quinta-feira, 24 de julho de 2014

NO ESCURO

Ver, 
no mais das vezes, 
é distrair-se. 

Fecho os olhos, 
produzo escuro. 

Não olhar é outro modo 
de se maravilhar. 

A DOIS

É preciso maravilhar-se. 
Por isso, quero-te aqui. 
Maravilhados e tarados, 
faremos maravilhas. 

terça-feira, 22 de julho de 2014

"AI SE EU TE PEGO"

SINTONIA FINA — EDIÇÃO 26


Pessoas, no ar, após longo hiato, mais uma edição do Sintonia Fina, programa musical apresentado e editado por mim. Abaixo, a seleção musical.

Conto com sua audiência.
_____

Mr. Probz — Waves
John Mayer — XO
Fagner e Zeca Baleiro — Três irmãos
Morten Harket — Darkspace
Heróis da Resistência — Esse outro mundo
Daft Punk— Loose yourself to dance
Vinícius Cantuária — Somos todos índios
Playing for Change — Stand by me
Raimundos — Selim 

segunda-feira, 21 de julho de 2014

EM DOBRO

De ti, há em mim duas saudades.
Há a saudade do que és.
Há ainda uma outra, 
que é a saudade de teus talentos.
É assim meu jeito de sentir
falta de tudo o que vem de ti. 

ASSISTINDO DE CAMAROTE

Foi transmitido ao vivo pela CNN: do alto de uma colina, israelenses vibraram quando um míssil atingiu Gaza: na era do entretenimento, a guerra se tornou espetáculo a ser conferido ao vivo. Para conferir o vídeo, clique aqui.

A repórter, Diana Magnay, havia tuitado que os israelenses, além de vibrarem enquanto o míssil atingia Gaza, ameaçaram destruir o carro da emissora caso a repórter falasse algo indevido. A postagem foi deletada, embora já tivesse sido reproduzida via internet. 

PASSEIO FOTOGRÁFICO

Ontem e anteontem, tive o prazer de sair para fotografar com os amigos Alexandre e Andressa. Além das risadas, tivemos oportunidades para fazer vários registros. Desde já, fico no desejo de que outros passeios fotográficos venham, meus caros. 

Neste álbum, algumas das fotos que tirei. Algumas, feitas nos arredores de Patos de Minas. Também fomos a Lagoa Formosa, onde tirei as fotos dos patos.
















sábado, 19 de julho de 2014

ENCONTRO

Não sei se estou lúcido por ter me achado 
ou se me achei por estar lúcido. 
Não sei o que levou a quê.
Do que sei, é que achamento e lucidez
me conduziram ao que sou. 

sexta-feira, 18 de julho de 2014

UM OLHAR SOBRE O BRASIL RECENTE


A editora Geração tem feito um louvável trabalho de cidadania, publicando livros que desmascaram os engodos e preconceitos dos adeptos do neoliberalismo. É da Geração, por exemplo, o imprescindível “A privataria tucana”, escrito por Amaury Ribeiro Jr. O autor disseca a chamada Era das Privatizações, capitaneada por FHC e José Serra. Nem é preciso dizer que o livro não recebeu a devida atenção dos gigantes da mídia.

Prosseguindo em sua corajosa postura, a Geração também lançou “Dez anos que abalaram o Brasil. E o futuro?”, de 2013, escrito por João Sicsú, professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A obra é uma radiografia de o quanto o Brasil melhorou desde o primeiro mandato de Lula. Sicsú é contundente não pelo tom incisivo, mas pelos dados acachapantes que apresenta. Olhando o passado, o autor arrisca um futuro.

Apesar das previsões que faz, o livro, conforme o que o próprio Sicsú escreve, é um registro histórico no sentido de que houve a preocupação maior em registrar os fatos, os dados, e não a versão interesseira destes, divulgada diariamente pelo que o autor chama de barões da mídia. Mesmo em não se confirmando as previsões de Sicsú, “Dez anos que abalaram o Brasil. E o futuro?” é um belo documento de um Brasil que deu certo, mas que é perversamente ignorado, todos os dias, pelos meios de comunicação poderosos.

O livro é escrito com didatismo e com incisiva simplicidade; não tergiversa ao discorrer sobre o preconceito com relação aos milhões de pobres que passaram a ser consumidores nos governos de Lula e de Dilma: “Os novos trabalhadores são socialmente discriminados. São olhados com desconfiança quando adentram os aeroportos com malas de baixa qualidade e com sacolas plásticas nas mãos. Os barões da comunicação estimulam a discriminação quando descrevem seus representantes como usuários de roupas vulgares, que não têm o bom gosto dos ricos”.

