Não havia muito o que Adão pudesse fazer: Eva era dendrólatra.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
(DES)APONTAMENTO 19
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DA BUROCRACIA
A burocracia emperra nossa criatividade, impedindo-nos de sermos aquilo que em essência somos — seres criativos. A burocracia enterra o que temos de melhor, conferindo ao féretro papéis, carimbos, assinaturas, insígnias e pompa afetada. O mundo da burocracia é feito de uma densidade falsa.
A burocracia parece séria; é o refúgio daquilo que é só aparência, daquilo que maquia a mais absoluta falta de conteúdo, de necessidade e de humor. O mundo burocrático é cheio de tentáculos que não podem ser driblados. De nada adianta tentar fugir: eles nos acham; achando-nos, sufocam-nos. Com maldade. Com tempo. Com paciência.
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Burocracia
DESTINO: CASA
Há quem se sinta mais compelido ainda a visitar determinado lugar depois de conferi-lo pelo Google Maps. É uma ferramenta que não uso. Contudo, recentemente, baixei o Google Sky Map. E agora?!... Como não querer visitar Aldebarã, Betelgeuse ou Achernar?!...
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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
PELOS CAMINHOS DO CERRADO
Hoje à tarde, eu e o amigo Aldo saímos para fotografar. Fomos lá pelas bandas da famosa Ponte do Bigode. Depois de passarmos por um velho cemitério, continuamos seguindo pela estrada. Foi quando nos deparamos com águas paradas no meio do caminho.
Enquanto debatíamos se daria para o carro seguir sem atolar, o Aldo desacelerou. Depois de precisos escrutínios, sagazes esquadrinhamentos e acuradas análises do ambiente, decidimos que o carro passaria sem problema. Tendo ficado atolado, valemo-nos de cascalho e de gravetos sob os pneus da frente na tentativa de desatolar o veículo. Inútil.
Passados uns vinte minutos, surgiu um motorista numa caminhonete. Ele parou. Sugeriu que se tentasse seguir com o carro adiante, em vez de se tentar a ré, alegando que a poça d’água era rasa. Mas ele não sabia ainda que o carro não saía do lugar quando acelerado. Foi quando o motorista da caminhonete se sentou sobre o capô do carro atolado, um pouco à frente do motorista; a estratégia foi um sucesso.
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PROMESSA
Tua partida
virou poesia.
Não tens ideia
do que farei
com tua chegada...
virou poesia.
Não tens ideia
do que farei
com tua chegada...
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APONTAMENTO 236
Escrever é um jeito de fingir o não esquecimento, a não destruição. Sem dramalhão barato, penso mesmo que, a rigor e ao cabo, virá o aniquilamento. Creio que nada sobrará nem do que somos nem do que fizemos. Só que isso não deve ser pretexto para que não edifiquemos. Temos de fazer o melhor que podemos do que nos resta — que é viver.
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terça-feira, 27 de janeiro de 2015
FOTOPOEMA 368
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BANDA INDÚSTRIA BRAZILEIRA LANÇA CD
O texto foi abaixo foi lido por mim, no sábado (24/01/2015), no Teatro Municipal Leão de Formosa, antes do início do show da banda Indústria Brazileira.
_____
Recentemente, escrevi que Patos de Minas vive, atualmente, o melhor momento musical de sua história. Pode parecer que haja algum exagero em minha afirmação, mas digo isso pelo seguinte: há vários artistas produzindo — e produzindo material próprio. Esse investimento em trabalhos autorais é o que me leva a afirmar o belo momento musical da cidade.
Todavia, voltemos no tempo: em 1989, surge no cenário local a banda Duas Tribos. Os integrantes eram Arílson (voz), Alencar (violão), Helenilton (baixo), Léo (guitarra) e Willian (bateria). Depois do primeiro show, a banda adota o nome de Indústria Brazileira (com Z). A partir daí, começam a se apresentar em Patos de Minas e também na região. A banda chega a ser atração de um evento que deixou saudade — o Encontrão Cantar na Praça. Em 1990, tocam na extinta FIC Patos.
Também em 1990, o grupo passa por modificações: Alencar, Helenilton e William saem; entram Michael (baixo) e Cleanto (bateria). Contudo, em 1991, a banda se desfaz, tendo ficado inativa até 2007. Nesse ano, retornam praticamente com a formação original, com Michael tocando contrabaixo. A partir daí, voltam a se apresentar em Patos de Minas e também na região. Em Patos, apresentam-se em quatro edições da Fenamilho: 2008, 2009, 2010 e 2011.
Após a Fenamilho de 2011, Arílson, o vocalista, deixa a banda. Sandra, esposa do baixista Michael, é chamada para os vocais, divididos com os demais integrantes. Posteriormente, Arílson assumiria novamente os vocais. Atualmente, a formação é a seguinte: Arílson (vocal), Leo (guitarra, violão), Guilherme (baixo) e Willian (bateria).
Contada essa história, retomo o que eu disse no começo: o belo momento musical que Patos de Minas tem vivido. Na noite de hoje, temos mais uma expressão autoral de artistas que têm ligação com a cidade. Estamos aqui para celebrar o lançamento do CD “Na Primavera”, da banda Indústria Brazileira.
O disco tem doze faixas. As letras visitam também as temáticas romântica e social, sem abrir mão do senso de humor. Em “O recomeço”, a terceira faixa do disco, tem-se uma balada romântica que, curiosamente, mistura desilusão e otimismo. Já em “Pra você”, a quinta faixa, não há travo, mas “apenas” superação.
A temática social ou coletiva fica por conta de “Todo mundo é assim”, a quarta canção do CD, “Processo civil” e “Quase tudo igual” (as duas últimas fecham o disco). O toque de humor é dado por “Blues do camarada”, em que se conta uma história de um personagem cujo nome é Alencar. Sim, o personagem é aquele mesmo que foi um dos integrantes da banda.
