quarta-feira, 20 de novembro de 2013

PERSONAGEM

Basta uma palavra tua 
para que teu dia 
alegre o meu.
Dá-me teu livro.

Quero entrar em teu enredo, 
ser teu personagem, 
construir, 
com palavras tuas, 
a minha história. 

PELA JANELA

Eu estava com o Nivaldo, meu irmão. Fomos a um lugar onde, segundo ele, haveria a possibilidade de fotografar veados. Eles não apareceram. Já vindo embora, ainda numa estrada de terra, pedi ao meu irmão que acelerasse o carro. Abri a janela, baixei a velocidade na câmera e fiz a foto.
 _____ 

1/40 
F/8.0 
ISO 100

terça-feira, 19 de novembro de 2013

RETRATO FALADO: ENTREVISTA COM LUCIO NUNES

No ar, mais uma edição do Retrato Falado, programa de entrevistas.

Meu convidado é Lucio Nunes, cantor e músico. O Retrato Falado vai ao pelo Canal 5 da Net, operadora de TV por assinatura, aqui em Patos de Minas.

O EXEMPLO DO PAPA FRANCISCO

Acabei de ler que o papa, na Praça São Pedro, abraçou um homem cujo rosto é desfigurado por uma doença. O papa também beijou o rosto desse homem, Vinicio Riva, que, segundo a matéria, leva uma vida reclusa por causa de uma doença chamada neurofibromatose. Riva disse que sentiu apenas amor ao ter o rosto acariciado pelo religioso. 

O gesto do pontífice é bonito e revelador de um profundo senso de humanidade; quando digo isso, levo em conta o homem, não o cargo exercido por ele. As imagens são belas, inspiradoras. Além do mais, ao longo da história, muito do que fizeram do cristianismo está longe do que ele deveria ser na prática. Não gosto de proselitismos nem sigo as doutrinas católicas, mas o exemplo de Francisco abarca e materializa o que me parece ser a essência do cristianismo.

Para conferir a matéria e as fotos, clique aqui

COMERCIAL COM VAN DAMME

[Se você ainda não assistiu ao vídeo incorporado nesta postagem, assista-o antes de ler o texto abaixo.]

Comentários no Youtube dão conta de que havia rede de proteção entre os caminhões (o que não tira o mérito da realização), ou de que o filme teria sido feito com os veículos se locomovendo para frente, e não em marcha a ré, como parecem estar: na edição, teriam rodado o filme ao contrário, para dar a impressão de que o ator belga Jean-Claude Van Damme faz a abertura, quando, na verdade, de acordo com os que acham que o filme foi rodado ao contrário, as pernas teriam sido fechadas. Houve quem disse, também nos comentários do Youtube, que isso seria igualmente notável, alegando que o movimento de ter as pernas unidas exigiria de Van Damme mais força física ainda do que a necessária para abri-las.

Os que advogam que os caminhões estavam realmente em marcha a ré dizem que os motoristas conferem os retrovisores o tempo todo. Isso, entretanto, não prova que eles estavam de fato realizando movimento de recuo. Poderiam estar indo para a frente, com a cabeça virada para os retrovisores, mas, de esguelha, olhando para frente. Se estavam na verdade dando marcha a ré, o feito deles é admirável.

À parte quaisquer truques de edição que possam ter sido usados, é inegável o impacto que o vídeo causa. Quando o assisti pela primeira vez, não tive a impressão de algum truque de edição (mas estou ciente de que várias artimanhas podem ter sido utilizadas). Fiquei, sim, impressionado com as façanhas do ator e dos motoristas, sem falar do “susto” que levamos quando nos damos conta de que os caminhões estão em marcha a ré (ou pelo menos aparentam estar).

À parte racionalizações bobas, o barato é curtir o vídeo, que é um baita acerto dos marqueteiros contratados pela Volvo. Eu me envolvi, tendo-o assistido diversas vezes, reparando em vários detalhes. Há um astral de filmes de ação (a presença de Van Damme, é claro, intensifica isso). A sintonia e a interação entre motoristas (com seus auxiliares) e ator são impecáveis, passando a energia de um bonito trabalho em equipe; segundos que comportam anos de treinos e de experiência, a despeito de toda a tecnologia dos caminhões — o que o anúncio, afinal, quer vender. Fico pensando ainda no time dos bastidores, realizando, suponho, comunicações via rádio com os condutores e os seus ajudantes.

O enquadramento escolhido é uma aula de composição: no começo, o horizonte, com o topo dos caminhões praticamente no mesmo alinhamento em que ele está, ocupa um pouco mais de dois terços do quadro, com o Sol à esquerda, também seguindo a regra dos terços. Nos últimos dez segundos, tem-se uma relação especular em relação aos momentos iniciais. O horizonte, então, passa a ocupar o terço inferior do quadro, com o Sol à direita.

A canção de fundo é “Only time”, cantada pela Enya. Em comentários postados no Youtube, houve quem reclamou da escolha. A trilha não me incomodou, mesmo eu não sendo um fã da cantora. O diretor do comercial é Andreas Nilsson. Segundo a ficha técnica, a peça foi realizada na Espanha, no momento em que o Sol estava nascendo. Ainda de acordo com o divulgado, o filme foi rodado numa só tomada.

domingo, 17 de novembro de 2013

CAÇA AOS BRUXOS?

José Genoino, com capa, entregou-se para a polícia; Henrique Pizzolato, sem capa, voou para a Itália. Fosse ficção, pareceria inverossímil: a realidade é criativa. Na Ilha de Vera Cruz, uns lamentam a prisão dos “mensaleiros”, enquanto outros fazem festa. O que, com o passar do tempo, pode vir a ser lamentável é constatarmos que houve uma caça às bruxas contra o PT, deixando-se de lado os esquemas-mensalões do DEM e do PSDB.

