Torci pelo Atlético. Não por acompanhar de perto ou com fervor o futebol europeu: foi muito mais no astral de quem torce pelo time supostamente mais fraco. O empate do Real, já nos acréscimos do segundo tempo, foi uma hecatombe para o Atlético, que se desfez emocionalmente. No fim da prorrogação, também estava fisicamente moído.
sábado, 24 de maio de 2014
REAL CAMPEÃO
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A-HA!
Tenho a impressão de que o A-Ha será ainda reconhecido como o que é: uma das grandes bandas do pop. Parece-me que às vezes são encarados como mais uma daquelas “boy bands” que assolam as FMs de vez em quando; não me parece ser o caso. O trio norueguês grudava, sim, nas rádios, mas suas canções mostravam que a música feita para tocar no rádio e render turnês pode ser deliciosa e se manter pulsante; não os vejo como modismo de estação. Com canções leves, melodiosas e interpretadas por um estupendo vocalista, o A-HA merece estar no panteão do pop.
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A LITERATURA SERVE PARA QUÊ?
Há aproximadamente quatro anos, Flavia Wagner foi sequestrada e mantida refém no Sudão por cento e cinco dias. Nesses momentos de angústia, ela conta, em emocionante relato, que um livro de García Márquez foi o que a manteve esperançosa. O texto, em inglês, está aqui.
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O VINIL DA PLEBE
Nunca fui dos que acham que o passado era melhor do que o presente. Ainda assim, ontem à noite, num bar, assim que recebi o cardápio, senti saudade: é que ele imitava um disco de vinil. De imediato, foi como se tivessem vindo à tona os milhares de vinis que manejei.
Com o cardápio em mãos, o que tomou conta de mim foi uma memória tátil. Revivi com exatidão o prazer que era pegar o LP, retirar com esmero o disco, segurá-lo, reparar nos sulcos, colocá-lo no prato e fazer com que a agulha despertasse a música. Depois, retirá-lo, inseri-lo novamente no fino plástico de proteção e guardá-lo para uma próxima audição.
Enquanto eu manejava o cardápio do bar, ocorreu-me que algumas pessoas têm convivência tátil muito forte com livros. É que, segurando o cardápio, o que eu tive mesmo foi saudade de acariciar um vinil. Estou em casa agora. Ao mesmo tempo em que digito, tenho em mãos o LP “Nunca fomos tão brasileiros”, do Plebe Rude.
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sexta-feira, 23 de maio de 2014
FUNES E SACKS
Irineu Funes seria um belo caso para Oliver Sacks.
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quinta-feira, 22 de maio de 2014
APONTAMENTO 210
Segundo artigo escrito por Michael Pollan, publicado na edição deste maio da revista Piauí, no romance “A informação”, de Martin Amis, há um personagem que “almeja escrever ‘A história da humilhação crescente’, um tratado que narra o destronamento gradual da humanidade de sua posição como centro do universo”. Desconheço o livro; Copérnico e Darwin são mencionados no artigo de Pollan.
A temática do personagem de Amis é sedutora. A ciência pode solapar dogmas ou crenças. A questão é que isso não implica a diminuição do homem; trata-se da busca de algo racional, o que é bonito, ainda que se alegue que se pode apenas estar trocando uma ilusão pela outra. A busca de uma verdade racional nunca é humilhante, nunca diminui o homem.
Tenho a crença de que o Universo é de uma indiferença absoluta quanto ao que a humanidade é. Mas assim é com tudo o mais. Paradoxalmente, o Universo é indiferente com relação a tudo o que ele abarca, com relação a tudo o que dele faz parte.
Não consigo acreditar que sejamos os eleitos, que ao fim e ao cabo seremos poupados de algo que nos aniquilaria; não acredito em hierarquias do Universo. Não sou de cogitar sobre um suposto pós-vida. Estou aqui, estamos aqui: essa é a ventura, esse é o privilégio.
Não fico meditando acerca de um pós-vida: a natureza já nos presentou com o sermos. Ainda encaro a vida como um presente que recebemos, a despeito do que a humanidade fizemos com esse presente. O que nos aflige, o que nos acontece de ruim, seja criado por nós, seja vindo de fora, não vejo como punição de algum deus ou como maquinação de algum demônio.
terça-feira, 20 de maio de 2014
SAUDADE!
Que gosto tem tua saudade?
Qual o cheiro?
Como se chama tua saudade?
Que número ela calça?
A que lugares tua saudade vai?
Que palavras usa com frequência?
O que ela gosta de comer?
Ela prefere rock ou Saramago?
Tua saudade é medida em horas ou em quilômetros?
Que cor ela tem?
De saudade tu morres?
Ou saudade tu matas?...
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segunda-feira, 19 de maio de 2014
APONTAMENTO 209
A TV Revolta, popular no Facebook, é sem graça e tem a habilidade para analisar de um ácaro. Algo assim só tem um destino — o sucesso.
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domingo, 18 de maio de 2014
CASA
Ela demorou-se no abraço.
No abraço, ela foi ficando.
Foi ficando e foi gostando.
Foi gostando e se mudou.
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NÚMEROS E PALPITE
ITAQUERINHO
A transmissão do Sportv ficou o tempo todo divulgando os números e as tecnologias do Itaquerão, o estádio do Corinthians, cuja inauguração oficial foi hoje. Para o torcedor corintiano, o número que mais importava, que é o de gols, não houve: jogando contra o fraco Figueirense, o Corinthians foi derrotado por um a zero.
PALPITEIRO
São Paulo tem a fauna Ganso, Pato e Luis Fabiano. Fluminense tem Conca, Fred e Walter. Em teoria, dois excelentes times. Há equipes que são animadoras no papel, mas que acabam decepcionando em campo. Ainda assim, levando-se em conta o elenco dos dois times, arrisco um palpite: esta edição do campeonato brasileiro será vencida ou pelo São Paulo ou pelo Fluminense.
