segunda-feira, 24 de novembro de 2008

"O PRESIDENTE NEGRO"

Terminei de ler ontem “O presidente negro”, romance de Monteiro Lobato. O livro defende a eugenia, alegando a supremacia da etnia branca.

Vladimir Nabokov disse certa vez que definitivamente não concordava com o comportamento de seu personagem Humbert, sujeito de meia-idade que se envolve com Lolita, uma ninfeta. Não conheço a biografia de Lobato, de modo que seria um tanto inconseqüente de minha parte ir logo misturando homem e obra. Ainda assim, é digno de nota que o próprio Lobato escreveu: “O Brasil, filho de pais inferiores… destituídos desses caracteres fortíssimos que imprimem… um cunho inconfundível em certos indivíduos, como acontece com o alemão, com o inglês, cresceu tristemente… dando como resultado um tipo imprestável, incapaz de continuar a se desenvolver sem o concurso vivificador do sangue de alguma raça original”. [Aqui, link para que você confira de onde extraí a citação.] Marcia Camargos e Vladimir Sacchetta, autores do prefácio de “O presidente negro”, mencionam a longa correspondência mantida entre Lobato e Renato Kehl, defensor de teorias de purificação étnica. Este chegou a prefaciar um livro de Lobato.

Camargos e Sacchetta preferem não se alongar sobre o suposto racismo de Monteiro Lobato. Afirmam que “O presidente negro” revela “as profundas contradições da sociedade norte-americana” do começo do século XX.

A obra foi publicada primeiramente em 1926, de setembro a outubro, no jornal carioca A Manhã. Na ocasião, saiu com o título de “O choque”. Duas décadas depois receberia o título que tem hoje.

Ayrton Lobo é o narrador da história. Após sofrer um acidente em seu Ford então recentemente adquirido, Lobo é ajudado pelo professor Benson. O senhor o leva para casa, onde Lobo tem contato com Jane, filha única de Benson.

Desnecessário dizer que Lobo logo se apaixona por Jane. Benson, por sua vez, permite a aproximação. Decidido estava o professor a revelar sua grande invenção, o porviroscópio – máquina que permitia a visualização do futuro até o ano de 3527. Benson, para assombro de Lobo, vai detalhando como funciona a máquina. Ainda envolvido com os relatos, morre. Jane naturalmente assume a continuidade do que o pai começara, em entrevistas semanais que passou a ter com Ayrton Lobo. Este, por sua vez, vai cada vez se apaixonando mais por ela.

A história que Jane escolhe narrar em detalhes se passa nos EUA, no ano de 2228, quando um negro é eleito para a presidência do país. Em “O presidente negro”, os EUA do século XXIII são “a feliz zona que desde o início atraiu os elementos mais eugênicos das melhores raças européias”. Na ótica do livro, o atraso de gente como o brasileiro, por exemplo, deve-se à mistura de raças: “O amor matou no Brasil a possibilidade de uma suprema expressão biológica. O ódio criou na América a glória do eugenismo humano”.

A sociedade de que trata a obra é divida em homens brancos, feministas radicais brancas e homens e mulheres negros. Brancos e feministas se surpreendem quando um candidato negro decide concorrer ao cargo de presidente. A briga das feministas contra os homens brancos acaba dividindo os votos da etnia branca, o que propicia a eleição de Jim Roy, o candidato dos negros. No texto de Lobato, os negros do futuro haviam se submetido a um processo pelo qual suas peles haviam sido clareadas. A despeito desse clareamento, não são, em essência, brancos. A eleição de Jim Roy fará com que o definitivo e fatal golpe eugênico seja aplicado contra os negros.

Ayrton Lobo é um personagem ingênuo, funcionário da firma Sá, Pato & Cia. Embora seja o narrador da história, a notícia que recebemos do futuro nos é dada por intermédio, a princípio, do professor Benson; depois, por Jane. Tanto filha quanto pai são sofisticados, requintados. Pouco antes de morrer, Benson destruíra o porviroscópio, temendo o estrago que a invenção poderia causar se em mãos erradas. O futuro que Jane vai descortinando para Lobo faz parte de sua memória, do que ela observou enquanto teve à disposição a máquina do pai.

O leitor não ri do que apresenta o livro. Não é, por exemplo, como um “Viagens de Gulliver”. O narrador de Swift, ao relatar ingenuamente suas histórias, faz com que nós, leitores, achemos graça do que nos conta o narrador. Não há ironia em “O presidente negro”. Com calma, inteligência e feminilidade, Jane vai conduzindo Lobo, que passa a admirar o futuro eugênico, passando a desprezar o presente limitado e aquém. O narrador Lobo reproduz as palavras de Jane, sempre conscienciosa e certa do que diz. Fossem de Lobo as palavras, talvez o efeito pudesse ser similar ao que sentimos quando lemos o que nos conta Gulliver. Jane, sobre os EUA, declara: “Onde há força vital da raça branca senão lá? Já a origem do americano entusiasma”. Jane não é nem ingênua nem risível. O livro de Monteiro Lobato não está mofando do racismo, mas o endossando. Lamentável.

“O presidente negro” foi relançado recentemente a toque de caixa, quando Barack Obama ainda disputava com Hillary Clinton uma vaga democrata nas eleições presidenciais norte-americanas. Sem saber do que se tratava, gulliverianamente comprei o livro, pensando que ele era uma espécie de ataque contra o racismo...

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

FOTOPOEMA 37

A SEPARAÇÃO

Já assisti a “Separados pelo casamento” (The Break-Up), do diretor Peyton Reed, diversas vezes. Foi veiculado como sendo comédia. Não penso ser o caso. Em minha opinião, o filme é um baita drama – com boa dose de humor, por paradoxal que isso possa parecer. As doses de humor do filme não me parecem fazer dele uma comédia, ao mesmo tempo em que lhe conferem verossimilhança e familiaridade. Ademais, bah, a vida mistura drama e humor.

Certo dia, Gary Grobowski (Vince Vaughn) e Brooke Meyers (Jennifer Aniston), casados e prestes a receber integrantes das famílias de ambos, começam a discutir porque ele chegara em casa com três limões – em vez dos doze pedidos por ela. Brooke quer a ajuda e a compreensão dele, pois muita coisa teria de ser feita na cozinha; Gary alega que trabalhou duro o dia todo. A discussão é interrompida com a chegada dos familiares. Embora o casal quase protagonize uma cena durante o jantar, em virtude de uma mesa de sinuca que Gary gostaria de ter no apartamento, terminam a refeição sem maiores solavancos. Quando as famílias vão embora o quebra-pau começa pra valer. Gary e Brooke se ofendem. Tem início a partir daí um cabo-de-guerra; vão tornando a vida a dois cada vez mais insuportável. A separação, já anunciada no título, vem de fato.

