades não se transformam em gol. Esse time jogou melhor do que o rival?...

Um time corre, cria, acerta a trave, obriga o goleiro adversário a defesas literárias; o outro passa aperto, dá chutão, vira-se como pode. Terminada a partida, o time que pressionou, que acertou a trave e que obrigou o goleiro oponente a se esticar pode sair derrotado.

Uma das ironias e um dos baratos do futebol é isto: o time mais fraco pode derrotar o mais forte, o time que mais cria não é inevitavelmente o vitorioso. Pergunto: numa partida qualquer, quem jogou melhor: o time que saiu vencedor ou a equipe que mais pressionou e mais criou chances?

Arrisco resposta. O futebol comporta o paradoxo de que jogar melhor é uma coisa, ser eficaz é outra. Ser eficaz não é o mesmo que ser melhor do que o adversário. O time A pode jogar melhor do que o time B; o time B pode ser mais eficaz do que o A. Uma partida de futebol é vencida não necessariamente pelo time que joga melhor, mas pelo time que é mais eficaz. (É claro que o time mais eficaz pode ser o que tenha jogado melhor.)

Essa breve consideração deixa de levar em conta outras tantas variantes que podem entrar em campo. Nas condições mencionadas acima, quem seria o eficaz e quem seria o melhor em caso de empate? Mesmo em caso de empate, o time B teria sido o mais eficaz, e o time A, em natural consequência, o que teria jogado melhor.

Todavia, cada partida de futebol tem um contexto e uma história. Essa diferenciação entre jogar melhor e ser eficaz pode ser relativizada. As coisas não são absolutas no futebol. Também por isso, ele é a vida se fazendo dentro de quatro linhas. Além do mais, essas questões acabam levando ao velho debate sobre o que é melhor: perder jogando bonito ou ganhar jogando feio? (É claro que o ideal é ganhar jogando bonito.)

Advogo, na medida do possível, um equilíbrio. Se ganhar jogando feio for a maior parte do motor que move um time, ele não tem nem magia nem beleza nem lances bonitos nem jogos inspiradores; um time assim padeceria de excesso de pragmatismo. Se o jogar melhor é a maior parte do motor que move uma equipe, ela pode ser algo inócuo; um time assim padeceria de excesso de idealismo. 

quarta-feira, 25 de março de 2015

(DES)APONTAMENTO 21

Alguns parlamentares se insurgiram contra o beijo das senhoras na novela, mas não se insurgiram contra o Alexandre Frota no Agora É Tarde. Assim, não há dúvida de que a profecia se fez: “Nós queríamos curar Babilônia”. 

"FLORES EM VOCÊ"


HAICAI 33

Para abrir a cabeça, cirurgia.
Para abrir a cabeça, acidente. 
Para abrir a cabeça, livraria. 

PROCURA-SE UM PROFESSOR DE MOHAWK

Li um artigo na New Yorker sobre idiomas que estão desaparecendo. Um deles é o Mohawk, ainda falado nos EUA. Como ocorre com frequência em línguas antigas, há construções poéticas que são ditas de modo mais sucinto em outros idiomas.

Segundo a New Yorker, no Mohawk, o “eu”, por si, não se sustenta; a primeira pessoa do singular é sempre parte de uma relação. Assim, não diriam “eu estou doente”, mas, sim, “a doença veio até mim”. Ainda de acordo com a revista, no Mohawk, se um homem é pai de uma criança, ele empresta a ela a vida dele.

O próprio inglês tem uma construção bonita: se a pessoa morre e deixa, por exemplo, duas crianças, dizem “she is survived by two children”. Literalmente, “ela é sobrevivida por duas crianças”.

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O amigo Frederico Sousa, que é professor de latim, enviou-me e-mail comentando esta postagem. Abaixo, o que o Fred escreveu.

“Li agora há pouco seu texto sobre a língua Mohawk e sobre o ‘eu’. No latim também há estrutura semelhante. Os latinos usavam Ego habeo duos filios (eu tenho dois filhos), por exemplo, que é menos usual, diga-se. Utilizavam também, e muito, da estrutura Duo filii sunt mihi, que literalmente é ‘dois filhos existem para mim’, mas que se traduz por eu tenho dois filhos”. 

BLINDAGEM

Para se blindarem, alguns têm carros; outros, imprensa.

#Podemostirarseacharmelhor 

terça-feira, 24 de março de 2015

NO RACISM?...

Deu no New York Times, mas ‪#‎podemostirarseacharmelhor‬...

“RIPA NA CHULIPA, PIMBA NA GORDUCHINHA”

O estádio estava cheio. Entre a cabine de locução e a multidão não havia aqueles vidros que geralmente há nos grandes estádios. De repente, um pouco antes de o jogo começar, Osmar Santos entrou na cabine de transmissão. Como sempre, estava sorridente.

Mal entrou, Osmar Santos fez gesto que queria dizer não somente para eu continuar fazendo a locução, mas também para que eu caprichasse no trabalho. Logo anunciei a presença dele na cabine, que retribuiu com sorriso mais largo do que o que tinha quando entrara.

“Tiro-liro-lá, tiro-liro-li”... Foi quando pedi ao público que se manifestasse, dizendo aos torcedores que Osmar Santos estava na cabine e que queria escutar a voz do estádio. A multidão então começou a gritar “Osmar Santos, Osmar Santos”. Em uníssono, a plateia imensa ia aumentando a intensidade. Osmar Santos, emocionado, escutava.
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O texto acima é relato de sonho que tive na noite passada. Arrisco uma explicação para o que sonhei: toda segunda-feira, assisto ao Linha de Passe, pela ESPN. Ontem, depois de assistir ao programa, li um pouco. A seguir, dormi.

