terça-feira, 18 de novembro de 2008
FOTOPOEMA 35
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
A VINICIUS DE MORAES (2)
A VINICIUS DE MORAES
domingo, 16 de novembro de 2008
"O OBSERVADOR NO ESCRITÓRIO"
Terminei de reler “O observador no escritório”, livro de notas e apontamentos de Carlos Drummond de Andrade.As notas são datadas. Vão de 15 de maio de 1943 a 18 de setembro de 1977. Nelas, emerge o funcionário público às voltas com seu trabalho burocrático, duvidoso quanto a seu papel político: “Sou um animal político ou apenas gostaria de ser? (...) Como posso convencer a outros, se não me convenço a mim mesmo? Se a inexorabilidade, a malícia, a crueza, o oportunismo da ação política me desagradam, eu, no fundo, quero ser um intelectual político sem experimentar as impurezas da ação política?”.
Aqui e ali, alude o poeta a fatos corriqueiros, desde o comportamento de um gato, louco para saciar seu apetite sexual, a conversas com os grandes intelectuais e artistas do Rio de Janeiro de então. Há momentos engraçados, reflexivos, tristes... Amigos, impressões, arranjos de bastidores para disputa de vaga na Academia Brasileira de Letras, morte de amigos...
O registro de um tempo pelo olhar do poeta. Em meio às notas, o que emergiu para mim (talvez injustamente) foi um Drummond um tanto misantropo. Ele própria cita, sem comentar, opinião de Lúcio Cardoso, numa entrevista:
“– Qual o maior poema que leu em sua vida?
“– “’Os bens e o sangue’”, desse raro exemplar de falta de calor humano que se chama Carlos Drummond de Andrade”.
Num outro trecho, Drummond diz que um verso de Mário de Sá-Carneiro parece definir o poeta de Itabira: “Fartam-me até as coisas que não tive”.
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
APONTAMENTO 40
RETÓRICA
Ou começar numa obra de arte.
Ou ser uma obra de arte.
Hora de me calar.
Nem sei definir
se me silencio feliz
ou se me silencio triste.
Sei que a única obra de arte
que produzi foi o silêncio de agora.
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
CAMINHO DE SANGUE
Todo esse sangue inocente.
Todo esse sangue poluído.
Todo esse sangue perverso.
Não no chão, mas nas veias,
deveriam estar todos
“DECAMERÃO – O SANTO MILAGREIRO”
A peça é uma adaptação da primeira das cem histórias que compõem o livro “Decamerão”, de Giovanni Boccaccio (1313-1375). A direção foi de Consuelo Nepomuceno (Unipam), coordenadora do grupo Tupam (Teatro Universitário de Patos de Minas).
A história de Boccaccio narra o ocorrido com o senhor Ciappelletto. Em tom de galhofa e prestes a morrer, ele decide se “confessar” a um bondoso frade. Tendo sido cafajeste a vida toda (“era o pior homem que viera à luz, em qualquer época” – tradução de Torrieri Guimarães), o próprio Ciappelletto argumenta, no leito de morte, que uma ofensa a mais, numa vida tão plena delas, não fará nenhuma diferença. Para o frade, narra pecadilhos infantis, ninharias, a despeito da vida nada virtuosa que levara.
Impressionado com o suposto caráter elevado de Ciappelletto, o frade cuida rápido de dizer a todos que tão nobre conduta durante toda uma vida só podia indicar santidade. Dá a “boa nova” a seus colegas, que contam para outros, que contam para outros. Ciappelletto é enterrado com honrarias, é sepultado como santo. Rapidamente, fiéis passam a procurar o túmulo do “santo” em busca de milagres, numa amarga ironia de Boccaccio.
A peça contou ainda com música, sob o comando do professor de música e percussionista Castor. Após o espetáculo, o professor Luís André Nepomuceno, coordenador do curso de Letras do Unipam, contextualizou Boccaccio e sua obra numa Idade Média que assistia então ao surgimento do Humanismo. Infelizmente, devido a compromisso de trabalho, não pude acompanhar toda a fala do professor. Entretanto, ele próprio me disse posteriormente que houve uma interação proveitosa, a partir do momento em que o público se sentiu à vontade para opinar e fazer perguntas.
“No teatro, mudar uma peça de maneira radical muitas vezes é – por mais contraditório que possa parecer – a melhor maneira de ser fiel a um dramaturgo”. Esse trecho é de Gabriela Mellão, em crítica sobre montagem da peça “O Quarto”, de Harold Pinter, sob a direção de Roberto Alvim. Gabriela Mellão ressalta que as liberdades de Roberto Alvim, paradoxalmente, não deturparam o trabalho de Harold Pinter.
