terça-feira, 20 de janeiro de 2015

AINDA OS LIVROS

Não tenho muito a dizer, a não ser confessar meu inevitável e universal pertencimento ao gênero humano. Não sou diferente dos que vieram nem diferente dos contemporâneos; os que virão não serão diferentes de mim. A nos ligar, os livros. Isso é mais do que o bastante para que eu leia. Enquanto houver um livro, haverá a felicidade. Ou pelo menos algo que se pareça com ela. Em algum lugar, um livro é aberto: nesse instante, tem início o que pode ser a felicidade. 

AINDA O AMOR

O amor se compraz em olhar para o objeto amado existindo. Existir pode implicar um leve movimento no braço para se pegar um copo ou a publicação de uma revolução científica. Para o amor, não há ação menor do que outra. Para o amor há o objeto amado movendo-se, vivendo, existindo, sendo. Enquanto o outro se move, enquanto o outro é, enquanto o outro vai sendo, o olhar amoroso acompanha cada instante, absorto, abobalhado, encantado. É somente uma pessoa levando a vida como qualquer outra pessoa leva, mas, para o olhar amoroso, cada mínimo gesto ou cada mínimo instante do objeto amado tem poder de mandar embora insignificâncias, poder de elevar e de deixar contente aquele que ama, também por ser capaz de tanto amar. Amam-se os trejeitos, os gestos, os risos, as reações, as inflexões da voz, o gozo, o olhar. Viver é mover-se. O movimento do objeto amado movimenta aquela que ama. 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

APONTAMENTO 235

Não penso em uma receita para a vida. Pode ser que tal receita nem exista. Se existe, não há quem a detenha. Suspeito (e apenas suspeito) de que se houver uma receita para uma vida com alguma alegria, um dos ingredientes é exercer o talento que se tem. 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

VAI UMA SALADA AÍ?

Há alguns meses, comentei por aqui a respeito de saborosa salada que comi na casa do Alcione, colega de trabalho. Foi numa festa ocorrida na casa dele, lá em Patrocínio. Na ocasião, devorei todo o rabanete que havia na salada.

Pois bem: algum tempo depois, numa festa que reuniu a equipe de trabalho, num sítio nos arredores de Patos de Minas, o Alcione e a esposa dele, a Irani, surgem na confraternização com uma tigela grande. Passei logo a imaginar (já cobiçando) o que havia na tigela: era uma salada feita de cenoura, maçã, gelo e cebola (cortada em grandes fatias).

Cortês, o Alcione disse que tentara achar rabanete para compor a salada, lembrando-se de minha atuação lá em Patrocínio. Mal provando do prato que o Alcione e a Irani haviam levado, já soube, naquele momento, que tornar-me-ia consumidor devotado da salada (o que de fato tem ocorrido).

No prato da foto, usei maçã, cenoura (crua), pepino japonês (cru), rabanete (cru), cebola (cortada em grandes fatias), sal (a gosto) e gelo (a gosto). Depois de pronta, mesmo com o gelo, deixo a salada na geladeira por uns dez minutos. No futuro, apenas a título de variação, penso em substituir a maçã por pera ou por melão. 

TRÂNSITO

O ciclista fechou o pedestre.
O pedestre xingou.

O motoqueiro fechou o ciclista.
O ciclista xingou.

O carro fechou o motoqueiro.
O motoqueiro xingou.

O caminhão fechou o carro.
O motorista xingou.

A carreta fechou o caminhão.
O motorista xingou.

A carreta articulada fechou a carreta.
O motorista xingou.

A carreta articulada fechou a carreta articulada.
Houve dois silêncios. 

RAPOSAS

Os EUA já protagonizaram genocídios em diversas ocasiões. Há sempre um pretexto, que pode ser, digamos, a paz numa determinada região do planeta. Ou a paz mundial. Não raro se portam com arautos de causas que seriam de interesse global, quando o interesse é sempre o deles. Não é exceção passarem um verniz diplomático na matança.

A Fox News dá voz ao American way of fundamentalism. Jeanine Pirro, âncora da emissora, propõe a solução após o ocorrido na França na semana passada: matar todos os islamistas. Segundo Pirro, funcionaria assim: os EUA bancariam os muçulmanos, fornecendo armas. A partir daí, os próprios muçulmanos dariam cabo do que ela chama de fanáticos do islã.

