segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A GLOBO E O PORTUGUÊS

Por diversas vezes já escrevi (aqui também) sobre minhas restrições quanto ao que a Globo exibe. Raramente assisto à emissora. Quando isso ocorre, não estou aqui em casa; a antena daqui estragou há uns vinte anos, e não vou trocá-la, pois a Globo não me faz falta. Bastam alguns minutos diante da emissora para que eu me sinta muito incomodado. Contudo, não sou obtuso; sei reconhecer méritos caso eu me depare com eles no canal dos Marinho (ou em qualquer outro meio).

Um dos pontos que me chamam a atenção na emissora é o cuidado com a linguagem; em especial, com a preservação do português. Lembro-me de que quando o campeonato brasileiro de futebol era disputado pelo sistema de partidas eliminatórias, a Vênus Platinada era um dos poucos meios de comunicação que não usavam a nomenclatura “play-off”. Em vez de dizerem, por exemplo, que o “play-off” seria realizado, a Globo sempre disse que os jogos decisivos seriam realizados. Lembro-me de ter lido nessa época que um consultor de português deles emitira memorando proibindo os profissionais da emissora de usarem “play-off”.

Há alguns dias, disseram-me que o Jô Soares havia sido entrevistado no Fantástico. Como não confiro o programa, fui até o Youtube, pois a matéria me interessou. Num determinado trecho, antes de anunciar a entrevista, um dos apresentadores, referindo-se a Jô Soares, disse que ele “foi pioneiro da comédia em pé”.

O fato de a Globo usar a expressão “comédia em pé”, em vez da expressão em inglês “stand-up comedy”, a mais usada, confirma a atitude da emissora de preferir o português a qualquer outro idioma, sempre que é possível dizer em português o que se pretende, ainda que a expressão em língua estrangeira já esteja sendo amplamente utilizada. 

Reparem na ironia: num lugar em que as pessoas fazem de tudo para dizer ou escrever tudo em (ruim) inglês, a atitude da Globo chega a ser ousada (!). Tanto que quando comentei a questão em sala de aula (durante uma aula de inglês), os alunos não concordaram com a decisão do veículo de adotar “comédia em pé” em vez de “stand-up comedy”.

Obviamente, não é preciso assistir à Globo para se melhorar o português; há maneiras mais edificantes e menos prejudiciais para isso; a Globo não é imprescindível para isso nem para nada. No geral, entre o dispensável e o indispensável, considero a emissora muito dispensável. Presta mais desserviços do que serviços, é mais prejudicial do que benéfica, a despeito do cuidado com a preservação do português.

domingo, 21 de outubro de 2012

VIDEOPOEMA (5)

Na corda bamba, a vida é por um fio. 
Se vou me enforcar por causa disso?! Que nada! 
Eu quero mais é dançar ao vento...



ATLÉTICO/MG X FLUMINENSE

Primeiro tempo

São vários os paralelos entre o futebol e a vida. Assistir a uma partida de futebol é como assistir ao desfile do espetáculo da vida. Assim como na vida, no futebol, nem sempre as expectativas se confirmam.

A expectativa era a de que Atlético/MG e Fluminense fizessem um jogão. O time carioca iniciou a partida realizando um jogo cadenciado, investindo na posse de bola. O Atlético, quando a tinha, partia logo para o ataque.

Não era de se esperar que fosse diferente. O Fluminense está com as duas mãos no título. A ameaça maior à conquista é justamente o Atlético, que ainda pode ser campeão. Num cenário assim, natural que o time mineiro, jogando em casa, tomasse a iniciativa.

Aos catorze minutos do primeiro tempo um impedimento foi marcado contra o Atlético. A TV não repetiu o lance. Inevitavelmente, fiquei com a pulga atrás da orelha, devido às conversas de que o Fluminense estaria sendo favorecido pela arbitragem.

Por que o lance do impedimento não foi repetido? Para se poupar a arbitragem (Jaílson Macedo Freitas foi o juiz)? Por causa de acordo entre CBF e Globo? Ou seria por causa de um outro ajuste espúrio?... Sei que isso está soando a teoria da conspiração, mas é que desconfio de tudo o que leva a chancela da Globo, não importa o meio.

Para piorar, aos vinte minutos, Ronaldinho cobrou falta e marcou. De acordo com o juiz, Leonardo Silva empurrou a barreira, o que de fato ocorreu. Não vale aqui o argumento de que ninguém marcaria uma falta assim. Ademais, a cobrança foi tão bem feita que, ainda que a falta não tivesse ocorrido, Cavalieri, o excelente goleiro do Fluminense, não alcançaria a bola.

A torcida protestou, gritando “vergonha, vergonha!”. Contudo, o ocorrido não afetou o desempenho do Atlético, que era muito superior à atuação do Fluminense. Aliás, foi uma superioridade acachapante diante de um acuado Fluminense. O Atlético teve chance aos oito, aos quinze, aos vinte e sete, aos trinta e aos quarenta e três.