Comento isso pelo seguinte: o “Decamerão” não é texto escrito originalmente para o teatro. Ainda assim, o grupo Tupam foi feliz na adaptação que fez. As liberdades (sem radicalismos) tomadas quanto ao original e quanto a recursos cênicos mantiveram o saboroso humor de Boccaccio. Aqueles que têm familiaridade com o "Decamerão" reconhecem de imediato a atmosfera da história de Ciappelletto, a despeito das mudanças. Ao mesmo tempo, o espectador não deixa de presenciar a corrosiva ironia. Em suma: a trupe acertou no tom.
Não sei se há a intenção de se reapresentar a peça. Caso isso ocorra, esteja lá. E em tempo: é um espetáculo que eu gostaria de fotografar.
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
DONA ISOLETA
Segundos depois, Arlete se levanta e passa para o outro lado do corredor do ônibus, ocupando a poltrona de número um – com os pés sobre a dois. Adão pensou que logo ela teria de voltar para o lugar dela, pois ele tinha quase certeza de que o passageiro da poltrona um estava prestes a surgir. É que no guichê Adão chegara a pedir a poltrona três e depois a um. Ambas já haviam sido vendidas.
Minutos depois, duas mulheres entram no ônibus. Uma delas, Ana Maria, de trinta e sete, carregava Clara, bebê de três anos. A outra, Isoleta, de setenta e dois, uma pequena sacola vermelha. Ana Maria foi para a parte de trás do ônibus. Isoleta havia comprado passagem para a poltrona um, que estava ocupada por Arlete.
Antes de se sentar, a senhora olhou para as poltronas um e três. Leu pausadamente para si mesma: "Pol-tro-na um". Quando a jovem já ia se levantar a fim de voltar para seu lugar, Isoleta conversou com Adão:
– Se você não se importar, eu queria ficar na sua poltrona. Fico enjoada se viajar no canto.
Adão achou estranho esse negócio de ficar enjoada somente quando se viaja no canto. Contudo, ficou sem jeito de dizer não; cedeu o lugar para a senhora. Enquanto mexiam os corpos no pequeno espaço, Isoleta quase caiu. Justificou-se:
– Às vezes caio; é por causa da minha coluna.
Isoleta se alojou na poltrona quatro. Só que Adão teria de ir para o lugar destinado a ela, que era a poltrona um, onde estava Arlete. Esta esboçou novamente o leve sorriso de há pouco. Tirou os pés da poltrona dois e se encolheu no canto. Adão ocupou a dois. Se alguém chegasse para ocupá-la, Adão teria de ir para a três, o que não ocorreu. Arlete não voltaria para a três, seu lugar de origem. Minutos depois, a viagem teria início.
Durante o percurso, Isoleta, pequena que é, deitou-se sobre as duas poltronas, com a cabeça virada para a janela; dormiu e roncou. De vez em quando, num sacolejo maior, um de seus pés chegava a esbarrar na perna de Adão, esticada para fora, ocupando parte do corredor. Incomodado pelo ronco de Isoleta, Adão não dormiu nada durante a viagem de sete horas.
No desembarque, enquanto se afastava do ônibus, Adão pôde ouvir Isoleta, toda risonha, comentar com Ana Maria:
– Inventei uma balela qualquer pros dois que estavam lá na frente; acabei ficando com duas poltronas só pra mim...
UNÍSSONO
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (43)
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (42)
No último dia 29 ministrei minha primeira aula de fotografia. É que Ivanilda, uma amiga, e dois alunos meus de inglês e literatura, Breno e Marcela, estiveram comigo às margens da Lagoa Grande, aqui em Patos de Minas, para fotografar e ter algumas dicas teóricas.Falei brevemente sobre abertura, velocidade e composição. Depois, colocaram a mão na massa. Olhei as fotos e sugeri algumas mudanças, principalmente de enquadramento. A seguir, fotografaram mais.
Apesar do calor intenso, foi uma tarde muito agradável. Foi um prazer conversar sobre fotografia e ensinar os princípios básicos dessa fascinante atividade. Além de agradecer à Ivanilda, ao Breno e à Marcela pela oportunidade, agradeço também ao fotógrafo Jhereh, que me emprestou a câmera dele – a minha está estragada.
A foto acima foi uma das que tirei.
HAICAI 13
A aluna aprende, olha.
APONTAMENTO 39
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
ELEIÇÕES NOS EUA
Os vídeos o mostravam sendo ovacionado. Claro que muita dessa alegria era pelo fato de Bush estar saindo; contudo, em vez de ataques a Bush, o que vi foram loas a Obama. Pode até ser que os elogios a Obama tenham sido um modo tergiversado de atacar Bush. Contudo, o que me pareceu foi que houve mesmo um entusiasmo imenso quanto ao candidato recentemente eleito.
O próprio Obama empunhou a bandeira da chamada “mudança”, uma das palavras mais usadas por ele em seus discursos. As manifestações ao redor do mundo pareciam ser o reflexo da crença nessa mudança; todos se mostraram aliviados por se verem livres do desastrado Bush.