Em seu discurso, tão recheado dos clichês perigosos que a direita radical americana vê reproduzidos na Fox, Pirro, é claro, não mencionou que não haveria novidade se a solução proposta por ela fosse colocada em prática: os EUA são pródigos em financiar massacres. 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

APONTAMENTO 233

A leitura aplaca meus males e robustece meus bens.

THE NEW PIAUÍ

O Orson Welles disse que "todo mundo é falsário de alguém". A palavra "falsário" foi usada na tradução que li da entrevista; no contexto, não me soou pejorativa. Além do mais, se ele usou a expressão "todo mundo", ele se incluiu.

As coisas também podem ser falsárias de outras. A Piauí é falsária da revista The New Yorker. O sonho da Piauí é ser a revista The New Yorker. A Piauí sonha alto; por isso mesmo, realiza muito. 

À NOITE

As pessoas da noite me atraem. 
As pessoas à noite me atraem. 
Elas são artistas à noite.
Elas são quem são à noite.
Elas são feitas para a noite.
Elas são melhores à noite. 
Eu amanheço melhor com elas. 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

RENATO RUSSO: UM ATOR

Num show do Legião Urbana realizado no Rio de Janeiro no dia sete de julho de 1990, já no fim de “Andrea Doria”, andando pelo palco após ter cantado a letra da canção, Renato Russo simula que está cravando um punhal em seu próprio peito. O gesto coincide com o término da canção.

Valho-me disso a fim de ilustrar o que, antes de tudo, Renato Manfredini Júnior (nome real de Renato Russo) era: um grande ator. Valendo-se desse talento, Russo tinha uma capacidade assustadora de hipnotizar a plateia, de modo que shows do Legião Urbana eram acontecimentos. No dia vinte e nove de agosto de 1992, em Uberlândia, conferi, no UTC, uma das apresentações da banda.

Na segunda canção do espetáculo — “Metal contra as nuvens” —, Russo simula masturbação e, logo após, passa a mão na própria boca. Cantou deitado uma das músicas, executou sua dança — herdeira de Jim Morrison, de Ian Curtis —, fez discursos (era do tipo que falava muito em shows e em entrevistas), esbravejou.

Devido à persona que Renato Russo foi, o Legião Urbana era, sobretudo, teatro. Russo era um personagem criado por Renato Manfredini Júnior. Tal personagem era herdeiro do Romantismo (escola artística do século XIX). Nesse sentido, criou um ícone que seguia a cartilha romântica: o jovem talentoso e atormentado, que sofre e sente demais as agruras do vida; o “outsider” que não se encaixa no mundo tal qual ele é; o rebelde que, com seu talento e com sua tristeza, realiza seu trabalho artístico.

Esse personagem, invenção do Romantismo, seria reaproveitado pela cultura pop do século XX. Os beatniks, Jim Morrison ou Morrissey são ecos do que os românticos criaram. O rock, em especial, valer-se-ia do modo de vida celebrado em versos que seduziam a juventude intelectualizada do século XIX.

Não é novidade para ninguém que o Legião Urbana não deixou um grande legado musical. A contribuição da banda está, para muitos, nas letras; está muito mais numa atitude, numa postura, num posicionamento diante das mazelas do mundo, dos problemas e questionamentos dos jovens. Está numa rebeldia que não foi inventada pela banda, mas que tão bem cai para o espírito do rock.

Quando afirmo que Renato Russo era um personagem, não faço isso em sentido pejorativo nem sugiro que havia fingimento nas crenças que Russo expressava em entrevistas, em palcos ou em canções. É minha intenção ressaltar a verve teatral e lírica que Manfredini tão bem usou enquanto foi o vocalista do Legião Urbana. 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

NÃO BASTA

Não basta dar a luz para ser Thomas Edison.
Não basta ser dândi para ser Oscar Wilde.
Não basta morar num castelo para ser Montaigne.
Não basta mostrar a língua para ser Einstein.
Não basta tomar ácido para ser Jim Morrison.
Não basta ser condenado para ser Galileu.
Não basta vir ao Brasil para ser Darwin.
Não basta viajar para ser Melville.
Não basta não viajar para ser Drummond.
Não basta ter pegada para ser Sade.
Não basta ser torto para ser Garrincha.
Não basta gostar de “poodles” para ser Schopenhauer.
Não basta ter bigode para ser Nietzsche.
Não basta ser linda para ser Elizabeth Taylor.
Não basta ser pintor, escultor, desenhista,
projetista nem inventor para ser Da Vinci.
Não basta uma lista para ser um poema.

