sábado, 11 de outubro de 2014

PARA ZILMA

Tive hoje o prazer de reencontrar minha professora da segunda série do primário: Zilma Maria de Brito Cardarelli. (Acho que hoje a segunda série do primário se chama terceiro ano.) Fui aluno da Zilma em 1978. Depois disso, perdemos contato um com o outro. Hoje, ela mora em Uberlândia.

Fui aluno dela na Escola Estadual Frei Leopoldo. Salvo engano, agora se trata de uma escola municipal. Na época, o Frei Leopoldo ficava na rua Minas Gerais, esquina com avenida Brasil. Hoje, na edificação que fica bem na esquina, há um comércio; sobre este, morada residencial. Na edificação cuja entrada fica na Minas Gerais, há uma creche.

De vez em quando, eu lecionava para algum aluno de sobrenome Cardarelli. Sempre que isso ocorria, eu, invariavelmente, perguntava. “O que você é da Zilma Maria de Brito Cardarelli?”. Recebendo confirmação de parentesco, eu pedia que enviassem meu abraço para ela.

Lembro-me de que no fim daquele distante 1978, a Zilma me deu uma régua toda invocada, toda cheia de estilo. Eu a usei por vários anos. Acompanhando a régua, um cartão, que ainda tenho. No cartão, a caligrafia tão familiar, tal qual era na lousa — tombada para a direita e muito legível.

Um dos filhos da Zilma está hoje aqui em Patos de Minas. Além de ser formado em artes visuais, ele é músico; logo mais, à noite, vai se apresentar num dos bares da cidade. A família da Zilma e eu combinamos que estaremos por lá, celebrando a música.

No reencontro de hoje, nós nos divertimos quando comentei com a Zilma uma história que ocorrera quando fui aluno dela: tendo visto pela TV alguém usando um casaco sobre os ombros, sem, de fato, vesti-lo, tomei a decisão de ir para a escola paramentado como o cara que eu vira na televisão.

Estava fazendo um calorão danado; para piorar, eu estudava no turno da tarde. Minha mãe bem que tentou me demover da ideia ridícula; eu, teimoso como burro, joguei uma blusa quentíssima sobre os ombros e fui a pé para a escola.

Mal tendo me visto, a Zilma foi logo me perguntando o que eu estava fazendo com uma blusa quente pendurada nos ombros num calorão daquele. Não vacilando, tirou a blusa de meus ombros e fez com que eu a guardasse num vão da carteira entre a parte de cima dela e meu joelhos.

Não me dando por vencido, maquinei um plano: quando chegasse a hora do recreio, eu pegaria a blusa e sairia com ela sobre os ombros. Chegada a hora, peguei a vestimenta, comecei a caminhar de fininho e já fui a jogando sobre as costas.

Minha pressa em ajustar a blusa nos ombros me delatou. Quando eu já estava próximo à porta, a Zilma constatou minha tramoia. Incontinente, pediu que eu me aproximasse da mesa em que ela estava. Cheguei perto. Ela então pegou a blusa, dobrou-a e a guardou no vão da carteira. Fui para o recreio sem a blusa pendurada nos ombros.

A você, Zilma, muito obrigado por tudo. Lembro-me da experiência com o grão de feijão e do macete que você nos passou para que diferenciássemos os sinais “<” e “>”. Eu não poderia imaginar, na época, meu destino profissional. Fico feliz em saber que eu acabaria exercendo a mesma profissão que você exerceu. 

APONTAMENTO 219

Quando a gente chega, o enredo da vida já tem um bom trecho escrito. Começamos a fazer parte dele, também o escrevendo. Quando começamos a ter a ilusão de que nos tornamos melhores autores, já estamos velhos; logo, logo, seremos desenredados. Sem nós, a trama continuará sendo escrita... 

"PECADOS ÍNTIMOS"

“Pecados íntimos” é o título do filme a que assisti ontem à noite. É de 2006. O diretor é Todd Field, que também assina o roteiro, ao lado de Tom Perrotta, que é o autor do livro em que o filme é baseado. O livro de Perrotta se chama “Little kids” (Criancinhas). “Little kids” é também o título original do filme. No elenco, Kate Winslet (Sarah Pierce), Jennifer Connelly (Kathy Adamson), Patrick Wilson (Brad Adamson) e Jackie Earle Haley (Ronnie J. McGorvey).

Sarah e Brad estão insatisfeitos com seus casamentos. Ele, pelo fato de a esposa (Kathy) trabalhar demais, decorrendo daí um monótono casamento; ela, por não receber a menor atenção do marido. Não bastasse, Brad é cobrado pela esposa, pois ele não consegue ser aprovado (nem quer ser) no exame de que depende para que esteja apto a exercer a advocacia. Brad e Sarah acabam se conhecendo.