Trabalhos como o de Sicsú são históricos não somente por mostrar o que o governo petista fez de bom desde quando assumiu o poder, não somente por oferecer uma possibilidade outra que não seja a que é disseminada pelos conglomerados de mídia. O livro, ainda que essa não tenha sido a intenção do autor, é um tributo não somente ao PT, mas ao povão brasileiro. Um povão que teve sua chance, que tem aprendido que também são de seu direito as riquezas do país. 

NA NATUREZA

Tenho aproveitado o recesso do trabalho para fotografar. Eis mais quatro registros feitos recentemente.




A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (77)


Estas flores, embora tenham cores distintas, pertencem ao mesmo pé. Indo para o trabalho, eu sempre reparo nelas; num dia desses, parei em frente à casa em que estão, com a intenção de chamar por algum morador. Mesmo antes de eu elevar a voz, um senhor surgiu (infelizmente, não me ocorreu perguntar o nome dele). Com gentileza, ele me permitiu fotografar a espécie, que não sei identificar...

P.S.: conforme comentário deixado na postagem, o nome da flor é  manacá--da-serra; o nome científico é Tibouchina mutabilis. Grato a você, taxonomiSTA, pela informação. ;) 

quinta-feira, 17 de julho de 2014

A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (76)





Cheguei há pouco lá do Bairro Copacabana, lugar a que fui para fotografar. Quando já estava vindo embora, eu me deparei com este portentoso gavião pousado sobre um poste. Com cuidado, parei a moto e manejei com a maior sutileza possível o equipamento fotográfico, a fim de não espantar a ave; comecei então a fotografar.

O gavião colaborou, de modo que pude tirar dezenas de fotos dele enquanto esteve no poste. Quando decidiu decolar, pensei que ele fosse para longe. Todavia, percebi que se eu avançasse por duas esquinas, eu poderia tentar registrá-lo durante o voo. Avancei.

Tive então a oportunidade de fazer alguns registros enquanto ele desfilava pelo céu a exuberância que tem. Enquanto eu fotografava, o gavião ia subindo cada vez mais. Foi subindo, subindo, até se tornar apenas um minúsculo ponto a mergulhar na imensidão azul. 

FOTOPOEMA 355

FOTOPOEMA 354

ROTAÇÃO

O mundo dá voltas.
Ela volta.
Envolta em saudade.
Sem revolta.

Nem mágoa
nas mãos.
Nem água
nos olhos. 

quarta-feira, 16 de julho de 2014

FORA DE CAMPO

Em maio deste ano, a presidente Dilma Rousseff convidou jornalistas esportivos para um jantar. Eram eles: Juca Kfouri, Paulo Calçade, Renato Maurício Prado, Mauro Beting, Milton Leite, Tino Marcos, Paulo Sant'Anna, Téo José, Renata Fan e Paulo Vinícius Coelho. Segundo o que Coelho, o PVC, escreveu, Dilma queria escutar os jornalistas.

Posteriormente, a presidente também se reuniu com integrantes do Bom Senso F.C., grupo de jogadores que apresentam propostas de mudanças no modo como o futebol brasileiro é gerenciado pelos cartolas. Depois do fiasco do Brasil na Copa, nova reunião da presidente com o pessoal do Bom Senso deve ocorrer.

Sobre o jantar realizado em maio, PVC escreveu que houve um momento em que o jornalista Juca Kfouri perguntou para a presidente como seria sentar-se, na abertura da Copa, ao lado de José Maria Marin, o presidente da CBF. Marin, em discurso de 1975, elogiou o delegado Sérgio Paranhos Fleury, torturador de Dilma durante o regime militar.

Segundo PVC, a resposta da presidente para a pergunta de Kfouri foi esta: “‘Nós ganhamos! Eu posso contar a todos os meus familiares o que fiz e eles não podem. A verdade é que nós ganhamos!’”.

Aécio Neves, por sua vez, dá-se bem com o pessoal da CBF. O candidato a presidente do Brasil homenageou o manda-chuva da Confederação Brasileira de Futebol, segundo o que foi divulgado pelo blogue de Juca Kfouri no dia onze de julho. Ainda de acordo com o blogueiro, Aécio disse que o Brasil não precisa de uma “‘Futebras’” (não precisa mesmo). Mas não é essa a proposta do Bom Senso F.C.

