quarta-feira, 4 de março de 2015

PREFERÊNCIAS

Prefiro maçã a pera. 
Prefiro Cynara Menezes a Rachel Sheherazade. 
Prefiro Hulk a Huck.
Prefiro vinho a uísque.
Prefiro García Márquez a Vargas Llosa.
Prefiro hábito a rotina.
Prefiro ESPN a SporTV.
Prefiro livro a tela.
Prefiro arroz a feijão.

Prefiro Beatles e Rolling Stones. 

CONTO 73

Abílio vivia dizendo que se quisessem saber, depois de ele ter morrido, quem ele fora, bastaria perguntar às mulheres que o amaram. Perguntaram. A resposta foi unânime: “Alguém que não soube amar”.

terça-feira, 3 de março de 2015

PONTOS CARDEAIS

Ao norte do Centro do Mundo, havia um livro considerado sagrado. Não passava de mais um dos tantos livros escritos pelo homem. Num dia, alguém disse que esse livro fora ditado por um deus. As pessoas acreditaram. Desde então, o livro, escrito por planejadoras mãos humanas, passou a ser reverenciado como se escrito por divindade.

Ao sul do Centro do Mundo, havia um livro considerado sagrado. Não passava de mais um dos tantos livros escritos pelo homem. Num dia, alguém disse que esse livro fora ditado por um deus. As pessoas acreditaram. Desde então, o livro, escrito por planejadoras mãos humanas, passou a ser reverenciado como se escrito por divindade.

Ao leste do Centro do Mundo, havia um livro considerado sagrado. Não passava de mais um dos tantos livros escritos pelo homem. Num dia, alguém disse que esse livro fora ditado por um deus. As pessoas acreditaram. Desde então, o livro, escrito por planejadoras mãos humanas, passou a ser reverenciado como se escrito por divindade.

Ao oeste do Centro do Mundo, havia um livro considerado sagrado. Não passava de mais um dos tantos livros escritos pelo homem. Num dia, alguém disse que esse livro fora ditado por um deus. As pessoas acreditaram. Desde então, o livro, escrito por planejadoras mãos humanas, passou a ser reverenciado como se escrito por divindade.

Veio o tempo em que as milícias do norte quiseram dominar os outros pontos cardeais. Veio o tempo em que as milícias do sul quiseram dominar os outros pontos cardeais. Veio o tempo em que as milícias do leste quiseram dominar os outros pontos cardeais. Veio o tempo em que as milícias do oeste quiseram dominar os outros pontos cardeais.

Desde o começo, num tempo em que cada milícia ainda não estava tentando se impor sobre territórios distantes, mas sobre quintais vizinhos, por já se considerarem eleitas por um deus, havia quem percebesse a insanidade das milícias. Essas pessoas continuam sendo eliminadas, tanto no norte quanto no sul, tanto no leste quanto no oeste.

As milícias continuam em guerra. Ora tem-se a impressão de que o norte se sobressai. Ora tem-se a impressão de que o sul se sobressai. Ora tem-se a impressão de que o leste se sobressai. Ora tem-se a impressão de que o oeste se sobressai. Hoje em dia são poucos os que não pertencem a nenhuma milícia. Essas pessoas continuam sendo caçadas. Tanto no norte quanto no sul, tanto no leste quanto no oeste.

Enquanto isso, em seu quarto, alguém produz alegoria contra as milícias, as quais não a entenderão. Assim é no norte. Assim é no sul. Assim é no leste. Assim é no oeste. 

GRAVATA

Borboleta
aterrissou em 
meu corpo. 
Foi ficando. 
Tornamo-nos
amigos. 
Hoje em dia, 
quando ela sai
a passear, 
ela me arrasta
pelo pescoço. 

segunda-feira, 2 de março de 2015

JAULA

Enjaulado,
não sabe o tigre
o quanto seria feliz
lá fora.
Sabe ele
o quanto é
infeliz
ali dentro?

domingo, 1 de março de 2015

450

O Rio de Janeiro
continua 
lido. 