Quando a gente gosta de um filme, nós ficamos torcendo para que nada o “estrague” — pelo menos na visão que a gente tem do que é “estragar” uma produção. Há a cena de um esqueite, envolvendo o personagem Brad, que me pareceu inverossímil.

Contudo, trata-se de apenas uma opinião. Sendo honesto, a sequência do esqueite não “estraga” o filme como um todo. “Little kids” merece ser visto. A obra revela a tensão real que pode haver num cotidiano, que, na aparência, é pacato, perfeito, invejável.

Casamentos frustrados, personagens atribulados pelo que fizeram no passado... O forte de “Little kids” é o ingrediente emocional, adulto. O roteiro não foge das situações-limite a que vai nos levando. Não sei se o livro em que o filme se baseia também conduz a tais situações. “Little kids”, à medida que vamos o assistindo, vai nos mostrando que criancinhas somos nós. 

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O CAIPIRA E O COSMOPOLITA

Há situações em que uma pessoa se revela. O mesmo vale para um povo: há situações em que ele se revela. Ou, pelo menos, parte dele. Foi assim em 2010; está sendo assim em 2014. Os nordestinos têm sido escarnecidos via internet. Já houve quem sugerisse que se jogasse uma bomba atômica por lá; já houve quem sugerisse que eles, os nordestinos, morressem devido ao Ebola.

Quem publica em rede social um pensamento assim enche-se de entusiasmo quando alguém como FHC diz que os eleitores do PT são, nas palavras dele, “menos informados”: “O PT está fincado nos menos informados, que coincide de ser os mais pobres”. Conclui FHC que o PT se destaca nos, segundo termo usado por ele, “grotões”.

Vinda de Fernando Henrique Cardoso, esse tipo de declaração não surpreende; em 1996, ele dissera que somos caipiras: “Como vivi fora do Brasil, na Europa, no Chile, na Argentina, me dei conta disso: os brasileiros são caipiras”.

Declarações como a dele só confirmam aquela velha ideia de que estudo e inteligência não andam necessariamente juntos: FHC tem estudo. Só que uma parte da população, que se julga bem-informada por acompanhar a Veja, o Estadão, a Folha de S.Paulo, a Globo e o UOL, por exemplo, sente-se mais bonita, mais inteligente e mais civilizada do que os pobres — em especial, depois de um FHC desovar seu rosário neoliberal.

Para esses que se julgam melhores, o resto da população podem ser os nordestinos ou, por extensão, os pobres (não importa onde vivam), que, nessa ótica, seriam sujos, sem informação, despreparados e descartáveis. Livrar-se deles, os pobres, faria bem para o País, que passaria a conviver com uma elite que adora Paris e que adora inserir termos em inglês em suas conversas.

Não basta o conhecimento histórico (suponho que FHC o tenha), não bastam as viagens (penso que FHC conheça o mundo inteiro), não bastam as leituras (presumo que FHC seja um intelectual). Fernando Henrique Cardoso deu provas de que alguém com leituras, viagens e poder pode não entender o que é o cosmopolitismo. Levando-se em conta as declarações dele, suponho ser inimaginável para ele conceber que há caipiras cosmopolitas nos grotões. 

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

VESTIMENTA

Veste-se a caráter.
Prefere, contudo, deixar
no guarda-roupa o caráter. 

"ULYSSES": UMA CAPA


Passei mais da metade da vida prometendo a mim mesmo que um dia leria “Ulysses”, do Joyce. Não sei se ainda cumprirei a promessa. Pesquisei muito sobre a obra, reuni esquemas de leituras, dediquei-me a críticas sobre o livro... Só que o dito-cujo, nunca li. Num paralelo, seria como ler muito sobre uma cidade, saber muito sobre ela, mas nunca tê-la visitado.

À parte isso, a capa da edição da Penguin-Companhia para “Ulysses” é genial (como não tenho a edição deles, não há como eu conferir de quem é o trabalho): numa olhadela, as linhas brancas sugerem um labirinto. Pode-se pensar também em formas urbanas ou geométricas.

Após a olhadela, o olhar decifra o nome “Ulysses”, formado pelas linhas brancas. Se tais linhas ou formas, por si, já seriam uma rica representação visual do labirinto que, segundo o que já li, são os personagens do livro (e todos nós), as mesmas linhas brancas podem compor traçados de um caminho pelas ruas de Dublin.

A capa, assim me parece, conseguiu uma sugestiva e poderosa representação visual do que é sugerido, de acordo com o que já li, nas páginas do livro. Não bastasse isso, a aparente aleatoriedade das linhas brancas revela, após breve exame, um rigor que está presente no livro de Joyce (numa das edições que tenho, há o famoso guia de leitura com as partes que compõem a obra).