Penso que essa mistura de futebol e de literatura, dentre outras coisas de que nem faço ideia, é que tenha causado o sonho, que por sua vez causou o texto. Que fiquem, o texto e o sonho, como uma homenagem ao grande locutor Osmar Santos. 

segunda-feira, 23 de março de 2015

APRENDI A LIÇÃO?

Qualquer fotógrafo deve ter pelo menos uma bateria reserva para a câmera. Praticamente desde que comprei uma EOS 60D, estou com apenas uma bateria; quando comprei o equipamento, além da que vem com ele, comprei uma de reserva, mas essa estragou após pouco tempo de uso.

Acomodado, ainda não comprei outra bateria, para que eu tenha uma de reserva. Desde quinta-feira, a que uso estava por acabar. O indicador de carga da bateria, mais cedo, piscava muito.

Ainda assim, arrisquei hoje, por volta das 19h, fazer fotos de longa exposição: a intenção era fotografar os relâmpagos, que estavam formando belas ramificações nos céus. Não bastasse a ideia de se tentar fotos de longa exposição, eu teria de me valer do visor da câmera, o que consome mais bateria ainda.

Sem tripé, apoiei o equipamento sobre uma espécie de cano fixado na calçada, do outro lado da rua, em frente à minha casa. Fiz duas fotos; ficaram tremidas. Fui então à casa do Eduardo, um vizinho. Pedi a ele uma cadeira. Logo percebi que o leve declive no assento seria perfeito para a composição da imagem.

Feitos os ajustes, incluindo aí a programação para que a câmera começasse a fotografar dez segundos depois de apertado o obturador, disparei. Mal eu tirara o dedo do equipamento, a bateria acabou. Enquanto isso, os relâmpagos davam um espetáculo...

A princípio, praguejei. Logo após, assumi a culpa que tenho, não somente por não ter uma bateria de reserva, mas também por não ter carregado anteriormente a única que tenho. Voltei para casa e coloquei o dispositivo na tomada; a carga está quase completa.

Há minutos, animando-me, saí para a rua e conferi o céu, ansiando por tempo nublado e pleno de relâmpagos. Pude conferir uma noite sem nuvens. A lição, que vem da fotografia, eu já a estendi para outros aspectos da vida: é preciso estar preparado. Que eu crie vergonha na cara e pratique a lição. 

quinta-feira, 19 de março de 2015

SINTONIA FINA — EDIÇÃO 32


Pessoas, no ar, mais uma edição do Sintonia Fina, programa musical apresentado por mim. Para escutar, basta dar “play”.

Danni Carlos — In-between days
Christy Moore — Bright blue rose
Milton Nascimento e Marina Machado — In Nin Alu / Going to California 
Silva — Cansei 
Fish — Fearless 
Nando Reis e Marisa Monte — Pra quem não vem 
Mick Jagger — Lucky in love 
Alceu Valença e Orquestra Ouro Preto — La belle de jour / Girassol

APONTAMENTO 240

Muitos dos que acharam inaceitável o beijo entre duas senhoras, mostrado pela Globo recentemente, consideram aceitável o jornalismo da emissora. Este, sim, é prejudicial. 

VIVER BEM SE APRENDE

 A primeira vez em que tive contato com o trabalho do Alain de Botton foi quando li o livro “Ensaios de amor”, sobre o qual escrevi resenha. Depois, li “As consolações da filosofia”. A seguir, passei a conferir mais do trabalho dele via internete.

Mesmo levando-se em conta a obra dele como romancista e como filósofo, vejo Alain de Botton sobretudo como professor, como alguém que quer ensinar de que modo a filosofia pode nos ajudar a ter uma vida melhor no mundo tal qual ele é configurado.

Alain de Botton dá um enfoque essencialmente prático à filosofia, fazendo com que ela deixe de ser uma disciplina acadêmica e se torne uma ferramenta por demais útil para que lidemos melhor com o que somos, com as pessoas e com as coisas do mundo.

Sendo mais explícito: num texto intitulado “Sobre exercitar a mente”, De Botton partilha a ideia de que assim como há exercícios para a corpo, há também exercícios para a mente. Como o enfoque é prático, ele indica “ginásticas” que podem ser feitas para que a mente entre em forma.

Desse modo, o filósofo dissemina algo bonito e que tem estado ausente da conduta das pessoas: o pensamento de que coisas “etéreas” podem ser aprendidas e exercitadas. Assim como precisamos treinar e repetir muito se quisermos, por exemplo, aprender a tocar um instrumento, o mesmo se dá, digamos, com as virtudes ou com a polidez. Elas também podem ser aprendidas e exercitadas.

Caso se interesse, ele está no Facebook. Você pode visitar também The school of life ou The book of life.

segunda-feira, 16 de março de 2015

PARA O SOL

CONTO 74

Leocádio acostumara-se a conferir páginas pornográficas na internete. Enquanto as conferia, masturbava-se. Certo dia, no banheiro, quis se masturbar, mas não houve ereção. Decidiu: passou a levar para o banho um “tablet” ou um celular. 

VIVA O ROMANCE

Acredito no romance como gênero literário. A despeito das vanguardas, acredito numa boa história, num bom personagem. Experimentalismos podem banir o enredo, as pessoas de um romance. Ainda assim, gosto quando, de tão vivo, o personagem como que nos faz esquecer de que estamos diante de palavras num papel.

Não arrisco agora levante contra as vanguardas. Se algumas delas incorreram no erro de tudo querer destruir, igualmente errôneo seria querer destruir todas elas. O que relato é um apego que tenho, e de que não faço esforço para me livrar, a um aspecto da tradição que me fascina: uma boa história, bons personagens e um escritor que sabe o que fazer com isso. 

