
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
A AYRTON SENNA
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quinta-feira, 23 de outubro de 2008
CONTO 27
Quando Sofia escutou Fábio dizer “o amor é isto mesmo – as miudezas que fazemos por amor, que confere significado especial àquilo que, sem ele, seria apenas mais um gesto banal. As coisas em si não têm encanto. Passam a ter quando enxergadas por um olhar amoroso. O estar numa lanchonete tomando um suco torna-se pleno de sentido. A rigor, uma lanchonete como qualquer outra. Por ter o lugar alguma (ainda que mínima) ligação com a pessoa amada, torna-se especial. Assim o amor faz com tudo: vai estabelecendo e ampliando as relações, os elos, até o ponto em que uma pulga, uma cadeia montanhosa ou um filme faz com que nos lembremos da pessoa amada”, ela olhou para ele com um olhar deliciosamente maroto e disse: “Isso é lindo; quero anotar depois, mas o que quero agora é que você me beije”.
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A CAMÕES
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quarta-feira, 22 de outubro de 2008
CINEMA BRASILEIRO NA CNN
A CNN Internacional, rede de televisão que transmite notícias para o mundo todo, tem um programa chamado “The Screening Room”. A idéia é mostrar o que cineastas de toda parte têm feito. O programa de hoje focalizou o cinema que tem retratado as favelas no Rio de Janeiro. A atração está disponível na página da CNN.
Não se trata de dor-de-cotovelo, mas literatura e cinema brasileiros têm feito da violência urbana a temática a ser tratada. Obviamente, não há como ignorá-la. Além do mais, se essa temática tem garantido audiência e vigor ao cinema nacional, é compreensível que cineastas, produtores e patrocinadores a busquem.
Além da temática da violência urbana ou dos bailes funk no Rio de Janeiro, eu gostaria de ver no circuito de cinemas comerciais mais aspectos dos outros Brasis. Somos mais, muito mais do que a violência no Rio ou os bailes funk (nada contra os bailes). A violência não está só no Rio. Está também nos rincões. Além do mais, há outras temáticas que poderiam ser tratadas de modo rentável. Parece-me excessiva a insistência em fazer de bailes funk ou da violência urbana o ganha-pão do cinema nacional. O Brasil não é somente isso. Que o sucesso do cinema feito por aqui não seja passageiro. É claro que desejo que ele continue tendo cada vez mais êxito, assim como desejo ir ao cinema ou ligar a televisão e assistir a mais facetas do Brasil.
Não se trata de dor-de-cotovelo, mas literatura e cinema brasileiros têm feito da violência urbana a temática a ser tratada. Obviamente, não há como ignorá-la. Além do mais, se essa temática tem garantido audiência e vigor ao cinema nacional, é compreensível que cineastas, produtores e patrocinadores a busquem.
Além da temática da violência urbana ou dos bailes funk no Rio de Janeiro, eu gostaria de ver no circuito de cinemas comerciais mais aspectos dos outros Brasis. Somos mais, muito mais do que a violência no Rio ou os bailes funk (nada contra os bailes). A violência não está só no Rio. Está também nos rincões. Além do mais, há outras temáticas que poderiam ser tratadas de modo rentável. Parece-me excessiva a insistência em fazer de bailes funk ou da violência urbana o ganha-pão do cinema nacional. O Brasil não é somente isso. Que o sucesso do cinema feito por aqui não seja passageiro. É claro que desejo que ele continue tendo cada vez mais êxito, assim como desejo ir ao cinema ou ligar a televisão e assistir a mais facetas do Brasil.
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CONTO 26
Betânia, casada com João, e Amanda, casada com Luís, têm dois pontos em comum. O primeiro: não são correspondidas no fervoroso e devotado amor que sentem. O segundo: amam a mesma pessoa – Márcia.
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A BORGES
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A NERUDA
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terça-feira, 21 de outubro de 2008
A FOULCAULT
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A MANUEL BANDEIRA
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A PROUST
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APONTAMENTO 36
É no corpo que o amor começa a ser sublime.
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MÉTODO
Estou fazendo testes, escrevendo sem pensar no que está sendo feito. Estou tentando, por assim dizer, soltar a mão. Quando termino, hora de reler. De vez em quando, do palavrório caótico, tem saído uma frase que considero valer a pena. Preciso aprender a pensar menos...
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segunda-feira, 20 de outubro de 2008
FOTOPOEMA 34
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FOTOPOEMA 33
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LUAR
A
lua
cheia
goteirou
em
meu
lua
cheia
goteirou
em
meu
quarto.
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CALVÍCIE
Na ponta da caneta,
um fio de cabelo
um fio de cabelo
vai puxando as palavras.
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domingo, 19 de outubro de 2008
BLOG
Escrevo; blogo, existo.
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sábado, 18 de outubro de 2008
ROUPAGEM
Gosto quando me vestes, quando me revestes.
Gosto quando me cobres com roupa.
Gosto quando me cobres sem roupa,
com teu corpo quente de amor.
Teu corpo é roupa ideal para o meu.
Tua pele, o tecido mais gostoso.
Visto-me de ti e devoro o que visto.
Gosto quando me cobres com roupa.
Gosto quando me cobres sem roupa,
com teu corpo quente de amor.
Teu corpo é roupa ideal para o meu.
Tua pele, o tecido mais gostoso.
Visto-me de ti e devoro o que visto.
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PREFIXO
Quando não escrevo,
prendo-me.
Quando escrevo,
aprendo-me.
prendo-me.
Quando escrevo,
aprendo-me.
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URBANO
O fedor no bueiro
é a cidade com mau hálito.
é a cidade com mau hálito.
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APONTAMENTO 35
Súbito, surge um texto que tem pressa de ser escrito. Apanho pedaço de papel qualquer. Para apoiá-lo, pego uma revista e começo a escrever ligeiro, afoito para jogar no papel as idéias. De repente, leve susto, suspensão; paro de escrever. Da capa da revista, Shakespeare a me decifrar.
APONTAMENTO 34
O segredo é dar o pontapé inicial. Só que não sei onde está a bola...
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CRIADOR
Quando crio, sou deus.
Deus pequeno – mas deus.
Criar é estar perto de Deus?
Criar é estar perto de Zeus?
Deus pequeno – mas deus.
Criar é estar perto de Deus?
Criar é estar perto de Zeus?
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APONTAMENTO 33
Com freqüência, a poesia me ocorre. Mas nem sempre se torna ocorrência.
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FLERTE
No ar,
pesco tuas intenções.
Em tua boca,
Em tua boca,
saboreio tuas intenções.
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LAVOURA / FOTOPOEMA 32
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18/10
Em meu aniversário,
disparei a fazer versos
madrugada adentro
(renascer faz bem).
A partir de hoje,
farei aniversário
todos os dias.
disparei a fazer versos
madrugada adentro
(renascer faz bem).
A partir de hoje,
farei aniversário
todos os dias.
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MAPEAMENTO
Irei até o fim
de teu corpo.
Quando ele acabar,
de teu corpo.
Quando ele acabar,
vou percorrê-lo
por outro caminho...
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POEMA BARULHENTO
Ela diz que prefere o silêncio.
Ele diz que ela prefere é a mudez.
E o amor, nada diz.
Ele diz que ela prefere é a mudez.
E o amor, nada diz.
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APONTAMENTO 32
A mudez é meu jeito mais infame de dizer as coisas.
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O LUGAR DO AMOR
O lugar do amor deveria ser em toda parte
Que chato o amor ter de se esconder
O lugar do amor é qualquer lugar
Amor urgente esquece tudo
Na claridade ou sobre o muro
No banco da praça ou no banco de trás
No calor do meio-dia ou no cinema
Amor não tem lugar, não tem hora
Para o amor, servem escadas, mangues, mesas
Amor não planejado não pensa em cama
Amor urgente dá um jeito, se vira
Amor urgente é no chão, no ônibus
Amor urgente se intromete em público
Amor urgente jura que está enganando os pais
Cheiros, línguas, mãos, bocas, sexos
Que chato o amor ter de se esconder
O lugar do amor é qualquer lugar
Amor urgente esquece tudo
Na claridade ou sobre o muro
No banco da praça ou no banco de trás
No calor do meio-dia ou no cinema
Amor não tem lugar, não tem hora
Para o amor, servem escadas, mangues, mesas
Amor não planejado não pensa em cama
Amor urgente dá um jeito, se vira
Amor urgente é no chão, no ônibus
Amor urgente se intromete em público
Amor urgente jura que está enganando os pais
Cheiros, línguas, mãos, bocas, sexos
O lugar do amor é quando o amor quer ser feito
O lugar do amor é todo mundo
O lugar do amor é o mundo todo
O lugar do amor é o corpo inteiro
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sexta-feira, 17 de outubro de 2008
APONTAMENTO 31
O calor tira as pessoas das tocas – e enche a noite de estrelas.