Com Aécio homenageando um sujeito como o Marin e sendo amigo de baladas de Ricardo Teixeira, não precisa ser gênio para saber que o tucano, se eleito, não está disposto em ser interlocutor de um diálogo que proponha mudança na pasmaceira e no amadorismo do futebol brasileiro. 

COISAS

Há tantas coisas para serem tidas.
Há tantas coisas para serem lidas.
Há tantas coisas para serem lindas.
Coisas em si, faço-as coisas em mim.
Nós somos, por fim, coisas em sim. 

terça-feira, 15 de julho de 2014

segunda-feira, 14 de julho de 2014

CONVITE

Somos 
adultos, 
sensatos, 
comedidos, 
racionais.

Por um triz, 
não morremos de 
bom comportamento.

Esquece todo esse povo 
e toda essa lógica.
Joga fora as réguas, 
perde o compasso.
Vem urrar comigo 
ao som da mata escura. 

VAI QUE É SUA, GALVÃO!

A Copa terminou, mas um último comentário ligado também ao torneio: num tempo em que não havia TV por assinatura, ou quando tê-las era caro demais (felizmente, a assinatura delas não é mais privilégio de ricos), muitas vezes eu não tinha outra alternativa a não ser escutar o Galvão Bueno.

Ainda assim, não raro, eu tirava o volume da TV e escutava a transmissão por alguma rádio. Para não escutar o Galvão, tudo valia a pena. Às vezes, mesmo sem rádio, eu tirava o som da TV.

Com a popularização das TVs por assinatura, passei a escolher transmissões em que não havia Galvão Bueno. Há anos não acompanho uma transmissão dele; contudo, lamento ter de acompanhar o campeonato brasileiro pelo Sportv, que é da Globo.

Nos tempos em que eu assistia ao futebol pela Globo, pude escutar Galvão dizendo que a Alemanha jogava algo parecido com futebol, algo que lembrava futebol. Não estou certo, mas creio que com isso ele queria dizer que o futebol alemão tinha força, mas não tinha graciosidade, improviso. Em suma: um jogo “engessado”.

Nada como um dia após o outro; nada como um ano após o outro; nada como uma década após a outra. Klose bateu, diante de Galvão e de Ronaldo, o recorde de gols feitos por um jogador em copas do mundo. Nesse mesmo dia, a Alemanha fez sete gols no Brasil. Fosse Galvão espirituoso ou caso se permitisse um quê de rebeldia fora do padrão da Globo, ele poderia ter dito que hoje em dia o Brasil joga algo parecido com futebol. 

domingo, 13 de julho de 2014

CARTA NA PIAUÍ

A seção de cartas da revista Piauí é uma diversão, graças às respostas que a publicação bola para o que os leitores enviam. Há algum tempo, enviei carta para eles. Publicaram-na nesta edição de julho da revista. Abaixo, o que escrevi; a seguir, a bem-humorada resposta deles.
_____

Minha carta:

As cartas da Piauí são o máximo, bem como as respostas a elas. Assim, na esperança de ser publicado pela revista, declaro: quero trabalhar na Piauí. Se o emprego não me for dado, pelo menos terei sido publicado pela revista.

Resposta da revista:

Realizar 50% dos sonhos é uma boa média. 

GRATULATION!

Carisma, gentileza, organização, planejamento, hombridade, disciplina e correção do que estava errado dão resultado: o mundo tem um novo campeão mundial. 

PRONTIDÃO CASEIRA

Moro em mim.
Minha casa é onde estou.
Fazendo o cotidiano, cuido da morada.
Vai que num dia desses resolves me visitar. 

sexta-feira, 11 de julho de 2014

CAMINHADA

Não há nenhum passo meu 
que não queira saber: 
por onde andas?... 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

ALEMANHA x ARGENTINA

Fui sempre fã do futebol argentino; se há uma coisa que eles sabem fazer é jogar futebol. Também fui sempre fã do Maradona; ele é um rebelde que está longe do politicamente correto por vezes hipócrita e “limpinho” demais que grassa pelo mundo afora. Além do mais, eles têm Borges...