FOTOS DE ONTEM







domingo, 15 de março de 2015

SANHA

Num estado democrático, prefiro participar de uma eleição a participar de um apoio a um golpe. Prefiro ficar em casa a participar de um evento regado a grosserias, preconceitos, histerias e palavrões. São reveladoras do que somos não somente as palavras que proferimos, mas também as que nos seduzem. Em última instância, proferimos as que nos seduziram. As fotos e os discursos das manifestações de quinze de março de 2015 deixam claro que tipos de palavras seduzem os manifestantes.

A direita, em sua maioria branca e de classe média, segue a cartilha ditada pelos grandes meios de comunicação do País, os quais preferem divulgar a ideia de que o Brasil passa pela maior corrupção que já houve. Produzindo sem interrupções um arremedo de jornalismo, donos de jornais, de rádios, de “sites” e de TVs instigaram a classe média, que exibiu em cartazes e em discursos a “fineza” de que é capaz.

Até o momento em que escrevo este texto, não há base legal alguma para o “impeachment” da presidente. Protestar contra a corrupção que há na Petrobras ou em qualquer outra esfera governamental e reclamar de elevação de preços é direito; pedir o “impeachment” ou mesmo um golpe militar é ingenuidade, má-fé ou preconceito contra o que o PT realizou.

As manifestações reiteraram o que a campanha eleitoral já havia deixado às claras: há uma classe média no Brasil que não está preocupada em entender o processo histórico que tem solapado pobres e negros. Essa classe média alega que está gritando contra a corrupção; ela está, na verdade, exibindo seus preconceitos. Há um lado bom: esse pessoal se desnudou. Eles mesmos estão propalando seu ranço e seu ódio. Não que essa ojeriza seja algo novo, mas agora é algo escancarado.

A maioria dos manifestantes de domingo não são paladinos do bem comum. O protesto deles não é a favor do Brasil, mas a favor da manutenção de um estado de coisas em que outros cheiros e outras gentes, considerados, por eles, menos sofisticados, menos refinados e menos merecedores de uma vida melhor, devem permanecer à parte. Para tal, é preciso banir o PT, que, a despeito dos erros, melhorou a vida de milhões de pobres.

Seria burrice minha negar a corrupção no Partido dos Trabalhadores. Contudo, dizer que o PT é o maior responsável pela corrupção no País é sinal de ingenuidade ou de desonestidade intelectual. Ademais, o PT, ainda no poder, é o mais parecido que há contra a política neoliberal. A despeito das mudanças por que passou e dos erros pelos quais é responsável, o partido realizou um projeto social que ficou longe da agenda do PSDB enquanto os tucanos estiveram no governo federal.

Previsões são um risco. Ainda mais num cenário político que está sujeito a flutuações globais. Ainda assim, arrisco dizer que a esquerda (nem algo que se pareça com ela) não ganhará as próximas eleições presidenciais no Brasil. Mas isso, é claro, não tira de mim o ideal, que é continuar acreditando numa vida melhor para aqueles que a classe média tem insistido em excluir ao longo das décadas.

Nesse sentido, o PT é transitório. Se politicamente ele morrer, isso não significa a morte dos ideais de seus fundadores nem daqueles que vieram antes deles. À parte isso, a vida me ensinou que não é preciso temer a classe dos pobres, bem como me ensinou que é preciso, sim, temer a mídia que temos e a sanha daqueles que estão em sintonia com o que ela defende. Temê-los, contudo, não significa silenciar-me.

sábado, 14 de março de 2015

AV. JK, EM PATOS DE MINAS


Revendo arquivos, eu me deparei com esta foto, tirada em dezenove de fevereiro de 2012. Eu preferiria uma imagem, digamos, laica, em que não houvesse o dizer religioso na placa, já que minha intenção era buscar uma temática urbana, não religiosa. 

 Seria fácil apagar a placa em programa de edição. Todavia, isso não faria muito sentido, considerando-se a temática urbana com que eu estava em mente. Afinal, tendências, paradoxos, ideologias, fios e desafios estão no caldeirão urbano. 
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F/16.0 
30 segundos 
ISO 100 

ASDRÚBAL, OS NÚMEROS, AS PALAVRAS

Os números vistos e entrevistos todos os dias, as palavras lidas inteiramente ou as vistas de relance. Para Asdrúbal, todos os números e todas as palavras com que nos deparamos fazem parte de uma linguagem cifrada em que o destino de cada um está escrito. Cada indivíduo, todos os dias, lê, em números e em palavras com que se depara, o destino que é seu.

Asdrúbal acreditava que se decifrasse como funciona o código que é só dele, poderia, então, compartilhar a técnica com a humanidade. Por cinquenta e três anos, dedicou-se a anotar milhões de números e palavras. Compôs em seus cadernos esquemas e diagramas em que se perdia. Sentia-se acossado pelo material com que lidava. Cismou de que a compreensão de sua vida viria a partir do número 2007 e da palavra “entusiasmo”.

Num dia de frêmito, quando estava, para si, no limiar da solução que vinha buscando há décadas, ouviu por um rádio que ficava na casa do vizinho o locutor dizendo: “São 20h07! Cheios de entusiasmo começamos mais uma noite de muita música!”. Asdrúbal interpretou a fala do locutor como um sinal de que a pesquisa estava no caminho certo. Redobrou o ânimo, acirrou os esforços. Mal dormia, mal se encontrava com pessoas. Enfurnou-se mais ainda no cômodo que escolhera para realizar com sossego seu trabalho.