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SINTONIA FINA — EDIÇÃO 25
No ar, mais uma edição do Sintonia Fina, programa musical que apresento. Esta edição tem as seguintes faixas:
Angus and Julia Stone – Babylon
Zeca Baleiro – Babylon
Keane – Disconnected
Legião Urbana – “Índios”
Moby – The perfect life
Agridoce – Dançando
U2 – Invisible
Secos e Molhados – Que fim levaram todas as flores
Foreigner – I want to know what love is (versão ao vivo)
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BANDA BENDZ EM PATOS DE MINAS
A banda Bendz se apresentou ontem aqui em Patos de Minas. O show foi um tributo à cantora Alanis Morissette. Infelizmente, demoraram para acertar o som. Ainda assim, o carisma da vocalista, Lorena Bendz, sobrepujou qualquer dificuldade técnica. No fim do tributo a Alanis Morissette, o som foi melhorado.
Acabado esse tributo, pensei que o show terminaria. Entretanto, a cantora perguntou à plateia o que gostaríamos de escutar. A partir daí, a banda, mandando ver de modo visceral, executou clássicos do rock. A performance de Lorena Bendz então se agigantou, tendo ela trazido à tona a cantora com formidável presença de palco que ela é.
A banda é de Araxá. Os integrantes são Lorena Bendz, Gabriel Duarte (guitarra), Renato Nolli (baixo) e Breno César Oliveira (bateria). Segundo o que informam na página deles no Facebook, começaram como uma banda acústica, mas esse formato não refletia a pegada de que a banda é capaz. Ótimo para nós, pois o que não faltou no show de ontem foi pegada; que voltem em breve.
(A foto que utilizo nesta postagem está no perfil da banda Bendz no Facebook; não sei quem é o autor do registro.)
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sábado, 17 de maio de 2014
sexta-feira, 16 de maio de 2014
MUJICA
Esse Mujica faz a minha cabeça. Matéria aqui.
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APONTAMENTO 208
Acredito em tudo o que une: multidão cantando junto, coral cantando, comunidade de leitores. Estou interessado no que une. O que separa é circunstancial, o que separa está na superfície. O que une não tem tempo, o que une está nas raízes. Quero é pertencer: nada que me separe de meu vizinho, de meu bairro, de minha cidade, de meu estado, de meu país, de meu continente, da Terra, do sistema solar, da Via Láctea, do Universo. Há quem queira fatiar. Eu quero unir, eu quero estar cantar junto. Acredito em pontos em comum, acredito em comunhões, acredito em comunhão. Quero a beleza e a imponência de pertencer a algo que é uma coisa só, a beleza e a imponência de ser uma coisa só, feito de tantas outras coisas que são uma coisa só. Quero vozes, quero muitas vozes, quero todas as vozes. Cantemos.
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quarta-feira, 14 de maio de 2014
CRUZEIRO FORA DA LIBERTADORES
Contando mais com a sorte do que com o futebol jogado, o Cruzeiro vinha se arrastando na Libertadores. Em jogo terminado há instantes, no Mineirão, o San Lorenzo, marcando na intermediária cruzeirense, anulou possíveis jogadas criativas da equipe mineira.
Dedé, que não tem jogado bem, continuou jogando mal, estando aparentemente pouco à vontade. A despeito de maior posse de bola, o Cruzeiro não conseguia ameaçar o San Lorenzo. A equipe argentina abriu o placar; não fosse, como é usual, o goleiro Fábio, o San Lorenzo poderia ter fechado o primeiro tempo tendo marcado dois gols.
No último lance do primeiro tempo, uma bola escorada pelo Marcelo Moreno tocou uma das traves, passeou rente à linha do gol, tocou a outra trave e não entrou. Muito pouco para uma equipe que precisava vencer por dois gols de diferença. Nervoso e ineficaz, o Cruzeiro foi adversário um tanto fácil para o San Lorenzo, que marcou de modo competente.
Desde o começo do torneio eu ficava me perguntando quando o Cruzeiro deixaria a Libertadores; não houve momento em que a equipe causou esperança mais consistente. A crença no time era muito mais em função da paixão dos torcedores do que em função do que a equipe vinha jogando.
Afobado, precipitado e sem criatividade, o Cruzeiro foi inferior ao San Lorenzo, mesmo tendo o time azul empatado a partida; um jogador do time argentino foi expulso. Com a saída do Cruzeiro, uma pequena hegemonia brasileira na Libertadores tem fim: Atlético/MG, Corinthians, Santos e Internacional foram os últimos campeões da competição.
A COPA É DELES
Nizan Guanaes, em forjado, interesseiro e marqueteiro ufanismo, menciona Abilio Diniz no texto “Enchendo a bola do Brasil”, publicado pela Folha de S.Paulo. Guanaes diz concordar com Diniz; de acordo com aquele, ambos são da opinião de que realizar protestos durante a Copa seria um papelão. Guanaes, publicitário que é, escreve em seu texto o “mantra” “a Copa é nossa”.
A Copa não é minha. É de gente como ele, Guanaes, que é publicitário, e que está lucrando muito com o torneio. A Copa é de gente como ele e de gente como o pessoal da Fifa. A Copa não é minha; é deles. O que é meu, se tanto, será o protesto. Não coletivo, não nas ruas, mas em um texto ou outro.
segunda-feira, 12 de maio de 2014
VEJA SÓ
As pessoas com quem convivo sabem que considero a revista Veja uma excrescência, uma degeneração do jornalismo; a Veja é deplorável, asquerosa, afetada. O meio é uma das piores expressões da imprensa brasileira — se não for a pior.
Entusiastas do periódico acreditam que ele faz jornalismo. É que, à primeira vista, a publicação se parece mesmo com uma revista semanal de informações. Contudo, basta a leitura de matéria qualquer ou de qualquer um de seus articulistas para se perceber que a Veja não está nem um pouco preocupada com jornalismo. Ademais, o tom da revista é uma das coisas mais abjetas que já li.