Se as festas ocorreram para celebrar a saída de Bush, ótimo. Se não, ainda é cedo, cedo demais. O apito final está longe de soar para Obama. Já o final para Bush soou tarde demais; talvez nem devesse ter havido o inicial. As imagens a que assisti me deixaram com a impressão de haver uma confiança extrema em Obama. Pode ser que a festa termine mal. Ou que talvez as imagens sejam apenas rompantes de quem não agüentava mais ver a cara do Bush.
Torço muito para que Obama realize um bom trabalho. Quando ele terminar, que as comemorações vindouras sejam para celebrar seu legado.
A JOÃO GILBERTO
A THE ROLLING STONES
A JANIS JOPLIN
terça-feira, 4 de novembro de 2008
A HITCHCOCK
APONTAMENTO 38
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
DESENHO 2
Na adolescência, interessei-me pelo Renascimento; interessando-me pelo Renascimento, tornei-me interessado em Leonardo da Vinci; interessando-me por Da Vinci, rabisquei os traços acima. O desenho original está num livro chamado “O pensamento vivo de Leonardo da Vinci”; em meados da década de 80, a coleção O Pensamento Vivo, publicada pela Martin Claret, era vendida em bancas de revista. Cheguei a ter a coleção quase completa. Os livros tinham a intenção de sintetizar e popularizar as idéias de ícones do conhecimento em diversas áreas. Foram um bom incentivo para que depois eu conhecesse mais sobre alguns deles. Fiz o desenho no dia 31 de março de 1986.
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
CALOR
que derreteu o vento.
O calor levou embora
o sopro de esperança
e fez arder o último suspiro.
Tudo foi rachado.
Até a secura dos homens
comportou-se como
manteiga derretida.
terça-feira, 28 de outubro de 2008
JOGO
e em espírito.
Tenho-te subjugada
e rainha, escrava e senhora.
És minha dona, e a ti ordeno.
Nesse jogo poderoso,
quando te mando,
tu me tens.
HORA DE VIVER
LEITURAS
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
ALTOS E BAIXOS
Amanhã, na capa da revista de negócios.
ÓRION
domingo, 26 de outubro de 2008
GRUPO AMARANTO EM PATOS DE MINAS
Estão em turnê por cidades de Minas Gerais. Uberaba, Patos de Minas, Ituiutaba, Uberlândia, Nova Serrana e Pará de Minas são as cidades que estão recebendo o Amaranto.
O grupo é formado por Flávia da Cunha Ferraz Guedes, Marina da Cunha Ferraz e Lúcia da Cunha Ferraz. Em Belo Horizonte, as três irmãs cresceram em ambiente musical.
Turnê Três Pontes – Amaranto para crianças de todas as idades é um delicado e envolvente show para crianças. O palco é simples: um pano preto ao fundo. Sobre este, panos retangulares e floridos. Nos arranjos, as três afinadíssimas irmãs tocam violão e flauta; são também responsáveis pela sutil e bela percussão. Também no palco, o baixista Tiago Godoy, autor de algumas das canções que fazem parte do espetáculo.
Caso se interesse, vá até o Youtube, digite "Amaranto" e confira trechos de apresentações do grupo.
GOTEIRA
APONTAMENTO 38
Conferi os seguintes vídeos:
• Carole King – City Streets (clipe e versão ao vivo)
• Bruce Springsteen – Tougher than the rest (versão ao vivo)
• Waysted – Heaven tonight (clipe e versão ao vivo)
• Alphaville – Forever young (Uma de minhas preferidas na época; nunca havia assistido ao clipe.)
• Falco – Rock me Amadeus – versão original e versão remixada (Idem.)
A tecnologia está naturalmente associada a novidades; por outro lado, um dos grandes baratos dela é a possibilidade de acesso ao passado que ela permite.
APONTAMENTO 37
sábado, 25 de outubro de 2008
A OSCAR NIEMEYER
DESENHO 1
A juventude é cheia de ímpetos. Alguns deles, vistos à distância, soam engraçados. Um de meus rompantes juvenis foi o de tentar ser desenhista (sic). Hoje, mexendo em velhos papéis, eu me deparei com dois cadernos de desenhos. Na época, o grande sonho era desenhar utilizando pena de bico fino e tinta nanquim. Fiz a encomenda numa das lojas da cidade e fiquei aguardando. Durante semanas e semanas, fui até a loja, sempre com a mesma pergunta: “Chegou?”. A resposta era sempre a mesma: “Não”. Por fim, desisti. E quem não tem pena de bico fino desenha com lápis comum; foi o que fiz na época.O desenho acima é uma das conseqüências dos rompantes juvenis. A ilustração estava numa velha revista que encontrei em antigo local de trabalho, enquanto o ambiente passava por limpeza. Eu tinha uns 12 anos. A ilustração fazia parte de uma matéria intitulada “Gênios idiotas”, sobre aquelas pessoas que realizam complexos cálculos matemáticos rapidamente, mas são incapazes de efetuar cálculos simples. Devo ter essa revista em algum lugar aqui em casa. A linha editorial dela era o que posteriormente eu conferiria na Superinteressante, ainda na década de 80. Fascinado pela matéria sobre os “gênios idiotas” e querendo ser desenhista, é claro que mal esperei chegar em casa para copiar a meu modo a ilustração. Caso eu ache a revista, publico o nome do autor do desenho original.