Gary e Brooke se querem. “Apenas” erraram no relacionamento. Da parte dela, faltou clareza ao dizer o que esperava de Gary; da parte dele, faltou abrir mão do egoísmo. À medida que o filme prossegue, aumentam as ofensas e a infantilidade de ambos, num joguinho bobo pra ver quem consegue magoar mais o outro. Conhecendo-se bem, sabem o que fazer a fim de que a ofensa seja incisiva.

O clima pesado e tenso não afugenta, contudo, o humor. A cena em que Richard (John Michael Higgins), irmão de Brooke, canta um trecho de “Owner of a lonely heart”, do Yes, é um barato. Há ainda cenas comoventes – sem pieguice: quando Brooke pede demissão a Marilyn Dean (Judy Davis), sua patroa e dona de uma galeria de arte, Marilyn, a despeito de toda a empáfia que faz questão de ostentar, dá a Brooke uma prova de amizade, confiança e compreensão, dizendo, em belas e poucas palavras, que as portas da galeria continuarão sempre abertas.

Quando digo que acho a Jennifer Aniston bonita, muita gente diz que não vê nada demais nela. Quando digo que a considero uma ótima atriz, já me perguntaram se eu estava brincando. Não estava – além de achá-la muito bonita, eu a considero mesmo uma ótima atriz. Não consigo imaginar uma outra pessoa na pele de Brooke Meyers.

Caso você alugue o DVD, não deixe de assistir, nos extras, a um fim alternativo para o filme...

domingo, 16 de novembro de 2008

"O OBSERVADOR NO ESCRITÓRIO"

Terminei de reler “O observador no escritório”, livro de notas e apontamentos de Carlos Drummond de Andrade.

As notas são datadas. Vão de 15 de maio de 1943 a 18 de setembro de 1977. Nelas, emerge o funcionário público às voltas com seu trabalho burocrático, duvidoso quanto a seu papel político: “Sou um animal político ou apenas gostaria de ser? (...) Como posso convencer a outros, se não me convenço a mim mesmo? Se a inexorabilidade, a malícia, a crueza, o oportunismo da ação política me desagradam, eu, no fundo, quero ser um intelectual político sem experimentar as impurezas da ação política?”.

Aqui e ali, alude o poeta a fatos corriqueiros, desde o comportamento de um gato, louco para saciar seu apetite sexual, a conversas com os grandes intelectuais e artistas do Rio de Janeiro de então. Há momentos engraçados, reflexivos, tristes... Amigos, impressões, arranjos de bastidores para disputa de vaga na Academia Brasileira de Letras, morte de amigos...

O registro de um tempo pelo olhar do poeta. Em meio às notas, o que emergiu para mim (talvez injustamente) foi um Drummond um tanto misantropo. Ele própria cita, sem comentar, opinião de Lúcio Cardoso, numa entrevista:

“– Qual o maior poema que leu em sua vida?
“– “’Os bens e o sangue’”, desse raro exemplar de falta de calor humano que se chama Carlos Drummond de Andrade”.

Num outro trecho, Drummond diz que um verso de Mário de Sá-Carneiro parece definir o poeta de Itabira: “Fartam-me até as coisas que não tive”.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

APONTAMENTO 40

Sabe... Às vezes é melhor mesmo que eu não saiba mesmo de toda a beleza que há por aí. Seu eu soubesse, sei que não suportaria.

RETÓRICA

Tudo deveria acabar numa obra de arte.
Ou começar numa obra de arte.
Ou ser uma obra de arte.

Hora de me calar.
Nem sei definir
se me silencio feliz
ou se me silencio triste.
Sei que a única obra de arte
que produzi foi o silêncio de agora.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

CAMINHO DE SANGUE

Todo esse sangue bombardeado.
Todo esse sangue inocente.
Todo esse sangue poluído.
Todo esse sangue perverso.

Não no chão, mas nas veias,
deveriam estar todos
esses sangues correndo.

“DECAMERÃO – O SANTO MILAGREIRO”

Ontem, a partir de 19h15, no Teatro Municipal Leão de Formosa, aqui em Patos de Minas, ocorreu o espetáculo teatral “Decamerão – o santo milagreiro”.

A peça é uma adaptação da primeira das cem histórias que compõem o livro “Decamerão”, de Giovanni Boccaccio (1313-1375). A direção foi de Consuelo Nepomuceno (Unipam), coordenadora do grupo Tupam (Teatro Universitário de Patos de Minas).

A história de Boccaccio narra o ocorrido com o senhor Ciappelletto. Em tom de galhofa e prestes a morrer, ele decide se “confessar” a um bondoso frade. Tendo sido cafajeste a vida toda (“era o pior homem que viera à luz, em qualquer época” – tradução de Torrieri Guimarães), o próprio Ciappelletto argumenta, no leito de morte, que uma ofensa a mais, numa vida tão plena delas, não fará nenhuma diferença. Para o frade, narra pecadilhos infantis, ninharias, a despeito da vida nada virtuosa que levara.

Impressionado com o suposto caráter elevado de Ciappelletto, o frade cuida rápido de dizer a todos que tão nobre conduta durante toda uma vida só podia indicar santidade. Dá a “boa nova” a seus colegas, que contam para outros, que contam para outros. Ciappelletto é enterrado com honrarias, é sepultado como santo. Rapidamente, fiéis passam a procurar o túmulo do “santo” em busca de milagres, numa amarga ironia de Boccaccio.

A peça contou ainda com música, sob o comando do professor de música e percussionista Castor. Após o espetáculo, o professor Luís André Nepomuceno, coordenador do curso de Letras do Unipam, contextualizou Boccaccio e sua obra numa Idade Média que assistia então ao surgimento do Humanismo. Infelizmente, devido a compromisso de trabalho, não pude acompanhar toda a fala do professor. Entretanto, ele próprio me disse posteriormente que houve uma interação proveitosa, a partir do momento em que o público se sentiu à vontade para opinar e fazer perguntas.

“No teatro, mudar uma peça de maneira radical muitas vezes é – por mais contraditório que possa parecer – a melhor maneira de ser fiel a um dramaturgo”. Esse trecho é de Gabriela Mellão, em crítica sobre montagem da peça “O Quarto”, de Harold Pinter, sob a direção de Roberto Alvim. Gabriela Mellão ressalta que as liberdades de Roberto Alvim, paradoxalmente, não deturparam o trabalho de Harold Pinter.

Comento isso pelo seguinte: o “Decamerão” não é texto escrito originalmente para o teatro. Ainda assim, o grupo Tupam foi feliz na adaptação que fez. As liberdades (sem radicalismos) tomadas quanto ao original e quanto a recursos cênicos mantiveram o saboroso humor de Boccaccio. Aqueles que têm familiaridade com o "Decamerão" reconhecem de imediato a atmosfera da história de Ciappelletto, a despeito das mudanças. Ao mesmo tempo, o espectador não deixa de presenciar a corrosiva ironia. Em suma: a trupe acertou no tom.