Quando sua irmã estava recolhendo os cadernos com as anotações de Asdrúbal, pensou na inutilidade de tudo aquilo. Folheou de modo aleatório alguns deles. Tentou extrair sentido do que lia. Sentiu um misto de graça, de ternura e de saudade numa frase escrita por Asdrúbal: “Locutor confirma que estou certo”. A princípio, quis guardar as anotações. Depois, acabou ateando fogo em tudo. Enquanto os papéis se dobravam sobre si mesmos à medida que as chamas os consumiam, perguntou-se se o corpo de Asdrúbal teria se dobrado sobre si durante a cremação. 

sexta-feira, 13 de março de 2015

NO BOTECO COM LÍVIO SOARES DE MEDEIROS — EDIÇÃO 3


Pessoas, eis mais uma edição de No Boteco com Lívio Soares de Medeiros. Desta vez, a entrevistada é a cantora Lizandra. 

MADRUGADA

A noite e a música 
precisam uma da outra. 
Eu preciso das duas. 

"PÉROLA", DE IVAN ROSA

À medida que eu ia escutando o CD “Pérola”, eu ia tendo a sensação de que a competência técnica dos músicos e o talento deles não estavam a serviço de algum exibicionismo bobo nem a serviço de algum virtuosismo vaidoso. A impressão que o trabalho deixa é a de que havia músicos se divertindo; ou de que havia músicos louvando a música ou o espírito coletivo que ela sugere.

O próprio Ivan Rosa já havia me dito que, embora ele seja baixista e embora ele tenha gravado um CD instrumental, “Pérola” não era, por assim dizer, um trabalho em que o contrabaixo tivesse de ser a única estrela. É por isso que reitero que, se por um lado o CD é o trabalho autoral de um baixista, por outro, o que logo se percebe em “Voo livre”, a faixa de abertura, é o generoso espírito gregário que a música tem.

Fiz uma referência a “Voo livre”, música que abre o CD. De cara, somos apresentados a uma faixa com pegada pop/rock. A partir daí, há um passeio por aquilo que penso terem sido as influências pelas quais passou Ivan Rosa: há o lirismo de “Brisa”, a terceira faixa, ou de “Pérola”, a quinta faixa, que dá nome ao CD. Além de ser o título do trabalho, “Pérola” é dedicada a Viviane, esposa do Ivan.

Já “Swinguera”, a sexta faixa, faz jus ao título, com uma pegada dançante e jovial. Por sua vez, “Tempestade”, a sétima faixa, tem um clima intimista, reflexivo, a despeito do título poderoso. Tomo a liberdade de comentar um pouco mais sobre essa faixa: não por questões musicais, mas, pelo clima, ela acabou me remetendo a “Respect the Wind”, um instrumental do Van Halen que é trilha sonora do filme “Twister”, em que o poder de destruição de tornados é mostrado.

O ponto em comum entre as duas faixas vai além da menção a fenômenos atmosféricos. O título da faixa do Van Halen é, numa tradução literal, “Respeite o vento”; já a composição do Ivan, conforme já anunciado, chama-se “Tempestade”. “Respeite o vento”, pelo título e pelo filme de que faz parte, e “Tempestade”, pelo título, podem sugerir, a princípio, um som mais pesado ou “agressivo”.

Entretanto, o que há nelas é um clima intimista. São quase um incitação não para que temamos uma tempestade ou um vento destruidor, mas, sim, para que olhemos para dentro de nós. A do Van Halen, com uma atmosfera soturna; a do Ivan Rosa, com um astral entre o lírico e o denso.

“Amanhecer”, a penúltima faixa, resgata a pegada pop/rock ou jazzística que o CD tem. Por fim, a música que fecha o trabalho é “Pérola”, só que num arranjo minimalista, com baixo e teclado. Vale confirmar que todas as músicas do CD são de autoria de Ivan Rosa.

Estão presentes no CD os seguintes músicos: Ivan Rosa (baixo), Leonor Júnior (bateria e percussão), Flávio Silva (guitarra), César Braga (teclado), Joe Mogharabi (guitarra), Paulinho Rocha (bateria), Rogério Delayon (guitarra), Christiano Caldas (guitarra), Moisés Martins (guitarra), Wellik Soares (saxofone), Ximba Uchyama (baixo “fretless”), Ric Arruda (guitarra), Marcelo Rocha (saxofone), Israel Dantas (violão), Maurício Caruso (guitarra e violão) e Juninho Martins (guitarra).

Palavras soam abstratas demais quando tentam descrever o que é passado pela combinação de sons. Mas espero que o que escrevi deixe vocês com vontade de escutar o presente que Ivan Rosa nos oferta. E se escutarem, que gostem tanto quanto gostei. 

terça-feira, 10 de março de 2015

TRABALHE MENOS

A menos que seu trabalho seja aquilo com que você sonhava, trabalhe menos. São poucas as pessoas que ganham dinheiro fazendo aquilo que de fato gostariam de fazer. Por isso é que digo: trabalhe menos.

Trabalhe menos e vá fazer aquilo que você gosta mesmo de fazer. Se estiver precisando trabalhar muito por estar em delicado momento financeiro de sua vida, tente resolver isso. Se conseguir, trabalhe menos.

Trabalhe menos e vá fazer as coisas que você curte, sem se importar com o dinheiro. É claro que se precisa dele, mas a quantidade de que necessitamos é bem menor do que a que dizem que precisamos. Se na dança da vida você começar a ser pago fazendo precisamente o que você gostaria de fazer, isso é a glória.

Não estou dizendo que você não deve trabalhar. Estou dizendo que você deve achar tempo para fazer o que gosta. Se quiser achar tempo para fazer o que você gosta, você terá de trabalhar menos.