Os que estiveram em shows do Indústria Brazileira se lembram de que Legião Urbana era parte essencial do repertório da banda. A influência dos legionários no CD é clara. Nesse sentido, e levando-se sem conta as apresentações do Indústria desde fins da década de 80, a noite de hoje é um reviver. Em contrapartida, é, ao mesmo tempo, o começo de uma história, pois, hoje, aqui estamos também para presenciar um show com canções autorais da banda.
Permitam-me agora uma breve nota pessoal: tive o privilégio de conferir dezenas de show do Indústria Brazileira e de entrevistá-los num programa de rádio. Foi uma honra para mim receber deles o convite para fazer a apresentação do CD “Na primavera” nesta noite. À parte o trabalho que realizaram, sou amigo dos que fizeram parte das duas primeiras formações do grupo. Não bastasse isso, sei bem o quanto me diverti, seja às margens da Lagoa Grande (na época havia bares com música ao vivo por lá), seja em algum outro lugar, ao som do Indústria Brazileira. Digo, sem exagero, que fui feliz ao som da banda.
Creio que todos nós estamos aqui hoje para uma celebração, para um tributo ao passado, para um brinde ao futuro e para a curtição do presente. A noite é de festa, é de dar os parabéns para a banda por ter se aventurado em um trabalho autoral. Que tenhamos uma noite... industriosa. Muito, muito obrigado ao Indústria Brazileira por ter me concedido o privilégio de estar aqui. Uma bela noite para todos.
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A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (81)
Quando me dei conta de que o bando de maritacas estava pousando nesta árvore, é claro que logo pensei em fotografá-las. Ao mesmo tempo, de imediato tive noção de que a tarefa não seria fácil: a copa é fechada e as maritacas são praticamente da mesma cor das folhagens. Por outro lado, isso não poderia ser pretexto para que eu não tentasse fazer algum registro.
A princípio, nem era possível enxergá-las. Mudei então de lugar. De vez em quando, de relance, era possível ver alguma delas se movendo de um galho para outro. Mas a algazarra delas era veloz. No instante em que uma estava num galho, não mais estava lá quando eu conseguia acertar o foco.
As tentativas prosseguiam. Outras maritacas iam chegando, mas não se podia enxergar onde exatamente estavam pousando. Foi quando achei a que está nesta foto. Consegui quatro cliques. Depois deles, ela e as demais embarcaram outra vez.
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domingo, 25 de janeiro de 2015
sábado, 24 de janeiro de 2015
O GRITO
Como nós, as seriemas são barulhentas. Elas gostam de andar em duplas; são esquivas. Contudo, a desta foto permitiu maior aproximação: conferindo os dados técnicos da foto no Adobe Bridge, constato agora que eu estava a cinco metros e meio da seriema. Se me lembro do momento, fico com a impressão de que eu estava mais próximo ainda.
Mesmo assim, é uma distância que geralmente as seriemas não permitem. Outra coisa diferente: perto desta da foto havia mais três ou quatro delas; todas estavam muito agitadas, como que assustadas ou algo assim. Enquanto fotograva, cheguei a cogitar se havia algum bicho por perto as ameaçando ou se estavam protegendo algum filhote.
_____
Dados técnicos
Câmera: Canon EOS 60D
Lente: Canon EF 100-400mm f/4.5-5.6L IS USM
F/7.1
1/640
ISO 800
Distância focal: 400mm
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quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
ALMA DE ARTISTA
Algumas pessoas têm alma de artista. Com isso, quero dizer que são capazes, antes de tudo, de se sensibilizarem com o belo (o conceito do belo não importa agora). Tais pessoas têm a mente aberta — não hierarquizam artes, não hierarquizam gêneros. Não há arte melhor do que outra, não há gênero melhor do que outro; o erudito não vale mais do que o popular. Pessoas com alma de artista sabem que a beleza pode estar numa letra de rock ou numa escultura do século XIV; sabem que a beleza é farta: pode estar numa folia de reis ou num poema escrito ontem.
Pessoas com alma de artista não necessariamente exercem alguma forma de arte, seja como algo lúdico seja como profissão. Há casos de artistas que não têm alma de artista. Nem todo mundo com alma de artista é um erudito (mas claro que há eruditos com alma de artista). Só que a não erudição ou a falta de estudo sistematizado de uma arte não impedem a pessoa que tem alma de artista do senso do belo. Esse senso faz com que ela pressinta ou aprecie a beleza em manifestações artísticas as mais ecléticas.
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FOTOPOEMA 367
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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
PERMANÊNCIA
Você chegou perto, sussurrou.
Desde então,
fiquei com o arrepio
atrás da orelha.
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terça-feira, 20 de janeiro de 2015
AINDA OS LIVROS
Não tenho muito a dizer, a não ser confessar meu inevitável e universal pertencimento ao gênero humano. Não sou diferente dos que vieram nem diferente dos contemporâneos; os que virão não serão diferentes de mim. A nos ligar, os livros. Isso é mais do que o bastante para que eu leia. Enquanto houver um livro, haverá a felicidade. Ou pelo menos algo que se pareça com ela. Em algum lugar, um livro é aberto: nesse instante, tem início o que pode ser a felicidade.
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AINDA O AMOR
O amor se compraz em olhar para o objeto amado existindo. Existir pode implicar um leve movimento no braço para se pegar um copo ou a publicação de uma revolução científica. Para o amor, não há ação menor do que outra. Para o amor há o objeto amado movendo-se, vivendo, existindo, sendo. Enquanto o outro se move, enquanto o outro é, enquanto o outro vai sendo, o olhar amoroso acompanha cada instante, absorto, abobalhado, encantado. É somente uma pessoa levando a vida como qualquer outra pessoa leva, mas, para o olhar amoroso, cada mínimo gesto ou cada mínimo instante do objeto amado tem poder de mandar embora insignificâncias, poder de elevar e de deixar contente aquele que ama, também por ser capaz de tanto amar. Amam-se os trejeitos, os gestos, os risos, as reações, as inflexões da voz, o gozo, o olhar. Viver é mover-se. O movimento do objeto amado movimenta aquela que ama.