Obviamente, sei do poder que ela tem para influenciar a população. Além disso, não deixo de reconhecer quando ela faz um trabalho bom — o que é muito raro. Ainda assim, a capa da edição de 14 de maio de 2014 evidencia o poder da leitura; em especial, segundo a capa, a leitura de ficção. Ainda não li a matéria. Embora otimista com ela, não me surpreenderei se houver o usual tom "blasé" e pedante da publicação. Também não será surpresa se o texto for apenas uma propaganda sobre o John Green travestida de jornalismo.
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domingo, 11 de maio de 2014
VIRTUAL
Ave!
A gente inventa siglas,
adivinha abreviações,
compartilha códigos.
O pensamento voa.
Ave!
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1984
Fazer do que degrada
o que agrada.
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sábado, 10 de maio de 2014
A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (75)
Já há algum tempo era minha intenção fotografar esta árvore. Contudo, hoje, quando vi algumas vacas perto dela, pensei que elas seriam um “bônus” e tanto para a foto.
Não pense você que tive coragem o bastante para me aproximar das vacas, abaixar-me e tirar a foto. Entre mim e elas havia uma cerca de arame farpado. Para fotografar, eu me vali do “live view” da câmera; como ela tem monitor articulado, eu a posicionei bem rente ao chão, esticando os braços um pouco além da cerca, e fiz o registro.
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sexta-feira, 9 de maio de 2014
CANON OU NIKON?
Há alguns dias, tendo saído para fotografar com amigos, escutei o seguinte diálogo:
— Você já fotografou com Nikon?
— Não: eu não uso droga.
A risadaria dentro do carro foi geral.
A conversa prosseguiu mais ou menos assim:
— As cores da Canon são mais vívidas.
— Ué, mas eu já ouvi dizer exatamente o contrário.
Há quem não consiga levar na esportiva diálogos em que um usuário de Nikon brinca com um usuário de Canon ou vice-versa. Pela internet, já acompanhei brigas tolas entre “canonianos” e “nikonianos”, ofendendo-se como torcedores de futebol imbecis.
Desde o advento das digitais, sempre tive câmera Canon. A primeira foi uma Powershot A300. Depois, comprei uma Canon Powershot Pro1. Para usar nesta, passei a comprar acessórios; alguns, uso até hoje. A seguir, comprei uma EOS 20D... Em virtude dos acessórios que comprei a partir da Pro1, a escolha por outras câmeras Canon, nos quais esses acessórios poderiam ser usados, era a escolha mais viável, levando-se em conta a grana.
Conheço gente que fotografou por muito tempo com Canon e depois passou a fotografar com Nikon, bem como gente que começou a fotografar com Nikon e depois migrou para Canon. Há fotógrafos geniais que fotografam com Nikon; há fotógrafos geniais que fotografam com Canon. Costumo brincar, dizendo que se eu tivesse dinheiro, eu fotografia com Canon, com Nikon, com Leica e com Hasselblad.
Se me debruço sobre uma foto estupenda, não sei dizer a marca da câmera com que ela foi tirada. Considerando-se as marcas populares — Nikon e Canon —, as diferenças que pode haver são diluídas quando as fotos são editadas. Digamos, por exemplo, que a Nikon gere cores mais saturadas do que a Canon; isso pode ser modificado na edição, diminuindo-se ou aumentando-se a saturação. O mesmo vale para qualquer outra suposta característica das câmeras Canon em relação às Nikon.
Não é raro, quando querem incrementar seu potencial fotográfico, as pessoas me perguntarem se devem comprar Canon ou se Nikon. O que digo? Que estou satisfeito em fotografar com Canon. Isso, todavia, não quer dizer muito, pois conheço inúmeros fotógrafos que estão satisfeitos em fotografar com Nikon...
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ALADA
A imaginação nasceu para voar —
a cabeça da gente
não pode ser gaiola.
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À LUZ
Nasce o dia.
O Sol corteja a flor.
Ela abre a porta; ele entra.
Ainda pela manhã, ela dá à luz.
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quinta-feira, 8 de maio de 2014
O TEMPO E A FOTOGRAFIA
Ainda que sem edição, ainda que não retocada, a fotografia não é a realidade. É um simulacro dela. Além do mais, mesmo em seus primórdios, a fotografia já era manipulada, “maquiada”, o que, por assim dizer, já a distanciava da realidade. Hoje, graças às técnicas e aos recursos de captura na hora do clique, e graças aos programas de edição de imagens, a fotografia pode ficar ainda mais longe daquilo que o fotógrafo enquadrou.
O que há é um certo desejo de perenidade. Em última instância, mesmo que tudo venha a acabar, a fotografia é um registro que pode durar enquanto durar a humanidade (ou durar um pouco mais depois desse seu fim conjectural). O passado vai embora, mas numa fotografia ele é simulacro daquilo que um dia houve; é como se o passado, aparentemente impossível de ser vivido outra vez, assumisse uma forma, um contorno.
É como se um pedaço da vida que houve se tornasse visível. Ainda que o objetivo do fotógrafo seja, digamos, criar a beleza, ao tirar uma foto ele terá criado algo que se parece com o passado, mas que passado não é. Cria-se um saboroso jogo: o clique é no presente, mas o resultado (ainda que visto milésimos de segundos depois, no visor da câmera) é no futuro; quando esse resultado é visto, o que se vê já é um simulacro do passado. Fotografar é brincar com o tempo.
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quarta-feira, 7 de maio de 2014
APONTAMENTO 207
Não acredito numa temática superior a outra. Um poema sobre uma revolução social não vale nem menos nem mais do que um sobre a possibilidade de transcendência do espírito humano ou um sobre uma menina que brinca com uma bola num parque. Nesse fio condutor, o que vale é haver ou não uma boa literatura. Também descreio da ideia de que a literatura engajada seja necessariamente datada e de que a literatura voltada para as coisas do espírito seja consequentemente atemporal. O que faz com que um texto permaneça não é a temática.
Borges foi um brincalhão erudito. Elevou o lúdico a dimensões grandiosas, passou ao largo, em seus livros, das questões políticas de seu tempo. Neruda e Galeano, para ficar em dois sul-americanos, não. O grande tema da literatura de Borges é a própria literatura. É com ela que ele brinca. Por alguns, é criticado precisamente por não ter se engajado.
