terça-feira, 18 de março de 2014

PERCURSO

Tive hoje a maravilha 
que é escutar tua voz.
Descobri por que ela 
não me sai da cabeça:
é que tua voz azul sabe 
construir veias que partem 
do ouvido e desembocam
bem lá dentro do coração. 

ELAS

1. Saiba tratá-las com reverência. Saiba desrespeitá-las.

2. Prefira as simples, sem contudo descartar as sofisticadas.

3. Seja terno com elas, sem deixar de aprender a pegá-las de jeito.

4. Não se esquecer de que levá-las a sério não é o mesmo que perder o senso de humor.

5. Preste culto a elas; use-as; abuse delas.

6. Gostam de ser escutadas, gostam de surpresas.

7. Repare se o silêncio delas é próprio de cada uma ou se é causado por você. Se causado por você, cuidado para não emudecê-las.

8. Com jeito, você pode trocá-las, colocá-las em cima, de lado, no meio...

9. Entenda de ponto final e de reticências.

10. Perca o medo, ouse; elas vão gostar.

11. Perca o medo, ouse; você vai gostar.

12. Não importa se feia ou se bonita: há momento para todas.

13. Dê risada com elas, ache graça delas, mas sabendo ser sério quando se deve.

14. Valorize as velhas, sem deixar de dar atenção para as novas.

15. Pode haver uma parecida com a outra, mas cada uma é única.

16. Tenha persistência sutil; entregar-se-ão.

17. Não é por terem escolhido você que todas merecem ser usadas. Saiba dizer “não”, saiba deixar para trás, sem todavia deixar de aprender a dizer “sim”.

18. Aquela que não serve para você pode ser tudo o que outro procura.

19. Nem todo flerte precisa acabar em casamento.

20. Dizer “não” não é dizer “nunca”; dizer “sim” não é dizer “sempre”.

21. Saiba o que cada uma quer dizer.

22. Pode ser pior trocar uma pela outra; pode ser melhor trocar uma pela outra.

23. Elas podem ferir, elas podem curar. Podem servir à guerra ou ao amor; depende de quem esteja lidando com elas.

24. Podem funcionar sozinhas, mas são capazes de prodígios quando acompanhadas.

25. Feliz aquele que se dedica a elas, as palavras. 

segunda-feira, 17 de março de 2014

PEDIDO

Aqui estou para fazer um pedido:
para ti, que eu nunca seja oblívio;
eu quero ser o teu sempre Lívio. 

domingo, 16 de março de 2014

“MINHA VIDA SEM MIM”


“Minha vida sem mim” [My life without me] é um filmaço de 2003. Incrível como a diretora e roteirista, Isabel Coixet, contou uma história pesada sem, todavia, cair num dramalhão. O filme é baseado numa das histórias que compõem o livro “Pretending the Bed is a Raft”, de Nanci Kincaid.

Logo no começo, Ann, vinte e três anos, interpretada por Sarah Polley, recebe o diagnóstico que tem câncer e que morrerá em dois ou três meses. Ela decide esconder a doença de seu marido, de sua mãe e de suas duas filhas pequenas, alegando ter sido diagnosticada com anemia.

O casal passa por dificuldades financeiras. Don, o marido, interpretado por Scott Speedman, está, a princípio, desempregado (consegue emprego depois). Ann trabalha como faxineira. Ela não se dá bem com a mãe, interpretada por Deborah Harry (sim, aquela mesma, que foi vocalista da banda Blondie, do sucesso “Heart of glass”). Alfred Molina faz o pai de Ann; ele está preso.

Diante de um futuro cuja certeza é uma morte em breve, Ann decide fazer uma lista de coisas que pretende realizar. Nessa lista, há pendengas a serem resolvidas com a mãe e com o pai, bem como atitudes mais triviais, como um novo corte de cabelo. Ela também decide satisfazer a curiosidade de fazer amor com outro homem que não seja o marido.

Don e Ann haviam se casado muito jovens; conheceram-se, segundo eles, no último show realizado pelo Nirvana. Don era o único homem com quem Ann relacionara-se sexualmente. Tendo tomado a atitude de ficar com outra pessoa, conhece Lee, interpretado por Mark Ruffalo.

É um filme poético ali, reflexivo acolá. Coixet não se vale dos truques hollywoodianos ao contar a história. A manjada estética de Hollywood, com sua assepsia, não está no filme, que ao mesmo tempo não cede à escatologia. A “danadinha” da diretora e roteirista acertou demais no tom.