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segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
APONTAMENTO 235
Não penso em uma receita para a vida. Pode ser que tal receita nem exista. Se existe, não há quem a detenha. Suspeito (e apenas suspeito) de que se houver uma receita para uma vida com alguma alegria, um dos ingredientes é exercer o talento que se tem.
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domingo, 18 de janeiro de 2015
O QUE É UM PONTINHO AMARELO?...
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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
... DE POUCOS AMIGOS
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(DES)APONTAMENTO 18
Ele é um palhaço, um verdadeiro cabeça de blague.
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APONTAMENTO 234
Os homens não criam deuses que tenham senso de humor.
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quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
IMAGEM E SEMELHANÇA
Ele zomba do deus alheio.
Ele é morto.
Enquanto isso,
estarão os deuses
rindo ou chorando?
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(DES)APONTAMENTO 17
Tenho um blogue: alfarrábio digital.
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FOTOPOEMA 366
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terça-feira, 13 de janeiro de 2015
VAI UMA SALADA AÍ?
Há alguns meses, comentei por aqui a respeito de saborosa
salada que comi na casa do Alcione, colega de trabalho. Foi numa festa ocorrida
na casa dele, lá em Patrocínio. Na ocasião, devorei todo o rabanete que havia
na salada.
Pois bem: algum tempo depois, numa festa que reuniu a equipe
de trabalho, num sítio nos arredores de Patos de Minas, o Alcione e a esposa
dele, a Irani, surgem na confraternização com uma tigela grande. Passei logo a
imaginar (já cobiçando) o que havia na tigela: era uma salada feita de cenoura,
maçã, gelo e cebola (cortada em grandes fatias).
Cortês, o Alcione disse que tentara achar rabanete para
compor a salada, lembrando-se de minha atuação lá em Patrocínio. Mal provando
do prato que o Alcione e a Irani haviam levado, já soube, naquele momento, que
tornar-me-ia consumidor devotado da salada (o que de fato tem ocorrido).
No prato da foto, usei maçã, cenoura (crua), pepino japonês
(cru), rabanete (cru), cebola (cortada em grandes fatias), sal (a gosto) e gelo
(a gosto). Depois de pronta, mesmo com o gelo, deixo a salada na geladeira por
uns dez minutos. No futuro, apenas a título de variação, penso em substituir a
maçã por pera ou por melão.
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TRÂNSITO
O ciclista fechou o pedestre.
O pedestre xingou.
O motoqueiro fechou o ciclista.
O ciclista xingou.
O carro fechou o motoqueiro.
O motoqueiro xingou.
O caminhão fechou o carro.
O motorista xingou.
A carreta fechou o caminhão.
O motorista xingou.
A carreta articulada fechou a carreta.
O motorista xingou.
A carreta articulada fechou a carreta articulada.
Houve dois silêncios.
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RAPOSAS
Os EUA já protagonizaram genocídios em diversas ocasiões. Há sempre um pretexto, que pode ser, digamos, a paz numa determinada região do planeta. Ou a paz mundial. Não raro se portam com arautos de causas que seriam de interesse global, quando o interesse é sempre o deles. Não é exceção passarem um verniz diplomático na matança.
A Fox News dá voz ao American way of fundamentalism. Jeanine Pirro, âncora da emissora, propõe a solução após o ocorrido na França na semana passada: matar todos os islamistas. Segundo Pirro, funcionaria assim: os EUA bancariam os muçulmanos, fornecendo armas. A partir daí, os próprios muçulmanos dariam cabo do que ela chama de fanáticos do islã.
Em seu discurso, tão recheado dos clichês perigosos que a direita radical americana vê reproduzidos na Fox, Pirro, é claro, não mencionou que não haveria novidade se a solução proposta por ela fosse colocada em prática: os EUA são pródigos em financiar massacres.
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segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
APONTAMENTO 233
A leitura aplaca meus males e robustece meus bens.
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THE NEW PIAUÍ
O Orson Welles disse que "todo mundo é falsário de alguém". A palavra "falsário" foi usada na tradução que li da entrevista; no contexto, não me soou pejorativa. Além do mais, se ele usou a expressão "todo mundo", ele se incluiu.
As coisas também podem ser falsárias de outras. A Piauí é falsária da revista The New Yorker. O sonho da Piauí é ser a revista The New Yorker. A Piauí sonha alto; por isso mesmo, realiza muito.
À NOITE
As pessoas da noite me atraem.
As pessoas à noite me atraem.
Elas são artistas à noite.
Elas são quem são à noite.
Elas são feitas para a noite.
Elas são melhores à noite.
Eu amanheço melhor com elas.
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sexta-feira, 9 de janeiro de 2015
RENATO RUSSO: UM ATOR
Num show do Legião Urbana realizado no Rio de Janeiro no dia sete de julho de 1990, já no fim de “Andrea Doria”, andando pelo palco após ter cantado a letra da canção, Renato Russo simula que está cravando um punhal em seu próprio peito. O gesto coincide com o término da canção.
Valho-me disso a fim de ilustrar o que, antes de tudo, Renato Manfredini Júnior (nome real de Renato Russo) era: um grande ator. Valendo-se desse talento, Russo tinha uma capacidade assustadora de hipnotizar a plateia, de modo que shows do Legião Urbana eram acontecimentos. No dia vinte e nove de agosto de 1992, em Uberlândia, conferi, no UTC, uma das apresentações da banda.