Não sei se há a intenção de se reapresentar a peça. Caso isso ocorra, esteja lá. E em tempo: é um espetáculo que eu gostaria de fotografar.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

DONA ISOLETA

Adão, quarenta e dois anos, comprou a passagem. O ônibus embarcaria às 22h15. Sua poltrona era a de número quatro. No veículo, Arlete, uma jovem de vinte e cinco, estava sentada na três – com os pés na quatro. Adão colocou sua mala no compartimento acima das poltronas e olhou para a jovem. Ela deu um levíssimo sorriso, arredou os pés e Adão se sentou.

Segundos depois, Arlete se levanta e passa para o outro lado do corredor do ônibus, ocupando a poltrona de número um – com os pés sobre a dois. Adão pensou que logo ela teria de voltar para o lugar dela, pois ele tinha quase certeza de que o passageiro da poltrona um estava prestes a surgir. É que no guichê Adão chegara a pedir a poltrona três e depois a um. Ambas já haviam sido vendidas.

Minutos depois, duas mulheres entram no ônibus. Uma delas, Ana Maria, de trinta e sete, carregava Clara, bebê de três anos. A outra, Isoleta, de setenta e dois, uma pequena sacola vermelha. Ana Maria foi para a parte de trás do ônibus. Isoleta havia comprado passagem para a poltrona um, que estava ocupada por Arlete.

Antes de se sentar, a senhora olhou para as poltronas um e três. Leu pausadamente para si mesma: "Pol-tro-na um". Quando a jovem já ia se levantar a fim de voltar para seu lugar, Isoleta conversou com Adão:

– Se você não se importar, eu queria ficar na sua poltrona. Fico enjoada se viajar no canto.

Adão achou estranho esse negócio de ficar enjoada somente quando se viaja no canto. Contudo, ficou sem jeito de dizer não; cedeu o lugar para a senhora. Enquanto mexiam os corpos no pequeno espaço, Isoleta quase caiu. Justificou-se:

– Às vezes caio; é por causa da minha coluna.

Isoleta se alojou na poltrona quatro. Só que Adão teria de ir para o lugar destinado a ela, que era a poltrona um, onde estava Arlete. Esta esboçou novamente o leve sorriso de há pouco. Tirou os pés da poltrona dois e se encolheu no canto. Adão ocupou a dois. Se alguém chegasse para ocupá-la, Adão teria de ir para a três, o que não ocorreu. Arlete não voltaria para a três, seu lugar de origem. Minutos depois, a viagem teria início.

Durante o percurso, Isoleta, pequena que é, deitou-se sobre as duas poltronas, com a cabeça virada para a janela; dormiu e roncou. De vez em quando, num sacolejo maior, um de seus pés chegava a esbarrar na perna de Adão, esticada para fora, ocupando parte do corredor. Incomodado pelo ronco de Isoleta, Adão não dormiu nada durante a viagem de sete horas.

No desembarque, enquanto se afastava do ônibus, Adão pôde ouvir Isoleta, toda risonha, comentar com Ana Maria:

– Inventei uma balela qualquer pros dois que estavam lá na frente; acabei ficando com duas poltronas só pra mim...

UNÍSSONO

Num coral é assim:
cada um em seu canto.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (42)

No último dia 29 ministrei minha primeira aula de fotografia. É que Ivanilda, uma amiga, e dois alunos meus de inglês e literatura, Breno e Marcela, estiveram comigo às margens da Lagoa Grande, aqui em Patos de Minas, para fotografar e ter algumas dicas teóricas.

Falei brevemente sobre abertura, velocidade e composição. Depois, colocaram a mão na massa. Olhei as fotos e sugeri algumas mudanças, principalmente de enquadramento. A seguir, fotografaram mais.

Apesar do calor intenso, foi uma tarde muito agradável. Foi um prazer conversar sobre fotografia e ensinar os princípios básicos dessa fascinante atividade. Além de agradecer à Ivanilda, ao Breno e à Marcela pela oportunidade, agradeço também ao fotógrafo Jhereh, que me emprestou a câmera dele – a minha está estragada.

A foto acima foi uma das que tirei.

HAICAI 13

O professor ensina.
A aluna aprende, olha.
Amorosa sina.

APONTAMENTO 39

Minha mãe é o mundo. O universo é meu pai. Não passo de um interiorano com mentalidade cosmopolita. O que já é melhor do que ser um morador de um grande centro com mente bitolada.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

ELEIÇÕES NOS EUA

Hoje à tarde assisti a imagens que mostravam celebrações ocorridas no planeta por causa da vitória de Obama.

Os vídeos o mostravam sendo ovacionado. Claro que muita dessa alegria era pelo fato de Bush estar saindo; contudo, em vez de ataques a Bush, o que vi foram loas a Obama. Pode até ser que os elogios a Obama tenham sido um modo tergiversado de atacar Bush. Contudo, o que me pareceu foi que houve mesmo um entusiasmo imenso quanto ao candidato recentemente eleito.

O próprio Obama empunhou a bandeira da chamada “mudança”, uma das palavras mais usadas por ele em seus discursos. As manifestações ao redor do mundo pareciam ser o reflexo da crença nessa mudança; todos se mostraram aliviados por se verem livres do desastrado Bush.

Se as festas ocorreram para celebrar a saída de Bush, ótimo. Se não, ainda é cedo, cedo demais. O apito final está longe de soar para Obama. Já o final para Bush soou tarde demais; talvez nem devesse ter havido o inicial. As imagens a que assisti me deixaram com a impressão de haver uma confiança extrema em Obama. Pode ser que a festa termine mal. Ou que talvez as imagens sejam apenas rompantes de quem não agüentava mais ver a cara do Bush.

Torço muito para que Obama realize um bom trabalho. Quando ele terminar, que as comemorações vindouras sejam para celebrar seu legado.

A JOÃO GILBERTO

A THE ROLLING STONES


A JANIS JOPLIN


terça-feira, 4 de novembro de 2008

A HITCHCOCK

APONTAMENTO 38

Amanheço pleno de madrugada. O amplo alvorecer me deixa pleno de imensidão. Cato nos restos da noite que ainda pairam no leste o equinócio, o equilíbrio. Em vez da paz do sono, escolho a correria das ruas. Quando a consciência pesa, a gente acha que todo mundo sabe, só de olhar para nós. O povo que passa por mim vê a consciência tranqüila? Será que todo mundo está vendo que carrego a madrugada?