P.S.: Informações sobre a capa podem ser obtidas aqui

sábado, 16 de novembro de 2013

O SUCESSO

Não há como sabermos se há lei, regra ou segredo para o sucesso. Muita gente com mérito teve sucesso. Muita gente sem mérito teve sucesso. Muita gente com mérito não teve sucesso. Muita gente sem mérito não teve sucesso. 

Depois de ler qualquer um dos milhares de livros que garantem levar você ao sucesso, você poderá alcançá-lo. Ou não. E ainda que o alcance, não há como saber se foi, de fato, por ler o livro e seguir o que ele recomenda. 

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O REGADOR


Mais uma antiga: tirei esta foto em vinte de janeiro de 2006. Não era o caso, mas achei haver no regador sobre a grama uma sensação de abandono, por assim dizer. Tirada a foto, não achei que ela passasse a ideia de abandono.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

BOM SENSO EM CAMPO

Já escrevi anteriormente sobre um sonho que tenho: o dia em que os torcedores, cansados de todos os desmandos da Globo, da CBF e da Fifa, decidam não ir ao estádio. Imagine um clássico decisivo entre, por exemplo, Flamengo e Corinthians em que os torcedores não compareçam. Ou então deixem de ir a uma partida importante da seleção brasileira.

Sei que isso é utópico, mas na rodada de ontem do Campeonato Brasileiro houve algo emocionante: na partida entre São Paulo e Flamengo, no Novelli Júnior, os jogadores de ambos os times entraram em campo com uma faixa em que se lia: “Amigos da CBF: e o bom senso?”

Havia sido combinado que após dado o apito para o início da partida, os jogadores ficariam de braços cruzados por um minuto. Foi quando o árbitro Alício Pena Júnior ameaçou dar cartão amarelo para os vinte e dois atletas. No centro de campo, os jogadores argumentaram com o árbitro, sem sucesso.

Numa sacada brilhante, decidiram então que, após o apito, eles ficariam, por um minuto, “apenas” tocando a bola de um campo para outro — o que foi feito. Afinal, nesse caso, não haveria como o árbitro punir os jogadores, pois a bola estava sendo tocada, e o atleta tem a prerrogativa de tocar a bola como queira.

A cena é emblemática, bonita, inspiradora. Na Globo e no Sportv, os locutores explicaram o que é o movimento Bom Senso F.C., empreendido por alguns jogadores da primeira divisão do futebol nacional. Dentre outras reivindicações, pedem reformulação do calendário do futebol brasileiro, comandado pela Globo.

Outra bonita reação foi a do pessoal da ESPN. A emissora, sem meias-palavras, apoia o movimento. Ontem, no Bate Bola, Rodrigo Rodrigues, Gustavo Hofman, Alexandre Oliveira e Paulo Calçade cruzaram os braços depois de terminado o programa. Mais tarde, no Sportscenter, em texto narrado por Paulo Soares, a emissora dizia apoiar o movimento. O próprio Paulo Soares cruzara os braços na bancada do programa.

Depois de terminada a partida contra o Flamengo, Rogério Ceni criticou a Rede Globo. De modo fleumático, as críticas de Ceni foram rebatidas por Marcelo Campos Pinto, diretor da Globo Esportes. A emissora já havia também sido publicamente criticada pelo craque Alex, do Coritiba (“link” aqui:).

É alentador presenciar gente como Ceni e Alex criticando o esquema Globo/CBF. O calendário do futebol brasileiro é infame; além disso, partidas às 22h são um desrespeito aos torcedores, que se tornam reféns dos ditames da CBF e da Globo. Daí o meu sonho, o de os torcedores se cansarem de toda essa patuscada e se recusarem a ir aos estádios.

A nota triste da madrugada ficou por conta da imbecilidade de alguns torcedores do Cruzeiro, que saquearam lojas, incendiaram motos e depredaram loja do Atlético em Belo Horizonte. Foi a “comemoração” deles. Ridículo. Também por causa de gente assim o futebol não melhora. 

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

CLUBE ATLÉTICO CRUZEIRO


O Atlético/MG é campeão da Libertadores e o Cruzeiro é campeão brasileiro. Isso é motivo de festa. Foi o melhor ano do futebol mineiro no que diz respeito a títulos das duas maiores equipes de Minas Gerais. Isso, sem mencionar que o Atlético ainda tem o mundial de clubes para disputar. 

Não é segredo para ninguém que, em função da audiência e da grana, os meios de comunicação do Rio e de São Paulo prefeririam que Flamengo e Corinthians estivessem na posição em que estão Atlético e Cruzeiro hoje. Embora aleguem tratar igualmente os clubes, fica nítido que TVs, rádios, jornais e “sites” do Rio e de São Paulo têm nas equipes desses estados sua menina dos olhos, devido a faturamento e a audiência. Para “sorte” deles, o Flamengo briga por título nacional na Copa do Brasil. 

Num cenário ideal, as regiões norte, nordeste e centro-oeste também entrariam com mais frequência e de modo mais incisivo na busca por títulos, seja no Campeonato Brasileiro, na Copa do Brasil, na Libertadores. Devido a razões históricas e econômicas, isso não ocorre, mas é sempre bonito quando o futebol de outros estados balança a rede e as estruturas. 

 Ao Cruzeiro, parabéns pelo título. Jogando na Bahia, contra o Vitória, a Raposa foi para o vestiário sem que o título estivesse de fato confirmado. Agora, no segundo tempo, que começa já, já, o time de Minas Gerais vai entrar em campo como o campeão brasileiro de 2013. 