Estivesse a Argentina decidindo a Copa contra qualquer outro país (com exceção do Brasil, é claro), eu torceria por ela. O “problema” desta vez são a gentileza, o carisma, a civilidade e a nobreza da seleção alemã. Junto a torcedores, cantaram o hino do Bahia; na partida contra o Brasil,  portaram--se com altivez; Podolski divulgou uma bela homenagem ao povo brasileiro... Não há como haver dois ganhadores? 

TIMBRE

O pensamento de uns tem forma.
O pensamento de outros tem forma.

Qual a forma do seu?
Você está em forma? 

quarta-feira, 9 de julho de 2014

PRÊMIO NOBEL PARA RONALDO

Ronaldo, vulgo Fenômeno, postou no Instagram um texto em que se lê:

“PRÊMIOS NOBEL

“ALEMANHA 102
“BRASIL 0

“E você acha que 7 x1 foi goleada?”.

De antemão: o futebol é disputa; o prêmio Nobel, não. Além do mais, o povo de um país não deve ser julgado pela quantidade de prêmios Nobel que esse país detém: não bastassem as questões políticas que podem permear uma premiação ou outra do Nobel, o fato de o Brasil não ter nenhum laureado não significa incapacidade da população. O brasileiro é tão capaz quanto qualquer pessoa de qualquer nacionalidade. Se não temos um Nobel, isso se deve muito mais a questões históricas do que à falta de talento de nossa gente.

Na literatura, que é uma área de que dou notícia, Drummond, João Cabral, Guimarães Rosa, Bandeira ou Lúcio Cardoso, só para ficar em alguns exemplos, poderiam ter sido agraciados com o prêmio. Ronaldo, que foi um craque em campo, não sabe disso. Exatamente por isso, não deveria ter propagado piada (sem graça) sobre aquilo de que nada entende.

Por fim, há algo que me soa estranho: Ronaldo foi jogador de futebol. A piada ruim e sem criatividade divulgada por ele diz respeito a algo que ocorreu com colegas de profissão dele. Além da burrice da postagem, a atitude do ex-jogador revela uma profunda falta de ética e de solidariedade para com os colegas de profissão. 

SETE A UM

Chorei quando o Brasil perdeu para a Itália, na Copa de 82. Nasci em 1970. Eu tinha onze anos quando assisti aos três gols do Paolo Rossi. Na época, eu nada sabia de futebol. De qualquer modo, foi triste assistir àquela derrota. Terminada a partida, eu estava inconsolável.

Depois disso, cresci com a impressão de que eu nunca teria o privilégio de presenciar o Brasil ganhar uma Copa do Mundo. Quando veio o título em 94, vibrei muito. Depois, veio o de 2002. (Eu também pensava que nunca veria o Cruzeiro ser campeão brasileiro. Em 2003, eu estava no Mineirão quando da vitória sobre o Paysandu.)

Não sei o que um garoto que tem hoje onze anos vai pensar sobre o futebol quando tiver quarenta e três, idade que tenho agora. Repito-me: chorei em 82; tenho vívidas lembranças daquele time. A derrota deles foi bonita. À medida que fui crescendo, fui me inteirando das maracutaias no futebol. Fifa e CBF fizeram com que eu fosse me entusiasmando cada vez menos pela seleção.

Tanto foi assim que houve certa apatia tanto na derrota de 98 quanto na vitória de 2002. Neste 2014, no jogo de ontem, não houve apatia: fiquei pensando no fio histórico que levou à derrota no Mineirão. Todo mundo sabe que a seleção estava jogando mal; ainda assim, como estava avançando no torneio, ficava no torcedor a expectativa, ainda que pálida, por algum título.

O que ocorreu ontem é consequência do que a CBF causou ao futebol brasileiro. É a prova de que não há talento que resista à má gerência feita pela cartolagem. A derrota para a Alemanha não anula o talento que o jogador brasileiro tem. Todavia, sempre chega o momento em que não há espaço para o improviso. O esporte e a vida como um todo provam que o talento por si nada assegura.

Falar de Felipão ou de Fred é ser imediatista, mesmo tendo eles e outros sido ridículos. A seleção brasileira desta Copa é resultado da má condução do futebol brasileiro há décadas. Lembro-me de ter lido, salvo engano, em 2007, matéria numa revista em que fizeram breves perfis de brasileiros que se destacavam em suas áreas. Ricardo Teixeira era mencionado no texto da revista. 

Já nessa época, a atuação de Teixeira na CBF era contestada. Segundo a revista, mesmo assim, Teixeira não poderia deixar de ser visto como um vitorioso, pois era comandante do futebol que tem cinco Copas na história.