Não estou à procura de mais um motivo para encarar as páginas do “Ulysses”. Estivesse, a capa não deixaria de ser sedução. Preciso ler o livro. Se os personagens de Joyce são labirintos, se as ruas que Bloom percorre são labirínticas, nada impede que as que percorremos não sejam. 

CORUJANDO

terça-feira, 7 de outubro de 2014

IDEAL

O amor ideal é o real.
Num amor ideal, 
os corpos se tocam.
Tocando-se, idealizam. 

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

BRINCADEIRA DE CRIANÇAS MÁS

Se você vai, eu também vou.
Se você não vai, eu também não vou.
Você não foi — eu também não.
Se nós vamos, a cidade não vai.
Se nós não vamos, a cidade fica. 

sábado, 4 de outubro de 2014

CRUZEIRO DERROTA O INTERNACIONAL

Há partidas de que muito se espera. Essa expectativa pode ser frustrada. Há outra expectativa, nos grandes jogos, que é a de que o time da casa agrida o visitante nos primeiros quinze minutos. Hoje, no Mineirão, a expectativa de um bom jogo se concretizou. A expectativa de que o Cruzeiro fosse mais combativo no primeiro terço do primeiro tempo também se fez.

O primeiro gol do jogo foi aos dezenove minutos; Marcelo Moreno foi o autor. Aos trinta e três, após espetacular cruzamento de Éverton Ribeiro, Marquinhos, substituindo Ricardo Goulart, escorou: dois a zero para o Cruzeiro. O Internacional, embora tenha tido uma chance aos vinte e um, não dava sinais de que ameaçaria a equipe mineira. A Raposa foi soberana no primeiro tempo.

Quando o jogo é moroso, ele parece durar um mês; a partida no Mineirão pareceu durar um minuto. Chegado o segundo tempo, aos quatro minutos, em cobrança de falta, o Internacional quase marcou: a bola ficou passeando rente à linha do gol. Um minuto depois, Juan faz pênalti em Marcelo Moreno. Aos sete minutos, William cobrou; a bola caiu aqui na varanda da minha casa, em Patos de Minas.

Com a segunda etapa começando avassaladora, era natural haver o otimismo de que o segundo tempo também seria bom. Aos dez minutos, acrescentando um belo ingrediente à partida, Alex marcou um golaço, chutando de fora da área. Não haveria como Fábio defender, ainda que ele medisse uns quinze metros.

Levando-se em conta que o Internacional voltou jogando melhor do que o que jogara no primeiro tempo, a partida estava melhor do que já havia sido na primeira metade. Mesmo tempo levado o gol, o Cruzeiro, pelo menos aparentemente, manteve-se calmo. Chegou até a deixar a impressão de que poderia ter marcado mais uma vez. Tendo vencido por dois a um, a distância entre Cruzeiro e Internacional passa a ser de nove pontos. 

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

MÚSICA VISÍVEL

Não sabemos desvendar os critérios de que a memória se vale quando escolhe não deletar determinadas lembranças (pode ser que nenhuma lembrança seja, de fato, deletada). Há uma que não me abandona: eu trabalhava em rádio, e estava executando a canção “No conversation”, do View from the Hill. Eram ainda os tempos do vinil; lembro-me de, especificamente nessa canção, naquele momento, ficar olhando o disco girar. Era, por assim dizer, um modo... físico ou material de “viajar” na música; o vinil era, por assim dizer, uma música para a qual podíamos olhar. Fiquei reparando na agulha, no bolachão, nas voltas que o som ia dando, nos sulcos do disco... A lembrança se cristalizou; veio à tona há pouco. Neste momento, escuto “No conversation”.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

O "FILÓSOFO" E O PALHAÇO

Em tempos de Levy Fidelix, Tiririca escreve: “Dizem que sou burro mais [sic] pelo menos não falo bobagem que nem certos candidatos… sou a favor do amor e cada um deve viver feliz!!! Triste em saber q sou do mesmo país d quem tem ódio quando fala dos gay.. já dizia mamonas assassinas abra sua mente gay também é gente!!!!”. Comparando-se o que disse na Record o Fidelix com o que divulgou no Twitter o Tiririca, teríamos então a situação em que Tiririca foi, sem ironia, o pensador; Fidelix, no sentido pejorativo do termo, o palhaço.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

SHOW COM A BANDA BENDZ EM PATOS DE MINAS

A banda Bendz, que é de Araxá/MG, esteve novamente aqui em Patos de Minas no sábado (27/09). Não há como ficar indiferente a eles. Ainda que por ventura não se goste do trabalho deles, não há como não perceber a atmosfera que criam em seus shows — é a segunda apresentação da banda que confiro aqui em Patos. Eles se se divertem enquanto tocam. Gostam de rock, e o executam com energia. Bendz é entrega; a entrega deles contagia. A curtição começa neles e desemboca na plateia. A banda Bendz nos deixa, sobretudo, com a certeza de que viver sem rock é muito chato.