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

DESENHO 2

Na adolescência, interessei-me pelo Renascimento; interessando-me pelo Renascimento, tornei-me interessado em Leonardo da Vinci; interessando-me por Da Vinci, rabisquei os traços acima. O desenho original está num livro chamado “O pensamento vivo de Leonardo da Vinci”; em meados da década de 80, a coleção O Pensamento Vivo, publicada pela Martin Claret, era vendida em bancas de revista. Cheguei a ter a coleção quase completa. Os livros tinham a intenção de sintetizar e popularizar as idéias de ícones do conhecimento em diversas áreas. Foram um bom incentivo para que depois eu conhecesse mais sobre alguns deles. Fiz o desenho no dia 31 de março de 1986.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

CALOR

Tanto o calor,
que derreteu o vento.
O calor levou embora
o sopro de esperança
e fez arder o último suspiro.

Tudo foi rachado.
Até a secura dos homens
comportou-se como
manteiga derretida.


terça-feira, 28 de outubro de 2008

JOGO

Tenho-te em carne
e em espírito.
Tenho-te subjugada
e rainha, escrava e senhora.
És minha dona, e a ti ordeno.
Nesse jogo poderoso,
quando te mando,
tu me tens.

HORA DE VIVER

É madrugada. Irineu cria seu mundo. De dia, faz o que não gosta. Faz porque precisa sobreviver. De noite, inventa o que gosta. São 3h10. Ele precisa se deitar. Daqui a pouco, é hora de não viver.

LEITURAS

Leio à noite.
Logo,
leio a noite.

A LÚCIO COSTA


segunda-feira, 27 de outubro de 2008

ALTOS E BAIXOS

Hoje, na sarjeta.
Amanhã, na capa da revista de negócios.
Tudo útil – com ilusões também se aprende.

ÓRION

Órion era um gato preto. Acreditava que era na verdade uma daquelas majestosas panteras negras. Viveu as quatro últimas de suas sete longas vidas acreditando nisso e agindo como se assim fosse. Ele não sonhava em ser uma pantera – ele tinha certeza de que era uma. Por fim, sem mais vidas à disposição, morreu de verdade. Aqueles que o conheceram dizem que, para um gato, Órion fez coisas espantosas.

domingo, 26 de outubro de 2008

GRUPO AMARANTO EM PATOS DE MINAS

Hoje, mais cedo, entre 20h15 e 21h05, assisti a um belo show na Praça do Fórum, aqui em Patos de Minas, com o grupo Amaranto.

Estão em turnê por cidades de Minas Gerais. Uberaba, Patos de Minas, Ituiutaba, Uberlândia, Nova Serrana e Pará de Minas são as cidades que estão recebendo o Amaranto.

O grupo é formado por Flávia da Cunha Ferraz Guedes, Marina da Cunha Ferraz e Lúcia da Cunha Ferraz. Em Belo Horizonte, as três irmãs cresceram em ambiente musical.

Turnê Três Pontes – Amaranto para crianças de todas as idades é um delicado e envolvente show para crianças. O palco é simples: um pano preto ao fundo. Sobre este, panos retangulares e floridos. Nos arranjos, as três afinadíssimas irmãs tocam violão e flauta; são também responsáveis pela sutil e bela percussão. Também no palco, o baixista Tiago Godoy, autor de algumas das canções que fazem parte do espetáculo.

Caso se interesse, vá até o Youtube, digite "Amaranto" e confira trechos de apresentações do grupo.

GOTEIRA


APONTAMENTO 38

De vez em quando, eu me esqueço de que existe um negócio chamado Youtube. Na madrugada que passou, após conferir música ao vivo num dos bares da cidade, cheguei aqui e fui conferir alguns vídeos lá, após conversa com Érico, que toca violão e canta; ele também estava conferindo a música ao vivo no bar; chegou a dar uma breve canja.

Conferi os seguintes vídeos:

• Carole King – City Streets (clipe e versão ao vivo)
• Bruce Springsteen – Tougher than the rest (versão ao vivo)
• Waysted – Heaven tonight (clipe e versão ao vivo)
• Alphaville – Forever young (Uma de minhas preferidas na época; nunca havia assistido ao clipe.)
• Falco – Rock me Amadeus – versão original e versão remixada (Idem.)

A tecnologia está naturalmente associada a novidades; por outro lado, um dos grandes baratos dela é a possibilidade de acesso ao passado que ela permite.

APONTAMENTO 37

O paradão do domingo aumenta o calorão de todos os dias.

sábado, 25 de outubro de 2008

A OSCAR NIEMEYER

DESENHO 1

A juventude é cheia de ímpetos. Alguns deles, vistos à distância, soam engraçados. Um de meus rompantes juvenis foi o de tentar ser desenhista (sic). Hoje, mexendo em velhos papéis, eu me deparei com dois cadernos de desenhos. Na época, o grande sonho era desenhar utilizando pena de bico fino e tinta nanquim. Fiz a encomenda numa das lojas da cidade e fiquei aguardando. Durante semanas e semanas, fui até a loja, sempre com a mesma pergunta: “Chegou?”. A resposta era sempre a mesma: “Não”. Por fim, desisti. E quem não tem pena de bico fino desenha com lápis comum; foi o que fiz na época.

O desenho acima é uma das conseqüências dos rompantes juvenis. A ilustração estava numa velha revista que encontrei em antigo local de trabalho, enquanto o ambiente passava por limpeza. Eu tinha uns 12 anos. A ilustração fazia parte de uma matéria intitulada “Gênios idiotas”, sobre aquelas pessoas que realizam complexos cálculos matemáticos rapidamente, mas são incapazes de efetuar cálculos simples. Devo ter essa revista em algum lugar aqui em casa. A linha editorial dela era o que posteriormente eu conferiria na Superinteressante, ainda na década de 80. Fascinado pela matéria sobre os “gênios idiotas” e querendo ser desenhista, é claro que mal esperei chegar em casa para copiar a meu modo a ilustração. Caso eu ache a revista, publico o nome do autor do desenho original.

Digitalizei a imagem, cujo original já está amarelecido; em programa de edição de fotos, escureci as linhas. Não houve outros retoques. Fiz o desenho no dia 23 de fevereiro de 1986.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

A FREUD

CONTO 27

Quando Sofia escutou Fábio dizer “o amor é isto mesmo – as miudezas que fazemos por amor, que confere significado especial àquilo que, sem ele, seria apenas mais um gesto banal. As coisas em si não têm encanto. Passam a ter quando enxergadas por um olhar amoroso. O estar numa lanchonete tomando um suco torna-se pleno de sentido. A rigor, uma lanchonete como qualquer outra. Por ter o lugar alguma (ainda que mínima) ligação com a pessoa amada, torna-se especial. Assim o amor faz com tudo: vai estabelecendo e ampliando as relações, os elos, até o ponto em que uma pulga, uma cadeia montanhosa ou um filme faz com que nos lembremos da pessoa amada”, ela olhou para ele com um olhar deliciosamente maroto e disse: “Isso é lindo; quero anotar depois, mas o que quero agora é que você me beije”.