Aos quarenta e quatro, o início das bolas na trave. Primeiro, com Bernard; aos quarenta e cinco, foi a vez de Jô. Chute mesmo, o Fluminense daria um, aos quarenta e nove, em cobrança de falta. Contudo, a rigor, o bombardeio do Atlético foi inócuo no primeiro tempo.

Segundo tempo

O Fluminense melhorou no segundo tempo. Aos dez minutos, Wellington Nem marca, após passe de Fred. Aos catorze, Vítor, o goleiro do Atlético, realiza defesa. Reagindo, o Atlético acertaria a trave novamente. Pressionando, empata aos vinte e três, em chute forte de Jô. Aos trinta e seis, o próprio Jô desempataria, escorando cruzamento de Bernard.

Mas o Fluminense tem Fred. O cara é o artilheiro do campeonato. Embora apagado até o fim da partida, ele empataria novamente o jogo, quase aos quarenta minutos. Levando-se em conta a tabela do torneio, o empate teria sido um baita resultado para o Flu.

Falar de senso de justiça ou de justeza no futebol é algo muito complicado. Mais complicado ainda se levarmos em conta as maracutaias que há em toda parte. Contudo, considerando-se o massacre realizado pelo Atlético, as bolas na trave que acertou e a superioridade apresentada o tempo todo, a vitória atleticana refletiria de modo mais “correto” o que foi o jogo.

Aos quarenta e sete minutos, num jogo previsto para terminar aos quarenta e oito, Leonardo Silva faz o terceiro gol do time mineiro, depois de cruzamento de Ronaldinho. O Independência “desabou”. O resultado fez com que o Atlético fique a seis pontos do líder do campeonato.

O futebol é como a vida, que nem sempre premia quem merece. Além do mais, critérios de merecimento são amplamente discutíveis — no futebol e na vida. Assim, terminada a partida, o Atlético é o vencedor. Se os critérios fossem os meus, eu diria que o resultado foi merecido. Por fim, numa partida assim (foi um jogaço) ganham aqueles que gostam de futebol.

AUXÍLIO

Alguém aí pode me jogar no precipício?...

... É que preciso perder o medo de voar...

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

ALEATÓRIAS (2)

TRATADO DOS GUIZOS

1
Gabriela
juntou 
um montão 
de guizos: 
fez um guisado.

2
Tudo é à guisa:
por que nada ao guizo?...

3
O gato quebra
seu silêncio nato
para conversar
com o guizo?...

4
Quem cala mais fundo:
o guizo ou o gato?...

5
Quem conduz:
o guizo ou o gato?...

6
Com quantos 
guizos se faz 
um gato?...

7
Por quem 
os guizos dobram?...

8
Guizo é afrodisíaco
ou empecilho?...

Ou é questão
de fetiche?...

9
Gatos reparam
no guizo dos outros?...

10
Guizo escaldado tem 
medo de água fria?...

11
O que faz o guizo se tornar fardo?...

12
Todo gato tem sete guizos?...
Quantas vidas tem um guizo?...

13
Guizo faz gato e sapato?...

14
O que é guizo, companheiro?...

DEDICATÓRIA

Ora, se ao digitar 
cada letra de cada palavra eu pensei em ti, 
todo este livro é naturalmente teu.

NEM TÃO ALEATÓRIO ASSIM...


ALEATÓRIAS (1)




FOTOPOEMA 279

VOZES

Bem-te-vis duetam com cigarras.
Soubesse eu cantar,
juntar-me-ia ao festivo coral.
Silente, escrevo em meu canto.

TIÊ

A coruja.
O coração.
O doce garden
no 5 andar.
Ela se tornou Tiê.
Eu, tiete.

domingo, 14 de outubro de 2012

NETO, BIRO-BIRO E O PNEU

(Para Adamar Gomes, que sabe — e conta — muitas histórias do futebol.)

Acompanhei a carreira do Neto quando ele foi jogador de futebol. Jogou bola demais. Não gosto dele na TV. Bastaram duas ou três vezes para que eu nunca mais o acompanhasse como comentarista. Também não gosto das colunas deles no portal UOL. Mas estou ciente de que o estilo dele é mais do que apropriado e lucrativo para o que querem os contratantes.

Certa vez, assisti a uma matéria em que ele dizia que os jogadores de futebol, em boa parte, não sabem bater na bola porque não treinam... bater na bola. A matéria foi muito interessante. É que, de fato, chega a ser espantoso como alguns jogadores profissionais não conseguem sequer bater um escanteio corretamente. A “tese” do Neto é a de que falta a esses jogadores o treino.

Para corroborar sua ideia, ele, já gordo, pegou algumas bolas. Antes de chutá-las, anunciava o ponto em que iria jogá-las. O índice de acertos foi espantoso. (Obviamente, na edição, podem ter cortado os erros; ainda assim, a declaração dele de que os jogadores batem mal na bola porque não treinam é muito plausível.)