O INSETO

Minúsculo inseto sobe pela parede.
Não faz a menor ideia do que é o Universo.
Nem eu. 

TESSITURA

FLORES EM VOCÊ

PIRADO

Você me acende.
Você me ascende.

Você me move.
Você me comove.

Você me leva.
Você me enleva.

Você me inspira.
Você me pira. 

DE REPENTE

As coisas não acontecem de repente.
De repente, a gente se depara com elas,
mas já estavam sendo germinadas, 
estavam se insinuando, 
sendo boladas.

De repente, houve o Universo?
Depois dele, nada foi de repente. 

APONTAMENTO 186

Quando se tem a vontade de aprender, o outro ensina até sem querer. 

DESFILE


Foto que tirei em vinte e quatro de junho de 2007. Usei uma câmera compacta que tive, uma Canon Powershot Pro1. Era complicadíssimo valer-se dos recursos que ela tinha. A vantagem é que depois de domá-la, ficou um tanto fácil lidar com as demais câmeras que tenho manejado. 

DA SENSUALIDADE

A pessoa que tem sensualidade é sensual até no silêncio. Ou principalmente nele.

A pessoa sensual não precisa estar sem roupa. A sensualidade flui, esteja a pessoa em roupas de frio, esteja em trajes de praia.

A sensualidade está na voz, no jeito de olhar, no modo de chegar... Sobretudo, a sensualidade é espontânea. Não adianta tomar a decisão de ser sensual. A sensualidade não está — ela é.

A sensualidade é congênita. Pode ser incrementada, adornada, lapidada, sofisticada. Todavia, não basta tomar a decisão de ser sensual para sensual se tornar. Tentativa de sensualidade não é sensualidade.

A sensualidade é sutil; na busca por ela, muitos caem em afetação. Roupas não deixam ninguém sensual; elas intensificam a sensualidade que, entretanto, emana com naturalidade.

Sensualidade nada tem a ver com gente magra ou com gente gorda. Há pessoas que são magras, têm corpos talhados em academia e não têm nada de sensual; há gente que é gorda e exala sensualidade.

Cátia pode achar que em Jorge a barba é sensual; já Luana pode não resistir a Tiago quando ele faz a barba. Guilherme pode achar que a boca de Lara é a coisa mais sensual que há, enquanto Henrique fica louco com o jeito de caminhar de Carmem. 

É difícil definir a sensualidade; mais fácil é exemplificá-la. Ela é imprecisa, quase etérea, caso se queira verbalizá-la. Ao mesmo tempo, é encarnada, material, incitante.

A boa notícia é que não há quem seja unanimemente sensual. Alessandra pode ser sensual para Pedro e sem graça para João. José pode não causar nada no olhar de Natália e ser muito sensual para Betânia.

A sensualidade pode estar em qualquer um. Ela pode estar nos olhos de quem contempla. 

ALELUIA!

Aleluia serelepe
faz a festa
em volta
da lâmpada.
Instantes depois,
perde as asas.

A aleluia
agora é chão.
Mas não se
debate contra
a força da gravidade
nem se revolta
contra o peso
da vida. 

REFLEXO

FOTOPOEMA 338

terça-feira, 12 de novembro de 2013

ENTREVISTA COM ADAMAR GOMES

Abaixo, entrevisto Adamar Gomes para o Canal 5, emissora de TV por assinatura que transmite pela NET. A entrevista foi ao ar na semana passada.

O entrevistado fala sobre os tempos em que foi baterista de uma banda, conta histórias sobre futebol e, claro, relata sua trajetória no rádio local, aqui em Patos de Minas. Adamar Gomes comenta também sobre seus planos.

domingo, 10 de novembro de 2013

CRUZEIRO 3 x 0 GRÊMIO

Há pouco, no Mineirão, a situação foi curiosa: o grito de “é campeão” foi entoado, mas, oficialmente, o Cruzeiro ainda não é o campeão brasileiro de 2013. O próximo jogo, contra o Vitória, é fora de casa. Depois, a Raposa joga em Uberlândia. Fica um quê de anticlímax na vitória do Cruzeiro sobre o Grêmio. 

O gostoso mesmo seria se o Atlético/PR não tivesse vencido o São Paulo. Tivesse isso ocorrido, o Cruzeiro já poderia ser oficialmente decretado o vencedor do torneio. Se, oficialmente, o título não veio hoje, o Cruzeiro pode se orgulhar de ser o primeiro time a ganhar o campeonato brasileiro vencendo todos os oponentes, ora no turno, ora no returno. Isso jamais havia ocorrido. Éverton Ribeiro foi o craque do campeonato.

Hoje, quem jogou demais foi o goleiro Fábio. Se por um lado o Cruzeiro teve mais volume de jogo, por outro, o Grêmio criou oportunidades de marcar. O gol gremista somente não ocorreu devido às belas defesas de Fábio, que consolida, de uma vez, com esse título, o fato de ser ídolo cruzeirense.

A partida de hoje foi chocha, embora o segundo tempo tenha sido melhor do que o primeiro. A primeira metade do jogo foi muito truncada, por causa também das inúmeras faltas que ocorriam em curtos intervalos. Borges, Willian e Ricardo Goulart fizeram os gols.