AMBIDESTRO

Na esquerda, 
a ternura; 
na direita, 
a força.

Na esquerda, 
a pegada; 
na direita, 
a delicadeza.

Inteiro, 
completo-te. 

domingo, 28 de setembro de 2014

CEM ANOS DE VICENTE NEPOMUCENO

Vicente Nepomuceno completou cem anos. A esposa dele, Maria de Lourdes Nepomuceno, tem oitenta e oito. Estão juntos há setenta anos. Alguns instantes das celebrações de ontem e de hoje estão nesta postagem.

























sábado, 27 de setembro de 2014

CERRADO AFORA

A banda O Berço, na faixa “Leoa”, canta: “Sei que é longo o caminho pro cerrado afora”. Sim, é. Também por isso, merece ser percorrido. 

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

PREFIXO

Político.
Apolítico.

Típico.
Atípico.

Teu.
Ateu.

Não.
Anão.

Sentir.
Assentir.

Lívio.
Alívio. 

ESTILO

Sim, companheiros,
é a luta de classes.
Lutemos com classe. 

CORPORAL

Uma ideia 
precisa de 
um corpo. 
Meu corpo 
abriga uma ideia. 

Um corpo 
precisa de 
uma ideia. 
Minha ideia 
habita um corpo.

A caneta deixa fluir uma ideia.
O papel a torna corpo. 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

APONTAMENTO 218

Transmissão do SporTV comentou que jogadores do futebol brasileiro usam GPS, para que dados sobre os atletas sejam coletados e analisados depois. Não há tecnologia que dê conta do engessamento a que os “doutores” submeteram o futebol nacional. 

ESTIAGEM

Não é Deus que faz chover: 
talvez sejam os homens
que façam não chover. 

APONTAMENTO 217

Não há um só segundo de minha vida em que minha timidez desapareça. Ainda assim, há momentos em que ela parece não existir. Nessas ocasiões, estou escrevendo. 

FOTOPOEMA 357

Danilo Mota tirou a foto desta postagem. Quando vi o registro, postado pelo amigo Ciro no Facebook, achei a imagem sugestiva demais. De imediato, senti vontade de escrever algo, deixando-me levar pela cena. A garota, Líris, é filha do Ciro. 

INCISIVO

A mula.
A bula.
A sula.
A fula.
A gula.

Anula
tudo:
rasga
a bula,
deixa 
a sula,
larga
a fula,
mata
a gula.

E pica
a mula. 

terça-feira, 23 de setembro de 2014

PONTUAÇÃO

Tenho perguntas. 
Só perguntas. 
Para não cair 
em mesmice, 
insiro 
ponto de interrogação 
em algumas. 

APONTAMENTO 216

É melhor uma inquietude estática do que uma pasmaceira ambulante.

"DEMISSÃO"

O que eu acho mesmo 
é que o amor deveria ir 
para o olho da rua.

Não te alcança 
este meu amor que 
se cala entre paredes. 

DE OLHO

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O LACAIO DA GLOBO

Caio Ribeiro é um bibelozinho da Globo. Esse rapaz já foi longe; com seu bom-mocismo asséptico, monótono e servil, tem tudo o que é necessário para ir mais longe ainda. Sobre o berro do Sheik de que a CBF é “uma vergonha”, o comentarista global disse que é preciso “ter respeito à hierarquia, por mais que você não concorde”. Caio sabe não somente o que é o respeito: ele sabe também o que é a vassalagem. O Cazuza cantou: “Na moda da nova idade média / Na mídia da novidade média”. 

UM LUGAR

“Como todo possuidor de uma biblioteca, Aureliano se sabia culpado de não conhecê-la até o fim”. Esse Aureliano não pertence à estirpe dos Buendía, mas à imaginação do Borges. Ademais, não importa se é Macondo, não importa se é um ponto numa casa em Buenos Aires ou se é uma calçada em Joinville. São lugares. E o que há num lugar? “O que há num nome?”. 

CONTO 70

Pedro Martins havia chamado Lauro Silva para um duelo. Mal acabara de dizer as palavras desafiadoras, arrependera-se. Enquanto a vida de Lauro ia embora no sangue que lhe saía farto da garganta, Pedro pediu desculpas para o oponente, não pelo balaço desferido, mas pelo medo que tinha em si quando pressionara o gatilho. 