A CAMÕES


quarta-feira, 22 de outubro de 2008

CINEMA BRASILEIRO NA CNN

A CNN Internacional, rede de televisão que transmite notícias para o mundo todo, tem um programa chamado “The Screening Room”. A idéia é mostrar o que cineastas de toda parte têm feito. O programa de hoje focalizou o cinema que tem retratado as favelas no Rio de Janeiro. A atração está disponível na página da CNN.

Não se trata de dor-de-cotovelo, mas literatura e cinema brasileiros têm feito da violência urbana a temática a ser tratada. Obviamente, não há como ignorá-la. Além do mais, se essa temática tem garantido audiência e vigor ao cinema nacional, é compreensível que cineastas, produtores e patrocinadores a busquem.

Além da temática da violência urbana ou dos bailes funk no Rio de Janeiro, eu gostaria de ver no circuito de cinemas comerciais mais aspectos dos outros Brasis. Somos mais, muito mais do que a violência no Rio ou os bailes funk (nada contra os bailes). A violência não está só no Rio. Está também nos rincões. Além do mais, há outras temáticas que poderiam ser tratadas de modo rentável. Parece-me excessiva a insistência em fazer de bailes funk ou da violência urbana o ganha-pão do cinema nacional. O Brasil não é somente isso. Que o sucesso do cinema feito por aqui não seja passageiro. É claro que desejo que ele continue tendo cada vez mais êxito, assim como desejo ir ao cinema ou ligar a televisão e assistir a mais facetas do Brasil.

CONTO 26

Betânia, casada com João, e Amanda, casada com Luís, têm dois pontos em comum. O primeiro: não são correspondidas no fervoroso e devotado amor que sentem. O segundo: amam a mesma pessoa – Márcia.

A BORGES




A NERUDA


terça-feira, 21 de outubro de 2008

A FOULCAULT


A MANUEL BANDEIRA


A PROUST


A JOHN LENNON




A RAUL SEIXAS


APONTAMENTO 36

É no corpo que o amor começa a ser sublime.

MÉTODO

Estou fazendo testes, escrevendo sem pensar no que está sendo feito. Estou tentando, por assim dizer, soltar a mão. Quando termino, hora de reler. De vez em quando, do palavrório caótico, tem saído uma frase que considero valer a pena. Preciso aprender a pensar menos...

sábado, 18 de outubro de 2008

ROUPAGEM

Gosto quando me vestes, quando me revestes.
Gosto quando me cobres com roupa.
Gosto quando me cobres sem roupa,
com teu corpo quente de amor.

Teu corpo é roupa ideal para o meu.
Tua pele, o tecido mais gostoso.
Visto-me de ti e devoro o que visto.

PREFIXO

Quando não escrevo,
prendo-me.
Quando escrevo,
aprendo-me.

URBANO

O fedor no bueiro
é a cidade com mau hálito.

APONTAMENTO 35

Súbito, surge um texto que tem pressa de ser escrito. Apanho pedaço de papel qualquer. Para apoiá-lo, pego uma revista e começo a escrever ligeiro, afoito para jogar no papel as idéias. De repente, leve susto, suspensão; paro de escrever. Da capa da revista, Shakespeare a me decifrar.

APONTAMENTO 34

O segredo é dar o pontapé inicial. Só que não sei onde está a bola...

CRIADOR

Quando crio, sou deus.
Deus pequeno – mas deus.

Criar é estar perto de Deus?
Criar é estar perto de Zeus?

APONTAMENTO 33

Com freqüência, a poesia me ocorre. Mas nem sempre se torna ocorrência.

FLERTE

No ar,
pesco tuas intenções.
Em tua boca,
saboreio tuas intenções.

LAVOURA / FOTOPOEMA 32


18/10

Em meu aniversário,
disparei a fazer versos
madrugada adentro
(renascer faz bem).

A partir de hoje,
farei aniversário
todos os dias.

MAPEAMENTO

Irei até o fim
de teu corpo.
Quando ele acabar,
vou percorrê-lo
por outro caminho...

POEMA BARULHENTO

Ela diz que prefere o silêncio.
Ele diz que ela prefere é a mudez.
E o amor, nada diz.

APONTAMENTO 32

A mudez é meu jeito mais infame de dizer as coisas.

O LUGAR DO AMOR

O lugar do amor deveria ser em toda parte
Que chato o amor ter de se esconder
O lugar do amor é qualquer lugar

Amor urgente esquece tudo
Na claridade ou sobre o muro
No banco da praça ou no banco de trás
No calor do meio-dia ou no cinema

Amor não tem lugar, não tem hora
Para o amor, servem escadas, mangues, mesas
Amor não planejado não pensa em cama
Amor urgente dá um jeito, se vira
Amor urgente é no chão, no ônibus
Amor urgente se intromete em público
Amor urgente jura que está enganando os pais

Cheiros, línguas, mãos, bocas, sexos
O lugar do amor é quando o amor quer ser feito
O lugar do amor é todo mundo
O lugar do amor é o mundo todo
O lugar do amor é o corpo inteiro

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

APONTAMENTO 31

O calor tira as pessoas das tocas – e enche a noite de estrelas.

REUNIÃO

Eu deveria ter
mais reuniões
chatas e burocráticas.
Sempre que há uma,
escrevo um poema.

FOTOPOEMA 31

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

CONTO 25

Após ter se separado do marido, Célia se recolheu. Conversa bem, é bonita. O recolhimento não impedia que ela recebesse propostas quase que diariamente. Quando por fim aceitou uma delas foi com a decisão de manter namoro firme com um colega de trabalho. Depois de três anos, terminaram. Desde então, Célia passou a manter relacionamentos efêmeros e variados. Considera-se antiga diante das práticas da modernidade. Só topou participar do jogo depois de assumir para si mesma que não suporta a solidão.

... E GRANDE ELENCO

Crianças se maravilham facilmente. Quando pequeno, eu ficava impressionado com a capacidade que meu pai tinha de saber os nomes dos atores da televisão, ainda mais que ele não assistia às novelas.

Eu achava alguns nomes muito bonitos. Berta Loran era um deles. Com alguns, eu me enganei: certa vez, ao ver um ator em cena, perguntei para meu pai o nome do artista. “Ele se chama Ney Latorraca”. Na ocasião, fingi que tudo estava bem; não contei para o meu pai a surpresa que tive ao descobrir que aquele ator se chamava Ney Latorraca. Para mim Ney Latorraca era nome de mulher – é que eu pensava que a grafia do nome era Neila Torraca...

Sempre que alguma novela iria começar, havia as chamadas: Nesta segunda, estréia a próxima novela das oito, com Fulano, Beltrano, Sicrano e grande elenco. Quando eu escutava as chamadas, eu pensava que grande elenco era... o nome de algum ator.