Não basta uma lista para ser um poema. 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

QUE CANÇÃO É ESTA?

Alguém aí sabe o nome da canção incidental que o Renato Russo canta a partir dos cinco minutos e quarenta segundos?... A mesma canção, não estando eu enganado, vai até aos seis minutos e trinta e dois segundos...

À parte isso, há citações de Madonna, Prince, Janis Joplin, Led Zeppelin. Este show, que ocorreu no Rio de Janeiro, acabou sendo um tributo ao Cazuza, que morreu na data de realização do espetáculo, no dia sete de julho de 1990.

APONTAMENTO 232

A bonança é pródiga em revelar sábios. 

SEGREGAÇÃO

Só gente branquinha 
na plateia: 
público alvo. 

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O CORPO, A MENTE

[Obrigado a Maíra Queiroz Rezende, professora de biologia do IFTM, campus Patos de Minas, pela explicação sobre sinapses e neurotransmissores.]

O Orson Welles disse certa vez que assistir à TV é mais fácil do que ler um livro. É mesmo. De modo correlato, assistir à TV é mais fácil do que praticar uma atividade física. Embora, é óbvio, haja diferenças entre a atividade física e a intelectual, há simetrias possíveis entre as duas.

Nenhuma delas é fácil, independentemente da preferência por uma ou por outra. Num plano superficial, e seguindo o comentário do Welles, basta dizer que é mais fácil não ler nada nem praticar atividade física nenhuma. Mas aí há um paradoxo curioso: é mais fácil, mas é prejudicial. Dizendo de outro modo, focando-se o outro lado da moeda: o que faz bem demanda esforço.

Salvo exceções, seja de pessoas com capacidade cerebral privilegiada, seja de pessoas com habilidades corporais excepcionais, a maioria de nós tem mais ou menos corpos similares e inteligências médias. Com relação ao corpo, excetuando-se alguma doença devastadora, podemos melhorar a condição física que temos por intermédio do hábito. O mesmo vale para a inteligência.

A atividade física e a intelectual, para que resultem em plenitude, dependem do hábito. Isso, assim me parece, é mais literalmente visível na atividade física; já na atividade intelectual, não raro, há a visão romântica e equivocada do gênio iluminado que recebe dos deuses graças inspiradas.

Ainda que a pessoa tenha um corpo saudável sem atividades físicas e ainda que tenha inteligência o bastante sem atividade intelectual, grandes conquistas, tanto corporais quanto cerebrais, não vêm sem hábito, sem alguma disciplina, sem algum esforço. Diante do brilho de um corpo ou de uma inteligência, é preciso levar em conta as horas e horas de dedicação que foram necessárias para se chegar àquela excelência, seja ela física, seja intelectual.

É comum dizer que o corpo enferruja. O cérebro também. É necessário exigir do corpo para que ele melhore. O mesmo vale para o cérebro. Músculos se atrofiam; sinapses, idem. Atividades físicas e intelectuais nada garantem, não asseguram proteção contra doenças. Elas são um benefício para o presente. Se o futuro se beneficiar delas, melhor ainda.

Tratei separadamente as atividades físicas e as atividades intelectuais. Não é segredo, contudo, que o cérebro se beneficia das atividades físicas; não me parece desarrazoado dizer que o corpo pode se beneficiar das atividades intelectuais, seja lá como for. Há, de fato, a dualidade mente/corpo? Não sei. À parte isso, sem esforço, não seremos o melhor de nós. “No pain, no gain”, o lema dos fisiculturistas, vale também para os intelectuais.

"SOLIDÃO"

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

AGORA HÁ POUCO


Hoje, tendo chegado do trabalho, saí para fotografar. Deparei-me então com este gavião-carijó (Rupornis magnirostris). Nem preciso dizer do quanto valeu a pena ter saído para fotografar. 