Ele é pleno em referências, em alusões, reais ou inventadas. Faz da literatura um jogo com que muito parecia se divertir, divertindo a inteligência do leitor, desde que esse leitor não atrele a literatura exclusivamente a um compromisso ideológico, político. O compromisso de Borges era com a literatura e, suspeito, com a diversão.
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TIMBRE
Durmo cheio de idéias.
Acordo cheio de ideias.
Durmo sabendo.
Acordo ortográfico.
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ACÉFALO
Solitário e mulambento,
um chapéu na calçada:
perdeu a cabeça.
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"DEIXA PRA LÁ"
A contextualização é algo que me instiga. Em meu caso isso equivale a dizer que tirar do contexto também me atrai. Na década de 1980, a Martin Claret publicou a coleção “O pensamento vivo”. Eu me lembrei, hoje pela manhã, do volume dedicado ao Jorge Luis Borges.
Na diagramação que faziam, havia máximas destacadas em algumas das páginas. No volume da coleção dedicado ao argentino, havia a seguinte: “Minha sepultura será o ar insondável”. Era algo que eu gostava de ler pela sonoridade (ainda que se trate de uma tradução), pela sensação que as palavras despertavam. Era um prazer que não passava por processos analíticos.
Em meus catorze ou quinze anos, eu achava a frase bonita, sonora; ainda acho. Eu não me preocupava em entendê-la; ainda não me preocupo. Bastavam-me os sons, a beleza etérea do que a frase me passava; compreender não era necessário. Mesmo hoje, existe essa não preocupação em analisar o trecho.
Anos depois, lendo a obra de Borges, eu me deparo com “minha sepultura será o ar insondável”. O trecho está no conto “A biblioteca de Babel”, do livro “Ficções”. Retiro o trecho de seu contexto e o cito abaixo, valendo-me de parte do parágrafo em que ele está. A tradução é de Carlos Nejar; a revisão da tradução, de Maria Carolina de Araujo:
“Como todos os homens da Biblioteca, viajei na minha juventude; peregrinei em busca de um livro, talvez do catálogo de catálogos; agora que meus olhos quase não podem decifrar o que escrevo, preparo-me para morrer, a poucas léguas do hexágono em que nasci. Morto, não faltarão mãos piedosas que me joguem pela balaustrada; minha sepultura será o ar insondável; meu corpo cairá demoradamente e se corromperá e dissolverá no vento gerado pela queda, que é infinita”.
Quando lia o “minha sepultura será o ar insondável” na edição da Marin Claret, eu pensava se tratar de um ensaio ou de um apontamento. Trata-se de ficção, de um conto; logo, há um narrador, que pode, ou não, concordar com Borges. Eu atribuía o trecho ao pensamento do poeta e contista, não ao pensamento de um narrador, mesmo ciente, é claro, de que o trecho pode ser um pensamento do Borges enunciado por um narrador inventado pelo contista.
Ter descoberto que o trecho é de um conto, de um narrador, e não de um apontamento ou de um ensaio, fez com que a citação se tornasse ainda mais magnética. No livro da Martin Claret, o trecho não estava no contexto original; saber que ele vem de uma ficção, e não de um texto referencial, torna atraente a decisão de atribuir ao Borges um enunciado que é de um de seus narradores.
Tiro do contexto mais um trecho borgiano, do conto “O jardim de veredas que se bifurcam”, também do livro “Ficções”. O trecho, retirado de seu contexto, passaria por opinião de articulista de algum jornal; tradutor e revisora são os profissionais mencionados acima: “Prevejo que o homem se resignará a cada dia a tarefas mais atrozes; breve só haverá guerreiros e bandidos”.
Saber do contexto pode fazer com que algo seja empobrecido ou enriquecido. Salvo engano foi durante o conflito em Kosovo (sinto que já contei essa história em algum outro texto; mas não estou certo disso): um superior disse a um soldado: “Deixa pra lá”. O soldado, momentos antes, encostando uma arma na cabeça de um prisioneiro, perguntara algo assim: “Posso atirar, comandante?”.
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terça-feira, 6 de maio de 2014
APONTAMENTO 206
Já escrevi por aqui sobre o tema da tal “justiça” com as próprias mãos; nesta breve nota, digo: o linchamento de Fabiane Maria de Jesus, em Guarujá, é uma prova triste de que ideias incentivadas por gente como a Rachel Sheherazade podem ter consequências funestas. Todo mundo sabe que o Estado falha ao fazer justiça. Ainda assim, quando “justiceiros” se arvoram, o resultado pode ser o que ocorreu com Fabiane.
domingo, 4 de maio de 2014
SINTONIA FINA — EDIÇÃO 24
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APONTAMENTO 205
O fantasioso é tão revelador do que somos quanto o mais agudo realismo.
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FOTOGRAFAR
Quem fotografa ao ar livre não pode se tornar “refém” de belas cachoeiras, de admiráveis céus azuis, de horários em que a luz está supostamente melhor. Se você gosta desse tipo de foto, saia para fotografar, não importa a hora, não importa a cor do céu, não importa se a temperatura está baixa ou alta, não importa a estação. Tente fazer o melhor do que estiver a seu dispor.
Além disso, fotografe de tudo; fotografe gente, pedra, árvore, bicho... Se a fotografia é “hobby”, não há pretexto para que não sejam experimentadas diferentes temáticas e abordagens; se da fotografia vem sua grana, mesmo assim, não deixe de tentar achar um tempo para fotos tiradas sem compromisso financeiro.
Brinque com diferentes técnicas: faça “zooming”; “panning”, “light painting”, fotos com “flash”, fotos sem “flash”, fotos com exposição longa, com exposição mínima... Busque novas composições, desafie-se, procure pelo inédito em você. É natural que desenvolvamos preferências por técnicas ou por temáticas, mas ecletismo não implica inconstância. Ademais, a versatilidade, esteja certo, pode incrementar o tipo de foto que você mais gosta de fazer.