O mundo corporativo mina a criatividade. Ele assumiu uma configuração tal em que o ser humano deve ser máquina a serviço de algo que o escraviza e que o esgota. Muito papel, muita lei, muitos compromissos, muitas reuniões, muitos horários, muitas tarefas...

Para o mundo corporativo, você é um número, um dado, uma peça. Corporações não querem saber se você um dia quis ser ator, se você sonha em estudar física ou se você tem talento para lidar com crianças. O mundo das corporações quer meta. Essa meta deve ser superada no mês seguinte. Você é um meio para isso. E só.

As pessoas trabalham mais do que o que gostariam, num trabalho que não curtem e fazendo algo em que não têm a chance de criarem o que são capazes de criar. Acostumam-se, acomodam-se. Chega o ponto em que passam a amar o látego.

A publicidade nos diz que seremos pessoas realizadas se comprarmos. Não seremos. Realizar-nos-emos se tivermos a oportunidade para que aprimoremos o potencial que é nosso. Não caia no engodo de comprar a felicidade que os comerciais, os anúncios e o mercado nos prometem.

Se a ida a um shopping deixa você com gostosa sensação de felicidade, feliz você não está. Vá procurar o que você é, vá estudar, vá aprender, vá gastar sua energia naquilo que levará você a uma compreensão mais ampla de você e do mundo. Para isso, se for o caso, trabalhe menos. 

QUE DELÍCIA!

Trabalho no IFTM — Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Triângulo Mineiro. O IFTM, campus Patos de Minas, funciona no prédio onde era a antiga Sespa. Em função disso, almoço com frequência pelas bandas de lá.

Vou muito ao QDelícia, que fica na JK, perto do IFTM. A primeira coisa que me chamou a atenção no restaurante foi o preço: a comida é extremamente barata; hoje, por exemplo, pelo almoço e por um copo de suco de laranja, paguei sete reais e um centavo. A segunda coisa que me chamou a atenção: a comida é extremamente saborosa.

Como mais ou menos a mesma quantidade quando almoço em restaurantes; como mais ou menos as mesmas coisas. No QDelícia, sempre pago menos do que pago em outros lugares. Além disso, por duas ou três vezes, pedi à atendente que elogiasse a cozinheira, pois gosto mesmo da comida que servem.

Tudo é simples. Não há pratos requintados, mas o trivial é excelente. Outra coisa curiosa: nunca tive a sensação de que o suco de laranja preparado por eles tivesse sido feito com laranja murcha ou velha. Sempre peço por suco de laranja, e ele sempre está gostoso. Por fim, a simplicidade está também no lugar. Não há luxo, mas há gentileza no atendimento, comida gostosa e preço justo. 

segunda-feira, 9 de março de 2015

NA MÉDIA

Não são liliputianos.
Não são de Brobdingnag.
São medianos.

Tão medianos quanto
o haicai acima.
Nem abaixo
nem acima.
São a média.

São bípedes,
são expansivos.
Quando argumentam,
lembram um houyhnhnm.
Ou um yahoo.

Acham-se sofisticados.
Descontentes,
querem se mudar.
Vão a Laputa!:
lá, sentem-se
pairando acima
da média. 

SINAL

Noite adentro,
ela conta
as badaladas.

Uma...
Duas...
Três...

Mas outra vem!...
Já são quatro insônias
da madrugada... 

OITO DE MARÇO

Chamar uma mulher de "vaca" diz muito sobre quem agride, não sobre quem é xingada. 

FOTOPOEMA 372

domingo, 8 de março de 2015

"TREM NOTURNO PARA LISBOA"

Reserve um tempo e assista a “Trem noturno para Lisboa”. O filme (2013) é baseado no livro homônimo de Pascal Mercier (não conheço a obra). A direção é do dinamarquês Bille August. O roteiro ficou a cargo de Greg Latter e de Ulrich Herrmann.

Raimund Gregorius (Jeremy Irons) é um professor cuja vida é metódica e monótona. Certo dia, em Berna, ele convence uma jovem a não se suicidar, quando ela estava prestes a pular de uma ponte. Quando a jovem vai embora, deixa para trás um casaco e um livro, que estava no bolso da vestimenta. Dentro do livro, uma passagem de trem para Lisboa.

Gregorius tenta devolver os pertences da jovem, não obtendo êxito. Ainda assim, embarca para Lisboa, numa incomum, para ele, atitude inconsequente, deixando para trás as aulas pelas quais era responsável. Durante a viagem de trem, começa a ler o livro esquecido pela jovem.

A partir daí, o filme assume um tom que é ao mesmo tempo lírico e político. Com uma bela fotografia e com mergulho nos personagens, Lisboa se torna o cenário do trabalho, que mergulha nas vidas daqueles que foram vítimas da ditadura de Salazar. Tendo se envolvido pelo livro (“Um ourives das palavras”), escrito por Amadeu de Almeida Prado (Jack Huston), Gregorius vai atrás dos personagens citados por Almeida Prado.

É difícil misturar lirismo e política. No mundo de hoje, se procuro, por assim dizer, no mundo real por alguém que realize essa mistura, só consigo pensar em Mujica, que foi presidente do Uruguai até recentemente. Apesar dessa dificuldade, é o que “Trem noturno para Lisboa faz”. O filme ainda tem espaço para reflexões acerca da vida e do que dela fazemos.

A ternura que perpassa a criação de Bille August não esconde as tragédias e as mazelas que uma ditadura causa a um país, as tragédias e as mazelas que uma ditadura causa em indivíduos. Ora no presente, ora no passado, o filme é dolorido. Toca feridas, sem abrir mão do bom senso e da beleza. 