Digitalizei a imagem, cujo original já está amarelecido; em programa de edição de fotos, escureci as linhas. Não houve outros retoques. Fiz o desenho no dia 23 de fevereiro de 1986.
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
A AYRTON SENNA
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
CONTO 27
A CAMÕES
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
CINEMA BRASILEIRO NA CNN
Não se trata de dor-de-cotovelo, mas literatura e cinema brasileiros têm feito da violência urbana a temática a ser tratada. Obviamente, não há como ignorá-la. Além do mais, se essa temática tem garantido audiência e vigor ao cinema nacional, é compreensível que cineastas, produtores e patrocinadores a busquem.
Além da temática da violência urbana ou dos bailes funk no Rio de Janeiro, eu gostaria de ver no circuito de cinemas comerciais mais aspectos dos outros Brasis. Somos mais, muito mais do que a violência no Rio ou os bailes funk (nada contra os bailes). A violência não está só no Rio. Está também nos rincões. Além do mais, há outras temáticas que poderiam ser tratadas de modo rentável. Parece-me excessiva a insistência em fazer de bailes funk ou da violência urbana o ganha-pão do cinema nacional. O Brasil não é somente isso. Que o sucesso do cinema feito por aqui não seja passageiro. É claro que desejo que ele continue tendo cada vez mais êxito, assim como desejo ir ao cinema ou ligar a televisão e assistir a mais facetas do Brasil.
CONTO 26
A BORGES
A NERUDA
terça-feira, 21 de outubro de 2008
A FOULCAULT
A MANUEL BANDEIRA
A PROUST
APONTAMENTO 36
MÉTODO
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
FOTOPOEMA 34
FOTOPOEMA 33
LUAR
lua
cheia
goteirou
em
meu
CALVÍCIE
um fio de cabelo
domingo, 19 de outubro de 2008
BLOG
sábado, 18 de outubro de 2008
ROUPAGEM
Gosto quando me cobres com roupa.
Gosto quando me cobres sem roupa,
com teu corpo quente de amor.
Teu corpo é roupa ideal para o meu.
Tua pele, o tecido mais gostoso.
Visto-me de ti e devoro o que visto.
PREFIXO
prendo-me.
Quando escrevo,
aprendo-me.
URBANO
é a cidade com mau hálito.
APONTAMENTO 35
APONTAMENTO 34
CRIADOR
Deus pequeno – mas deus.
Criar é estar perto de Deus?
Criar é estar perto de Zeus?
APONTAMENTO 33
FLERTE
Em tua boca,
LAVOURA / FOTOPOEMA 32
18/10
disparei a fazer versos
madrugada adentro
(renascer faz bem).
A partir de hoje,
farei aniversário
todos os dias.
MAPEAMENTO
de teu corpo.
Quando ele acabar,
POEMA BARULHENTO
Ele diz que ela prefere é a mudez.
E o amor, nada diz.
APONTAMENTO 32
O LUGAR DO AMOR
Que chato o amor ter de se esconder
O lugar do amor é qualquer lugar
Amor urgente esquece tudo
Na claridade ou sobre o muro
No banco da praça ou no banco de trás
No calor do meio-dia ou no cinema
Amor não tem lugar, não tem hora
Para o amor, servem escadas, mangues, mesas
Amor não planejado não pensa em cama
Amor urgente dá um jeito, se vira
Amor urgente é no chão, no ônibus
Amor urgente se intromete em público
Amor urgente jura que está enganando os pais
Cheiros, línguas, mãos, bocas, sexos
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
APONTAMENTO 31
REUNIÃO
mais reuniões
chatas e burocráticas.
Sempre que há uma,
FOTOPOEMA 31
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
CONTO 25
... E GRANDE ELENCO
Eu achava alguns nomes muito bonitos. Berta Loran era um deles. Com alguns, eu me enganei: certa vez, ao ver um ator em cena, perguntei para meu pai o nome do artista. “Ele se chama Ney Latorraca”. Na ocasião, fingi que tudo estava bem; não contei para o meu pai a surpresa que tive ao descobrir que aquele ator se chamava Ney Latorraca. Para mim Ney Latorraca era nome de mulher – é que eu pensava que a grafia do nome era Neila Torraca...
Sempre que alguma novela iria começar, havia as chamadas: Nesta segunda, estréia a próxima novela das oito, com Fulano, Beltrano, Sicrano e grande elenco. Quando eu escutava as chamadas, eu pensava que grande elenco era... o nome de algum ator.