"COMPRE! COMPRE! COMPRE!"

Sempre digo que o H.G. Wells foi o inventor da publicidade e da propaganda. Digo isso por causa do livro “Tono-Bungay”, que é de 1909. Nele, Wells narra maracutaias de um comerciante na divulgação de elixir que não passa de panaceia. Há diálogos do livro que poderiam estar na boca de qualquer publicitário dos dias de hoje.

Questões políticas são discutidas, bem como os hábitos da sociedade inglesa da época. Mesmo assim, principalmente no primeiro terço do livro, é muito bom acompanhar Edward Ponderevo, o fabricante do Tono-Bungay, expressando a falta de escrúpulos quando se trata de divulgar seu “remédio”.

É óbvio que a publicidade e a propaganda estavam, quando o livro foi publicado, longe dos recursos técnicos de que dispõem hoje; incipientes, não tinham ainda a nomenclatura atual. “Tono Bungay” é rico por mostrar que há cem anos a mentira e o dolo já estavam presentes na imagem que se divulgava de um produto. Não é de hoje que vendem para nós a ideia de que comprar é a redenção para as tragédias que continuam inventando para nós. A cura está sempre numa mercadoria ou num serviço.

A edição que tenho foi publicada pela Francisco Alves; é de 1990. A tradução é de Maria Elizabeth Padilha; Gian Calvi foi o responsável pela capa, que, em bela ideia, foi concebida como se ela, a capa, já fosse um anúncio do Tono-Bungay. 

domingo, 21 de setembro de 2014

SOBRE UMA FOTO

Nem sempre é possível precisar os motivos pelos quais se gosta de um trabalho. Quando alguém gosta do próprio trabalho, é mais difícil ainda desvendar os mecanismos dessa preferência, pois é possível haver uma série de razões pessoais, que podem ser conscientes ou inconscientes. É melindroso analisar o próprio trabalho, ainda que haja tentativa de critérios objetivos.

Em virtude disso, não gosto de emitir preferência acerca do que fotografo; além do mais, isso poderia soar como cabotinice. Gosto, sim, de escrever ou de teorizar sobre a fotografia como um todo. Ainda assim, permito-me um instante de condescendência em relação a mim mesmo para afirmar que gosto desta foto. Está dentre as imagens que mais gostei de ter feito.

O registro foi feito no dia vinte e sete de dezembro de 2006. Lembro-me de onde eu estava e da árvore em que o pássaro estava. Houve um único disparo. Quando tirei a foto, o fotografado pareceu se assustar com o barulho do obturador, indo embora logo após. Já no visor da câmera, uma Canon EOS 20D que tive, gostei da imagem.

P.S.: o nome do pássaro é saíra-de-chapéu-preto. O nome científico: nemosia pileaTA. 

ATLÉTICO/MG VENCE O CRUZEIRO

O Cruzeiro teve mais posse de bola, criou mais, acertou a trave... Como o que conta é a bola na rede, nesse critério, o Atlético foi melhor. Após o novo Mineirão, e após o Atlético passar a jogar no Independência, é a primeira vez que o visitante vence o anfitrião. 

No time do Cruzeiro, alguém precisa dizer para o Éverton Ribeiro que futebol é esporte coletivo. Até as traves sabem que ele sabe jogar bola, mas o jogador tem sido muito individualista. Não raro, tem perdido a bola e deixado a equipe encrencada. 

A tarde cruzeirense só não foi pior em virtude de o Corinthians ter vencido o São Paulo por três a dois, o mesmo placar pelo qual o Cruzeiro foi derrotado. A diferença entre o líder e o segundo colocado continua sendo de sete pontos. Com o resultado de hoje no Mineirão, o Atlético está na quinta posição. 

sábado, 20 de setembro de 2014

LOA

Escrevo-te não só para louvar tua beleza. 
De algum modo, quero ficar em tua vida. 
Escrevendo, penso ficar. 
Se não fico, terei escrito. 
Se escrevi, louvei tua beleza. 

RECÍPROCO

Cheguei a pensar que eu era egoísta 
por te amar em virtude de saberes o que sou. 
Mas me disseste que me amas 
por eu saber o que és. 
Queres saber?: 
sei o que és, 
sabes o que sou. 
Amemo-nos. 

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

CIVIL

Foi-se o
súdito.
Como que
súbito,
surgiu o
cidadão. 

UMA BARATA!

Todo mundo sabe que baratas têm o dom do voo. Não sei se o passeio delas pelos ares é gracioso. Sei que sabem voar. Do que não sei também, é do motivo que as fazem voar tão pouco. Eu, por exemplo, se tivesse asas, pouco ia querer saber de chão. Quanto às baratas, talvez a autonomia de voo com que a natureza as fez permita com que elas fiquem apenas alguns segundos no ar.