CRUZEIRO EMPATA COM ATLÉTICO NO PRIMEIRO CLÁSSICO DO ANO

Os primeiros vinte minutos do jogo foram trancados. Isso já era esperado. A partir daí, os espaços começaram a surgir e a partida se tornou mais dinâmica. A princípio, com o Cruzeiro ameaçando a meta do goleiro atleticano. Ainda assim, aos vinte e oito minutos, foi o goleiro Fábio quem realizou em segundos, duas grandes defesas, após cobrança de escanteio. Se o primeiro tempo não foi um primor, também não foi uma lástima.

Aos seis do segundo tempo foi a vez de o goleiro Victor fazer uma grande defesa. O placar sem gols se devia à atuação dos goleiros. Mas, numa dessas ironias da vida, foi devido a uma falha do goleiro Fábio, que tentou sair jogando com o pé, que Rafael Carioca fez um a zero para o Atlético, aos vinte e seis minutos. Poder-se-ia argumentar que não houve recuo. O goleiro, todavia, não poderia interpretar pelo árbitro. O erro do Fábio foi técnico, por não ter tido habilidade ao sair jogando com o pé.

Tive comigo que a partida terminaria com esse placar. Não por duvidar das improbabilidades do futebol, mas pela configuração que o jogo assumira, com o Atlético esfriando a partida. Aos trinta e sete, Leandro Damião, num gol truncado, empatou. Um minuto depois, a Raposa quase virou o jogo.

Falar em placar justo no futebol é algo melindroso, pois isso depende do critério que se adote. Ainda assim, levando-se em conta o que os times produziram, o placar não soa injusto, no sentido como o termo é usado no futebol. 

sábado, 7 de março de 2015

APONTAMENTO 239

Para que alcances o máximo do que podes ser, sê tu em cada detalhe, faz a teu modo cada movimento, cada criação, cada ousadia. Busca-te. Acha tua voz, procura pelo que és. O caminho és tu, tu és a fonte. Há um modo que é só teu. Para realizar bem, sê bem aquilo que és. 

sexta-feira, 6 de março de 2015

SEDUÇÃO DE QUINTA

Esta quinta-feira 
está tão bela:
nem precisava
de agito. 
Esta quinta-feira 
está tão agitada:
nem precisava
de beleza.

Por estar
tão gostosa e tão bonita, 
esta noite de quinta-feira
nem precisaria do rock
para me seduzir. 

AINDA MUJICA

Mujica é o poder da ternura, da simplicidade, da lucidez, da inteligência, da utopia, do pragmatismo, da palavra. Há pessoas que inspiram como a arte. Mujica é uma delas. 

MUJICA FALA

Ah, esse Mujica: ele é filósofo, ele é político, ele é gênio: clique aqui

quinta-feira, 5 de março de 2015

NO BOTECO COM LÍVIO SOARES DE MEDEIROS — EDIÇÃO 2


No ar, mais uma edição de No boteco com Lívio Soares de Medeiros. O entrevistado desta segunda edição é o baixista Ivan Rosa, a quem agradeço pela oportunidade da conversa.

Na quinta-feira que vem (12/03), Ivan Rosa vai lançar CD. Neste bate-papo, ele fala do lançamento, de seu trabalho como músico e de questões pessoais. 

quarta-feira, 4 de março de 2015

PREFERÊNCIAS

Prefiro maçã a pera. 
Prefiro Cynara Menezes a Rachel Sheherazade. 
Prefiro Hulk a Huck.
Prefiro vinho a uísque.
Prefiro García Márquez a Vargas Llosa.
Prefiro hábito a rotina.
Prefiro ESPN a SporTV.
Prefiro livro a tela.
Prefiro arroz a feijão.

Prefiro Beatles e Rolling Stones. 

CONTO 73

Abílio vivia dizendo que se quisessem saber, depois de ele ter morrido, quem ele fora, bastaria perguntar às mulheres que o amaram. Perguntaram. A resposta foi unânime: “Alguém que não soube amar”.

terça-feira, 3 de março de 2015

PONTOS CARDEAIS

Ao norte do Centro do Mundo, havia um livro considerado sagrado. Não passava de mais um dos tantos livros escritos pelo homem. Num dia, alguém disse que esse livro fora ditado por um deus. As pessoas acreditaram. Desde então, o livro, escrito por planejadoras mãos humanas, passou a ser reverenciado como se escrito por divindade.

Ao sul do Centro do Mundo, havia um livro considerado sagrado. Não passava de mais um dos tantos livros escritos pelo homem. Num dia, alguém disse que esse livro fora ditado por um deus. As pessoas acreditaram. Desde então, o livro, escrito por planejadoras mãos humanas, passou a ser reverenciado como se escrito por divindade.

Ao leste do Centro do Mundo, havia um livro considerado sagrado. Não passava de mais um dos tantos livros escritos pelo homem. Num dia, alguém disse que esse livro fora ditado por um deus. As pessoas acreditaram. Desde então, o livro, escrito por planejadoras mãos humanas, passou a ser reverenciado como se escrito por divindade.

Ao oeste do Centro do Mundo, havia um livro considerado sagrado. Não passava de mais um dos tantos livros escritos pelo homem. Num dia, alguém disse que esse livro fora ditado por um deus. As pessoas acreditaram. Desde então, o livro, escrito por planejadoras mãos humanas, passou a ser reverenciado como se escrito por divindade.

Veio o tempo em que as milícias do norte quiseram dominar os outros pontos cardeais. Veio o tempo em que as milícias do sul quiseram dominar os outros pontos cardeais. Veio o tempo em que as milícias do leste quiseram dominar os outros pontos cardeais. Veio o tempo em que as milícias do oeste quiseram dominar os outros pontos cardeais.