Outro acerto do time foi a contratação de Marcelo Oliveira. Comedido nas respostas e não passando a atmosfera de empáfia quando fala de seu trabalho, o técnico, com seu modo sensato, é o vencedor do torneio. Lembro-me de uma declaração dele no começo do ano, em que ele disse que não queria ser pré-julgado pelo que já fizera, mas julgado pelo que faria. Ele fez muito. 

sábado, 9 de novembro de 2013

DEBATE POLÍTICO

Hoje pela manhã, participei de um debate sobre política. Murillo Carvalho foi quem me convidou para o evento. Alunos do curso de direito (Murillo é um deles) participam dos debates, que estão sendo realizados semanalmente.

Na ocasião, Murillo me pediu para que eu postasse os “links” de meu blogue em que há textos sobre política. Ei-los abaixo:

http://liviosoares.blogspot.com.br/2013/10/politica-0-x-0-futebol.html

http://liviosoares.blogspot.com.br/2013/06/o-individual-e-o-coletivo.html

http://liviosoares.blogspot.com.br/2012/10/politica-e-liberdade-de-expressao.html

http://liviosoares.blogspot.com.br/2012/08/animal-politico.html 

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

ROMÁRIO x RONALDO

O jogador Ronaldo, que recebeu o epíteto de Fenômeno, criticou Romário, alegando que falta patriotismo a este, que recebeu a alcunha de Baixinho. Fora de campo, a atuação profissional daquele, até agora, não tem estado... à altura deste.

Ronaldo alega que não está levando grana por estar envolvido com aquele povo da CBF e da Fifa; o ex-jogador faz parte do Comitê Organizador da Copa do Mundo de 2014. De acordo com Ronaldo, o fenomenal Baixinho não estaria vendo a oportunidade de crescimento para o Brasil.

Ainda que Ronaldo não esteja levando um centavo e mesmo que seu patriotismo seja genuíno, o jogador poderia, contudo, receber a pecha de pacóvio, tanto no patriotismo que diz ter quanto no apoio àquele pessoal da CBF, Fifa e Cia LTDA.

Ronaldo e Romário foram craques em campo. Fora dos gramados, todavia, Ronaldo tem pisado na bola, por se envolver com os asseclas que comandam o futebol mundo afora. Já Romário, até agora, tem tido palavra sensata e crítica contra os desmandos, intromissões e estádios superfaturados da senhora CBF e da dona Fifa.

Ronaldo pode não estar sendo sincero ao dizer que tem feito o trabalho no Comitê Organizador da Copa devido ao patriotismo que tem. Mas, se estiver, tem companhia, pois há muita gente como ele; muitos confundem apoio ingênuo e desinformado com patriotismo. Não se dão conta de que na crítica ou na reprimenda pode haver mais patriotismo do que no oba-oba pueril. 

APONTAMENTO 185

Quando se tem a vontade de aprender, o outro ensina até sem querer. 

DE REPENTE

As coisas não acontecem de repente.
De repente, a gente se depara com elas,
mas já estavam sendo germinadas, 
estavam se insinuando, 
sendo boladas.

De repente, houve o Universo?
Depois dele, nada foi de repente. 

domingo, 3 de novembro de 2013

HAICAI 31

No futebol, é rapace.
Atrai a bola, que nele gruda.
No futebol, não erra passe. 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

BOLAS MURCHAS

Alguns técnicos do primeiro escalão do futebol brasileiro são ríspidos, mal-educados e despreparados para lidar com a imprensa. Claro que a imprensa também tem profissionais sem preparo e mal-educada. Mas isso não justifica a atitude asquerosa de alguns técnicos.

Querem ganhar no grito quando não têm argumento para lidar com perguntas sensatas, e sensatez não é o mesmo que desrespeito, nem é falta de ética. Quando há pergunta que fuja da bajulação, ou os técnicos se esquivam, indo, literalmente, embora, ou se valem de bravatas incongruentes.

Ontem, foi a vez de Felipe Scolari dar seu showzinho. O episódio ocorreu no momento em que, durante a coletiva, foi abordada a decisão do atleta Diego Costa, nascido em Sergipe; ele vestirá a camisa da seleção espanhola.

Quando o repórter Sérgio Rangel, da Folha de S.Paulo, argumentou com Scolari que ele já havia treinado a seleção de Portugal, o técnico, truculento, tergiversou e não respondeu à pergunta do repórter, que indagara ao técnico qual a diferença entre o caso dele, Scolari, e o de Diego Costa.

O técnico disse que a pergunta era “ridícula” e que havia uma “desconexão total” entre o fato de ele ter sido técnico da seleção portuguesa e o fato de Diego Costa decidir jogar pela seleção espanhola. Tivesse tido uma atitude que não fosse a do prepotente, Scolari poderia ter aproveitado o momento para assumir que estava incorrendo, no mínimo, em paradoxo.

Mas, pensando bem, estou querendo demais ao exigir tato e humildade de gente como Leão (embora muitos não o considerem mais como pertencente ao primeiro escalão de técnicos), Muricy, Luxemburgo e Scolari. A competência que têm como treinadores não desemboca no trato que têm com outros profissionais.

Quanto ao jogador Diego Costa, cabe a ele decidir por que seleção vai atuar. E se as razões forem financeiras, não há o menor problema nisso. Assim como não há o menor problema em Scolari e Parreira terem sido técnicos de seleções estrangeiras.

Lembro-me até hoje da dupla Diego (que não é o Costa) e Robinho, ambos naquele time do Santos, dizendo, no calor de uma conquista, que jamais deixariam de jogar no Peixe. Não agiram incorretamente ao decidirem pescar noutros rios. 

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

CONTO 67

Em tarde quente, Magali se deita na cama. Somente lingeries adornam seu corpo. A janela do quarto está aberta. É quando brisa sutil começa a brincar em Magali, dos pés à inteligência. Na perfeição das carícias, qualquer vestimenta é dispensada. Magali, por fim, entrega-se às lufadas e arremetidas do intruso. 