Não gostei do tom usado pelo Neto durante a matéria (bem como não gosto do tom dele em seu trabalho como comentarista na TV). Deixando isso de lado, foi bom assistir a alguém do mundo do futebol — alguém que batia muito bem na bola — falar esse tipo de coisa. Afinal, quando a gente assiste a qualquer partida por aí, chega a ser incrível o quanto os caras não sabem cruzar uma bola na área ao baterem falta ou escanteio.

Essa história me lembrou outra, que me foi contada recentemente pelo Alexandre Junio, um amigo. Em sua adolescência, Alexandre jogou futebol. Nessa época, foi treinado pelo Biro-Biro, que foi encontrado morto no dia 24 de setembro, aqui em Patos de Minas (ele atuou pela URT na década de 80). Biro-Biro estava desaparecido há dias, quando o corpo foi visto pelo caseiro de uma fazenda.

Segundo o Alexandre, Biro-Biro, em seus treinamentos, amarrava um pneu de bicicleta em diversos lugares dentro dos limites do gol e pedia que a bola fosse chutada exatamente dentro da circunferência formada pelo pneu. Quando o Alexandre me contou essa história, logo me lembrei da matéria com o Neto.

Se por um lado nem todo jogador tem a genialidade de um Garrincha, de um Tostão ou de um Messi, por outro, parece-me ser possível cruzar a bola mais ou menos onde se queira, desde que, claro, o profissional esteja disposto a aprender. Com ou sem pneu.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

"O PODER DOS QUIETOS"

Graças à minha aluna Maria Luiza Martins Quartel, pude ler o belo “O poder dos quietos” [Quiet: the power of introverts], de Susan Cain. A tradução é de Ana Carolina Bento Ribeiro; o livro foi publicado pela editora Agir.

De imediato, duas coisas me atraíram para a leitura: a primeira, o que está escrito na capa: “Como os tímidos e introvertidos podem mudar um mundo que não para de falar”; a segunda, um trechinho da epígrafe: [O planeta] “precisa daqueles que podem capturar a impressão passageira de flores de cerejeira em um poema de catorze sílabas ou dedicar 25 páginas à descrição dos sentimentos de um garotinho deitado na cama no escuro esperando o beijo de boa-noite da mãe...”.

Isso já era o bastante para que eu lesse o livro, que me foi emprestado pela Maria Luiza. E como valeu a pena... A ideia básica é a de que o mundo está muito impositivo, forçando as pessoas a adotarem o modelo extrovertido como excelência do que é correto quando se trata de comportamento.

Contudo, a obra de Cain traz dois pilares: o primeiro, o de que o mundo não teria os progressos que tem se não fosse a ação dos introvertidos; o segundo, o de que os introvertidos não precisam mudar quem são para darem sua rica contribuição.

Cain, num texto elegante e (por isso mesmo) incisivo, critica os males e as agressões de uma hiperextroversão que é invasora e... intimidadora. Um mundo em que o que é preciso não é ser bom, mas... parecer ser bom. Nesse universo feito de pura extroversão, vence quem está sempre sorrindo, falando mais alto e se promovendo o tempo todo.

Embora essencialmente escrito para o público norte-americano, “O poder dos quietos” relata o que tem acontecido aqui também, em que as escolas, as universidades particulares, as relações interpessoais e o mundo corporativo estão impregnados e contaminados pelo modelo da extroversão.

Justamente ao insistir nesse modelo — impondo-o —, é que a sociedade deixa de ter acesso às ricas contribuições que podem estar naqueles que não elevam o tom de voz, que não ficam distribuindo sorrisos de comerciais de pasta dental e que preferem trabalhar sozinhos.

Não se trata de um livro contra falastrões, mas a autora não poupa os poderosos extrovertidos que, na opinião dela, causaram a quebra financeira global. Está no livro: “Eles [os empresários] contratam alguém que não sabe nada de negócios, mas que pode fazer uma boa apresentação”...

Se alguém não leva jeito para falar em público, se prefere trabalhar isoladamente, se não gosta de badalações ou se prefere conversas intimistas ao vozeiro da multidão, essa pessoa é descartada, sem que muitas das vezes tenha a chance de revelar a contribuição que poderia dar.

Didática, Cain dá dicas de como donos de empresas, professores, pais e cônjuges podem se beneficiar da convivência com introvertidos. Se o leitor for um introvertido, há dicas de como ele pode conseguir o máximo de si a partir do que ele é.

Esse é um dos grandes ensinamentos do livro: não precisamos deixar de ser quem somos, mesmo com toda a pressão que há para que adiramos ao modelo de extroversão. Isso não implica comodismo, não significa ser inflexível. Significa, sim, que a essência do que somos dever ser respeitada, sem ser vista como “aleijão” ou defeito.

O mundo fala muito. Eleva-se o tom, fala-se demais e pouco se aproveita. Não creio que “O poder dos quietos” possa ser indício de uma mudança na percepção das pessoas. Mas, deixando isso de lado, leia o livro. A introversão também pode ser forte.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

APONTAMENTO 156

Nem todo E.L. é James. Há outros tons, como os de Doctorow. Indico os matizes de “Ragtime”, que virou filme — também indicado.