LUGAR

Dir-se-ia que o pavão tem um leque no rabo. Bobagem: não perceberam que é o leque que inventou um pavão para se livrar de certas mãos. 

LET'S MOVE ON, GUYS

February is over:
time to March. 

sábado, 28 de fevereiro de 2015

NO BOTECO COM LÍVIO SOARES DE MEDEIROS — EDIÇÃO 1


Na quinta-feira, eu me encontrei com Lucas de Paula, integrante da banda O Berço, num bar local. Tive então a ideia de gravar uma entrevista com ele, que topou imediatamente. No mesmo dia, num outro bar, eu me encontrei com o Ciro, também integrante da banda. Gravei entrevista com o Ciro também (esse áudio será veiculado em breve).

A Paula Toller disse certa vez em entrevista que as grandes verdades da vida são ditas na cama. Não que eu discorde dela, mas eu acrescentaria outro ambiente no qual verdades são ditas: um bar. Durante a entrevista com o Ciro, ele me parabenizou pelo projeto — só que não havia projeto algum.

Contudo, gostei demais da ideia. Decidi fazer dela uma verdade. O que surgiu como algo improvisado é, desde quinta-feira, um projeto ou algo assim. O nome é No Boteco com Lívio Soares de Medeiros. A intenção é que os convidados sejam entrevistados em bares, botecos, boates, restaurantes e similares. E ao Lucas de Paula, obrigado pelo bate-papo. 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

ROLLING

(Para o pessoal da banda Black Dog, que fez um showzão ontem.)

O rock precisava de algo:
inventou a noite. 
A noite precisava de algo:
inventou as pessoas. 
As pessoas precisavam de algo:
curtiram rock. 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

APONTAMENTO 239

O senso de humor seduz. Mas quando ele vem em forma de chistes espirituosos, não raro com trocadilhos, ambiguidades ou outras sutilezas verbais, ele é atraente demais para que não queiramos estar em companhia dessas mentes criativas. Esse tipo de pessoa agrada à inteligência; agradando à inteligência, fazem-nos felizes. 

DUAS LEMBRANÇAS

Meu pai fazia certas brincadeiras em tom muito sério. A seriedade me convencia de que a brincadeira era verdade pétrea. Numa dessas pilhérias, ele disse algo assim: “Estamos em fevereiro; as mulheres conversam menos neste mês”. O impacto dessa “informação” foi imenso; fiquei intrigado. Na minha cabeça, era como se o mês de fevereiro tivesse alguma propriedade “mágica” que fizesse com que as mulheres conversassem menos.

Uma outra brincadeira foi assim: estávamos eu, ele e mais alguém de que não me lembro nas imediações da cidade, num carro. Do nada, meu pai apontou para um poste solitário num pasto e comentou algo mais ou menos assim: “Olha ali, Lívio: aquele poste ali é para marcar que aquele lugar é o meio do mundo”.

Pirei. Fiquei me perguntando: “Como assim?! O meio do mundo é em Patos de Minas e ninguém sabe disso?!”. Não bastasse meu assombro, fiquei indignado com a falta de informação no lugar. Ora, se lá era o meio do mundo, deveria haver na área placas explicando algo tão importante! Em minha concepção, o meio do mundo não poderia ficar sem indicação alguma, solitário num ermo do Cerrado. 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

FOTOPOEMA 371

FONÉTICA

O seu estrelato. 
O céu estrelado.

O timbre se abre, 
a consoante
se sonoriza:
escolho as
estrelas. 

JASMIM


APONTAMENTO 238

Valorizar a si mesmo deveria ser obrigação mínima de qualquer um que queira ser uma pessoa mais plena. Contudo, o que se vê na maioria das vezes é uma deturpação ou um desvirtuamento do que é valorizar a si mesmo. O reconhecimento e o exercício das boas qualidades que se possa ter são substituídos por empáfia e individualismo. Qualidades que muitas vezes não existem são vomitadas por intermédio de um discurso arrogante.