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REUNIÃO
Eu deveria ter
mais reuniões
chatas e burocráticas.
Sempre que há uma,
mais reuniões
chatas e burocráticas.
Sempre que há uma,
escrevo um poema.
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FOTOPOEMA 31
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quinta-feira, 16 de outubro de 2008
CONTO 25
Após ter se separado do marido, Célia se recolheu. Conversa bem, é bonita. O recolhimento não impedia que ela recebesse propostas quase que diariamente. Quando por fim aceitou uma delas foi com a decisão de manter namoro firme com um colega de trabalho. Depois de três anos, terminaram. Desde então, Célia passou a manter relacionamentos efêmeros e variados. Considera-se antiga diante das práticas da modernidade. Só topou participar do jogo depois de assumir para si mesma que não suporta a solidão.
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... E GRANDE ELENCO
Crianças se maravilham facilmente. Quando pequeno, eu ficava impressionado com a capacidade que meu pai tinha de saber os nomes dos atores da televisão, ainda mais que ele não assistia às novelas.
Eu achava alguns nomes muito bonitos. Berta Loran era um deles. Com alguns, eu me enganei: certa vez, ao ver um ator em cena, perguntei para meu pai o nome do artista. “Ele se chama Ney Latorraca”. Na ocasião, fingi que tudo estava bem; não contei para o meu pai a surpresa que tive ao descobrir que aquele ator se chamava Ney Latorraca. Para mim Ney Latorraca era nome de mulher – é que eu pensava que a grafia do nome era Neila Torraca...
Sempre que alguma novela iria começar, havia as chamadas: Nesta segunda, estréia a próxima novela das oito, com Fulano, Beltrano, Sicrano e grande elenco. Quando eu escutava as chamadas, eu pensava que grande elenco era... o nome de algum ator.
Ora, eu já sabia da existência do Grande Otelo. Em minha lógica infantil, se havia Grande Otelo, poderia haver Grande Elenco.
Eu invariavelmente assistia ao começo das novelas para tentar identificar quem seria o tal do Grande Elenco. Afinal, ele estava em todas! Depois de exaustivas e infrutíferas tentativas, foi que decidi, intrigado, perguntar a meu pai quem era aquele ator. Rindo muito, ele me explicou o significado da palavra elenco.
Eu achava alguns nomes muito bonitos. Berta Loran era um deles. Com alguns, eu me enganei: certa vez, ao ver um ator em cena, perguntei para meu pai o nome do artista. “Ele se chama Ney Latorraca”. Na ocasião, fingi que tudo estava bem; não contei para o meu pai a surpresa que tive ao descobrir que aquele ator se chamava Ney Latorraca. Para mim Ney Latorraca era nome de mulher – é que eu pensava que a grafia do nome era Neila Torraca...
Sempre que alguma novela iria começar, havia as chamadas: Nesta segunda, estréia a próxima novela das oito, com Fulano, Beltrano, Sicrano e grande elenco. Quando eu escutava as chamadas, eu pensava que grande elenco era... o nome de algum ator.
Ora, eu já sabia da existência do Grande Otelo. Em minha lógica infantil, se havia Grande Otelo, poderia haver Grande Elenco.
Eu invariavelmente assistia ao começo das novelas para tentar identificar quem seria o tal do Grande Elenco. Afinal, ele estava em todas! Depois de exaustivas e infrutíferas tentativas, foi que decidi, intrigado, perguntar a meu pai quem era aquele ator. Rindo muito, ele me explicou o significado da palavra elenco.
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quarta-feira, 15 de outubro de 2008
CIRCENSE
Mirar-me
no trapezista.
A experiência
não garante
perfeição
sempre.
Mirar-me
no trapezista.
Entregar-me ao risco
sem rede de proteção.
Mirar-me no trapezista:
abrir mão de tudo.
Mirar-me no trapezista:
no trapezista.
A experiência
não garante
perfeição
sempre.
Mirar-me
no trapezista.
Entregar-me ao risco
sem rede de proteção.
Mirar-me no trapezista:
abrir mão de tudo.
Mirar-me no trapezista:
contar com um aperto de mãos.
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FOTOPOEMA 30
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terça-feira, 14 de outubro de 2008
CONTO 24
Sebastiana tinha consigo que se casara com Júlio por rebeldia. A mãe dela havia dado a ordem para que ela terminasse o namoro e que escolhesse alguém rico. Para provocar, Sebastiana se casou com Júlio o mais rápido que conseguiu. Dezoito anos depois, ao descobrir que o marido mantinha há tempos um caso com uma amiga dela, Sebastiana o mandou embora. Nos dias de solidão que se seguiram, ela perceberia que a escolha de dezoito anos atrás havia sido mais amorosa do que rebelde.
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CORAL
O galo canta.
A cigarra canta.
E eu no meu canto.
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segunda-feira, 13 de outubro de 2008
FOTOPOEMA 29 / HAICAI 12
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domingo, 12 de outubro de 2008
A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (41)
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TELA EM BRANCO
Vontade de ficar o dia inteiro digitando palavras.
Desejo, ânsia, gana de ver palavras,
de gerá-las, de olhar para uma ao lado de outra,
de encher a tela do computador de sentido,
de mim, de imaginação e de literatura.
Desejo, ânsia, gana de ver palavras,
de gerá-las, de olhar para uma ao lado de outra,
de encher a tela do computador de sentido,
de mim, de imaginação e de literatura.
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sábado, 11 de outubro de 2008
FOTOPOEMA 28
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sexta-feira, 10 de outubro de 2008
APONTAMENTO 30
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ENTRE COISAS
Aprender o valor das coisas.
Tratá-las com capricho.
Acomodá-las em mim.
Uma casa, uma rua, um pedaço de pano...
O tangível que súbito estremece
a intangível memória,
que num átimo pode
nos deixar inundados
de quem somos.
Tratá-las com capricho.
Acomodá-las em mim.
Uma casa, uma rua, um pedaço de pano...
O tangível que súbito estremece
a intangível memória,
que num átimo pode
nos deixar inundados
de quem somos.
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quinta-feira, 9 de outubro de 2008
ÀS CLARAS
Gosto de
revelar os truques,
divulgar as manhas,
destapar os artifícios,
expor a feitura.
Feito isso, aí, sim,
revelar os truques,
divulgar as manhas,
destapar os artifícios,
expor a feitura.
Feito isso, aí, sim,
tem começo o mistério.
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INTERAÇÃO
Eu e a caneta,
que corre sobre
o papel.
O auge de
minha história.
que corre sobre
o papel.
O auge de
minha história.
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FOTOPOEMA 27 / HAICAI 11
Neste blog, publico fotos de minha autoria. A exceção é esta, que foi tirada por Shírley Aceval. Não há cláusula que impeça um fotógrafo de tirar um auto-retrato enquanto nada, desde que haja por perto um tripé para a câmera e alguma paciência. Ainda assim, preferi pedir à Shírley que tirasse a foto.
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quarta-feira, 8 de outubro de 2008
REVISTA SAGARANA
Recebi hoje a revista Sagarana. O slogan da publicação é preciso: Turismo e cultura em Minas Gerais. Cézar Félix é o editor. Além dos textos, belas imagens podem ser observadas – Henry Yu é o editor de fotografia.Sempre gostei de cheiro de papel. Cheiro indiscriminadamente livros e revistas, não importa se novos ou velhos. Digo isso pelo seguinte: a Sagarana não somente revela as riquezas humanas e ambientais de Minas: ela é a revista com o cheiro mais gostoso a que já tive acesso.
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terça-feira, 7 de outubro de 2008
CONTO 23
A carência em que Edna vive faz com que ela nunca saiba com exatidão que atitudes tomar. Está sempre indecisa quanto a sentimentos e ações. Se de repente se pega imensamente atraída, atribui a atração à carência, convencendo-se de que não fosse ela, a carência, não teria sentido a atração. Assim, Edna não se entrega. Acha injusto para com quem quer que seja se entregar por estar se sentindo carente. Não se entregando, não tem ninguém; não tendo ninguém, sente-se carente. Vive num círculo vicioso repleto de endríagos e íncubos.
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CONTO 22
Hélio e João Pedro; pai e filho. Mantiveram sempre um relacionamento frio. João Pedro, secretamente, acusava o pai de ser o culpado de sua triste infância. Hélio maltratava Mariana, a esposa. Com o filho, era frio. O grande sonho de João Pedro era fazer medicina. Quando se tornasse médico, levaria a mãe embora daquele mundo arcaico. O ranço quanto ao pai não dava trégua. No dia em que João Pedro, do quarto, pôde escutar o pai comentando ao telefone que caso o filho se tornasse médico ele seria o pai mais feliz do mundo, João Pedro decidiu com maior firmeza. Passou a estudar ainda mais, fez vestibular e se tornou arquiteto, para não conceder ao pai a alegria de ter um filho médico.