Já observei que quando está fazendo calor elas aparecem em maior número e saem voando por aí. Pouco depois da meia-noite desta quinta-feira, enquanto eu assistia a um filme, uma barata entrou voando pela janela. A princípio, nem me dei conta de que fosse um dos integrantes da família dos blatídeos. Só depois de ela pousar no sofá em que eu estava deitado é que percebi ser mesmo uma barata.

Levantei-me correndo (eu estava deitado no sofá) e já fui pegando o chinelo para matá-la. Só que ela continuou passeando por onde eu estava deitado. Desse eu uma chinelada no inseto enquanto ele ainda estava no móvel, eu teria de limpar a meleca depois. O jeito foi me aproximar, na esperança de afugentar a barata para um lugar em que eu pudesse esmagá-la com o chinelo.

A danadinha, sacando minha intenção, só deu uma piscadinha e se esgueirou literalmente para dentro do sofá, usando uma fresta disponível entre o encosto e o local em que a gente se senta. Confesso que ela me deixou desconsertado, pois tão logo se escondeu, eu soube que eu não voltaria a me deitar no sofá enquanto de dentro dele ela não saísse.

Já irritado com o joguinho proposto por ela e com o “calor ensurdecedor”, conforme disse no Linha de Passe, na segunda-feira, o Mauro Cezar Pereira, citando alguém de que não me lembro, fiquei alguns segundos parado, na esperança de a barata sair do esconderijo. Isso ocorreu; contudo, mal dei alguns passos, ela voltou para dentro do sofá.

Houve um tempo em que existia inseticida aqui em casa; de olho na entrada da toca em que a barata estava, afastei-me um pouco e olhei para a direção em que antigamente ficava o frasco de inseticida. Nem sinal dele. Já um tanto conformado, comecei a recolher os itens de que eu precisaria pela manhã, quando saísse para o trabalho; resignado, já havia decidido que terminaria de assistir ao filme, que estava sendo executado por intermédio de um “notebook” conectado à TV, numa outra ocasião.

Foi quando nossa amiga deu as caras outra vez. Fiquei então imóvel, sem respirar, na esperança de que ela saísse do sofá — o que ocorreu. Tendo ela começado a percorrer a parede, agi rápido e dei uma chinelada... Não acertei em cheio; a barata caiu no chão, só que atrás do sofá, que fica encostado na parede. Fiquei com a impressão de ter atingido parcialmente o inseto voador, embora sem a certeza de que havia sido mesmo assim.

Aguardei alguns minutos; a barata não aparecia. Decidi então recolher uma camisa, que estava sobre um sofá menor, e o “notebook”. Foi quando a barata, toda buliçosa, começou a desfilar outra vez pela parede. Tinha um aspecto ótimo. Parecia não ter sido parcialmente atingida minutos atrás. Mas se não havia sido, por que caiu? Seria manha dela?

À parte cogitações inúteis, fiquei quieto, a fim de assuntar para onde ela iria. Foi até o teto, aproximou-se do canto da parede e começou a descer. Agi rápido. Antes que ela pudesse pensar em algo, apliquei impiedosa chinelada: foi tão eficaz que foi como se a barata nunca tivesse existido. 

terça-feira, 16 de setembro de 2014

ALGUMAS RAZÕES PELAS QUAIS VOTO EM DILMA

(Os dados abaixo foram extraídos de um texto escrito por Pablo Villaça.)

 • PIB (em bilhões de reais)
2002 — 1.477
2013 — 4.837
Fonte: Ipea

• Falências requeridas
2002 — 19.891
2013 — 1.758
Fonte: Ipea

• Inflação
2002 — 12,53%
2013 — 5,91%
Fonte: Ipea

• Desemprego (percentual) no mês dezembro
2002 — 10,5
2013 — 4,3
Fonte: Ipea

• Salário mínimo (em reais)
2002 — 364,84
2014 — 724,00
Fonte: Ipea

• Taxa de pobreza (percentual)
2002 — 34%
2012 — 15%
Fonte: Ipea

• IDH
2000 — 0,669 
2005 — 0,699
2012 — 0,730
Fonte: jornal O Estado de São Paulo

• Gastos públicos com saúde (em reais)
2002 — 28 bilhões
2013 — 106 bilhões
Fonte: orçamento federal

• Gastos públicos com educação (em reais)
2002 — 17 bilhões
2013 — 94 bilhões
Fonte: orçamento federal

• Entre 1994 e 2002, houve 48 operações da Polícia Federal; entre 2003 e 2012, houve 1.273 operações.

(A seguir, mais alguns motivos pelos quais voto em Dilma; as razões abaixo não foram extraídas do texto de Pablo Villaça.)