Além disso, fotografe de tudo; fotografe gente, pedra, árvore, bicho... Se a fotografia é “hobby”, não há pretexto para que não sejam experimentadas diferentes temáticas e abordagens; se da fotografia vem sua grana, mesmo assim, não deixe de tentar achar um tempo para fotos tiradas sem compromisso financeiro.
Brinque com diferentes técnicas: faça “zooming”; “panning”, “light painting”, fotos com “flash”, fotos sem “flash”, fotos com exposição longa, com exposição mínima... Busque novas composições, desafie-se, procure pelo inédito em você. É natural que desenvolvamos preferências por técnicas ou por temáticas, mas ecletismo não implica inconstância. Ademais, a versatilidade, esteja certo, pode incrementar o tipo de foto que você mais gosta de fazer.
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APONTAMENTO 204
A pegada mais forte não anula a ternura. Podem prescindir do amor, mas se vêm como sintoma de amor, às vezes é até difícil separar a pegada da ternura. Acabam se tornando uma só coisa num só momento num só amor.
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sábado, 3 de maio de 2014
FOTOPOEMA 352
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"PARAGLIDER"
Ontem, no fim da tarde, saí para comprar pães; voltando para casa, reparei no céu: as nuvens e as cores estavam belíssimas. Já havia tomado a decisão de pegar a câmera para fotografar o entardecer quando, ainda olhando para o alto, vi uma pessoa lá no céu.
Nem preciso dizer que vim ainda mais rápido para casa. Cheguei, peguei câmera e lente; fui a um local bem em frente à escola Frei Leopoldo, aqui em Patos de Minas. Terminado o voo, reparei que a pessoa aterrissou nas imediações do Bairro Copacabana.
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sexta-feira, 2 de maio de 2014
SAÍDA FOTOGRÁFICA
Ontem à tarde, participei da segunda edição do Saída Fotográfica, evento arregimentado pelo Bonna Morais. Embora convidado para a primeira edição do “safári”, não pude participar dele. Ontem, foi possível.
Não tenho memória das melhores, mas, salvo engano, é a primeira vez que saio para fotografar com um grupo. Fomos a Areado, no município de Patos de Minas. A seguir, fomos a uma fazenda perto de Areado. Nessa fazenda, estava havendo folia de reis.
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LIBERTADORES: ATLÉTICO FORA; CRUZEIRO AVANÇA
Anteontem, pensei que a coisa ficaria feia para o Cruzeiro; ontem, que a coisa ficaria feia para o Atlético — da Colômbia. Terminada a rodada, A Raposa segue em frente; o Galo está fora. Quem não desligou a TV nem mudou de canal após o jogo dos Atléticos pôde acompanhar os desdobramentos do jogo realizado ontem no Independência.
Tardelli deixou nítido que não gostara de ter sido substituído; depois do jogo, criticou o técnico Levir Culpi. Este, na entrevista coletiva, disse que “se ele [Tardelli] não tiver número, ele sai”. Entre a declaração de Tardelli e a entrevista de Levir Culpi, Alexandre Kalil, presidente do Atlético, lacônico, também na entrevista coletiva, disse que ele era o único culpado pela eliminação do Atlético/MG.
Erraram Diego Tardelli e Levir Culpi; aquele, pela reação nada profissional que teve; este, por ser muito burocrático, atribuindo apenas números ao desempenho de um jogador. Se por um lado, esses números podem ampliar uma análise, por outro, o futebol (como a vida) é mais complexo e multifacetado do que uma análise de dados.
A equipe do Fox Sports bem que tentou fazer com que Kalil, nos bastidores do estádio, precisasse qual seria o erro do dirigente, chegando a perguntar se tal erro teria sido a contração do Autuori. Kalil desconversou e reiterou que o culpado único era ele. Pareceu-me que o presidente da equipe, num lance astuto, deu a entrevista já com a intenção de preservar a coesão da equipe.
Pelo menos para quem assistia de fora ao Atlético/MG que foi campeão da Libertadores, parecia haver simbiose entre Cuca, jogadores e torcida, o que pareceu não ocorrer enquanto Autuori esteve no comando do time. Somente essa suposta simbiose não explica o êxito da equipe no ano passado, embora possa ser ingrediente eficaz; ausente no curto período em que Autuori estive no time, Kalil tenta resgatá-la, a fim de evitar um racha no time.
Já o Cruzeiro, na sequência da Libertadores, vai enfrentar o San Lorenzo, no dia sete de maio. O caminho da Raposa tem sido sinuoso: quase não se classifica na fase de grupos; na sequência do torneio, um gol no fim do jogo, contra o Cerro Porteño, no Mineirão, deu alento para a equipe. Em trilha tortuosa, mas eficiente até agora, o Cruzeiro é o único time do Brasil a continuar na Libertadores.
quinta-feira, 1 de maio de 2014
A HISTÓRIA DE DEMÓSTENES E JUSSARA
Demóstenes jurou que amaria Jussara.
Jussara jurou que seria de Demóstenes.
Os dois então se amavam às escondidas.
Em baldeações, lábios eram sofreguidão.
Demóstenes um dia propôs que fugissem.
Jussara teve medo, os dois conversaram.
Combinaram de ele passar na casa dela.
O vaso de planta na janela seria um “sim”.
No outro dia, Demóstenes arreou o cavalo.
Guiou em trote amoroso um vultoso alazão.
O coração, disparado, viu ao longe a fazenda.
O peito, acelerado, só quer saber da janela.
Chegando, nem vaso nem flor nem Jussara.
Pelo buraco da janela, ela amou o cavaleiro.
No depois, Jussara nunca mais saiu de casa.
Sem desapear, Demóstenes vaga pelo mundo.
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quarta-feira, 30 de abril de 2014
QUENTURA
Vem celebrar comigo.
Canções de antigamente, estrelas velhas.
Vem celebrar com violão, fogo e folguedo.
Amanhã seremos cinza também.
A gente canta para a noite e faz calor.