O erro da matéria é que o futebol brasileiro é pentacampeão não por causa de gente como Ricardo Teixeira, mas apesar de gente como Ricardo Teixeira. O futebol brasileiro é pentacampeão não por causa de pessoas como João Havelange, mas apesar dele e dos acólitos dele.

Uma derrota como a do Mineirão evidencia o modelo doente da CBF, que tem a Rede Globo como parceira e divulgadora. A emissora, travestida de falso patriotismo, sempre esteve ao lado da entidade que manda no futebol brasileiro. A emissora é acrítica, asséptica, prejudicial. Globo e CBF têm como objetivo único o lucro. Uma das mercadorias de que se valem tem vinte e dois atletas em campo.

Episódio como o ocorrido em Belo Horizonte deveria servir para que o futebol brasileiro fosse reformulado. O vexame no Mineirão é a consequência, é o auge de desmandos vergonhosos, desonestos, estritamente financistas, sem planejamento. O futebol brasileiro poderia ser outro desde ontem. Mas a CBF não vai deixar. Nem a Globo.

É claro que não há como eu saber o que se passou pelas cabeças dos alemães quando já haviam construído a goleada. A impressão com que fiquei foi a de que, em nome de uma certa nobreza ou de um certo espírito esportivo, pegaram leve no segundo tempo. Reagiram com brilho tanto no campo quanto fora dele, durante as entrevistas.

Não sei como o futebol alemão é gerenciado. Do que sei, é que temos muito a aprender, não somente com os alemães, mas com aqueles que colocam em campo um futebol que é pensado muito antes de o árbitro soar o apito para que comece a partida. Algumas derrotas são vexaminosas. A de ontem, no Mineirão, foi. Vexaminosa e merecida.

Mauro Cezar Pereira, da ESPN Brasil, antes do jogo contra a Colômbia, escrevera que à parte o que a seleção brasileira alcançasse na Copa, o torneio já mostrava a derrota do futebol nacional. Sim, a derrota de ontem não foi a derrota de um time: ontem, toda a ganância, toda a desonestidade e todo o mau planejamento fracassaram.

Simon Kuper, do Financial Times, escreveu, antes do jogo de ontem, referindo-se ao astral do povo do Brasil, que “deveríamos engarrafar o sentimento brasileiro e reutilizá-lo na Copa da Rússia, em 2018, e no Qatar, em 2022”. Uma pena que a CBF e a Globo não estão dispostas a engarrafar um compromisso real com o futebol e trazer um comprometimento assim para cá. 

segunda-feira, 7 de julho de 2014

PALAVRA POR PALAVRA

Não gosto da ausência de palavras.
A palavra é para estar aqui quando eu dela precisar.
A palavra é para obedecer, para existir, 
para fazer haver o que não havia.
Não gosto da ausência de palavras:
nem toda palavra é barulho ruim,
nem todo silêncio é sabedoria.
Não gosto de ficar sem palavras.
Meu ato é palavra.
Quando me transformo em palavra, sou melhor. 

PRESIDENTE DILMA NO FACE TO FACE

Clicando aqui, você confere o Face to Face realizado com a presidente Dilma, hoje pela manhã, via Facebook. 

sexta-feira, 4 de julho de 2014

JUAN ZUÑIGA

Acompanhei pela ESPN uma breve entrevista com o jogador colombiano Juan Zuñiga. Ele foi quem fez sobre Neymar a falta que tirou o brasileiro da sequência da Copa. Como esperado, Zuñiga disse que não era sua intenção nem machucar nem tirar Neymar da Copa.

De fato, é sensato supor que não era intenção do colombiano tirar o brasileiro da Copa. Contudo, a entrevista de Zuñiga para a ESPN me incomodou. O jogador me pareceu frio demais, mesmo sabendo que o atacante brasileiro está fora da Copa.

Zuñiga afirmou que estava defendendo o time dele. Compreendo que o clima em campo é quente, que uma atitude destemperada pode ser tomada. Não acredito que o jogador tenha agido por maldade contra Neymar. Ainda assim, a entrevista foi depois de ele ter passado algum tempo no vestiário, com os ânimos quentes supostamente aplacados.