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O QUE FALARAM PARA O PATO?

Quando se trata de futebol, o que eu queria mesmo, às vezes, é estar dentro de campo para escutar as conversas. Ou então ter a oportunidade de perguntar aos jogadores ou ao árbitro o que teria sido dito em determinada situação.

Ontem, por exemplo, depois que o Pato perdeu o pênalti, quase todos os jogadores do Grêmio saíram em desabalada correria para fazer a festa com Dida, que sem dificuldade defendera a cobrança do jogador do Corinthians. 

Pato e os jogadores do Grêmio se encontraram antes que Dida fosse "soterrado" sob a montanha de jogadores. Um dos gremistas (salvo engano, Alex Telles) apontou o dedo para o rosto do Pato e esbravejou algo.

O que exatamente teria dito o jogador para o Pato? O gesto do atleta do Grêmio não passou a ideia de ironia. Talvez ele tenha vociferado que não era hora de fazer gracinhas ou algo assim; ou talvez tenha mandado o Pato para algum lugar. Nas entrevistas depois do jogo, não houve quem matasse minha curiosidade... 

terça-feira, 22 de outubro de 2013

MINHA CIDADE

Tu és a cidade que escolhi para morar.
És o lugar onde me sinto em casa.
Percorro tuas ruas, alamedas, curvas.
Tu és meu endereço, és a cidade em
que há sempre um quarteirão inédito.
Reparo nas esquinas, mudo o trajeto;
chegada a hora de voltar para casa,
a cidade me recebe de portas abertas. 

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

DÉBITO

Devo a tudo e a todos
qualquer verso.

Não há como saber de todas
as influências 
que enviamos
e que recebemos.
Sei que devo 
qualquer palavra 
a tudo quanto há.

Devo a Borges este poema, 
mas não o devo menos a ti 
nem ao Cerrado 
nem a qualquer mulher 
que só vi uma vez 
e de que já me esqueci. 

FOTOPOEMA 337

terça-feira, 15 de outubro de 2013

CURSO DE FOTOGRAFIA

Para mais informações ou para se inscrever, gentileza comentar esta postagem (seu comentário não será divulgado).

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

SEM CABIMENTO

É preciso que a falta que sinto de ti caiba num verso.
É preciso que a saudade que sinto de ti caiba num poema.

Pequeno é o verso.
Pequeno é o poema.

Não coube a falta, não coube a saudade.
Fica sabendo: o que sinto não tem cabimento.

SENHOR ALCENIR




Este é o senhor Alcenir, que já foi fotografado também pelo amigo Aldo. Alcenir é conhecido como Ceni (tônica no “i”); mora na fazenda que pertence à família do Aldo.

Assim que cheguei à casa onde Ceni vive, pedi a ele autorização para fotografá-lo. De imediato, permitiu. Tirei uma foto e a mostrei para ele; rindo, queixou-se da barba, que, segundo ele, está grande.

O legal de fotografá-lo é que ele não se preocupa em fazer poses. Essa não preocupação pareceu maior ainda quando eu disse a ele que era para agir como se eu não estivesse lá. Ele, que por natureza já não é dado a poses, acabou, de modo espontâneo, ofertando-me grandes oportunidades para fotografias. A ele, muito obrigado. 

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

POLÍTICA 0 x 0 FUTEBOL

No geral, o brasileiro não sabe separar o torcedor de futebol do eleitor. No futebol, muitas das vezes, a pessoalidade e a paixão fazem com que qualquer vestígio de razão se evapore. O mesmo se dá na política.

O futebol tem interesses espúrios de que o torcedor nem se dá conta. A política, idem. Ingenuamente, fica-se postando em redes sociais truísmos do tipo “se você é contra a corrupção, compartilhe”. 

Ora, são raros os cidadãos que assumiriam serem a favor da corrupção, ainda que a pratiquem. Não é compartilhando obviedades no Facebook que se muda um país. Não é se comportando na política como um torcedor de futebol que se muda uma cidade. 

Como um todo, o brasileiro não analisa: rosna, seja defendendo o candidato “x”, seja atacando o candidato “y”. Exemplo disso tivemos hoje aqui na Terra dos Patos de Minas, durante votação na Câmara Municipal.

O plenário estava lotado. Um extraterrestre poderia supor se tratar de melhora na participação popular dos terráqueos em questões políticas. Mas logo, logo esse extraterrestre perceberia que a lotação no plenário não era muito diferente da lotação em um estádio de futebol.

Perde, como é usual, a cidade. Não somente pelo comportamento primitivo dos eleitores, mas também pelo fato de a denúncia contra o prefeito local ter sido arquivada. Há tempos, fala-se, por aqui, em uma terceira via política que fugisse das duas que governam o município.

Eu gostaria demais de uma terceira e genuína possibilidade, mas não sou otimista. As últimas eleições para prefeito mostraram que o estádio esteve lotado de velhos e jovens torcedores dispostos a assistir ao mesmo futebol, sempre vociferando, num jogo em que qualquer coisa que se pareça com política de verdade é o que sai perdendo.

SEM OVO

Lições para a vida podem ser extraídas de qualquer coisa. Com o futebol não seria diferente. Ele também pode ensinar. 

O ditado popular diz que não se pode contar com o ovo no c... da galinha antes de ele ter dado as caras. Lição sábia e antiga. Não que ela seja sábia por ser antiga, pois nem todos os que são antigos são sábios.

Fiquei com a impressão de que o Willian, jogador do Cruzeiro, ao ver o gol escancarado diante de si, já contava com o ovo. Ou com o ouro, pois, reza a lenda, algumas galinhas o botam. O lance de Willian não teve ovo de colombo.