Desde o começo, num tempo em que cada milícia ainda não estava tentando se impor sobre territórios distantes, mas sobre quintais vizinhos, por já se considerarem eleitas por um deus, havia quem percebesse a insanidade das milícias. Essas pessoas continuam sendo eliminadas, tanto no norte quanto no sul, tanto no leste quanto no oeste.

As milícias continuam em guerra. Ora tem-se a impressão de que o norte se sobressai. Ora tem-se a impressão de que o sul se sobressai. Ora tem-se a impressão de que o leste se sobressai. Ora tem-se a impressão de que o oeste se sobressai. Hoje em dia são poucos os que não pertencem a nenhuma milícia. Essas pessoas continuam sendo caçadas. Tanto no norte quanto no sul, tanto no leste quanto no oeste.

Enquanto isso, em seu quarto, alguém produz alegoria contra as milícias, as quais não a entenderão. Assim é no norte. Assim é no sul. Assim é no leste. Assim é no oeste. 

GRAVATA

Borboleta
aterrissou em 
meu corpo. 
Foi ficando. 
Tornamo-nos
amigos. 
Hoje em dia, 
quando ela sai
a passear, 
ela me arrasta
pelo pescoço. 

segunda-feira, 2 de março de 2015

JAULA

Enjaulado,
não sabe o tigre
o quanto seria feliz
lá fora.
Sabe ele
o quanto é
infeliz
ali dentro?

domingo, 1 de março de 2015

450

O Rio de Janeiro
continua 
lido. 

LUGAR

Dir-se-ia que o pavão tem um leque no rabo. Bobagem: não perceberam que é o leque que inventou um pavão para se livrar de certas mãos. 

LET'S MOVE ON, GUYS

February is over:
time to March. 

sábado, 28 de fevereiro de 2015

NO BOTECO COM LÍVIO SOARES DE MEDEIROS — EDIÇÃO 1


Na quinta-feira, eu me encontrei com Lucas de Paula, integrante da banda O Berço, num bar local. Tive então a ideia de gravar uma entrevista com ele, que topou imediatamente. No mesmo dia, num outro bar, eu me encontrei com o Ciro, também integrante da banda. Gravei entrevista com o Ciro também (esse áudio será veiculado em breve).

A Paula Toller disse certa vez em entrevista que as grandes verdades da vida são ditas na cama. Não que eu discorde dela, mas eu acrescentaria outro ambiente no qual verdades são ditas: um bar. Durante a entrevista com o Ciro, ele me parabenizou pelo projeto — só que não havia projeto algum.

Contudo, gostei demais da ideia. Decidi fazer dela uma verdade. O que surgiu como algo improvisado é, desde quinta-feira, um projeto ou algo assim. O nome é No Boteco com Lívio Soares de Medeiros. A intenção é que os convidados sejam entrevistados em bares, botecos, boates, restaurantes e similares. E ao Lucas de Paula, obrigado pelo bate-papo. 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

ROLLING

(Para o pessoal da banda Black Dog, que fez um showzão ontem.)

O rock precisava de algo:
inventou a noite. 
A noite precisava de algo:
inventou as pessoas. 
As pessoas precisavam de algo:
curtiram rock. 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

APONTAMENTO 239

O senso de humor seduz. Mas quando ele vem em forma de chistes espirituosos, não raro com trocadilhos, ambiguidades ou outras sutilezas verbais, ele é atraente demais para que não queiramos estar em companhia dessas mentes criativas. Esse tipo de pessoa agrada à inteligência; agradando à inteligência, fazem-nos felizes. 

DUAS LEMBRANÇAS

Meu pai fazia certas brincadeiras em tom muito sério. A seriedade me convencia de que a brincadeira era verdade pétrea. Numa dessas pilhérias, ele disse algo assim: “Estamos em fevereiro; as mulheres conversam menos neste mês”. O impacto dessa “informação” foi imenso; fiquei intrigado. Na minha cabeça, era como se o mês de fevereiro tivesse alguma propriedade “mágica” que fizesse com que as mulheres conversassem menos.

Uma outra brincadeira foi assim: estávamos eu, ele e mais alguém de que não me lembro nas imediações da cidade, num carro. Do nada, meu pai apontou para um poste solitário num pasto e comentou algo mais ou menos assim: “Olha ali, Lívio: aquele poste ali é para marcar que aquele lugar é o meio do mundo”.

Pirei. Fiquei me perguntando: “Como assim?! O meio do mundo é em Patos de Minas e ninguém sabe disso?!”. Não bastasse meu assombro, fiquei indignado com a falta de informação no lugar. Ora, se lá era o meio do mundo, deveria haver na área placas explicando algo tão importante! Em minha concepção, o meio do mundo não poderia ficar sem indicação alguma, solitário num ermo do Cerrado. 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

FOTOPOEMA 371

FONÉTICA

O seu estrelato. 
O céu estrelado.

O timbre se abre, 
a consoante
se sonoriza:
escolho as
estrelas. 

JASMIM


APONTAMENTO 238

Valorizar a si mesmo deveria ser obrigação mínima de qualquer um que queira ser uma pessoa mais plena. Contudo, o que se vê na maioria das vezes é uma deturpação ou um desvirtuamento do que é valorizar a si mesmo. O reconhecimento e o exercício das boas qualidades que se possa ter são substituídos por empáfia e individualismo. Qualidades que muitas vezes não existem são vomitadas por intermédio de um discurso arrogante.

Valorizar a si mesmo não é berrar para o Universo qualidades materiais ou imateriais que podem só existir na cabeça de quem as propaga. Valorizar a si mesmo é, antes de tudo, ter um vasto conhecimento das qualidades e dos defeitos que se tem. Mas a preocupação maior é em camuflar os defeitos e em inventar qualidades, o que comumente acaba levando à prepotência.