Posso estar sendo injusto com Zuñiga. Pode ser que ele esteja condoído por ter tirado um jogador do mundial. Mas, confesso, não foi com essa sensação que fiquei. Pareceu-me que o jogador colombiano não estava falando de um colega de profissão. A rigor, eu o achei com um ar “blasé”, senti nele falta de espírito esportivo. Que eu esteja enganado. 

NAS GERAIS

Os ares.
Os bares.
As gares.
Os lares.
Os pares.

Os mares,
Minas não os tem.
O que não está 
na geografia, 
no poema está. 

GENTE

Gente que gosta de matemática, de política, de tocar violão.
Gente que é pontual, que lê muito.
Gente que gosta de preto, de amarelo, de branco.
Gente que gosta da Europa, da África, de São Tomé das Letras.
Gente que se quer melhor para melhorar outras gentes.
Gente que aprende, que se aceita, que percebe o encanto no outro.
Gente que se dá bem com pobre, com rico.
Gente que mergulha no passado, que assunta no presente.
Gente que é elegante de chinelo ou de terno. 

TENTATIVA DE FUGA

As pessoas se encontram, as pessoas começam a conversar.
Vem aí mais uma história de amor querendo ser contada.
Amor de verdade, os amantes não conseguem represar.
Podem  se calar, podem se esconder, podem fugir para Barranquilla.
Debalde: amor de verdade dribla a pele, escapa pelos olhos.
As digitais que deixas agora no teclado denunciam amor que flui.
Um amante resiste a outro, silencia o que cada passo conta.
Numa dessas esquinas, um amor decide não chegar ao outro. 
O amor não se perturba: todo amante exala o amor que tem. 

quinta-feira, 3 de julho de 2014

BUSCA

Um outro verso, um espelho menos impiedoso, 
uma disciplina melhor, uma leveza sem vincos na fronte.
Amigo de mim mesmo, buscar um passo mais leve.
Tirar de meus ombros o peso que eu mesmo me obrigo a carregar. 

BRASIL x ARGENTINA?

Há quem esteja desejando uma final para a Copa entre Brasil e Argentina. Por um lado, seria grandioso, épico, mas... hum... não sei... É que o Oscar Wilde já me ensinara: “Quando os deuses querem nos punir, respondem às nossas preces”... 

segunda-feira, 30 de junho de 2014

PARA NÓS

Quando há comunhão, 
as coisas fazem sentido.
Pode haver sentido 
à noite ou 
às dez da manhã.

Quando há comunhão, 
as coisas fazem sentido.
Pode haver sentido 
na multidão ou 
no silêncio único do quarto.

Quando há comunhão, 
as coisas fazem sentido.
Existe comunhão aqui, agora. 
Quero que ela seja tua também.
As coisas fazem sentido 
quando a comunhão é partilhada. 

ALEMANHA X ARGÉLIA

Que bom que a vida me deu a chance de estar vivo para assistir a uma partida como a realizada há pouco, em Porto Alegre, entre Alemanha e Argélia. 

sexta-feira, 27 de junho de 2014

CONCRETO

A poesia não precisa do amor.
O amor não precisa da poesia.
Mas se o amor desemboca em poesia,
ou se a poesia ornamenta o amor,
então a palavra habita o corpo. 

SEM GRAVATA

Leio no Pragmatismo Político que parte da elite uruguaia não aprova o governo de Mujica. Isso não surpreende, bem como não surpreende o tipo de “raciocínio” de que se valem para criticar o estadista. Num dos camarotes de estádio da Copa do Mundo, o seguinte “argumento” contra Mujica foi proferido: “Ele não usa gravata, não tem presença para representar o país”... 

terça-feira, 24 de junho de 2014

QUARENTA E TRÊS

Mondragon: realismo mágico. 

CAIMENTO

Meteoro,
granizo, 
chuva,
raio, 
neve, 
gente: 
as coisas 
caem do céu. 

segunda-feira, 23 de junho de 2014

CADENTE

A estrela risca a escuridão.
Fecho os olhos,
faço o pedido — 
ciente de que as coisas 
não caem do céu. 

EM CORES

Já não sabe de si. 
Coração dispara, 
adolescente aos 
quarenta e três.
A boca, fascinada, tem, 
na baba, as cores do arco-íris. 