Ora, eu já sabia da existência do Grande Otelo. Em minha lógica infantil, se havia Grande Otelo, poderia haver Grande Elenco.
Eu invariavelmente assistia ao começo das novelas para tentar identificar quem seria o tal do Grande Elenco. Afinal, ele estava em todas! Depois de exaustivas e infrutíferas tentativas, foi que decidi, intrigado, perguntar a meu pai quem era aquele ator. Rindo muito, ele me explicou o significado da palavra elenco.
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
CIRCENSE
no trapezista.
A experiência
não garante
perfeição
sempre.
Mirar-me
no trapezista.
Entregar-me ao risco
sem rede de proteção.
Mirar-me no trapezista:
abrir mão de tudo.
Mirar-me no trapezista:
FOTOPOEMA 30
terça-feira, 14 de outubro de 2008
CONTO 24
CORAL
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
FOTOPOEMA 29 / HAICAI 12
domingo, 12 de outubro de 2008
A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (41)
TELA EM BRANCO
Desejo, ânsia, gana de ver palavras,
de gerá-las, de olhar para uma ao lado de outra,
de encher a tela do computador de sentido,
de mim, de imaginação e de literatura.
sábado, 11 de outubro de 2008
FOTOPOEMA 28
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
APONTAMENTO 30
ENTRE COISAS
Tratá-las com capricho.
Acomodá-las em mim.
Uma casa, uma rua, um pedaço de pano...
O tangível que súbito estremece
a intangível memória,
que num átimo pode
nos deixar inundados
de quem somos.
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
ÀS CLARAS
revelar os truques,
divulgar as manhas,
destapar os artifícios,
expor a feitura.
Feito isso, aí, sim,
INTERAÇÃO
que corre sobre
o papel.
O auge de
minha história.
FOTOPOEMA 27 / HAICAI 11
Neste blog, publico fotos de minha autoria. A exceção é esta, que foi tirada por Shírley Aceval. Não há cláusula que impeça um fotógrafo de tirar um auto-retrato enquanto nada, desde que haja por perto um tripé para a câmera e alguma paciência. Ainda assim, preferi pedir à Shírley que tirasse a foto.quarta-feira, 8 de outubro de 2008
REVISTA SAGARANA
Recebi hoje a revista Sagarana. O slogan da publicação é preciso: Turismo e cultura em Minas Gerais. Cézar Félix é o editor. Além dos textos, belas imagens podem ser observadas – Henry Yu é o editor de fotografia.Sempre gostei de cheiro de papel. Cheiro indiscriminadamente livros e revistas, não importa se novos ou velhos. Digo isso pelo seguinte: a Sagarana não somente revela as riquezas humanas e ambientais de Minas: ela é a revista com o cheiro mais gostoso a que já tive acesso.
terça-feira, 7 de outubro de 2008
CONTO 23
CONTO 22
FOTOPOEMA 26 / HAICAI 10
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
APONTAMENTO 29
domingo, 5 de outubro de 2008
HAICAI 9
amor, barulho e gatinhos.
Amantes natos.
ELEIÇÕES MUNICIPAIS EM PATOS DE MINAS
Béia Savassi: 37.288 (49,71% dos votos válidos)
José Humberto: 31.860 (42,47% dos votos válidos)
Jader Carvalho: 5.869 (7,82% dos votos válidos)
Em tempo: algo que ocorre em toda parte (não falo somente daqui) é o fervor bobo com que alguns eleitores se entregam à defesa dos candidatos em que vão votar. Em nome desse fervor, ataques pessoais são feitos, tiros são dados. Pura bobagem. Se esses eleitores dessem um voto a si mesmos, antes de defenderem tolamente seus candidatos, muita besteira poderia deixar de ser feita.
O comportamento de alguns eleitores chega a me lembrar a maneira hedionda com que numerosos torcedores de futebol expressam a paixão que dizem ter por seu time.
CONTO 21
A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (41)
Tirei esta foto no dia 17 de junho de 2006, às 15h58. Eu estava em Três Marias/MG, após ter ido a Cordisburgo/MG, a fim de visitar a Gruta de Maquiné. A escala em Três Marias foi realizada porque os estudantes da excursão em que embarquei queriam conhecer a usina hidrelétrica da cidade. A princípio, não gostei da idéia, pois estava com pressa de chegar a Patos de Minas.Casmurro, desci do ônibus. Um belo rio já podia ser visto. Em minha ignorância, eu não sabia que rio era aquele. Quando me disseram que era o São Francisco, fui logo tratando de tirar fotos; a ida a Três Marias já tinha valido a pena.
O objetivo da parada na cidade era visitar as instalações da usina. Olhando em torno, vi profusão de garças e cormorões. Minha visita ao complexo da usina ficaria para uma outra oportunidade – que ainda não veio. O que fiz mesmo foi tirar várias fotos das aves no fim de tarde, diante das águas do São Francisco.