“Minha vida sem mim” é denso sem querer filosofar demais; consegue ser terno sem ser açucarado. É um daqueles filmes que nos tornam melhores, que fazem com que pensemos sobre a fugacidade de nossa vida, com que olhemos para ela com um olhar poético e urgente, mas sem desespero. É um delicado e inteligente convite à reflexão. A arte tem esse poder.

sábado, 15 de março de 2014

EM CORES

A gramática não
me deixa colorir,
mas eu coloro. 
Também sou 
defectivo.

sexta-feira, 14 de março de 2014

CONJUGAÇÃO

Eu leio cada palavra tua.
Saboreio cada palavra tua.
Chego até a decorar várias.

Reparo em cada ponto,
em cada ponto e vírgula.
Eu concebo entrelinhas...

Teu verbo, elegante poder.
Basta uma palavra tua e
será outro o meu destino. 

POSSIBILIDADES

Se aconteceu, é possível.
Se existiu, é possível.

O impossível não pode ser.
Desatino, buscá-lo.
Mas isso não é motivo para que
deixemos de vislumbrar 
formidáveis possibilidades. 

"O DIFÍCIL PARTO DO PORCO-ESPINHO"





As fotos desta postagem foram tiradas no dia trinta de dezembro de 2006. A princípio, quando vi o porco-espinho, pensei se tratar de um ninho (sic) ou algo assim. Só que de repente o “ninho” começou a se movimentar...

Desci logo da moto, já com a câmera pronta. À medida que o bicho se movia, eu o fotografava. Dava ele a impressão de estar próximo a uma área urbana (fiz o registro lá no bairro Copacabana) por causa da enchente pela qual o Rio Paranaíba passou em 2006.

Enquanto eu fotografava, um carro da polícia militar ia se aproximando. De longe, os policiais viram que eu apontava algo em direção a uma árvore. Aceleraram então o veículo e dele desceram rapidamente, talvez tendo suposto, vendo-me de longe, que a lente longa acoplada à câmera fosse o cano de alguma arma.

Quando desceram do carro, fiz, lentamente, gesto para que não se movessem, voltando-me logo após para o porco-espinho. Os policiais então entenderam o que estava ocorrendo e se aproximaram pé por pé, para não espantar o bicho. Pude fazer mais de uma dezena de fotos dele.

O título desta postagem é o título de um conto do professor, ensaísta, tradutor e escritor Luís André Nepomuceno. O conto está no livro “Antipalavra”, lançado em 2004 pela editora 7Letras. Também pela mesma casa o autor lançou “A lanterna mágica de Jeremias” (2005) “Os anões” (2009) e “Histórias abandonadas” (2011). 

quinta-feira, 13 de março de 2014

TU ÉS

Não preciso despejar no papel o que sinto por ti.
Não importa se escrevo sobre a guerra ou sobre o sofá.
Cada sílaba que digito é uma oferta que faço a ti.
Tu és tão em mim de um tal modo que, 
quando sou, eu sou o que sinto por ti. 
Quando escrevo, eu sou o que sou. 
Se sou o que sou, tu és em mim. 
Logo, se escrevo, em cada letra tu és.

Desde que tu és em mim, 
eu não sei o que é ser sem que tu sejas.
Meus olhos gostam de livros,
páginas vão se sucedendo...
Tu preenches as entrelinhas.
Eu canto e fico pensando em 
como seria se estivesses escutando.
Tu és longe, é verdade, mas que tu saibas 
que cada gesto meu é um movimento que faço em tua direção.

Voltar-me para mim é voltar-me para ti.
Voltar-me para fora de mim é voltar-me para ti.
Tu és em meu norte e em meu Cerrado.
Tu és em meu banho e em minha ideia.
O dia amanhece, abro os olhos: eu te acordo em mim.

Entendo de distâncias, sei para onde vais todos os dias.
Carmona que desfaço para deixar entrar esta manhã.
Meu sonho sai pela porta, a saudade entra pela janela.
Em minha boca e em tua pele, uma lembrança nossa.
Enquanto preparo café eu te beijo o rosto.
Bebo uma xícara, encaro o dia ainda por fazer.
Eu existo; se assim é, tu és. 

quarta-feira, 12 de março de 2014

BASEADO EM...


Registro baseado em... patos reais... (Sei que um trocadilho assim não merece perdão, mas não resisti...) 

segunda-feira, 10 de março de 2014

SHOW DE BOLA / HAVING A BALL

Na noite que passou, sonhei com o Jimi Hendrix: ele estava no palco de um ginásio esportivo de paredes azuis. O lugar em que os músicos estavam era baixo; não mais do que uns quarenta centímetros. Eu era o único que conferia o ensaio da banda.

Jimi Hendrix desceu do palco já com uma bola. Daquelas com que as crianças brincavam antigamente. Eram bolas bem grandes, leves, coloridas. Eu não acreditava: Jimi Hendrix brincando comigo?! Pois brincamos, enquanto a banda continuava com o rock. 