SOBRE ALMAS E VIAGENS

Em meados da década de 90, enquanto eu assistia à CNN, noticiaram a queda de um avião. O porta-voz, de cujo nome não me lembro, funcionário de uma companhia aérea, ao anunciar o número de mortos, disse : “Havia 215 almas naquele avião” (o dado que usei é ilustrativo; não me lembro do número real de mortos).

Há instantes, conferindo no UOL as fotos tiradas do espaço pelo astronauta canadense Chris Hadfield, ele escreveu como legenda para uma foto de Teresina vista do espaço: “Morada tropical para um milhão de nós no Rio Parnaíba”, postou o astronauta no Twitter. Em legenda de foto tirada sobre Recife, ele edificou construção similar: (...) “Cerca de 4 milhões de nós moram aqui” (...).

Tanto a construção do porta-voz da companhia aérea quanto as do astronauta são, sobretudo, poéticas. O porta-voz poderia ter dito algo como “215 pessoas morreram na queda do avião”. Contudo, o uso da palavra “almas” dá um tom grandioso ao enunciado, mesmo considerando-se que o que se conta é uma tragédia. Nem sei se existe alma; ainda assim, jamais me esqueci do anúncio do porta-voz.

Hadfield, ao escrever “morada tropical para um milhão de nós” ou “4 milhões de nós moram aqui”, veicula uma obviedade (quase nunca praticada) que é também bonita: somos uma só humanidade, não importa onde estejamos. O astronauta, por assim dizer, coloca-se no nível de nós, que estamos aqui embaixo; ou nos eleva para o nível dele...

Além do mais, observando a Terra do espaço, ele tem acesso a uma porção de... terra e mar que é inacessível para nós. Sugerir uma só humanidade, estilisticamente, está em sintonia com quem tem o privilégio de olhar para a casa que habita de um ponto de vista inatingível para a maioria: o olhar dele abarca mais do que teremos oportunidade de contemplar.

Fotografando a Terra ou fotografando uma lagarta, somos um só. As frases de Hadfield transmitem um senso de unidade e de pertencimento que é poético, que não é excludente, que propõe o gênero humano como sendo uno. Algo muito whitmaniano e, não só por isso, poético. 

FOTOPOEMA 365

BREVE RELATO DE UMA TRAJETÓRIA

Tudo começou por causa de uma profunda admiração pela inteligência. Isso, muito antes de eu me tornar um leitor. Tanto que o primeiro fascínio foi pelos professores (isso se mantém). Daí, estender essa fascinação para outras inteligências que não somente as dos professores foi um passo um tanto natural.

O desejo era o de destrinchar os mecanismos da inteligência do outro, que podia ser um professor, um amigo, um filósofo que li, um cientista ou um músico. Decifrar os meandros da inteligência a fim de tentar aprender a ser inteligente. A veneração pela inteligência é o que acabou causando uma vontade firme de querer ser inteligente.

O Borges escreveu que “ninguém escreve o que quer, mas o que consegue”. De modo análogo, por mais inteligente que se queira ser, há limites que não podem ser transpostos por absoluta falta de talento. Se dependesse de eu fazer uma escultura ou pintar um quadro, por exemplo, eu não saberia como começar. Após flertes com alguns ramos do conhecimento, acabei tomando o caminho das letras. Não por um talento abissal na área, mas por falta de talento em outros campos.

O resto é leitura, é escrita. Aferrei-me às palavras. Passei-me a dedicar à riqueza do português. Trata-se de meu idioma, e me sinto quase que na obrigação de esmiuçá-lo. Além do mais, é uma língua que acho bonita, cheia de possibilidades, seja para a fala, seja para a escrita. A palavra passou a ser a meta. A palavra exata ao escrever. A palavra exata, pronunciada com exatidão, ao falar.