Ora, eu já sabia da existência do Grande Otelo. Em minha lógica infantil, se havia Grande Otelo, poderia haver Grande Elenco.

Eu invariavelmente assistia ao começo das novelas para tentar identificar quem seria o tal do Grande Elenco. Afinal, ele estava em todas! Depois de exaustivas e infrutíferas tentativas, foi que decidi, intrigado, perguntar a meu pai quem era aquele ator. Rindo muito, ele me explicou o significado da palavra elenco.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

CIRCENSE

Mirar-me
no trapezista.

A experiência
não garante
perfeição
sempre.

Mirar-me
no trapezista.

Entregar-me ao risco
sem rede de proteção.

Mirar-me no trapezista:
abrir mão de tudo.

Mirar-me no trapezista:
contar com um aperto de mãos.

FOTOPOEMA 30

terça-feira, 14 de outubro de 2008

CONTO 24

Sebastiana tinha consigo que se casara com Júlio por rebeldia. A mãe dela havia dado a ordem para que ela terminasse o namoro e que escolhesse alguém rico. Para provocar, Sebastiana se casou com Júlio o mais rápido que conseguiu. Dezoito anos depois, ao descobrir que o marido mantinha há tempos um caso com uma amiga dela, Sebastiana o mandou embora. Nos dias de solidão que se seguiram, ela perceberia que a escolha de dezoito anos atrás havia sido mais amorosa do que rebelde.

CORAL

O galo canta.
A cigarra canta.
E eu no meu canto.

INTERAÇÃO

domingo, 12 de outubro de 2008

A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (41)


TELA EM BRANCO

Vontade de ficar o dia inteiro digitando palavras.
Desejo, ânsia, gana de ver palavras,
de gerá-las, de olhar para uma ao lado de outra,
de encher a tela do computador de sentido,
de mim, de imaginação e de literatura.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

APONTAMENTO 30

ENTRE COISAS

Aprender o valor das coisas.
Tratá-las com capricho.
Acomodá-las em mim.

Uma casa, uma rua, um pedaço de pano...
O tangível que súbito estremece
a intangível memória,
que num átimo pode
nos deixar inundados
de quem somos.


quinta-feira, 9 de outubro de 2008

ÀS CLARAS

Gosto de
revelar os truques,
divulgar as manhas,
destapar os artifícios,
expor a feitura.

Feito isso, aí, sim,
tem começo o mistério.

INTERAÇÃO

Eu e a caneta,
que corre sobre
o papel.
O auge de
minha história.

FOTOPOEMA 27 / HAICAI 11

Neste blog, publico fotos de minha autoria. A exceção é esta, que foi tirada por Shírley Aceval. Não há cláusula que impeça um fotógrafo de tirar um auto-retrato enquanto nada, desde que haja por perto um tripé para a câmera e alguma paciência. Ainda assim, preferi pedir à Shírley que tirasse a foto.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

REVISTA SAGARANA

Recebi hoje a revista Sagarana. O slogan da publicação é preciso: Turismo e cultura em Minas Gerais. Cézar Félix é o editor. Além dos textos, belas imagens podem ser observadas – Henry Yu é o editor de fotografia.

Sempre gostei de cheiro de papel. Cheiro indiscriminadamente livros e revistas, não importa se novos ou velhos. Digo isso pelo seguinte: a Sagarana não somente revela as riquezas humanas e ambientais de Minas: ela é a revista com o cheiro mais gostoso a que já tive acesso.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

CONTO 23

A carência em que Edna vive faz com que ela nunca saiba com exatidão que atitudes tomar. Está sempre indecisa quanto a sentimentos e ações. Se de repente se pega imensamente atraída, atribui a atração à carência, convencendo-se de que não fosse ela, a carência, não teria sentido a atração. Assim, Edna não se entrega. Acha injusto para com quem quer que seja se entregar por estar se sentindo carente. Não se entregando, não tem ninguém; não tendo ninguém, sente-se carente. Vive num círculo vicioso repleto de endríagos e íncubos.

CONTO 22

Hélio e João Pedro; pai e filho. Mantiveram sempre um relacionamento frio. João Pedro, secretamente, acusava o pai de ser o culpado de sua triste infância. Hélio maltratava Mariana, a esposa. Com o filho, era frio. O grande sonho de João Pedro era fazer medicina. Quando se tornasse médico, levaria a mãe embora daquele mundo arcaico. O ranço quanto ao pai não dava trégua. No dia em que João Pedro, do quarto, pôde escutar o pai comentando ao telefone que caso o filho se tornasse médico ele seria o pai mais feliz do mundo, João Pedro decidiu com maior firmeza. Passou a estudar ainda mais, fez vestibular e se tornou arquiteto, para não conceder ao pai a alegria de ter um filho médico.

FOTOPOEMA 26 / HAICAI 10


segunda-feira, 6 de outubro de 2008

APONTAMENTO 29

Leio para ir mais longe em mim.
Indo mais longe em mim,
estarei mais perto de ti.

domingo, 5 de outubro de 2008

HAICAI 9

Fazem os gatos
amor, barulho e gatinhos.
Amantes natos.

ELEIÇÕES MUNICIPAIS EM PATOS DE MINAS

Terminada a apuração dos votos em Patos de Minas, Béia Savassi se tornou a primeira mulher a ser eleita prefeita da cidade. O resultado foi o seguinte:

Béia Savassi: 37.288 (49,71% dos votos válidos)
José Humberto: 31.860 (42,47% dos votos válidos)
Jader Carvalho: 5.869 (7,82% dos votos válidos)

Em tempo: algo que ocorre em toda parte (não falo somente daqui) é o fervor bobo com que alguns eleitores se entregam à defesa dos candidatos em que vão votar. Em nome desse fervor, ataques pessoais são feitos, tiros são dados. Pura bobagem. Se esses eleitores dessem um voto a si mesmos, antes de defenderem tolamente seus candidatos, muita besteira poderia deixar de ser feita.

O comportamento de alguns eleitores chega a me lembrar a maneira hedionda com que numerosos torcedores de futebol expressam a paixão que dizem ter por seu time.

CONTO 21

A grande paixão de Mineiro sempre havia sido o futebol. Quis ser jogador. Não conseguiu. Quis ser treinador. Não conseguiu. Quis ser locutor de futebol. Não conseguiu. Quis ser comentarista de futebol. Não conseguiu. Conseguiria ser um torcedor atípico. Com o futebol, sonhava. No futebol, pensava o tempo todo. Só falava de futebol. Deixou o emprego e passou a se dedicar somente à paixão que sentia pelo jogo. Veio o dia em que tomou a decisão: hoje, caminha o dia inteiro por toda a cidade. Usa invariavelmente o uniforme do Peñarol, do Uruguai. Durante todo o tempo em que caminha, narra com voz forte impossíveis e emocionantes partidas de futebol. Caminho afora, os gols vão surgindo.