TONA

Tenho saudade de 
como eu era.
Mas não deixei de 
ser quem sou,
não escapei de mim.
Ei de me resgatar e 
me trazer à pele. 

domingo, 9 de março de 2014

ENTREVISTA COM MUJICA

Não sei se há em Mujica uma lúcida simplicidade ou uma simples lucidez. Seja uma coisa, seja outra, não consigo imaginar nada mais sofisticado. Entrevista aqui

sábado, 8 de março de 2014

COMPENSAÇÃO

Adélia Prado vaticinou:
“Ser coxo na vida é maldição pra homem”.
Eu sou.
E fui parar 
num verso de Adélia Prado. 

"O VOO"


Eu me surpreendi com a densidade e com as implicações de “O voo” [Flight, 2012], do diretor Robert Zemeckis. O roteiro é de John Gatins. Comecei a assisti-lo sem saber quem era o diretor; pensei que se tratava de mais um daqueles filmes que lidam com catástrofes quando um avião cai.

Não é o caso de “O voo”. Se, de fato, há a queda de uma aeronave, isso é somente pretexto para que questões como o alcoolismo e o papel do direito num processo judicial sejam abordadas. Julgar é muito, muito difícil; isso paira o tempo todo.

O filme é estrelado por Denzel Washington. Prestem atenção no quanto ele está impecável no papel de William “Whip” Whitaker, piloto da aviação civil. Nos momentos em que está tenso, há trejeitos e tiques que se repetem e que se intensificam nas cenas finais. Washington convence como alcoólatra que se nega a assumir o vício.

Interessante é que Whitaker é um daqueles personagens que nos fazem torcer por ele, mesmo estando nós cientes de suas graves irresponsabilidades. É que reconhecemos o genial profissional que ele é, ao mesmo tempo em que logo sacamos que sua empáfia é sintoma de quem finge saber lidar com o alcoolismo.

Whitaker acaba conhecendo Nicole, interpretada por Kelly Reilly. Nicole é dependente de drogas. O encontro que haverá entre os dois é sugerido numa sequência tensa: Nicole está em terra, numa maca, depois de ter consumido droga pesada; Whitaker está pilotando um avião, que está prestes a cair.

É uma cena rápida, que me remete ao poema “Amor à primeira vista”, da poeta polonesa Wisława Szymborska. No poema, há a sugestão de que o primeiro encontro entre um casal já estava sendo tramado antes que ocorresse. Não sei se Zemeckis, o diretor, ou se Gatins, o roteirista, tinham o poema em mente ao compor a cena. À parte isso, ela faz lembrar o texto de Szymborska: a arte imita a arte.

Outro ponto alto do filme é a trilha sonora, regada a clássicos do pop/rock, em especial The Rolling Stones. Se Whitaker está curtindo alguma canção, ou se o figuraça Harling Mays, interpretado por John Goodman, entra em cena, esteja certo de que isso é garantia de boa música. Repare que próximo ao fim da película, em sequência gravada num elevador, “With a little help from my friends”, dos Beatles, é apropriadamente executada, em breve e sutil solo de piano.

Às vezes, julgamos uma pessoa por um gesto, por um delito. Julgar é complicado. Se por um lado Whitaker tem habilidade rara ao pilotar, por outro, é consumido pelo vício. E se o vício e o talento estiverem num mesmo instante?... Por fim, abaixo, a transcrição do poema que mencionei, de Wisława Szymborska. A tradução é de Regina Przybycien.
_____

Amor à primeira vista — Wisława Szymborska

Ambos estão certos 
de que uma paixão súbita os uniu. 
É bela essa certeza, 
mas é ainda mais bela a incerteza.

Acham que por não terem se encontrado antes 
nunca havia se passado nada entre eles. 
Mas e as ruas, escadas, corredores 
nos quais há muito talvez se tenham cruzado?

Queria lhes perguntar, 
se não se lembram — 
numa porta giratória talvez 
algum dia face a face? 
um “desculpe” em meio à multidão? 
uma voz que diz “é engano” ao telefone? — 
mas conheço a resposta. 
Não, não se lembram.

Muito os espantaria saber 
que já faz tempo 
o acaso brincava com eles.

Ainda não de todo preparado 
para se transformar no seu destino 
juntava-os e os separava 
barrava-lhes o caminho 
e abafando o riso 
sumia de cena.

Houve marcas, sinais, 
que importa se ilegíveis. 
Quem sabe três anos atrás 
ou terça-feira passada 
uma certa folhinha voou 
de um ombro ao outro? 
Algo foi perdido e recolhido. 
Quem sabe se não uma bola 
nos arbustos da infância?