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FOTOPOEMA 26 / HAICAI 10
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segunda-feira, 6 de outubro de 2008
APONTAMENTO 29
Leio para ir mais longe em mim.
Indo mais longe em mim,
estarei mais perto de ti.
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domingo, 5 de outubro de 2008
HAICAI 9
Fazem os gatos
amor, barulho e gatinhos.
Amantes natos.
amor, barulho e gatinhos.
Amantes natos.
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ELEIÇÕES MUNICIPAIS EM PATOS DE MINAS
Terminada a apuração dos votos em Patos de Minas, Béia Savassi se tornou a primeira mulher a ser eleita prefeita da cidade. O resultado foi o seguinte:
Béia Savassi: 37.288 (49,71% dos votos válidos)
José Humberto: 31.860 (42,47% dos votos válidos)
Jader Carvalho: 5.869 (7,82% dos votos válidos)
Em tempo: algo que ocorre em toda parte (não falo somente daqui) é o fervor bobo com que alguns eleitores se entregam à defesa dos candidatos em que vão votar. Em nome desse fervor, ataques pessoais são feitos, tiros são dados. Pura bobagem. Se esses eleitores dessem um voto a si mesmos, antes de defenderem tolamente seus candidatos, muita besteira poderia deixar de ser feita.
O comportamento de alguns eleitores chega a me lembrar a maneira hedionda com que numerosos torcedores de futebol expressam a paixão que dizem ter por seu time.
Béia Savassi: 37.288 (49,71% dos votos válidos)
José Humberto: 31.860 (42,47% dos votos válidos)
Jader Carvalho: 5.869 (7,82% dos votos válidos)
Em tempo: algo que ocorre em toda parte (não falo somente daqui) é o fervor bobo com que alguns eleitores se entregam à defesa dos candidatos em que vão votar. Em nome desse fervor, ataques pessoais são feitos, tiros são dados. Pura bobagem. Se esses eleitores dessem um voto a si mesmos, antes de defenderem tolamente seus candidatos, muita besteira poderia deixar de ser feita.
O comportamento de alguns eleitores chega a me lembrar a maneira hedionda com que numerosos torcedores de futebol expressam a paixão que dizem ter por seu time.
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CONTO 21
A grande paixão de Mineiro sempre havia sido o futebol. Quis ser jogador. Não conseguiu. Quis ser treinador. Não conseguiu. Quis ser locutor de futebol. Não conseguiu. Quis ser comentarista de futebol. Não conseguiu. Conseguiria ser um torcedor atípico. Com o futebol, sonhava. No futebol, pensava o tempo todo. Só falava de futebol. Deixou o emprego e passou a se dedicar somente à paixão que sentia pelo jogo. Veio o dia em que tomou a decisão: hoje, caminha o dia inteiro por toda a cidade. Usa invariavelmente o uniforme do Peñarol, do Uruguai. Durante todo o tempo em que caminha, narra com voz forte impossíveis e emocionantes partidas de futebol. Caminho afora, os gols vão surgindo.
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A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (41)
Tirei esta foto no dia 17 de junho de 2006, às 15h58. Eu estava em Três Marias/MG, após ter ido a Cordisburgo/MG, a fim de visitar a Gruta de Maquiné. A escala em Três Marias foi realizada porque os estudantes da excursão em que embarquei queriam conhecer a usina hidrelétrica da cidade. A princípio, não gostei da idéia, pois estava com pressa de chegar a Patos de Minas.Casmurro, desci do ônibus. Um belo rio já podia ser visto. Em minha ignorância, eu não sabia que rio era aquele. Quando me disseram que era o São Francisco, fui logo tratando de tirar fotos; a ida a Três Marias já tinha valido a pena.
O objetivo da parada na cidade era visitar as instalações da usina. Olhando em torno, vi profusão de garças e cormorões. Minha visita ao complexo da usina ficaria para uma outra oportunidade – que ainda não veio. O que fiz mesmo foi tirar várias fotos das aves no fim de tarde, diante das águas do São Francisco.
A foto acima foi tirada enquanto um guia da usina explicava os cuidados que deveriam ser tomados antes que entrassem nas dependências da usina.
sábado, 4 de outubro de 2008
NOITE BRANCA
Tão bonito,
esse branco da folha
lisa e imaculada.
Bobagem palavra qualquer
a conspurcar sua magnitude.
Se for para preenchê-lo,
que se faça jus à sua grandeza.
Com medo de estragá-lo
e com reverência,
contemplo pacientemente.
Minutos vão se passando,
e uma poesia branca
como papel sem literatura
toma conta de minha vida.
esse branco da folha
lisa e imaculada.
Bobagem palavra qualquer
a conspurcar sua magnitude.
Se for para preenchê-lo,
que se faça jus à sua grandeza.
Com medo de estragá-lo
e com reverência,
contemplo pacientemente.
Minutos vão se passando,
e uma poesia branca
como papel sem literatura
toma conta de minha vida.
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UM BRINDE
Ao preencher os marcadores da postam anterior, quando fui digitar o nome do diretor Tim Burton, surgiu o nome de Tim Maia, por ele já ter sido mencionado neste blog.
Só então me dei conta de que o nome artístico é o mesmo! Daí, não resisti...
Tim-Tim:
Maia e Burton.
Só então me dei conta de que o nome artístico é o mesmo! Daí, não resisti...
Tim-Tim:
Maia e Burton.
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NAS ALTURAS
Há pouco, assisti novamente a “Peixe grande” (2003), do diretor Tim Burton. A história é baseada no livro "Big fish: a novel of mythic proportions", de Daniel Wallace. O filme tem uma deliciosa mistura entre ficção e realidade. Há momentos que fazem lembrar o chamado realismo mágico.
Um dos personagens é Karl, interpretado por Matthew McGrory, que morreu em 2005. Segundo li, Mcgrory media mais de sete pés. Sete pés são equivalentes a dois metros e treze. Como a informação que li dizia “mais de sete pés”, não sei precisar a altura.
Assim que o filme terminou, liguei o computador. Leio notícia de que Bao Xishun, considerado o homem mais alto do mundo (dois metros e trinta e seis), tornou-se pai. Ainda de acordo com a notícia, o filho dele, embora maior do que a média, está longe dos setenta e cinco centímetros já verificados – o filho de Xishun mede cinqüenta e seis centímetros.
Não sei se ainda inebriado pela atmosfera de “Peixe grande”, mesmo após ver a foto de Xishun observando seu bebê, não consigo tirar da cabeça a imagem de Karl no filme.
Em tempo: a esposa de Xishun mede um e sessenta e oito.
Um dos personagens é Karl, interpretado por Matthew McGrory, que morreu em 2005. Segundo li, Mcgrory media mais de sete pés. Sete pés são equivalentes a dois metros e treze. Como a informação que li dizia “mais de sete pés”, não sei precisar a altura.
Assim que o filme terminou, liguei o computador. Leio notícia de que Bao Xishun, considerado o homem mais alto do mundo (dois metros e trinta e seis), tornou-se pai. Ainda de acordo com a notícia, o filho dele, embora maior do que a média, está longe dos setenta e cinco centímetros já verificados – o filho de Xishun mede cinqüenta e seis centímetros.
Não sei se ainda inebriado pela atmosfera de “Peixe grande”, mesmo após ver a foto de Xishun observando seu bebê, não consigo tirar da cabeça a imagem de Karl no filme.
Em tempo: a esposa de Xishun mede um e sessenta e oito.
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
CARÁTER LITERÁRIO
1
Não queria uma poesia
que se volta para si.
Não me volto para
a metalinguagem,
queria abandoná-la.
Mas ela não me deixa.
Eu não queria,
mas sou metalingüístico.
Meus escritos
se voltam para si.
Minha existência
se volta para mim.
2
O buço dela me remete
a um buço descrito em Kundera.
A vida me remete à literatura
ou a literatura me remete à vida?
Adquiri um jeito literário
de olhar, de falar, de pensar, de sentir.
Sou conseqüência literária.
Não queria uma poesia
que se volta para si.
Não me volto para
a metalinguagem,
queria abandoná-la.
Mas ela não me deixa.
Eu não queria,
mas sou metalingüístico.
Meus escritos
se voltam para si.
Minha existência
se volta para mim.
2
O buço dela me remete
a um buço descrito em Kundera.
A vida me remete à literatura
ou a literatura me remete à vida?
Adquiri um jeito literário
de olhar, de falar, de pensar, de sentir.
Sou conseqüência literária.
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A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (40)
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quinta-feira, 2 de outubro de 2008
QUEM DIRIA...
Meados da década de 80. Quando o rádio começava a tocar “More than I can bear”, do Matt Bianco, eu dava um jeito de mudar a sintonia. Eu não gostava mesmo da canção. Agora, estou a escutando numa emissora do Rio de Janeiro. E quer saber? Um barato. Enquanto batuco palavras neste velho computador, estou até mexendo o corpo na (agora) gostosa levada da canção...