O jogador se justificou no intervalo: “No lance, cheguei muito rápido e tentei chutar forte. Como o campo está molhado, a bola tocou no tornozelo e foi na trave”. 

É claro que pode ter sido assim. Todavia, fiquei com a impressão, talvez injusta, de que antes mesmo de a bola se encontrar com a rede, o atleta pensou que já teria... botado para quebrar. 

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

SERRA PELADA

Revolve a terra.
Utopia, eldorado, 
elísio, paraíso.
Em busca telúrica,
fere a crosta.
Os sonhos têm quilate.

A busca pelo ouro.
A busca pelo outro.
Sedento, caminha:
até remove montanhas.

Não tem mulher, 
não tem cachaça.
Por ora, tudo o 
que seduz é ouro. 

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

VERSÁTIL

O cientista pode habitar 
o poeta.

O pintor pode habitar 
o físico.

A casa da gente é cheia de 
cômodos não habitados. 

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

VOCÊ

Você me acende.
Você me ascende.

Você me move.
Você me comove.

Você me leva.
Você me enleva.

Você me inspira.
Você me pira. 

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

CRUZEIRO 4 x 0 PORTUGUESA

Dizer que o Cruzeiro ainda não ganhou o campeonato não é questão de falsa modéstia. A rigor, de fato, nada foi ganho. Falsa modéstia seria dizer que a Raposa não é favorita, sendo que mesmo as plantas sabem que o time de BH tem muita chance de ser o campeão brasileiro de 2013.

Até agora, os resultados do time deixam a impressão de que a equipe não entrou no clima do já-ganhou. Há pouco, no Mineirão, as cinco estrelas brilharam e derrotaram a Portuguesa. Nada está ganho, porém muito já foi conquistado. De pouco valerá esse muito se o time arrefecer; não arrefecendo, pode confirmar o título bem antes da última rodada do torneio.

A primeira chance foi da Portuguesa — Fábio defendeu. Souza, quando a Portuguesa já estava perdendo, chutou uma bomba no travessão do goleiro cruzeirense. Fábio ainda faria uma outra defesa no primeiro tempo. O Cruzeiro, por sua vez, aproveitando-se ou de erros de saída da Portuguesa ou de rebotes não aproveitados pelo adversário, já havia resolvido a partida aos vinte e nove do primeiro tempo.

Também há pouco, o Grêmio derrotou o Atlético Paranaense, de modo que a diferença entre Cruzeiro e Grêmio continua sendo de onze pontos. Enquanto digito este texto, o Botafogo está empatando com o Fluminense em um a um. Caso o Botafogo vença, chegará, a exemplo do Grêmio, a quarenta e cinco pontos, ficando, também, a onze pontos do Cruzeiro. 

APONTAMENTO 184

A leitura intimida minhas fraquezas e elucida minhas forças. 

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

COSMOPOLITISMO

Em essência, o cosmopolitismo não está ligado a viagens. Elas podem ser um dos ingredientes dele, mas não o definem. Há quem nunca tenha sequer saído de sua cidade, e é mais cosmopolita do que muita gente que esteve no mundo inteiro. Há pessoas que percorreram o mundo todo, mas o mundo não as percorreu. Uma ida à esquina mais próxima pode ser mais rica do que uma longa viagem; depende de quem vai.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

HISTÓRIA DE UM IPÊ














Nos minutos em que estive fotografando o ipê deste álbum, algumas pessoas fizeram o mesmo, ainda que de dentro de seus carros, enquanto esperavam pelo semáforo ficar verde. A árvore é a grande atração da Avenida Paracatu.

Enquanto eu fotografava, a Roberta Rosa Rocha, que foi minha aluna, gritou, em tom de brincadeira, lá da Venda do Zé Rocha, que fica praticamente em frente ao ipê, que eu teria de pagar para fotografar a atração. Pedi à Roberta que se aproximasse. Foi quando ela me disse que o ipê havia sido plantado pela mãe dela.

Imediatamente eu soube que haveria uma história para ser contada, não somente por intermédio de imagens, mas também de palavras. Perguntando à Roberta se a mãe dela estava em casa, recebi resposta afirmativa. Terminei de fazer as fotos e fui para Venda do Zé Rocha.

No bar, além de eu ser gentilmente recebido pela Elenice, a mãe da Roberta, também estava por lá o José Roberto da Rocha, pai da Roberta e marido de Elenice; ele foi meu professor durante um semestre no curso de Letras, substituindo o professor Salvador Rodrigues. Elenice e José Roberto são os donos do conhecido bar na Paracatu.

Na breve entrevista que realizei com Elenice Rosa de Santana, ela me disse que plantou o ipê em 1989, no dia cinco de junho; nessa data, comemora-se o dia do meio ambiente. Eu me esqueci de perguntar para ela se isso foi uma coincidência ou se ela escolhera exatamente essa data para plantar a árvore.

Segundo Elenice, a muda do ipê foi dada a ela por José Antônio Dias, que é engenheiro florestal. Quando o profissional disse para Elenice que levaria para ela uma muda de ipê rosa, ela não acreditou haver ipê dessa cor. José Antônio levou a muda, furou o buraco e os dois plantaram a árvore. A tarefa de aguá-la ficava por conta de Elenice. 

(DES)APONTAMENTO 4

Numa boa: se as coisas continuarem assim, daqui a pouco alguém vai reclamar por ter se deparado com Coca-Cola dentro da garrafa de Coca-Cola. 