Houve maçanetas e campainhas 
onde a seu tempo 
um toque se sobrepunha ao outro. 
As malas lado a lado no bagageiro. 
Quem sabe numa note o mesmo sonho 
que logo ao despertar se esvaneceu.

Porque afinal cada começo 
é só continuação 
e o livro dos eventos 
está sempre aberto no meio. 

sexta-feira, 7 de março de 2014

APONTAMENTO 195

Eu não saberia definir a dor. O que sei, é que ela tem uma característica marcante: torna insuportável o agora. 

INJUSTIÇA COM AS PRÓPRIAS MÃOS

A ideia de que o cidadão tem de fazer justiça por conta própria está em voga. Constatando a incapacidade do Estado em oferecer segurança, alguns cidadãos decidem que estão aptos a punir aqueles que transgridem a lei. 

A incapacidade do Estado não implica a capacidade do cidadão. Ademais, quando o dito cidadão de bem, essa entidade abstrata, decide julgar, acaba defendendo a pena de morte, entoando mantras como “bandido bom é bandido morto”.

É o cidadão se julgar superior às instituições e superior a outros cidadãos. Julgando-se assim, sente-se no direito de tirar a vida de outra pessoa, igualando-se, assim, aos contraventores. Imaginemos um cenário em que as instituições sejam substituídas pelos chamados cidadãos de bem. Num contexto assim, eu teria ainda mais medo do que o que já tenho.

O argumento do dito cidadão de bem é este: “Se está com dó de bandido, leve pra sua casa”. Ou então: “Quero ver você defender bandido quando a vítima for você”. Ora, eu já sou vítima; eu vivo me policiando. Sempre digo que só temo uma única coisa neste mundo: gente. Eu também sei o que é viver com medo.

É curioso: o chamado cidadão de bem, ao se arvorar no direito de fazer justiça, é truculento. Esse cidadão denomina-se como sendo do bem, mas ele é violento. Se não em gestos, no discurso. E, suponho, ao olhar para os próprios delitos, grandes ou pequenos, não os vê como dignos de punição.

Num “sistema” tão arbitrário, em que bastaria a um grupo qualquer se achar apto a fazer justiça, imagino que muita gente inocente seria considerada culpada, pois com grupos agindo por conta própria não é dada ao “réu” a chance de se defender. Ter-se-ia então uma situação sinistra: a justiça não puniria os contraventores, e inocentes poderiam ser punidos por grupos de “justiceiros”.

Aos desavisados, penso não ser preciso dizer que não defendi contraventores nem disse que o Estado esteja cumprindo com eficácia o que é obrigação dele. Apenas não quero uma sociedade em que gente que se diz de bem seja a responsável por minha “segurança”. 

terça-feira, 4 de março de 2014

QUERO SER MICHAEL STIPE

Em tempo: em postagem recente, mencionei o filme “Quero ser John Malkovich” [Being John Malkovich, 1999]. Acompanhando os créditos do filme, o que sempre procuro fazer, li que um dos produtores é um cara chamado Michael Stipe. Na hora, pensei: “Que curioso: esse produtor tem o mesmo nome do vocalista do R.E.M.”...

Isso foi ontem. Desliguei a televisão e fui me deitar. Há pouco, eu me lembrei disso. Consultando o nosso oráculo Google, descubro que o Michael Stipe, um dos produtores de “Quero ser John Malkovich” é, de fato, o vocalista do R.E.M.! Segundo o IMDB, ele ainda tem uma empresa de produção cinematográfica chamada C-100. 

AND THE PRONUNCIATION IS...

Eu queria ter comentado anteriormente, mas acabei esquecendo: a cerimônia deste Oscar 2014 serviu também para que eu aprendesse a pronunciar corretamente os nomes de Matthew McConaughey e de Pharrell Williams.

Em “Pharrell”, eu pensava que a sílaba tônica era a primeira — é a última. Já em “McConaughey”, sempre que eu via o nome escrito, eu o encarava, por assim dizer, como um desenho, um “ideograma”, nem arriscando qualquer pronúncia.

Enquanto eu estava digitando este texto, eu me lembrei do howjsay.com, que ensina a pronúncia de nomes próprios. O nome “Pharrell” ainda não está na página; já “McConaughey”, sim.

APONTAMENTO 194

CEM ANOS DE JOHN MALKOVICH

Gabriel García Márquez já disse em algumas entrevistas que um dos truques de que ele se valeu em “Cem anos de solidão” (1967) foi o de contar as coisas mais incríveis como se algo banal estivesse sendo narrado. Esse jeito de contar as coisas é também um dos truques de “Quero ser John Malkovich” [Being John Malkovich] (1999), do diretor Spike Jonze. O roteiro é de Charlie Kaufman.