Há muito de sonho nessa história, muito de busca, muito de ideal. Em meu caso, a concretização está sempre longe do que se tinha em mente. Por outro lado, sem esmorecimento, é preciso não exigir tanto de si. Há que se ter resignação, aceitando com rebelde tranquilidade o que se é capaz de produzir. 

domingo, 4 de janeiro de 2015

(DES)APONTAMENTO 16

Promoções em lojas: quando os lucros deixam de ser muito exorbitantes e se tornam apenas exorbitantes. 

sábado, 3 de janeiro de 2015

A PAIXÃO EM SEU COMEÇO

É muito instigante observar a paixão quando ela começa. Não me refiro ao impacto que a beleza de alguém pode causar em nós. Esse impacto pode vir a ser paixão, mas paixão ainda não é. Nela, há um clique inicial, que nem precisa ser forte. Algo nos capta a atenção; pode ser a aparência da pessoa, pode ser um talento que ela tem, pode ser a voz, pode ser o modo como ela se comporta... Pode ser isso tudo.

A paixão tem íntima conexão com a imaginação. A princípio, a gente se apaixona muito mais pela ideia que fazemos da pessoa do que pela pessoa em si. Essa fase revela mais o que somos e menos o que o outro é. Caso se tenha a chance de relacionamento com a pessoa que passou a mexer com nossa imaginação, passamos a ter referências mais reais para o mosaico que vamos construindo à medida que estamos apaixonados.

A partir das peças desse mosaico, vamos tentando compor uma imagem mais concreta da pessoa pela qual estamos apaixonados. Depois do clique inicial, passamos a reparar nela. De ouvidos aguçados e com olhares concentrados, o outro toma conta da atenção. Quando ele não está por perto, o pensamento revive os encontros havidos.

Não demora muito para que passemos a ver a pessoa como um todo. Não um todo com o qual já estamos familiarizados, mas um todo que deixamos de fatiar. Quer-se a pessoa pelos talentos que ela tem? Também por eles. Pela beleza que ela tem? Também por ela. Pelo espirituoso senso de humor? Também por ele.

Mas há sempre algo que nos escapa, que nos parece indefinível, intocável, inefável. Nem as partes nem o todo conseguem dar a exatidão dos motivos pelos quais nos apaixonamos por alguém. É por causa de algo que está em nós e por causa de algo que está na outra pessoa. É por causa de coisas visíveis, palpáveis, mas há motivos ou coisas aos quais não conseguimos ter acesso. Paira sempre uma imprecisão.

Apaixona-se pela beleza, mas a pessoa não precisa ser a mais bela do planeta (ela passa a ser a mais bela no nosso planeta). Apaixona-se pelo talento, mas a pessoa não precisa ser um gênio. Apaixona-se pelo senso de humor, mas um terceiro poderia achar esse senso de humor... sem graça.

Dizemos com frequência que nos apaixonamos pelo jeito da pessoa. Isso que a gente chama de jeito da pessoa compreende tudo o que ela é para nós. Se após o clique inicial, que pode ocorrer depois de termos visto alguém pela primeira vez, somos correspondidos ou temos a chance de demonstrar nossa paixão inicial, pode ser que haja amor à vista. Mas isso é outra história. 

ALMOÇO EM FAMÍLIA

Hoje, num calor de derreter pensamentos, uma família estava almoçando num restaurante: dois garotos loiros de olhos azuis, a mãe e o pai deles e uma senhora que me pareceu ser avó dos meninos (dava sinais de ser mãe da mãe deles). A diferença de idade entre as crianças era pequena. No máximo, de dois anos, embora eu presuma que um deles deve ter uns três anos; o outro, uns quatro.

Dos três adultos, a avó e a mãe almoçavam com civilizada voracidade. O pai estava mais envolvido com um celular; de vez em quando, ordenava ao garoto que estava à esquerda dele que se alimentasse. As duas crianças estavam mais envolvidas com “tablets” (cada uma delas portava um).

O garoto à esquerda do pai estava de costas para mim; eu podia enxergar a tela do “tablet” dele, depositado sobre a mesa, ao lado do prato de comida, com a ajuda de dispositivo que mantinha o equipamento em pé; as mãos do menino podiam, desse modo, ficar livres. Mesmo assim, ele se entretinha mais tocando a tela do que tentando manejar talheres. O outro menino, do outro lado da mesa, dividia, de modo mais ou menos igual, a atenção entre a comida e o “tablet”.