FALTA DE GRAÇA

Há diferentes tipos de humor. O humor de TV Pirata é diferente do humor de Zorra Total. Nesse caso, poder-se-ia argumentar que são tipos de humor diferentes por pertencerem a épocas diferentes, o que não deixa de ser verdade, pois, é natural, épocas diferentes vão gerar diferentes tipos de humor.

Contudo, a mesma época pode abarcar diferentes tipos de humor. Rafinha Bastos e Luis Fernando Verissimo ilustram isso. No que não acho a menor graça, é num humor que se vale da ridicularização do outro na tentativa de ser engraçado. Se por um lado tenho asco do politicamente correto, por outro, não vejo a menor graça em palhaços que precisam achincalhar o próximo na tentativa de serem engraçados. 

Ainda bem que há facilmente à disposição outros tipos de humor: os textos e cartuns da Piauí podem ser comprados em banca ou conferidos na internet; o mesmo vale para os textos e tirinhas do Verissimo; filmes do Woody Allen ou livros do Machado de Assis estão por aí; charges do Manoel Almeida estão no Patos Hoje; o legado do Millôr é divulgado aqui no Facebook. O humor pode ser ácido, crítico e sagaz, sem contudo diminuir quem não deu motivo para zombaria. 

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O MÉDICO QUE RI

Amigo me confidencia que determinado médico, numa festa, comentou — rindo — sobre a doença de um paciente. Alguns médicos não entendem que já precisam, em essência, serem médicos antes de porem o pé numa faculdade. 

Aqui mesmo, em Patos de Minas, recentemente, tivemos exemplo de não médicos, durante evento esportivo realizado na cidade. Aqueles que deveriam zelar pela vida estavam justamente aprontando contra ela, numa balbúrdia imatura e desrespeitosa: antes de serem médicos, nem se preocuparam sequer em se tornarem cidadãos.

Ainda bem que há estudantes e médicos que entendem a essência da beleza que é a medicina. Mas diante do que me disse o amigo, eu me pergunto: o que leva um médico a achar graça da doença de um paciente?... 

Será que seria diferente se ele tivesse lido Oliver Sacks, para que tivesse pelo menos uma noção do que é se importar com um paciente?... Será que ele é assim por ter sido obrigado a abraçar uma profissão que não queria?... Será que nunca lhe passou pela cabeça que amanhã o paciente é ele?... Será que ele acha que está na profissão certa?...

Se bem que é difícil imaginar um indivíduo desses em qualquer profissão. Vá lá, há profissionais que não têm o menor traquejo social, mas daí a achar graça na dor alheia a distância é longa. Senso de humor é uma coisa; falta do menor senso de ética e de humanidade é outra. 

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

FOTOGRAFIA E NARCISISMO

Ismael, um grande amigo, entrou em contato comigo via e-mail. Escreveu o Ismael: “Com a disseminação das máquinas digitais nos últimos anos muitos rituais bizarros surgiram, tudo precisa ser fotografado”. No fim de sua mensagem, o amigo propôs: “Gostaria que você opinasse sobre como essa compulsão pelo registro tem afetado a fotografia artística”.

Obrigado a você, Ismael, por me pedir que eu opinasse sobre essa questão. Gosto muito de pensar sobre o ato fotográfico, bem como de escrever sobre ele. Tomo a liberdade de tornar pública minha resposta para seu questionamento.

A compulsão pelo registro a que o Ismael se refere está ligada ao que alguns chamam de a banalização da fotografia. No tempo em que se fotografava com filme, este abarcava, por exemplo, trinta e seis fotos. Perder um negativo, que significava perder uma foto, era motivo de lamento. Mesmo quem não era fotógrafo, teoricamente tomava um certo cuidado antes de tirar qualquer foto. Na maioria dos casos, por questões mais financeiras do que supostamente artísticas.

O advento da fotografia digital eliminou esse cuidado. Tenha a pessoa gostado ou não do que aparece no visor, ela vai clicando, clicando... O não fotógrafo não pensa sobre o resultado do clique; não há nele a noção de que a imagem fotográfica começa antes que o dedo pressione o obturador. Ele fotografa de modo indiscriminado. 

Por causa da tecnologia digital, hoje se fotografa muito mais. Uma charge veiculada na internet há algum tempo mostra alguém se afogando, debatendo-se na água e gritando por socorro. À beira do rio, algumas pessoas, todas elas ocupadas em... registrar o momento com seus celulares. A charge ilustra o que o Ismael chamou de “rituais bizarros”, em que tudo é fotografado.

Esse aumento na quantidade de fotos que são tiradas não implica necessariamente melhoria na qualidade das imagens. A maioria das pessoas que fotografam seu cotidiano, ansiosas para postarem sua intimidade no Facebook, não se preocupa com a qualidade do registro fotográfico. Nesses casos, o que vale não é a fotografia em si mesma, mas a exposição de si mesmo.

Embora haja toda uma questão antropológica, sociológica, filosófica e psíquica a ser analisada nesse excesso de exposição da intimidade, não é disso de que trata este texto. A questão aqui é sobre um suposto impacto desse excesso de cliques na fotografia que se quer artística.

O fato de mais e mais pessoas estarem fotografando tem o lado bom: isso pode fazer com que, em tese, mais pessoas queiram aprender sobre fotografia. O sujeito pode comprar uma câmera compacta qualquer e começar a atirar para todo lado. Num belo dia, num disparo, descobre-se querendo aprender, querendo se tornar fotógrafo.

Entretanto, não é o que a maioria quer. O interesse maior é, reitero, divulgar-se. Mas esse excesso de imagens que assola o mundo não significa a derrocada do ato de fotografar, não importa se a fotografia esteja sendo considerada arte ou não esteja.