Não que o filme tenha características do que a crítica chama de realismo mágico (não tem); entretanto, as coisas mais imponderáveis são encenadas como se fossem algo trivial. Esse jeito de narrar, não raramente, conduz ao humor. Não bastasse isso, é quase inevitável (ou pelo menos deveria ser) que acabemos refletindo sobre a imponderabilidade da vida que levamos, a imponderabilidade do que chamamos de realidade. 

segunda-feira, 3 de março de 2014

A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (74)


Se acordo pela manhã, saio da cama e abro a porta da sala e as janelas da frente da casa. Só depois disso, se for o caso, volto a dormir. Não sei ao certo a razão pela qual cumpro esse “ritual”, mas me sinto melhor quando o realizo. Hoje pela manhã não foi diferente.

Ao abrir a janela da sala em que fica a televisão, gostei da gradação que a luz, ao passar pela janela, estava projetando sobre o sofá e a parede. Olhando-se para a imagem pode-se supor que a janela está, por assim dizer, à esquerda da foto, mas, curiosamente, está à direita. A foto foi tirada às 6h40. 

"VIDA DE JESUS"


“Vida de Jesus”, cuja primeira edição é do século XIX (1863), de Ernest Renan, é um dos livros mais ousados e inteligentes já escritos. Tem o rigor científico de um historiador, um leitor minucioso da história de Jesus conforme nos é contada na Bíblia. Renan disseca a figura de Cristo não na tentativa de fazer ruir o mito, mas, sim, de estudá-lo com um olhar científico, tentando deixar de lado ilusões individuais ou coletivas.

Se lido com a mente aberta, perceber-se-á que se trata de uma obra que não teve a intenção de ser blasfematória. Não há ranço, não há crítica aos que, pela fé, coadunam com o que a Bíblia narra, crendo, por exemplo, que houve milagres — Renan descarta, dentre outras coisas que são contadas nos Evangelhos, a existência de milagres.

Não se trata de um livro contra Jesus nem contra a história do cristianismo. Sem radicalismos, Renan expõe pensamentos e conclusões sem o tom de quem pretende causar polêmica. É fácil polemizar e chocar. Renan não é iconoclasta; é “apenas” um historiador que olha para a figura de Cristo e tenta lançar sobre ele e sua época, com rigor e sensatez, um olhar racional, rigoroso e bonito.

Nos tempos atuais, em que, na falta de bons argumentos, as pessoas têm vociferado desatinos travestidos de opiniões, “Vida de Jesus” acaba sendo, de quebra, uma aula de retórica e de bom senso. A obra ensina, mesmo não sendo sua intenção principal, que até algo muito polêmico pode ser tratado com inteligência.

A edição que tenho é da Martin Claret, que na década de 80 fez sucesso com a coleção O pensamento vivo, na qual grandes inteligências eram biografadas. A tradução de “Vida de Jesus” é de Eliana Maria de A. Martins. Errinhos de digitação aqui e ali não chegam a comprometer a edição, que tem breve cronologia da vida de Renan e, seguindo o perfil didático da editora, apêndices. 

domingo, 2 de março de 2014

VIVER DE SAUDADE

Saudade não 
mata ninguém.

Eu morro 
de saudade de ti.
_____

(Um poema não precisa ser explicado, os bastidores de um poema não precisam ser revelados. Ainda assim, a título de curiosidade, digo que o breve texto acima foi escrito enquanto eu estava lendo o “Vida de Jesus” e aguardando a chegada de aves e de pássaros, conforme a postagem anterior.) 

OUTROS VOOS




O Leonardo da Vinci escreveu que “a felicidade está na atividade”; o Jorge Luis Borges, que “ler é uma forma de felicidade”. Tentei seguir os preceitos tanto do Da Vinci quanto do Borges hoje à tarde, ainda me recuperando de acidente de moto mencionado anteriormente neste blogue. Para me locomover, estou me valendo de muletas, mas já peguei as manhas de ser ágil com elas.

Há um tempão era projeto meu descolar um pedaço de tronco de árvore, na intenção de fazer um comedouro para aves e pássaros no pequeno quintal aqui de casa. Tendo conseguido o tronco, contei com a ajuda do Nivaldo, meu irmão, e do Cícero, amigo do Nivaldo, os quais, serrando, ajeitaram o tronco para que ele pare em pé; fizeram ainda uma espécie de cocho em que a comida pode ser colocada. Ao Nivaldo e ao Cícero, muito obrigado.