Valorizar a si mesmo não é berrar para o Universo qualidades materiais ou imateriais que podem só existir na cabeça de quem as propaga. Valorizar a si mesmo é, antes de tudo, ter um vasto conhecimento das qualidades e dos defeitos que se tem. Mas a preocupação maior é em camuflar os defeitos e em inventar qualidades, o que comumente acaba levando à prepotência.

APONTAMENTO 237

Há que se achar o tom adequado, seja para a crítica mais incisiva, seja para o elogio mais retumbante.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

FOTOPOEMA 370

FEARLESS

Algumas regravações são tão boas que nos deixam com a impressão de que certas canções foram feitas para serem regravadas. "Fearless", do Pink Floyd, cantada pelo Fish, que foi vocalista do Marillion, é um desses casos.


sábado, 21 de fevereiro de 2015

ESTRATÉGIA

No altar, 
o belo padre. 
A fiel está 
encantada
com os
dons de
seu deus. 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

SINGULAR

Ela quer
no plural.

Novos ares, 
novos bares, 
novas gares, 
novos mares, 
novos pares.

Menos que dois, 
só quer um lar. 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

CHUVA

Chove tão sutilmente, 
que é como se não chovesse —
mas chove.

Quase não há 
barulho de chuva —
mas há.

A chuva brinca 
de ser quase e
goteja em meu verso. 

FOTOPOEMA 369

OLIVER SACKS SE DESPEDE

O neurologista Oliver Sacks, em texto publicado hoje no jornal The New York Times, anuncia que tem meses de vida, devido a câncer. Publicamente, Sacks se despede com altivez — o que não surpreende.

Nos livros dele, Sacks deixa transparecer algo que se tornou raro: ele trata os pacientes como... gente... Ele realmente parece se importar com os pacientes. Isso, que parece ser condição inicial para qualquer médico, tornou-se exceção. 

SINTONIA FINA — EDIÇÃO 31

Pessoas, está no ar mais uma edição do Sintonia Fina, programa musical editado e apresentado por mim. Para escutar, basta dar “play”.


Paul McCartney — Freedom
Caetano Veloso — Quando o galo cantou
Trio Rio — New York, Rio, Tokyo
Beto Guedes — Vevecos, panelas e canelas
U2 — So cruel
Tianastácia — Itacaré
Tony Anderson — Breakthrough
Milton Nascimento — Calix bento

FONOAUDIOLOGIA EM CAMPO?

Desde quando o PVC foi para o Fox Sports, eu ainda não tinha conferido a atuação dele pelo canal. Ontem, tendo assistido a Corinthians e São Paulo pela emissora, pude escutar novamente o comentarista de farta memória e de excelente e sutil senso de humor.

Conheci o trabalho dele na ESPN. De inteligência privilegiada, PVC, contudo, tinha ligeiro problema de dicção. Ontem, entretanto, tive forte impressão de que a fala do comentarista está mais clara. Não estando eu enganado, isso se deve, assim me pareceu, a trabalho eficaz de algum fonoaudiólogo.

Independentemente de eu estar certo quanto à melhora da dicção do PVC, sempre fui entusiasta da fonoaudiologia, não só quando há alguma falha na dicção ou algum outro problema na fala. Fundamental para profissionais cujas profissões dependem em primazia da voz, a fonoaudiologia é bonita também por tornar possível a qualquer um a melhoria no discurso. A ciência é uma das grandes aliadas da retórica. Em amplo sentido, é mais um modo de irmos mais longe em nós mesmos. 

VOOS


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

ARCO

“Porei meu arco na nuvem e ele se tornará um sinal da aliança entre mim e a terra” (Gênesis 9, 13).

“Astúcia  que tive uma sonhice: Diadorim passando  debaixo de  um  arco--íris” (João Guimarães Rosa).




segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

QUARTETO EM SI

A CAVERNA

Tudo bem que graças à civilização podemos escutar a “Ode à alegria” ou saborear um pato com laranja, mas, ainda assim, não nos iludamos: o homem das cavernas está aqui, e ele gosta de vir à tona. De um modo ou de outro, consegue. 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

O LUGAR DA BELEZA

Tua beleza está 
na cabeça — 
pelo que ela
tem por fora
e pelo que 
tem por dentro.