Na segunda canção do espetáculo — “Metal contra as nuvens” —, Russo simula masturbação e, logo após, passa a mão na própria boca. Cantou deitado uma das músicas, executou sua dança — herdeira de Jim Morrison, de Ian Curtis —, fez discursos (era do tipo que falava muito em shows e em entrevistas), esbravejou.
Devido à persona que Renato Russo foi, o Legião Urbana era, sobretudo, teatro. Russo era um personagem criado por Renato Manfredini Júnior. Tal personagem era herdeiro do Romantismo (escola artística do século XIX). Nesse sentido, criou um ícone que seguia a cartilha romântica: o jovem talentoso e atormentado, que sofre e sente demais as agruras do vida; o “outsider” que não se encaixa no mundo tal qual ele é; o rebelde que, com seu talento e com sua tristeza, realiza seu trabalho artístico.
Esse personagem, invenção do Romantismo, seria reaproveitado pela cultura pop do século XX. Os beatniks, Jim Morrison ou Morrissey são ecos do que os românticos criaram. O rock, em especial, valer-se-ia do modo de vida celebrado em versos que seduziam a juventude intelectualizada do século XIX.
Não é novidade para ninguém que o Legião Urbana não deixou um grande legado musical. A contribuição da banda está, para muitos, nas letras; está muito mais numa atitude, numa postura, num posicionamento diante das mazelas do mundo, dos problemas e questionamentos dos jovens. Está numa rebeldia que não foi inventada pela banda, mas que tão bem cai para o espírito do rock.
Quando afirmo que Renato Russo era um personagem, não faço isso em sentido pejorativo nem sugiro que havia fingimento nas crenças que Russo expressava em entrevistas, em palcos ou em canções. É minha intenção ressaltar a verve teatral e lírica que Manfredini tão bem usou enquanto foi o vocalista do Legião Urbana.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
NÃO BASTA
Não basta dar a luz para ser Thomas Edison.
Não basta ser dândi para ser Oscar Wilde.
Não basta morar num castelo para ser Montaigne.
Não basta mostrar a língua para ser Einstein.
Não basta tomar ácido para ser Jim Morrison.
Não basta ser condenado para ser Galileu.
Não basta vir ao Brasil para ser Darwin.
Não basta viajar para ser Melville.
Não basta não viajar para ser Drummond.
Não basta ter pegada para ser Sade.
Não basta ser torto para ser Garrincha.
Não basta gostar de “poodles” para ser Schopenhauer.
Não basta ter bigode para ser Nietzsche.
Não basta ser linda para ser Elizabeth Taylor.
Não basta ser pintor, escultor, desenhista,
projetista nem inventor para ser Da Vinci.
Não basta uma lista para ser um poema.
Não basta ser dândi para ser Oscar Wilde.
Não basta morar num castelo para ser Montaigne.
Não basta mostrar a língua para ser Einstein.
Não basta tomar ácido para ser Jim Morrison.
Não basta ser condenado para ser Galileu.
Não basta vir ao Brasil para ser Darwin.
Não basta viajar para ser Melville.
Não basta não viajar para ser Drummond.
Não basta ter pegada para ser Sade.
Não basta ser torto para ser Garrincha.
Não basta gostar de “poodles” para ser Schopenhauer.
Não basta ter bigode para ser Nietzsche.
Não basta ser linda para ser Elizabeth Taylor.
Não basta ser pintor, escultor, desenhista,
projetista nem inventor para ser Da Vinci.
Não basta uma lista para ser um poema.
Não basta uma lista para ser um poema.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
QUE CANÇÃO É ESTA?
Alguém aí sabe o nome da canção incidental que o Renato Russo canta a partir dos cinco minutos e quarenta segundos?... A mesma canção, não estando eu enganado, vai até aos seis minutos e trinta e dois segundos...
À parte isso, há citações de Madonna, Prince, Janis Joplin, Led Zeppelin. Este show, que ocorreu no Rio de Janeiro, acabou sendo um tributo ao Cazuza, que morreu na data de realização do espetáculo, no dia sete de julho de 1990.
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APONTAMENTO 232
A bonança é pródiga em revelar sábios.
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SEGREGAÇÃO
Só gente branquinha
na plateia:
público alvo.
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terça-feira, 6 de janeiro de 2015
O CORPO, A MENTE
[Obrigado a Maíra Queiroz Rezende, professora de biologia do IFTM, campus Patos de Minas, pela explicação sobre sinapses e neurotransmissores.]
O Orson Welles disse certa vez que assistir à TV é mais fácil do que ler um livro. É mesmo. De modo correlato, assistir à TV é mais fácil do que praticar uma atividade física. Embora, é óbvio, haja diferenças entre a atividade física e a intelectual, há simetrias possíveis entre as duas.
Nenhuma delas é fácil, independentemente da preferência por uma ou por outra. Num plano superficial, e seguindo o comentário do Welles, basta dizer que é mais fácil não ler nada nem praticar atividade física nenhuma. Mas aí há um paradoxo curioso: é mais fácil, mas é prejudicial. Dizendo de outro modo, focando-se o outro lado da moeda: o que faz bem demanda esforço.
Salvo exceções, seja de pessoas com capacidade cerebral privilegiada, seja de pessoas com habilidades corporais excepcionais, a maioria de nós tem mais ou menos corpos similares e inteligências médias. Com relação ao corpo, excetuando-se alguma doença devastadora, podemos melhorar a condição física que temos por intermédio do hábito. O mesmo vale para a inteligência.
A atividade física e a intelectual, para que resultem em plenitude, dependem do hábito. Isso, assim me parece, é mais literalmente visível na atividade física; já na atividade intelectual, não raro, há a visão romântica e equivocada do gênio iluminado que recebe dos deuses graças inspiradas.