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HAICAI 8
As horas nuas,
são todas elas
são todas elas
somente tuas.
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APONTAMENTO 28
Ouvi aluno meu dizendo que adquiriu o hábito da leitura depois de ter encarado “O código da Vinci”. Lembro-me de ter visto esse mesmo aluno dizer que havia gostado de “Dom Casmurro”. Também disse que tem a série Harry Potter, mas não percorreu os livros ainda. Recentemente, leu “O velho e o mar”.Vejo com bons olhos esse começo de leituras sem critério. Ainda que o estudante não saiba ainda diferenciar com clareza, por exemplo, Dan Brown de Machado de Assis, no que diz respeito à literariedade, o hábito da leitura, caso se mantenha, pode fazer com que a percepção dele vá se tornando cada vez mais requintada. É uma possibilidade.
É por isso que não concordo muito com aqueles que simplesmente abominam os chamados best-sellers. Penso ser necessário ler, seja o que for. Se pelo menos uma das milhares e milhares de pessoas que se entregam a modismos passarem a ler textos que se tornaram perenes, após ter descoberto o gosto da leitura por intermédio dos best-sellers, já está ótimo.
Além do mais, esses livros de vendagem estrondosa são lucro certo para as editoras e para as livrarias. É preferível haver uma livraria lucrando com “O segredo”, desde que também coloque à disposição outras vertentes, a não haver livraria nenhuma. Clássicos imprescindíveis não garantem a sobrevivência dos livreiros, principalmente no interior.
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
VÍDEO 4
O vídeo abaixo já havia sido postado, só que sem meu comentário. Deletei a versão anterior. Abaixo, versão atualizada, com comentário.
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CONTO 20
Desde quando veio ao mundo, Isa tem a seu favor a imensa beleza. Os mais entusiastas não vacilam em dizer que ela é a mulher mais linda que já existiu em todos os tempos, em todos os lugares. Ela mesma não concorda com os elogios. Certo é que muito homem já se perdeu por causa dela, que no fundo não deixa de achar tudo isso meio engraçado. Todas as portas se abrem mansas para ela, que espontaneamente não dá a mínima. O mais recente a se apaixonar por ela foi Vilmar, dono de uma importadora de carros em Belo Horizonte. Como os anteriores, foi rechaçado. O primeiro e único a ganhar o coração de Isa foi Nestor. De pronto, ela se mudou com ele para as proximidades de Pindaíbas/MG, onde levam uma vida discreta e rural.
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terça-feira, 30 de setembro de 2008
POESIA DE CRIANÇA
Deus consegue estar
em todos os lugares
ao mesmo tempo
porque ele é muito,
em todos os lugares
ao mesmo tempo
porque ele é muito,
mas muito rápido mesmo.
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A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (39)
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segunda-feira, 29 de setembro de 2008
EM BUSCA DE PROUST
Terminei de ler recentemente “Senhor Proust – lembranças recolhidas por Georges Belmont”, de Céleste Albaret, publicado pela Novo Século. Céleste Albaret foi governanta na casa do escritor durante os oito últimos anos de vida de Proust. O livro é a transcrição de entrevistas da senhora Albaret a Georges Belmont, que assina a introdução. Segundo Belmont, foram setenta horas de entrevistas.É natural que a longa e diária convivência da senhora Albaret com Proust gerasse proximidade e amizade. O testemunho dela traz à tona as miudezas de que Proust era feito (miudezas de que, afinal, todos nós somos feitos).
Há também relatos do dândi Proust na aristocracia parisiense da época. Freqüentador e agudo observador desse mundo, Proust tinha acesso à vanguarda do que então estava sendo produzido. O trecho abaixo dá uma idéia (a tradução do livro é de Cordelia Magalhães):
“Por exemplo, lembro-me de que, uma noite, o príncipe Antoine Bibesco, que se tinha a par de tudo, passou para levá-lo a um desses jantares, com a idéia de fazê-lo se encontrar com o pintor Picasso, sobre o qual se começava a falar (...). Às duas horas da manhã, eles foram, todos os três, ver as telas de Picasso no seu ateliê. Sr. Proust me fez o relato quando voltou:
“– É um pintor espanhol que começou a fazer o que se chama de cubismo.
“Ele me descreveu um pouco sobre o que as pinturas pareciam. E comentei que isso deveria fazer os museus de bobos. Ele riu e disse:
“– Devo reconhecer que não compreendi grande coisa.
“Visivelmente, ele não ligou. Jamais voltou a falar sobre essa pintura. Dizem também que jantou com o escritor James Joyce, junto com outras pessoas; isso não o impressionou – ele nem pronunciou esse nome”.
A senhora Albaret também comenta o mal-estar criado depois que o escritor André Gide recusou originais de Proust. Céleste Albaret deixa clara a antipatia que ela tinha por Gide, ao dizer que ele tinha um ar de “falso monge”. Gide retratar-se-ia por ter recusado os originais de Proust.
A recusa é compreensível. Proust, é bem sabido, não foi o único escritor que se tornaria famoso depois de ter sido rechaçado em tentativas anteriores. O problema é que, segundo a senhora Albaret, Proust assegurava que Gide nem chegou a ler os originais. Primeiro, por considerar que o autor de “No caminho de Swann” não passaria de um “dândi socialite”; segundo, por uma razão prosaica: o pacote em que estava o livro não teria sequer sido aberto porque um funcionário de Proust, Nicolas, tinha, segundo a senhora Albaret, “uma verdadeira arte dos nós, com um estilo muito particular e muito inimitável. E isso, para o Sr. Proust, sempre foi a prova irrefutável de que o pacote do seu manuscrito jamais foi aberto, nem por André Gide nem por ninguém na Nouvelle Revue Française”. Proust disse ter visto o pacote antes e depois, e afirmou que ele voltara intacto, com o mesmo nó de Nicolas. Para Proust, seria impossível alguém refazer o nó de seu funcionário, ainda mais no mesmo lugar. A senhora Albaret conclui: “Sr. Proust se divertia muito com toda a história”.
domingo, 28 de setembro de 2008
CONTO 19
Lúcia se dava bem consigo mesma. Basicamente, só não admitia mesmo uma coisa em si: a atração louca que sentia por peões de rodeio. De cultura vasta, às vezes considerava quase um vitupério o calor que tomava conta dela diante de um deles. Para as amigas, dizia com freqüência que o homem perfeito seria um peão de rodeio culto. Elas levavam na brincadeira, sem saber que Lúcia falava sério. Um dia, numa viagem a Ribeirão Preto, ela tomaria uma atitude balsâmica: deixou-se envolver e se casou com um professor – de equitação.
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sábado, 27 de setembro de 2008
VOZ DE DENTRO
O dia é cinzento.
Os pássaros cantam do mesmo jeito.
Os pássaros cantam não as cores do dia.
Cantam as cores em si mesmos.
Os pássaros cantam do mesmo jeito.
Os pássaros cantam não as cores do dia.
Cantam as cores em si mesmos.
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MOINHO VERMELHO
Quando pequeno, a cena de filme imbatível é aquela em a Lois Lane (Margot Kidder) está caindo e é salva pelo Super-Homem. A seguir, cai o helicóptero. Lane e a máquina são levados para o topo do prédio. Penso ser essa a cena de minha infância.
Ainda dos tempos de menino há a cena final de “Três homens em conflito” (“The good, the bad and the ugly”), classicão de Sergio Leone, quando se enfrentam no fim. Até hoje cantarolo a trilha de Ennio Morricone.
Já adulto, em “Moulin Rouge”, do diretor Baz Luhrman, duas cenas me marcaram muito. Aos 28 minutos, Christian (Ewan McGregor), após criar coragem, começa a cantar “Your song”, terna composição gravada por Elton John, para Satine (Nicole Kidman). Antes, já havia falado alguns trechos da letra. Durante a canção, o coro, fazendo o vocal de apoio, e o arranjo com orquestra completam a beleza. Minutos depois, a que para mim é uma cena inesquecível é aquela que começa quando Christian começa com “All you need is love”, aos quarenta e nove minutos de filme. Depois, passa por “Pride (in the name of love)”, do U2, com letra modificada, e chega até “Your song” novamente, no fim da seqüência, não sem antes passarem, ele e Satine, por “‘Heroes’”, do David Bowie. Os segundos em que “‘Heroes’” aparece são, para mim, o ponto alto do filme e uma das mais belas cenas a que já tive o privilégio de assistir.
Há cenas engraçadas. Harold Zidler (Jim Broadbent) falando trechos de “Like a virgin” é uma delas.