O pai, de tempos em tempos, admoestava o filho dele que estava de costas para mim. Eram ordens chochas, sem eficácia. O celular demandava mais a atenção do pai, também de olhos azuis. A mãe, morena e de cabelos castanhos claros, é quem parecia agir de modo mais afiado: “Se você não comer, vou desligar esse ‘tablet’ agora”. O garoto olhava para ela, pegava uns fios de macarrão e voltava a namorar a tela.

Assim o almoço deles prosseguia. Minutos depois, o pai se levantou e pediu à família que olhasse para ele, que estava pronto para, via celular, tirar uma foto dos comensais. A avó e a mãe logo se prontificaram. Os meninos, mergulhados nos dispositivos eletrônicos, pareciam nem ter percebido que o pai deixara a mesa. Ter a atenção do que estava ao lado da mãe foi mais fácil do que receber o olhar do outro filho.

O pai tentou uma vez: “Tiago, olha pra cá”. Tive a impressão de que a voz dele denunciava algum sotaque, mas isso poderia ser apenas impressão minha. A mãe e a avó instavam com o garoto para que olhasse na direção do celular. Como os pedidos eram infrutíferos, o pai, num tom de voz entre o solene e o grave, mandou com firmeza: “Tiago, look here now”.

Dessa vez, sem sotaque. O garoto olhou, o pai tirou a foto e voltou a se sentar. Antes de voltar a comer, mostrou a toda a família o registro que havia feito. Sorrisos de satisfação e cabeças fazendo sinal de positivo, exceto do garoto que estava à esquerda do pai; o menino olhou para a tela do celular, não sorriu e, incontinente, voltou a se concentrar no “tablet”. 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

A CLUBEM FM ME ATRAPALHA DORMIR

Sempre fui de estar acordado nas madrugadas. A vontade mesmo é a de trocar o dia pela noite. Numa vida ideal, deitar-me-ia lá pelas 6h ou 7h e dormiria até às 14h ou algo parecido. Não posso levar uma vida assim. Todavia, quando não tenho de acordar cedo, fico acordado até o amanhecer.

Há alguns meses, mesmo tendo de me levantar às 7h, eu ainda estava acordado às 2h. O rádio estava ligado. Eu já estava preocupado, sabendo que estaria um bagaço pela manhã, no momento de sair da cama. Minha recusa em dormir existia porque o rádio não parava de tocar músicas legais.

Foi então que me ocorreu escrever um texto sobre a Clube FM de Patos de Minas, a estação que geralmente escuto nas madrugadas. A rádio se dedica a executar pop/rock. Há horários dedicados ao que o mundo do entretenimento tem produzido atualmente; é o caso, por exemplo, das dez mais pedidas do dia ou do Freeway. Mas é louvável o tratamento que a emissora dá ao passado.

As madrugadas da Clube executam pérolas do pop/rock. A programação é de excelência. Chega a ser um alento, em meio a rádios tão comerciais e movidas a jabá, escutar uma emissora que não desconsidera o bonito e rico legado da música comercial. É incrível: a rádio “simplesmente” não toca música ruim de madrugada.

Poder-se-ia alegar que esse horário é pouco interessante, no sentido comercial, para as rádios. Por um lado, é verdade, mas, no caso da Clube FM, mesmo durante o dia, podemos escutar canções que quase nunca são escutadas por rádios privadas. (Enquanto digito, são 16h29 de hoje, dois de janeiro de 2015: estão executando Creedence Clearwater Revival! Agora estão tocando Counting Crows!)

Suspeito de que um dos responsáveis por essa programação de excelência, em especial durante a madrugada, seja o Adriano Sousa, locutor e redator da emissora. Fui colega de trabalho do Adriano na Clube. Quando se tem contato com ele, fácil perceber a familiaridade que ele tem com a cultura pop, não importa se filmes, quadrinhos, “video games” ou pop/rock. Naturalmente, para uma rádio com o perfil da Clube, ele tem muito a contribuir para a envolvente programação musical da emissora. 

(DES)APONTAMENTO 15

Simpatia para trazer a pessoa amada: simpatia. 

JACULATÓRIA

De joelhos, recebe do senhor o néctar que cura. 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

APONTAMENTO 231

Um grande livro sempre tem grandes implicações: um grande livro nos torna melhores. 

DE COR

Tenho dores e cores. 
Eu sei de cor. 
Eu sei de dor. 
Pego dores e cores 
e encho de palavras 
a pesada madrugada. 
Pela manhã, haverá luz. 