Ainda que a pessoa tenha um corpo saudável sem atividades físicas e ainda que tenha inteligência o bastante sem atividade intelectual, grandes conquistas, tanto corporais quanto cerebrais, não vêm sem hábito, sem alguma disciplina, sem algum esforço. Diante do brilho de um corpo ou de uma inteligência, é preciso levar em conta as horas e horas de dedicação que foram necessárias para se chegar àquela excelência, seja ela física, seja intelectual.
É comum dizer que o corpo enferruja. O cérebro também. É necessário exigir do corpo para que ele melhore. O mesmo vale para o cérebro. Músculos se atrofiam; sinapses, idem. Atividades físicas e intelectuais nada garantem, não asseguram proteção contra doenças. Elas são um benefício para o presente. Se o futuro se beneficiar delas, melhor ainda.
Tratei separadamente as atividades físicas e as atividades intelectuais. Não é segredo, contudo, que o cérebro se beneficia das atividades físicas; não me parece desarrazoado dizer que o corpo pode se beneficiar das atividades intelectuais, seja lá como for. Há, de fato, a dualidade mente/corpo? Não sei. À parte isso, sem esforço, não seremos o melhor de nós. “No pain, no gain”, o lema dos fisiculturistas, vale também para os intelectuais.
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segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
AGORA HÁ POUCO
Hoje, tendo chegado do trabalho, saí para fotografar. Deparei-me então com este gavião-carijó (Rupornis magnirostris). Nem preciso dizer do quanto valeu a pena ter saído para fotografar.
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SOBRE ALMAS E VIAGENS
Em meados da década de 90, enquanto eu assistia à CNN, noticiaram a queda de um avião. O porta-voz, de cujo nome não me lembro, funcionário de uma companhia aérea, ao anunciar o número de mortos, disse : “Havia 215 almas naquele avião” (o dado que usei é ilustrativo; não me lembro do número real de mortos).
Há instantes, conferindo no UOL as fotos tiradas do espaço pelo astronauta canadense Chris Hadfield, ele escreveu como legenda para uma foto de Teresina vista do espaço: “Morada tropical para um milhão de nós no Rio Parnaíba”, postou o astronauta no Twitter. Em legenda de foto tirada sobre Recife, ele edificou construção similar: (...) “Cerca de 4 milhões de nós moram aqui” (...).
Tanto a construção do porta-voz da companhia aérea quanto as do astronauta são, sobretudo, poéticas. O porta-voz poderia ter dito algo como “215 pessoas morreram na queda do avião”. Contudo, o uso da palavra “almas” dá um tom grandioso ao enunciado, mesmo considerando-se que o que se conta é uma tragédia. Nem sei se existe alma; ainda assim, jamais me esqueci do anúncio do porta-voz.
Hadfield, ao escrever “morada tropical para um milhão de nós” ou “4 milhões de nós moram aqui”, veicula uma obviedade (quase nunca praticada) que é também bonita: somos uma só humanidade, não importa onde estejamos. O astronauta, por assim dizer, coloca-se no nível de nós, que estamos aqui embaixo; ou nos eleva para o nível dele...
Além do mais, observando a Terra do espaço, ele tem acesso a uma porção de... terra e mar que é inacessível para nós. Sugerir uma só humanidade, estilisticamente, está em sintonia com quem tem o privilégio de olhar para a casa que habita de um ponto de vista inatingível para a maioria: o olhar dele abarca mais do que teremos oportunidade de contemplar.
Fotografando a Terra ou fotografando uma lagarta, somos um só. As frases de Hadfield transmitem um senso de unidade e de pertencimento que é poético, que não é excludente, que propõe o gênero humano como sendo uno. Algo muito whitmaniano e, não só por isso, poético.
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FOTOPOEMA 365
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BREVE RELATO DE UMA TRAJETÓRIA
Tudo começou por causa de uma profunda admiração pela inteligência. Isso, muito antes de eu me tornar um leitor. Tanto que o primeiro fascínio foi pelos professores (isso se mantém). Daí, estender essa fascinação para outras inteligências que não somente as dos professores foi um passo um tanto natural.
O desejo era o de destrinchar os mecanismos da inteligência do outro, que podia ser um professor, um amigo, um filósofo que li, um cientista ou um músico. Decifrar os meandros da inteligência a fim de tentar aprender a ser inteligente. A veneração pela inteligência é o que acabou causando uma vontade firme de querer ser inteligente.
O Borges escreveu que “ninguém escreve o que quer, mas o que consegue”. De modo análogo, por mais inteligente que se queira ser, há limites que não podem ser transpostos por absoluta falta de talento. Se dependesse de eu fazer uma escultura ou pintar um quadro, por exemplo, eu não saberia como começar. Após flertes com alguns ramos do conhecimento, acabei tomando o caminho das letras. Não por um talento abissal na área, mas por falta de talento em outros campos.
O resto é leitura, é escrita. Aferrei-me às palavras. Passei-me a dedicar à riqueza do português. Trata-se de meu idioma, e me sinto quase que na obrigação de esmiuçá-lo. Além do mais, é uma língua que acho bonita, cheia de possibilidades, seja para a fala, seja para a escrita. A palavra passou a ser a meta. A palavra exata ao escrever. A palavra exata, pronunciada com exatidão, ao falar.
Há muito de sonho nessa história, muito de busca, muito de ideal. Em meu caso, a concretização está sempre longe do que se tinha em mente. Por outro lado, sem esmorecimento, é preciso não exigir tanto de si. Há que se ter resignação, aceitando com rebelde tranquilidade o que se é capaz de produzir.