Penso gostar tanto de “Mouling Rouge” por ter crescido escutando pop/rock. A idéia de se levar clássicos do pop/rock para a boêmia parisiense de Toulouse-Lautrec de fim do século XIX e começo do XX foi bem executada. Além do mais, sempre gosto quando há a mistura de gêneros musicais; sempre me atraiu a mistura do coloquial com o erudito; sempre gostei de citações, referências, alusões, e o filme é pleno de tudo isso.
Ainda dos tempos de menino há a cena final de “Três homens em conflito” (“The good, the bad and the ugly”), classicão de Sergio Leone, quando se enfrentam no fim. Até hoje cantarolo a trilha de Ennio Morricone.
Já adulto, em “Moulin Rouge”, do diretor Baz Luhrman, duas cenas me marcaram muito. Aos 28 minutos, Christian (Ewan McGregor), após criar coragem, começa a cantar “Your song”, terna composição gravada por Elton John, para Satine (Nicole Kidman). Antes, já havia falado alguns trechos da letra. Durante a canção, o coro, fazendo o vocal de apoio, e o arranjo com orquestra completam a beleza. Minutos depois, a que para mim é uma cena inesquecível é aquela que começa quando Christian começa com “All you need is love”, aos quarenta e nove minutos de filme. Depois, passa por “Pride (in the name of love)”, do U2, com letra modificada, e chega até “Your song” novamente, no fim da seqüência, não sem antes passarem, ele e Satine, por “‘Heroes’”, do David Bowie. Os segundos em que “‘Heroes’” aparece são, para mim, o ponto alto do filme e uma das mais belas cenas a que já tive o privilégio de assistir.
Há cenas engraçadas. Harold Zidler (Jim Broadbent) falando trechos de “Like a virgin” é uma delas.
Penso gostar tanto de “Mouling Rouge” por ter crescido escutando pop/rock. A idéia de se levar clássicos do pop/rock para a boêmia parisiense de Toulouse-Lautrec de fim do século XIX e começo do XX foi bem executada. Além do mais, sempre gosto quando há a mistura de gêneros musicais; sempre me atraiu a mistura do coloquial com o erudito; sempre gostei de citações, referências, alusões, e o filme é pleno de tudo isso.
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
HAICAI 7
O artista, cedinho,
mede, molda, aguarda:
pão quentinho.
mede, molda, aguarda:
pão quentinho.
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EM COMUM
“Há muitas coisas que atribuímos ao demônio sem sabermos que são coisas de Deus que não sabemos entender” (García Márquez).
“Todos os que são incapazes de compreender um deus vêem-no como um demônio e, assim, se protegem de sua aproximação” (Joseph Campbell).
Salvo engano, a frase de García Márquez está em “O amor nos tempos do cólera” (vertido para o cinema não há muito tempo), mas não estou certo disso. Procurei meu exemplar aqui em casa e não o achei. Deve estar emprestado. Se estiver com você que me lê, gentileza conferir se a frase está nele mesmo; basta conferir os trechos que estão marcados por mim.
O trecho de Joseph Campbell foi extraído de “O herói de mil faces”. A bonita idéia do livro é a de que a humanidade tem construído ao longo do tempo um só mito – o monomito, termo que Campbell pegou emprestado de Joyce.
“Todos os que são incapazes de compreender um deus vêem-no como um demônio e, assim, se protegem de sua aproximação” (Joseph Campbell).
Salvo engano, a frase de García Márquez está em “O amor nos tempos do cólera” (vertido para o cinema não há muito tempo), mas não estou certo disso. Procurei meu exemplar aqui em casa e não o achei. Deve estar emprestado. Se estiver com você que me lê, gentileza conferir se a frase está nele mesmo; basta conferir os trechos que estão marcados por mim.
O trecho de Joseph Campbell foi extraído de “O herói de mil faces”. A bonita idéia do livro é a de que a humanidade tem construído ao longo do tempo um só mito – o monomito, termo que Campbell pegou emprestado de Joyce.
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (38)
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CONTO 18
Há muitos anos, Kátia fez na escola uma boneca de pano. Enquanto voltava para casa, mal via a hora de mostrar a boneca para Davi, o pai. Quanto este pegou o brinquedo, não ficou com ele mais do que uns cinco segundos. Ao ouvir que Bianca, a filha mais velha, chegara, o pai entregou para Kátia a boneca e correu em direção à outra filha. Desde então, a caçula assumiria uma atitude de frieza quanto ao pai. Ele, por sua vez, não havia tentado compreender a situação nos tempos que se seguiram. No momento em que fechariam o caixão de Davi, Kátia pôs dentro a velha boneca de pano.
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quarta-feira, 24 de setembro de 2008
VÍDEO 3
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CONTO 17
Cruzeiro e Atlético
Ana e Cláudio são casados há treze anos. Ele propôs: “Você transaria comigo vestindo a camisa do Cruzeiro?”. Ela é atleticana e ele é cruzeirense. Ela cedeu. Acabou gostando. Depois que terminaram, ela até disse que chegara a ver estrelas...
Ana e Cláudio são casados há treze anos. Ele propôs: “Você transaria comigo vestindo a camisa do Cruzeiro?”. Ela é atleticana e ele é cruzeirense. Ela cedeu. Acabou gostando. Depois que terminaram, ela até disse que chegara a ver estrelas...
CONTO 16
“Os dois”. Foi a primeira coisa que Mateus disse, do nada, após quatro dias sem se encontrar com Gabriel. Silêncios, olhares e sorrisos leves indicavam compreensão. Gabriel havia perguntado: “Isso aqui é um país ou um cortiço?”. A resposta de Mateus veio doze anos, três meses e vinte e cinco dias depois da pergunta.
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terça-feira, 23 de setembro de 2008
VÍDEO 2
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HAICAI 6
Desenha a linha.
Diverte-se, joga, pula.
A brincadeira: amarelinha.
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VÍDEO 1
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segunda-feira, 22 de setembro de 2008
CONTO 15
Lucas Bridge tem um talento peculiar que lhe garante sucesso com as mulheres – consegue cantar enquanto faz amor. Esperto, canta até o que não gosta para agradar. Simone, uma das cantadas, tem excelente ouvido. Garante ela para a melhor amiga que Lucas, ainda que cantando noutro tom, goza é em si.
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POEMA DO MEDO (À MANEIRA DE DESCARTES)
Desconheço.
Logo, temo.
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domingo, 21 de setembro de 2008
FOTOPOEMA 25
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A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (37)
Esta foto é meu momento “Forrest Gump” (lembra-se da cena de abertura do filme?). O registro foi feito em Três Marias/MG, numa usina hidrelétrica.Eu estava lá após ter visitado a Gruta de Maquiné e ter passado em Cordisburgo/MG, onde nasceu Guimarães Rosa.
Era um fim de tarde. Na hidrelétrica, muitas garças por perto; pude fotografá-las em profusão. Enquanto me deliciava com as aves, pude ver a pena de uma delas caindo suavemente. Não custava nada tentar... Comecei a tentar fazer o foco, o que não foi fácil. Além do mais, apesar da suavidade da queda, eu sabia que não teria muitas oportunidades. Ainda assim, pude tirar duas fotos. A única aproveitável é esta.
A TROCA DA PASTA DENTAL
Eu estava num supermercado, já no caixa. Antes, eu havia procurado por uma determinada marca de pasta dental, que não estava na prateleira. Uma funcionária me explicou que a marca estava na parte da frente do supermercado. Fui então pagar as poucas mercadorias que já havia comprado. Enquanto a atendente do caixa ia passando os produtos pelo leitor de códigos de barra, perguntei para ela se o pagamento da pasta dental deveria ser feito ali ou aonde eu deveria ir pegá-la.
O pagamento deveria ser ali mesmo. Fui até o local e apanhei a pasta dental. Havia pouca gente no supermercado, que estava prestes a ser fechado. Voltei para o caixa. Por falta de troco, a funcionária que estava me atendendo pediu a uma outra que fosse conseguir moedas. Enquanto esta se distanciava, a atendente comentou comigo que a pasta dental que eu queria teve de ser mudada de lugar porque estava se tornando comum a troca de pastas dentais: o freguês pegava uma pasta dental cara e a colocava na caixa de uma mais barata. Na hora de pagar, levava para o acerto a caixa da pasta dental mais barata, que continha, na verdade, a mais cara. Em virtude disso, a pasta dental mais cara passou a ser vendida na parte da frente do supermercado, pois ela é agora entregue ao freguês por uma funcionária.