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terça-feira, 29 de abril de 2014
OS ANÉIS
No capítulo 22 do “Beowulf”, cuja data é imprecisa (considera-se que foi escrito entre os séculos oitavo e décimo), há a expressão “lord of rings”, usada como referência a um rei. Jamais li uma linha do J.R.R. Tolkien. Suponho, talvez incorretamente, que o título “The lord of the rings” tenha sido um empréstimo a partir do “Beowulf”.
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O senhor dos anéis
EVITE CÃIBRAS
O gesto de Daniel Alves é sofisticado, divertido, sarcástico, irônico, zombeteiro. Ao mesmo tempo, ele realizou uma das tarefas mais básicas do homem (ou do macaco) — alimentar-se. O que é o contexto: dependendo dele, algo tão trivial quanto comer uma banana pode deixar de ser... banal.
Fico me lembrando da cena e me perguntando o que ela ensina. O episódio é engraçado e incisivo. A graça, por si, não torna algo mais eficaz. Ainda assim, é a graça da cena que a torna mais densa. Tivesse Daniel Alves vociferado ou assumido a fúria de um símio desembestado, o ato não teria sido tão eloquente. Daniel Alves concebeu um gesto “simples” e de pura originalidade.
O lance é rápido, é solução momentânea. Há um quê de pilhéria numa resposta que é requintada demais. Se ao jogar a banana o sujeito quis dizer que Daniel Alves é um macaco, ao comê-la, o boleiro “admite” ser um macaco. Ao “assumir” que é um primata, o atleta acaba por colocar em cena um dos grandes poderes do homem, o de superar, com o apoio da galhofa e da inteligência, a estupidez que um ser humano é capaz de gerar.
Enquanto escrevo, sinto que o ato de Daniel Alves quer dizer bem mais do que o que expresso neste texto. Sinto que há um ensinamento óbvio, que todavia não consigo reter; apenas o intuo. Há algo me escapando por entre os dedos. Pode ser que essa suposta obviedade me surja depois de eu haver publicado este apontamento.
Não sou capaz de conceber uma resposta mais poderosa contra o preconceito de que o jogador foi vítima. Foi tudo tão rápido, tão vigoroso: logo depois de pegar a banana no gramado, saborear um pouco dela, dispensá-la e bater o escanteio, Daniel Alves materializou, em poucos segundos, que o espírito humano, às vezes, tem o dom de pairar acima da burrice.
A atitude do jogador não é solução para nada. Tivessem as pessoas, como um todo, a capacidade de se sensibilizar pelo exemplo e pelas ideias, o gesto de Daniel Alves teria consequências positivamente drásticas. Mas, no geral, houvesse essa capacidade, creio que uma banana não seria usada para indicar preconceito. Numa situação como aquela, eu ficaria chateado. Não sei como Daniel Alves se sentiu. Ainda bem que ele soube erguer a cabeça, marcando um inspirador e memorável golaço.
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segunda-feira, 28 de abril de 2014
KENNING
Conduzindo e sendo conduzido,
o habitante dos campos,
no meio de sua jornada,
deparou-se com a casa da lua.
Foi convidado, convidou-se: entrou.
Querendo e sendo queridos,
mudaram-se para o rio das alianças
o habitante dos campos e a casa da lua.
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APONTAMENTO 204
Há um ditado que diz: “Se a vida te der um limão, faz uma limonada”. Daniel Alves ensinou o que se deve fazer quando a vida joga uma banana.
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DIÁLOGO DE NAMORADOS
— Só quero que você fique um pouquinho mais...
— Só um pouquinho mais?!
— Sim, só um pouquinho mais.
— Hum... E quanto tempo seria um pouquinho mais?...
— Pode ser até o fim da minha vida?...
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domingo, 27 de abril de 2014
ENQUANTO
Um dia a gente morre pra valer.
Enquanto isso, a gente tem pequenas mortes.
Matam mas não matam.
Quase matam.
Um dia a gente morre pra valer.
Enquanto isso não vem, a gente renasce.
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APONTAMENTO 203
Sempre escrevi como quem quer se livrar rápido do que está escrevendo. Trata-se de medo de o leitor querer se livrar rapidamente de mim.
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sábado, 26 de abril de 2014
CELEBRAÇÃO
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terça-feira, 22 de abril de 2014
ERA UMA VEZ UM CONTADOR DE HISTÓRIAS
Em espanhol: primeiro capítulo de livro inédito de Gabriel García Márquez. Pode ser que a obra venha a ser publicada incompleta. Ainda assim, este primeiro capítulo é como se fosse um conto, no sentido de ter começo meio e fim. No texto, o velho Gabo contador de histórias que conhecemos. Para conferir, clique aqui.
segunda-feira, 21 de abril de 2014
DECISÃO
Contemplou a brancura do papel.
Num só ritmo, com mão solta,
preencheu a imaculada folha.
Releu o que escreveu, ponderou.
Num átimo, rasgou o verbo.
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FOTOPOEMA 351
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domingo, 20 de abril de 2014
LUCIANO DO VALLE
A única vez em que chorei devido a resultado de uma partida de futebol foi em 1982; eu tinha onze anos. Quando a derrota do Brasil, que jogara contra a Itália, foi decretada, chorei. Aquele time era formidável. Parte de toda aquela magia estava também em Luciano do Valle. Era um narrador à altura do que fez aquela equipe.
Posteriormente, acompanhei, já pela Band, um programa de variedades que Luciano do Valle apresentava nos fins de semana. A atração ia ao ar de madrugada; chamava-se Valle Tudo. Mesmo chegando de alguma farra, a primeira coisa que eu fazia era ligar a TV para acompanhar a atração. Às vezes, até deixava de sair, a fim de sintonizar o Valle Tudo.
Dono de uma voz privilegiada, Luciano do Valle morre às vésperas de narrar mais uma Copa do Mundo. Perde o evento, que não terá, no rádio, Osmar Santos, que não mais narra, devido a sequela de acidente automobilístico, e não terá, na TV, o brilho e a emoção de Luciano. Valeu, do Valle.