Tu és irresistível 
em qualquer lugar de ti. 
Começa na cabeça 
e vai parar
lá nos pés.

De alto a baixo,
reparo. 
Não há 
lugar em que
eu não queria
estar presente. 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

ANTENADO

POR QUE A TATURANA ATRAVESSOU A ESTRADA?

Atravessando a BR-365, próxima ao trevo de Patos de Minas, em horário bem movimentado, vi uma taturana. Das dezenas de carros que passaram por ela, cinco ou seis estiveram muito perto de esmagá-la. Mesmo assim, ela chegou ao outro lado, ignorante do risco que correu. Mas, a rigor, quem está ciente dos perigos à espreita? Atravessemos a estrada. 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

LETRA DE MÚSICA 38

Glória, se eu soubesse
que trarias a degradação 
para dentro de minha sala, 
eu não te teria aberto a casa.

Entraste pela porta, 
chegaste perto, 
fizeste porto.

Confiei em ti. 
Glória, não és mais
a irmã que tive. 
Eu te expulsei de casa, 
eu te apaguei da vida.
Meu sangue não é o teu. 
Recebe meu anátema, 
não voltes à minha casa.

Procuraste abrigo. 
Eu te abriguei, 
alimentei teu corpo. 
Entregando-o, 
tu me feriste.

Glória, aprendi que
és ilusão e armadilha. 
Infelizes aqueles que 
de ti correm atrás. 
Flertas, conquistas. 
Mas quando estiveres desnudada, 
verão tua máscara no piso. 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

PARA BORGES

A Borges coube a
escuridão em vida. 
Coube a ele 
a memória.
Ou a ficção. 
Feliz na manhã dourada, 
soube ser feliz na tarde escura. 
Soube me fazer feliz
na madrugada chuvosa.
Graças a Borges, 
daqui a pouco, 
vou sonhar. 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

JOÃO 8, 6

Ele escreveu sua história. 
Escreveu a minha.
Escreveu a carne entre os dentes
e as guerras e os corredores. 
Escreveu amores, ódios e tigres. 
Escreveu grãos de areia, vulcões, 
poemas, tratados e derrotas. 
Escreveu tucanos, estrelas e ratos. 
Escreveu ermos. 
Escreveu cidades. 
Escreveu silêncios, sexos.
Escreveu o Universo. 
Escreveu pais, mães e blusas de frio. 
Escreveu a neve, a chuva e os cabelos. 
Escreveu a rebeldia, as tempestades, as paredes, 
as árvores, as estradas e a noite.
Escreveu o sono, as canções. 
Escreveu unhas, sóis e judeus.
Escreveu o câncer, a chibatada, a fé, 
os alimentos e a fome.
Escreveu a chuva, o desejo, as camisas. 
Escreveu impérios, xingamentos, devoções, 
olhares, escadas, cavalos, 
poeira, formigas, mesas, pães, 
terremotos, dons, cadeados, cismas, 
vozes, números, receitas, sonos. 
Escreveu mares, pulgas, desertos. 
Escreveu trevas, dúvidas e vozes. 
Escreveu crianças, flertes e coceiras. 
Escreveu brisas, pestes, livros,
perfumes, esperanças, manhãs,
crucificações, aves, bebidas,
conceitos, alianças, circos,
pedras, Pedros, Borges, solidões,
travessias, congados, tamanduás,
alfabetos, torres, manás, dissabores.
Escreveu o que ninguém logrou escrever.