Não sei dizer se a fotografia é arte. Ela pode ser bela, é verdade, mas não sei se isso faz dela um trabalho de arte. Mesmo assim, digo: aquele que em essência é um fotógrafo sempre vai ter a preocupação de fazer a melhor foto do mundo. Para quem tem em si o germe da fotografia, nenhuma foto é um mero clique, não importa o que esteja sendo fotografado.

Mesmo em tempos de redes sociais a detonar exibicionismos, vaidades e narcisismos, a essência da fotografia não foi banida, ainda que não tenha presença maciça, ainda que não seja nem cogitada pela maioria. Mesmo nos tempos da fotografia com filmes, isso a que chamo de a essência da fotografia estava ausente da maioria das pessoas. 

Já escrevi noutro texto: quem tem em si a essência da fotografia sabe que uma imagem gravada num dispositivo qualquer começa muito antes que um mecanismo qualquer seja acionado. O registro é a consequência de pensamentos, teorias, referências, estudos, treino, leituras... Há uma sensibilidade fotográfica, bem como uma técnica fotográfica. A fotografia digital não baniu isso.

Se você considera a fotografia como sendo arte, digo: há artistas na fotografia. Insisto na ideia de que, em essência, o ato de fotografar não mudou, mesmo hoje isso sendo feito com equipamento digital. As técnicas da fotografia continuam valendo para hoje, ainda que vivamos em tempos de equipamentos digitais e de Photoshop.

Retoques e tratamentos em imagens não surgiram com o advento do digital, mas quem tem em si o germe da fotografia sabe (e sempre soube) que a excelência de uma fotografia é a consequência ou o ponto alto de tudo o que a pessoa é. Ainda que num autorretrato, o fotógrafo que tem em si a essência da fotografia leva em mente o desejo de fazer um registro que contenha excelência (ideia sobre a qual também já escrevi).

Há algum tempo, assisti a uma matéria em que a Annie Leibovitz elogiava a qualidade das imagens produzidas a partir de um celular. A fim de ilustrar a opinião dela, Leibovitz tirou com um desses celulares uma foto do entrevistador. Na edição que fizeram, a foto dele foi mostrada durante a conversa dos dois. A composição da imagem, como era de se esperar, foi primorosa. Ou seja: mesmo fotografando com um celular, ela teve o capricho e a competência de compor o quadro. 

Se por um lado a tecnologia das redes sociais e a praticidade da fotografia digital trivializaram os cliques, por outro lado isso não baniu a possibilidade de se criar a beleza por intermédio da fotografia. O que o Ismael chama de “fotografia artística” permanece, lidando com ideais diferentes de desejos estritamente narcísicos. 

domingo, 15 de setembro de 2013

APONTAMENTO 183

O proselitismo pode ser inconveniente, desrespeitoso, inapropriado, invasivo, interesseiro, ingênuo... Ele pode afugentar em vez de seduzir. A graça pode estar no não proselitismo. 

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

terça-feira, 10 de setembro de 2013

DE MERCEDES


Sempre digo que o humor salva quase tudo, e o que o humor não salva salvação não tem. Ironia, irreverência, sarcasmo e zombaria derivam do senso de humor, mas não podem vir desacompanhados do talento, sob risco de caírem em ataques bobos. 

Três dias antes de morrer, a genial Janis Joplin gravou “Mercedes Benz”. (No álbum, lançado em 1971, não há o hífen no nome da marca de carro.) A letra da canção, de autoria dela, Michael McClure e Bob Neuwirth tem uma ironia incisiva; é de um sarcasmo descarado e ao mesmo tempo contundente.

No áudio, leio a letra. Abaixo, o texto em inglês e sua tradução.
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“Mercedes Benz” (Janis Joplin / Michael McClure / Bob Neuwirth)

Oh, Lord, won't you buy me a Mercedes-Benz?
My friends all drive Porsches, I must make amends
Worked hard all my lifetime, no help from my friends
So, Lord, won't you buy me a Mercedes-Benz?

Oh, Lord, won't you buy me a color TV?
“Dialing for Dollars” is trying to find me
I wait for delivery each day until three
So, Lord, won't you buy me a color TV?

Oh, Lord, won't you buy me a night on the town?
I'm counting on you, Lord, please don't let me down
Prove that you love me and buy the next round
Oh, Lord, won't you buy me a night on the town?

Oh, Lord, won't you buy me a Mercedes-Benz?
My friends all drive Porsches, I must make amends
Worked hard all my lifetime, no help from my friends
So, Lord, won't you buy me a Mercedes-Benz?
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Oh, Senhor, você não vai comprar para mim um Mercedes-Benz?
Meus amigos, todos dirigem Porsches, eu devo compensar
Trabalhei duro a vida toda, sem ajuda dos meus amigos
Então, Senhor, você não vai comprar para mim um Mercedes-Benz?

Oh, Senhor, você não vai comprar para uma TV em cores?
“Dialing for Dollars” está tentando me achar
Eu espero pela entrega cada dia até as três
Então, Senhor, você não vai comprar para mim uma TV em cores?

Senhor, você não vai comprar para mim uma noite na cidade?
Eu estou contando com você, Senhor, por favor, não me desaponte
Prove que você me ama e pague a próxima rodada
Então, Senhor, você não vai comprar para mim uma noite na cidade?

Oh, Senhor, você não vai comprar para mim um Mercedes-Benz?
Meus amigos, todos dirigem Porsches, eu devo compensar
Trabalhei duro a vida toda, sem ajuda dos meus amigos
Então, Senhor, você não vai comprar para mim um Mercedes-Benz?