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sábado, 19 de abril de 2014
SÃO RAFAEL, MEU PAI, UM FREGUÊS E EU
Durante toda a vida dele, meu pai trabalhou na Padaria São Rafael, cujo dono se chamava... Rafael. Mesmo depois de aposentado, meu pai continuou prestando serviço no local. Quando morreu, ele ainda trabalhava lá. Se eu não estiver enganado, foi lá que também conheceu minha mãe.
Foi natural que eu frequentasse a padaria antes mesmo de ter memória. Nos domingos à tarde, o movimento era fraco; meu pai então me deixava no caixa, enquanto ele ficava no balcão. Como meu pai já havia me ensinado a tabuada antes mesmo de eu ser alfabetizado, eu não me preocupava com as contas que eu teria de fazer na hora de voltar o troco.
Talvez eu já tenha contado a história da tabuada em alguma crônica antiga. Eu era sabatinado com frequência pelo meu pai. Se estivéssemos, digamos, voltando da casa da mãe dele, ele me tomava a tabuada durante o trajeto. Penso que a matemática nunca tenha sido drama para mim devido à iniciação numérica que meu pai me proporcionou.
Apaixonado por rádio, ele sempre teve diversos modelos. Quando ele os comprava, a primeira coisa que me atraía não era nem a vontade de manejá-los — era o cheiro que tinham. Feliz aquele que tem em sua memória olfativa o cheiro dos rádios que eram fabricados na década de 70.
Um desses rádios tinha algumas dezenas de, por assim dizer, pequenos furos na parte da frente. Meu pai olhou para o rádio e pediu que eu contasse o mais rápido que eu conseguisse quantos furos havia no rádio. Contei então os oito furos da primeira fileira do alto na horizontal e os sete furos da fileira da esquerda na vertical. Mentalmente, multipliquei-os; depois, foi só acrescentar os três furos que faltavam e dizer o mais veloz que pude: “São cinquenta e nove furos”. Pude perceber o leve sorriso do meu pai. Ele então contou que se eu não soubesse a manha de multiplicar os furos verticais e os horizontais, ele ensinar-me-ia.
Num domingo quente e parado, quase sem fregueses, estava eu no caixa da padaria. Um senhor entrou e foi atendido por meu pai. Não me lembro do nome da moeda da época. Isso, todavia, não importa; o senhor me passou um pequeno pedaço de papel quadrado em que meu pai havia escrito o valor da compra.
Peguei o papel: fosse hoje, nele estaria escrito o valor de, por exemplo, oito reais. Fiquei aguardando o senhor tirar o dinheiro do bolso. Divisei o que seria equivalente a uma nota de dez reais. Já fui abrindo a gaveta do caixa para dar ao senhor os dois reais de troco. Mas o freguês continuou revirando bolsos. Por fim, ele me entregou treze reais.
Meu mundo desabou naquele longínquo momento. Um cataclismo inexorável me deixou petrificado. Eu não sabia o que fazer com os treze reais. Eu não via lógica naquilo. Foi como se toda a concepção que eu tinha do Universo, da matemática e de mim, em meus seis ou sete anos de idade, tivesse sido esmagada. Eu já não sabia o que fazer, eu já não sabia mais fazer conta, eu já não sabia mais quem eu era. Afinal, se dez reais eram o bastante para pagar a conta, por que me entregar treze reais?
Perdido num vergonhoso labirinto, ainda fiz menção de devolver ao senhor os três reais. Ele, porém, disse: “Pode cobrar aí mesmo”. Desesperado e arrasado, ainda argumentei que se o valor da compra era de oito reais, dez reais seriam o bastante para pagar. O freguês seguiu resoluto: “Cobra aí mesmo; além do mais, fica mais fácil pra você me voltar o troco”.
Então, desisti de tudo. No torpor, eu não conseguia raciocinar. Eu não conseguia visualizar a situação, eu não conseguia pensar algo assim: “Se o valor da compra é de oito reais e ele me deu treze reais, logo, para saber quanto tenho de devolver a ele, basta que eu faça a seguinte conta: treze menos oito”.
Sem raciocínio e sem chão, olhei, com cara de súplica, para o senhor. Ao mesmo tempo, procurei pelo meu pai. Percebendo meu desespero, o freguês deu um sorriso e disse: “Me volta cinco reais e fica tudo certo”. Meu pai, já tendo se dado conta de meu fracasso, aproximou-se do caixa. Depois que o freguês saiu, explicou-me a conta que eu deveria ter feito.
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"UM RETRATO DE MULHER"
Eu nunca quis ser iconoclasta. Ainda que eu quisesse, sei que não levo jeito para isso. Além do mais, como escrevo por gosto, e não por dever, prefiro me dedicar a discorrer sobre aquilo que curto. Mesmo assim, digo: não gosto de “Metropolis” (1927), do diretor Fritz Lang. É aquela velha conversa: sei da importância do filme... mas...
Todavia, alguns dias atrás, assisti a “Um retrato de mulher” (The woman in the window, 1944), também de Fritz Lang. O roteiro é de Nunnally Johnson. A produção é baseada no livro “Once Off Guard”, de J.H. Wallis. Gostei demais do filme.
No enredo, o professor Richard Wanley (Edward G. Robinson) observa, com desvelo, o retrato de uma mulher numa vitrine. Logo após, ele se diverte com amigos num restaurante; ao sair, depara-se com Alice Reed (Joan Bennett), que é a mulher do retrato. Os dois iniciam conversa. Wanley acaba indo ao apartamento dela.
É quando a encrenca tem início. O amante de Reed entra no apartamento e tenta matar Wanley; na contenda, o amante é que acaba sendo morto, com a ajuda de Reed. Ela e o professor se livram do corpo. Para piorar a situação, o perspicaz detetive responsável pelo caso é um dos grandes amigos de Wanley.
Ele é professor, não é criminoso. A polícia logo tem uma série de elementos que podem elucidar o caso. Não bastasse o aperto por que já passam Wanley e Reed, entra em cena Heidt (Dan Duryea), que há meses vinha seguindo o amante de Reed e sabe haver algo muito errado no desaparecimento dele; Heidt começa a chantagear Reed.