De repente, parou.
Releu o que escrevera. 
Revisou, considerou, ponderou. 
Arrematando o texto, 
reordenou os grãos. 
Onde antes havia palavras, 
há agora um novo código. 
Não foi ainda decifrado. 

domingo, 8 de fevereiro de 2015

AINDA SOBRE A SENSUALIDADE

Em texto publicado anteriormente, escrevi sobre a sensualidade. A temática continua me atraindo. Volto ao assunto, desta vez para dizer que pessoas que têm sensualidade a exalam em tempo integral. Há nelas um jeito de caminhar, um modo nos gestos, um quê na cadência com que executam as tarefas no dia a dia que as tornam sensuais.

Não são estabanadas; tampouco são monótonas nos movimentos. Acham um equilíbrio que faz com que se movam com graciosidade. Não passam a ideia de indolência nem transparecem a sensação de que estão apressadas. Esse equilíbrio, aliás, está também na voz, que não é sussurro nem grito. As pessoas sensuais são um meio-termo mais “fatal” do que qualquer excesso. 

LUGAR

Inserimos números nas casas, 
damos nomes às ruas, 
riscamos constelações no céu, 
inventamos dispositivos de localização. 
Há todo um sistema para que
saibamos onde estamos. 
Os nomes, os números, os endereços...
Nada disso elimina o nome do
caminho que é nosso: labirinto. 

TRIO

sábado, 7 de fevereiro de 2015

THE DIRTY WOLVES BLUES BAND

Diversas frases me ocorreram enquanto eu assistia, na madrugada que passou, ao show de The Dirty Wolves Blues Band. Eu deveria tê-las anotado, para que compusessem este comentário sobre a apresentação. Confiei na memória. As frases se perderam. Restou só esta: um show tão dançante que me fez chacoalhar até as bochechas.

Cheguei ao bar no exato momento em que a apresentação estava prestes a começar. Bastaram alguns segundos para que meu corpo já estivesse louco para sair dançando mundo afora. Os Lobos fizeram um show da mais genuína alegria. Não somente pela razão de que pareciam se divertir, mas também pela competência técnica. Há um tempão eu não dançava tanto durante um show.

A banda é formada por Mauro Fontoura (guitarra/vocal), Samuel Fontoura (bateria), Alliss Big Bull (baixo acústico) e Vinícius Lustosa (trompete). Investindo na raiz do blues, The Dirty Wolves Blues Band entrega um espetáculo em que ficar parado seria muita provação para um só corpo. 

QUERO-QUERO



NEBLINA

PAR

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

PONTO DE VISTA

Com força e talento,
o cinzel atua.
O mármore se rende,
sabendo que ao fim
vai se tornar o que é.

Pietro se concentra.
Observa o mármore,
observa o pó que
vai caindo no chão
durante o trabalho.

Do mármore 
para o pó,
do mármore
para o pó...

A escultura receberá
a vida em instantes.
É quando Pietro comenta:
“Esse Michelangelo só faz sujeira!” 

DA IRONIA

A ironia é 
lâmina:
fulgura, 
corta.

É lâmina fina, 
fina como papel.
A ironia é fina.

Contenta-se 
em existir
sem ser
percebida. 
Mas se alcançada, 
o sorriso é fino. 

A TEMPO

Não se preocupe,
dá tempo. 
Ainda estamos
em fevereiro:
depois eu
março.

(DES)APONTAMENTO 20

Os presos se rebelaram: reação em cadeia. 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

FIO

DISPARADO

Perder o equilíbrio 
faz disparar o coração?
Ou é o coração disparado
que faz perder o equilíbrio?

Se estás, sou agito. 
Perto de ti, 
nunca sou monotonia:
sou desequilíbrio que pulsa. 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O RIO CRIATIVO

A mente precisa achar um rio em que consiga navegar com criatividade. Quando acha, é como se não houvesse margens, é como se ela navegasse sem limites. O que advém desse estado mental é a criação, é o novo, é o espírito humano realizando o que tem de mais nobre e poderoso, que é a capacidade de criar mundos. Só a mente atenta percorre um rio assim; só a mente atenta cria quando devaneia. Quando acha esse rio, a mente torna-se manancial que faz jorrar o poder criativo que se tem, que deixa jorrar o que se é. 