BLOGUE NOVO NO AR

Recentemente entrou no ar o blogue Cartas desprezadas (nome ótimo), de Murillo Carvalho.

Murillo (que tem perfil no Facebook) foi meu aluno enquanto ele se preparava para o curso de direito, que hoje frequenta. Lembro-me de que conversávamos sobre vôlei (Murillo pratica o esporte) e música. Na época, eu não sabia que ele curtia escrever (ou não suspeitava de que viria a curtir).

É sempre bom quando alguém com algo para dizer... diz... Acompanhemos, pois.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

POLÍTICA E LIBERDADE DE EXPRESSÃO

Escrevo este texto como um desabafo por causa do que tenho lido ou presenciado durante a campanha eleitoral. Padecemos do que chamo de a ditadura da maioria. Com isso, quero dizer que, queiramos ou não, somos submetidos ao que a maioria impõe, não importa se músicas, filmes ou jeito de fazer política. De antemão, esclareço: este texto não é a favor de nenhum candidato.

Já comentei anteriormente que alguns eleitores se comportam tal como alguns torcedores de futebol — tolamente (e não são apenas os que anseiam por cargos em governos). As manifestações dessas pessoas se tornaram mais presentes, gritantes e lamentáveis em virtude das facilidades de divulgação por intermédio das redes sociais. Como os torcedores, tais eleitores gritam muito, escrevem muito mal e não têm o menor senso de educação.

Ninguém é preciso ser especialista em português para opinar sobre seja o que for, mas a inexistência total de algum capricho mínimo ao escrever, por sua vez, está em sintonia com a inexistência de ideias. A relação é especular: a ausência de ideias se reflete na ausência do português.

Não há sequer um arremedo de debate. Os rompantes dos eleitores acabam mostrando o quão são limitados, primitivos, rancorosos, animalescos e mal-educados. Num comentário ou numa farpa, pode haver muito de inveja e rivalidades bobas e pessoais. Preconceitos afloram.

A política não deveria ser o palco em que frustrações, dores-de-cotovelo e recalques são sublimados. Essas coisas, a gente deve se virar com elas em outras paragens, não no momento de advogar por esse ou por aquele candidato.

Ao caldeirão, pode-se adicionar também a vaidade: o sujeito se considera mais inteligente porque vai votar nesse ou naquele político. Quem não vota nele é porque pertence à plebe ignara que nada entende de política.

Nessa maçada cansativa, barulhenta e burra, um candidato é bom — ou ruim — porque foi pobre um dia. Outro candidato é ruim — ou bom — porque sempre foi rico. Um outro é ruim — ou bom — porque é preto; já um outro é bom — ou ruim — porque é branco.

Acho muito curioso quando esses eleitores fanfarrões e tacanhos anunciam que querem discutir ideias — mas ofertam berros. Alegam querer o debate — mas entregam ofensas e falta de reflexão. O resultado que se vê é um fiasco que se renova em toda eleição, cansando cada vez mais quem deseja se inteirar.

Em meio à barulheira, surgem os arautos da tão propalada e decantada liberdade de expressão. Ah, como eles gostam de mencioná-la... Escrevem tolices, disparates e desrespeitos. Quando têm a atenção chamada, bradam o mantra “liberdade de expressão”.

Sobre tal liberdade, valho-me inicialmente de trecho escrito por Eli Vieira, biólogo: “Liberdade de expressão não é irrestrita, pois irrestrita significa irresponsável, e nenhum direito exercido de forma irresponsável é interessante para uma democracia. Se alguém gritar ‘fogo’ num teatro lotado [...], deve ser responsabilizado por usar mal sua liberdade de expressão”.

Como um todo, tem-se noção incorreta sobre a liberdade de expressão, como se essa liberdade por si livrasse as pessoas de arcar com as consequências de seu exercício, sejam tais consequências boas ou ruins. De fato, qualquer um tem, sim, o direito de falar ou de escrever o que quiser. Mas, em contrapartida, é preciso ter clara a ideia de que a pessoa pode vir a ser responsabilizada judicialmente por ter exercido insensatamente sua liberdade de expressão. Disso, os politiqueiros, arautos da “liberdade”, esquecem-se.

Todo esse pensamento me foi juridicamente esclarecido em profícua conversa que mantive com o advogado Manoel Almeida. A Constituição, em seu Artigo 5º, diz que “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato”. Segundo o advogado, o fato de o anonimato ser vedado já pressupõe o exercício responsável da liberdade de expressão.

Ainda no Artigo 5º, está escrito: “É assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, Moral ou à imagem”. Por fim, o advogado chamou minha atenção para o que está no Código Civil Brasileiro, no Título IX (Da Responsabilidade Civil), Capítulo I (Da Obrigação de Indenizar):

“Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes”. A ideia é simples: a liberdade de expressão termina no ponto em que começa o direito do outro.

domingo, 30 de setembro de 2012

"INSIDE OUT"



Terminei de ler hoje o divertido “Inside out – a verdadeira história do Pink Floyd” (“Inside out – a personal history of Pink Floyd”), de Nick Mason, o baterista da banda. O livro foi publicado no Brasil pela Escrituras. A tradução é de Alan Ianke.