A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (41)

Tirei esta foto no dia 17 de junho de 2006, às 15h58. Eu estava em Três Marias/MG, após ter ido a Cordisburgo/MG, a fim de visitar a Gruta de Maquiné. A escala em Três Marias foi realizada porque os estudantes da excursão em que embarquei queriam conhecer a usina hidrelétrica da cidade. A princípio, não gostei da idéia, pois estava com pressa de chegar a Patos de Minas.

Casmurro, desci do ônibus. Um belo rio já podia ser visto. Em minha ignorância, eu não sabia que rio era aquele. Quando me disseram que era o São Francisco, fui logo tratando de tirar fotos; a ida a Três Marias já tinha valido a pena.

O objetivo da parada na cidade era visitar as instalações da usina. Olhando em torno, vi profusão de garças e cormorões. Minha visita ao complexo da usina ficaria para uma outra oportunidade – que ainda não veio. O que fiz mesmo foi tirar várias fotos das aves no fim de tarde, diante das águas do São Francisco.

A foto acima foi tirada enquanto um guia da usina explicava os cuidados que deveriam ser tomados antes que entrassem nas dependências da usina.

sábado, 4 de outubro de 2008

NOITE BRANCA

Tão bonito,
esse branco da folha
lisa e imaculada.
Bobagem palavra qualquer
a conspurcar sua magnitude.
Se for para preenchê-lo,
que se faça jus à sua grandeza.
Com medo de estragá-lo
e com reverência,
contemplo pacientemente.
Minutos vão se passando,
e uma poesia branca
como papel sem literatura
toma conta de minha vida.

UM BRINDE

Ao preencher os marcadores da postam anterior, quando fui digitar o nome do diretor Tim Burton, surgiu o nome de Tim Maia, por ele já ter sido mencionado neste blog.

Só então me dei conta de que o nome artístico é o mesmo! Daí, não resisti...

Tim-Tim:
Maia e Burton.

NAS ALTURAS

Há pouco, assisti novamente a “Peixe grande” (2003), do diretor Tim Burton. A história é baseada no livro "Big fish: a novel of mythic proportions", de Daniel Wallace. O filme tem uma deliciosa mistura entre ficção e realidade. Há momentos que fazem lembrar o chamado realismo mágico.

Um dos personagens é Karl, interpretado por Matthew McGrory, que morreu em 2005. Segundo li, Mcgrory media mais de sete pés. Sete pés são equivalentes a dois metros e treze. Como a informação que li dizia “mais de sete pés”, não sei precisar a altura.

Assim que o filme terminou, liguei o computador. Leio notícia de que Bao Xishun, considerado o homem mais alto do mundo (dois metros e trinta e seis), tornou-se pai. Ainda de acordo com a notícia, o filho dele, embora maior do que a média, está longe dos setenta e cinco centímetros já verificados – o filho de Xishun mede cinqüenta e seis centímetros.

Não sei se ainda inebriado pela atmosfera de “Peixe grande”, mesmo após ver a foto de Xishun observando seu bebê, não consigo tirar da cabeça a imagem de Karl no filme.

Em tempo: a esposa de Xishun mede um e sessenta e oito.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

CARÁTER LITERÁRIO

1

Não queria uma poesia
que se volta para si.
Não me volto para
a metalinguagem,
queria abandoná-la.
Mas ela não me deixa.
Eu não queria,
mas sou metalingüístico.
Meus escritos
se voltam para si.
Minha existência
se volta para mim.

2

O buço dela me remete
a um buço descrito em Kundera.
A vida me remete à literatura
ou a literatura me remete à vida?

Adquiri um jeito literário
de olhar, de falar, de pensar, de sentir.
Sou conseqüência literária.


A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (40)

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

QUEM DIRIA...

Meados da década de 80. Quando o rádio começava a tocar “More than I can bear”, do Matt Bianco, eu dava um jeito de mudar a sintonia. Eu não gostava mesmo da canção. Agora, estou a escutando numa emissora do Rio de Janeiro. E quer saber? Um barato. Enquanto batuco palavras neste velho computador, estou até mexendo o corpo na (agora) gostosa levada da canção...

HAICAI 8

As horas nuas,
são todas elas
somente tuas.

APONTAMENTO 28

Ouvi aluno meu dizendo que adquiriu o hábito da leitura depois de ter encarado “O código da Vinci”. Lembro-me de ter visto esse mesmo aluno dizer que havia gostado de “Dom Casmurro”. Também disse que tem a série Harry Potter, mas não percorreu os livros ainda. Recentemente, leu “O velho e o mar”.

Vejo com bons olhos esse começo de leituras sem critério. Ainda que o estudante não saiba ainda diferenciar com clareza, por exemplo, Dan Brown de Machado de Assis, no que diz respeito à literariedade, o hábito da leitura, caso se mantenha, pode fazer com que a percepção dele vá se tornando cada vez mais requintada. É uma possibilidade.

É por isso que não concordo muito com aqueles que simplesmente abominam os chamados best-sellers. Penso ser necessário ler, seja o que for. Se pelo menos uma das milhares e milhares de pessoas que se entregam a modismos passarem a ler textos que se tornaram perenes, após ter descoberto o gosto da leitura por intermédio dos best-sellers, já está ótimo.

Além do mais, esses livros de vendagem estrondosa são lucro certo para as editoras e para as livrarias. É preferível haver uma livraria lucrando com “O segredo”, desde que também coloque à disposição outras vertentes, a não haver livraria nenhuma. Clássicos imprescindíveis não garantem a sobrevivência dos livreiros, principalmente no interior.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

VÍDEO 4

O vídeo abaixo já havia sido postado, só que sem meu comentário. Deletei a versão anterior. Abaixo, versão atualizada, com comentário.

CONTO 20

Desde quando veio ao mundo, Isa tem a seu favor a imensa beleza. Os mais entusiastas não vacilam em dizer que ela é a mulher mais linda que já existiu em todos os tempos, em todos os lugares. Ela mesma não concorda com os elogios. Certo é que muito homem já se perdeu por causa dela, que no fundo não deixa de achar tudo isso meio engraçado. Todas as portas se abrem mansas para ela, que espontaneamente não dá a mínima. O mais recente a se apaixonar por ela foi Vilmar, dono de uma importadora de carros em Belo Horizonte. Como os anteriores, foi rechaçado. O primeiro e único a ganhar o coração de Isa foi Nestor. De pronto, ela se mudou com ele para as proximidades de Pindaíbas/MG, onde levam uma vida discreta e rural.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

EM BUSCA DE PROUST

Terminei de ler recentemente “Senhor Proust – lembranças recolhidas por Georges Belmont”, de Céleste Albaret, publicado pela Novo Século. Céleste Albaret foi governanta na casa do escritor durante os oito últimos anos de vida de Proust. O livro é a transcrição de entrevistas da senhora Albaret a Georges Belmont, que assina a introdução. Segundo Belmont, foram setenta horas de entrevistas.