SOBRE O PASSADO

Aprender o gosto por coisas velhas. Não simplesmente por serem velhas: há coisas velhas que devem ser jogadas fora, há gente velha que é estúpida. O que é velho está na juventude, está no carrão que acabou de ser tirado da concessionária. Seus antepassados correm em suas veias; enquanto você caminha, seus pés pisam também os séculos anteriores.

O passado já muito valeria se fosse "somente" história, mas ele é mais. Ele compõe o presente das coisas e das pessoas. O passado ensina. As tramas do passado se repetem. Não há enredo novo, e os personagens e as coisas estão todos impregnados de coisas velhas. O passado é um espelho à disposição do presente. 

FESTA NO MILHO


REVOADA

VOEMOS



Aprendi demais sobre fotografia no Treknature, página dedicada a fotos de natureza. Há a preferência por registros em que os animais não estejam em cativeiro. Inicialmente, fiquei espantado com as imagens; a seguir, mesmo nada sabendo de fotografia, comecei a postar minhas fotos.

Há na página um espaço dedicado a dúvidas que os membros possam ter sobre fotografia. Além disso, como minhas fotos eram muito ruins, os demais integrantes sempre me davam dicas, seja com relação ao ato de fotografar em si, seja quanto à edição das imagens. Não raro, nas fotos dos demais integrantes, eu perguntava como haviam conseguido um registro ou outro.

Sempre que postei alguma dúvida, nunca fiquei sem resposta. Sempre foram gentis, solícitos. Não havia a ideia pequena de não partilhar o que se sabe, como se o conhecimento que se tem não pudesse ser dividido. Devo muito ao Treknature. Tive na página uma presteza e uma vontade de ajudar que infelizmente não foram comuns quando tentei aprender com fotógrafos do Brasil que moram nos grandes centros.

Lembro-me de alguém por lá ter comentado que em fotografia de animais é bom fotografá-los quando estão fazendo alguma coisa. Se um animal está perseguindo a presa ou se está fugindo do predador, existe ação, algo está acontecendo. Se estão se reproduzindo ou se alimentando, a vida está acontecendo.

No sentido de se registrar os animais enquanto fazem algo, sou da ideia de que quando se trata de aves ou de pássaros, fotografá-los durante o voo é registrá-los num grande momento — pelo menos sob nossa ótica, que é humana. Para eles, suponho, é um ato como outro. 

sábado, 31 de janeiro de 2015

MAMIHLAPINATAPEI

Ele quer.
Ela quer.

Ele sabe que ela quer.
Ela sabe que ele quer.

A noite avança.
Os dois se olham.

As horas passam.
Os dois se paqueram.

É quando vem a manhã.
Os dois voltam sós para casa. 

"PALAVRAS, PALAVRAS, PALAVRAS"...

Li há muito tempo que um idioma africano tem uma palavra para se referir a alguém que é vice-campeão em um torneio por três vezes seguidas; se eu não estiver enganado, o termo pode se referir também a uma equipe vice-campeã por três vezes seguidas. Infelizmente, não me lembro da palavra.

O Megacurioso mencionou a palavra “Ostalgie”, que vem do alemão. Segundo a página, o termo significa a saudade que se sente da Alemanha Oriental. O télugo, dialeto indiano, tem a palavra “paski”: “Castigar uma criança obrigando-a a se sentar e depois se levantar segurando as orelhas com os braços cruzados”.

O inglês tem a palavra “serendipity”. A palavra significa “aptidão em fazer descobertas desejáveis por acidente”. Em japonês, há “koro”: “Medo histérico de que o próprio pênis esteja encolhendo para dentro do corpo”. Já em fueguino, dialeto chileno, existe a palavra “mamihlapinatapei”; significa “o olhar de desejo mútuo em que ambas as partes sabem o que querem, mas não dão o primeiro passo”. 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

(DES)APONTAMENTO 19

Não havia muito o que Adão pudesse fazer: Eva era dendrólatra. 