Tudo terminado, peguei câmera, lente, livro, caneta e papel. Enquanto esperava por algum pássaro ou alguma ave, eu lia — precisamente, o “Vida de Jesus”, do Ernest Renan — e escrevia uma ideia ou outra que me ocorresse. A leitura ia prosseguindo, bem como um verso ou outro escrito por mim; nem pássaro nem ave davam as caras.

Não tendo alimento próprio para colocar no cocho feito pelo Nivaldo e pelo Cícero, eu me vali de arroz, sem saber se aves e pássaros se alimentam de arroz. Assim que possível, vou comprar algo próprio para eles, numa tentativa de seduzi-los, para que eu os fotografe.

Não sei se pelo horário (fim de tarde), se pelo alimento colocado à disposição ou se pela minha proximidade, não fotografei nada que voasse; ainda assim, eis, nesta postagem, imagens do tronco e do comedouro. Enquanto esperava, como dito, li e escrevi; isso é fazer algo; logo, arrumei um jeito de ser feliz.

A próxima etapa é plantar aqui em casa uma muda de lantana, na intenção de atrair beija-flores e borboletas. Caso eu obtenha sucesso, seja com aves e pássaros, seja com borboletas e beija-flores, vocês saberão. Mesmo que eu não obtenha sucesso com eles, sei que estarei em companhia de algum livro ou de alguma tentativa de escrever enquanto os aguardo. 

EM FLOR

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

QUESTIONAMENTO

Lucas tem um ano e meio de pura travessura. Está dentro de um carro, que passa em frente ao hospital em que o garoto nasceu. Serelepe, ele aponta o dedo para o hospital e diz:

— Foi aqui que eu saí de dentro da barriga da minha mãe.

Lucas dá uma risada; segundos depois, abandona subitamente a gargalhada, faz cara de incompreensão e pergunta:

— Uai, mas como é que eu entrei na barriga da minha mãe?! 

BICUDO


Sempre que me deparo com algo de que não sei o nome, eu me lembro do Arnaldo Antunes: "Como é que chama o nome disso"?

P.S.: o Alexandre, um amigo, disse-me que o nome é curicaca.

NO CHÃO

Cair não é bom.
Bom é levantar-se.
Melhor seria não cair.
O chão perto da cara.
Eu olho para cima.
Há espaço no céu.
Hora de me levantar. 

FLORES NO CÉU

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

SINTONIA FINA

Pessoas, estou no ar com o Sintonia Fina, programa musical, até às 19h. Para escutar, cliquem aqui. Conto com a audiência de vocês. 

ENQUANTO ISSO...


No fim de tarde de terça-feira, dia 18 de fevereiro, levei um tombo de moto, do qual ainda estou me recuperando. Machuquei o lado direito de meu corpo  braço, mão, joelho e pé. Este ainda me preocupa, apesar dos cuidados e das visitas a médico.

Saindo de casa só para ir a hospital, o jeito é me virar com o que ocorre aqui para que eu fotografe. Foi com esse espírito que pude fotografar esta rolinha (?), que momentos antes estava na companhia de outra rolinha; cheguei a fotografar o casal.

Embora eu esteja usando muletas para me locomover pela casa, estou pensando em fazer algumas fotos por aqui, numa espécie de ensaio que teria a intenção de ilustrar ideia de que sou partidário: a de que não é preciso ir longe para fotografar. Caso tal ensaio seja feito, eu o postarei aqui. 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

LIZZIE VELASQUEZ

Ela é linda.

(Caso seja preciso ativar as legendas, ative-as no canto inferior direito.)

DESCRIÇÃO

Tu sabes te tornar inesquecível.
Não te esforças, não premeditas, não tentas.
Simplesmente és, em elegância sem afetação.
Caminhas leve, há um quê de etéreo
neste teu encanto que é concreto. 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

OS DOIS


Ontem à tarde, quando fui à cozinha tomar água, vi esses dois pela janela; também me viram, mas não pareceram se importar comigo nem com minha sede. Foi então que pensei na possibilidade de fotografá-los.

Saí da cozinha de fininho com a intenção de não espantar o casal. Chegando à sala, eu não estava conseguindo achar nem a câmera nem a lente, por causa de minha desorganização. Fuçando com mais furor, eu as achei.

Voltei à cozinha como quem não quer nada, posicionando-me próximo ao local em que eu estivera há instantes, enquanto tomava água. O casal continuava no mesmo lugar. Cooperaram muito para a seção: pude fazer dezesseis fotos deles.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

INDIVIDUAL E COLETIVO

A política, em teoria, é uma solução coletiva. A filosofia, em teoria, é uma solução individual. Parece-me que apenas uma dessas possíveis soluções não basta. Um homem sereno terá mais dificuldade em manter a serenidade em meio ao caos; um ambiente favorável parece-me inútil se é feito por pessoas infelizes.