É natural que a longa e diária convivência da senhora Albaret com Proust gerasse proximidade e amizade. O testemunho dela traz à tona as miudezas de que Proust era feito (miudezas de que, afinal, todos nós somos feitos).

Há também relatos do dândi Proust na aristocracia parisiense da época. Freqüentador e agudo observador desse mundo, Proust tinha acesso à vanguarda do que então estava sendo produzido. O trecho abaixo dá uma idéia (a tradução do livro é de Cordelia Magalhães):

“Por exemplo, lembro-me de que, uma noite, o príncipe Antoine Bibesco, que se tinha a par de tudo, passou para levá-lo a um desses jantares, com a idéia de fazê-lo se encontrar com o pintor Picasso, sobre o qual se começava a falar (...). Às duas horas da manhã, eles foram, todos os três, ver as telas de Picasso no seu ateliê. Sr. Proust me fez o relato quando voltou:

“– É um pintor espanhol que começou a fazer o que se chama de cubismo.

“Ele me descreveu um pouco sobre o que as pinturas pareciam. E comentei que isso deveria fazer os museus de bobos. Ele riu e disse:

“– Devo reconhecer que não compreendi grande coisa.

“Visivelmente, ele não ligou. Jamais voltou a falar sobre essa pintura. Dizem também que jantou com o escritor James Joyce, junto com outras pessoas; isso não o impressionou – ele nem pronunciou esse nome”.

A senhora Albaret também comenta o mal-estar criado depois que o escritor André Gide recusou originais de Proust. Céleste Albaret deixa clara a antipatia que ela tinha por Gide, ao dizer que ele tinha um ar de “falso monge”. Gide retratar-se-ia por ter recusado os originais de Proust.

A recusa é compreensível. Proust, é bem sabido, não foi o único escritor que se tornaria famoso depois de ter sido rechaçado em tentativas anteriores. O problema é que, segundo a senhora Albaret, Proust assegurava que Gide nem chegou a ler os originais. Primeiro, por considerar que o autor de “No caminho de Swann” não passaria de um “dândi socialite”; segundo, por uma razão prosaica: o pacote em que estava o livro não teria sequer sido aberto porque um funcionário de Proust, Nicolas, tinha, segundo a senhora Albaret, “uma verdadeira arte dos nós, com um estilo muito particular e muito inimitável. E isso, para o Sr. Proust, sempre foi a prova irrefutável de que o pacote do seu manuscrito jamais foi aberto, nem por André Gide nem por ninguém na Nouvelle Revue Française”. Proust disse ter visto o pacote antes e depois, e afirmou que ele voltara intacto, com o mesmo nó de Nicolas. Para Proust, seria impossível alguém refazer o nó de seu funcionário, ainda mais no mesmo lugar. A senhora Albaret conclui: “Sr. Proust se divertia muito com toda a história”.

domingo, 28 de setembro de 2008

CONTO 19

Lúcia se dava bem consigo mesma. Basicamente, só não admitia mesmo uma coisa em si: a atração louca que sentia por peões de rodeio. De cultura vasta, às vezes considerava quase um vitupério o calor que tomava conta dela diante de um deles. Para as amigas, dizia com freqüência que o homem perfeito seria um peão de rodeio culto. Elas levavam na brincadeira, sem saber que Lúcia falava sério. Um dia, numa viagem a Ribeirão Preto, ela tomaria uma atitude balsâmica: deixou-se envolver e se casou com um professor – de equitação.

sábado, 27 de setembro de 2008

VOZ DE DENTRO

O dia é cinzento.
Os pássaros cantam do mesmo jeito.
Os pássaros cantam não as cores do dia.
Cantam as cores em si mesmos.

MOINHO VERMELHO

Quando pequeno, a cena de filme imbatível é aquela em a Lois Lane (Margot Kidder) está caindo e é salva pelo Super-Homem. A seguir, cai o helicóptero. Lane e a máquina são levados para o topo do prédio. Penso ser essa a cena de minha infância.

Ainda dos tempos de menino há a cena final de “Três homens em conflito” (“The good, the bad and the ugly”), classicão de Sergio Leone, quando se enfrentam no fim. Até hoje cantarolo a trilha de Ennio Morricone.

Já adulto, em “Moulin Rouge”, do diretor Baz Luhrman, duas cenas me marcaram muito. Aos 28 minutos, Christian (Ewan McGregor), após criar coragem, começa a cantar “Your song”, terna composição gravada por Elton John, para Satine (Nicole Kidman). Antes, já havia falado alguns trechos da letra. Durante a canção, o coro, fazendo o vocal de apoio, e o arranjo com orquestra completam a beleza. Minutos depois, a que para mim é uma cena inesquecível é aquela que começa quando Christian começa com “All you need is love”, aos quarenta e nove minutos de filme. Depois, passa por “Pride (in the name of love)”, do U2, com letra modificada, e chega até “Your song” novamente, no fim da seqüência, não sem antes passarem, ele e Satine, por “‘Heroes’”, do David Bowie. Os segundos em que “‘Heroes’” aparece são, para mim, o ponto alto do filme e uma das mais belas cenas a que já tive o privilégio de assistir.

Há cenas engraçadas. Harold Zidler (Jim Broadbent) falando trechos de “Like a virgin” é uma delas.

Penso gostar tanto de “Mouling Rouge” por ter crescido escutando pop/rock. A idéia de se levar clássicos do pop/rock para a boêmia parisiense de Toulouse-Lautrec de fim do século XIX e começo do XX foi bem executada. Além do mais, sempre gosto quando há a mistura de gêneros musicais; sempre me atraiu a mistura do coloquial com o erudito; sempre gostei de citações, referências, alusões, e o filme é pleno de tudo isso.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

HAICAI 7

O artista, cedinho,
mede, molda, aguarda:
pão quentinho.

EM COMUM

“Há muitas coisas que atribuímos ao demônio sem sabermos que são coisas de Deus que não sabemos entender” (García Márquez).

“Todos os que são incapazes de compreender um deus vêem-no como um demônio e, assim, se protegem de sua aproximação” (Joseph Campbell).

Salvo engano, a frase de García Márquez está em “O amor nos tempos do cólera” (vertido para o cinema não há muito tempo), mas não estou certo disso. Procurei meu exemplar aqui em casa e não o achei. Deve estar emprestado. Se estiver com você que me lê, gentileza conferir se a frase está nele mesmo; basta conferir os trechos que estão marcados por mim.

O trecho de Joseph Campbell foi extraído de “O herói de mil faces”. A bonita idéia do livro é a de que a humanidade tem construído ao longo do tempo um só mito – o monomito, termo que Campbell pegou emprestado de Joyce.