Aguardando ainda a vinda do troco, eu e a atendente começamos a conversar sobre a prática das trocas. Ela, num tom calmo, disse: “Não entendo esse povo que rouba essas ninharias. Meu pai me dizia que a gente nunca deve roubar nada – nem se for pra ficar rico”. Talvez percebendo meu interesse na conversa, ela prosseguiu: “O pior é que essas pessoas que roubam mixarias são aquelas que depois falam mal dos políticos. É claro que os políticos roubam, mas não são os únicos. Numa boa? O cara que troca uma pasta dental num supermercado e vai embora se achando o máximo é igualzinho aos políticos corruptos que ele se sente no direito de criticar. O brasileiro não consegue olhar para o próprio umbigo. Acho isso muito esquisito. O sujeito leva vantagem em um real, acha isso o maior vantajão e sai contando pros amigos. Se tivesse a chance, ele também roubaria os milhões que os políticos roubam”. Nisso, a garota com o troco chegou. Eu me despedi das funcionárias e vim embora.
O pagamento deveria ser ali mesmo. Fui até o local e apanhei a pasta dental. Havia pouca gente no supermercado, que estava prestes a ser fechado. Voltei para o caixa. Por falta de troco, a funcionária que estava me atendendo pediu a uma outra que fosse conseguir moedas. Enquanto esta se distanciava, a atendente comentou comigo que a pasta dental que eu queria teve de ser mudada de lugar porque estava se tornando comum a troca de pastas dentais: o freguês pegava uma pasta dental cara e a colocava na caixa de uma mais barata. Na hora de pagar, levava para o acerto a caixa da pasta dental mais barata, que continha, na verdade, a mais cara. Em virtude disso, a pasta dental mais cara passou a ser vendida na parte da frente do supermercado, pois ela é agora entregue ao freguês por uma funcionária.
Aguardando ainda a vinda do troco, eu e a atendente começamos a conversar sobre a prática das trocas. Ela, num tom calmo, disse: “Não entendo esse povo que rouba essas ninharias. Meu pai me dizia que a gente nunca deve roubar nada – nem se for pra ficar rico”. Talvez percebendo meu interesse na conversa, ela prosseguiu: “O pior é que essas pessoas que roubam mixarias são aquelas que depois falam mal dos políticos. É claro que os políticos roubam, mas não são os únicos. Numa boa? O cara que troca uma pasta dental num supermercado e vai embora se achando o máximo é igualzinho aos políticos corruptos que ele se sente no direito de criticar. O brasileiro não consegue olhar para o próprio umbigo. Acho isso muito esquisito. O sujeito leva vantagem em um real, acha isso o maior vantajão e sai contando pros amigos. Se tivesse a chance, ele também roubaria os milhões que os políticos roubam”. Nisso, a garota com o troco chegou. Eu me despedi das funcionárias e vim embora.
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NA BANCA DE REVISTAS
Hoje, por volta de 13h15, tive experiência proustiana: desde criança, freqüento bancas de revistas. Tenho em casa o acervo que acabei juntando ao longo dos anos. Mais cedo, ao entrar em uma banca a que nunca tinha ido, senti o cheiro dos papéis, mistura de diferentes publicações produzindo uma gostosa sensação. Assim que entrei, o cheiro veio forte. Um cheiro onipresente, gostoso, encorpado o bastante para me conduzir a um passado saudoso. Talvez, o que tornava tão espesso o cheiro fosse o fato de que o recinto era pequeno e havia centenas e centenas de revistas.
No fundo, sou o mesmo. O garoto que aguardava ansiosamente a chegada das revistas está no adulto que aguarda ansioso a vinda das publicações e que entrou mais cedo numa banca. O que mudou, é que o adulto (nem sempre) lida melhor com os pensamentos, impulsos e sentimentos infantis. Em essência, não mudei. O regozijo na banca, quem o sentiu foi o garoto.
No fundo, sou o mesmo. O garoto que aguardava ansiosamente a chegada das revistas está no adulto que aguarda ansioso a vinda das publicações e que entrou mais cedo numa banca. O que mudou, é que o adulto (nem sempre) lida melhor com os pensamentos, impulsos e sentimentos infantis. Em essência, não mudei. O regozijo na banca, quem o sentiu foi o garoto.
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CONTO 14
O grande sonho de Ricardo era se mudar para uma grande cidade. Deixou a terra natal, de setenta mil habitantes, e se mudou para Belo Horizonte. De lá, para o Rio de Janeiro. De lá, para São Paulo. De São Paulo, para Nova York. Em Nova York, teve saudade de São Paulo. Voltou para lá. Em São Paulo, do Rio de Janeiro; no Rio, de Belo Horizonte; em BH, de Alfenas. Em Alfenas, de BH... Então descobriu que não haveria para ele nenhum lugar ideal, pois, acometido de incurável saudade de tudo quanto há, Ricardo chegara à conclusão inapelável de que o melhor lugar do mundo é onde não se tem saudade de outro lugar.
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sábado, 20 de setembro de 2008
APONTAMENTO 27
Jean-Baptiste Grenouille, personagem de Patrick Süskind, é, em minha opinião, um dos grandes monstros da literatura.
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
FOTOPOEMA 24
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quinta-feira, 18 de setembro de 2008
FOTOPOEMA 23
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FOTOPOEMA 22
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MÁXIMA
Eu acredito
em gnomas.
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AMY WINEHOUSE
Gosto demais da artista Amy Winehouse. Gosto como ela canta, como interpreta as letras a que dá vida. Entretanto, sem querer fazer, de modo algum, um discurso careta, como lamento vê-la em fotografias. Entendo a rebeldia, a contestação, a revolta, o inconformismo... Mas é preciso sobreviver. Quando vejo fotos dela, é a mesma sensação ruim que tenho ao ver, por exemplo, um bêbado desacordado na calçada.
Há página na internet que mantém uma espécie de banco de apostas bizarro: aquele que acertar a data da morte da cantora vai ganhar um iPod.
Pois eu quero muito que ela sobreviva. Quando a vejo em fotografias, com seu corpo marcado por excessos, vem a sensação de que ela não merece isso. Não merece porque ninguém em condições iguais merece. Não merece porque ela é gente.
O drama dela está longe de mim. Mas sei de dramas locais. Lamento muito. Gente é para ser saudável, sobreviver.
É estranho... Às vezes, tenho a sensação de que a entendo... Que ela ache um abraço que a conforte e que a entenda. Que eu aprenda a ofertar meu abraço.
Há página na internet que mantém uma espécie de banco de apostas bizarro: aquele que acertar a data da morte da cantora vai ganhar um iPod.
Pois eu quero muito que ela sobreviva. Quando a vejo em fotografias, com seu corpo marcado por excessos, vem a sensação de que ela não merece isso. Não merece porque ninguém em condições iguais merece. Não merece porque ela é gente.
O drama dela está longe de mim. Mas sei de dramas locais. Lamento muito. Gente é para ser saudável, sobreviver.
É estranho... Às vezes, tenho a sensação de que a entendo... Que ela ache um abraço que a conforte e que a entenda. Que eu aprenda a ofertar meu abraço.
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quarta-feira, 17 de setembro de 2008
CONTO 13
Todo mundo sabia que o talento de Mateus para a música era muito pequeno. Somente o próprio acreditava em si. Ele se sabia fraco, mas tinha consigo que um dia se acharia, não somente na música. Vinte e três anos de intensos estudos se passaram. Todos já estavam mais do que acostumados com o trivial técnico de Mateus. Súbito, surge ele seguro, firme, maduro, com serena expressão em que se lia felicidade e leveza. Ele se achara finalmente. Em milhares de notas e acordes, tinha acabado de espatifar o violão.
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terça-feira, 16 de setembro de 2008
HAICAI 5
Árdua lei:
a isto, que rápido leste,
a isto, que rápido leste,
tempo dediquei.
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APONTAMENTO 25 (AO MODO DE OSCAR WILDE)
Faço tudo o que posso para não resistir às tentações.
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Oscar Wilde
GRADAÇÃO
O riso
é o sorriso
comedidamente feliz.
A gargalhada
é o riso
desbragadamente feliz.
é o sorriso
comedidamente feliz.
A gargalhada
é o riso
desbragadamente feliz.
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segunda-feira, 15 de setembro de 2008
PARA RICK WRIGHT
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NOTAS (MUSICAIS)
Duas notas musicais – uma triste e uma feliz: a triste é a morte, como já sabido, de Rick Wright, tecladista, um dos fundadores do Pink Floyd. Morreu aos 65 anos; tinha câncer. Mas bem escreveu Eli Vieira: “Bye, Mr Wright. I can hear a great gig in the sky”.
A nota feliz é que terminou há pouco (às 22h), na Praça do Fórum, em Patos de Minas, o espetáculo Brasil Sertões, com o pianista Arthur Moreira Lima. O show começou às 20h35. A chuva ameaçou cair até poucos instantes após o início da apresentação, mas, por fim, não veio.
Moreira Lima executou clássicos populares de Mozart, Beethoven, Chopin e Liszt. Pixinguinha, Villa-Lobos, Astor Piazzolla e Radamés Gnattali também compuseram o repertório. O pianista terminou a apresentação executando o Hino Nacional Brasileiro.