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Jorge Luis Borges
domingo, 4 de janeiro de 2015
(DES)APONTAMENTO 16
Promoções em lojas: quando os lucros deixam de ser muito exorbitantes e se tornam apenas exorbitantes.
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sábado, 3 de janeiro de 2015
A PAIXÃO EM SEU COMEÇO
É muito instigante observar a paixão quando ela começa. Não me refiro ao impacto que a beleza de alguém pode causar em nós. Esse impacto pode vir a ser paixão, mas paixão ainda não é. Nela, há um clique inicial, que nem precisa ser forte. Algo nos capta a atenção; pode ser a aparência da pessoa, pode ser um talento que ela tem, pode ser a voz, pode ser o modo como ela se comporta... Pode ser isso tudo.
A paixão tem íntima conexão com a imaginação. A princípio, a gente se apaixona muito mais pela ideia que fazemos da pessoa do que pela pessoa em si. Essa fase revela mais o que somos e menos o que o outro é. Caso se tenha a chance de relacionamento com a pessoa que passou a mexer com nossa imaginação, passamos a ter referências mais reais para o mosaico que vamos construindo à medida que estamos apaixonados.
A partir das peças desse mosaico, vamos tentando compor uma imagem mais concreta da pessoa pela qual estamos apaixonados. Depois do clique inicial, passamos a reparar nela. De ouvidos aguçados e com olhares concentrados, o outro toma conta da atenção. Quando ele não está por perto, o pensamento revive os encontros havidos.
A partir das peças desse mosaico, vamos tentando compor uma imagem mais concreta da pessoa pela qual estamos apaixonados. Depois do clique inicial, passamos a reparar nela. De ouvidos aguçados e com olhares concentrados, o outro toma conta da atenção. Quando ele não está por perto, o pensamento revive os encontros havidos.
Não demora muito para que passemos a ver a pessoa como um todo. Não um todo com o qual já estamos familiarizados, mas um todo que deixamos de fatiar. Quer-se a pessoa pelos talentos que ela tem? Também por eles. Pela beleza que ela tem? Também por ela. Pelo espirituoso senso de humor? Também por ele.
Mas há sempre algo que nos escapa, que nos parece indefinível, intocável, inefável. Nem as partes nem o todo conseguem dar a exatidão dos motivos pelos quais nos apaixonamos por alguém. É por causa de algo que está em nós e por causa de algo que está na outra pessoa. É por causa de coisas visíveis, palpáveis, mas há motivos ou coisas aos quais não conseguimos ter acesso. Paira sempre uma imprecisão.
Apaixona-se pela beleza, mas a pessoa não precisa ser a mais bela do planeta (ela passa a ser a mais bela no nosso planeta). Apaixona-se pelo talento, mas a pessoa não precisa ser um gênio. Apaixona-se pelo senso de humor, mas um terceiro poderia achar esse senso de humor... sem graça.
Dizemos com frequência que nos apaixonamos pelo jeito da pessoa. Isso que a gente chama de jeito da pessoa compreende tudo o que ela é para nós. Se após o clique inicial, que pode ocorrer depois de termos visto alguém pela primeira vez, somos correspondidos ou temos a chance de demonstrar nossa paixão inicial, pode ser que haja amor à vista. Mas isso é outra história.
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ALMOÇO EM FAMÍLIA
Hoje, num calor de derreter pensamentos, uma família estava almoçando num restaurante: dois garotos loiros de olhos azuis, a mãe e o pai deles e uma senhora que me pareceu ser avó dos meninos (dava sinais de ser mãe da mãe deles). A diferença de idade entre as crianças era pequena. No máximo, de dois anos, embora eu presuma que um deles deve ter uns três anos; o outro, uns quatro.
Dos três adultos, a avó e a mãe almoçavam com civilizada voracidade. O pai estava mais envolvido com um celular; de vez em quando, ordenava ao garoto que estava à esquerda dele que se alimentasse. As duas crianças estavam mais envolvidas com “tablets” (cada uma delas portava um).
O garoto à esquerda do pai estava de costas para mim; eu podia enxergar a tela do “tablet” dele, depositado sobre a mesa, ao lado do prato de comida, com a ajuda de dispositivo que mantinha o equipamento em pé; as mãos do menino podiam, desse modo, ficar livres. Mesmo assim, ele se entretinha mais tocando a tela do que tentando manejar talheres. O outro menino, do outro lado da mesa, dividia, de modo mais ou menos igual, a atenção entre a comida e o “tablet”.
O pai, de tempos em tempos, admoestava o filho dele que estava de costas para mim. Eram ordens chochas, sem eficácia. O celular demandava mais a atenção do pai, também de olhos azuis. A mãe, morena e de cabelos castanhos claros, é quem parecia agir de modo mais afiado: “Se você não comer, vou desligar esse ‘tablet’ agora”. O garoto olhava para ela, pegava uns fios de macarrão e voltava a namorar a tela.
Assim o almoço deles prosseguia. Minutos depois, o pai se levantou e pediu à família que olhasse para ele, que estava pronto para, via celular, tirar uma foto dos comensais. A avó e a mãe logo se prontificaram. Os meninos, mergulhados nos dispositivos eletrônicos, pareciam nem ter percebido que o pai deixara a mesa. Ter a atenção do que estava ao lado da mãe foi mais fácil do que receber o olhar do outro filho.
O pai tentou uma vez: “Tiago, olha pra cá”. Tive a impressão de que a voz dele denunciava algum sotaque, mas isso poderia ser apenas impressão minha. A mãe e a avó instavam com o garoto para que olhasse na direção do celular. Como os pedidos eram infrutíferos, o pai, num tom de voz entre o solene e o grave, mandou com firmeza: “Tiago, look here now”.