Mason tem senso de humor e capacidade de rir de si mesmo, duas grandes qualidades. O texto é leve, despretensioso e nada afetado. Além do mais, tem o grande mérito de humanizar os integrantes da banda – o que considero traço marcante das boas biografias.

Brigas, dificuldades, discussões e discordâncias são mencionadas. Contudo, Mason não está preocupado em revelar detalhes sórdidos. Se você é do tipo que gosta de ler em biografias revelações acachapantes, não leia “Inside out”.

Mas se é fã da banda ou se interessa pelo pop/rock como um todo, não deixe de ler. O Pink Floyd marcou o pop/rock no século passado; isso já é motivo o bastante para que conheçamos um pouco mais sobre os caras.

Há pouco, comentei sobre o tom despretensioso do livro e sobre as boas biografias humanizarem os personagens. “Inside out” tanto é assim que há trechos em que Mason chega a se confessar como não sendo um grande baterista; ele até menciona gravações em que ele não toca – de acordo com ele, por falta de competência...

Aqui e ali, a edição tem alguns errinhos, principalmente de digitação. Isso acaba depondo contra a versão brasileira do livro. Mas, pelo menos, esses pequenos erros não estragam todo o trabalho, pois a leitura flui contentemente na companhia do humor e da ironia de Mason.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

APONTAMENTO 155

Enquanto não chega a morte, não viver é impossível. Viver deveria ser simples, pois que outra alternativa não há enquanto não se morre. Mas o viver é complicado. Se não é, sabemos como torná-lo. A gente complica. A gente se complica. Depois a gente simplesmente morre.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

DICIONÁRIO (34)

branquear. Criar brânquias.
bronquear. Criar brônquios.

domingo, 23 de setembro de 2012

SOBRE A FOTOGRAFIA

Em meus cursos de fotografia, sempre digo a meus alunos que o ato de fotografar começa antes que se aperte o obturador – começa com o treino do olhar.

Para a fotografia, não bastar ver; é preciso olhar. A título de exercício, peço aos alunos que façam o seguinte dever de casa: fotografar algo que não lhes pareça convidativo para o olhar, algo que lhes pareça feio ou algo em que ainda não haviam reparado.

Peço a eles que prestem atenção em suas casas, em seus quintais, em suas cozinhas... Há um mundo de possibilidades diante da gente pedindo para ser transformado em fotografias. Isso não implica abrir mão de temas considerados clássicos, como paisagens, cachoeiras, pessoas lindas...

Tento incutir a ideia de que não há um tema mais nobre do que outro. O que há são preferências, inclinações, referências pessoais e estéticas. Dominar a técnica fotográfica é fundamental, mas não resolve tudo. Há muito de sensibilidade, de espírito aberto, de paixão.

O Manoel de Barros escreveu que “besouro na merda se sente no palácio”. É por aí. À medida que o senso do olhar vai se aguçando, à medida que a pessoa começa a reparar a seu redor e começa a fotografar, as temáticas preferidas vão se insinuando, vão se aproximando num flerte sutil e gostoso.

Além do mais, a convivência com a fotografia e o treino do olhar não impedem o ecletismo. Nada impede que haja temáticas, em vez de uma única temática eleita. Não impede que o fotógrafo se sinta à vontade para fotografar assuntos díspares como produtos comercias e natureza, por exemplo.

O que vale é que a foto seja feita do melhor modo possível. Que a técnica seja dominada, a ponto de se tornar algo natural e espontâneo – mas que não sejamos escravos dela. Que o olhar se enriqueça a ponto de perceber que o mundo está aí, diante de nós, doido para ser fotografado. A fotografia tem o poder de nos mostrar que qualquer canto do mundo pode ser bonito.

FOTOPOEMA 273

FOTOPOEMA 272

FOTOPOEMA 271

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (69)

Deu um trabalhão tirar esta foto. Não que ela tenha algo de mirabolante. É que eu queria fazer ressoar as cordas do violão, a fim de produzir sensação de movimento nelas. Para tal, eu baixaria a velocidade (usei 1/5; F/3.5).

Contudo, o tripé que eu usava estragou. Assim, tive de fazer a foto segurando a câmera. Só que estava complicado segurá-la e fazer as cordas se movimentarem. Se eu baixasse mais do que 1/5, o risco de a imagem ficar tremida aumentaria.

Assim, com a mão direita, fiz o foco, enquanto tentava não mover a equipamento; com a esquerda, fiz vibrar as cordas o máximo que pude. “Corri” então com a mão esquerda, para que ela envolvesse, junto com a direita, a câmera. Por fim, apertei o obturador.

Foram cinco tentativas. Numa imagem como a que eu queria, haveria mais ação no encordoamento, seja por estar a câmera sobre um tripé seja por haver alguém aqui para causar o movimento nas cordas...