A despeito do emaranhado que fisga Wanley e Reed, “Um retrato de mulher” não é um filme pesado. Se por um lado nos compadecemos do desajeitamento dos cúmplices no crime, por outro, não deixamos de achar graça deles. A sequência final quebra o tom; o humor do filme, que até então vinha sendo velado, torna-se deliciosamente escancarado.
sexta-feira, 18 de abril de 2014
CLAUSURA
Se for para vaca,
curral.
Se for para ave,
gaiola.
Se for para rato,
ratoeira.
Se for para gente,
boa parte da mídia.
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O LUGAR DE GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ
Certa vez, estive em Cordisburgo/MG estritamente para conhecer a cidade em que Guimarães Rosa havia nascido. Lá, estive na casa onde o escritor morou, hoje transformada em museu. Durante o trajeto, de dentro do ônibus, pude observar estabelecimentos comerciais cujos nomes fazem referência ao universo de Guimarães Rosa. Lembro-me de haver uma borracharia Grande sertão: veredas. Acho que era mesmo uma borracharia.
Há tempos era minha intenção conferir, por intermédio do Google Maps, Aracataca, na Colômbia; é a cidade em que nasceu Gabriel García Márquez. Hoje, finalmente, “visitei” o lugar. A exemplo de Cordisburgo, com suas referências ao mundo de Guimarães Rosa, há em Aracataca referências ao de García Márquez.
(Essa minha “turnê” por Aracataca confirma a “profecia” do cigano Melquíades, exibindo um óculo de alcance, logo no segundo parágrafo de “Cem anos de solidão”: “Dentro de poco, el hombre podrá ver lo que ocurre en cualquier lugar de la tierra, sin moverse de su casa”.)
Nas imagens desta postagem, conseguidas via Google Maps, dois registros de um comércio em Aracataca; o nome do estabelecimento é o nome da cidade de “Cem anos de solidão”. Também nesta postagem há a frente do museu dedicado a García Márquez; é o lugar em que ele nasceu. O endereço é Carrera 5 Nº 6 — 35. Em frente ao museu, réplicas de como era a casa quando o escritor nasceu podem ser adquiridas.
quinta-feira, 17 de abril de 2014
GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ
Sempre tive uma dificuldade imensa para decorar textos. Para dizer a verdade, só sei dois textos de cor: o Soneto 17 do Shakespeare e a primeira frase do “Cem anos de solidão”. Não tive a intenção de decorar nem o soneto nem a primeira frase do livro: acabei os memorizando de tanto que os reli.
Em 1999, foi noticiado que Gabriel García Márquez tinha câncer linfático. Em 2012, que o escritor estaria demente, esquecendo-se até dos nomes dos amigos mais próximos. Foi então que, desde 2012, eu vinha pensando com frequência que chegaria o dia em que eu ficaria sabendo da morte dele, mesmo ciente, é claro, de que eu poderia ter morrido antes de ele morrer.
O dia em que eu ficaria sabendo da morte dele chegou. Neste 17 de abril, Gabriel José García Márquez morreu, com 87 anos. Com amigos, eu frequentemente comentava que, a despeito da demência, eu imaginava que ele fosse viver por mais tempo ainda, pois vem de estirpe longeva.
“Cem anos de solidão” é o livro que mais reli, ao lado de “As relações perigosas”. Ao longo dos anos, colecionei entrevistas de García Márquez, assisti a diversos documentários sobre sua vida e obra, conferi, via internet, diversos vídeos com o autor. Em sua obra, o senso de humor, o adjetivo certeiro, a prosa imagética cheia de imaginação. Um retrato vigoroso da América Latina.
García Márquez foi um daqueles casos em que há aclamação dos pares, da crítica e do público. Há escritores que são exaltados pela crítica, mas que não têm consagração popular. Há escritores populares que são demonizados pela crítica. García Márquez teve o respeito da crítica e a consagração do público. Teve um destino grandioso.
Sempre que eu conferia alguma entrevista com ele, eu ficava com a impressão de que ele era uma pessoa feliz. Alguém que se sabia escritor e que realizou sua vocação com uma formidável capacidade para contar uma história. Fica em mim a impressão de que essa felicidade que imagino nele ter feito com que sua vida fosse tão grandiosa quanto sua obra.
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MAIS "ZOOMING"
Há alguns dias, expliquei como funciona o “zooming”, técnica por intermédio da qual é possível criar curiosos efeitos a partir do manejo, principalmente, da velocidade e do zum da lente. Agora à tarde, decidi sair e fazer mais alguns registros me valendo do “zooming”.
A primeira providência foi acoplar à lente um filtro ND, comprado há uns dois anos, mas que ainda não havia sido usado. O “ND” equivale a “neutral density”. Esse filtro funciona assim: é como se você estivesse colocando óculos escuros na lente.
Ora, fazendo-se isso, a lente passa a “enxergar” o mundo com menos luz; havendo menos luz, será preciso, dentre outras possibilidades, baixar a velocidade para que haja luz o bastante chegando ao sensor. Baixando-se a velocidade, tem-se maior possibilidade de se fazer o “zooming”.
O filtro ND foi acoplado pelo fato de as fotos terem sido feitas durante o dia. Apesar de o tempo estar nublado, uma baixa velocidade faria com que houvesse muita luz, ainda que uma abertura bem pequena fosse usada. Tal abertura pequena aumentaria a profundidade de campo; não interessado nessa grande profundidade, decidi me valer do filtro ND.
Filtros assim podem ser usados também quando se quer dar o efeito “leitoso” na correnteza de um córrego, por exemplo, precisamente por possibilitarem uma velocidade mais baixa. Enfim, podem ser usados sempre que se queira uma velocidade mais baixa num ambiente com muita luz.
Nesta postagem, dois pares de fotos. Em duas delas, fotos “normais”; nas outras duas, a possibilidade de se brincar com a realidade a partir da aplicação do “zooming”. Por fim, um lembrete: há câmeras compactas que têm um recurso em que é possível fotografar como se houvesse um filtro ND na lente; caso tenha uma compacta, fuce nela e tente descobrir o “brinquedinho”.
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