A foto acima foi tirada enquanto um guia da usina explicava os cuidados que deveriam ser tomados antes que entrassem nas dependências da usina.
sábado, 4 de outubro de 2008
NOITE BRANCA
esse branco da folha
lisa e imaculada.
Bobagem palavra qualquer
a conspurcar sua magnitude.
Se for para preenchê-lo,
que se faça jus à sua grandeza.
Com medo de estragá-lo
e com reverência,
contemplo pacientemente.
Minutos vão se passando,
e uma poesia branca
como papel sem literatura
toma conta de minha vida.
UM BRINDE
Só então me dei conta de que o nome artístico é o mesmo! Daí, não resisti...
Tim-Tim:
Maia e Burton.
NAS ALTURAS
Um dos personagens é Karl, interpretado por Matthew McGrory, que morreu em 2005. Segundo li, Mcgrory media mais de sete pés. Sete pés são equivalentes a dois metros e treze. Como a informação que li dizia “mais de sete pés”, não sei precisar a altura.
Assim que o filme terminou, liguei o computador. Leio notícia de que Bao Xishun, considerado o homem mais alto do mundo (dois metros e trinta e seis), tornou-se pai. Ainda de acordo com a notícia, o filho dele, embora maior do que a média, está longe dos setenta e cinco centímetros já verificados – o filho de Xishun mede cinqüenta e seis centímetros.
Não sei se ainda inebriado pela atmosfera de “Peixe grande”, mesmo após ver a foto de Xishun observando seu bebê, não consigo tirar da cabeça a imagem de Karl no filme.
Em tempo: a esposa de Xishun mede um e sessenta e oito.
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
CARÁTER LITERÁRIO
Não queria uma poesia
que se volta para si.
Não me volto para
a metalinguagem,
queria abandoná-la.
Mas ela não me deixa.
Eu não queria,
mas sou metalingüístico.
Meus escritos
se voltam para si.
Minha existência
se volta para mim.
2
O buço dela me remete
a um buço descrito em Kundera.
A vida me remete à literatura
ou a literatura me remete à vida?
Adquiri um jeito literário
de olhar, de falar, de pensar, de sentir.
Sou conseqüência literária.
A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (40)
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
QUEM DIRIA...
HAICAI 8
são todas elas
APONTAMENTO 28
Ouvi aluno meu dizendo que adquiriu o hábito da leitura depois de ter encarado “O código da Vinci”. Lembro-me de ter visto esse mesmo aluno dizer que havia gostado de “Dom Casmurro”. Também disse que tem a série Harry Potter, mas não percorreu os livros ainda. Recentemente, leu “O velho e o mar”.Vejo com bons olhos esse começo de leituras sem critério. Ainda que o estudante não saiba ainda diferenciar com clareza, por exemplo, Dan Brown de Machado de Assis, no que diz respeito à literariedade, o hábito da leitura, caso se mantenha, pode fazer com que a percepção dele vá se tornando cada vez mais requintada. É uma possibilidade.
É por isso que não concordo muito com aqueles que simplesmente abominam os chamados best-sellers. Penso ser necessário ler, seja o que for. Se pelo menos uma das milhares e milhares de pessoas que se entregam a modismos passarem a ler textos que se tornaram perenes, após ter descoberto o gosto da leitura por intermédio dos best-sellers, já está ótimo.
Além do mais, esses livros de vendagem estrondosa são lucro certo para as editoras e para as livrarias. É preferível haver uma livraria lucrando com “O segredo”, desde que também coloque à disposição outras vertentes, a não haver livraria nenhuma. Clássicos imprescindíveis não garantem a sobrevivência dos livreiros, principalmente no interior.
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
VÍDEO 4
CONTO 20
terça-feira, 30 de setembro de 2008
POESIA DE CRIANÇA
em todos os lugares
ao mesmo tempo
porque ele é muito,
A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (39)
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
EM BUSCA DE PROUST
Terminei de ler recentemente “Senhor Proust – lembranças recolhidas por Georges Belmont”, de Céleste Albaret, publicado pela Novo Século. Céleste Albaret foi governanta na casa do escritor durante os oito últimos anos de vida de Proust. O livro é a transcrição de entrevistas da senhora Albaret a Georges Belmont, que assina a introdução. Segundo Belmont, foram setenta horas de entrevistas.É natural que a longa e diária convivência da senhora Albaret com Proust gerasse proximidade e amizade. O testemunho dela traz à tona as miudezas de que Proust era feito (miudezas de que, afinal, todos nós somos feitos).