CONTO 52

Fernando Reis vivia dizendo que seu projeto de vida era comprar um sítio, mudar-se para lá e ficar o dia inteiro lendo Guimarães Rosa, fumando e tomando pinga – não necessariamente nessa ordem. Mas seu último trago, longe do sítio e cercado do barulho da cidade, foi bebido em companhia de um verso de Fernando Pessoa.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

LETRA DE MÚSICA (33)

Faço uma canção paro o filho que não tive
Faço uma canção para todos os filhos
O que não deixa de ser uma canção para nós

Os pais viram gente depois dos filhos
Os pais viram amor depois dos filhos
Os pais viram madrugadas depois dos filhos

Os filhos crescem e são do mundo lá fora
Felizes ou infelizes, os pais são de coração
Sejam felizes os filhos para serem felizes os pais

Faço uma canção para o pai que tive
Faço uma canção para a mãe que tenho
Faço uma canção para todos os filhos e pais

FOTOPOEMA 270

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

sábado, 15 de setembro de 2012

LETRA DE MÚSICA (32)

Haverá um momento em que
tudo fará sentido.
Chegará o dia em que
tudo terá valido a pena.
Quando chegar essa época,
estarei pronto para o que sou.
Estarei proto para chegar ou partir.
Estarei pronto para começar.
Saberei começar como se
tudo tivesse acontecido.

Eu sei da vergonha de rir,
entendo de caminhos claudicantes.
Cada segundo meu é complexo
em infantil paralisia.

A vida me fez capaz de muita atenção,
mas dependente de muita.
Eu quis um coração, mas o meu
nunca esteve pronto.
Quis que me aceitassem,
não aprendi a me aceitar.

Eu li, eu compreendi, eu escrevi,
mas dependo como nunca de
ser lido sem ter de me explicar.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

AUTORIA

Escrevo o destino.
Sou escrito por ele.

Escrevo o destino de todos.
Todos escrevem o meu.

Do destino,
sou autor
e personagem.

Há uma trama
que teço – e por
ela sou tecido.

Enquanto a caneta
desliza sobre o papel,
não sei se tramo
ou sou tramado.

O ponto a seguir
é trabalho meu e teu.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

ENSAIO (9)

Fotos tiradas no Parque Municipal do Mocambo, em Patos de Minas, na tarde do dia primeiro de setembro. No local, ocorreram apresentações de bandas dentro do Festival Marreco. Além da música, poesia, esporte e debates fizeram parte da programação do festival, que neste ano foi realizado pela quinta vez.







sábado, 1 de setembro de 2012

"MELANCIA"


Podem ser curiosos os caminhos que um livro percorre até chegar às mãos da gente. Larissa, minha aluna, comprou “Melancia” (Watermelon, Edições BestBolso, tradução de Sônia Coutinho) porque lera incorretamente o nome de Marian Keyes, a autora. Em vez de ler “Marian”, Larissa leu “Miriam”, nome de sua mãe. Foi esse o critério adotado por ela ao comprar o livro.

Em sala de aula, a conversa desembarcou em livros e leituras. Foi então que a Larissa começou a falar muito mal de “Melancia”, dizendo que é um dos piores livros que já havia começado a ler. Ainda de acordo com ela, bastaram algumas páginas para que ela largasse a obra. Ri e quis saber mais sobre “Melancia”, achando o título um barato.

Larissa disse ainda na ocasião que o título se deve ao fato de a narradora estar se sentindo enorme e gorda, tal qual uma... melancia. Achei engraçada a ênfase com que minha aluna falava mal do livro, engraçado o quanto o título era chamativo. Então pedi à Larissa que levasse o livro para mim no dia seguinte, quando voltaríamos a ter aula.

Aleatoriamente, eu o abri. Achei muito festivo um trecho aleatório que li. A seguir, percorri metade da primeira página. Então já era tarde: eu havia sido cativado; teria de ler o livro. Ainda brinquei com a aluna, dizendo que embora eu tivesse lido pouco, havia gostado de cem por cento do que lera.

O livro é muito divertido. É uma leitura leve, fácil e saborosa tal qual... melancia (desconsidere o trocadilho infame). Despojado e bem-humorado, conta a história de Claire, abandonada pelo marido, que vinha tendo um caso com uma vizinha de apartamento.

Bom, mas o que há de divertido numa história de abandono?... Nada. Só que Claire vai narrando seu infortúnio de modo que, paradoxalmente, embora estejamos lendo uma história de muita, muita dor sentida por uma mulher, a gente não deixa de rir.

Ademais, a mão solta (para me valer de uma feliz expressão de Manoel Almeida, advogado e chargista) de Claire, com seu senso de humor, impede que tudo caia num dramalhão piegas, grudento e açucarado demais. Mas, ao mesmo tempo, esse senso de humor, repetido e repetido, quase nos faz esquecer de que há um coração dilacerado. Quase.

O livro é considerado uma comédia. Acho difícil classificar dramas com pitada de humor de comédia. É como o filme “Separados pelo casamento”, que dizem ser comédia. Considero-o drama com doses de humor. No livro de Keyes, a piada vem em maior profusão, mas acho estranho chamá-lo de comédia.