Não creio numa hierarquia. Não penso que seja necessário haver primeiro uma solução individual para depois se buscar uma coletiva ou vice-versa. Uma solução pode levar à outra. Vejo como exercício infrutífero ficar se perguntando se o estado ruim das coisas se deve a uma falta de uma política melhor ou se ao fato de a sociedade ser composta por indivíduos doentes.

Todas as pessoas da Terra poderiam ser vistas como um só organismo, um só todo, mas esse todo é feito por individualidades. Concebo um intercâmbio ideal em que o todo e o indivíduo realizariam permutas criativas e saudáveis. Mas bem sabemos que o todo, tal como está, é feito de políticas cruéis e de indivíduos sem interesse em benefícios filosóficos. 

NATURALMENTE

Ao contemplar a foto de um soberbo pôr do sol ou ao observar a imagem de um majestoso tucano, é comum as pessoas comentarem que a natureza é perfeita. Contudo, geralmente não dizem o mesmo quando estão diante da imagem de um gavião devorando sua presa.

O modo como o homem se refere à natureza é “egoísta”, no sentido de que ele se vale de termos... humanos para se referir a coisas que não são humanas — mas que nem por isso deixam de pertencer à natureza.

Uma cachoeira pode ser adjetivada como perfeita; em contrapartida, não imagino a foto de uma inundação nas ruas de uma cidade receber tal adjetivo. Ainda assim, tanto as águas da cachoeira quanto as da inundação são manifestações da natureza.

Poder-se-ia argumentar que as tragédias naturais que destroem o homem são, no fundo, causadas por nós, que estaríamos tratando mal a natureza. Se por um lado estamos mesmo tratando-a mal, por outro, não podemos nos esquecer de que séculos antes da Revolução Industrial a natureza já matava o homem.

Para alguns, pode ser desconfortável a assunção de que a natureza não se importa com o destino humano. Não somos preservados por ela, não contamos com suas benesses nem com sua proteção. Somos simplesmente mais uma manifestação natural. Somos também natureza, mas não somos os eleitos dela. A natureza não se importa conosco; a natureza não tem eleitos.

Assim como um bem-te-vi devora o inseto, um leão vai nos devorar se estiver com fome. Esse hipotético leão não levará em conta se a presa humana era um exemplar pai de família ou se tratava-se de um assassino de gente. Se amanhã um corpo vindo do céu se chocar contra a Terra, a natureza não levará em conta o gênero humano ter produzido algo como “O leopardo”.

Parece-me haver algo de senso estético quando alguém diz, ao contemplar um luar, que a natureza é perfeita; o conceito estético é humano. Se, ao ver foto de uma ave que parece acariciar outra, alguém diz que a natureza é terna, é preciso ter em mente que ternura é nome dado pelo homem, é conceito humano.

A natureza quer ser. A natureza é. Na natureza, para que um seja, outro, às vezes, tem de deixar de ser. Há momentos em que esse outro pode ser um de nós. A natureza é mutável. Quando o Sol explodir, ele não levará em conta que em torno dele navegava um planeta que chamamos de Terra. 

RELÓGIO 7

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

CÍRCULO

Ler me deixa 
com vontade de escrever, 
que me deixa com vontade de ler.

Escrever me deixa 
com vontade de ler, 
que me deixa com vontade de escrever.

Círculo precioso 
que me deixa com vontade de viver. 

QUEDA

Dor. 
Substantivo ubíquo, atemporal.
Sintoma marcante: torna insuportável o agora. 

O QUE ME RESTA

Se um dia quiseres perder tempo, fica comigo.
Se um dia quiseres ser feliz, fica comigo.
Para ti eu tenho horas.
Para ti eu tenho toda a vida.

Se um dia quiseres meu corpo, fica comigo.
Se um dia quiseres minha alma, fica comigo.
Para ti eu tenho mãos.
Para ti eu tenho todo o corpo.

Se um dia quiseres dedicatórias, fica comigo.
Se um dia quiseres flores, fica comigo.
Para ti eu tenho versos.
Para ti eu tenho todo o livro. 

VELHA ALMA

Que meu corpo envelheça.
Que minha alma envelheça.
Envelhecer não é necessariamente caducar.

Não quero alma jovem em corpo velho.
Quero alma velha em corpo velho.
Envelhecer não é obrigatoriamente decrepitude.

Que venha um corpo velho.
Que venha uma alma velha.
Envelhecer não é o mesmo que não saber aprender.

Que minha alma e meu corpo
fiquem enrugados, amassados.
Alma velha também recomeça.

Além do mais, alma tem idade?
Alma envelhece como corpo?
Caso sim, que a minha faça aniversário. 