DA BUROCRACIA

A burocracia emperra nossa criatividade, impedindo-nos de sermos aquilo que em essência somos — seres criativos. A burocracia enterra o que temos de melhor, conferindo ao féretro papéis, carimbos, assinaturas, insígnias e pompa afetada. O mundo da burocracia é feito de uma densidade falsa.

A burocracia parece séria; é o refúgio daquilo que é só aparência, daquilo que maquia a mais absoluta falta de conteúdo, de necessidade e de humor. O mundo burocrático é cheio de tentáculos que não podem ser driblados. De nada adianta tentar fugir: eles nos acham; achando-nos, sufocam-nos. Com maldade. Com tempo. Com paciência. 

DESTINO: CASA

Há quem se sinta mais compelido ainda a visitar determinado lugar depois de conferi-lo pelo Google Maps. É uma ferramenta que não uso. Contudo, recentemente, baixei o Google Sky Map. E agora?!... Como não querer visitar Aldebarã, Betelgeuse ou Achernar?!... 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

PELOS CAMINHOS DO CERRADO









Hoje à tarde, eu e o amigo Aldo saímos para fotografar. Fomos lá pelas bandas da famosa Ponte do Bigode. Depois de passarmos por um velho cemitério, continuamos seguindo pela estrada. Foi quando nos deparamos com águas paradas no meio do caminho.

Enquanto debatíamos se daria para o carro seguir sem atolar, o Aldo desacelerou. Depois de precisos escrutínios, sagazes esquadrinhamentos e acuradas análises do ambiente, decidimos que o carro passaria sem problema. Tendo ficado atolado, valemo-nos de cascalho e de gravetos sob os pneus da frente na tentativa de desatolar o veículo. Inútil.

Passados uns vinte minutos, surgiu um motorista numa caminhonete. Ele parou. Sugeriu que se tentasse seguir com o carro adiante, em vez de se tentar a ré, alegando que a poça d’água era rasa. Mas ele não sabia ainda que o carro não saía do lugar quando acelerado. Foi quando o motorista da caminhonete se sentou sobre o capô do carro atolado, um pouco à frente do motorista; a estratégia foi um sucesso. 

PROMESSA

Tua partida 
virou poesia. 
Não tens ideia 
do que farei 
com tua chegada... 

APONTAMENTO 236

Escrever é um jeito de fingir o não esquecimento, a não destruição. Sem dramalhão barato, penso mesmo que, a rigor e ao cabo, virá o aniquilamento. Creio que nada sobrará nem do que somos nem do que fizemos. Só que isso não deve ser pretexto para que não edifiquemos. Temos de fazer o melhor que podemos do que nos resta — que é viver. 

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

FOTOPOEMA 368

BANDA INDÚSTRIA BRAZILEIRA LANÇA CD


O texto foi abaixo foi lido por mim, no sábado (24/01/2015), no Teatro Municipal Leão de Formosa, antes do início do show da banda Indústria Brazileira.
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Recentemente, escrevi que Patos de Minas vive, atualmente, o melhor momento musical de sua história. Pode parecer que haja algum exagero em minha afirmação, mas digo isso pelo seguinte: há vários artistas produzindo — e produzindo material próprio. Esse investimento em trabalhos autorais é o que me leva a afirmar o belo momento musical da cidade.

Todavia, voltemos no tempo: em 1989, surge no cenário local a banda Duas Tribos. Os integrantes eram Arílson (voz), Alencar (violão), Helenilton (baixo), Léo (guitarra) e Willian (bateria). Depois do primeiro show, a banda adota o nome de Indústria Brazileira (com Z). A partir daí, começam a se apresentar em Patos de Minas e também na região. A banda chega a ser atração de um evento que deixou saudade — o Encontrão Cantar na Praça. Em 1990, tocam na extinta FIC Patos.

Também em 1990, o grupo passa por modificações: Alencar, Helenilton e William saem; entram Michael (baixo) e Cleanto (bateria). Contudo, em 1991, a banda se desfaz, tendo ficado inativa até 2007. Nesse ano, retornam praticamente com a formação original, com Michael tocando contrabaixo. A partir daí, voltam a se apresentar em Patos de Minas e também na região. Em Patos, apresentam-se em quatro edições da Fenamilho: 2008, 2009, 2010 e 2011.