Mas deixem de lado essas teorizações e divirtam-se com “Melancia”. Relevem o excesso de piadas (ou de drama, dependendo de como se veja) e se deixem levar pela cativante Claire, com suas dores, seu saboroso universo feminino, sua família tresloucada e sua imensa capacidade de autoironia.

FOTOPOEMA 265

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

GARCÍA MÁRQUEZ EM MANDARIM

Li que “O amor nos tempos do cólera”, do García Márquez, foi lançado oficialmente em mandarim (cópias ilegais do livro, bem como de “Cem anos de solidão”, já circulavam pela China). 

 “Cem anos de solidão”, após publicação legal (no sentido da lei), em 2011, já vendeu mais de um milhão de cópias – sim, a China é também mercado para a literatura. Obviamente, os editores esperam que “O amor nos tempos do cólera” obtenha êxito similar. 

A nota triste é que o escritor sofre de demência senil. Jaime García Márquez, irmão do autor colombiano, disse que “do ponto de vista físico ele está bem, embora já tenha alguns conflitos de memória”. Segundo Jaime, o irmão mantém o humor; ainda de acordo com Jaime, a senilidade é comum na família deles. Gabriel García Márquez tem 84 anos.

FOTOPOEMA 264

domingo, 26 de agosto de 2012

CRUZEIRO X ATLÉTICO

O Cruzeiro, cheio de desfalques; o Atlético/MG, líder do campeonato e com o time completo. Diante disso, o torcedor preto-e-branco tinha grandes motivos para estar otimista. Como era de se esperar, o começo do jogo foi truncado, lento, estudado, amarrado, com diversas faltas.

Aos doze minutos do primeiro tempo, Fabinho se machuca. O que tinha cara de ser mais um problema para
o desfalcado Cruzeiro, torna-se solução. Aos 16 minutos, Wallyson, que substituíra Fabinho, marca o gol do Cruzeiro.

O Atlético, cobrando faltas na intermediária, insistia em cruzar a bola na área, por intermédio de Ronaldinho. O Cruzeiro, marcando forte, rechaçava as tentativas do oponente. Num primeiro tempo sem grandes chances, Danilinho, livre de marcação dentro da área, perde chance de gol, cabeceando para fora, aos quarenta e dois minutos.

Cinco minutos depois, aos quarenta e sete minutos, o Atlético, que tanto insistira em cruzamentos na área, é recompensado: após cobrança de escanteio, Leonardo Silva, depois de desvio na primeira trave, acerta um belo chute, no alto, no canto direito de Fábio.

No segundo tempo, Leandro Guerreiro e Bernard, após entrevero entre os dois, são expulsos. Vale lembrar que o primeiro cartão de Guerreiro foi tomado, no primeiro tempo, após reclamação acintosa.

No Cruzeiro, Everton sai, machucado; entra Marcelo Oliveira. No Atlético, Danilinho sai; entra Guilherme. Aos 40, Borges quase empata. Aos 42 minutos, Pierre é expulso, após falta em Montillo.

Contudo, aos 44 minutos, Ronaldinho fez um golaço. Arrancou desde o meio de campo, percebendo que a defesa do Cruzeiro estava aberta. Foi avançando, entrou na área e tocou, com muita categoria, no canto esquerdo de Fábio.

Após o gol, Ronaldinho sai; entra Serginho. O Cruzeiro, com um a mais em campo, pressiona, sem êxito. O gol somente viria aos cinquenta e seis minutos, com Matheus empurrando para as redes cruzamento vindo da esquerda.

Os atleticanos reclamaram de falta de Montillo momentos antes do empate cruzeirense. Tivesse sido marcada, pode ser que o Cruzeiro não tivesse empatado. No momento do gol, o Atlético estava com oito jogadores, pois Júnior César estava recebendo atendimento.

No todo, um jogo feio, pouco criativo e muito truncado. O Cruzeiro comemorou muito o empate, talvez ciente de que o adversário tem uma equipe superior. Já no Atlético, não creio que o placar baixe o moral da equipe para a sequência do torneio.

O jogo entre os dois, na última rodada, promete. Dependendo do que virá, pode ser que o segundo turno faça com que a torcida do Atlético celebre o título de seu time em jogo contra o Cruzeiro ou com que o time azul estrague a festa do título atleticano.

A nota ruim é que alguns torcedores imbecis jogaram objetos no gramado; o próprio árbitro chegou a ser atingido por um copo d’água. A imprensa tem falado em punição. Que ela ocorra. Que seja exemplar e inexorável, embora eu não creia na firmeza do necessário castigo.

FOTOPOEMA 262

sábado, 25 de agosto de 2012

NEIL ARMSTRONG E O TODO DA LUA



Há quem diga que a ida à Lua é um engodo. À parte isso, Neil Armstrong morreu hoje. Ele é tido como tendo sido, supostamente, o primeiro homem a pisar o satélite da Terra.