Dessa vez, sem sotaque. O garoto olhou, o pai tirou a foto e voltou a se sentar. Antes de voltar a comer, mostrou a toda a família o registro que havia feito. Sorrisos de satisfação e cabeças fazendo sinal de positivo, exceto do garoto que estava à esquerda do pai; o menino olhou para a tela do celular, não sorriu e, incontinente, voltou a se concentrar no “tablet”.
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sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
A CLUBEM FM ME ATRAPALHA DORMIR
Sempre fui de estar acordado nas madrugadas. A vontade mesmo é a de trocar o dia pela noite. Numa vida ideal, deitar-me-ia lá pelas 6h ou 7h e dormiria até às 14h ou algo parecido. Não posso levar uma vida assim. Todavia, quando não tenho de acordar cedo, fico acordado até o amanhecer.
Há alguns meses, mesmo tendo de me levantar às 7h, eu ainda estava acordado às 2h. O rádio estava ligado. Eu já estava preocupado, sabendo que estaria um bagaço pela manhã, no momento de sair da cama. Minha recusa em dormir existia porque o rádio não parava de tocar músicas legais.
Foi então que me ocorreu escrever um texto sobre a Clube FM de Patos de Minas, a estação que geralmente escuto nas madrugadas. A rádio se dedica a executar pop/rock. Há horários dedicados ao que o mundo do entretenimento tem produzido atualmente; é o caso, por exemplo, das dez mais pedidas do dia ou do Freeway. Mas é louvável o tratamento que a emissora dá ao passado.
As madrugadas da Clube executam pérolas do pop/rock. A programação é de excelência. Chega a ser um alento, em meio a rádios tão comerciais e movidas a jabá, escutar uma emissora que não desconsidera o bonito e rico legado da música comercial. É incrível: a rádio “simplesmente” não toca música ruim de madrugada.
Poder-se-ia alegar que esse horário é pouco interessante, no sentido comercial, para as rádios. Por um lado, é verdade, mas, no caso da Clube FM, mesmo durante o dia, podemos escutar canções que quase nunca são escutadas por rádios privadas. (Enquanto digito, são 16h29 de hoje, dois de janeiro de 2015: estão executando Creedence Clearwater Revival! Agora estão tocando Counting Crows!)
Suspeito de que um dos responsáveis por essa programação de excelência, em especial durante a madrugada, seja o Adriano Sousa, locutor e redator da emissora. Fui colega de trabalho do Adriano na Clube. Quando se tem contato com ele, fácil perceber a familiaridade que ele tem com a cultura pop, não importa se filmes, quadrinhos, “video games” ou pop/rock. Naturalmente, para uma rádio com o perfil da Clube, ele tem muito a contribuir para a envolvente programação musical da emissora.
(DES)APONTAMENTO 15
Simpatia para trazer a pessoa amada: simpatia.
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JACULATÓRIA
De joelhos, recebe do senhor o néctar que cura.
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quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
APONTAMENTO 231
Um grande livro sempre tem grandes implicações: um grande livro nos torna melhores.
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DE COR
Tenho dores e cores.
Eu sei de cor.
Eu sei de dor.
Pego dores e cores
e encho de palavras
a pesada madrugada.
Pela manhã, haverá luz.
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JUS
A palavra exata
faz jus.
A palavra exata
faz luz.
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APONTAMENTO 230
Quando a cabeça não é gaiola, o pensamento voa.
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POR AMOR
Claro que, quando se ama, a vontade é a de e-xi-gir do outro que ele também ame. Afinal, como alguém pode não amar um amor tão intenso que é ofertado de modo tão espontâneo e forte? Mas não temos o direito de exigir que a outra pessoa nos ame, por mais que o desejo seja de pegá-la pelo pescoço e fazer com que ela receba o amor que é só dela.
É como se a gente dissesse para a pessoa: “Olha, você nem imagina o quanto sou capaz de fazer você feliz, o quanto quero fazer você feliz”. Se a outra pessoa for madura, ela sabe disso, mas pode não querer receber o amor que a ela é ofertado, seja por que razão for.
“João amava Teresa”. Mas Teresa amava Raimundo... Num certo dia, um João pode amar uma Teresa, e por ela ser amado. Se um amor que não começa já é algo complicado de manejar, um amor que se inicia requer arte para a qual nem todos estão prontos. O amor pode não ter limites; os amantes têm.
Nem sempre o amor é. Em muitas vezes, poderia ter sido; noutras tantas, foi e deixou de ser. Muitos há que só descobrem do que são capazes depois que passam a amar. Amar não é fácil. É difícil saber dar amor; é difícil saber receber amor. Amor chega, amor vai embora. Ou não.
No silêncio noturno e solitário dentro de um ônibus que rasga a madrugada ou sobre cama ruidosa e suada, é o amor que age, que vai fazendo com que vivamos, dos gestos mais simples aos mais retumbantes, por ele. Tudo é por amor. Contudo, posso estar enganado. Talvez nem tudo seja por amor. Mas deveria.
É como se a gente dissesse para a pessoa: “Olha, você nem imagina o quanto sou capaz de fazer você feliz, o quanto quero fazer você feliz”. Se a outra pessoa for madura, ela sabe disso, mas pode não querer receber o amor que a ela é ofertado, seja por que razão for.
“João amava Teresa”. Mas Teresa amava Raimundo... Num certo dia, um João pode amar uma Teresa, e por ela ser amado. Se um amor que não começa já é algo complicado de manejar, um amor que se inicia requer arte para a qual nem todos estão prontos. O amor pode não ter limites; os amantes têm.
Nem sempre o amor é. Em muitas vezes, poderia ter sido; noutras tantas, foi e deixou de ser. Muitos há que só descobrem do que são capazes depois que passam a amar. Amar não é fácil. É difícil saber dar amor; é difícil saber receber amor. Amor chega, amor vai embora. Ou não.