JUS

A palavra exata
faz jus.

A palavra exata
faz luz.

APONTAMENTO 230

Quando a cabeça não é gaiola, o pensamento voa. 

POR AMOR

Claro que, quando se ama, a vontade é a de e-xi-gir do outro que ele também ame. Afinal, como alguém pode não amar um amor tão intenso que é ofertado de modo tão espontâneo e forte? Mas não temos o direito de exigir que a outra pessoa nos ame, por mais que o desejo seja de pegá-la pelo pescoço e fazer com que ela receba o amor que é só dela.

É como se a gente dissesse para a pessoa: “Olha, você nem imagina o quanto sou capaz de fazer você feliz, o quanto quero fazer você feliz”. Se a outra pessoa for madura, ela sabe disso, mas pode não querer receber o amor que a ela é ofertado, seja por que razão for.

“João amava Teresa”. Mas Teresa amava Raimundo... Num certo dia, um João pode amar uma Teresa, e por ela ser amado. Se um amor que não começa já é algo complicado de manejar, um amor que se inicia requer arte para a qual nem todos estão prontos. O amor pode não ter limites; os amantes têm.

Nem sempre o amor é. Em muitas vezes, poderia ter sido; noutras tantas, foi e deixou de ser. Muitos há que só descobrem do que são capazes depois que passam a amar. Amar não é fácil. É difícil saber dar amor; é difícil saber receber amor. Amor chega, amor vai embora. Ou não.

No silêncio noturno e solitário dentro de um ônibus que rasga a madrugada ou sobre cama ruidosa e suada, é o amor que age, que vai fazendo com que vivamos, dos gestos mais simples aos mais retumbantes, por ele. Tudo é por amor. Contudo, posso estar enganado. Talvez nem tudo seja por amor. Mas deveria. 

31/12/2014

Bruno Fontoura, compositor patense, canta: “Faça tudo cedo / Deixe todo enredo ficar pra trás”. Amanhece o dia. Nova trama. Novo enredo. Essas letras vão desembocar lá em 2015. 

SIM, NÓS TEMOS HOLOCAUSTO


Uma mulher é internada num hospício depois de ter sido estuprada pelo patrão. Uma outra pessoa é internada por ser tímida. Outra, por ter perdido a carteira... Setenta por cento dos internados não tinham diagnóstico de doença mental. 

São histórias que estão em “Holocauto brasileiro” (publicado pela Geração Editorial), de Daniela Arbex. Ela escreveu um livro tão importante, que ele deve ser lido não somente por aqueles que se interessam pelo que se considera a loucura. “Holocausto brasileiro” deve ser lido por quem se interessa por gente. Se não é esse seu caso, insisto: o livro deve ser lido por quem é gente. 

Há um dado na capa do livro: “Genocídio: 60 mil mortos no maior hospício do Brasil”. O número se refere aos mortos em Barbacena/MG, no hospício conhecido como Colônia. No auge do extermínio, o lugar chegou a ter dezesseis mortes por dia. 

O texto de Daniela Arbex, bem como as fotos de Luiz Alfredo, publicadas originalmente na revista O Cruzeiro, contam uma história sinistra que perpassou boa parte do século XX. Com sensatez e inteligência, Arbex não se rende ao sensacionalismo: em meio a relatos de vidas dilaceradas no hospício, não deixa de trazer à tona a capacidade que o ser humano tem de ser magnânimo — há histórias grandiosas no livro da jornalista. 

O genocídio sistematizado em Barbacena revela conivência de médicos, de funcionários da instituição e da população. Ao mesmo tempo, conta-se a atuação de alguns médicos, de alguns funcionários e de quem não gravitava na Colônia para que os pacientes de lá não precisassem nem comer ratos nem beber urina. Algumas mães, a fim de protegerem a gestação, passavam fezes no corpo, para não serem molestadas. 