Há também relatos do dândi Proust na aristocracia parisiense da época. Freqüentador e agudo observador desse mundo, Proust tinha acesso à vanguarda do que então estava sendo produzido. O trecho abaixo dá uma idéia (a tradução do livro é de Cordelia Magalhães):
“Por exemplo, lembro-me de que, uma noite, o príncipe Antoine Bibesco, que se tinha a par de tudo, passou para levá-lo a um desses jantares, com a idéia de fazê-lo se encontrar com o pintor Picasso, sobre o qual se começava a falar (...). Às duas horas da manhã, eles foram, todos os três, ver as telas de Picasso no seu ateliê. Sr. Proust me fez o relato quando voltou:
“– É um pintor espanhol que começou a fazer o que se chama de cubismo.
“Ele me descreveu um pouco sobre o que as pinturas pareciam. E comentei que isso deveria fazer os museus de bobos. Ele riu e disse:
“– Devo reconhecer que não compreendi grande coisa.
“Visivelmente, ele não ligou. Jamais voltou a falar sobre essa pintura. Dizem também que jantou com o escritor James Joyce, junto com outras pessoas; isso não o impressionou – ele nem pronunciou esse nome”.
A senhora Albaret também comenta o mal-estar criado depois que o escritor André Gide recusou originais de Proust. Céleste Albaret deixa clara a antipatia que ela tinha por Gide, ao dizer que ele tinha um ar de “falso monge”. Gide retratar-se-ia por ter recusado os originais de Proust.
A recusa é compreensível. Proust, é bem sabido, não foi o único escritor que se tornaria famoso depois de ter sido rechaçado em tentativas anteriores. O problema é que, segundo a senhora Albaret, Proust assegurava que Gide nem chegou a ler os originais. Primeiro, por considerar que o autor de “No caminho de Swann” não passaria de um “dândi socialite”; segundo, por uma razão prosaica: o pacote em que estava o livro não teria sequer sido aberto porque um funcionário de Proust, Nicolas, tinha, segundo a senhora Albaret, “uma verdadeira arte dos nós, com um estilo muito particular e muito inimitável. E isso, para o Sr. Proust, sempre foi a prova irrefutável de que o pacote do seu manuscrito jamais foi aberto, nem por André Gide nem por ninguém na Nouvelle Revue Française”. Proust disse ter visto o pacote antes e depois, e afirmou que ele voltara intacto, com o mesmo nó de Nicolas. Para Proust, seria impossível alguém refazer o nó de seu funcionário, ainda mais no mesmo lugar. A senhora Albaret conclui: “Sr. Proust se divertia muito com toda a história”.
domingo, 28 de setembro de 2008
CONTO 19
sábado, 27 de setembro de 2008
VOZ DE DENTRO
Os pássaros cantam do mesmo jeito.
Os pássaros cantam não as cores do dia.
Cantam as cores em si mesmos.
MOINHO VERMELHO
Ainda dos tempos de menino há a cena final de “Três homens em conflito” (“The good, the bad and the ugly”), classicão de Sergio Leone, quando se enfrentam no fim. Até hoje cantarolo a trilha de Ennio Morricone.
Já adulto, em “Moulin Rouge”, do diretor Baz Luhrman, duas cenas me marcaram muito. Aos 28 minutos, Christian (Ewan McGregor), após criar coragem, começa a cantar “Your song”, terna composição gravada por Elton John, para Satine (Nicole Kidman). Antes, já havia falado alguns trechos da letra. Durante a canção, o coro, fazendo o vocal de apoio, e o arranjo com orquestra completam a beleza. Minutos depois, a que para mim é uma cena inesquecível é aquela que começa quando Christian começa com “All you need is love”, aos quarenta e nove minutos de filme. Depois, passa por “Pride (in the name of love)”, do U2, com letra modificada, e chega até “Your song” novamente, no fim da seqüência, não sem antes passarem, ele e Satine, por “‘Heroes’”, do David Bowie. Os segundos em que “‘Heroes’” aparece são, para mim, o ponto alto do filme e uma das mais belas cenas a que já tive o privilégio de assistir.
Há cenas engraçadas. Harold Zidler (Jim Broadbent) falando trechos de “Like a virgin” é uma delas.
Penso gostar tanto de “Mouling Rouge” por ter crescido escutando pop/rock. A idéia de se levar clássicos do pop/rock para a boêmia parisiense de Toulouse-Lautrec de fim do século XIX e começo do XX foi bem executada. Além do mais, sempre gosto quando há a mistura de gêneros musicais; sempre me atraiu a mistura do coloquial com o erudito; sempre gostei de citações, referências, alusões, e o filme é pleno de tudo isso.
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
HAICAI 7
mede, molda, aguarda:
pão quentinho.
EM COMUM
“Todos os que são incapazes de compreender um deus vêem-no como um demônio e, assim, se protegem de sua aproximação” (Joseph Campbell).
Salvo engano, a frase de García Márquez está em “O amor nos tempos do cólera” (vertido para o cinema não há muito tempo), mas não estou certo disso. Procurei meu exemplar aqui em casa e não o achei. Deve estar emprestado. Se estiver com você que me lê, gentileza conferir se a frase está nele mesmo; basta conferir os trechos que estão marcados por mim.