• “O brasileiro vai melhor do que antes, há mais empregos, seu salário melhorou, as políticas sociais melhoraram. O motor da economia é, e sempre foi, o mercado interno. A novidade não está no andar de cima, com seu consumo de elite. A novidade está no ingresso de dezenas de milhões de brasileiros no mundo do consumo, alimentando um mercado de produtos de massa (...), gerando emprego”.
Fonte: Silvio Caccia Bava, em editorial do Le Monde Diplomatique de julho de 2014.

• “O aumento de renda nos estratos mais pobres melhora radicalmente o progresso social em geral. Em outras palavras, o dinheiro que vai para a base da sociedade é muito mais produtivo em relação aos resultados para a sociedade, o que bate plenamente com as pesquisas do Ipea sobre a produtividade dos recursos”.
Fonte: Ladislau Dowbor, em texto no Le Monde Diplomatique de julho de 2014.

• Pela redução em 50% do número de pessoas que sofrem fome.
Fonte: UOL — 16/09/2014

• Pela continuidade do Mais Médicos.

• Pela continuidade das cotas em universidades.

• Pela continuidade do Bolsa Família.

• Pela continuidade do Ciência sem Fronteiras.

• Pelo fato de o Brasil, há doze anos, não mais pedir socorro ao FMI.

• Pelo não abandono do pré-sal.

• Pelo Marco Civil da Internet.

• Por acreditar que, com Dilma, não haverá fundamentalismo religioso no poder. 

domingo, 14 de setembro de 2014

MALOGRO

Deu com
os churros n'água. 

DICIONÁRIO (39)

quiromancia. O destino na alma da mão. 

COM SAL

Isso ainda vai dar
pane pra manga. 

AINDA SOBRE O RACISMO

Há uma crônica que li há algum tempo (acho que é do Verissimo); ela tem um diálogo mais ou menos assim:

— Ei, cara, há um tempão a gente não se vê. E a sua mãe, ainda trabalha na zona?
— Sim, ela ainda está lá, aprendendo com a sua.

Depois do breve diálogo, os dois amigos se abraçam e se despedem um do outro.

O que um amigo diz para outro ou o que um casal diz durante diálogo não é encarado seja como preconceito seja como xingamento por se levar em conta o contexto em que o “xingamento” é feito. Não faria sentido acusar a namorada de um negro de racismo se a ouvissem dizendo para ele, de modo insinuante, algo assim: “Gorila, vamos sair daqui agora?...”.

O que difere o xingamento de torcedores racistas do diálogo entre um casal ou do diálogo entre amigos é o contexto; as palavras podem até ser exatamente as mesmas. O tom, o contexto e as intenções são, todavia, diferentes. Atitudes como a dos torcedores que xingaram o goleiro Aranha, do Santos, desmascaram o mito da tão propalada democracia racial no Brasil, escancarando algo que o discurso nega: em palavras, divulga-se que o Brasil não é racista; em atos, o racismo viceja.

No imbróglio com Patrícia Moreira, a torcedora do Grêmio que xingou goleiro do Santos, quem se portou com dignidade foi ele. Não somente por ter denunciado Patrícia e outros torcedores ainda durante a partida, mas também por ter se negado a participar de circo midiático em que Aranha e Patrícia estariam juntos, numa armação hipócrita que por certo teria um discurso politicamente correto de que não há racismo no Brasil.

Em desdobramento recente, um eletricista chamado Elton Grais tentou incendiar a casa de Patrícia (não havia ninguém no local no momento da tentativa, pois a torcedora está em casa de familiares). Chamado, o corpo de bombeiros domou as chamas antes que tomassem conta do local. Grais, que declarou ter se sentido “ofendido” com o xingamento de Patrícia, caiu em desatino ao tentar justiçar o desatino da torcedora gremista. 

(DES)APONTAMENTO 11

Acho que foi o Mark Twain quem declarou que a gente pode escrever de graça por até dois anos. Terminado esse tempo, caso ninguém tenha se predisposto a pagar pelos textos, deve-se parar de escrever. 

Então eu deveria ter parado de escrever há vinte e três anos! 

sábado, 13 de setembro de 2014

ASSERTIVO

Fazer justiça
com os próprios nãos. 

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

(DES)APONTAMENTO 10

Algumas questões dispensam menores comentários.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

CALA A BOCA, PELÉ!

O que se passa na cabeça do Pelé?! Hoje, a mais recente declaração “genial” dele foi a de que o Aranha (goleiro do Santos), que sofreu ofensas racistas lá em Porto Alegre, durante uma partida contra o Grêmio, “se precipitou” ao reagir contra quem o chamou de macaco. Edson Arantes do Nascimento disse ainda que cansou de ser tratado assim e que nunca reclamou.