SOU O QUE LEIO

Meu jeito de ser é profundamente influenciado pelas leituras começadas na adolescência. Se por um lado me dediquei a livros para os quais eu ainda não estava pronto, por outro, essas mesmas leituras deixaram marcas indeléveis. É claro que não sei como eu seria se não tivesse havido tais leituras, mas não consigo me imaginar sem elas. Não sei o que há de sorte nem o que há de mérito nas escolhas de leitura que comecei a fazer por volta dos doze, treze anos. Do que sei, é que agradeço à vida por essas leituras terem existido.

Não estou certo de onde vem meu interesse por biografias. Pode ser que ele seja consequência das leituras que comecei a fazer sobre o Renascimento. Quando dessas leituras, eu não tinha a dimensão histórica; o que me fascinava era somente o ecletismo, a diversidade de tarefas a que os gênios do período se dedicavam. Esse fascínio acabou me levando a não engavetar o conhecimento, levou-me a valorizar tanto a arte quanto a ciência, a buscar uma mescla das duas. Ainda bem jovem, adquiri o que chamo de senso de ecletismo.

Enquanto eu devorava biografias (tendo adquirido gosto pelo gênero, passei a ler não somente sobre os renascentistas), certo dia eu me deparei, no trabalho, com uma velha revista de divulgação científica. Uma das matérias que compunham a publicação se chamava “Gênios idiotas”: era sobre pessoas que têm uma enorme habilidade mental para determinada tarefa (fazer cálculos complexos de cabeça, por exemplo), mas que se embaralham diante de tarefas simples. Outra matéria discorria sobre a memória.

Eu nunca soube o nome da revista, que não tinha capa nem contracapa; as páginas internas não continham identificação. Até há bem pouco tempo essa revista estava em meio a velhos papéis; não sei onde pode estar agora. De qualquer modo, a gana por esse tipo de leitura se esbaldou quando a revista Superinteressante foi lançada. Por anos fui leitor do periódico, que eu aguardava com ânsia e devorava com fervor. Paralelamente, eu prosseguia com a leitura de biografias. Passei a ler a coleção O pensamento vivo, publicada pela Martin Claret. Meu primeiro contato com Borges foi por intermédio dessa coleção.

Meu pai tocava violão, gostava de escutar rock. Cresci ao som de Beatles, Led Zeppelin, Pink Floyd... Na adolescência, tendo já sedimentado o gosto pela leitura, foi natural, em função da convivência com a música, que eu acabasse tendo contato com a revista Bizz, que também li com entusiasmo por anos e anos. A leitura da Bizz e da Superinteressante acabaram fazendo com que eu me tornasse também um leitor de revistas. Atualmente, leio a Piauí. Da leitura de periódicos, de biografias, de filosofia e de literatura veio o que chamei de senso de ecletismo.

Ao mesmo tempo, um outro senso ia se formando, solidificando-se: chamo-o de senso de rebeldia. Eu o devo também às leituras: não venho de estirpe rebelde, contestadora. Não me lembro, por exemplo, de meu pai criticar a ditadura militar, embora também não me lembre de ele a elogiar. Mesmo procurando estar informado, principalmente escutando rádio, meu pai não me parecia interessado em política. Se era, esse interesse não transparecia em casa. Pelo menos por aqui, o que o absorvia era mesmo a música.

Todavia, o senso de rebeldia a que me referi não é estritamente, digamos, político. Num sentido amplo, é bem verdade que toda ação pode ser interpretada como sendo política; ainda assim, desde cedo foi se esboçando em mim uma desconfiança dos meios de comunicação (desconfiança essa que é maior do que nunca), das versões ditas oficiais e do comportamento das turbas, que não raro são produto do que a mídia determina. O que considero rebeldia está mais interessado na "sujeirinha", na imperfeição, mais ligado na “nódoa no brim”, expressão com que Bandeira definiu a poesia. Na adolescência, ler sobre e escutar o legado de gente como Renato Russo ou Ian Curtis intensificaram essa rebeldia.

Há por fim o que chamo de senso do belo. Eu o devo graças à convivência com a ciência, com a filosofia, com a ficção e com a poesia. Ensinaram-me o cosmopolitismo, deram-me a capacidade de me espantar com sutilezas, de não hierarquizar as áreas do conhecimento, de entender que em essência somos os mesmos. Desde quando eu era bem jovem, a literatura e a filosofia me incutiram uma ideia de coletividade, de pertencimento. A rigor, esse pertencimento poderia ser outro senso, mas o deixo como consequência do senso do belo. Existe beleza em constatar que “as pessoas são as mesmas aonde quer que você vá”, como na letra de “Ebony and ivory”.