O trecho de Joseph Campbell foi extraído de “O herói de mil faces”. A bonita idéia do livro é a de que a humanidade tem construído ao longo do tempo um só mito – o monomito, termo que Campbell pegou emprestado de Joyce.
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (38)
CONTO 18
Há muitos anos, Kátia fez na escola uma boneca de pano. Enquanto voltava para casa, mal via a hora de mostrar a boneca para Davi, o pai. Quanto este pegou o brinquedo, não ficou com ele mais do que uns cinco segundos. Ao ouvir que Bianca, a filha mais velha, chegara, o pai entregou para Kátia a boneca e correu em direção à outra filha. Desde então, a caçula assumiria uma atitude de frieza quanto ao pai. Ele, por sua vez, não havia tentado compreender a situação nos tempos que se seguiram. No momento em que fechariam o caixão de Davi, Kátia pôs dentro a velha boneca de pano.
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
VÍDEO 3
CONTO 17
Ana e Cláudio são casados há treze anos. Ele propôs: “Você transaria comigo vestindo a camisa do Cruzeiro?”. Ela é atleticana e ele é cruzeirense. Ela cedeu. Acabou gostando. Depois que terminaram, ela até disse que chegara a ver estrelas...
CONTO 16
terça-feira, 23 de setembro de 2008
VÍDEO 2
HAICAI 6
Desenha a linha.
Diverte-se, joga, pula.
A brincadeira: amarelinha.
VÍDEO 1
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
CONTO 15
POEMA DO MEDO (À MANEIRA DE DESCARTES)
Logo, temo.
domingo, 21 de setembro de 2008
FOTOPOEMA 25
A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (37)
Esta foto é meu momento “Forrest Gump” (lembra-se da cena de abertura do filme?). O registro foi feito em Três Marias/MG, numa usina hidrelétrica.Eu estava lá após ter visitado a Gruta de Maquiné e ter passado em Cordisburgo/MG, onde nasceu Guimarães Rosa.
Era um fim de tarde. Na hidrelétrica, muitas garças por perto; pude fotografá-las em profusão. Enquanto me deliciava com as aves, pude ver a pena de uma delas caindo suavemente. Não custava nada tentar... Comecei a tentar fazer o foco, o que não foi fácil. Além do mais, apesar da suavidade da queda, eu sabia que não teria muitas oportunidades. Ainda assim, pude tirar duas fotos. A única aproveitável é esta.
A TROCA DA PASTA DENTAL
O pagamento deveria ser ali mesmo. Fui até o local e apanhei a pasta dental. Havia pouca gente no supermercado, que estava prestes a ser fechado. Voltei para o caixa. Por falta de troco, a funcionária que estava me atendendo pediu a uma outra que fosse conseguir moedas. Enquanto esta se distanciava, a atendente comentou comigo que a pasta dental que eu queria teve de ser mudada de lugar porque estava se tornando comum a troca de pastas dentais: o freguês pegava uma pasta dental cara e a colocava na caixa de uma mais barata. Na hora de pagar, levava para o acerto a caixa da pasta dental mais barata, que continha, na verdade, a mais cara. Em virtude disso, a pasta dental mais cara passou a ser vendida na parte da frente do supermercado, pois ela é agora entregue ao freguês por uma funcionária.
Aguardando ainda a vinda do troco, eu e a atendente começamos a conversar sobre a prática das trocas. Ela, num tom calmo, disse: “Não entendo esse povo que rouba essas ninharias. Meu pai me dizia que a gente nunca deve roubar nada – nem se for pra ficar rico”. Talvez percebendo meu interesse na conversa, ela prosseguiu: “O pior é que essas pessoas que roubam mixarias são aquelas que depois falam mal dos políticos. É claro que os políticos roubam, mas não são os únicos. Numa boa? O cara que troca uma pasta dental num supermercado e vai embora se achando o máximo é igualzinho aos políticos corruptos que ele se sente no direito de criticar. O brasileiro não consegue olhar para o próprio umbigo. Acho isso muito esquisito. O sujeito leva vantagem em um real, acha isso o maior vantajão e sai contando pros amigos. Se tivesse a chance, ele também roubaria os milhões que os políticos roubam”. Nisso, a garota com o troco chegou. Eu me despedi das funcionárias e vim embora.
NA BANCA DE REVISTAS
No fundo, sou o mesmo. O garoto que aguardava ansiosamente a chegada das revistas está no adulto que aguarda ansioso a vinda das publicações e que entrou mais cedo numa banca. O que mudou, é que o adulto (nem sempre) lida melhor com os pensamentos, impulsos e sentimentos infantis. Em essência, não mudei. O regozijo na banca, quem o sentiu foi o garoto.







