No silêncio noturno e solitário dentro de um ônibus que rasga a madrugada ou sobre cama ruidosa e suada, é o amor que age, que vai fazendo com que vivamos, dos gestos mais simples aos mais retumbantes, por ele. Tudo é por amor. Contudo, posso estar enganado. Talvez nem tudo seja por amor. Mas deveria.
31/12/2014
Bruno Fontoura, compositor patense, canta: “Faça tudo cedo / Deixe todo enredo ficar pra trás”. Amanhece o dia. Nova trama. Novo enredo. Essas letras vão desembocar lá em 2015.
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Bruno Fontoura
SIM, NÓS TEMOS HOLOCAUSTO
Uma mulher é internada num hospício depois de ter sido estuprada pelo patrão. Uma outra pessoa é internada por ser tímida. Outra, por ter perdido a carteira... Setenta por cento dos internados não tinham diagnóstico de doença mental.
São histórias que estão em “Holocauto brasileiro” (publicado pela Geração Editorial), de Daniela Arbex. Ela escreveu um livro tão importante, que ele deve ser lido não somente por aqueles que se interessam pelo que se considera a loucura. “Holocausto brasileiro” deve ser lido por quem se interessa por gente. Se não é esse seu caso, insisto: o livro deve ser lido por quem é gente.
Há um dado na capa do livro: “Genocídio: 60 mil mortos no maior hospício do Brasil”. O número se refere aos mortos em Barbacena/MG, no hospício conhecido como Colônia. No auge do extermínio, o lugar chegou a ter dezesseis mortes por dia.
O texto de Daniela Arbex, bem como as fotos de Luiz Alfredo, publicadas originalmente na revista O Cruzeiro, contam uma história sinistra que perpassou boa parte do século XX. Com sensatez e inteligência, Arbex não se rende ao sensacionalismo: em meio a relatos de vidas dilaceradas no hospício, não deixa de trazer à tona a capacidade que o ser humano tem de ser magnânimo — há histórias grandiosas no livro da jornalista.
O genocídio sistematizado em Barbacena revela conivência de médicos, de funcionários da instituição e da população. Ao mesmo tempo, conta-se a atuação de alguns médicos, de alguns funcionários e de quem não gravitava na Colônia para que os pacientes de lá não precisassem nem comer ratos nem beber urina. Algumas mães, a fim de protegerem a gestação, passavam fezes no corpo, para não serem molestadas.
Arguta, Arbex adverte: “Ontem foram os judeus e os loucos, hoje os indesejáveis são os pobres, os negros, os dependentes químicos”. “Holocausto brasileiro” evidencia o que o ser humano é capaz de fazer quando, movido por ódio ou ignorância, sente-se apto a realizar uma limpeza social, decidindo, arbitrariamente, quem pode e quem não pode estar em sociedade. “Holocausto brasileiro” é um livro fundamental. Leia.
terça-feira, 30 de dezembro de 2014
FOTOPOEMA 364
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SINTONIA FINA — EDIÇÃO 30
No ar, mais uma edição do Sintonia Fina, programa musical apresentado por mim. Para escutar, é só dar “play”.
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Snow Patrol — Run
Cynthia Martins — Amanhecer
Moby — The perfect life (ao vivo)
Marisa Monte — Não vá embora
Awolnation — Sail
Tiê — Sweet jardim
Exile — Kiss you all over
Paulinho Pedra Azul — Recado para um amigo solitário
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segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
AMANTE
A outra era
a cereja do rolo.
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FOTOPOEMA 363
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NÓ GÓRDIO
Desfaçamos
os nós.
De mim
e de você,
façamos
nós.
No
desenlace,
enlace.
Afinal,
a gente
se amarra.
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DESFECHO
Há quarenta e três dias estou tentando achar um desfecho meu para dois trechos que reuni da Emily Dickinson. Não obtive êxito; esta publicação fica, pois, sem desenlace. Ou as palavras da escritora americana ficam sendo o desfecho.
Num de seus versos, Dickinson escreveu, segundo tradução de José Lira: “Achei palavras para cada ideia”. Num outro verso dela, de outro poema (ainda de acordo com a tradução de Lira), a autora escreveu que “nem todo dia a ideia acha palavras”.
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sábado, 27 de dezembro de 2014
GRUPO CARAMBOLA REALIZA SHOW
Ontem, em mais uma realização da Improviso Produções, ocorreu, no Espaço Tio Patinhas, em Patos de Minas, o show que celebrou os trinta anos do grupo Carambola, banda de Patos de Minas. Além do show deles, houve, a seguir, música ao vivo com Moisés Carvalho e pista de dança animada pelo DJ Tybabas.
O Carambola é formado por Ângelo Costa, Maurício Castro, Vilmar Carvalho e Marcão Vieira. No show de ontem, foram acompanhados por Dell Luiz (baixo), Adriano Alves (guitarra), Alexandre Bomfim (bateria), Márcia Soares (vocal de apoio) e Bruna Alves (vocal de apoio). Além de canções próprias, a banda executou clássicos da MPB (a versão que fizeram para “Rapte-me, camaleoa”, do Caetano, ficou um barato).
Unindo gerações da música local, a banda O Berço, que recentemente lançou CD com músicas próprias, fez participação especial no show do Carambola. Já escrevi que a cidade vive um belo momento musical; foi bonito presenciar duas gerações de artistas locais se apresentando num mesmo palco.
A plateia, composta essencialmente por pessoas acima dos trinta e cinco, relembrou os tempos do Encontrão Cantar na Praça e do Teatro Telhado, como bem lembrou o Carambola durante o espetáculo. Terminado o show do grupo, houve quem tenha conferido a apresentação do Moisés Carvalho, que é filho do Valdir Carvalho, também músico local, e houve quem se esbaldou na pista de dança, ao som de clássicos do pop/rock.
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