A intenção do projeto Brasil Sertões é levar um repertório acessível a populações que de outro modo dificilmente teriam a oportunidade de assistir a esse tipo de manifestação. Bahia, Minas Gerais, Goiás, Distrito Federal, Tocantins, Pará, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Sergipe são o roteiro do Brasil Sertões.
Arthur Moreira Lima é considerado um dos mais importantes pianistas brasileiros. Projetou-se internacionalmente no Concurso Chopin, de Varsóvia. Foi também laureado nos concursos de Leeds (Inglaterra) e Tchailovsky (Moscou).
A nota feliz é que terminou há pouco (às 22h), na Praça do Fórum, em Patos de Minas, o espetáculo Brasil Sertões, com o pianista Arthur Moreira Lima. O show começou às 20h35. A chuva ameaçou cair até poucos instantes após o início da apresentação, mas, por fim, não veio.
Moreira Lima executou clássicos populares de Mozart, Beethoven, Chopin e Liszt. Pixinguinha, Villa-Lobos, Astor Piazzolla e Radamés Gnattali também compuseram o repertório. O pianista terminou a apresentação executando o Hino Nacional Brasileiro.
A intenção do projeto Brasil Sertões é levar um repertório acessível a populações que de outro modo dificilmente teriam a oportunidade de assistir a esse tipo de manifestação. Bahia, Minas Gerais, Goiás, Distrito Federal, Tocantins, Pará, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Sergipe são o roteiro do Brasil Sertões.
Arthur Moreira Lima é considerado um dos mais importantes pianistas brasileiros. Projetou-se internacionalmente no Concurso Chopin, de Varsóvia. Foi também laureado nos concursos de Leeds (Inglaterra) e Tchailovsky (Moscou).
APONTAMENTO 24
Ansiamos pela certeza, pela conclusão, pelo ponto-final. Mas a vida nem sempre são certezas. Ela está mais para um sonoro, poderoso e belo ponto-de-interrogação.
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domingo, 14 de setembro de 2008
A HISTÓRIA POR TRÁS DA(S) FOTO(S) (36)
Gosto de árvores, sejam secas, gordas, floridas, brancas ou pretas. Quando passei a fotografar, veio naturalmente o desejo de registrá-las.No dia sete de setembro de 2007, saí de casa, ainda pela manhã, com o objetivo de fotografar árvores. Após já ter dado um bom giro pelas redondezas da cidade, avistei os galhos acima.
Para quem é daqui se localizar: a árvore fica na avenida Marabá; saindo da cidade, está à esquerda.
Na foto de baixo, penso ser um filho (burro? jegue? mula?) acompanhando a mãe ou o pai. (Caso se clique sobre a imagem, pode-se vê-la maior.) No afã de registrar o momento, não me ocorreu que eu poderia ter fechado mais, mesmo tendo sido minha intenção mostrar a árvore e os animais.
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sábado, 13 de setembro de 2008
APONTAMENTO 23
Somos modificados pelo que aprendemos. Modifique-se. Aprenda-se.
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sexta-feira, 12 de setembro de 2008
DAS IMPUREZAS DO BRANCO
José Saramago, bem no comecinho de seu “Ensaio sobre a cegueira”, menciona o “mar de leite” que vai tomando conta dos personagens ao longo da cegueira branca que se alastra pelo livro.
Machado de Assis, no conto “Entre santos”, dá notícia de uma luz “cor de leite” no interior de uma igreja.
Herman Melville, em capítulo do “Moby Dick”, relata que o branco pode vir a ser terrífico.
Há o conto “Noites brancas”, do Dostoiévsky.
Vale a pena conferir, na página do Millôr, o "Livro branco" (disponível para assinantes do UOL).
Há ainda aquela história... Como é mesmo o nome dela?...
Deu branco...
Machado de Assis, no conto “Entre santos”, dá notícia de uma luz “cor de leite” no interior de uma igreja.
Herman Melville, em capítulo do “Moby Dick”, relata que o branco pode vir a ser terrífico.
Há o conto “Noites brancas”, do Dostoiévsky.
Vale a pena conferir, na página do Millôr, o "Livro branco" (disponível para assinantes do UOL).
Há ainda aquela história... Como é mesmo o nome dela?...
Deu branco...
ATO FALHO
Numa turma de ensino médio, apliquei prova sobre as cantigas medievais. Na primeira questão, havia uma cantiga. A seguir, caberia aos alunos comentar e justificar se o texto era uma cantiga de amor, de amigo ou de escárnio.
Num sugestivo e sintomático ato falho, uma das alunas iniciou assim a resposta dela: “Trata-se de uma cantiga de amor. Afinal, o eu lírico é masculindo”...
Num sugestivo e sintomático ato falho, uma das alunas iniciou assim a resposta dela: “Trata-se de uma cantiga de amor. Afinal, o eu lírico é masculindo”...
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FOTOPOEMA 20 / HAICAI 4
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AUMENTATIVO
De “b”, bão.
De “c”, cão.
De “ch”, chão.
De “d”, dão.
De “g”, gão.
De “h”, hão.
De “m”, mão.
De “n”, não.
De “p”, pão.
De “s”, são.
De “t”, tão.
De “v”, vão.
De aço, ação.
De ado, Adão.
De apaga, apagão.
De ave, avião.
De baio, baião.
De bala, balão.
De bis, bisão.
De bis, bisão.
De borda, bordão.
De bota, botão.
De bote, botão.
De boto, botão.
De brando, Brandão.
De brasa, brasão.
De caixa, caixão.
De calça, calção.
De caldeira, caldeirão.
De caminho, caminhão.
De canastra, canastrão.
De canha, canhão.
De canto, cantão.
De capa, capão.
De casara, casarão.
De chave, chavão.
De cintura, cinturão.
De colcha, colchão.
De corda, cordão.
De conversa, conversão.
De diverso, diversão.
De draga, dragão.
De escala, escalão.
De extenso, extensão.
De extenso, extensão.
De ferro, ferrão.
De forma, formão.
De fogo, fogão.
De gabo, Gabão.
De galo, galão.
De gama, gamão.
De gesto, gestão.
De giba, gibão.
De gesto, gestão.
De giba, gibão.
De leite, leitão.
De leito, leitão.
De liça, lição.
De macaco, macacão.
De meio, meião.
De mel, melão.
De moço, moção.
De orelha, orelhão.
De Pã, pão.
De paga, pagão.
De palavra, palavrão.
De porta, portão.
De preciso, precisão.
De roupa, roupão.
De sal, salão.
De Sena, Senão.
De seno, senão.
De ser, serão.
De será, serão.
De sere, serão.
De sertã, sertão.
De soluço, solução.
De tala, talão.
De tenda, tendão.
De vaga, vagão.
De vara, varão.
De verso, versão.
De vila, vilão.
De time, timão.
De tez, tesão.
De torre, torrão.
De zanga, zangão.
De Ana, anão.
De Clara, clarão.
De Elisa, elisão.
De Irma, irmão.
De Lea, leão.
De Leila, leilão.
De Mila, Milão.
De Rita, ritão.
De Gabo, Gabão.
De Salma, salmão.
De sentimento,
coração.
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quinta-feira, 11 de setembro de 2008
A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (34)
Acho um barato fotografar lagartos, principalmente por causa das poses que ofertam.Esta foto foi uma das imagens conseguidas quando eu já estava voltando para casa. Ainda com o equipamento montado e dirigindo a moto, eu estava prestando atenção no ambiente, em busca de mais uma oportunidade. Foi quando vi o lagarto acima.
Geralmente, são ariscos. Já ciente disso, fui, paulatinamente, aproximando-me. Pude tirar umas sete fotos.
Imagem feita em primeiro de maio de 2007.
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CONTO 12
Almir bebe todos os dias. Começou a beber quando tinha dezesseis anos. Hoje, tem trinta e nove. Ele diz entender muito bem o personagem Ben Sanderson, interpretado por Nicolas Cage” no filme “Despedida em Las Vegas”. A diferença básica, segundo Almir, é que ele não tem sua Sera, interpretada por Elisabeth Shue; o ponto em comum, diz, é que vai acabar como Ben. Se argumentam com Almir que ele pode mudar isso, ele diz que não quer – e que não teria capacidade, se quisesse. Para aqueles que tentam ajudá-lo, diz para não se preocuparem, acrescentando que morrerá lenta e liquidamente.
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
APONTAMENTO 22
Uma teia de intrigas no local de trabalho faz com que amigo meu se lembre de um enredo shakespeariano. Não conhecesse ele o texto de Shakespeare, obviamente não faria a comparação. O vate inglês acaba fazendo com que se compreenda melhor a vida – e vice-versa – e não necessariamente nessa ordem.
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HAICAI 4
Futebol de garoto.
Garrincha vai, vem.
O gênio é torto.
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HAICAI 3
Aquosa jornada.