Arguta, Arbex adverte: “Ontem foram os judeus e os loucos, hoje os indesejáveis são os pobres, os negros, os dependentes químicos”. “Holocausto brasileiro” evidencia o que o ser humano é capaz de fazer quando, movido por ódio ou ignorância, sente-se apto a realizar uma limpeza social, decidindo, arbitrariamente, quem pode e quem não pode estar em sociedade. “Holocausto brasileiro” é um livro fundamental. Leia.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

FOTOPOEMA 364

SINTONIA FINA — EDIÇÃO 30


No ar, mais uma edição do Sintonia Fina, programa musical apresentado por mim. Para escutar, é só dar “play”.
_____

Snow Patrol — Run
Cynthia Martins — Amanhecer
Moby — The perfect life (ao vivo)
Marisa Monte — Não vá embora
Awolnation — Sail
Tiê — Sweet jardim
Exile — Kiss you all over
Paulinho Pedra Azul — Recado para um amigo solitário 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

AMANTE

A outra era
a cereja do rolo. 

FOTOPOEMA 363

NÓ GÓRDIO

Desfaçamos 
os nós.
De mim
e de você,
façamos
nós.
No
desenlace,
enlace.
Afinal, 
a gente 
se amarra. 

DESFECHO

Há quarenta e três dias estou tentando achar um desfecho meu para dois trechos que reuni da Emily Dickinson. Não obtive êxito; esta publicação fica, pois, sem desenlace. Ou as palavras da escritora americana ficam sendo o desfecho.

Num de seus versos, Dickinson escreveu, segundo tradução de José Lira: “Achei palavras para cada ideia”. Num outro verso dela, de outro poema (ainda de acordo com a tradução de Lira), a autora escreveu que “nem todo dia a ideia acha palavras”. 

sábado, 27 de dezembro de 2014

GRUPO CARAMBOLA REALIZA SHOW






































Ontem, em mais uma realização da Improviso Produções, ocorreu, no Espaço Tio Patinhas, em Patos de Minas, o show que celebrou os trinta anos do grupo Carambola, banda de Patos de Minas. Além do show deles, houve, a seguir, música ao vivo com Moisés Carvalho e pista de dança animada pelo DJ Tybabas.

O Carambola é formado por Ângelo Costa, Maurício Castro, Vilmar Carvalho e Marcão Vieira. No show de ontem, foram acompanhados por Dell Luiz (baixo), Adriano Alves (guitarra), Alexandre Bomfim (bateria), Márcia Soares (vocal de apoio) e Bruna Alves (vocal de apoio). Além de canções próprias, a banda executou clássicos da MPB (a versão que fizeram para “Rapte-me, camaleoa”, do Caetano, ficou um barato).

Unindo gerações da música local, a banda O Berço, que recentemente lançou CD com músicas próprias, fez participação especial no show do Carambola. Já escrevi que a cidade vive um belo momento musical; foi bonito presenciar duas gerações de artistas locais se apresentando num mesmo palco.

A plateia, composta essencialmente por pessoas acima dos trinta e cinco, relembrou os tempos do Encontrão Cantar na Praça e do Teatro Telhado, como bem lembrou o Carambola durante o espetáculo. Terminado o show do grupo, houve quem tenha conferido a apresentação do Moisés Carvalho, que é filho do Valdir Carvalho, também músico local, e houve quem se esbaldou na pista de dança, ao som de clássicos do pop/rock. 

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (80)

Ontem à tarde, saí para fotografar. Tendo passado o aterro sanitário, tomei a estrada que dá acesso à esquerda. Depois de dirigir por uns dois quilômetros, eu me deparei com esta cruz sobre o poste de uma cerca de arame.

Tirei a foto. Logo após, percebi que, pendurados numa árvore, havia o que julguei serem espantalhos de mais ou menos meio metro cada um. Se não eram espantalhos, eram bonecos ou algo assim. Aproximei-me de um portão em busca de ângulo ideal para fotografar os supostos espantalhos. Foi quando me dei conta de que havia um cadela cuidando do lugar.

Embora ela não tenha feito menção de atacar, decidi não correr risco. Assim, não fotografei os espantalhos. Quanto à foto da cruz sobre a cerca, tenho impressão de que ela está tombada devido à ação do vento ou da chuva. No mais, nem preciso dizer que, ao postar a foto, não tenho intenção de ser iconoclasta nem algo que o valha. Seria fácil polemizar, mas polêmicas fáceis, em sua maioria, são desonestas, imaturas ou superficiais.