Após a Fenamilho de 2011, Arílson, o vocalista, deixa a banda. Sandra, esposa do baixista Michael, é chamada para os vocais, divididos com os demais integrantes. Posteriormente, Arílson assumiria novamente os vocais. Atualmente, a formação é a seguinte: Arílson (vocal), Leo (guitarra, violão), Guilherme (baixo) e Willian (bateria).

Contada essa história, retomo o que eu disse no começo: o belo momento musical que Patos de Minas tem vivido. Na noite de hoje, temos mais uma expressão autoral de artistas que têm ligação com a cidade. Estamos aqui para celebrar o lançamento do CD “Na Primavera”, da banda Indústria Brazileira.

O disco tem doze faixas. As letras visitam também as temáticas romântica e social, sem abrir mão do senso de humor. Em “O recomeço”, a terceira faixa do disco, tem-se uma balada romântica que, curiosamente, mistura desilusão e otimismo. Já em “Pra você”, a quinta faixa, não há travo, mas “apenas” superação.

A temática social ou coletiva fica por conta de “Todo mundo é assim”, a quarta canção do CD, “Processo civil” e “Quase tudo igual” (as duas últimas fecham o disco). O toque de humor é dado por “Blues do camarada”, em que se conta uma história de um personagem cujo nome é Alencar. Sim, o personagem é aquele mesmo que foi um dos integrantes da banda.

Os que estiveram em shows do Indústria Brazileira se lembram de que Legião Urbana era parte essencial do repertório da banda. A influência dos legionários no CD é clara. Nesse sentido, e levando-se sem conta as apresentações do Indústria desde fins da década de 80, a noite de hoje é um reviver. Em contrapartida, é, ao mesmo tempo, o começo de uma história, pois, hoje, aqui estamos também para presenciar um show com canções autorais da banda.

Permitam-me agora uma breve nota pessoal: tive o privilégio de conferir dezenas de show do Indústria Brazileira e de entrevistá-los num programa de rádio. Foi uma honra para mim receber deles o convite para fazer a apresentação do CD “Na primavera” nesta noite. À parte o trabalho que realizaram, sou amigo dos que fizeram parte das duas primeiras formações do grupo. Não bastasse isso, sei bem o quanto me diverti, seja às margens da Lagoa Grande (na época havia bares com música ao vivo por lá), seja em algum outro lugar, ao som do Indústria Brazileira. Digo, sem exagero, que fui feliz ao som da banda.

Creio que todos nós estamos aqui hoje para uma celebração, para um tributo ao passado, para um brinde ao futuro e para a curtição do presente. A noite é de festa, é de dar os parabéns para a banda por ter se aventurado em um trabalho autoral. Que tenhamos uma noite... industriosa. Muito, muito obrigado ao Indústria Brazileira por ter me concedido o privilégio de estar aqui. Uma bela noite para todos. 

A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (81)

Quando me dei conta de que o bando de maritacas estava pousando nesta árvore, é claro que logo pensei em fotografá-las. Ao mesmo tempo, de imediato tive noção de que a tarefa não seria fácil: a copa é fechada e as maritacas são praticamente da mesma cor das folhagens. Por outro lado, isso não poderia ser pretexto para que eu não tentasse fazer algum registro.

A princípio, nem era possível enxergá-las. Mudei então de lugar. De vez em quando, de relance, era possível ver alguma delas se movendo de um galho para outro. Mas a algazarra delas era veloz. No instante em que uma estava num galho, não mais estava lá quando eu conseguia acertar o foco.

As tentativas prosseguiam. Outras maritacas iam chegando, mas não se podia enxergar onde exatamente estavam pousando. Foi quando achei a que está nesta foto. Consegui quatro cliques. Depois deles, ela e as demais embarcaram outra vez.