Ele peleja, labuta.
Quase nada.
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EXCELENTE!
Freqüentemente nos queixamos, com muita razão, da precariedade e da burocracia dos serviços públicos. São na maioria das vezes ineficazes, pachorrentos e nos tratam como se estivéssemos atrapalhando a existência dos funcionários, como se fôssemos um incômodo para o bem-estar deles, que, a rigor, são mantidos por nós, por intermédio dos impostos e taxas que pagamos.
Mas, um dia desses, tendo saído logo pela manhã, a fim de resolver pendengas burocráticas, tive de ir a um desses serviços públicos. Já cheguei armado e fazendo cara de quem deixa bem claro que estar ali não era nada bom. Como sempre, fila, mas não demorei a ser entendido. Não tive nem tempo de começar a pensar na vida e no que devo fazer para que tudo seja diferente. Eu já estava com a senha de atendimento em mãos; em menos de dois minutos eu seria chamado.
Quem me atendeu foi um senhor. Já calejado e ciente de que a burocracia impede o bom senso na maioria das vezes, após corresponder ao “bom dia” do funcionário, fui logo adiantando que talvez eu não estivesse no lugar certo para resolver o problema com as faturas. Mas o atendente, após me perguntar de que conta se tratava, foi logo dizendo que eu estava no lugar certo.
Revendo-o agora, creio que deve ter uns cinqüenta anos. O sorriso com que me recebeu era cordial mas não era exagerado. Por isso mesmo, convenceu. Entreguei-lhe os comprovantes de pagamento de contas que estavam atrasadas e ele começou a digitar. Digitava e olhava para a tela, digitava e olhava para a tela. Eu tentava ler em seu rosto algum problema, alguma irregularidade com os comprovantes. Mas ele continuava digitando. Num dado momento, perguntou-me alguma informação técnica sobre minha mãe, pois os documentos estavam no nome dela. Como eu havia pedido a ele segunda via de um documento, ele me disse que tal segunda via não seria necessária, pois a conta já havia sido paga. E mais: acrescentou que uma outra conta, paga momentos antes, também há havia sido quitada. Por fim, esclareceu que eu não precisava me preocupar, pois o dinheiro seria restituído por intermédio de créditos (acho que foi essa a palavra que ele usou).
Enquanto o senhor digitava, reparei que, sobre o balcão, havia um mecanismo vertical, de uns quinze centímetros, que parecia proporcionar ao cliente a possibilidade de opinar sobre o atendimento que tivera. Havia quatro ou cinco botões, um de cada cor. Sob cada botão, havia uma palavra. Elas iam de uma gradação que começa com (salvo engano) “excelente” e vai até (salvo engano) “péssimo”. Deduzi que o dispositivo estava ali para que pudéssemos de fato avaliar o modo como havíamos sido tratados, como havia sido o serviço etc. Por dois ou três instantes, senti-me tentado a apertar o botão “excelente”, mas não o fiz por temer que talvez essa não fosse a utilidade do mecanismo. Também por dois ou três instantes, pensei em perguntar a serventia da maquininha, o que não fiz.
No término do atendimento, o funcionário virou o monitor do computador para mim e me mostrou a prova de que duas das contas já haviam sido pagas. Trocamos algumas palavras e fui embora. No caminho de volta para casa, fiquei remoendo meu vacilo, meu pestanejar: eu deveria ter perguntado a utilidade do equipamento. Caso servisse para o que eu tinha pensado que servia, eu poderia ter opinado sobre o atendimento que recebi. Nem tanto pela repartição, mas pelo tato daquele funcionário. Voltei para casa com a sensação de que eu perdera a oportunidade de exercer algo de bom em mim.
Mas, um dia desses, tendo saído logo pela manhã, a fim de resolver pendengas burocráticas, tive de ir a um desses serviços públicos. Já cheguei armado e fazendo cara de quem deixa bem claro que estar ali não era nada bom. Como sempre, fila, mas não demorei a ser entendido. Não tive nem tempo de começar a pensar na vida e no que devo fazer para que tudo seja diferente. Eu já estava com a senha de atendimento em mãos; em menos de dois minutos eu seria chamado.
Quem me atendeu foi um senhor. Já calejado e ciente de que a burocracia impede o bom senso na maioria das vezes, após corresponder ao “bom dia” do funcionário, fui logo adiantando que talvez eu não estivesse no lugar certo para resolver o problema com as faturas. Mas o atendente, após me perguntar de que conta se tratava, foi logo dizendo que eu estava no lugar certo.
Revendo-o agora, creio que deve ter uns cinqüenta anos. O sorriso com que me recebeu era cordial mas não era exagerado. Por isso mesmo, convenceu. Entreguei-lhe os comprovantes de pagamento de contas que estavam atrasadas e ele começou a digitar. Digitava e olhava para a tela, digitava e olhava para a tela. Eu tentava ler em seu rosto algum problema, alguma irregularidade com os comprovantes. Mas ele continuava digitando. Num dado momento, perguntou-me alguma informação técnica sobre minha mãe, pois os documentos estavam no nome dela. Como eu havia pedido a ele segunda via de um documento, ele me disse que tal segunda via não seria necessária, pois a conta já havia sido paga. E mais: acrescentou que uma outra conta, paga momentos antes, também há havia sido quitada. Por fim, esclareceu que eu não precisava me preocupar, pois o dinheiro seria restituído por intermédio de créditos (acho que foi essa a palavra que ele usou).
Enquanto o senhor digitava, reparei que, sobre o balcão, havia um mecanismo vertical, de uns quinze centímetros, que parecia proporcionar ao cliente a possibilidade de opinar sobre o atendimento que tivera. Havia quatro ou cinco botões, um de cada cor. Sob cada botão, havia uma palavra. Elas iam de uma gradação que começa com (salvo engano) “excelente” e vai até (salvo engano) “péssimo”. Deduzi que o dispositivo estava ali para que pudéssemos de fato avaliar o modo como havíamos sido tratados, como havia sido o serviço etc. Por dois ou três instantes, senti-me tentado a apertar o botão “excelente”, mas não o fiz por temer que talvez essa não fosse a utilidade do mecanismo. Também por dois ou três instantes, pensei em perguntar a serventia da maquininha, o que não fiz.
No término do atendimento, o funcionário virou o monitor do computador para mim e me mostrou a prova de que duas das contas já haviam sido pagas. Trocamos algumas palavras e fui embora. No caminho de volta para casa, fiquei remoendo meu vacilo, meu pestanejar: eu deveria ter perguntado a utilidade do equipamento. Caso servisse para o que eu tinha pensado que servia, eu poderia ter opinado sobre o atendimento que recebi. Nem tanto pela repartição, mas pelo tato daquele funcionário. Voltei para casa com a sensação de que eu perdera a oportunidade de exercer algo de bom em mim.
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HAICAI 2
Manhã à mão.
Sol busca o céu.
Glorioso sertão.
Sol busca o céu.
Glorioso sertão.
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DA PAZ
A paz é um céu
bem escuro
pontuado
por estrelas.
A paz é escura
e silenciosa.
bem escuro
pontuado
por estrelas.
A paz é escura
e silenciosa.
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APONTAMENTO 21
A mais curta das viagens, desde que não se queira fazê-la, torna-se a mais longa.
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CONTO 11
Marcos havia sido o tipo literato até os quarenta anos. Estava sempre bem-informado e praticando os idiomas que aprendera – inglês, francês e espanhol. No exato dia em que completou quarenta anos, desistiu do mundo das letras (de vez em quando escrevia alguns versos). Na juventude, chegara a publicar por conta própria um livro de poemas chamado “Caminhos do olhar”. Depois que abandonou o mundo da literatura, passou a se dedicar à criação de coelhos. A seguir, entusiasmou-se pela música. Logo após, pela filatelia. Mesmo antes das letras já havia sido interessado em basquete, chegando a jogar no time principal da cidade. Hoje em dia, tem se dedicado ao direito. Fez vestibular e foi aprovado, mas já está cogitando a idéia de abandonar o curso e se dedicar à etologia. A intenção é se concentrar no estudo das formigas.
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CONTO 10
O grande sonho de Cátia era ser modelo. O desejo de freqüentar as passarelas, ser fotografada, gravar comerciais, dar entrevistas, ser famosa, ganhar dinheiro e estar em outdoors começou a acabar quando ela completou dezesseis anos. Foi nesse instante que, inexoravelmente, passou a engordar. A princípio, ainda teve alguma esperança de voltar a ter o corpo esguio e o andar leve. Depois, percebeu que seriam em vão as esperanças, as dietas e as ginásticas. Nunca parou de engordar. Hoje, muito veladamente, sente uma pontinha de inveja quando vê cenas de um desfile ou fotos de alguma modelo. Nada grave: já que não há como jogar fora o peso do corpo, Cátia jogou longe o peso das gordas preocupações.
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