SOLAR

Acordei antes do Sol, 
que no horizonte já se insinua.
O dia rende, os versos rendem.
O dia vai se fazendo.
Num céu de uma 
limpidez tão azul, 
o dia vai se fazenda. 

ARQUITETURA DOS MINUTOS

Planta baixa: 
falta um quarto 
para que chegues. 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

DIAGNÓSTICO

— Onde dói?
— Aqui.
— Dói muito?
— Muito.
— Vamos fazer uma radiografia.
— Doutor, mas a alma não vai aparecer, não, vai? 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

TÁ RINDO DE QUÊ?

Robert Musil tem um saborosíssimo texto intitulado “Um cavalo sabe rir?”. Musil conta que um psicólogo dissera que “o animal não sabe rir nem sorrir”. Só que ele, Musil, conta que viu um cavalo rindo. O texto é um barato. 

Um trecho: “Ora, um cavalo tem por assim dizer, quatro axilas e, provavelmente, duas vezes mais cócegas que o homem, portanto. Além disso, esse parecia ter também um lugar particularmente sensível, no lado interno da coxa, e toda vez que o tocavam ali, não conseguia conter o riso” (tradução de Nicolino de Simone Neto).

A narradora de “Água viva”, da Clarice Lispector, diz: “Os animais não riem. Embora às vezes o cão ri. Além da boca arfante o sorriso se transmite por olhos tornados brilhantes e mais sensuais, enquanto o rabo abana em alegre perspectiva. Mas gato não ri nunca”.

O gato da narradora de “Água viva” até poderia ser o mesmo a inspirar a crônica “Ode ao gato”, do Artur da Távola: “Nada é mais incômodo para a arrogância humana que o silencioso bastar-se dos gatos. (...) O gato não satisfaz às necessidades doentias de amor. Só às saudáveis”.

Nunca vi um cavalo rindo. Nem um cachorro. Mas eu os concebo rindo. Em contrapartida, não consigo imaginar um gato rindo. Pode ser que ele não seja de rir, mas de sorrir (sorrir implica só o movimento facial; rir implica emissão de som). 

O gato é muito na dele. Parece muito indiferente às contingências humanas, bem como parece nem achar graça disso. Eu acho. Mas eu sou bicho homem. O bicho homem é dos que riem. Eu rio. Às vezes, suponho, como um cavalo. 

EM PAZ

De nada adianta 
o silêncio lá fora 
se não há silêncio 
dentro da gente. 

De nada vale 
a paz lá fora 
se não há paz 
dentro da gente. 

Achar a paz é 
achar o silêncio. 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

FÁBRICA

Invisto no agora.
Acabo fabricando, 
hoje, a saudade 
de amanhã. 

domingo, 16 de fevereiro de 2014

APONTAMENTO 193

A beleza é versátil: pode ser matemática, verbal, imagética, sonora... Feio é não se dar conta da beleza. 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

TRAVESSIA

Existe a margem de lá.
Existe a margem de cá.

Vida é o que acontece
enquanto se atravessa o rio. 

DA PONTE



Fotos que fiz num fim de tarde, no dia oito de janeiro de 2007, durante uma das enchentes do Rio Paranaíba. Fácil perceber que a água estava quase chegando à ponte.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

FINEZA

CARCARÁS



SINTONIA FINA AO VIVO

Pessoas, a partir das 17h, vou estar ao vivo com o Sintonia Fina, programa musical. Caso queiram escutar, basta clicarem aqui. O programa vai até às 19h. 

À LUZ DE NICOLE


Esta é Nicole, criança que, acompanhando aluna minha no mais recente curso de fotografia que realizei, participava das aulas, com carisma e inteligência. Praticando a teoria ao ar livre, estávamos tirando algumas fotos num fim de tarde, quando me dei conta de que a luz natural que incidia sobre a Nicole estava legal. Tirei, então, a foto. 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O MILÉSIMO "GOL" DE TÚLIO

Com muito atraso, somente hoje é que vi o milésimo "gol" marcado por Túlio contra o Mamoré, lá em Araxá. Ora, com um árbitro (Igor Junio Benevenuto) disposto a colaborar daquele modo, estou pensando em começar a jogar futebol e tentar marcar mil gols. O Túlio tem quarenta e quatro anos; é profissional há vinte e sete.

Ele levou vinte e sete anos para fazer mil gols. Todavia, caso eu consiga árbitros tão benevolentes quanto o que inventou aquele pênalti contra o Mamoré, penso que eu chegaria a mil na metade do tempo levado por Túlio. Tenho quarenta e três. Logo, por volta dos cinquenta e sete, eu chegaria ao milésimo gol. Amanhã mesmo vou procurar vaga na URT, time para o qual torço.