A burrice pode estar num jogador de futebol ou em alguém com pós-doutorado. Isso, compreendo. O que não entendo é: será que o Pelé não tem ninguém que lhe diga que ele deveria calar a boca?! Vá lá que o amigo ou o assessor de imprensa ficasse sem jeito de dizer a Pelé para calar a boca... Que se valesse então de um eufemismo, dizendo algo do tipo “Pelé, acho que você deveria guardar suas opiniões para si”. Ou então: “Pelé, vamos analisar com calma o problema?”...

Ou será que o Pelé é turrão? De repente, não escuta aqueles que querem o bem dele (suponho que muita gente queira o bem do falastrão). Se Pelé não for cabeça-dura, será ele uma daquelas pessoas que se sobressaem gigantescamente em uma atividade mas não têm o menor senso para os demais afluentes das relações humanas?... Será que a natureza “obrigou” Pelé a saber fazer somente uma coisa na vida?... Será que ele não é capaz de se calar?... 

BRONZEADO

Tapou o sol
com a peneira.

RECIPROCIDADE

Sou teu fã.
Sou teu afã. 

terça-feira, 9 de setembro de 2014

FIM DE SEMANA

A vida traz o encontro.
O encontro pode trazer o amor.
O amor pode trazer a união.

Vamos nos encontrar hoje à noite?... 

CASA

Em mãos,
um livro:
ler é lar. 

APERTO

O sapato é novo.
Vinda do pé castigado, 
brada a voz insistente: 
“Não me calo”. 

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O TUCANO É UM ANIMAL POLÍTICO

Tenho fotografado a fauna e a flora do Cerrado desde 2004. De algumas espécies, aprendi, mediante observação, alguns hábitos. O fotógrafo de natureza acaba se tornando uma espécie de etólogo amador; a etologia estuda o comportamento dos animais.

A vida dos tucanos não é fácil. Algumas pessoas matam essas aves, sob a justificativa de que elas se alimentam de ovos e de filhotes de outras espécies. Se por um lado isso é verdade, por outro, deveria haver a compreensão de que os tucanos não comem os filhotes de outras aves por maldade; eles não deveriam ser mortos por obedecerem ao ciclo da natureza.

Nesse caso, a maldade atribuída a eles é, na verdade, de quem os mata. Além do mais, conforme o que tenho observado ao longo dos anos, os tucanos sofrem perseguições severas de tesourinhas e de bem-te-vis. Repare no voo dos tucanos; você perceberá que muito frequentemente são acossados por outras aves, as quais, por certo, estão preocupadas com suas crias.

Não bastassem esses certames por que passam os tucanos, há uma espécie em Minas Gerais que padece de outros problemas. A ave não foi ainda devidamente catalogada por cientistas; sabe-se, em contrapartida, que o espécime mineiro tem por hábito censurar e atacar quem dele discorda.

Pesquisadores já entenderam que um dos estratagemas da espécie é se fazer de vítima. Diz que é atacado; a seguir, ataca. Os que estudam esse tipo de tucano afirmam que essa retórica passou a ser adotada quando a ave percebeu que nem todo mundo em Minas Gerais (e no Brasil) é lacaio de seus caprichos e pitis. 

Há uma reação que não presenciei, mas é algo que já me foi relatado por colegas fotógrafos: quando confrontado ou criticado, a ave, em vez de argumentar, eriça as penas, arvora-se, infla-se de aparente senso de justiça e processa quem dele discorda. Depois, segundo colunistas sociais cariocas, o tucano vai para o Rio de Janeiro. De acordo com biólogos, esse comportamento deve ocorrer pelo fato de o tucano não se adaptar bem com a suposta pacatez das noites mineiras.

Há estudiosos que não descartam a possibilidade de que a espécie tem agido com estardalhaço por se sentir ameaçada nos combates em que depende da aprovação de terceiros. Seria, ainda de acordo com os eruditos, uma cartada desesperada para não ser preterido de vez. Nada disso, contudo, está provado.

Enquanto isso, cientistas e fotógrafos continuam observando a criatura. Trabalhando em conjunto, vão, aos poucos, organizando os dados. Os profissionais concordam que em breve ter-se-á uma noção mais ampla da espécie. Do que foi analisado até agora, já foi deduzido que o tucano pesquisado abomina sobrevoar trechos de Serra. 

BICHO DO MATO

Acabei indo parar no asfalto.
Minha civilidade é torta.
Tem cheiro de poeira.
Tem jeito de Cerrado.
Não me acostumo com gente.
Sempre volto para o mato.
A saudade é da mata. 

domingo, 7 de setembro de 2014