APONTAMENTO 237

Há que se achar o tom adequado, seja para a crítica mais incisiva, seja para o elogio mais retumbante.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

FOTOPOEMA 370

FEARLESS

Algumas regravações são tão boas que nos deixam com a impressão de que certas canções foram feitas para serem regravadas. "Fearless", do Pink Floyd, cantada pelo Fish, que foi vocalista do Marillion, é um desses casos.


sábado, 21 de fevereiro de 2015

ESTRATÉGIA

No altar, 
o belo padre. 
A fiel está 
encantada
com os
dons de
seu deus. 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

SINGULAR

Ela quer
no plural.

Novos ares, 
novos bares, 
novas gares, 
novos mares, 
novos pares.

Menos que dois, 
só quer um lar. 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

CHUVA

Chove tão sutilmente, 
que é como se não chovesse —
mas chove.

Quase não há 
barulho de chuva —
mas há.

A chuva brinca 
de ser quase e
goteja em meu verso. 

FOTOPOEMA 369

OLIVER SACKS SE DESPEDE

O neurologista Oliver Sacks, em texto publicado hoje no jornal The New York Times, anuncia que tem meses de vida, devido a câncer. Publicamente, Sacks se despede com altivez — o que não surpreende.

Nos livros dele, Sacks deixa transparecer algo que se tornou raro: ele trata os pacientes como... gente... Ele realmente parece se importar com os pacientes. Isso, que parece ser condição inicial para qualquer médico, tornou-se exceção. 

SINTONIA FINA — EDIÇÃO 31

Pessoas, está no ar mais uma edição do Sintonia Fina, programa musical editado e apresentado por mim. Para escutar, basta dar “play”.


Paul McCartney — Freedom
Caetano Veloso — Quando o galo cantou
Trio Rio — New York, Rio, Tokyo
Beto Guedes — Vevecos, panelas e canelas
U2 — So cruel
Tianastácia — Itacaré
Tony Anderson — Breakthrough
Milton Nascimento — Calix bento

FONOAUDIOLOGIA EM CAMPO?

Desde quando o PVC foi para o Fox Sports, eu ainda não tinha conferido a atuação dele pelo canal. Ontem, tendo assistido a Corinthians e São Paulo pela emissora, pude escutar novamente o comentarista de farta memória e de excelente e sutil senso de humor.

Conheci o trabalho dele na ESPN. De inteligência privilegiada, PVC, contudo, tinha ligeiro problema de dicção. Ontem, entretanto, tive forte impressão de que a fala do comentarista está mais clara. Não estando eu enganado, isso se deve, assim me pareceu, a trabalho eficaz de algum fonoaudiólogo.

Independentemente de eu estar certo quanto à melhora da dicção do PVC, sempre fui entusiasta da fonoaudiologia, não só quando há alguma falha na dicção ou algum outro problema na fala. Fundamental para profissionais cujas profissões dependem em primazia da voz, a fonoaudiologia é bonita também por tornar possível a qualquer um a melhoria no discurso. A ciência é uma das grandes aliadas da retórica. Em amplo sentido, é mais um modo de irmos mais longe em nós mesmos. 

VOOS


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

ARCO

“Porei meu arco na nuvem e ele se tornará um sinal da aliança entre mim e a terra” (Gênesis 9, 13).

“Astúcia  que tive uma sonhice: Diadorim passando  debaixo de  um  arco--íris” (João Guimarães Rosa).




segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

QUARTETO EM SI

A CAVERNA

Tudo bem que graças à civilização podemos escutar a “Ode à alegria” ou saborear um pato com laranja, mas, ainda assim, não nos iludamos: o homem das cavernas está aqui, e ele gosta de vir à tona. De um modo ou de outro, consegue. 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

O LUGAR DA BELEZA

Tua beleza está 
na cabeça — 
pelo que ela
tem por fora
e pelo que 
tem por dentro.

Tu és irresistível 
em qualquer lugar de ti. 
Começa na cabeça 
e vai parar
lá nos pés.

De alto a baixo,
reparo. 
Não há 
lugar em que
eu não queria
estar presente. 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

ANTENADO

POR QUE A TATURANA ATRAVESSOU A ESTRADA?

Atravessando a BR-365, próxima ao trevo de Patos de Minas, em horário bem movimentado, vi uma taturana. Das dezenas de carros que passaram por ela, cinco ou seis estiveram muito perto de esmagá-la. Mesmo assim, ela chegou ao outro lado, ignorante do risco que correu. Mas, a rigor, quem está ciente dos perigos à espreita? Atravessemos a estrada. 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

LETRA DE MÚSICA 38

Glória, se eu soubesse
que trarias a degradação 
para dentro de minha sala, 
eu não te teria aberto a casa.

Entraste pela porta, 
chegaste perto, 
fizeste porto.

Confiei em ti. 
Glória, não és mais
a irmã que tive. 
Eu te expulsei de casa, 
eu te apaguei da vida.
Meu sangue não é o teu. 
Recebe meu anátema, 
não voltes à minha casa.

Procuraste abrigo. 
Eu te abriguei, 
alimentei teu corpo. 
Entregando-o, 
tu me feriste.

Glória, aprendi que
és ilusão e armadilha. 
Infelizes aqueles que 
de ti correm atrás. 
Flertas, conquistas. 
Mas quando estiveres desnudada, 
verão tua máscara no piso. 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

PARA BORGES

A Borges coube a
escuridão em vida. 
Coube a ele 
a memória.
Ou a ficção. 
Feliz na manhã dourada, 
soube ser feliz na tarde escura. 
Soube me fazer feliz
na madrugada chuvosa.
Graças a Borges, 
daqui a pouco, 
vou sonhar.