A banda The Waterboys (acima) tem um belo tributo ao astronauta, a canção “The whole of the moon”. Curiosamente, a letra tem um caso raro de metáfora: ela pode ser entendida, em diversos trechos, ao pé da letra.

As metáforas geralmente não devem ser entendidas literalmente. Se alguém diz “você é o farol que me guia”, é claro que estamos cientes de que ninguém, a rigor, é um farol. A metáfora vale não pelo que tem de literal, mas pelo que tem de sentido figurado.

Contudo, o barato de “The whole of the moon” é que as metáforas dela podem ser lidas literalmente, já que é um tributo a quem, repito, supostamente foi à Lua, cruzando, de fato, os céus. Mas como metáfora, a canção pode ser entendida mesmo caso não se saiba que a letra é um tributo ao Armstrong.

Abaixo, a letra em inglês, uma tradução que fiz e um trecho de “Tabacaria”, do Fernando Pessoa (como Álvaro de Campos). A letra de “The whole of the moon” tem muito do astral de “Tabacaria”. Por fim, um trechinho de “Servidão humana”, do Somerset Maugham, na tradução de António Barata.

Os três textos evidenciam a imensa distância que há entre a teoria e o ato, entre o tentar e o conseguir. Essa temática me fascina, bem como a intertextualidade.
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THE WHOLE OF THE MOON (In: The Waterboys. This is the Sea. Chrysalis. England. 1985.)

I pictured a rainbow
You held it in your hands
I had flashes
But you saw the plan
I wandered out in the world for years
While you just stayed in your room
I saw the crescent
You saw the Whole of the Moon

You were there in the turnstiles
With the wind at your heels
You stretched for the stars
And you know how it feels to reach
Too HIGH too FAR too SOON
You saw the Whole of the Moon

I was grounded
While you filled the skies
I was dumbfounded by truth
You cut through lies
I saw the rain dirty valley
You saw Brigadoon
I saw the crescent
You saw the Whole of the Moon

I spoke about wings
You just flew
I wondered I guessed and I tried
You just knew
I sighed
… but you SWOONED
I saw the crescent
You saw the Whole of the Moon

With a torch in your pocket
And the wind at your heels
You climbed on the ladder
And you know how it feels to get
Too HIGH too FAR too SOON
You saw the Whole of the Moon
The whole of the moon

Unicorns and cannonballs
Palaces and piers
Trumpets towers and tenements
Wide oceans full of tears
Flags rags ferryboats
Scimitars and scarves
Every precious dream and vision
Underneath the stars
You climbed on the ladder
With the wind in your sails
You came like a comet
Blazing your trail
Too HIGH too FAR too SOON
You saw the Whole of the Moon
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THE WHOLE OF THE MOON (O TODO DA LUA – tradução de Lívio Soares de Medeiros)

Eu imaginei um arco-íris
Você o reteve em suas mãos
Eu tive flashes
Mas você viu o projeto
Eu vaguei pelo mundo por anos
Enquanto você simplesmente ficou em seu quarto
Eu vi a crescente
Você viu o todo da Lua

Você estava lá nas catracas
Com o vento em seus calcanhares
Você rumou para as estrelas
E você sabe como é chegar
Alto demais, longe demais, cedo demais
Você viu o todo da Lua

Eu estava preso ao chão
Enquanto você preenchia o céu
Eu estava emudecido pela verdade
Você passou pelas mentiras
Eu vi o vale que a chuva sujou
Você viu Brigadoon
Eu vi a crescente
Você viu o todo da Lua

Eu falei sobre asas
Você apenas voou
Eu me perguntei, eu adivinhei, eu tentei
Você simplesmente sabia
Eu suspirei
Mas você se emocionou
Eu vi a crescente
Você viu o todo da Lua

Com uma tocha em seu bolso
E o vento em seus calcanhares
Você galgou a escada
E você sabe como é chegar
Alto demais, longe demais, cedo demais
Você viu o todo da Lua
O todo da Lua

Unicórnios e balas de canhão
Palácios e píeres
Trompetes, torres e condomínios
Grandes oceanos cheios de lágrimas
Bandeiras, trapos e barcos
Cimitarras e echarpes
Todo sonho e visão preciosos
Sob as estrelas
Você galgou a escada
Com o vento em suas velas
Você veio como um cometa
Rastro de fogo pioneiro
Alto demais, longe demais, cedo demais
Você viu o todo da Lua
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TABACARIA (trechos) – Álvaro de Campos
(PESSOA, Fernando. Obra poética – volume único. Org. Maria Aliete Galhoz. Ed. Nova Aguilar S/A. Rio de Janeiro. 1994. Pp. 362 e 362.)

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto.
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é.

Falhei em tudo

Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim
(...)
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas –,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades.

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“Há centenas de grandes obras a germinar nos cérebros de centenas de grandes homens, mas a trágica verdade é que nenhuma dessas centenas de grandes obras será jamais escrita. E o mundo continua da mesma forma”.

(MAUGHAM, Somerset. Servidão humana. Tradução de António Barata. São Paulo. Abril Cultural. 1982. P. 97.)