Não exagero se digo que sou resultado do que tenho lido. O que sou, o que penso e o que faço são consequências de minha convivência com as palavras, que me deixam mais lúcido, que fazem com que eu fique de bem comigo mesmo, aceitando-me sem comodismo. Não deletei utopias. À medida que a gente vai envelhecendo, vai ficando cada vez mais com os pés no chão, o que é benéfico. Mas, graças à convivência com livros, não joguei fora a rebeldia que é sonhar. 

domingo, 22 de junho de 2014

QUASE

Afia a faca — vida por um fio.
Em momento cortante, 
o gume se rende. 

CLAROESCURO

Qualquer luz 
é uma espécie de luz do dia. 

Mas pode haver clarividência 
no que imita a noite. 

sábado, 21 de junho de 2014

ANAGRAMAS

O aroma da amora,
o pardo prado.
O quarto, o quatro.
Lidar com o ardil,
o caos, o caso:
coisa ciosa.

O poder podre.
Escalo a escola.
Lavo o alvo,
a lava alva.

Algo, lago, Olga;
usada, suada.
Salta no atlas.
É dia, é ida.

Lato alto.
Pena, pane.
Nado na onda.
Misto de istmo.

Revelar, relevar.
Eu queria — queira.
Alegria, alergia.
Temi o time,
a alma na lama.
Na sala, alas.
Anda, nada.
O ator na rota.

A lata é alta.
Nela, anel.
Aram, Mara.
No ramo, amor.
Usar, suar,
soar raso.
No solo, em Oslo.
Luar, Raul.
Assim, missa.

O atol lota.
Gato em toga,
gato em gota.
Ave, Eva!
O gelo, o gole.
Tanto e tonta.

Ando na onda.
O faro, o fora.
Garça e graça.
O parto é porta,
a pedra é perda.
Orar é raro.
Rubro rubor.
O fruto do furto
em torno do trono. 

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The record is getting Klose.
The record is getting, Klose. 

TIRANDO O CHAPÉU

Tendo saído para fotografar, eu me deparei com este chapéu no mastro de uma cerca. Não haveria como não fazer os registros.


É VERMELHO, CONSTANTINO

É preciso ser um grande artista ou ser muito inteligente para fazer com que paixões, ódios ou ranços não destruam um texto. O Rodrigo Constantino, da Veja, até agora, não deu provas de ser um grande artista. E deu provas de que não é muito inteligente.

Escreveu ele que o logotipo da Copa do Mundo, com o “2014” em vermelho, seria propaganda subliminar para o PT. O colunista tornou-se motivo de chacota. Segundo o Pragmatismo Político, Vincent Bevins, do Los Angeles Times, fez piada com o colunista da Veja.

Ainda segundo o Pragmatismo Político, o logotipo é uma criação da agência África. Integravam a equipe que escolheu a arte com o “2014” em vermelho: o presidente do Comitê Organizador Local da Copa (COL), Ricardo Teixeira, o secretário da Fifa, Jerome Valcke, Oscar Niemeyer, Paulo Coelho, Ivete Sangalo, Gisele Bündchen e Hans Donner.

Num tributo à neura do Constantino, posto, abaixo, a letra de “Vermelho”, composição de Chico da Silva. A canção foi um grande sucesso na voz da Márcia Freire. A Fafá de Belém também a gravou. Há ainda, pelo menos, uma outra gravação que já escutei, embora não me lembre com quem (lembro-me de que era voz masculina).
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Vermelho (Chico da Silva)

A cor do meu batuque
Tem o toque, tem o som da minha voz
Vermelho, vermelhaço, vesmelhusco
Vermelhante, vermelhão
O velho comunista se aliançou
Ao rubro do rubor do meu amor
O brilho do meu canto tem o tom
E a expressão da minha cor (vermelho)

A cor do meu batuque
Tem o toque, tem o som da minha voz
Vermelho, vermelhaço, vesmelhusco
Vermelhante, vermelhão
O velho comunista se aliançou
Ao rubro do rubor do meu amor
O brilho do meu canto tem o tom
E a expressão da minha cor (meu coração)

Meu coração é vermelho
De vermelho vive o coração
Tudo é garantido após a rosa avermelhar
Tudo é garantido após o sol vermelhecer

Vermelhou no curral
A ideologia do folclore avermelhou
Vermelhou a paixão
O fogo de artifício da vitória avermelhou